Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 19/11/1964 – 5ª feira [SD 339] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 19/11/1964 — 5ª feira1 [SD 339]

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O Sr. Dr. Plinio desenvolve um pensamento de D. Guéranger: Deus agrupa as almas segundo suas afinidades espirituais * A beleza do universo está na ordenação hierárquica das criaturas, tanto no mundo material quanto no Céu * Deus glorifica determinadas famílias suscitando nelas muitos santos — Exemplos da casa real de David e da família de Santa Isabel da Hungria * A noção da hierarquia e da beleza do universo harmônico, contrária à idéia da disposição igualitária das criaturas

* O Sr. Dr. Plinio desenvolve um pensamento de D. Guéranger: Deus agrupa as almas segundo suas afinidades espirituais

Hoje é festa de Santa Isabel, rainha da Hungria e duquesa, filha do rei da Hungria e Duquesa da Turíngia.

Sobre esse assunto, uma vez que ela teve vários santos na sua família, D. Guéranger tem esse comentário:

Se bem que todos os eleitos brilham no Céu de um brilho próprio, a cada um deles Deus se compraz agrupá-los em famílias como faz na natureza para os astros no firmamento.

É interessante a doutrina “planeta-satélite” lembrada aqui especialmente por D. Guéranger, não é?

É a graça que preside esse grupo de constelações no Céu do santo. Mas por vezes Deus parece nos querer lembrar aqui que nossa natureza e a graça têm um só Autor. E, nos convertendo, apesar da queda original, a honrar ao mesmo tempo seus eleitos,…

Quer dizer, junto aos seus eleitos.

Ele traz à santidade um patrimônio augusto que se transmite de geração em geração nos membros de uma mesma família da terra.

Entre essas raças benditas está a antiga linhagem real da Hungria, que ocupa um papel de uma grandeza singular. E o jogo das alianças lhe permitiu de levar a todas as casas coroadas da velha Europa o prestígio de uma santidade adquirida por numerosos de seus filhos.

O mais ilustre deles, o mais amável também, é Santa Isabel. Depois de Santo Estêvão, de Santo Emmerick, de Santo Ladislau, ela nos aparece como uma filha de Gertrudes da Turíngia, sua tia Hedvige da Silésia, e seus primos ou sobrinhos-netos … [inaudível]… Inês da Boêmia, Margarida da Hungria, Conegundes da Polônia e Isabel de Portugal, como uma encantadora harmonia da natureza e da graça.

Há dois ou três pensamentos que estão contidos neste comentário e que merecem um esclarecimento, um desenvolvimento.

Primeiro, precisamente, é de que Deus agrupa as almas no Céu de maneira a formar famílias. Famílias que apenas não são famílias consangüíneas, mas que são almas que constituem uma família por sua afinidade espiritual.

* A beleza do universo está na ordenação hierárquica das criaturas, tanto no mundo material quanto no Céu

Isto obedece a uma das regras da estética do universo, e exatamente tudo aquilo… Se Deus criasse um mundo, por exemplo, de almas e levasse para o Céu, mas sem que elas, entre si, formassem grupo, elas constituiriam uma espécie de poeira atirada pelo Céu. Aquilo não teria a beleza da ordem.

Ora, a beleza da ordem é o lado mais eminentemente nobre e eminentemente belo de todas as coisas.

Se nós tomarmos quatro, cinco ou seis objetos belos, ou quatro, cinco ou seis objetos nobres, cada um deles, nobres ou belos, considerados em si mesmos, da justaposição harmônica desses objetos nasce uma forma de beleza, uma forma de nobreza que é maior que cada beleza e nobreza residente em cada objeto.

Assim, os senhores tomam, por exemplo, o joalheiro que afirma que um colar de pérolas vale mais do que a soma de cada uma das pérolas, do preço de cada uma das pérolas isoladas. Porque aquelas pérolas dispostas pelo seu tamanho, de maneira a formar um conjunto, uma coleção, por isto valem mais do que se elas fossem vendidas isoladas.

Assim também se dá então com os santos. Assim como Deus criou sistemas de planetas e satélites no universo material, como Ele criou espécies animais, como Ele criou raças de homens, como Ele criou coros de anjos, etc., haveria de querer que no Céu todas as criaturas ficassem agrupadas segundo as excelências de caráter espiritual, e agrupadas hierarquicamente. Exatamente nisto está a beleza do universo.

Por aí os senhores podem ver quantos igualitários que desejariam uma ordem de coisas em que todos fossem iguais e que, portanto, essas contexturas íntimas desaparecessem, querem uma obra especificamente satânica.

Os que são igualitários e que acham que a igualdade é igual a santidade, não entendem nada do que é santidade e têm um ideal de perfeição oposto ao da santidade. Têm um ideal diabólico de perfeição, porque o verdadeiro ideal de perfeição é hierárquico, formando grupos, e grupos dispostos hierarquicamente dentro de si, hierarquicamente em relação aos outros.

* Deus glorifica determinadas famílias suscitando nelas muitos santos — Exemplos da casa real de David e da família de Santa Isabel da Hungria

A hierarquia é uma das maiores belezas do Céu.

Agora diz bem D. Guéranger:

Esse agrupamento se dá pelas luzes primordiais, se faz pelas afinidades de alma. Mas, às vezes, Deus também tem o desejo de glorificar determinadas famílias, fazendo com que nelas apareçam muitos santos.

Evidentemente, a mais ilustre de todas essas famílias é a casa real de David, na qual houve até personagens monstruosos, mas na qual houve grandes santos que prefiguraram a Nosso Senhor Jesus Cristo, e houve por fim Nossa Senhora num dos ramos, São José em outro ramo, e Nosso Senhor Jesus Cristo como filho verdadeiro de Nossa Senhora e como filho adotivo de São José. Portanto, seria nessa genealogia, por dois lados.

Na casa real de David também houve mais de um apóstolo que foi santo, que foi escolhido por Nosso Senhor entre seus parentes para serem apóstolos. E não se pode imaginar uma família mais honrada com esta espécie de disseminação da santidade do que a casa de David.

Mas em várias outras famílias reais da Europa isto se deu também, e os senhores acabam de ver a família de Santa Isabel da Hungria, singularmente abençoada por esta forma.

Aqui cabe uma consideração interessante: é que muitas vezes, quando a gente vai estudar mais de perto estas famílias, a gente nota que há uma obra progressiva da santidade na família, existe uma graça que é dada em um geração, que é aprimorada em outra geração seguinte, que vai de geração em geração até chegar a produzir um primor de santidade, e aí se propagar por uma série de santos.

Isto por quê? Porque Deus quer honrar a continuidade familiar. E Ele que manifestou de tal maneira esta continuidade familiar na severidade com que Ele puniu o pecado original, Ele também haveria de dar as recompensas de acordo com a continuidade familiar. E não há recompensa mais alta do que esta que é dada, afinal de contas, à continuidade familiar pela presença da virtude.

Então, nós consideramos o mais alto dos prêmios que Deus nos possa dar, que é a eclosão de muitos santos dentro de uma família. Então, a família abençoada, as famílias da destra de Deus, feitas para, através das gerações, produzirem grandes obras, exatamente coisa que o espírito igualitário detesta também. Porque o espírito igualitário acha que a punição não é hereditária, nem que a recompensa é hereditária, e que a família é algo sem importância nenhuma no que diz respeito à propagação da virtude ou à continuidade do pecado, coisa que exatamente a Igreja Católica rejeita firmemente.

* A noção da hierarquia e da beleza do universo harmônico, contrária à idéia da disposição igualitária das criaturas

Nós devemos pedir a todos esses santos que nos inculquem no espírito esta noção da hierarquia, nos inculquem no espírito a idéia de como seria falsa e má uma ordem de coisas, mesmo no Céu, em que todos fossem iguais e como que esfarelados.

Exatamente os senhores encontram neste sentido uma pequena curiosidade. Em uma noite em que não haja demais gente, eu posso fazer uma pequena explicação dentro da hora do Santo do Dia. Os senhores analisarem bem uma gravura do Dr. Luizinho, que está colocada junto à imagem de Nossa Senhora, junto aos degraus na parte da escada.

Aquela gravura tem de um modo sensível a representação de como é belo o universo harmônico e de como é inumano, contrário à natureza humana, o universo anorgânico, em que tudo é grande demais para o homem.

Mostrando a gravura e analisando-a em alguma noite em que os senhores me lembrem, eu poderei, então, mostrar aos senhores como a arte encontra um modo naquela gravura, um modo magnífico de exprimir esta verdade. E aí os senhores têm a nossa Sede por mil modos ensinando a nossa doutrina.

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1) Nos microfilmes, esta reunião vem datada de 19/11/1965. Contudo, parece ser de 1964, pois há outra reunião em 19/11/1965 em cujo início o Sr. Dr. Plinio refere-se a esta como tendo sido feita no ano anterior.