Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 16/11/1964 – 2ª feira [SD 174] – p. 5 de 5

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 16/11/1964 — 2ª feira 1 [SD 174]

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A tutela da Divina Providência, exercida maternalmente por Maria, é a causa de nossa confiança * O amor materno leva a dedicação e a misericórdia até o sublime, relutando em aplicar a justiça mesmo merecida * Nossa Senhora leva a ternura ao inimaginável; seu amor é misericordioso, regenera e santifica * Pior do que é pecado é o desânimo com relação à bondade divina — A misericórdia de Maria perdoa e regenera * A confiança na Mãe de Misericórdia não permite desesperar ou se abater * Necessidade absoluta de rezar e pedir com insistência para ser atendido

Vamos agora passar a tratar do santo do dia de hoje, e do santo do dia de amanhã. Hoje é santa Gertrudes Virgem, recebeu a revelação da devoção do Sagrado Coração de Jesus, padroeira das Índias Ocidentais, século XIII. Amanhã nós vamos ter o Bem-aventurado Roque Gonçalves e companheiros, mártires do Rio Grande do Sul, Jesuítas.

Por mais importante que seja tratar dessas duas festas, eu inverto um pouco a nossa ordem para tratar da festa que se realizou no sábado, e que nós não pudemos comemorar por causa da adoração noturna no Carmo, e que foi de Nossa Senhora Virgem Maria, Mãe da Divina Providência.

* A tutela da Divina Providência, exercida maternalmente por Maria, é a causa de nossa confiança

Por que razão isto? Porque propriamente a invocação de Nossa Senhora da Confiança, a invocação que se pode dizer aprovada pela Igreja, estabelecida pela Igreja, é a invocação de Nossa Senhora Mãe da Divina Providência.

É por causa da tutela que a Providência Divina exerce sobre nós, que nós confiamos. A razão de nossa confiança, por intermédio de Nossa Senhora, é na tutela da Providência Divina. É porque Deus provê a cada um de nós em nossas necessidades espirituais, em nossas necessidades temporais, para que nós realizemos aquilo para que nós fomos criados, que é a nossa vocação, etc., é por causa disso que nós confiamos.

E Nossa Senhora por que é que é chamada a Mãe da Providência Divina?

Evidentemente não é porque Ela tenha gerado a Providência Divina, mas é por outra causa. É que, segundo os desígnios da Providência Divina, Ela é a Mãe que toca maternalmente, que aplica maternalmente a nós os decretos da Providência Divina e que, portanto, faz com que o governo da Providência Divina sobre nós seja um governo materno. E fazendo com que esse governo seja materno, como eu já tive ocasião de explicar aqui, faz com que o governo se aplique com uma plenitude de carinho, uma plenitude de comiseração, uma plenitude de afeto, que é uma coisa que esgota inteiramente tudo quanto o homem possa pensar.

De maneira que é por causa disto que a confiança em Nossa Senhora enquanto fonte de nossa confiança, enquanto razão para nós esperamos porque temos uma mãe que dirige a nossa vida, que preside a nossa vida espiritual, que orienta a nossa vida de apostolado, que orienta a nossa vida diária, a razão, enfim, de tudo isto, está nesta invocação de Nossa Senhora Mãe da Providência Divina.

Há até uma muito bonita imagem, um pouco sulpiciana, mas muito cheia de expressão, de Nossa Senhora Mãe da Divina Providência no Rio de Janeiro, naquela Igreja dos padres teatinos, que está na Rua do Catete. Um altarzinho pequeno do lado direito de quem entra., bem no fundo, apresenta uma imagem de Nossa Senhora Mãe da Divina Providência. O que tem muita ligação com São Caetano de Tienne, que era dessa congregação. Porque, exatamente eu já tive ocasião de dizer para os senhores, ele é de algum modo o santo que levou mais longe a confiança na Providência Divina.

Lembram-se que ele proibiu aos padres dele de pedir esmola. De maneira que não só não podiam ter nada, como não podiam pedir nada. E quando os teatinos precisam qualquer coisa, eles devem ficar na rua pedindo a Nossa Senhora. Nossa Senhora fará chegar a eles aquilo que Ela tem a intenção que chegue. Quer dizer, eles nem sequer devem pedir, de tal maneira se devem colocar nas mãos da Providência Divina.

* O amor materno leva a dedicação e a misericórdia até o sublime, relutando em aplicar a justiça mesmo merecida

Agora, eu gostaria de dizer um pouquinho o que é que é a palavra “mãe”, aqui.

Eu já tenho abordado o caso, mas talvez uma meia palavra nesse sentido ainda vale a pena dizer.

O que é que significa a palavra “mãe” aqui, que alcance concreto ela tem dentro do problema da confiança, e então nós teremos acabado de dizer tudo.

Eu creio que uma das maiores desgraças do mundo contemporâneo é que não há mais quase mães no sentido espiritual da palavra. Há mães em sentido material da palavra, mas não existe mais mães no sentido espiritual da palavra.

O que é que é uma mãe no sentido espiritual da palavra? Aquilo que sempre tornou sublimes os laços que ligam a verdadeira mãe ao seu filho, é que a mãe pela natureza, quando ela é reta, quando ela se desenvolve retamente, a mãe é levada a ter uma forma de dedicação ao seu filho, que nem sequer o pai tem.

O pai pode ser um ótimo pai, mas ele conserva em relação ao filho uma espécie de austeridade. Ele representa certos princípios, ele representa a justiça, ele representa a ordem, ele representa a força, ele representa, portanto, algo que em definitivo pune. E o que é próprio do feitio materno, é que a mãe tem uma forma de carinho tal pelo filho, que mesmo nas ocasiões em que o pai puniria, a mãe é mais lenta para punir. Mesmo nas ocasiões em que o pai se zangaria, a mãe é mais lenta para se zangar. Nos casos em que o pai conservaria algum ressentimento, a mãe é mais lenta em conservar o ressentimento. Em sentido contrário, ela é muito mais rápida em perdoar, ela é muito mais rápida em condescender, ela é muito mais rápida em esquecer, porque ela representa quase que só misericórdia.

Nela, o traço de justiça está muito diluído, está muito apagado, segundo a ordem natural das coisas. E, pelo contrário, o traço do perdão e da misericórdia é levado o mais longe possível. De tal maneira que até o perigo que o amor materno traz é exatamente o perigo de uma certa moleza, de uma certa frouxidão, de tal maneira que se não existisse o pai, a educação dada pela mãe, em numerosos casos, seria insuficiente. Porque a educação dada pela mãe não tem alguns dos traços indispensáveis da verdadeira educação. De tal maneira o amor materno, levado por uma legítima acepção de pessoas, amando o filho porque é filho, ainda que ele não preste, o amor materno passa por cima de tudo, e se vincula por misericórdia à pessoa do filho. Acontece por causa disso que todo mundo tem em relação ao amor materno certas condescendências, certas considerações, que não tem em relação a mais nada.

Por exemplo, uma coisa que sempre me pareceu bonita: em todas as nações do Ocidente onde tem pena de morte, o respeito com que o cerimonial de pena de morte cerca mais a mãe do que o pai, quando vai se despedir do filho que vai ser executado. Quer dizer, a própria lei que pune o filho, permite á mãe que vá visitar o seu filho. E todos os costumes a cercam de uma tal consideração, que mesmo no ato, no momento em que o filho vai ser objeto da máxima execração e vai ser fulminado com a pior das punições, aqueles que estão agarrando o filho e segurando para no dia seguinte levar para a morte, tratam a mãe como se ela fosse a mãe de um filho inocente. Que dizer, com todas as atenções, com todas as considerações, enfim, com tudo o que se passa fazer para lenir aquele golpe.

* Nossa Senhora leva a ternura ao inimaginável; seu amor é misericordioso, regenera e santifica

Como nós vemos, portanto, há uma espécie de sublimidade do amor materno e uma sublimidade que pode chegar, por causa desse caráter de acepção de pessoas, pode chegar até à fraqueza, porque de tal maneira ele se representa na misericórdia levada ao último ponto.

Mas isto aqui é o que diz respeito às mães terrenas. Em relação a Nossa Senhora isto não existe. Porque Nossa Senhora enquanto Mãe tem toda essa ternura levada até um ponto inimaginável.

São Luís Maria Grignion de Montfort disse que Nossa Senhora nos ama a cada um de nós como todas as mães de todo o mundo amariam seu filho único. Isso diz respeito a nós, mas diz respeito a qualquer canalha, pé-rapado que anda na rua.

Mas acontece que como Nossa Senhora é Mãe da Graça, o amor d’Ela não consiste em amar um indivíduo ainda quando ele é canalha fechando os olhos para a canalhice dele. Mas em obter, em amá-lo ainda quando ele é canalha, de maneira a obter de Deus graças seletíssimas, para que ele possa deixar de ser canalha. E o amor d’Ela é um amor que tem uma força regeneradora, tem uma força de elevar, tem uma força de santificar, que evidentemente o amor de uma mãe materna ou não tem, ou tem em grau muito menor, tem em proporções muito menores.

De maneira que aquilo que em outra seria fraqueza, em Nossa Senhora não é, porque o amor d’Ela é uma causa de justificação e de regeneração para aquele a quem Ela ama. E por causa disso sua misericórdia nunca é capaz de uma condescendência errada, embora a condescendência vá mais longe do que a de qualquer mãe terrena. E nisso não entram jogos de palavras, mas entra uma realidade muito sublime e muito elevada.

* Pior do que é pecado é o desânimo com relação à bondade divina — A misericórdia de Maria perdoa e regenera

O que faz exatamente com que, quando nós consideramos Nossa Senhora em nossa vida espiritual, nós tenhamos o antídoto contra aquilo que dizia São Francisco Xavier. São Francisco Xavier dizia que o que ele tinha mais medo no pecado, não era do próprio pecado, mas era o desânimo em relação à bondade Divina que o pecador sente depois do pecado. Disto é que ele tinha mais medo.

E o modo pelo qual nós temos um recurso de não cair nisso, é exatamente nós nos lembrando que mãe inesgotavelmente misericordiosa que nós temos. E em sendo inesgotavelmente misericordiosa, evidentemente seria uma forma de liberalismo e de laranjada, porque Ela pela misericórdia d’Ela nos obtém as graças para que nós deixemos de ser assim. De maneira tal que nEla não pode haver esse desvio, ainda que falta moral nEla pudesse haver. Não há, Ela é o mais alto padrão de santidade criado que existe. Ainda que nEla pudesse haver isto, entretanto não há, porque nEla a misericórdia se transforma em força de regeneração. De maneira que nEla, sua misericórdia se exerce regenerando: perdoando, contemporizando, regenerando.

* A confiança na Mãe de Misericórdia não permite desesperar ou se abater

De maneira que mais uma vez eu insisto nesse ponto: confiança, confiança, confiança. Lembrando a meiguice extrema de nossa Mãe de Misericórdia, a sua condescendência extraordinária. E é para cada um, é para as misérias de cada um de nós individualmente falando.

E é por causa disso que Nossa Senhora na “Salve Rainha” é chamada como Ela é, Rainha, mas ao mesmo tempo Mãe e Mãe de Misericórdia, etc. Ou então se diz d’Ela o que se diz no “Lembrai-vos”.

Eu quero insistir muito nisto, porque uma devoção, uma escola qualquer de piedade que não tenha este traço, é uma escola completamente furada, do ponto de vista católico. Ela dá em exoterismo, ela dá em rigorismo, ela dá em toda a forma de coisa errada, porque sem esse traço não se anda, sem esse traço não se faz nada. E o que explica todo o nosso rigor, toda a nossa severidade, toda a nossa energia, toda a nossa intransigência, em que eu vejo grandes dons de Nossa Senhora, é ao mesmo tempo a conjugação disto, com a idéia dessa Providência indizivelmente suave, materna e contínua de Nossa Senhora sobre cada um de nós, individualmente considerado.

De maneira que então se diria mais uma vez para considerar isto e para procurarem encherem a alma de confiança e de alegria. Porque quem tem uma Mãe assim não tem razão para se desesperar de nada nem se abater com nada. Porque tudo Nossa Senhora resolve desde que nós nos voltemos para Ela.

* Necessidade absoluta de rezar e pedir com insistência para ser atendido

Lembrem-se bem daquela frase de Santo Afonso de Ligório : “Quem reza se salva, quem não reza não se salva”. E quem quisesse passar a vida inteira fazendo atos de virtude, uns em cima dos outros mas sem rezar, primeiro não passaria a vida inteira fazendo atos de virtude, segundo acabava se perdendo. Uma pessoa que vive no pecado mas que reza, esta ainda é capaz de se salvar.

De maneira que pedir muito a Nossa Mãe de Misericórdia, que tenha pena de cada um de nós. E nesse momento cada um olhe para as suas dificuldades de sua vida espiritual, que cada um olhe para os problemas de seu apostolado, que cada um olhe para as suas necessidades da vida quotidiana, e peça a Nossa Senhora com muita insistência, que atenda. Aí mais do que qualquer lugar, o Coração Imaculado de Maria é a porta que a gente batendo abre mesmo e é aquela que a gente pedindo recebe mesmo. É nEla que a promessa do evangelho se realiza com toda a integridade.

E eu digo aos senhores, eu não tenho medo de mentir no que disse: rezem, rezem, rezem, peçam, e os senhores serão atendidos.

E é nesse espírito que pediria então ao Pe. José Luiz, se está tudo isso ortodoxo, para encerrar a nossa reunião.

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1) Nota do conferidor: No microfilme, a data 16/11/64 está escrita a mão, e a 16/11/65 foi datilografada em 1970.