Santo do Dia — 21/10/64 — 4ª feira -- [SD 225] – p. 4 de 4

Santo do Dia — 21/10/64 — 4ª feira -- [SD 225]

Nome anterior do arquivo: 641021--Santo_do_Dia.doc

NOVENA DE CRISTO REI

Amanhã, continua a novena de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei.

Uma coisa inerente ao senso francês que nós tanto elogiamos aqui, consiste no seguinte predicado: é em pegar coisas que aparentemente são bagatelas e saber por um mundo de pensamento nessas coisas. Eu, às vezes, até me pergunto se eles percebem todo o pensamento que cabe no que eles põem. Porque às vezes eles fazem uma coisa e a gente olha para a cara de quem fez, e que ali cabe um grande pensamento, mas a gente não sabe se aquele narigudo concretamente pôs ali aquele pensamento que a coisa comporta.

A gente às vezes fica até um pouco na dúvida -- eu suponho que não tenha ninguém, tem o Alberto que é filho de francês, não é Alberto? E o Pierre, é. O Pierre está por aí? Bem. Então, exceção feita de quem se deve excetuar, eu às vezes fico perguntando se ele chegou a pescar bem, por exemplo, vamos dizer, Versailles.

Passeando com Fábio por Versailles -- eu até nem disse isso ao Fábio porque estávamos falando sobre outra coisa -- mas, passeando com o Fábio por Versailles, era uma coisa maravilhosa, nós estávamos hospedados num hotel que Paulo e alguns outros conhecem, chamado Trianon Palace, que até foi ocupado pelo delegado da Guerra de 14 a 18, e o Fábio e eu, hospedados no quarto do Aga Khan, no apartamento do Aga Khan.

Sem dinheiro, esperando para vir dinheiro do Brasil, e morando em Versailles porque ali não havia quase despesa para fazer, então uma vida ao mesmo tempo de nababo e de mendigo. A gente vivia num hotel de rei, num quarto de príncipe, mas ao tempo contando os tostões para um passeio de automóvel ou qualquer coisa assim. Mas, a pé, a gente dando uma pequena voltinha, feita numa fileira de plátanos muito bonita, e com uma espécie de saibro prateado muito agradável, a gente chegava logo em Versailles.

Então, pelo crepúsculo, andando com Fábio por lá, a gente notava tanta harmonia, tanta coisa bonita, tanta coisa bem sacada, que eu, às vezes me perguntava o seguinte: será que esta gente notou tudo, a gente que fez isto, notou tudo quanto tinha nisto de bonito?

Ou eles empregaram umas tantas regras que estão na ordem natural das coisas e que, por isso, dão harmonias tão bonitas. Mas, eles mesmos não conheceram toda a harmonia que está dentro disto. Porque às vezes a gente vê eles fazerem algumas outras coisas que a gente tem a impressão de que eles não ‘capiscaram niente’. De maneira que eu fico assim meio, com o devido respeito, eu fico assim meio perplexo a respeito do alcance da coisa.

Mas, vejam isto, por exemplo: a primeira vez que eu fui à Europa, o avião que me conduziu chamava-se Ciel de Loraine. E depois, os outros aviões, é uma coisa linda, não é? Céu de Lorena não é o céu de Botucatu, queira ou não se queira, se houver aqui algum botucatuano, que me perdoe, mas não é o céu de Botucatu de nenhum modo. Não é verdade?

Bem. Então eu vi depois que havia uma série de aviões “Céu disto, Céu daquilo, Céu daquilo outro”. Agora, os senhores estão vendo que vem, envolto nisto, a idéia de que o céu da Lorena não é o céu de “Ile de France”, por exemplo. E que o céu de Ile de France não é o céu da Auvergne, por exemplo. E que, vamos dizer, a cada província, com suas características regionais, com sua forma de alma e de cultura, corresponde um céu que já não é o céu material, mas é uma espécie de céu.

Não é também o céu celeste, mas é um céu de cultura, a partir da terra a gente vê no mesmo azul da Lorraine, ou vendo da Champagne, há qualquer coisa de diferente e a doçura do céu da Ile de France já é um coisa diferente.

E então, embora se saiba que as nuvens e o céu, realmente com algumas variantes, mas final de contas são as mesmas por toda a parte, tem um sentido em a gente falar de um céu de Lorena e um céu de Auvergne, e um céu de não sei mais o quê, e esta teoria da variedade dos céus, inclui uma espécie de teoria da diversidade dos céus culturais e de uma projeção para o céu físico de valores culturais da terra e de uma impregnação dos valores culturais da terra por elementos vindos do céu astronômico-celeste, conforme se apresenta num lugar, constituindo um todo só que forma cada província a bem dizer um céu.

Então, a integridade dentro dessa concepção, aliás no Brasil qualquer coisa disso, que é o luar do Ceará, não é Picanço? E que forma um céu, pelo menos noturno, parece que inteiramente especial.

Bom. Agora, de qualquer forma, nós poderíamos dizer que entra nessa idéia, como os senhores estão vendo de que até os céus de cada província, sendo diferentes, cada província é uma espécie de valor cultural.

Cada província é uma espécie de valor de alma que tem um significado próprio e cuja posse é um elemento capital para a integridade do reino. O reino, perdendo uma província, ele perde mais do que perder uns tantos territórios. Ele perde muito mais do que perder uma fonte de comércio mensurável, pelas divagações do Roberto Campos, mas ele perde algo que é um valor moral, um valor cultural que desmembrado do reino faz aquilo sangrar; faz com que aquilo perca a sua integridade e fique como algo, vamos dizer, por exemplo, como dessa estatueta, se se cortasse, por exemplo, uma parte aqui, da imagem sagrada. Quer dizer, fica algo meio mutilado, algo de irremediavelmente mutilado, enquanto aquela unidade não se reintegrar.

E é por causa disso que, por exemplo, ainda sempre os franceses, com muito senso para as coisas, fizeram o seguinte: Quando a Alsácia e a Lorena foram tomadas na guerra de 1870, a Alsácia e a metade da Lorena, eles então envolveram com crepe de luto as estátuas que representavam em Paris essas províncias, e que havia. Para que o crepe fosse tirado quando as províncias fosse reconquistadas.

Era um luto da França e era um luto da província. Luto da França e luto da província que era um luto de alma por causa dessa unidade ideal de alma que - como que - é a substância da verdadeira unidade do reino.

Ora, essas considerações os senhores me perguntam a que propósito vem na festa do reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo? Eu tenho a impressão de que quem não tenha detido a sua atenção sobre essa realidade de que eu acabo de falar não tem toda facilidade desejável para compreender bem o que é que é o Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Que é o reino sobre pessoas e não sobre territórios. Um reino sobre almas; e em que cada grupo humano, cada nação, cada ordem religiosa, cada família constitui como que uma província, um céu. Em que cada indivíduo constitui como que uma província e um céu. E a realidade do reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo é a harmonia de todos esses grupos humanos de todas essas famílias de alma, e depois, de toda essas almas individuais que constituem no seu todo a beleza divina do Reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. E Nosso Senhor Jesus Cristo, como rei, defende cada alma contra o ataque do adversário com um amor, um conhecimento do valor daquela alma e do que ela significa para a unidade do seu reino muito maior do que o Rei da França defenderia a Auvergne ou a Lorena ou qualquer outra coisa assim.

Nós somos, cada um de nós, a Lorena de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Alsácia de Nosso Senhor Jesus Cristo, a Ile de France de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nosso Senhor Jesus Cristo sabe que, assim como há o céu de uma província, há o céu de um indivíduo. E que isto corresponde à luz primordial objetiva e subjetiva daquele indivíduo. E que isso no seu todo é uma espécie de firmamento de beleza próprio a cada um de nós; e que aquele firmamento de beleza espiritual Nosso Senhor Jesus Cristo ama com um empenho com que um verdadeiro francês deve, por exemplo, amar a Lorena ou o céu da Lorena.

Quer dizer, isto é um valor de caráter moral, é um valor de caráter espiritual e é este valor de caráter moral e espiritual que se deve amar. Isto nos leva então a considerar o seguinte: que Cristo Rei perde; as províncias ou os municípios do reino de Cristo Rei são os homens. E que cada vez que Cristo Rei perde o exercício efetivo de sua realeza sobre uma alma, cada vez que se diminui o exercício efetivo de sua realeza sobre uma alma, dá-se n’Ele, na sua vida terrena, uma tristeza parecida com a do rei que perde a sua província e que toda uma espécie de ordem de beleza ideal se perde. Mas que também, cada vez que se volta a Ele é uma volta com todas as alegrias dessa restituição. Com todas as alegrias dessa recondução. E que é isto que se joga continuamente na festa de Cristo Rei.

Agora, os senhores imaginem o seguinte: se este Céu é todo ele assim, existem céus para as várias famílias de alma; qual será o céu para a família de almas de Catolicismo?…

O que é que representa na harmonia de valores espirituais que é o reino de Cristo Rei, o que é que representa a família espiritual de Catolicismo? Que valores morais, que vocação, que apelo para a virtude, que apelo para o heroísmo, para a dedicação incondicional, para enfrentar todas as formas de risco, de perigo, de trabalho, de despesa, de humilhação, enfim tudo quanto está contido nisto que é este valor especial, que Nosso Senhor Jesus Cristo criou para esta época, e para o qual Ele nos chamou.

E então nós devemos ter, nesta festa de Cristo Rei, a seguinte preocupação: a Realeza de Cristo, ela é inteira (………………………….) o desígnio de Nosso Senhor Jesus Cristo, a respeito do Catolicismo está se realizando e o Reino d’Ele em nós, como tem o direito de ser, nós somos aquilo que Ele quereria que nós fôssemos?

É preciso dizer que, embora não se possa responder pura e simplesmente sim, sobretudo, graças a Deus, não se pode responder pura e simplesmente não. E que nós devemos, ao formular esta pergunta, ter a alegria de dizer que o fundo de quadro é uma afirmação. E que, graças a Deus, nós somos para Nosso Senhor Jesus Cristo, nessa época em que ele é tão perseguido e tão flagelado, uma grande consolação.

Mas, por outro lado, isso nos deve dar o desejo de ser ainda mais, de dar ainda mais, para que se integre ainda mais sobre Ele, sobre nós o exercício efetivo do poder d’Ele. De maneira tal que nós tenhamos toda aquela beleza de alma que seria propriamente o céu do Catolicismo.

Nesse conjunto de formosuras que deveria ser nos dias de hoje a Santa Igreja Católica e que (…………………………) a Igreja Católica é. Porque a Santa Igreja Católica, por mais desfigurada e por mais conspurcada que Ela esteja, Ela é um plantel onde continuamente se desabrocham flores para Nosso Senhor. E nós, só no dia do Juízo Final talvez é que possamos saber, no desconhecimento, na ignorância, no abandono, quantos santos florescem isolados e odiados aqui, lá e acolá, e dando a Deus uma glória completa e uma glória magnífica. De maneira que é assim que nós devemos ver a atual situação e nós devemos nos fazer esta pergunta: Eu hoje, quando comunguei, me perguntei exatamente isto? Disse: bom, é uma coisa oportuna você preparar-se para receber Nosso Senhor. Mas, uma coisa que se pode perguntar é com disposição Nosso Senhor recebe a você…

Que graças Ele está disposto a fazer, que generosidade Ele está disposto a ter, como é que Ele te recebe a você? E eu pensei com os meus botões o seguinte: que essas coisas na vida são uma espécie de regra de três. E que Nosso Senhor nos recebe a cada um de nós na Eucaristia como nós recebemos aqueles que são menores ou mais fracos do que nós nos membros do Grupo (………….).

Quer dizer, com uma alegria, com uma certa medida de tristeza e com muita esperança. E que isto no conjunto constitui a incompleta Realeza de Nosso Senhor sobre cada um de nós, mas que, marchando para ser completa, é uma razão contínua de alegria para Ele. Assim, portanto, peçamos a Nosso Senhor, peçamos por meio de Nossa Senhora do Imaculado Coração de Maria que nos dê a compreensão de todos esses céus da Igreja Católica.

De todos esses céus do Reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo e do que é que nós somos individualmente, e como Catolicismo, como uma espécie de céu dentro desse conjunto de Céus. Um céu preciosíssimo porque a estrela central desse céu é o Imaculado Coração de Maria. Estrela mais preciosa não poderia haver. Então, nós compreendermos as graças recebidas, nós compreendermos quanto motivo temos para esperar perdão, para esperar misericórdia, e para pedirmos muitos favores com muito empenho e com muito, eu diria, com muito desembaraço. Com uma respeitosa desenvoltura. Porque é a isso que nos conduzem todas essas altíssimas considerações.

E com isso vamos rezar.