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Santo do Dia — 20/10/64 — 3ª feira [SD 225]

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Nosso Senhor é Rei pela sua humanidade santíssima e por ser Redentor * A Realeza de Nosso Senhor na sociedade temporal * A Igreja Católica, a única Igreja verdadeira e oficial * O estado de espírito do membro do Grupo é de tristeza furiosa e indignada por ver a Realeza de Nosso Senhor subestimada, negada e injuriada

Nós temos para amanhã a novena de Cristo Rei, e acho que para depois de amanhã também, de sorte que nós vamos fazer um comentário a respeito da realeza de Nosso senhor Jesus Cristo.

* Nosso Senhor é Rei pela sua humanidade santíssima e por ser Redentor

A idéia da realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo é uma idéia que veio desde a vida terrena d’Ele mesmo. Porque interrogado por Pilatos se Ele era rei, Ele disse: “Verdadeiramente, tu o dizes, eu sou rei”.

Nós encontramos manifestações várias e títulos vários de Cristo como Rei desde a primitiva Igreja e nós temos aqui na nossa sede uma coisa muito bonita nesse sentido que é o Cristo Pantocrato que está colocado lá no salão, no escritório. É Cristo Rei porque Pantocrato que dizer Senhor de todas as coisas.

Ele está sentado ali sobre um trono que é o arco-íris e que é o sinal da aliança de Deus com os homens. E do alto deste trono que é esta aliança de Deus com os homens, Ele está governando todas as coisas. E todas as coisas que Ele governa, é o governo da Igreja gloriosa e da Igreja militante e como o Rei esperado por todos os séculos, quer dizer, como Nosso Senhor Jesus Cristo dominando tudo e Senhor de tudo.

Agora, essa idéia de Cristo Rei envolve uma noção que é a seguinte: que não só de todas as coisas, mas especialmente de todos os homens Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei. E é Rei nesse sentido da palavra; que enquanto Filho de Deus encarnado e enquanto nosso redentor Ele tomou um direito verdadeiro da realeza sobre nós. E estes dois direitos não se confundem um com o outro, esses dois títulos.

O primeiro título é, se poderia dizer, por direito de nascimento. Porque há um princípio que estabelece o seguinte: que na hierarquia dos seres, quando um ser é imensamente superior ao outro, ele adquire uma autoridade sobre esse outro. E com fundamento nisto, Ele, que é Homem verdadeiro ligado por união hipostática à segunda Pessoa da Santíssima Trindade, tem uma superioridade infinita sobre todos os seres da Terra. E não só como Deus, mas na sua humanidade, Ele é Rei de todos os homens porque Ele é a cabeça de todo o gênero humano, Ele é a mais alva criatura, mera criatura na sua humanidade, existente no gênero humano. E a este título Ele é Rei do gênero humano: pela união hipostática e na sua humanidade santíssima.

Ele é Rei do gênero humano também como redentor, porque Ele conquistou o gênero humano. Ele sacrificou-se, Ele se imolou na cruz, e essa imolação que Ele ofereceu na cruz salvou a Humanidade do Inferno, abriu as portas do Céu para os homens. Com isto, como Ele conquistou por seu sangue a Humanidade, Ele adquiriu sobre a Humanidade um direito régio.

De maneira que a realeza de Cristo tão bem pode ser contemplada meditando-se Nosso Senhor Jesus Cristo sobre um trono, como pode ser contemplada meditando-se Nosso Senhor Jesus Cristo do alto da cruz. Porque do alto da cruz por direito de conquista Ele se tornou Rei de todo gênero humano.

* A Realeza de Nosso Senhor na sociedade temporal

Agora, qual é a conclusão disto?

O gênero humano pode ser visto em duas espécies de sociedade espiritual, que é a Igreja, e a sociedade temporal. Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei da sociedade espiritual que é a Igreja Católica. Se o papa reina na Igreja, é como vigário de Cristo, quer dizer, como representante de Cristo. Porque o verdadeiro Rei no sentido pleno da palavra é Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei da Igreja Católica.

A Igreja é uma instituição monárquica antes de tudo porque ela tem um Rei. Esse Rei é Nosso Senhor Jesus Cristo. O papa como bispo de Roma é indissoluvelmente e definitivamente o vigário de Cristo. O papa reina sempre em nome de Cristo, mas o poder que o papa exerce, o poder das chaves, é um poder que Cristo deu a seu vigário. O verdadeiro Rei da Igreja Católica é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Agora nós devemos analisar a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a sociedade temporal. Há a esse respeito nas considerações que se fazem sobre separação da Igreja do Estado.

Há a esse respeito reflexões que não são muito exatas, porque dizem o seguinte:

A Igreja tem uma finalidade espiritual, o Estado tem uma finalidade temporal. A Igreja conduz os homens ao Céu e o Estado mantém a vida terrena para que os homens possam ir se alimentando e praticando as virtudes necessárias para caminhar para o Céu. De onde, então, a gente fica com uma idéia de que Nosso Senhor Jesus Cristo é Rei da Igreja, mas que o Estado não tem Rei, que o estado não tem verdadeiro Rei, que os Estados católicos sobretudo não devem reconhecer Nosso Senhor Jesus Cristo como Rei. E esse princípio é profundamente falso.

O Estado, enquanto Estado, tem Nosso Senhor Jesus Cristo como Rei. E a aplicação, o efeito concreto disto é a obrigação que tem o Estado de aplicar as leis de Nosso Senhor Jesus Cristo. E um Estado que não aplica as leis de Nosso Senhor Jesus Cristo, é um Estado que está em estado de revolução, em estado de revolução contra o seu verdadeiro Rei.

* A Igreja Católica, a única Igreja verdadeira e oficial

Seu verdadeiro Rei em que sentido? E qual é a aplicação dessas leis de Nosso Senhor Jesus Cristo?

Antes de tudo, reconhecer a Igreja Católica como a única Igreja verdadeira e oficial, de não tolerar o proselitismo das religiões falsas, de manter as religiões falsas num estado de humilhação e de mera tolerância, e assim mesmo quando não houver remédio.

Quer dizer, se uma pessoa, por exemplo, vamos dizer, puder evitar a vinda de fiéis de uma nova religião falsa do Brasil, deve evitar. Se puder evitar uma imigração de protestantes de cismáticos ou de qualquer outra coisa, deve evitar. Quer dizer, só tolerar o que não tem remédio e tolerar tolerado, de canto chorado. Porque o contrário é o oposto à Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Aplicar todas as leis da Igreja como sendo automaticamente leis do Estado. É o que se fazia antes da Revolução Francesa. A lei da Igreja era automaticamente uma lei do Estado. De maneira tal que não era preciso estar ratificada pelo Rei, não era preciso estar ratificada pelo Poder Público, entrava em função pelo simples fato de que o Estado tinha promulgado. As autoridades eclesiásticas eram objeto de continências e honras oficiais porque eram autoridades públicas, e autoridades públicas porque autoridades da Igreja verdadeira do Deus verdadeiro que era Rei do Estado.

Toda a vida civil se organizar no terreno cultural, no terreno artístico, e em todos os aspectos de acordo com a lei de Nosso Senhor Jesus Cristo, isto era uma aplicação do princípio de que Cristo é Rei nas sociedades humanas.

Nós vemos que isto que entre nós são noções tão familiares, isto se esquece e até de vez em quando é preciso lembrar porque tudo quanto se ouve do alto dos púlpitos, tudo quanto se ouve nas conferências e reuniões católicas, não só tende a fazer esquecer estas verdades, mas tende até a negar estas verdades. De maneira que nós ficamos habituados à idéia de que o Estado é naturalmente leigo, que o Estado por sua própria natureza nada tem que ver com religião, e por causa disso o Estado com Jesus Cristo nada tem que ver. Ignora, desconhece Nosso Senhor Jesus Cristo.

O princípio da realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo — convém lembrá-lo, portanto — é este.

Qual é a razão pela qual eu estou lembrando isto hoje à noite?

Isto aos senhores todos, nesta ou naquela conferência, já foi lembrado, e se os senhores forem chamados a se externar a respeito disto depois de um pouco de reflexão, o que dirão é o que acabo de dizer.

Qual é a razão então de lembrar essas coisas?

É que alguma coisa é a gente se lembrar disto teoricamente, ter na cabeça assim teoricamente. Outra coisa é a gente ter disso um senso vivo e contínuo. De tal maneira que em todas as ocasiões da vida civil em torno de nós, em que nós vemos negar a realeza de Cristo, nós percebemos que esteja sendo negada, e dói em nós, indigna-nos com toda a extensão da indignação verdadeira o ver que isto está sendo negado.

Quer dizer, é preciso ter esta verdade como uma verdade viva que está à flor da pele. E que a qualquer momento a gente sente a tristeza de ver que está sendo negada, sente o aborrecimento de ver que está sendo negada. Esse laicismo de todas as coisas que caminha para um positivo ateísmo de todas as coisas, nos ferir em tudo e, portanto, nós vivermos na sociedade de hoje num estado de exilado, de gente que vive num lugar onde está posto tudo de cabeça para baixo e que vive num protesto interno e contínuo disto.

É só assim que nós podemos ser verdadeiros soldados de Cristo Rei. Nós não podemos ser soldados de cristo Rei a não ser por esta forma.

Nós vamos, por exemplo, a um tribunal, tribunal do júri, encontramos a imagem de Cristo ali. Existem dois modos de a pessoa relacionar aquilo com a Realeza de Cristo.

Um modo é o da heresia branca e, portanto, idiota: “Ah! que bonito! Aqui está Cristo no júri! Que lindo! Olha como influencia toda a sala! Olha como influencia todos esses julgamentos! Olha que graças com certeza Ele do alto da cruz está derramando sobre o juiz! E o pobre promotor público, tão bom chefe de família! Aquele bons jurados dignos e austeros! O pobre réu, nosso irmão separado, que está sentado aqui nessa tribuna e que certamente não tem culpa nenhuma do crime, talvez nem sequer tenha cometido, como ele há de encontrar em Jesus Cristo consolo. Ahh!”. E escachou um riso idiota.

Esta atitude é uma atitude especificamente heresia branca e liberal de quem não quer ver, que não percebe o verdadeiro tormento de Cristo e a verdadeira negação da Realeza de Cristo que está ali. Porque quando a gente desce os olhos daquela imagem e olha para o juiz, e eventualmente da juíza, dos juizotes e das juizotas, quando a gente olha para aqueles bons jurados que estão lá e que a gente sabe como é que os jurados estão vivendo, quando a gente percebe a… [inaudível]… quem quiser, para quem olha para o digno promotor público e pensa em que ele entrou… [inaudível]…, para quem olha para aquele criminoso empedernido que está sentado, que é a melhor pessoa da sala, a gente compreende o seguinte: que realmente pior seria se Nosso Senhor não estivesse lá, estou de acordo. Mas que Ele estando lá, as coisas não poderiam correr pior de que correm. Essa é a dupla verdade.

E é preciso numa sala de júri a gente chegar lá e perceber isto.

Outro dia ainda vi fotografia do de Gaule visitando o congresso. Em primeiro lugar, aquele pombal, para não falar em serpentário para começar. A começar pelo de Gaule, e depois aqueles varões virtuosos enchendo uma mesa de precitos. Em cima uma parede nua completa que eu poderia numa conferência mais extensa provar que era uma parede atéia. Porque há paredes atéias e aquele era um muro ateu. Perdido naquelas vastidões, um crucifixozinho minúsculo e dois cotozinhos de flores colocados à direita e à esquerda do crucifixo.

Aquilo posto daquele modo continha ao mesmo tempo a afirmação e o ultraje da verdade de que Cristo deveria presidir o trabalho daquela sala. E um católico zeloso, chegando naquela sala, pelo menos intuitivamente, deveria olhar isto, deveria ter isto como realidade doravante do que se passava na sala e compreender a importância da negação de Nosso Senhor Jesus Cristo naquela sala. Assim, é que por toda a parte anda o fiel vassalo de Cristo Rei. O fiel militante de Cristo Rei.

Não adianta ter na cabeça, no mundo da lua, uma porção de idéias de Cristo Rei sem que a todo o momento nós não estejamos percebendo as negações, e as palidíssimas e timidíssimas afirmações da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo.

* O estado de espírito do membro do Grupo é de tristeza furiosa e indignada por ver a Realeza de Nosso Senhor subestimada, negada e injuriada

Eu me lembro que quando eu fui constituinte em 1934, e depois isto se repetiu nas outras constituições com estes ou aqueles termos, e nós tivemos constituições de lá para cá bem, o preâmbulo era esse, visado por um deputado católico muito ardoroso — “ardoroso” entre aspas e muito aplaudido: “O povo brasileiro, pondo sua confiança em Deus e constituído em assembléia soberana, resolve tal coisa”. É como quem diz: “Bom, Deus, você é um Guaçu que está lá em cima e que pode me estragar ou ajudar muito. Eu quero, portanto, que você seja uma amigo. Eu faço, ex autoritate própria, o que quero. E ponho minha confiança para que você faça dar certo isto aqui”.

No próprio instrumento em que pede o auxílio de Deus, nega a Realeza de Deus. Isto é uma coisa que um católico possa ver sem amargura? Não pode. E quando ele vê sem amargura, ele não pode ter idéia de que ele é um verdadeiro soldado de Cristo Rei.

O carregar, dia e noite, esta amargura de que Nosso Senhor Jesus Cristo não está reinando, o carregar dia e noite e a todos os momentos, em todas as ocasiões a tristeza de tudo aquilo que de um modo ou de outro — e a tristeza não é uma brincadeira de bobo, é a tristeza furiosa do revide e da indignação, é a tristeza militante de que a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, está sendo subestimada aqui, negada lá, injuriada acolá —, isto nos deve caracterizar.

E na novena de Cristo Rei nós devemos ter muito isto em vista, para nós compreendermos bem qual é a formação que nós devemos ter. Nós devemos ter aqui a atitude e a postura de exilados. A postura que teriam judeus num gueto na Idade Média, indignados com tudo e querendo pôr tudo de cabeça para baixo. Nós devemos ter na situação de hoje, nós devemos estar indignados com tudo e querendo pôr tudo de cabeça para cima.

Quer dizer, esta é a nossa atitude normal.

Nós devemos lembrar que para além dessa tristeza, Nosso Senhor Jesus Cristo Rei tem uma promessa para nós. E é a realização do seu reino do modo mais autêntico que o imaginar se possa, de modo mais elevado, mais sublime que imaginar se possa, que é por meio da Realeza de Maria Santíssima. É o reinado de Nossa Senhora que na fímbria do horizonte se anuncia na promessa de Fátima.

Então um horror dessa situação, e um desejo ardente daquela situação, para a qual nós estamos sendo solicitados que nos é dado como uma promessa, é isto que deve ser o nosso estado de espírito contínuo, em todas as ocasiões e em todos os momentos.

O membro que não tem esse estado de espírito, cai na vidinha. E caindo na vidinha, cai na chuerice e cai na mediocridade. Porque para ele, ele entra num lugar qualquer, Câmara, por exemplo, primeiro olhar:

Grande, não é?

Dá vontade de dizer:

Seu bobo, é grande. Se fosse pequeno, o que é que você tirava daí, para sua vocação, para suas coisas?

Segundo olhar:

Espaçoso, não é? Ah … feio! Eu não gosto de parede assim dessa cor.

Sei, está bom, quando é que você se resolve pensar em Nosso Senhor?

Entra e sai sem fazer uma reflexão. Não é sobre o crucifixo que está lá só, mas é toda a ordenação daquela sala em relação a Deus. Ele pensou em relação a ele. O que ele viu, o que ele gostou, isso aí é pafúncio rei, mas não Cristo Rei.

Ter isto bem em vista e pedir a Nossa Senhora a graça da presença contínua dessa idéia, é uma coisa que convém muito, portanto, às nossa orações nesta novena de Cristo Rei.

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