Santo do Dia – 19/10/1964 – 2ªfeira – p. 7 de 7

Santo do Dia — 19/10/1964 — 2ª-feira

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S. Pedro de Alcântara face à gozadora Renascença; o sofrimento com naturalidade; virtudes praticadas em graus diversos, equilíbrio social; dois tipos de alma: felizes e infelizes; gozo da vida e psicose; o sofrimento prepara para o heroísmo.

* Despretensão autêntica e concepção “heresia branca” * São Pedro de Alcântara, modelo de penitente Equilíbrio social na prática das virtudes * Ordens Terceiras, equilíbrio da Igreja * Todos têm que praticar as virtudes, porém não na mesma intensidade * Na Renascença gozadora da vida, um grande penitente * Penitências involuntárias e voluntárias * Aceitação ou não dos sofrimentos, felicidade ou infelicidade * Almas de bom gênio aceitam o sofrimento * Insensíveis ao sofrimento e zelosas dos interesses da Igreja * Fuga dos sofrimentos e frustração * Concepção errada: a vida é para ser gozada * Almas equilibradas, compreendem que o sofrimento faz parte da vida * Um exemplo de sofrimento aceito com naturalidade * Procura frenética do prazer e psicoses * Graça a pedir: veneração pelos que sofrem com grandeza * Sofrimento prepara para a luta

São Pedro de Alcântara

[Faltam palavras] …cada vez o santo cuja festa fosse em dia imediato. Mas amanhã não há Santo do Dia, e hoje há um [santo] que não pudemos comentar ontem porque era domingo, e não fizemos a nossa reunião. E é um santo de muita expressão, máxime no dia em que D. Pedro está aqui entre nós, porque hoje é a festa de São Pedro de Alcântara, Confessor… [faltam palavras] …do Brasil, franciscano, século XVI e padroeiro da família imperial do Brasil, não sei se também da casa de Bragança em Portugal, mas pelo menos no Brasil o nome de São Pedro de Alcântara que pode ser considerado padroeiro também da Casa Imperial do Brasil.

(Sr. –: [Faltam palavras].)

Ah! ele era padroeiro do Brasil por ser padroeiro da Casa Imperial?

(Sr. –: [Faltam palavras].)

Ah! sim, dos dois imperadores sim.

(Sr. –: Mas acho que tiraram. Não é mais padroeiro do Brasil.)

Ah! não é mais padroeiro do Brasil?!

(Sr. –: [Faltam palavras].)

Ah! é?!

(Sr. –: [Faltam palavras].)

É uma segunda proclamação da República no Céu agora, não é? Tiram os Pedros da terra e agora tiram o Pedro do Céu, e depois põem assim com o Pedro do Vaticano uma espécie de abat-jour em cima, chamado colegialidade, não é?

(Sr. –: [Faltam palavras].)

Que não apaga, mas abafa, não é?

(Sr. –: [Faltam palavras].)

Bem, vai bem… em todo caso, vale a pena, nós fazermos um comentário a respeito de São Pedro de Alcântara.

* Despretensão autêntica e concepção “heresia branca”

Infelizmente a respeito de São Pedro de Alcântara eu sei muito pouca coisa. Eu já disse aos senhores que esses meus comentários à noite são muito improvisados, porque eu não tenho a instrução hagiográfica necessária para dar um comentário cabal da vida de cada santo que se comenta aqui. E menos ainda tenho tempo para estudar uma pequena hagiografia para dar à noite. Seria uma beleza, seria um fioretti… [faltam palavras] …“heresia branca”, sobretudo gostaria muito… Eu assim as seis, seis e meia, andando plácido aqui debaixo dessas árvores, lendo uma vida de um santo, de vez em quando parando, oh! À noite um comentário inteiramente noticioso, informado, e açucarado.

Infelizmente não me é dado fazer isso. Se me fosse dado, não faria; mas não me é dado fazer isso, e eu tenho que pegar fiapos que me constam de cá e de lá e utilizar esses fiapos para algum comentário.

* São Pedro de Alcântara, modelo de penitente

Os fiapos do dia de hoje me saíram da erudição do Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra durante o jantar. Eu não tive segundas intenções quando conversamos sobre São Pedro de Alcântara, mas afinal de contas algumas coisas eu fiquei sabendo dele.

Eu fiquei sabendo a respeito dele, que ele era um santo sumamente penitente, que era a própria personificação da penitência na Igreja Católica, e no século XVI; que ele ajudou muito Santa Teresa de Jesus para a fundação dos Carmelos e para a direção espiritual dela. E há depois um episódio muito pitoresco — que me sobrenada nos naufrágios das “Reminiscências de uma vida” de Santa Teresa, que eu li — do encontro dele e dela numa [estalajadeiria?] [estalagem]. A respeito desses três dados eu creio que algum comentário pode caber.

Em primeiro lugar a respeito do caráter penitente de São Pedro de Alcântara

Eu falei outro dia a respeito do papel das Ordens contemplativas na Igreja, e mostrei que: se bem que na Igreja não [se] deva ser cada um contemplativo, para que todos aqueles que vivam nos séculos tenham à medida de contemplação necessária, cumpre que haja algumas Ordens que levem o espírito de contemplação tão longe quanto possível. Essas Ordens dão uma espécie de sustentação à nota contemplativa que deve caber na vida comum de todos os homens, na vida mediana de todos os homens que querem realmente se santificar. Assim também se pode dizer da penitência. Não há a possibilidade de todos os homens praticarem as penitências que os grandes santos penitentes praticaram, nem isto seria desejável. Se todos quisessem praticar essas penitências, por essa forma, a Igreja poria um cobro a isso.

* Ordens Terceiras, equilíbrio da Igreja

E é muito expressivo que o próprio São Francisco de Assis fundou às Ordens Terceiras para pôr cobro à generalização do desejo que tinham as pessoas no século XII de entrarem para a Ordem franciscana. Tantos eram, os que queriam ser franciscanos, que o século corria o risco de ficar abandonado. E, então, para que o espírito franciscano pudesse florescer no século, ele fundou a Ordem Terceira que foi uma espécie de padrão para a fundação depois de outras Ordens Terceiras em outras famílias religiosas.

* Todos têm que praticar as virtudes, porém não na mesma intensidade

O que se diz, portanto da oração, pode-se dizer da penitência também. Deve haver uma certa medida de penitência nesta vida, na vida quotidiana do homem comum que quer seriamente se santificar. E os grandes santos penitentes, os grandes santos sofredores são exatamente aqueles que mantêm, pelo exemplo, e pelo deslumbramento da penitência, mantêm então nos outros o espírito de penitência necessário. E a esse título eles são, então, pilares da Igreja, porque eles conservam como um sal que evita a podridão, eles conservam na sociedade civil, eles conservam nas outras Ordens religiosas não especialmente consagradas a penitencia, eles conservam no clero secular e nos mais altos degraus da Hierarquia eclesiástica, eles dão os meios de conservar o espírito de penitência.

* Na Renascença gozadora da vida, um grande penitente

E isto fez São Pedro de Alcântara numa época em que o espírito de penitência era abominado. Numa época em que a Renascença estava tomando conta do mundo. E em que, exatamente, em virtude daquela explosão do orgulho e de sensualidade de que nós falamos na “RCR”, havia [uma] tendência universal para transformar a vida numa larga série de prazeres, para fazer da vida um ininterrupto prazer.

Nós poderíamos fazer uma digressão que iria muito além dos limites desta nossa conversa a respeito do papel da penitência dentro da vida cotidiana.

* Penitências involuntárias e voluntárias

O que é que nós entendemos aqui por penitência?

Nós entendemos antes de tudo por penitência, aquela penitência que Deus manda e da qual nós não podemos fugir. Quer dizer: as doenças, os infortúnios, os desastres, as humilhações a que os outros nos suspeitam, as incompreensões, todas essas coisas são penitências, porque nos fazem sofrer e Deus manda, e nós não podemos fugir.

Além disso, existem as penitências voluntárias que nós nos impomos a nós mesmos por amor de Deus. A ladainha do Cardeal Merry del Val sugere muitas penitências assim implicitamente. “Que os outros possam ser mais honrados do que eu; vos peço a graça de desejá-lo”. Quer dizer, portanto, eu tendo uma oportunidade de ser honrado; se não há glória especial de Deus em que eu seja honrado, eu faço uma bonita penitência apagando-me e permitido que outros sejam honrados, para por essa maneira, eu sofrer, por essa maneira, eu me desapegar de alguma coisa, por essa maneira eu dar glória a Deus Nosso Senhor.

Essas duas formas de penitência, elas são — e é dessas coisas paradoxais da Igreja —, elas contêm em si a realização da promessa de Nosso Senhor. Aquele que deixar na terra tudo por amor d’Ele, Ele daria o cêntuplo nesta terra e daria depois na vida eterna.

* Aceitação ou não dos sofrimentos, felicidade ou infelicidade

Quer dizer, os senhores prestem bem atenção e os senhores notem o seguinte: há uma categoria de almas na terra que são as almas felizes. E há uma outra categoria de almas na terra que são as almas infelizes. É feliz, é alegre, é cheia de bom humor, a alma que compreende o papel do sofrimento na vida, e que entende que é natural que [se] sofra. Quando lhe acontece um sofrimento não toma isto como um bicho de sete cabeças, não se revolta, não se apavora, mas compreende que o próprio de nossa condição humana é de sofrermos. E que seria uma coisa sem precedentes, sem explicação o nós não sofrermos, e não sofrermos freqüentemente muitas coisas.

Quando uma alma assim recebe um sofrimento, ela sofre mesmo, mas ela sofre sem frigir, não começa a fritar. Sofre achando aquilo natural, sofre e compreende que a razão de ser do homem nesta terra é de dar glória a Deus e que não se dá glória a Deus sem sofrimentos. E que por esta forma é normal que a gente sofra, e que a gente pode agüentar o sofrimento. A gente tendo firmeza, a gente tendo decisão, o sofrimento cai sobre nós, mas nós agüentamos como Nosso Senhor Jesus Cristo agüentou sua cruz. Precisamente pela mesma forma, às vezes, caindo até debaixo do peso da [nossa] cruz… mas nunca se desesperando, nunca tentando abandonar a cruz, nunca achando que está lhe acontecendo um bicho de sete cabeças, mas compreendendo que aquilo faz sentido, que aquilo tem razão de ser levantando-se de novo e carregando a cruz para frente.

* Almas de bom gênio aceitam o sofrimento

Essas almas assim são antes de tudo almas dotadas, ou nativamente, ou pela força que se impuseram a si mesmas, são almas dotadas de bom gênio. Quando alguém lhes faz algo, elas estão prontas a perdoar; quando alguém lhes manda algo, elas estão prontas a obedecer, quando alguém se esquece delas, elas estão prontas a não tomar isto em linha de conta. São almas que estão longe de serem insensíveis. Mas elas têm isto de particular: elas são sensíveis para o bem que se lhes faz. Elas não são sensíveis para o mal que se lhes faz.

* Insensíveis ao sofrimento e zelosas dos interesses da Igreja

Os senhores dirão: “Então não são almas de ‘heresia branca’?”. Nunca! jamais! Porque se há uma coisa que “heresia branca” é: é sensível para consigo. Essas são as almas que saltam na defesa da Causa da Igreja, caso os princípios sejam atingidos. Porque quem se esquece de tal maneira de si mesmo, esse pode ter amor dos princípios.

Essas são, portanto, as almas doutrinárias, são as almas que sabem o que é a procura do absoluto, são as almas que sabem que na vida a única coisa que vale é defender as coisas que são afinal de contas à semelhança de Deus na terra, e por causa disso, mais do que tudo a Santa Igreja Católica Apostólica Romana que compendia em si todos esses valores.

* Fuga dos sofrimentos e frustração

Pelo contrário, a gente vai tomar uma alma que não se tenha capacitado de que o sofrimento é a lei da vida, essa alma vive sofrendo. Porque cada coisa que lhe acontece é para ela um bicho de sete cabeças. Então ela sai na rua, por exemplo, e tropeça, resmunga contra o calçamento, ela pega um automóvel e o sujeito não entende o caminho, ela acha um bicho de sete cabeças ter que explicar para o chofer como é que é. Trata com um amigo e o amigo faz “fassurada”. Não há um amigo que nunca tenha feito “fassurada” para mim. Eu não sei se alguém aqui se encontra limpo dessa culpa… Tenha a bondade de levantar o braço, que eu lhe direi que culpa cometeu… Notem que eu não levantei o meu braço… Bem, então, eu digo que aí é um fritar contínuo de dissabores e de aborrecimentos, e isso vai até à noite. E é tudo.

A gente pergunta para uma pessoa assim — a pessoa faz um passeio —, a gente pergunta:

Foi bom o passeio?

Ah! foi bom… passeou-se…

Há pouco tempo atrás [se deu] isto com uma pessoa de fora do nosso Movimento. A pessoa fez uma viagem intencionada que lhe deveria dar todo o prazer calculado. Quando isto acontece… eu sei que até as saem, e eu não vi ainda uma pessoa tirar o efeito desses projetos, assim. A pessoa [quando voltou]:

Que tal a viagem?

Foi boa…

Mas foi boa, como dizer: “Tal será que não tenha sido ótima! O natural é ser ótima!”. A gente pergunta:

Você gostou?

Mais ou menos, você sabe como é, não é? Essa gente aí, que a gente sai, etc., é sempre gente de uma conversa meio pau. Em certas horas do dia a gente não deixava de sentir um pouco de enfado.

Quer dizer — porque tinha tudo, hem! —, uma casa que é um palácio, com comida que é um banquete, todas as condições para levar a vida ideal. Como em certas horas do dia não deixava de sentir algum enfado, isso já é uma coisa que prejudicou o passeio. Bem, [são] três ou quatro outras bobagens desse gênero.

* Concepção errada: a vida é para ser gozada

Ah! o passeio…”. Afinal meio frustrado. Agora por quê? Porque a pessoa imagina o seguinte: o normal, o banal — tal será que não seja assim — é que me corra tudo perfeito. Isto não é ótimo, não! Isto é o banal. É a mínima das obrigações da vida para comigo. Alguma coisa que tenha saído de errado é um “bonde”: Como isto [foi] me acontecer!? Não entendo!… Não posso aceitar isso! Revolto-me! Frito com isso!.

É diferente de ser rabugento. Há certas pessoas que são rabugentas, mas de uma “rabugice branca”. Passa: “Bobobo, bobobo, bobobo”… A gente vai ver é um modo. O fundo não está atingindo.

Mas há um certo outro modo de fritar que é sem rabujar. E são às vezes pessoas com cara alegre. A gente olha: “Como vai? Bom dia! Até logo!”. Encantadora. Mas a gente vai ver por detrás é uma fritada contínua. O que é que é? É porque é gente que está montada nesta base, que toda hora está com pânico de acontecer alguma coisa que seja um sofrimento. E por outro lado como aquilo vai acontecendo, fica mais ou menos como um sujeito que tem a toda hora um pernilongo que está pousando em cima. Quando não é pernilongo é uma pedrada, não é? E quando não é uma pedrada é um tiro. Então a pessoa julga-se como uma espécie de tiro ao alvo. Com os mil sofrimentos que lhe vêm acontecendo. Resultado: é a pior vida possível. Donde é que vem isto?

* Almas equilibradas, compreendem que o sofrimento faz parte da vida

As primeiras almas são almas que têm espírito de mortificação. São as almas que compreendem que é natural que se sofra, e estão aclimatadas ao sofrimento como no seu ambiente próprio. E acham que todos os sofrimentos que lhes vêm é natural. Elas podem até gemer, elas podem até pedir a Deus que afaste o sofrimento. Mas achando tão natural… são almas abertas para isso.

As outras almas são as almas que não querem os sofrimentos; estas são as que sofrem. As primeiras recebem o cêntuplo nesta vida e mais ainda do que isto.

* Um exemplo de sofrimento aceito com naturalidade

Eu conheço — eu não quero falar de pessoas de dentro do Movimento aqui —, eu conheço uma outra pessoa fora do Movimento, que é exatamente assim: ao longo da vida tem tido muitos sofrimentos. Mas o que é mais digno de respeito nessa pessoa é uma disposição de alma, por onde a gente vê que ela já assumiu de uma vez por todas não só os sofrimentos que já lhe aconteceram, mas todos os sofrimentos que possam vir lhe acontecer. De maneira que ela está com a alma pronta para isso. Mas pronta com flexibilidade, pronta com suavidade, pronta com naturalidade, pronta com elevação, pronta com serenidade. É este verdadeiramente o papel do sofrimento. Quer dizer, dar esta alegria, esta serenidade, esta nobre tristeza da alma que os antigos chamavam “consolação”. É uma pessoa triste, mas consolada. Quão mais feliz do que esta série de loucos e de tarados de hoje em dia que vivem correndo atrás do sofrimento e não conhecem nada.

* Procura frenética do prazer e psicoses

Por isso os senhores vejam bem: os povos onde mais se procuram os prazeres e mais se fogem [aos?] [dos] sofrimentos são os povos onde há maior número de psicoses: Estados Unidos, Suécia. Os povos onde há menos procura de prazeres e mais resignação com o sofrimento, são os povos onde existe mais força, mais consolação. Espanha, por exemplo. Aqui os senhores têm bem as duas coisas diferentes.

* Graça a pedir: veneração pelos que sofrem com grandeza

Bom; conclusão: São Pedro de Alcântara e outros santos penitentes nos dão exemplos para nós admirarmos — mas notem bem, a palavra “admirar” está um pouco banal —, admirarmos até o último extremo da admiração; termos veneração, mas uma dessas venerações que nos varam a alma de lado a lado por aqueles que sofrem. Pelos que sofrem com grandeza, sofrem com resignação, sofrem com entusiasmo.

* Sofrimento prepara para a luta

E uma última palavra das formas de sofrimento:

Uma das mais profundas e uma das mais importantes [formas de sofrimento] é a gente agüentar a luta contra o mal e não apenas agüentar, mas ter espírito de ataque, de intrepidez e de iniciativa na luta contra o mau. O espírito militante de um São Miguel Arcanjo de espada na mão, pronto a correr sobre todos os adversários, a ser o primeiro em todas as batalhas, a dizer não a todos os adversários, a ter todos os trabalhos e todas as lutas, este espírito de heroísmo e de intrepidez na luta é a fina ponta do espírito do sofrimento. E pedindo o espírito do sofrimento é, sobretudo, esse espírito que nós devemos pedir.

E que, então, nós peçamos a São Pedro de Alcântara que nos alcance na noite de hoje.

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