Santo
do Dia – 13/10/1964 – p.
Santo do Dia — 13/10/1964 — 3ª-feira
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S. Pedro de Alcântara, penitência e equilíbrio social; inerente a esse Vale de Lágrimas os sofrimentos; aceitá-los, dá-nos paz; fugir deles, frustração; a concepção de que a vida é só prazer gera psicoses;
aceitação dos sofrimentos e heroísmo.*
Autêntica humildade e concepção “heresia branca” * S. Pedro de Alcântara e penitência * Justo equilíbrio numa sociedade sacralizada * Ordens Terceiras e equilíbrio da sociedade * Certa dose de penitência todos devem ter * Penitência numa época de gozo da vida * Penitência das quais não podemos fugir * Penitência voluntária * Almas de bom gênio compreendem o papel do sofrimento * Almas que fogem do sofrimento: frustradas * Dois tipos de alma * Papel do sofrimento: alegria, serenidade, consolação * Prazer e psicopatias * Heroísmo, fina ponta do sofrimento
São Pedro de Alcântara
...… [faltam palavras] ...…cada vez o santo cuja festa fosse em dia imediato. Mas amanhã não há santo do dia, e hoje há um que não pudemos comentar ontem, porque era domingo e não fizemos a nossa reunião. E é um santo de muita expressão, máxime no dia em que D. Pedro está aqui entre nós, porque hoje é a festa de São Pedro de Alcântara, Confessor.
(Sr. -:(Sr.(Sr. –:...… [faltam palavras] ...…)
Do Brasil, Franciscano, século XVI e Padroeiro da família imperial do Brasil. Não sei se também da Casa de Bragança em Portugal...… Mas pelo menos no Brasil, o nome de São Pedro de Alcântara que pode ser considerado padroeiro também da Casa Imperial do Brasil.
[Alguém diz algo]
Ah, ele era padroeiro do Brasil por ser padroeiro da Casa Imperial?
[Alguém diz algo]
Ah, sim, dos dois imperadores, sim.
(Sr. -:(Sr.(Sr. –: Mas acho que tiraram. Não é mais padroeiro do Brasil)
Ah, não é mais padroeiro do Brasil?!
(Sr. -:(Sr.(Sr. –: ...… [faltam palavras] ...…)
Ah, é?!
(Sr. -:(Sr.(Sr. –: ...… [faltam palavras] ...…)
É uma segunda proclamação da República no Céu, agora, não é?...… Tiraram os Pedros da terra e agora tiram o Pedro do Céu, e depois põem assim, com o “Pedro” do Vaticano, uma espécie de abat-jour em cima, chamado colegialidade, não é?...… Que não apaga, mas abafa, não é?...…
Bem. Vai bem...… Em todo o caso, vale a pena nós fazermos um comentário a respeito de São Pedro de Alcântara. Infelizmente, a respeito de São Pedro de Alcântara, eu sei muito pouca coisa.
* Autêntica humildade e concepção “heresia branca”
Eu já disse aos senhores que esses meus comentários à noite são muito improvisados, porque eu não tenho a instrução hagiográfica necessária para dar um comentário cabal da vida de cada santo que se comenta aqui. E menos ainda tenho tempo para estudar uma pequena hagiografia para dar à noite. Seria uma beleza, seria uma fioretti...… “heresia branca” sobretudo gostaria muito: eu assim, às seis, seis e meia, andando plácido aqui debaixo dessas arvores, lendo uma vida de um santo, de vez em quando parando. Oh!...… À noite um comentário inteiramente noticioso, informado, e açucarado. Infelizmente não me é dado fazer isto, se me fosse dado não faria; mas, não me é dado fazer isto e eu tenho que pegar fiapos que me constam de cá e de lá e utilizar esse fiapos para algum comentário.
Os fiapos do dia de hoje me saíram da erudição do Dr. Paulo Barros de Ulhôa Cintra durante o jantar. Eu não tive segundas intenções quando conversamos sobre São Pedro de Alcântara; mas afinal de contas, algumas coisas eu fiquei sabendo dele.
* S. Pedro de Alcântara e penitência
Eu fiquei sabendo a respeito dele, que ele era um santo sumamente penitente, que é a própria personificação da penitência na Igreja Católica e no século XVI; que ele ajudou muito Santa Teresa de Jesus para a fundação dos Carmelos e para a direção espiritual dela; e há depois um episódio muito pitoresco que me sobrenada nos naufrágios das reminiscências de uma vida de Santa Teresa que eu li, do encontro dele e dela numa estalajadeiria [estalagem]. A respeito destes três dados, eu creio que algum comentário pode caber.
* Justo equilíbrio numa sociedade sacralizada
Em primeiro lugar a respeito do caráter penitente de São Pedro de Alcântara. Eu falei outro dia a respeito do papel das ordens contemplativas na Igreja. E mostrei que — se bem que na Igreja não deva ser cada um contemplativo — para que todos aqueles que vivam no século tenham a medida de contemplação necessária, cumpre que haja algumas Ordens que levem o espírito de contemplação tão longe quanto possível. Essas Ordens dão uma espécie de sustentação à nota contemplativa que deve caber na vida comum de todos os homens, na vida mediana de todos os homens que querem realmente se santificar.
* Ordens Terceiras e equilíbrio da sociedade
Assim também se pode dizer da penitência. Não há a possibilidade de todos os homens praticarem a penitência que os grandes santos penitentes praticaram. Nem isto seria desejável. Se todos quisessem praticar essa penitência por esta forma, a Igreja poria um cobro a isto. E é muito expressivo que o próprio São Francisco de Assis fundou as ordens terceiras, para pôr cobro à generalização do desejo que tinham as pessoas no século XIII de entrarem para a Ordem Franciscana. Tanto eram os que queriam ser franciscanos, que o século corria o risco de ficar abandonado. Então para que o espírito franciscano pudesse florescer no século, ele fundou a ordem terceira que foi uma espécie de padrão para a fundação depois de outras ordens terceiras em outras famílias religiosas.
* Certa dose de penitência todos devem ter
O que se diz, portanto, da oração, pode-se dizer da penitência também; deve haver uma certa medida de penitência nesta vida, na vida quotidiana do homem comum que quer seriamente se santificar, e os grandes santos penitentes, os grandes santos sofredores são exatamente aqueles que mantêm pelo exemplo e pelo deslumbramento da penitência, mantêm então nos outros o espírito de penitência necessário. E a esse título eles são, então, pilares da Igreja, porque eles conservam, como um sal que evita a podridão, eles conservam na sociedade civil, eles conservam nas outras Ordens religiosas não especialmente consagradas à penitência, eles conservam no clero secular e nos mais altos degraus da Hierarquia eclesiástica, eles dão os meios de conservar o espírito de penitência.
* Penitência numa época de gozo da vida
E isto fez São Pedro de Alcântara numa época em que o espírito de penitência era abominado. Numa época em que a Renascença estava tomando conta do mundo. E em que exatamente, em virtude daquela explosão de orgulho e de sensualidade de que nós falamos na “RCR”, havia uma tendência universal para transformar a vida numa larga série de prazeres, para fazer da vida um interrupto prazer. Nós poderíamos fazer uma digressão que iria muito além dos limites desta nossa conversa, a respeito do papel da penitência dentro da vida comum.
* Penitência das quais não podemos fugir
O que é que nós entendemos aqui por penitência? Nós entendemos antes de tudo por penitência, aquela penitência que Deus manda e da qual nós não podemos fugir. Quer dizer, as doenças, os infortúnios, os desastres, as humilhações a que os outros nos sujeitam, as incompreensões, todas essas coisas são penitências, porque nos fazem sofrer e Deus manda e nós não podemos fugir.
* Penitência voluntária
Além disso, existem as penitências voluntárias que nós nos impomos a nós mesmos por amor de Deus. A ladainha do Cardeal Merry del Val sugere muitas penitências assim, implicitamente. “Que os outros possam ser mais honrados do que eu, vos peço a graça de desejá-lo”. Quer dizer, portanto, eu tendo a oportunidade de ser honrado, se não há glória especial de Deus em que eu seja honrado, eu faço uma bonita penitência apagando-me e permitindo que outros sejam honrados, para por esta maneira eu sofrer, por esta maneira eu me desapegar de alguma coisa, por essa maneira eu dar glória a Deus Nosso Senhor. Estas duas formas de penitência, elas são...… — e é dessas coisas paradoxais da Igreja — elas contêm um si a realização da promessa de Nosso Senhor. Aquele que deixar na terra tudo por amor d’Ele, Ele daria o cêntuplo nesta terra e daria depois a vida eterna.
* Almas de bom gênio compreendem o papel do sofrimento
Quer dizer, os senhores prestem bem atenção e os senhores notem o seguinte: há uma categoria de almas na terra, que são almas felizes. E há uma outra categoria de almas na terra que são as almas infelizes. É feliz, é alegre, é cheia de bom humor, a alma que compreende o papel do sofrimento na vida. E que entende que é natural que sofra. Quando lhe acontece um sofrimento não toma isto como um “bicho de sete cabeças”, não se revolta, não se apavora, mas compreende que o próprio de nossa condição humana é de sofrermos. E que seria uma coisa sem precedentes, sem explicação, o nós não sofrermos e não sofrermos freqüentemente muitas coisas. Quando uma alma assim recebe um sofrimento, ela sofre mesmo, mas ela sofre sem frigir, não começa a fritar. Sofre achando aquilo natural. Sofre compreendendo que a razão de ser do homem nesta terra é de dar glória a Deus, e que não se dá glória a Deus sem sofrimento. E que por esta forma é normal que a gente sofra e que a gente pode agüentar o sofrimento.
A gente tendo firmeza, a gente tendo decisão, o sofrimento cai sobre nós, mas nós agüentamos como Nosso Senhor Jesus Cristo agüentou a cruz. Precisamente pela mesma forma. Às vezes caindo até debaixo do peso da cruz, mas nunca se desesperando, nunca tentando abandonar a cruz, nunca achando que está lhe acontecendo um “bicho de sete cabeças”, mas compreendendo que aquilo faz sentido, que aquilo tem razão de ser, levantando-se de novo e carregando a cruz para a frente. Essas almas assim, são antes de tudo, almas dotadas, ou nativamente ou pela força que se impuserem a si mesmas, são almas dotadas de bom gênio.
Quando alguém lhes faz algo, elas estão prontas a perdoar; quando alguém lhes manda algo, elas estão prontas a obedecer; quando alguém se esquece delas, elas estão prontas a não tomar isto em linha de conta. São almas que estão longe de serem insensíveis. Mas elas têm isto de particular: elas são sensíveis para o bem que se lhes faz. Elas não são sensíveis para o mal que se lhes faz.
Os senhores dirão: “Então não são almas de “heresia branca?” Nunca, jamais. Porque se há uma coisa que “heresia branca” é, é sensível para consigo.
Estas são as almas que saltam na defesa da causa da Igreja, caso os princípios sejam atingidos. Porque quem se esquece de tal maneira de si mesmo, esse pode ter amor [aos] princípios. Essas são, portanto, as almas doutrinárias, são as almas que sabem o que é a procura do absoluto. São as almas que sabem que na vida a única coisa que vale é defender as coisas que são, afinal de contas, a semelhança de Deus na terra, e por causa disso, mais do que tudo, a Santa Igreja Católica Apostólica Romana que compendia em si todos esses valores.
* Almas que fogem do sofrimento: frustradas
Pelo contrário, a gente vai tomar uma alma que não se tenha capacitado de que o sofrimento é a lei da vida, essa alma vive sofrendo. Porque cada coisa que lhe acontece é para ela um “bicho de sete cabeças”. Então ela sai na rua, por exemplo, e tropeça, resmunga contra o calçamento. Ela pega um automóvel e o sujeito não entende o caminho, ela acha um “bicho de sete cabeças” ter que explicar para o chauffer como é que é. Trata com um amigo e o amigo faz “fassurada” — não há um amigo que nunca tenha feito “fassurada” para mim, eu não sei se alguém aqui se encontra limpo dessa culpa, tenha bondade de levantar o braço que eu lhe direi que culpa cometeu. Notem que eu não levantei o meu braço.
Bem, então, eu digo que aí é um fritar contínuo de dissabores e de aborrecimentos. E isso vai até à noite. E é tudo. A gente pergunta para uma pessoa assim — a pessoa faz um passeio — a gente pergunta: “Foi bem o passeio?” “Ah, foi bom. Passeou-se...…”
Há pouco tempo atrás, foi isto com uma pessoa fora do nosso movimento. A pessoa fez uma viagem intencionada que lhe deveria dar todo o prazer calculado. Quando isto acontece, eu sei que até as saem, e eu não vi ainda uma pessoa tirar o efeito desses projetos, assim. A pessoa voltou-se: “Que tal a viagem?” “Foi boa...…” Mas foi boa, como dizer: “Tal será que não tenha sido ótima...…” O natural é ser ótima.
A gente pergunta: “Você gostou?”
- Mais ou menos você sabe como é, não é? Essa gente aí, que a gente sai, etc., etc., é sempre gente de uma conversa meio “pau. Em certas horas do dia a gente não deixava de sentir um pouco de enfado.
Quer dizer, porque tinha tudo, hein? Uma casa que é um palácio, com comida que é um banquete, todas as condições para levar a vida ideal. Como em certas horas do dia não deixava sentir algum enfado, isso já é uma coisa que prejudicou o passeio. Bem...… é três ou quatro outras bobagens desse gênero. “Ah, o passeio...… Afinal foi frustrado”.
Agora, por que? Porque a pessoa imagina o seguinte:
O normal, o banal — tal será que não seja assim! — é que me corra tudo perfeito. Isto não é ótimo, não. Isto é o banal! É a mínima das obrigações da vida para comigo. Alguma coisa que tenha saído de errado é um “bonde”. Como? Isto me acontecer?!...… Não entendo!...… Não posso aceitar isso!...… Revolto-me! Frito com isso!
É diferente de ser rabugento. Há certas pessoas que são rabugentas, mas de uma rabugice branca. Passa, bobobo...… bobobo...… bobobo...… a gente vai ver é um modo. O fundo não está atingido. Mas há um certo outro modo de fritar que é sem rabujar. E são às vezes pessoas com cara muito alegre. A gente olha: “Como vai? Bom dia! Até logo!” Encantadora. Mas a gente vai ver por detrás, é uma fritada contínua. O que é que é? É porque é gente que está montada nesta base, que toda hora está com pânico de acontecer alguma coisa que seja um sofrimento. E por outro lado, como aquilo vai acontecendo, fica mais ou menos como um sujeito que tem a toda hora um pernilongo que está pousando em cima. Quando não é pernilongo é uma pedrada, não é?...… E quando não é uma pedrada é um tiro...… Então a pessoa julga-se como uma espécie de tiro ao alvo. Com os mil sofrimentos que lhe vêm acontecendo. Resultado: é a pior vida possível.
* Dois tipos de alma
Donde é que vem isto? As primeiras almas são almas que têm espírito de mortificação. São as almas que compreendem que é natural que se sofra, e estão aclimatadas ao sofrimento como no seu ambiente próprio. E acham que todos os sofrimentos que lhes vem, é natural. Elas podem até gemer. Elas podem até pedir a Deus que afaste o sofrimento. Mas achando tão natural; são almas abertas para isto. As outras almas são as almas que não querem o sofrimento, estas são as que sofrem. As primeiras recebem o cêntuplo nesta vida. E mais ainda do que isto.
Eu conheço — eu não quero falar de pessoas de dentro do movimento aqui — eu conheço uma outra pessoa fora do movimento, que é exatamente assim: ao longo da vida tem tido muitos sofrimentos. Mas o que é mais digno de respeito nesta pessoa, é uma disposição de alma, por onde a gente vê que ela já assumiu de uma vez por todas, não só os sofrimentos que já lhe aconteceram, mas todos os sofrimentos que possam vir lhe acontecer. De maneira que ela está com a alma pronta para isto. Mas pronta com flexibilidade. Pronta com suavidade. Pronta com naturalidade. Pronta com elevação, pronta com serenidade.
* Papel do sofrimento: alegria, serenidade, consolação
É este verdadeiramente o papel do sofrimento. Quer dizer, dar esta alegria, esta serenidade, esta nobre tristeza da alma que os antigos chamavam consolação. É uma pessoa triste, mas consolada.
* Prazer e psicopatias
Quão mais feliz do que esta série de loucos e de tarados de hoje em dia que vivem correndo atrás [fugindo] do sofrimento e não conhecem nada. Por isso, os senhores vejam bem, os povos onde mais se procura o prazer e mais se foge ao sofrimento, são os povos onde há maior número de psicose. Estados Unidos, Suécia. Os povos onde há menos procura de prazer e mais resignação com o sofrimento, são os povos onde existe mais força, mais consolação. Espanha, por exemplo. Aqui os senhores têm bem as duas coisas diferentes.
Bom...… Conclusão?...… São Pedro de Alcântara, e os outros santos penitentes nos dão exemplos para nós admirarmos, mas notem bem, a palavra admirar está um pouco banal. Admirarmos até o último extremo da admiração. Termos veneração, mas uma dessas venerações que nos varam a alma de lado a lado, por aqueles que sofrem. Pelos que sofrem com grandeza, sofrem com resignação, sofrem com entusiasmo.
* Heroísmo, fina ponta do sofrimento
E uma última palavra. Das formas de sofrimento, uma das mais profundas e uma das mais importantes é a gente agüentar a luta contra o mal; e não apenas agüentar, mas ter espírito de ataque, de intrepidez e de iniciativa na luta contra o mal. O espírito militante de um São Miguel Arcanjo, de espada na mão pronto a correr sobre todos os adversários, a ser o primeiro em todas as batalhas, a dizer “não!” a todos os adversários, a ter todos os trabalhos e todas as lutas, esse espírito de heroísmo e de intrepidez na luta é a fina ponta do espírito do sofrimento. E pedindo o espírito do sofrimento é, sobretudo, esse espírito que nós devemos pedir. E que então nós peçamos a São Pedro de Alcântara que nos alcance na noite de hoje.
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