Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 7/10/1964 –
6ª feira [SD 108] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 7/10/1964 — 6ª feira [SD 108]
Nome
anterior do arquivo:
Rosário: devoção revelada por Nossa Senhora, característica dos predestinados e de grande poder contra o demônio * Esplêndida conjunção da oração vocal com a mental * Obra-prima da doutrina católica, sólida, pensada, própria ao varão católico, um périplo de toda a vida de Nosso Senhor * A superexcelência do Rosário vem de um ato soberano do livre alvedrio da sabedoria e liberalidade de Maria — Lepanto * Como no passado, marcará o momento culminante e decisivo da luta durante a Bagarre * Temer pela própria salvação, se omitir o rosário diário, a exemplo de Santo Afonso — Sinal de progresso e de decadência * Devoção verdadeiramente incomparável, mesmo com relação ao ofício parvo * Resolução indispensável de rezar sempre o rosário, meditando-o * Uma preferência estabelecida por Nossa Senhora, similar ao fruto do paraíso * O ódio dos inimigos comprova a eficácia do Rosário
Hoje é a festa de Nossa Senhora do Rosário. Foi instituída em comemoração da vitória de Lepanto, alcançada neste dia contra os turcos que ameaçavam a Europa. Estendida à Igreja universal em Ação de Graças pela queda do crescente em 1716, na Hungria. E estamos também na novena de Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida.
* Rosário: devoção revelada por Nossa Senhora, característica dos predestinados e de grande poder contra o demônio
Sobre a devoção ao Santo Rosário, tanta coisa se tem dito entre nós e é uma devoção de tal maneira inculcada entre nós, que eu me sinto quase embaraçado em encontrar algo mais a acrescentar.
Talvez fosse interessante a gente tomar o espírito dessa devoção em alguns dos seus aspectos para compreendermos bem o valor da devoção ao Rosário.
Em primeiro lugar, esta devoção tem como mérito muito grande o fato de ter sido revelada por Nossa Senhora a São Domingos. Nasceu, portanto, de uma das revelações particulares que os inimigos da Igreja, externos e internos, tanto abominam.
É uma revelação particular que deu origem a esta devoção e, entretanto, esta devoção se estendeu por toda a Igreja Católica. Ficou sendo considerada por São Luís Grignion de Montfort [como] a devoção característica dos predestinados. Passou a ser — no tempo em que havia hábitos de ordens religiosas — o distintivo de muitas ordens religiosas que, em seu hábito, traziam o Rosário à cintura. A bem dizer, passou a ser objeto da piedade clássica de todo verdadeiro católico.
De maneira que, assim como acontece hoje conosco, tempo houve em que todo verdadeiro católico levava normalmente o Rosário consigo o dia inteiro. Já não considerava apenas como instrumento para contar Ave Marias, mas como instrumento bento, como que uma espécie de corrente de ligação com Nossa Senhora, cuja presença, cuja posse física, tinha o condão de afugentar o demônio, de atrair a graça de Nossa Senhora, etc.
Há episódios de lutas contra o demônio em que exorcistas e outras pessoas atiram o Rosário sobre o demônio e o demônio foge correndo. De tal maneira que o Rosário passou a ser uma espécie de elemento de luta permanente contra o demônio.
* Esplêndida conjunção da oração vocal com a mental
Ora, o que é que vem a ser o Rosário?
Na síntese, como sabemos bem, o Rosário se compõe da meditação dos mistérios da vida de Nossa Senhora e de Nosso Senhor, de tal maneira que ao mesmo tempo em que se medita a respeito desses mistérios, pronunciam-se vocalmente as orações.
Esta conjunção da oração vocal com a meditação é uma coisa esplêndida, porque enquanto os lábios proferem uma súplica, o espírito se concentra num ponto, e por esta dupla atividade o homem faz, a bem dizer, tudo o que pode fazer na ordem sobrenatural. Sim, porque se une por suas intenções àquilo que seus lábios pronunciam e se entrega, por sua mente, àquilo que seu espírito medita.
Por esta forma ele se liga intimamente a Deus durante essa oração. Ligação tanto mais acentuada e definida, quanto, sendo Nossa Senhora Medianeira de todas as graças e sendo o grosso das orações do Rosário Ave Marias, é por meio da Medianeira de todas as graças que a pessoa se dirige a Deus.
* Obra-prima da doutrina católica, sólida, pensada, própria ao varão católico, um périplo de toda a vida de Nosso Senhor
Há, portanto, uma espécie de pequeno tesouro de elementos de Teologia dentro do Rosário que fazem dele uma verdadeira obra‑prima da espiritualidade e uma obra‑prima da Doutrina Católica.
Da Doutrina Católica como deve ser entendida: não feita de emoções, mas séria, sólida, pensada, com uma porção de razões de ser firmes, que então nos explicam que o Rosário realmente é uma devoção suculenta, substanciosa e de grande valor. O que explica o porquê das inúmeras graças que Nossa Senhora, por meio dessa devoção, tem concedido a todos.
De outro lado, é muito bonito isto de meditar cada uma das dezenas do Rosário, porque em cada uma dessas dezenas se contempla um mistério, que confere graças próprias. Umas são graças que nós podemos obter por causa do mistério da Anunciação, outras podemos obter por causa do mistério da Visitação, outras que podemos obter pelo mistério da Ascensão, etc. Cada um desses mistérios traz graças próprias e nós, rezando e meditando sobre esses mistérios, atraímos sobre nossas almas, a bem dizer, de um modo global, todas as graças da vida de Nosso Senhor Jesus Cristo.
É, portanto, uma espécie de circunavegação, um périplo dentro desse mundo que enche a nossa alma. E é este mais um título pelo qual nós compreendemos a ação benfazeja do Rosário.
Eu chamo a atenção dos senhores para o seguinte: como isto é profundamente raciocinado, como isto é profundamente pensado e ponderado, para se poder ter bem em vista como é a vida espiritual do católico e sobretudo do varão católico, a vida espiritual do varão católico.
A vida espiritual do varão católico é feita de pensamento, de reflexão com base na Fé, de conclusões que se arquitetam, que se travam umas nas outras e que constituem um sistema. E os senhores vêm aí que a gente, analisando ponto por ponto esta devoção, encontra uma porção de razões, e razões sérias, que nos convencem e que nos incutem confiança nesta devoção.
* A superexcelência do Rosário vem de um ato soberano do livre alvedrio da sabedoria e liberalidade de Maria — Lepanto
Agora, em todas essas devoções há algo mais: é que não só a devoção é muito boa, mas Deus, no modo pelo qual Ele governa o universo, faz tudo com conta, peso e medida, mas Ele por assim dizer usa de sua soberana liberdade fazendo, por um ato que é de santíssimo e sapientíssimo arbítrio, algo que vem, que se acrescenta a isto, e que, vamos dizer, não tem outra razão de ser a não ser a simples vontade de Deus.
Quer dizer, o Rosário é uma devoção excelente por todos esses motivos. Mas a gente vê, por todas as graças que ele tem alcançado para a Humanidade, que Nossa Senhora quis esta devoção de um modo especial, e por um ato de sua pura liberalidade, para superacrescentar as graças.
Então, entre as muitas outras devoções, que também são excelentes, que também se fundam em razões teológicas, Ela resolveu realçar esta e conceder, a propósito desta devoção, graças muito especiais.
De maneira que, então, além de todos esses motivos, há ainda um motivo histórico que se acrescenta a eles.
É que se nós considerarmos essa devoção, nós vemos que ela tem sido ao longo da história da Igreja uma oportunidade enorme para graças que Nossa Senhora concede porque Ela quer, e em que se afirma este caráter próprio de soberana, que é um certo arbítrio livre que paira acima das contingências, que não é o contrário da sabedoria, mas que é o supra-sumo da sabedoria: é o livre alvedrio da soberana fazendo, por um ato próprio e gratuito de sua liberalidade, algo a que, em rigor, a natureza das coisas não a obrigava.
E nisso nós temos então uma espécie de superexcelência do Rosário.
Os senhores têm então, entre outras graças insignes alcançadas pelo Rosário, a graça de Lepanto.
Os senhores sabem que a vitória de Lepanto foi alcançada enquanto São Pio V rezava o Rosário, em que teve uma visão. Ele estava muito aflito numa reunião de cardeais, ele saiu, durante a visão, um pouco junto à janela e começou rezar o Rosário preocupado com o destino da esquadra que tinha sido mandada para cortar os turcos no Mediterrâneo Oriental. Sabe-se que a derrocada da Cristandade estava iminente nesse momento e que o Papa era quase o único a se preocupar com isso.
Depois de ele ter acabado de rezar o Rosário, ele voltou-se para os cardeais e comunicou-lhes que tinha havido uma vitória. Quer dizer, ele teve a revelação da vitória enquanto rezava o Rosário, por onde Nossa Senhora deixou manifesto que era em atenção das graças do Rosário que Ela concedia aquela vitória. Então a vitória de Lepanto ficou ligada à devoção do Santo Rosário.
Outra vitória assinalada, no mesmo gênero e contra o mesmo inimigo, que era o Crescente, foi em 1716 na Hungria. Então foi estendida à Igreja universal a festa de Nossa Senhora do Rosário, para agradecer esta segunda vitória contra o Crescente.
* Como no passado, marcará o momento culminante e decisivo da luta durante a Bagarre
Agora, se os antecedentes são esses, e se Nossa Senhora quis obter para a Cristandade duas grandes vitórias contra o mesmo inimigo, que era no tempo que ele existia o grande inimigo da Igreja, como hoje o é o comunismo, nós podemos muito legitimamente concluir que pela devoção do Rosário — que deverá durar certamente até o fim dos tempos — nós poderemos alcançar, na luta contra o comunismo, vitórias também espetaculares.
E nós podemos concluir daí uma outra coisa: é que provavelmente, durante os acontecimentos previstos em Fátima, a recitação assídua do Rosário por aqueles que lutarem pelo Reino de Maria, essa recitação assídua do Rosário será uma das grandes ocasiões de vitória, e talvez marcará o momento culminante da luta que nós devemos travar. Estaremos lutando, mas estaremos ao mesmo tempo talvez rezando — ou alguns dos nossos estarão rezando presumivelmente, é claro que é uma hipótese — o Santo Rosário, no momento em que as coisas se desfecharão e o adversário for definitivamente derrotado.
Quer dizer, o santo Rosário em virtude de seus antecedentes históricos, constituídos livremente por Nossa Senhora, o santo Rosário é um penhor de vitórias futuras.
* Temer pela própria salvação, se omitir o rosário diário, a exemplo de Santo Afonso — Sinal de progresso e de decadência
Eu acrescentaria que ele é um penhor de vitórias futuras por outra razão.
Eu sempre me impressionei muito como um fato que li numa excelente biografia de Santo Afonso Maria de Ligório, que eu já narrei aqui.
O santo bispo, fundador de uma ordem religiosa, já muito velho, andando de cadeira de rodas pelo convento, um irmão o levava, e os dois iam rezando juntos. Ele andava pelo convento para espairecer um pouco, para não estar sempre no quarto. Então ele uma vez perguntou ao irmão, ou mais de uma vez, não lembro bem, se já haviam rezado o Rosário inteiro. O irmão disse:
— Não me lembro bem.
— Rezemos então — disse o santo.
— Mas o senhor está cansado! Que diferença faz, afinal, num dia não rezar o Rosário! — respondeu o irmão.
— Se um dia se passar sem que eu reze o Rosário, tenho medo pela minha salvação eterna.
Eu gostei desse trecho porque eu acho que todos nós devemos sentir exatamente o mesmo. O Rosário quotidiano é a grande garantia de perseverança final.
Se um membro de nosso movimento abandonasse a devoção ao Rosário, tenho a impressão que se desintegraria, e que o mau espírito, as discórdias, as desconfianças, as desavenças, tudo pulularia dentro dele e de um momento para outro este desapareceria de nosso movimento. E quanto mais forem numerosos os elementos que, vencendo fraquezas, rezem o Rosário diário, tanto mais o movimento progredirá. Se o número de pessoas que rezam o Rosário diário decaísse, o movimento decairia também. O Rosário não seria apenas um sintoma de progresso ou de decadência, mas sim uma causa de progresso ou decadência. E o Rosário bem rezado, pausadamente rezado, é um elemento magnífico para nós alcançarmos esse progresso, essa perseverança que deve nos levar à fidelidade suprema na hora em que as profecias de Fátima se cumprirem.
* Devoção verdadeiramente incomparável, mesmo com relação ao ofício parvo
Quer dizer, desde já, nesta espécie de prolongada Lepanto que é a vida do católico de nossos dias, o Rosário tem um papel primordial, um papel verdadeiramente capital. Eu até louvei muito a largueza de vistas de Frei Jerônimo que como diretor da Ordem Terceira compreendeu bem isto e dispensou a muitíssimos de nós ou a todos ele dispensou de rezarmos o Ofício para rezarmos o Rosário, compreendendo a relação especialíssima do Rosário conosco.
Alguém dirá: “Mas o Ofício ou o Rosário não dá mais ou menos na mesma?”.
Eu volto àquela minha idéia de uma espécie de ato arbitrário de Nossa Senhora, mas santamente arbitrário, pelo qual Ela cumulou o Ofício de indulgências e é muito louvável rezá-lo, mas do Rosário fez uma devoção verdadeiramente incomparável. De maneira que a minha indicação na noite de hoje é de um veemente esforço para rezarmos o Rosário inteiro todos os dias.
* Resolução indispensável de rezar sempre o rosário, meditando-o
Mais ainda, pedirmos a Nossa Senhora como graça de hoje, que todos rezem o Rosário todo dia, superando alguma fraqueza, algum cansaço que possa apresentar a respeito disso. E para tornar o Rosário útil, interessante, quer dizer, útil e mais fácil de rezar, creio que o processo indicado por São Luís Maria Grignion — que faz do Rosário estupendo elogio — é um processo muito bom. Decompor o mistério em dez pontos e, segundo, cada conta meditar um ponto. De maneira que haja uma certa variedade de considerações e o espírito possa mais facilmente se concentrar.
Há vários processos assim. Eu não sei se não seria uma coisa para se estudar, reproduzirmos na circular-boletim aquela decomposição das contas de São Luís Grignion, com uma insistência neste ponto, alguma coisa assim, talvez fosse interessante. Muitos têm o livro de São Luís Grignion, mas apoiar sobre isso seria curioso, seria vantajoso. Ou quando nós fizermos alguma Preces na nossa Preces nós pusemos isso, não é?
Então a recomendação é esta do Rosário diário, compreendendo isto: que por um ato de liberdade de Nossa Senhora, desde já a Lepanto da vida de cada um de nós está ligada à recitação diária do Rosário. E eu lhes garanto que quanto mais perseverança, quanto mais calor na recitação diária do Rosário, mais nós iremos para frente.
* Uma preferência estabelecida por Nossa Senhora, similar ao fruto do paraíso
E eu volto a dizer, não adianta vir com essa coisa: “Mas afinal, essa devoção ou outra, não é igual?”.
Nossa Senhora tem o direito de estabelecer as suas preferências.
Há alguns autores que acham a respeito do fruto proibido do Paraíso que não tinha nada de intrinsecamente mau, como aliás isso se sabe, mas também que era uma coisa puramente arbitrária de Deus, ligada àquilo. Não se podia comer porque Ele não queria, mais nada. Por um ato de autoridade d’Ele. E era preciso obedecer.
Há também um ato de humildade em rezar o Rosário entre tantas devoções tão excelentes, rezar o Rosário porque Nossa Senhora tem indicado que Ela prefere essa devoção. E que a prefere talvez apenas por um ato de obediência que se tem que prestar rezando isto, porque Ela declarou que prefere. E assim, portanto, devemos nos apegar ao santo Rosário com todas as forças de nossa alma. E é a mais combatida evidentemente.
* O ódio dos inimigos comprova a eficácia do Rosário
Eu gostaria concluir dizendo que em muitos lugares havia antigamente — e ainda continua hoje — a tradição de sepultar os mortos levando nas mãos dos mortos um pequeno crucifixo e que se completou naturalmente entrelaçando nas mãos do morto um Rosário. E a idéia é essa: que o morto se apresente ao céu com a Cruz e o Rosário. Exatamente com a cruz e o Rosário porque o Rosário passou a ser, vamos dizer, o elemento inseparável da verdadeira piedade cristã.
Por isso mesmo, como dizia bem o José Fernando, por isso mesmo o Rosário foi muito mais combatido. E se contraprova devesse haver da predileção de Nossa Senhora pelo Rosário, essa contraprova seria o ódio que os inimigos d’Ela têm contra o Rosário. Um ódio também marcadíssimo.
Os senhores não verão os inimigos da Igreja, internos ou externos, atacarem nenhuma devoção a Nossa Senhora, tanto quanto atacam o Rosário. Isso é naturalmente porque o demônio sente e sabe que Ela quis por meio do Rosário dispensar muitas graças.
Com essas considerações, eu creio que nos cabe aqui formar um propósito e pedir a Nossa Senhora que abençoe esse nosso propósito, e que nos dê as graças para o cumprirmos adequadamente.
*_*_*_*_*