Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 6/10/1964 –
3ª feira [SD 010] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 6/10/1964 — 3ª feira [SD 010]
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Não se concebe um cartuxo cuja mentalidade e espírito não estejam voltados para a vida interior, a contemplação * Das coisas que mais dizem respeito à RCR, é o assunto da dissipação e a contemplação * A mente humana equilibrada oscila pouco e deve ter ritmo na velocidade
Hoje é festa de São Bruno, fundador dos cartuxos, século XI. É também novena de Nossa Senhora Aparecida e novena de Nossa Senhora do Rosário.
* Não se concebe um cartuxo cuja mentalidade e espírito não estejam voltados para a vida interior, a contemplação
Eu acho interessante nós falarmos uma palavra a respeito de São Bruno e do porque São Bruno está aqui, no nosso calendário.
Os senhores conhecem naturalmente a organização da cartuxa, e sabem que o cartuxo está mais ou menos a meio termo entre o eremita e o cenobita. Quer dizer, os cartuxos não são propriamente eremitas nesse sentido de dizer que eles vivem cada um num lugar inteiramente diverso do outro, num diverso absoluto. Eles também não são cenobitas porque eles não vivem propriamente em conventos como os trapistas. Mas eles são uma ordem religiosa em que cada frade vive sozinho numa casa e ali ele tem todo o necessário para viver. Ele racha sua lenha, ele tem seu fogão, ele faz sua cozinha, ele faz a sua limpeza, ele preenche grande parte do seu dia com orações e com estudos que dizem respeito à matéria mística, à matéria contemplativa, a altas indagações de caráter religioso.
Quer dizer, não se concebe bem um cartuxo que seja especialista a respeito de formigas, ou de astronomia, ou qualquer coisa, mas seus estudos devem voltar-se para esse lado. Quer dizer, toda a sua mentalidade, todo o seu espírito, deve estar voltado para a vida interior, para a contemplação, para as relações da alma com Deus. Eles se reúnem para o coro e também para, pelo menos em certos dias, comerem num refeitório. Eles têm um refeitório em que eles comem juntos.
Entre as pequenas coisas que caracterizam a ordem e que são dessas bagatelas pitorescas de que eu me lembro sempre quando eu vejo estas taças de consommé que têm duas asas, nos cartuxos as xícaras e as taças em que eles bebem o vinho ou líquido comum têm todas duas asas. E há um certo modo cartuxiano de tomar a coisa e de beber.
E beber vem muito a propósito do cartuxo, porque os senhores sabem que o famoso licor Chartreuse é exatamente dos cartuxos e que eles são os fabricantes desse excelente licor.
* Das coisas que mais dizem respeito à RCR, é o assunto da dissipação e a contemplação
Agora, por que razão é que os cartuxos figuram no nosso calendário?
É porque uma das coisas que dizem mais respeito à temática Revolução-Contra-Revolução, é o assunto contemplação e dissipação.
Uma das objeções maiores que nós fazemos a respeito das cidades contemporâneas e ao teor de vida contemporâneo é exatamente que ele é contrário a uma certa contemplação, uma certa posição contemplativa do espírito que não é propriamente contemplação dos cartuxos, mas que tem, como nós veremos daqui a pouco, algo que tem a ver com os cartuxos.
* A mente humana equilibrada oscila pouco e deve ter ritmo na velocidade
A idéia que domina isto, é a idéia seguinte:
É que todo o universo material gira em torno do homem. E que o homem não é só o rei de todas as coisas, mas que ele é também a medida de todas as coisas. E que a velocidade de todas as coisas, deve ser uma velocidade proporcionada com a mente humana.
A mente humana tem um operar cuja velocidade em tese se poderia medir e é um operar que oscila pouco. Entre os mais rápidos pensamentos e os mais lentos, há uma diferença de tempo que não é tão grande assim, que oscila entre uma coisa e outra. E sobretudo na mente humana equilibrada o processo habitual do pensar, o processo do captar impressões, do captar sensações, de deixá-las repousando para decantarem, de voltar a elas depois para uma análise, de deixar a análise parada uma porção de vezes até que se forme no homem o juízo exato, tudo isto tem uma velocidade, tem um ritmo que não pode ser impunemente violado.
Para os senhores terem idéia disto, os senhores considerem que alguns grandes pintores, por exemplo, para conceberem inteiramente uma obra de arte, levam vinte anos ou mais. A Santa Ceia de Milão, por exemplo, foi pintada durante vinte anos. Quer dizer, durante vinte anos aquela impressão de conjunto foi sendo decantada por ele, foi sendo purificada por ele num ponto, noutro ponto, ele foi executando, até dar na obra que tinha sido intencionada por ele.
Os senhores compreendem, portanto, que há uma espécie de ritmo do espírito humano que se viola quando as informações são tantas que o espírito humano não pode abarcar, quando elas são tão vivas e tão trepidantes que o espírito humano não consegue tomar em relação a elas a distância necessária, que elas se sucedem num ritmo tão rápido, que o espírito humano não tem.
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