Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 2/10/1964 –
6ª feira [SD 011] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 2/10/1964 — 6ª feira [SD 011]
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É porque na vida espiritual e material há luta, perigo e dificuldade, que Deus nos deu os anjos tutelares * As torções da “heresia branca”: anjo é para criança e necessidades materiais * A confiança que nos deve dar a lembrança do anjo do Grupo em nossas lutas: nunca estamos sós * O papel de intercessor e advogado dos anjos tão presente aos antigos deve nos estimular sobretudo durante a Bagarre * O anjo não é escolhido ao acaso: tem vínculo conosco e deve ser a matriz de nossa luz primordial, nosso alter ego
Hoje é festa dos santíssimos anjos da guarda. Não só os homens, mas também as nações, as províncias, as famílias, as dioceses, as Igrejas, as comunidades religiosas, cada qual tem o seu anjo tutelar. É também novena de Nossa Senhora do Rosário e foi a primeira sexta-feira do mês.
* É porque na vida espiritual e material há luta, perigo e dificuldade, que Deus nos deu os anjos tutelares
Sobre os anjos da guarda nós teríamos alguma coisa a dizer.
Enquanto o otimismo moderno é muito propenso a achar que em nada existe luta, que em nada existe dificuldade, que em nada existem perigos, e ver tudo com uma mentalidade norte-americana tendente ao happy end, pelo contrário, a Igreja nos ensina que esta vida é uma de luta, é uma vida de perigos, de perigos materiais como de perigos espirituais, e que por causa disto, a providência divina colocou um anjo para velar por sobre cada um de nós. E o fez com tanta munificência, que além de haver um anjo para cada pessoa, há um anjo para cada cidade, para cada nação, existe um anjo para tutelar a Santa Igreja Católica, que é o Arcanjo São Miguel, existem anjos provavelmente para grupos, para famílias de almas, para sociedades, etc., de maneira que tudo quanto existe, é tutelado por anjos.
O que, aliás, faz parte do papel dos anjos, porque os anjos acionam para Deus todo o universo material e executam todos os decretos de Deus.
E assim, portanto, cada um de nós — nesta concepção de que a vida é uma luta intensa, de que a vida tem perigos, tem dificuldades — tem um anjo que o deve guiar para isto, porque nós não seríamos suficientes por nós para isto e, portanto, Deus delegou um anjo especialmente para este ponto.
A primeira lição que nos decorre daí, é uma lição de espírito sobrenatural.
Nós compreendemos como é errada aquela posição condenada pelo D. Chautard, daqueles que dizem o seguinte: “Eu sou muito capaz, sou muito inteligente, sou muito jeitoso, sou muito esperto, sou, enfim, isto, aquilo, sou muito mega sobretudo, e por causa disto desde que Deus não me permita que venham obstáculos muito grandes, eu resolvo meu caso, não preciso nem na minha vida espiritual, nem na minha vida material, não preciso saber de auxílio de Deus. Eu dou conta por mim mesmo daquilo que eu tenho que fazer”.
É uma coisa errada. E tão errada, que até Deus delegou um espírito celeste para acompanhar e para proteger cada um de nós. Prova que nos torna presente a idéia de que, a todo o momento e para tudo o que nós fazemos, nós estamos precisando do auxílio de Deus.
* As torções da “heresia branca”: anjo é para criança e necessidades materiais
Agora, por outro lado, a gente vê o seguinte: como houve para o “heresia branca” uma torção de todas as devoções, este anjo é apresentado habitualmente do modo seguinte:
Primeiro, é um anjo que protege crianças. Tudo quanto é quadrinho que indica o anjo da guarda agindo tem uma criancinha. E o que fica vagamente no espírito da gente é o seguinte: primeiro é que só criancinha precisa de anjo. Em segundo lugar, só criancinha acredita em anjo, e que um espírito mais emancipado, mais evoluído, nem precisa nem acredita. Porque quadrinho é, por exemplo, um riachinho muito bonitinho.
No Carmo, por exemplo, tem uma estampa assim, um riachinho muito bonitinho, com umas plantinhas, etc., e uma criancinha gorduchinha, cor-de-rosinha com ar de que está saindo da cama, foi lavada, frisada e pomponnée na hora, está passando num lugar então onde tem uma coisa quebrada, uma ponte onde tem uma tábua quebrada. A criancinha vai pondo o pesinho lá e o anjo da guarda entá velando.
A gente tem a impressão que aquilo é o mundo interior das imaginações da criancinha. E que é o estado de espírito com que a criancinha atravessa a ponte.
No melhor traço do negócio a gente poderia imaginar que o anjo da guarda faz isso com gente grande também. Então, para evitar trombada de automóvel — aliás, nós precisamos rezar um pouco para os nossos anjos da guarda para evitar trombada de automóvel —, para evitar doenças, para evitar pequenos acidentes, etc., anjo da guarda está muito bom.
Em suma, o anjo da guarda serve para as necessidades materiais. Para as necessidades espirituais, ninguém fala de anjo da guarda. O que está de acordo com uma certa piedade festeira que, por exemplo, vai gente para Pirapora, vai gente para Aparecida.
O que é que eles vão pedir? Dor de garganta para curar, uma ferida feia qualquer, aparece ferida nesses lugares que é uma coisa tremenda, então toda a espécie de feridas, nos sintomas mais esquisitos, aparecem nas narrações desses lugares, dinheiro naturalmente pedido em quantidade, reconciliações, afugentar azar, e coisas desse gênero. Mas muito pouco a noção de que os anjos da guarda nos foram dados para aquilo que existe de mais importante, que é para as necessidades das nossas almas, e de que a maior função de nosso anjo da guarda é de velar pela nossa alma, de lutar, de agir conosco, para que nós vençamos as nossas dificuldades.
* A confiança que nos deve dar a lembrança do anjo do Grupo em nossas lutas: nunca estamos sós
E vejam que conforto daria para nós, nas horas das atribulações e nas horas das tentações, nas horas em que nós nos sentimos sozinhos, nos problemas da vida espiritual, nós termos a certeza de que um anjo da guarda está junto de nós, que embora nós não sintamos nem percebamos, ele não nos abandona nem um minuto, e que ele está à espera de nossas orações para agir por nós. Muitas vezes age sem nós pedirmos, mas agirá ainda muito mais, se nós pedirmos. E que, portanto, ele está ao nosso alcance.
No momento em que nós estamos falando, esta sala aqui está cheia de anjos da guarda por assim dizer e todos eles estão velando para nós. Sem falar no anjo do grupo de “Catolicismo”, que eu acho sumamente provável. Não [há] — interiormente para mim — nenhuma dúvida de que existe.
E assim os senhores compreendem que alegria para nós se nós tivéssemos isto em mente quando nós vamos fazer nosso apostolado, quando nós temos nossas dificuldades interiores, quando nós temos algumas vezes aborrecimentos, lutas, dificuldades de toda a ordem, e nos sentimos sós. Esta solidão é uma ilusão: junto a mim está meu anjo da guarda. E ainda que eu tenha a impressão de que a distância que há entre ele e mim é a distância que vai entre o céu e a terra, entretanto é verdade que ele está perto de mim. E eu rezando por ele e pedindo por ele, ele está ali velando por mim e me protegendo.
Os senhores compreendem como isto daria alento à vida espiritual, como daria satisfação, como a gente sentiria a mão de Deus nos acompanhando em cada passo. E como isto ilustra as afirmações de Nosso Senhor no Evangelho de que não cai um fio de cabelo de nossa cabeça, que não morre um passarinho, que não cai uma folha de uma árvore sem que isto seja da vontade de Deus.
Quer dizer, a ligação disto com a doutrina e tudo quanto diz da Providência, é uma ligação admirável e nós deveríamos ter isto muito presente. Nós deveríamos sobretudo ter isto presente, nós que cultivamos ou devemos cultivar tanto a virtude da confiança. Porque é um fator de confiança para nós, saber da presença desse anjo. Saber que tudo aquilo que a virtude da confiança nos manda esperar, o anjo da guarda está pedindo por nós, está provendo por nós, etc.
* O papel de intercessor e advogado dos anjos tão presente aos antigos deve nos estimular sobretudo durante a Bagarre
Eu estou falando de assistência que o anjo exerce sobre nós nas horas de perigo e de provação. Eu deveria dizer que não é apenas uma assistência, mas ele reza por nós.
Eu me lembro, por exemplo, daquela visão famosa de Daniel, em que ele vê os anjos dos vários impérios antigos rezando junto a Deus e como que lutando junto ao trono de Deus pelos respectivos povos.
O nosso anjo é nosso intercessor, ele é nosso advogado, ele é nosso mediador, ele está continuamente rezando por nós. Portanto, a coisa mais congruente que haja é nós estarmos continuamente pedindo ao nosso anjo da guarda, que insiste no exercício dessa sua função de intercessor, de maneira tal que obtenha para nós as graças e afaste de nós os castigos. É uma coisa que constantemente nós deveríamos fazer.
Os antigos tinham uma noção enorme da presença dos anjos da guarda. Eles construíam igrejas em louvor dos anjos da guarda. Havia lugares de peregrinação em pontos onde apareciam anjos, que alguns deles eram anjos da guarda, como o Arcanjo São Miguel na Abbaye de Saint-Michel por exemplo, que é o anjo da guarda na nação francesa, que apareceu. O santo anjo de Roma que apareceu também, no alto do sepulcro de Adriano, etc. Eles tinham uma noção muito grande da presença e da intercessão desses anjos.
E nesta época de dificuldades que vem, nós deveríamos insistir nisto, tornar mais presente para nós isto.
Nós falamos, por exemplo, tanto de Bagarre. Nós já nos lembramos que na Bagarre os anjos vão lutar muito especialmente contra os demônios? Nós nos lembramos que vamos ter a proteção especial dos anjos na Bagarre muitíssimo especial e que isto vai ser para nós uma alegria, um elemento de conforto?
Quantas vezes aqueles cavaleiros medievais nas suas lutas viam baixar anjos que iam lutar contra os hereges, contra os infiéis, e que iam facilitar a vitória deles.
Haveria mil coisas para dizer a respeito do papel dos anjos, quer na Bíblia, quer na história da Cristandade. Tudo isto fica muito esquecido. Mas é uma coisa linda nós rememorarmos tudo isto e termos isto em vista para o estímulo e para o conforto de nossas almas.
* O anjo não é escolhido ao acaso: tem vínculo conosco e deve ser a matriz de nossa luz primordial, nosso alter ego
Agora eu gostaria de dizer algo que me parece muito verdadeiro, que eu sei que não é doutrina católica demonstrada, mas é uma opinião que me parece conveniente, razoável e que eu sujeito aqui à opinião do nosso teólogo. E é o seguinte:
Deus faz tudo com conta, peso e medida, com ordem, e não é provável que a designação de um anjo da guarda para atender um de nós se faça de um modo completamente automático. Nós poderíamos imaginar uma espécie de ponto de táxi de anjos no céu esperando e depois os homens aqui na terra, não é? Nasce um homem, Deus olha para o anjo A como poderia olhar para o anjo X, e psst: aquele! … Vem o anjo voando e começa a proteger aquele…
Esse modo de fazer não é [razoável]. Deus conserva o seu arbítrio, sua liberdade e seus desígnios insondáveis.
Feita essa reserva, a gente pode dizer que este modo de fazer não é o que nós costumamos apreciar, costumamos ver na ação de Deus. Tudo tem uma certa relação.
Eu tenho a impressão muito forte de que Deus delega um anjo da guarda que tem uma afinidade com aquela alma que Deus acaba de criar e cuja santidade tem relação com a luz primordial daquela alma que Deus acaba de criar. De maneira que há uma proteção como que do modelo em relação ao discípulo, que o anjo da guarda é um celeste modelo das virtudes que nós deveríamos praticar. E se nós pudéssemos ver o nosso anjo da guarda, veríamos provavelmente a personificação da luz primordial de cada um de nós. Se nós pudéssemos ver o nosso anjo da guarda, nós veríamos algo que seria como que parecido conosco num grau de beleza ontológica e sobrenatural inconcebível, seria como que o melhor que há de nós mesmos, elevado a grau estupendo.
Então nós compreendemos a simpatia, a facilidade de entender, afinidade e o desejo de servir que nós teríamos em relação a esse anjo da guarda. E reciprocamente compreendemos também um vínculo especial do anjo da guarda conosco.
Quer dizer, o anjo da guarda constitui conosco como que nosso celeste alter ego, como que algo que é o desdobramento de nós mesmos. Então nós compreendemos toda a afinidade que existe entre o anjo da guarda e nós. E é razão especial para que, antropomorficamente falando, tenhamos ainda mais facilidade de compreender como o anjo da guarda nos protege.
Os senhores imaginem que os senhores encontrassem uma pessoa precisando de auxílio, mas essa pessoa é sumamente parecida com cada um dos senhores. Os senhores não voariam mais facilmente em o auxílio daquele? É natural.
Pois isto, nesta hipótese, se daria entre o anjo da guarda e nós.
Eu creio que estas considerações são boas para afervorar nossa devoção ao anjo da guarda, pelo menos na medida em que nosso teólogo não diga que elas não são heterodoxas, e que elas podem servir para nós, com mais devoção, invocarmos o patrocínio dele na noite de hoje.
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