Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 30/9/1964 –
4ª feira [SD 217] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 30/9/1964 — 4ª feira [SD 217]
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São Jerônimo, polêmico por excelência, antiprogressista e irenista, é padroeiro de nosso espírito * Como se aplica o “odiar o erro e amar oque erra” * A polêmica visa sobretudo influenciar os indecisos * Ao homem em risco fala-se a linguagem do medo * Diversos modos de se aplicar a polêmica * Fazer uma coletânea de frases do “Em Defesa”
Hoje é a festa de São Jerônimo, Confessor e Doutor da Igreja.
Doutor máximo nas Escrituras, aplicou todo o seu zelo em fazer dos inimigos da Igreja seus inimigos pessoais.
Essas são as palavras do santo. Ele diz de si mesmo que ele aplicou todo o seu zelo em fazer dos inimigos da Igreja seu inimigos pessoais. O que é perfeitamente coerente com Santo Agostinho: “Odiai o erro e amai quem erra”. Ele faz a Santo Agostinho este elogio: “Vós, como eu, aplicastes todo o vosso zelo em fazer dos inimigos da Igreja vossos inimigos pessoais”.
Molestou os hereges com acérrimos escritos.(Elogio do Breviário)
Sua relíquia se venera em nossa capela. Século V.
Hoje é também a novena da Bem-aventurada Virgem Maria do Rosário, novena de Nossa Senhora Medianeira de todas as Graças e onomástico de Frei Jerônimo Van Hintten.
* São Jerônimo, polêmico por excelência, antiprogressista e irenista, é padroeiro de nosso espírito
Vamos dizer alguma palavra a respeito de São Jerônimo.
São Jerônimo representa, por excelência da Igreja, espírito da polêmica, e nesse sentido é o contrário do diálogo. Os seus escritos são de uma energia, para não dizer de uma violência, uma coisa desabotoada, se não fosse um santo. E pelas menores coisas ele dava respostas de fogo e tremendas, e deixava todo mundo tremendo diante dele.
Santo Agostinho chegou uma ocasião a escrever uma carta a ele muito engraçada, dizendo que, com metade da energia, já ele cederia diante de São Jerônimo. E eu li uma carta de São Jerônimo a uma dirigida dele, uma santa, que mandou a ele aliás um lindo presente, pombinhos e cerejas, e ele respondeu perguntando se ela queria corromper a austeridade dele, onde é que ela estava com a cabeça. Imediatamente ele deu aquilo para os pobres porque ele é um homem penitente, porque não sei mais o quê, etc.
E um dos primeiros encontros que eu tive com o liturgicismo foi conversando com D. Teodoro Cock, jovem beneditino daqueles tempos, e que me contava que lá no Convento de Santo Anselmo liam São Jerônimo no refeitório e que todos os beneditinos ferviam de ódio.
Eu, na minha integridade, disse:
— Ah! Ele inflamava a gente de ódio contra os hereges, é verdade.
— Não, não! Ódio contra ele… porque ele estava por esta forma perseguindo os hereges.
Agora, isto é o zelo da Casa de Deus que devora o homem. E é uma das formas mais características do zelo. Portanto, das mais santas, mais legítimas do zelo.
Portanto, desde que isto seja feito por amor de Deus, e não por ressentimentos pessoais, porque com ressentimento pessoal a coisa muda de aspecto, isto é uma coisa santíssima, é ser um gládio vivo de Deus. E eu não conheço elogio maior do que exatamente dizer de alguém que ele é um gládio vivo de Deus, a espada viva de Deus por toda a parte cortando, por toda a parte furando, e por toda a parte ferindo e matando.
De maneira que São Jerônimo para nós representa de fato o espírito polêmico em seu mais alto grau, o padroeiro de nosso espírito polêmico.
* Como se aplica o “odiar o erro e amar oque erra”
Agora é preciso notar esses elogios.
Em primeiro lugar, como é autorizado esse elogio dele a Santo Agostinho, não é isto? Quer dizer, um santo que elogia outro santo, dizendo que ele transformou os inimigos da Igreja em inimigos pessoais, ou isto é uma coisa santa, ou a Igreja não é santa quando canonizou esses dois santos. É evidente.
Os senhores vêem, portanto, como é preciso estudar cum grano salis aquele princípio de que nós devemos amar o que erra e odiar o erro. Quer dizer, não é incompatível com isto. Nós precisamos ver o que que é amar o que erra, e por que é que isto está assim.
É que há um erro em imaginar que quando a gente ataca com violência alguém, desde que seja uma violência que não seja por amor próprio, seja por amor de Deus, seja suscitada pela graça, que a gente faz mal à alma desse alguém. Pelo contrário, uma palavra enérgica é uma sacudidela, e quando Nosso Senhor açoitava os fariseus, Ele fazia o que havia de melhor para a alma dos fariseus. De maneira que é errado supor que uma pessoa faça mal à alma de alguém sendo santamente violenta com esse alguém.
Esse pressuposto, que é o pressuposto de todo o irenismo, é um pressuposto contrário à Doutrina Católica. Pura e simplesmente contrário à Doutrina Católica. Do contrário não poderia haver santos que tivessem feito o que fizeram (quer dizer, polêmicos como foram), e Nosso Senhor Jesus Cristo não teria dado o exemplo da violência e da polêmica, sem falar em não sei quantos outros personagens do Antigo Testamento.
* A polêmica visa sobretudo influenciar os indecisos
Agora, em matéria de polêmica, já que nós falamos disto, é preciso sempre tomar em consideração o seguinte: que os espíritos modernistas consideram em matéria de polêmica a existência de duas figuras, um que diz A e outro que diz B. Eles não consideram a existência de um terceiro elemento, que é talvez o mais importante no caso, que é o público que assiste à discussão.
Toda polêmica, ainda que seja feita a portas fechadas, vai repercutir fora e vai atuar sobre pessoas que estão na dúvida e que se trata de convencer. E o mais importante quando a gente, por exemplo, discute com um pastor protestante, não é conversar com um pastor protestante, mas é evitar que os católicos fiquem protestantes. Em segundo lugar, converter os protestantes menos empedernidos que estão lá. E em terceiro lugar converter o pastor.
De maneira que o que a gente diz não é o que principalmente vai fazer bem à alma do pastor, mas o que a gente diz é o que principalmente vai fazer bem à alma dos católicos em risco de se deixarem seduzir pelo pastor. E quando a gente não quer que uma pessoa resvale pelo abismo…
* Ao homem em risco fala-se a linguagem do medo
Os senhores imaginem que nós temos um amigo, por exemplo, que está se debruçando perigosamente sobre um parapeito pequeno que dá para um abismo. Nós não dizemos para ele: “Fulano, fica aqui, você não vê como esse chão é de mármore?!”… Nós dizemos para ele: “Cuidado, que nesse abismo você arrebenta a cabeça!”. Porque o modo de afastar um indivíduo imediatamente do perigo e da imprudência é mostrar o mal e não mostrar o bem.
Quem é de nós que haveria de dizer para uma pessoa, por exemplo, que está brincando com um revólver imprudentemente: “Fulano, você quer ir jogar xadrez?”, para ver se ele tira o dedo do gatilho e a gente tira o revólver? Isto é atitude idiota!
A gente diria: “Fulano! Olha esse revólver! Você se machuca e me machuca a mim!”. O que não é tão sem importância, está compreendendo?! É o que se pode dizer… não é?
Quer dizer, normalmente, ao homem em risco, ao homem tentado, a gente fala a linguagem do medo. Isto é sobretudo verdadeiro no que diz respeito à Doutrina Católica, porque acontece que os homens são mais fáceis de se mover pela sua maldade, pelo medo do Inferno, do que pela apetência do Céu; pelo medo das más conseqüências do que pelo que pode acontecer de bom. E é preciso, portanto, assim como remédio de urgência, apontar o mal que há no erro, apontar o erro que há no erro, para depois então falar a respeito da verdade.
Quer dizer, portanto, a posição polêmica é uma posição normal.
* Diversos modos de se aplicar a polêmica
Existem santos que tiveram carismas extraordinários para a posição polêmica, como São Jerônimo, por exemplo. Outros houve que tiveram carismas extraordinários para uma posição não polêmica, como, por exemplo, São Francisco de Sales, ou uma polêmica num tom não fogoso o que melhor se poderia dizer de São Francisco de Sales, e então a tocar as almas pela suavidade. É que Deus dá aos seus santos os carismas e as graças como Ele quer e proporcionadas às condições das almas com que vai tratar.
De fato, há algumas almas que devem ser levadas pela doçura, há outras almas que devem ser levadas pela violência, pela energia, pela medo. O que é preciso é que a gente siga de acordo com o movimento da virtude dentro de si, e que preste atenção para ver o que é que a graça quer em relação aos outros, de maneira à nossa linguagem ser proporcionada aos outros.
De maneira que eu não diria nunca que a gente deve sempre dizer em forma polêmica ao erro que é erro e à verdade que é a verdade. Mas eu diria que é uma aberração dizer que nunca se deve dizer isto. Digo que ao revolucionário dos dias de hoje com freqüência é preciso dizer assim e que quem não quiser com freqüência dizer assim, erra.
De maneira que a nossa posição freqüente, a nossa posição numa larga maioria de casos, para fora do Grupo, é precisamente essa.
* Fazer uma coletânea de frases do “Em Defesa”
Aí estão as condições que estão, aliás, expostas no “Em Defesa da Ação Católica” e que caberia a meu ver dentro desta festa de São Jerônimo.
Há uma idéia que se poderia considerar, e que era de tomar um capítulo ou dois do “Em Defesa”, em que há frases dessas, e colocar na circular-boletim, pondo um pouco em ordem aquilo, adaptando um pouco aos nossos leitores, porque há pilhas de frases recrutadas naquele tempo…
(Dr. Castilho: [Dá a idéia de uma recopilação de “Verdades Esquecidas”].)
Pois, uma recopilação de “Verdades Esquecidas” é muito interessante.
Aliás, é muito oportuno fazer uma recopilação. É uma outra idéia de fios, não é? Talvez conjugando uma idéia com a outra. Ou quem sabe, Castilho, se poderia deixar isto para “Verdades Esquecidas” vir se haurindo aí sem muita dificuldade, mas publicar uma recomposição das “Verdades Esquecidas” até aqui. Seria uma coisa excelente, num número da circular-boletim.
(Dr. Castilho: Já publicamos tudo o que estava lá).
Já publicamos tudo o que está lá?
Bom, então isso poderia se ver um pouco, não é? Em todo caso vamos publicar tudo já que é um reservatório para nós, não é?
E com isso ficam então feitas as condições de hoje.
Vamos rezar então.
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