Sábado
a Tarde – 19/9/1964 – p.
Reunião para o Grupo da Martim 1— 19/9/1964 — sábado (Douglas Ruman)
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A Aceitas – II – Como se forma um homem de princípio
… prático. Mas quem sabe apostariam de me dar algum assunto, para ser tratado… [inaudível] …comité. Aqui está a questão.
(Sr.–: [inaudível])
Não, não, mas o que eu escolhi pode ser tratado em qualquer ocasião. Não goza das vantagens do petit comité. Haveria algum assunto que gostariam de tratar? Vamos dizer, na ordem teórica a começar. Eduardo, Paulinho, Caio, Sergio, — realmente algo? — Arnaldo. Não está inspirado? Vita, Plínio — nós estamos em tão petit comité que era — um bom assunto doutrinário para petit comité, escolhido para petit comité. Você não gostaria de sugerir algum? Como é o assunto de hoje de manhã? O assunto de hoje de manhã seria mais interessante esperar uma reunião plena, ou não?
(Sr-:… [inaudível] …)
Ah, nem na fita? Bem,… [inaudível]…
(Sr-:… [inaudível] …)
Quando são boas. Aí está o ponto chave. Tomar duas vezes champanhe na véspera é de amargar. Vamos então tocar, está acabado… [inaudível] …simplicité, há de ser o que Deus quiser. Está bom? Eu tinha falado, tratado, se não me engano da última vez, da aceitas. Não sei se lembram daquela digressão — estavam todos aqui presentes? Ou não? — bem, e tinha mostrado como a aceitas se contrapõe, é, afinal de contas, uma espécie de deterioração e de hipertrofia em, portanto, de deterioração do instinto de sensibilidade e como, portanto, ela se contrapõe — a aceitas, não. A aceitas é virtude que se contrapõe a deterioração e — ao exagero do instinto de sociabilidade, e que esse instinto de sociabilidade, levado exatamente ao seu exagero, abafa toda nossa personalidade e nos reduz ao anonimato — não é? — e afinal de contas acaba criando a massa, de um lado. Agora, de outro lado — e é pior — evita a formação do homem de princípios etc., etc. Mas havia aqui uma coisa que eu queria tratar, e que seria talvez um pouco mais, aprofundando um porco mais isso, embora seja muito árido, afinal de contas vamos tratar da questão. É a seguinte: é muito fácil nós falarmos dos abusos, falarmos dos exageros. Mas nós poderíamos um pouco perguntar como é que as coisas deveriam ser na verdade. E o que é, então, um homem de princípios; o que é princípio? — como é que se forma um homem de princípios? — e ver a parte positiva no que repousa, no que ela é, etc., etc. E por causa disso eu pretenderia tratar, então, desse aspecto da questão. Eu diria, numa primeira abordagem: um dos meus princípios, quando estou com sede, é de beber, mas é preciso… [inaudível]
(Sr.–: Luís Gonzaga, a água tônica do Dr. Plinio?)
Um, uma das noções que integram a noção de princípio, é uma firme convicção. Não existe princípio sem uma firme convicção. E uma convicção tão firme que ainda que todas as pessoas afirmem o contrário, a gente continua a sustentar aquilo. Quer dizer, o “e pur si muove”2, de Galileu, é pessimamente aplicado, mas seria um princípio. Quer dizer, de fato a Terra se move. Está acabado. Agora, aconteça o que acontecer, haja o que houver, der no que der, a Terra se move mesmo e eu sustento que a Terra se move. Então, além de haver uma firme convicção — não é? — nós acrescentamos à noção de princípio uma outra coisa: é algo que nós aceitamos como nos dizendo de tal maneira: “Respeito”, que aquilo se transforma para nós num bem da alma; e nós não podemos viver sem sustentar aquilo; nós não podemos viver sem praticar aquilo; e nós não podemos admitir que se pratique ou se sustente em nossa presença algo que seja contrário daquilo. Quer dizer, o princípio não é apenas uma firme convicção de uma certa verdade, mas é uma convicção tal de uma determinada verdade que o que a contraria, nós repelimos, porque daquela verdade nós fazemos um bem nosso e uma coisa nossa. Aquilo que desobedece a ela, nós rejeitamos porque aquilo é nos ofender a nós. E nós nos tornamos, portanto, dedicados àquele princípio; nos tornamos combativos por aquele princípio, porque essa é uma coisa que transforma para nós num bem de nosso ser; nos [corata?] [coata], [coratar?] [coatar] aquilo é como que tirar o nosso ser. Isso então seria verdadeiramente um princípio. Nós podemos dar formas ou expressões de princípios dessas várias. Vamos dizer, por exemplo,… [inaudível] …tem um bom rudimento de princípios. Ainda não se transformaram inteiramente em princípios, mas aquilo são bons rudimentos de princípios. Por exemplo, de que a marinha deve ser hierarquizada da maneira cavalheiresca que ele descreveu, aquilo para ele é uma coisa co-idêntica com a vida. O prazer dele é de ser marinheiro, é de ser oficial de marinha, e é de ser oficial da marinha para manifestação daqueles valores da marinha. E se alguém quiser organizar a marinha de outro jeito, e fizer, por exemplo, em vez de uma marinha vertical e hierárquica, quiser fazer uma marinha horizontal; ou no dia, por exemplo, em que a ONU conseguisse eliminar todas as guerras e transformasse em marinhas mercantes todas as marinhas do mundo, no dia em que dessem um navio destinado a transportar algodão… o normal seria que ele dissesse: “O mundo acabou não tem mais nada, pois nem a marinha etc., etc”. Quer dizer,… [inaudível] …teria renunciado, teria visto um princípio dele desaparecer, e era um valor da vida dele que tinha deixado de existir. Bem agora — obrigado — isso, entretanto ainda não é uma verdadeira estrutura de princípios, porque a gente percebe que um princípio assim vago, solto no ar, falta-lhe base, e ele não tem a plena firmeza do princípio. E é preciso, portanto, mais algo do que isso. Então o princípio não pode ser visto como uma convicção isolada, mas é toda uma visão do universo. Pelo menos embrionária, pelo menos rudimentar, e uma visão do universo que o indivíduo adere com toda essa força. Não é verdade? E com isso então ele forma o princípio, o conjunto de seus princípios. Porque o indivíduo nunca tem um princípio só e ou ele tem um conjunto de princípios, ou ele não tem nada. Bem, e o problema, para nós, é saber como é que a pessoa, de fato, forma, esse conjunto de princípios, como é que esse conjunto de princípios toma raiz, etc.,etc.
Então eu diria a coisa da seguinte maneira: é que os princípios, as certezas, num homem, se formam sempre de proche en proche. O trabalho próprio do espírito humano é partir de algo de que ele tem certeza, e como um navegante que sai de um continente para partir para as ilhas próximas, vai andando de ilha próxima em ilha próxima, até chegar ao extremo, por exemplo, o sujeito está percorrendo um arquipélago, assim também o sujeito, que tem uma determinada convicção, ele, quando essa convicção é fundamental, ele parte dessa convicção fundamental para os corolários dessa convicção. E as adquire com toda certeza. E depois desses corolários ele vai para outras verdades, que são tais que aquilo seria mentira se ele não tivesse razão em tal ponto. E assim de proche en proche, ele reconstitui toda uma espécie de arvoredo de convicções, que foram deduzidas das convicções fundamentais dele, e umas tantas convicções que ele tem por verdadeiras. Bem, e eu acho que ninguém forma princípios assim de um modo exclusivamente livresco. Esses princípios não existem; e que o verdadeiro modo de formar princípios e de formar convicções é a partir da luz primordial. Quer dizer, Deus nos deu, ao nascer um feitio de espírito por onde certas verdades referentes à própria ordem do universo à própria ordem mais profunda do ser, nós, com os recursos de nossa natureza, com nosso lume natural, sem uma interferência necessária da Graça, para essas verdades nosso espírito é particularmente aberto; e formam para nós determinadas certezas fundamentais e supremas, que são certeza mesmo, porque nosso espírito é de uma lucidez enorme para perceber aquilo; e às vezes coisas muito elevadas. E aquilo pega mesmo, adere mesmo àquilo. E aquilo é para o indivíduo como uma necessidade vital. Se negasse aquilo a ele, se contestasse aquilo, era a própria ordem interna dele que estava estragada, escangalhada. Ele como que deveria ficar louco se negassem aquela ordem interna que está dentro dele, tal é a certeza que ele tem daquilo. E então quando o sujeito, a pessoa é fiel à luz primordial que tem, e que o motivo que envolve tudo, desde o modo da criança ver a bolinha com que brinca, até uma espécie de rudimento de metafísica e de visão de universo, quando ele é fiel a isso, e quando ele se preocupa com isso, e quando ele ama isso e isso diz alguma coisa para ele, então a partir daquelas certezas fundamentais numerosas que estão incluídas nessa espécie de primeiro passo, ele a partir daquelas certezas, ele pode construir uma porção de outras certezas. E então, através disso ele desenvolve, por assim dizer, uma espécie de tesouro natural primeiro de princípios; tesouro natural de princípio esses que são as suas convicções, e que lha dão a possibilidade de resistir à opinião que está… [inaudível] …dele. Porque é assim que ele formou a sua aceitas e é assim que ele desenvolveu as opiniões dele, contrariamente às opiniões de todo um ambiente. Quer dizer, com isso ele foi capaz de ser ele mesmo, de resistir aos outros, de ter uma mentalidade própria, de ser independente da opinião pública, e se necessário for, enfrentar a opinião pública inteira. De maneira que propriamente luz primordial, convicções, princípios, aceitas, são coisas que se conjugam, que constituem um só todo. E é esse todo que dá ao indivíduo essa força contra a opinião pública. Esse vício de viver apoiado na opinião pública decorre da debilidade, da infidelidade à luz primordial. E, pelo contrário, com a fidelidade à luz primordial a gente enfrenta completamente a opinião pública. Então, nós diríamos que esse mecanismo de certezas parte da luz primordial e é como o Nilo entre os egípcios. Quer dizer, a gente canaliza. Assim como os egípcios canalizavam a água do Nilo e canalizavam em várias direções, e irrigavam um território muito grande, a gente toma suas certezas primordiais e as canaliza, as conduz a vários campos, e ali então a gente fecunda os vários campos. A forma de governo, os estilos de vida, as convicções a respeito disso, daquilo, daquilo outro, a gente partindo desse ponto tem uma certeza inteira. Então, por essa forma se constituem os princípios, porque a certeza, o princípio é uma certeza deste porte e deste tipo, e é assim que a gente então se transforma num homem de princípios.
Bem, a impressão que eu tenho, Plinio, é que o que mais prejudica a formação de princípios, é o impacto do ambiente nosso, não enquanto esse ambiente é contrário aos nossos princípios, mas é uma coisa mais profunda. É enquanto ele tem por princípio não ter princípio. E em que o homem que pára, que reflete, que tem problemas criteriológicos, que tem problemas ideológicos, destoa completamente do ambiente, ele fica, se dá, fica um pouco a impressão que ele é um D. Quixote de la Mancha solta num ambiente de gente sensata. E, portanto, meio inibido de se entregar aos princípios. E com essa inibição de se entregar aos princípios, abafado e seduzido pelo mundo da ninharia. E isso eu tenho a impressão de que é uma coisa mais freqüente, que mais freqüentemente ocorre, e que mata a aceitas. Não sei se essa coisa de fundo eu indico bem. Agora, depois são tantos os outros fatores que podem levar a não ter princípios que quase variam de pessoa para pessoa, e são mais ou menos inesgotáveis. Mas isso, mais uma certa escravização aos princípios do ambiente me parece que são os obstáculos principais. Quer dizer, portanto, a inapetência, o gosto de viver num mundo de irreflexão e do abandono dos princípios. E depois a aceitação da opinião dominante, que é conseqüência disso.
(Sr.–: A ignorância da luz primordial, que a grande maioria das pessoas tem, da sua própria luz primordial, não traz dificuldades também para que eles desenvolvam sua própria aceitas? Porque os princípios de cada um estão ligados à luz primordial, e ele deverá desenvolvê-los diretamente relacionados com sua própria luz primordial. E a pessoa que ignora sua luz primordial, evidentemente não consegue desenvolver os princípios para os quais ele foi chamado.)
É, mas aqui está exatamente porque que ignora a luz primordial. O sujeito nem aprofunda porque ele se entregou à banalidade do ambiente.
(Sr.–:… [inaudível] …)
É, certamente.
(Sr.–:Entrava muito.)
Muito, muito. Não sei se a explicação que eu dei satisfaz, ou gostariam de alguma coisa a mais.
(Sr.–:… [inaudível] …?)
Não, eu estaria dando por terminado.
(Sr.–:… [inaudível] … é o fundamento e a base de toda a aceitas?)
É, quer dizer, a fidelidade à luz primordial é a fidelidade a aceitas, é a aceitas. Porque aí, errou o fundamento.
(Sr.–:Não há outra… [inaudível] …)
Não, eu não vejo. Não é? É o fundamento de todo o mecanismo da certeza — não é isto? E portanto, — o fundamento também — não, e depois, de todo o mecanismo das apetências, das volições, são arquitetonizados em direção aquilo. É daí que o sujeito constrói as outras certezas. Então, é o contrário da cultura livresca, ou então do princípio de massa e de outras coisas que nós combatemos.
(Sr.–:… [inaudível] …o senhor falava longamente como na Idade Média… [faltam palavras]… porque era fiel à luz primordial…[faltam palavras]… foi perdendo a certeza… [faltam palavras] …?)
É aí, é bem exatamente isso, mas eu talvez não tivesse formulado esse princípio.
(Sr.–: O senhor não ligava com a questão da aceitas.)
Exatamente, mas havia fundamento para isso. Então é que a gente compreende que só numa civilização católica é que pode haver a verdadeira aceitas. E, portanto, autonomia em relação ao Estado, e essa espécie de liberdade dirigida que é a maravilha da sociedade orgânica e que é o contrário da tirania…
(…)
… uma espécie de equilíbrio inexprimível. Está certo isso? Caio como?: “Ai, ai, ai, que resumo pau, meu Deus do Céu! Não está tão curta essa conferência? Que podia estar resumida”. Que tem, meu Sergio?
(Sr. [Sergio]–:perguntas ou resumo?)
Não, não, não, perguntas antes do resumo.
(Sr. [Sergio]–: Dr. Plinio, eu não entendi bem uma coisa. É a seguinte: a luz primordial da a certeza das certezas… [faltam palavras]…)
É,…
(..)
…a certeza.
(Sr. [Sergio]–: É, agora, como é que encaixa aí… [faltam palavras] …?)
Bem, uma vez que eu tenho as certezas retas, perfeitas, exatas, eu, a partir dos pontos de vista legítimos, e baseados nessas certezas, eu posso escarafunchar sem inconvenientes.
(Sr. [Sergio]–:… [faltam palavras] …não são escarafunchadas?)
É escarafunchamento.
(Sr. [Sergio]–: E a certeza da luz primordial também?)
É, mas também é uma coisa mais forte que o escarafunchamento, porque é evidência.
(Sr. [Sergio]–: Pode ser avenidas e pode ser… [faltam palavras]…?)
É, mas avenida é evidente.
(Sr. [Sergio]–: Mas até chegar a luz primordial, é preciso escarafunchar alguma coisa, pelo menos certos… [faltam palavras]…?)
É conatural. Quer dizer, há explicitações, há investigações dos bordos, que é escarafunchamento. Mas há um núcleo evidente.
(Sr. [Sergio]–:… [faltam palavras] …nós não conhecemos a nossa luz primordial? Há uma falta de correspondência… [faltam palavras]… ?)
Ah, sim, mas isso não é propriamente o escarafunchamento. Vamos dizer, a palavra escarafunchamento acho que está dando lugar a algum equívoco aqui. Vamos deixar de lado a palavra e tomar o fato. Não é? A respeito da luz primordial, cada pessoa tem uma evidência primeira, mas que se apresenta, em primeiro lugar, muito sintética e, em segundo lugar, muito inexpressa, muito implícita. Então, embora seja evidente, a pessoa deve por um trabalho de aprofundamento daquilo, ver tudo quanto está contido naquilo, que é muito mais do que aparece à primeira vista. É como quem vê um panorama, por exemplo, do alto, vê uma porção de coisas que o olhar atinge, mas que é preciso discriminar. Há uma discriminação que é preciso fazer ali dentro, de tudo quanto ali se contem. Não é isso? E em segundo lugar existem realmente pontos duvidosos que a razão não percebe exatamente como é, e que é preciso então escarafunchar, mas quer dizer, de fato investigar no pormenor — não é verdade? — e sem medo, uma vez que seja feito nessa perspectiva, porque não dá errado, porque não pode dar errado. Então, explicitações, discriminações, e depois solução racional de certas dúvidas, de certas coisas assim, que eu chamaria aí o escarafunchamento, isso faz parte de uma só operação do aproveitamento da luz primordial. Eu estou vendo que não é bem o que você queria saber. É bem isso?
(Sr. [Sergio]–: Eu tenho um outro problema, que eu não sei se está bem na linha do assunto de hoje, mas que parece que tem uma certa ligação ou tem ligação com outras exposições que o senhor fez a respeito do sofrimento, etc., mas queria o seguinte: uma certa tendência que a gente tem para, pelo menos um desejo de uma aposentadoria. … [faltam palavras]… essas coisas, a gente faz um pouco e depois diz: “Bem, agora consegui uma certa estabilidade… [faltam palavras]… um certo ponto, então agora eu posso me aposentar e não mexer mais nisso, deixa o negócio guardadinho lá, quando eu precisar eu me utilizo dele. E aí então é que poderia ter uma… [faltam palavras]… porque nota-se muito isso: aposentadoria em todos os sentidos, aposentadoria espiritual, aposentadoria intelectual, aposentadoria do trabalho, etc. E que é uma coisa que não é só de um, porque é genérico. A gente vê que todo mundo o que está procurando é uma aposentadoria nessa Terra.)
Ah, é claro. Bem, essa aposentadoria é o perigo dos bons. Porque o sujeito adquiriu uma certa estabilidade, descansa. Se o sujeito entrasse numa saraivada de provações ele se desaponsentava. E muitas vezes a provação é um presente de Deus para o bom, para evitar que ele aposente. Não sei se eu estou me aproximando bem. Isso que…
(…)
…é que você queria saber Sergio?
(Sr. [Sergio]–: É, aí eu não sei se seria o caso, mas se o senhor pudesse… [faltam palavras]… sobre esse aspecto da coisa.)
Da aposentadoria? Uma inapetência, você compreende? O próprio da luz primordial, da fidelidade à luz primordial é um desejo de se nutrir dela o mais possível, fazendo disso o encanto da vida. Quando há uma inapetência disso, entra a aposentadoria.
(Sr. [Sergio]–: O segundo exemplo que o Plinio citou é, por exemplo… [faltam palavras]… a pessoa quer ficar numa aposentadoria, então possui aquela coisa… [faltam palavas]… começa a ver coisas novas, fica aturdidos?)
É, perfeitamente, perfeitamente. É aposentadoria. Dos bons. Entendeu?
(Sr. [Sergio]–:… [faltam palavras] …sofrimento, inapetência… [faltam palavras] …exige um esforço, mas é um sofrimento que é muito bom, traz, num certo sentido, até um prazer?)
Traz o prazer, porque aqui é que está a questão. A atividade tem sempre algo de meio doloroso em comparação com o que a inatividade é gostosa. Mas há uma posição de espírito sadio por onde na atividade, o prazer da atividade como que absorve o cansaço: e o sujeito carrega o cansaço de bom grado. E há uma deterioração do espírito por onde a atividade não absorve o cansaço, e começa a ser um fardo. Então, esse começa a ser o preguiçoso. E o vício capital da preguiça, a meu ver, é em face da luz primordial. É uma deterioração do espírito por onde o prazer da elaboração intelectual já não absorve o cansaço. E o sujeito gosta mais da inércia. Então aquela meditação passa a ser um sofrimento. Você queria que eu me exprimisse melhor ou não?
(Sr. [Sergio]–:Isso se dá também com… [faltam palavras] …?)
O…
(…)
…é um modinho de fazer a coisa em ponto pequeno, por causa do cansaço, dessa deterioração. E depois (…)
(Sr. [Sergio]–:Como é que ele poderia readquirir?)
Eu tenho impressão, viu Sergio, aqui é impressão, porque eu não tive tempo de pensar sobre o caso — mas eu tenho impressão de que toda forma de reaquisição faz-se dentro da dor, exemplo, aqui se pode dizer…
(…)
…Sem sofrimento não há remissão, ouviu? E que é uma espécie de itinerário dentro de sofrimentos, e sofrimentos que, em última análise, ele acaba tendo que renunciar as coisas que o levaram a esse apego — ouviu? — que ele depois pode ter o que já perdeu e mais do que perdeu, mas que sem um processo dolorido, longo, eu tenho impressão, naturalmente Deus pode conceder Graças excepcionais e até fulminantes, mas, vamos dizer, que eu não conheça o caso que não seja um processo dolorido, longo, à maneira do filho pródigo. E acho razoável que seja assim, salvas as exceções que Deus em sua Sabedoria, em sua Bondade, em seu Poder queira abrir. Bem,…
(…)
…muito tempo na dúvida entre câncer e não câncer. E começa a pensar, porque a proximidade da morte faz pensar. Não tem conversa. Depois, horas sozinho num hospital. Depois, então pensando a respeito do abandono em que o deixam. Aí começa com a queixa, começa a filosofia: a vida é isso mesmo, o mundo é esse, não sei mais o que. Pode a Providência fazer com que isso encaminhe para um gosto da solidão, e depois de acabar pensando, etc., etc. Mas o sofrimento gera o gosto do pensamento. O pensamento gera o gosto da solidão. E é no gosto do pensamento e da solidão que o homem readquire o que perdeu. Eu não conheço outro meio. E não só readquire o que perdeu, mas quando readquire de fato, Deus, na sua Bondade, faz muito mais. Dá uma festa para aquele, como para o filho pródigo. Ele dá um anel e uma túnica nova, mil coisas, entende? E essa é a Grandeza de Deus… [inaudível] …Que é um instinto de conservação multiplicado por si mesmo quase ao infinito. Isso é propriamente o princípio. Depois eu mostrei que não existe somente um princípio isolado, que a pessoa não tem princípios isolados, mas que tem sistemas que tem grandes engrenagens de princípios. Essas engrenagens de princípios constituem sistemas de pensamentos que a pessoa tem. E nós tratávamos de saber como é que nascem esses princípios de pensamentos, esse sistema de pensamento que são [federações?], são feixes, mas feixes vivamente entrosados entre si, de determinados princípios, obedecendo, naturalmente, sempre a uma verdade suprema. Então, tratando disso, eu mostrei, em primeiro lugar, como a coisa, livremente tomada, não dá origem a verdadeiros princípios, nos livros e nos soi-disant estudos, só deles para eles não se chega a princípio nenhum, chegam-se como que certezas que a pessoa vislumbra precariamente, de um modo indeciso, etc., mas não chega a nenhum princípio de nenhuma espécie. Princípio a gente chega de outra maneira. Como é que chega? A verdade é que todo homem tem, por feitio de espírito, por apetências de vontade e de sensibilidade, ele tem uma enorme propensão, uma enorme facilidade para ver como evidentes, alguns princípios constitutivos da ordem do universo. E, ao mesmo tempo, uma apetência enorme para manter, para ver, para estar vendo sob a direção desses princípios e fazendo desses princípios o bem de seu espírito, sua fidelidade, e de sua felicidade, e viver esses princípios. E isso se apresenta ao homem como uma evidência plena, e que é, ao mesmo tempo, evidencia de coisas vistas muito pelo alto e abrangendo um mundo de princípios secundários que se trata de discriminar, um conjunto de verdades muito grande que não estão explicitadas, mas que se trata de explicitar, e alguns problemas, algumas dificuldades lógicas que se trata, então, de por vida de raciocínio, acertar e explicar, e desenrolar, etc., etc. Bem, e isso é o que se integra à luz primordial. E essa luz primordial, dela o indivíduo tem uma visão, por natureza uma visão igual à evidência e ele pode alargar o âmbito de sua certeza caminhando de proche en proche, das verdades da luz primordial, para as verdades menores nela contidas e que ele conhece por aprofundamento e explicitação. E daí para verdades nela não contidas, mas cuja relação lógica com essas verdades ele percebe. Então aqui é todo um sistema de evidência que o indivíduo adquiri e esse sistema de evidenciar… [inaudível] …, se não me engano — ou foi você que leu isso na reunião do MNF — que o homem pode ampliar o raio de suas evidências, que há evidência primeira, segunda, etc. Essas evidências vão crescendo, essas evidências são verdadeiramente certezas.
Bem, agora, é claro, portanto, que a aceitas decorre de certezas que decorrem da grande certeza fundamental da luz primordial. E aqui está o fundamento da aceitas. Mas é o mesmo fundamento da aceitas.
Bem, agora, falamos a respeito da recuperação da luz primordial, o processo do sofrimento que isso exige, falamos também a respeito dos defeitos que levam a pessoa a não ter, a não ser fiel à luz primordial. Um defeito foi lembrado pelo Sergio, é a aposentadoria. A pessoa perde o enlevo pela luz primordial. Então, o trabalho de explicitação passa a ser penoso e a pessoa para no processo de elaboração dos dados de sua própria luz primordial. Outros fatores, como disse bem o Plinio, são: o mundo externo, que contraria muito a luz primordial, a pessoa por debilidade, por covardia abandona a luz primordial; ou então o fato de que o ambiente leva a impor ao individuo uma superficialidade de espírito por onde toda luz primordial é excluída, e o sujeito não tem princípios nem profundidades para nada. Isso seria, tanto quanto eu posso me lembrar, o resumo da reunião. Eu gostaria de terminar, dizendo bem isso: que profundidade é fidelidade à luz primordial. E é profundo o sujeito que leva a fidelidade à sua luz primordial até o último conhecimento. E não é ler livros, coleções alemãs de vinte e cinco volumes, a respeito da pata da formiga, não sei o que, na [hedésia?] do Sul, que isso não é profundidade. Bem, é o que eu teria que dizer.
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1 )Estava como Reunião de sábado à tarde. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.
2) E pur, si muove (It) – Entretanto ela (a Terra) se move. Palavras de Galileu quando foi obrigado a retratar‑se perante a Inquisição, por ter descoberto o movimento da Terra, considerado como heresia por aquele tribunal.