Santo do Dia – 18/9/1964 – 6ª feira [SD IIA D 114] . 3 de 3

Santo do Dia — 18/9/1964 — 6ª feira [SD IIA D 114]

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Como se instituiu o Santo do Dia * Disposições com que o Santo do Dia deve ser ouvido * O Santo do Dia “se eu não faço muito bem, faço o melhor possível” * Mais vale a vontade de ouvir bons conselhos do que o bom conselho recebido

Hoje não há santo do dia. É uma coisa que eu ainda não decidi.

* Como se instituiu o Santo do Dia

Este Santo do Dia começou… Até quem sabe se vale a pena falar a respeito da instituição do Santo do Dia, já que não há santo do dia. Este Santo do Dia começou de um jeito e depois está tomando um feitio diferente que eu tinha imaginado.

Antigamente nós, na capela da Rua Vieira de Carvalho, quando terminavam as nossas reuniões da noite, íamos todos rezar na capela. As orações feitas aqui diante da imagem de Nossa Senhora de Fátima faziam‑se ou no auditório, quando as reuniões eram no auditório, em presença dessa imagem, ou quando as reuniões eram embaixo, ou então, em dias muito solenes, faziam‑se na capela em presença da imagem de Nossa Senhora Auxiliadora, que continua no altar de nossa capela. E quer num lugar, quer noutro, nós dizíamos qual era o santo do dia e se rezava uma oração litúrgica atinente ao santo do dia.

Com a mudança, os nossos hábitos quotidianos passaram por uma espécie de escamoteamento e só mais recentemente é que entrou a propósito de regularizar esse aspecto, retomar essa nossa tradição. E foi sugerido que em vez da oração litúrgica pronunciada, que era uma oração que em muitos casos era feita para valer para vários santos, e que não realçava os pontos de vista que tinham nos levado a organizar os critérios segundo os quais estava organizado o nosso calendário, se fizesse um comentário a respeito do santo do dia, nos dias em que houvesse Santo do Dia.

Esse comentário deveria ser rapidíssimo, deveria ser uma coisa de minutos, dois, três minutos e está acabado. Era apenas uma rápida lembrança da coisa.

Depois apareceu a idéia de que havendo muitos dos nossos amigos dos juniores e da Aureliano cantando e falando lá naquela sala lá de introdução, que era natural que eles fossem convidados a vir cá e ouvir também esse comentário. E há uma coisa inevitável: é que quando a gente vê gente que vem de longe e que sobe uma ladeira a pé — para mim isto é uma coisa terrível, dá uma idéia de um sacrifício tremendo —, sobe uma ladeira enorme de muitos quarteirões a pé e depois desce a pé para ouvir um comentário, a gente fica sem jeito de fazer duas coisas. Primeiro, um comentário minúsculo para uma presença de uma gente numerosa e que fez esse sacrifício. Segundo lugar, vejam essa cena hoje: com muito gosto, com enorme gosto para mim, eu vejo aquela sala cheia.

Agora, como é que eu tenho jeito de dizer: “Hoje não há Santo do Dia”?

É um pouco parecido com aquela coisinha idiota: “Aviso aos navegantes: hoje não há aviso aos navegantes. Meus senhores, salve Maria, os senhores subiram a pé à toa”.

Eu poderia dizer: “Está bem, quando não houver Santo do Dia, eu aviso os senhores”. Agora, tem propósito eu mandar um telefonema dizendo: “Não venham”?

Equivale a isto. Quando o meu gosto é que venham, ainda que não seja para o Santo do Dia.

De maneira que fica uma das coisas para as quais eu não encontrei saída.

Mas tenho diante de mim amigos cansados que já me engoliram durante duas horas, que trabalham muito durante o dia, e que também eu compreendo que não estejam para uma conferência espiritual longa.

Tudo isso acrescido ao fato de que sou naturalmente expansivo e que quando falo, falo muito, os senhores compreendem que eu ao menos quero ter o pudor de dizer que eu compreendo a sans gêne, o gênant da situação, e que excogite uma solução qualquer para ela, que ainda não vi, mas que, enfim, eu tenho isso muito em mente.

* Disposições com que o Santo do Dia deve ser ouvido

Isso dito, haveria alguma coisinha de espiritual para dizer a respeito do Santo do Dia? Por exemplo, das disposições com que o Santo do Dia deve ser ouvido?

Eu queria dar um esclarecimento a respeito disso: é que o Santo do Dia é feito em disposições pessoais minhas também muito diferentes, que essas coisas não vão num crescendo e que a gente não deve fazer assim uma espécie de expectativa de campeonato, de maneira que cada Santo do Dia é melhor que o outro Santo do Dia e que se supera sempre ao outro.

Porque, em primeiro lugar, eu não sou como a inflação: eu não tenho a possibilidade de subir em espiral até o infinito. Os meus recursos são limitados. Infelizmente além de serem limitados, eles são bissextos.

De maneira que eu mesmo percebo que há dias em que eu discorro com muito mais facilidade e outros dias em que eu discorro com muito mais dificuldade, ao sabor, às vezes, de coisas não santas, que durante o dia fazem com que à noite eu esteja emperrado para o Santo do Dia, de tanta preocupação, de tanto pensar. E olhar nisso ou naquilo, para não dizer nesse ou naquele, evidentemente à noite a gente está mais carregado.

* O Santo do Dia “se eu não faço muito bem, faço o melhor possível”

Eu também nessa explicação devo dizer que eu às vezes me sinto até constrangido pelo cansaço com que eu faço o Santo do Dia. Eu tenho às vezes o receio até de desapontar.

E eu gostaria de dar aqui essa explicação: que eu dou com toda a aplicação que eu posso o Santo do Dia, mas que eu compreendo que tem essas limitações de meus vais-e-vens e altos e baixos inevitáveis por causa do excesso de tarefas.

Por causa disso, sempre que eu vejo que o Santo do Dia pode especialmente decepcionar, eu ao cabo de fazê‑lo, peço a Nossa Senhora que lhes dê paciência e remedeie as lacunas que a coisa inevitavelmente tem.

Eu tenho certeza do seguinte: que com esse ato de confiança e pedindo a Ela que remedeia as lacunas, Ela fará a coisa melhor do que eu faria se a coisa saisse bem feita. De maneira que isto eu enfrento com tranqüilidade.

Outra coisa, por fim, que eu preciso dizer também é que muitas vezes eu, do santo do dia, só sei aquilo que está escrito aqui, porque não tenho tempo de ler o santo do dia. Eu não posso ir ler uma biografia ou uma hagiografia antes de vir cá. De maneira que muitas vezes meu comentário toca o assunto de tangente, não entra de fato no assunto de frente.

Mas o que é que eu posso fazer? Eu não posso não fazer o Santo do Dia e hei de fazer algum comentário que seja útil a propósito do santo do dia. Então a coisa sai como sai.

* Mais vale a vontade de ouvir bons conselhos do que o bom conselho recebido

Que os senhores tenham a paciência de ouvir e os senhores [tenham] a generosidade de vir, é uma coisa que me agrada. Porque quando uma pessoa vem para comer uma comida ótima, a gente pode dizer que ela não está com muito apetite, mas que ela veio por causa da comida que é gostosa. Quando vem para comer uma comida desigual, em que eu concedo que entre um ou outro prato bem feito, mas uma comida desigual, quer dizer que de fato ela tem fome. E em matéria de bons conselhos, mais vale a fome do que a comida, e mais vale a vontade de ouvir bons conselhos do que o bom conselho recebido.

De maneira que uma vez que nada tivemos que fazer, fica dada essa explicação sobre vários pequenos aspectos constrangedores do Santo do Dia. Para os senhores acabarem entendendo que, se eu não faço muito bem, faço o melhor possível.

Com isso eu peço que rezem por mim. E nosso Frei Jerônimo então encerra a oração.

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