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Santo do Dia — 14/9/64 — 2ª feira (019.200)

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Exaltação da Santa Cruz * Ultramontanos guerreiros e amigos do sofrimento

Hoje é uma das mais bonitas festas como título e como significado. Hoje é 14 de setembro, a Exaltação da Santíssima Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Antes de tudo, a palavra “exaltação”. O que é que a palavra “exaltação” traz consigo?



Exaltar quer dizer tornar-se alto. Segundo a linguagem comum, impregnada de heresia branca, o indivíduo exaltado é aquele que fica irritado, e que começa então a derramar sua bílis por cima dos outros. Mas a exaltação não é isto. É tornar-se alto. Ex altere, tornar-se alto, subir. E a exaltação da Santíssima Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, é a festa pela qual a Igreja proclama aos olhos do mundo e lembra que Ela levanta por cima de todas as coisas. Quer dizer, põe na devida altura, que é a maior de todas as alturas possíveis, a Santíssima Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Essa idéia da exaltação é uma idéia que se encontra em algumas orações da Igreja, e que corresponde a um vocábulo muito usado na Sagrada Escritura. Assim, o inimicus Sanctae Mater Ecclesiae, humiliare digneris; te rogamus, audi nos, na Ladainha das Rogações: “que Tu te dignes de humilhar, de pôr para baixo os inimigos da Santa Igreja, nós te pedimos, fazei-o, ouvi-nos nesse sentido.

Nós, na oração depois da Missa, falamos da exaltação da Santa Madre Igreja, naquela oração de caráter exorcístico que o padre reza após a Missa. Então há uma humilhação dos inimigos da Igreja, e há uma exaltação da Santa Madre Igreja — coisas que um católico deve ardentissimamente desejar.

Agora, o que vem a ser essa exaltação? E o que vem a ser aquela humilhação? Que são coisas conexas. A Igreja é exaltada quando seus inimigos são humilhados. E os inimigos da Igreja só são autenticamente humilhados quando a Igreja é exaltada.

O que é propriamente esta exaltação? O que é a exaltação da Igreja? O que é a exaltação da Cruz? O que vai ser a exaltação de Nossa Senhora no Reino de Maria?

A exaltação é o seguinte. É a afirmação, mas afirmação oficial, reconhecida por toda a sociedade, reconhecida por toda a opinião dominante, impregnando todos os ambientes, todos os costumes, toda a civilização, dominando completamente a atmosfera dentro da qual o homem se move. A afirmação de que a Igreja é a mais alta das sociedades, é o mais alto dos valores, de que ela é o fundamento e fonte de fecundidade, de toda a virtude e, portanto, de toda a ordem e de toda a civilização. Essa é propriamente a exaltação da Santa Madre Igreja. E a humilhação dos adversários da Igreja é a afirmação de que eles estão expulsos, estão escorraçados, estão condenados, estão objetos de todo o opróbrio e de toda a vergonha, e que o que eles pensam é errado, o que eles querem é mau. O que eles sentem é torpe, e que portanto eles devem estar como verdadeiros sentenciados, à margem da sociedade, do convívio quando não chegar o momento de os matar e de os tirar desta vida. Isto é propriamente a humilhação dos inimigos da Igreja.

Agora, o que é a exaltação da Santa Cruz?

A cruz é o símbolo do sofrimento, da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, de todo sofrimento que o católico carrega nesta vida, com o qual ele abre para si em união com Nosso Senhor Jesus Cristo as portas dos Céus. E colocar a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo mais alto que todas as coisas foi uma preocupação de toda a Civilização Cristã. Antigamente, os edifícios mais altos da cidade eram as torres das igrejas, nas quais e colocava a cruz. No alto das coroas dos reis colocava-se a cruz. Quando se queria fazer um documento muito importante, no alto do documento se inscrevia a cruz. Enfim, em tudo quanto o homem concebia de mais alto, estava a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, que trazia consigo a idéia de que toda a missão d’Ele, não se esgotando na cruz, tinha entretanto nela o seu ponto central. E que de tudo aquilo que Nosso Senhor tinha feito, o mais admirável e o mais adorável era o de ter sofrido e morrido na cruz.

A aceitação do sofrimento, que é uma imolação, que chega até à destruição, e que representa um ato de fidelidade do homem à sua própria vocação, à sua própria, e em função da qual o homem enfrenta todas as lutas, todos os tormentos e todas as dificuldades, porque ali está sua missão e sua vocação, aquilo que ele tem que fazer, isto é o ensinamento que a cruz nos dá.

Nosso Senhor Jesus Cristo era o Redentor do gênero humano. Ele tinha que redimi-lo aceitando a morte. Ele manteve a luta no Horto das Oliveiras, depois foi até o alto da Cruz e se crucificou, para realizar a sua missão. E a cruz é a afirmação do sofrimento que o homem aceita para realizar a vontade de Deus sobre ele na terra, a vocação que ele tem. É o sofrimento que nós, ultramontanos, aceitamos consentindo em ser humilhados, em ser odiados, em ser combatidos, em ser isolados, em ser separados dos outros, em ser objeto de escárnio, em ser perseguidos economicamente, em ser perseguidos de todos os modos, mas algo que a gente não aceita assim como um armazém de pancadas, mas a gente caminha de encontro a isto e arca com ele como um cruzado que se atirava por cima dos maometanos.

É por esta forma que nós devemos ver a cruz, e é esta a nossa cruz. A verdadeira cruz nossa é a cruz não só de sermos combatidos, o que é uma cruz fácil, mas é a cruz de sermos combatentes até o último ponto, intrépidos em tomar, em dar o primeiro passo para o ataque, e não ter um momento de sossego, em lutar a nossa vida inteira, para que a Contra-Revolução vença, a Revolução seja esmagada, e a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo seja elevada sobre todas as coisas.

Interiormente falando, a mesma coisa. Nós temos uma Revolução e uma Contra-Revolução para fazer dentro de nós. Há um homem ruim que é o revolucionário, e um homem bom que é o contra-revolucionário. E isto dá numa luta, num atrito interior, numa fricção que pode em determinado momento ser até pungente.

Pois bem, esta luta é preciso que nós a tomemos de frente, e que tenhamos a iniciativa audaciosa de derrubar o adversário. E esta luta é para a exaltação da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo em nós.

Quando antigamente se queria significar que algo tinha uma dignidade suprema, naquilo então se punha, como eu disse, uma cruz. Os homens se batizavam à sombra da cruz, se casavam à sombra da cruz, punham cruzes nos seus escudos, colocavam a cruz no interior de suas casas, nos seus lares, e morriam olhando para ela. Quer dizer, a cruz marcava toda a vida do homem. É essa a idéia fundamental de que a vida foi feita para o sofrimento, foi feita para o heroísmo. E quem fala em heroísmo fala em cruz.

A verdadeira alegria da vida não consiste em ter prazeres pequenos, comidinha, chinelo, casinha gostosa, conforto, robe de chambre, ou então vidão. A verdadeira satisfação da vida é aquela sensação de limpeza da alma que a gente tem quando olhamos para a nossa cruz de frente, e dizemos “sim” para ela. Nós fazemos, assim, como Nosso Senhor Jesus Cristo que não fez, não permitiu que o tormento fosse por cima d’Ele, mas Ele foi por cima do tormento. Ele previu, se dirigiu, e foi ao lugar onde a coisa devia ser, e Ele se entregou porque quis se entregar e, com passo valoroso, levou sua cruz até o alto do Calvário e ali se deixou crucificar.

Quer dizer, esta idéia de que o homem nesta vida não tem essa alegria falsa de uma sucessão de diversões, de cinema, de teatro, de baile, de reuniões mundanas, de vaidades, de negócios, que isto não é a vida do homem, mas que a vida do homem é lutar como eu acabo de dizer: dentro de si e fora de si, olhando o sofrimento de frente, e fazendo dele a sua alegria, isto é verdadeiramente a exaltação da cruz em nós.

O verdadeiro ultramontano deve ser antes de tudo apóstolo de Maria. Ele deve, em segundo lugar, ser filho da Contra-Revolução. Mas em terceiro lugar ele deve ser amigo da cruz. Não há ultramontano que não seja amigo da cruz, que não goste, que não compreenda e que não fique alegre em saber que sua vida tem que ser de sofrimentos, e que não compreenda que nesses sofrimentos uma parte salientíssima é da luta dentro e fora de si, e que ele é um batalhador até o fim de sua vida. Sem este amor à cruz, um verdadeiro ultramontano não existe.

Então nós devemos pedir hoje a Nossa Senhora que Ela nos dê essa graça, de exaltar a Santa Cruz em nosso espírito. O que eu acabo de dizer é o espírito de cruz, pelo qual a gente concebe crucificadamente todas as coisas, e em que a gente luta e vence, realmente, porque os grandes guerreiros da vida foram os que tiveram esse espírito de cruz. Então, isto é o que nós devemos pedir: este amor à cruz, este espírito de cruz, esse naturalidade na luta e no sofrimento que caracteriza o verdadeiro guerreiro da Igreja Militante, e o verdadeiro ultramontano.

Eu volto a dizer, o ultramontano sempre alegre, sempre satisfeito, que não compreende a cruz e foge da cruz, não é ultramontano. É tudo, menos ultramontano. O que propriamente caracteriza um ultramontano é a inteira conaturalidade com a cruz. Os obstáculos, as adversidades, as dificuldades, ele acha normal que lhe aconteça, e quando ele passa algum tempo sem sofrer, ele fica alarmado. São Luis Grignon de Montfort disse que quando alguém passa algum tempo sem sofrer, deve desconfiar que Deus estar desgostosíssimo com ele. E deve fazer novenas, peregrinações, oraçõesÍ , para que Deus lhe mostre no que é que está descontente. Porque são só os abandonados de Deus que não têm verdadeiro sofrimento.

Isto fica dito, e eu acho que nada poderíamos pedir de melhor a Nossa Senhora, do que Ela nos dar o amor que Ela mesma teve à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os senhores imaginem terminada a Paixão, feita a Ressurreição, feita a Ascensão, Nossa Senhora ficou na terra. Ela tem duas grandes alegrias Ela tem a alegria da Eucaristia, mas Ela tem outra alegria: é a meditação da Cruz. Os senhores já imaginaram o que seriam as horas de solidão de Nossa Senhora meditando diante da cruz? Quanto Ela reverenciou aquela cruz… Quando Ela honrou aquela cruz… Que meditações sublimíssimas Ela fez aos pés da cruz… E em que alto grau o espírito de sofrimento subiu nEla, o espírito de cruz subiu nEla, em que ponto Ela foi o modelo de alma crucificada para nós?

Pois bem, então nós devemos pedir a Ela em nome dessas meditações solitárias d’Ela, diante da cruz, das quais talvez Ela tenha tido em vista diretamente esse grupo de ultramontanos que Ela viria de suscitar vinte séculos depois, que Ela nos dê isto, que é propriamente a rocha firme sobre a qual a vida do grupo deve se alicerçar, e que é esse espírito de cruz, esse respeito, essa admiração, este entusiasmo pelo verdadeiro sofrimento inerente à vocação, esse desejo de sofrer, esse desejo heróico de sofrer, que é o característico do verdadeiro cavalheiro e do verdadeiro ultramontano. Peçamos isto, portanto, a Nossa Senhora essa noite.

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