Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 25/8/1964 –
3ª feira [SD 029] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 25/8/1964 — 3ª feira [SD 029]
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As duas fisionomias dos santos: a real e a “heresia branca” * São Luís IX, rei de monarquia orgânica, defensor da coroa, respeitando a nobreza e dignificando a plebe * Cruzado, guerreiro perfeito, amado por seu povo, imitador da Paixão de Cristo até a morte * Oração do Condestável Du Guesclin a São Luís
* As duas fisionomias dos santos: a real e a “heresia branca”
Hoje é festa de São Luís, rei, confessor, modelo de estadista católico. Participou de duas Cruzadas. Sua relíquia se venera em nossa capela. Século XIII.
Como sempre, há dois São Luís. A “heresia branca” formou uma imagem de São Luís muito diferente da imagem verdadeira.
Acho interessante, por exemplo, quando se vêem essas imagens de São Pio X e se comparam com a fotografia de São Pio X que está na sala dos Juniores. A fotografia dá impressão de um homem agigantado no físico, forte na alma, rei espiritual consciente de sua dignidade, espírito sobrenatural, uma coisa magnífica. A imagem é um vovozinho velhinho, alquebrado, com uma carinha de quem pede desculpa por ser papa, uma certa vergonha por não ser padre-operário. Há um Pio X da legenda da “heresia branca”, e um São Pio X verdadeiro, histórico, da verdadeira biografia do São Pio X herói do antimodernismo, etc.
Em São Luís, a mesma coisa. Em primeiro lugar, há uma primeira imagem que é a eterna história de São Luís, sentado debaixo do carvalho de Vincennes, distribuindo justiça. De maneira que se tem a singular impressão de um rei que morava debaixo das árvores, que podendo dispor de um mundo de castelos e tendo que sustentar a pompa e a representação do primeiro reino da cristandade, tendo que gerir todo um Estado, fazer guerras, etc., não achava nada de melhor do que puxar uma cadeirinha debaixo de uma árvore e ficar distribuindo justiça, atendendo, naturalmente absolvendo todo mundo, rodeado de uma réplica plebéia dele mesmo, tratando de coisas que não supõem argúcia de engenho, não supõem força de vontade, todo mundo imbecilizado em volta. O rei abóbora, com um monte de abobrinhas em volta, aboborando embaixo de um carvalho.
Essa seria a imagem oficial de São Luís. Essa imagem é explorada para opor aos reis que vieram depois. Então, Luís XIV no fastígio de sua glória, castelo de Versalhes, quarto de dormir pomposo, etc., isto seria o rei errado. O rei simples é o rei marmiteiro, que julgava debaixo do carvalho de Vincennes.
* São Luís IX, rei de monarquia orgânica, defensor da coroa, respeitando a nobreza e dignificando a plebe
É o momento de dissociarmos essas imagens e nos lembrarmos de alguns traços da vida de São Luís. Entre outros traços, convém lembrar São Luís como estadista, São Luís como guerreiro e São Luís como homem de piedade.
Primeiro, devemos considerar um aspecto importante da vida de São Luís: São Luís como rei da monarquia orgânica. Ele não foi, nem um pouco, daquele tipo de rei fait néant, que abandonava todas as prerrogativas reais nas mãos dos vassalos. Pelo contrário, ele era verdadeiramente cioso do poder real, e se os vassalos procuravam enfrentar ou diminuir o poder real, ele várias vezes resistiu de frente e manteve as prerrogativas reais.
Por outro lado, ele era tão cioso da autonomia dos senhores feudais dos respectivos feudos, que dele se conta, entre outros, esse pequeno fato:
Estava rezando numa igreja e, num botequim, perto da igreja, começaram a fazer desordem, perturbando sua oração. Então, perguntaram-lhe por que não dava ordens que aqueles botequineiros saíssem e acabassem a desordem. A resposta dele: “Mande procurar quem é o senhor desse feudo e diga a ele que reprima esse abuso”. Seria tão natural uma ordem direta do rei de França, mas vejam a preocupação de observar em seus vários graus os condutos feudais, e de respeitar as várias hierarquias que estavam debaixo dele, para o bom amor dessa organicidade da estrutura feudal, que ele respeitava escrupulosamente, dentro dos limites em que devia ser respeitada.
O que é profundamente diferente de Luís XII, de Luís XIII, de Henrique IV, para não falar senão deles, pois poderíamos ir até Luís XI, destruidores sistemáticos da hierarquia feudal.
Por outro lado, foi também São Luís que cuidou das corporações, e mandou fazer o assento dos regulamentos dos costumes das corporações, dando estrutura e estabilidade às organizações plebéias, que constituíam as unidades autônomas dentro da plebe, sendo um alentador de toda forma de autonomia em seu reino, dentro do qual ele era o centro de gravidade enérgico e vivo.
São Luís defendeu as prerrogativas da autoridade real, não só contra os insurretos de toda espécie, mas até contra a Santa Sé. Está em seu processo de canonização, foi amplamente estudado, que a Santa Sé tendo querido fazer ingerências de caráter político imoderadas na França, São Luís resistiu de frente e levou as coisas longe até obter que essas ingerências cessassem.
* Cruzado, guerreiro perfeito, amado por seu povo, imitador da Paixão de Cristo até a morte
São Luís como cruzado. São Luís ao ser citado como cruzado, faz parte da legenda ele morrendo de peste em Túnis. Então é o rei doente, deitado num colchão como os pobres assistidos pela Conferência de São Vicente de Paula, todo mundo tem pena, enterra-se com choramingos e derrotado. A realidade histórica tem algo disso, mas não só isso.
Devemos lembrar São Luís desembarcando, como descreve Joinville, todo armado, magnífico, o homem mais alto de seu exército, um capacete luzidio com armadura de ouro. Quando sua barca tocou no Egito, ele tinha tal sanha de combater, que ele pulou armado dentro do mar, e à frente de seus homens pulou em terra e começou a combater. Depois todos os feitos que realizou nas Cruzadas, que o sagraram como um guerreiro perfeito. Isto deveríamos pôr ao lado do guerreiro ferido, doente, do guerreiro padecente que imita a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, e com isso se torna imensamente venerável. É juntando todos esses aspectos que temos uma imagem adequada do Rei São Luís.
Essa imagem nos deve levantar uma pergunta: um rei nessas condições é verdadeiramente amado pelo povo, o povo francês compreendia o que era esse rei?
Há uma prova que é verdadeiramente tocante. As moedas da Idade Média são, em geral, caras, mas as mais baratas dentre essas moedas são as do Rei São Luís. Porque quando ele morreu, o povo começou a guardar suas moedas, porque tinham a efígie dele, como lembrança e como medalha. Por causa disso, conservaram-se em incontáveis lares franceses, de maneira que são as mais baratas das moedas medievais, provando o respeito e veneração dos franceses pelo seu rei.
Isto indica bem que a virtude quando bem praticada, quando vivida de um modo autêntico, só pode produzir no povo uma reação boa e se não produz uma reação boa, é porque o povo não presta.
* Oração do Condestável Du Guesclin a São Luís
Aqui temos uma linda oração do Condestável Du Guesclin, companheiro de Santa Joana d’Arc — portanto, muito posterior a São Luís — feita a São Luís:
Guardai-me puro como o lírio de vosso brasão. Vós que mantínheis vossa palavra mesmo quando dada ao infiel, fazei que jamais mentira passe por minha boca, ainda que a franqueza devesse me custar a vida. Homem de proezas, incapaz de recuos, cortai as pontes para os meus fingimentos e que eu caminhe sempre para o ponto mais duro do combate.
Guardai-me puro como o lírio do vosso brasão.
A castidade do guerreiro católico.
Vós que mantínheis vossa palavra, mesmo se dada a um infiel, fazei que jamais mentira passe por minha boca, ainda que a franqueza devesse me custar a vida.
Quer dizer, a verdade deve ser dita mesmo diante dos mais fortes e ainda que custe a vida, mas não mentir por medo de ninguém. Ainda que minha vida esteja ameaçada, direi ao forte que me oprime a verdade inteira.
Homem de proezas, incapaz de recuos,…
Era o voto do cavaleiro, que nunca recuava em batalha.
… cortai as pontes para os meus fingimentos e que eu caminhe sempre para o ponto mais duro do combate.
É o mais duro da batalha, mas também o mais duro em tudo: o mais duro da vida, o mais duro em todas as situações.
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