Reunião
Normal – 15/8/64 – Sábado .
Reunião para o Grupo da Martim 1 — 15/8/64 — Sábado
Nome
anterior do arquivo:
A reação da opinião pública no crepúsculo da vida de Nosso Senhor é semelhante ao desencanto que houve com o Grupo * Quando a apetência do público foi baixando, Nosso Senhor, em revanche, redobrou o zelo na formação dos apóstolos: Semelhança com o Grupo * Uma impressão de grande semelhança: Macabeus X Sinagoga; “Catolicismo” X Estrutura. Uma espada de ouro e uma auréola para o leão dourado? * Santo Inácio de Antioquia, a criança que Nosso Senhor usou como exemplo de humildade * Apologia da criança: Não é ambiciosa, não é calculista, não quer subir, não quer se impor, tem uma alma desinteressada e assim vive * Os apóstolos eram gente corroída pela idéia do sucesso terreno de Nosso Senhor * Um dos grandes problemas do Grupo é preocupar-se com a opinião dos que estão fora * O mistério do “Thau”. Mais vale a pena ser amado do que amar. “Quem tem mais “Thau”, Nosso Senhor supera até a infidelidade para manter” * Segundo Catarina Emmerich, a mãe de Judas teria ido justificar seu filho perante Nossa Senhora
* Os altos e baixos da vida de Nosso Senhor é semelhante aos altos e baixos de quem se dedica ao apostolado
[Com] sumo embaraço, devo dizer que eu costumo escolher a matéria sobre a qual deve tratar a reunião no intervalo entre a reunião da Comissão B e a reunião da tarde. E eu não tive tempo de pensar sobre o que eu devo tratar.
Querem me sugerir um tema, eu [inaudível] desenvolverei o tema, mas não saberia no momento o que tratar. Querem algum tema? Parece que o Fábio tinha umas perguntas sobre o tema da Comissão B, ou sobre [inaudível]? Não era sobre [inaudível]?
Eu tenho receio, eu não selecionei o Filion, mas quem sabe se então me dão uns minutos para eu selecionar o Filion…
Parece-me curioso. Curioso porque quanto mais eu leio “A Vida de Nosso Senhor”, do Filion, mais eu percebo a analogia de toda a vida daquele que faz apostolado com a vida de Nosso Senhor. Quer dizer, há uns…
[Falta ao menos parte de uma linha do texto por defeito da xerox.]
… diferentes, mas aquele christianus alter Christus chama muito a atenção. Nós tivemos, na nossa história, um período muito brilhante que foi aquele período em que eu fui eleito deputado, etc., etc., até à publicação do Em defesa. Com a publicação do Em defesa houve uma espécie de queda, que depois representou um reerguimento. Mas essas fases assim de altos e baixos, eu noto muito que existem também, que se repetem também nas fases das várias relações daquele que procuram fazer apostolado junto àqueles sobre o qual querem exercer o apostolado.
A gente tem fases em que a gente influencia muito, em que a palavra da gente importa muito, tem muito alcance, etc., etc., depois há umas fases em que a gente entra numa espécie de desbotamento em relação àquela pessoa e aquilo tudo apaga, aquilo tudo murcha e que parecem até circundadas por uma espécie de azar: nada dá certo, tudo dá errado.
Depois há uma fase em que volta de novo todo o jogo das coincidências felizes e dessa influência. Tudo volta de novo.
Engraçado [é] que a vida de Nosso Senhor teve umas coisas assim, e o Filion caracteriza essas coisas de um modo muito interessante, quando ele fala da última etapa que foi a etapa que conduziu Nosso Senhor à Cruz. Ele fala então da decadência do prestígio de Nosso Senhor.
Lembrem-se que ele divide a vida de Nosso Senhor em três períodos. Há a grande divisão da vida oculta e da pública. Agora, a vida pública ele divide me três grandes períodos: o período da formação do grupo dos Apóstolos, o período da glória pública, e o período da decadência da popularidade, que chega até à perseguição e à morte.
A gente vê [como] as circunstâncias que vão cercando a Nosso Senhor dão a impressão de uma noite que vai se fazendo sobre Ele e que Ele…
[Idem. Este problema repete-se ao longo do texto. Para o indicar limitar-nos-emos a escrever “linha de cima” ou “linha de baixo”, consoante o caso.]
… eu até achei interessante sublinhar. Ele diz o seguinte:
* A reação da opinião pública no crepúsculo da vida de Nosso Senhor é semelhante ao desencanto que houve com o Grupo
Agora que a popularidade que cercava Nosso Senhor visivelmente abaixou, a hostilidade de seus adversários vai se tornando mais ardorosa e mais ativa. Eles terão menos receio de o atacar de frente, de se constituírem um grupo para chegar melhor aos resultados que tenham em vista.
Quer dizer, vejam essa espécie de coincidência catastrófica — catastrófica entre aspas, mas catastrófica — de uma popularidade que vai abaixando por razões meio imponderáveis e, de outro lado, o fervor dos adversários, a audácia dos adversários crescendo e constituindo uma situação que é meio sem saída.
Foi bem o que se deu conosco naquele período de decadência, em que os antigos veteranos da Pará se lembrarão, a nossa popularidade caindo junto aos meios marianos(…)
…em que eu senti, ao mesmo tempo, a audácia de nossos adversários se tornando maior. Quer dizer, como uma espécie de jogo de um cenário todo que se move numa certa direção.
Aqui continua:
Como Jesus tinha menos sucesso junto ao povo, Ele viverá, a partir desse tempo, numa espécie de retiro relativo e não se exibirá tanto em público, não se mostrará tanto em público.
Que foi exatamente o que nós ficamos coagidos a fazer.
Os seus milagres cessaram em parte de satisfazer a curiosidade de um grande número de seus compatriotas, que queriam milagres cada vez mais estrondosos.
Corresponde a um certo estado de espírito que pode [aparecer]… Essas etapas aparecem num ou noutro grupo.
Milagres cada vez mais estrondosos, mais gloriosos e, em sentido oposto, Jesus Cristo os vai fazendo menos freqüentes.
Isso é uma coisa que existe também. Um certo período de desencanto em relação ao Grupo, em [relação] os prodígios que o Grupo de fato faz. A gente chega pára um e diz:
— Olhe, você sabe que vai sair a edição alemã da RAQC?
— É?… Você sabe que Fulano perdeu a tia-bisavó?
— Ah, perdeu… Ah, aquela senhora assim, muito rica, aço Siemens não sei o quê, Banco não sei o quê.
— Eu sei…
— … até que por sinal é membro do diretório do Partido Democrata Cristão em Itaquaquacetuba, e eleito vereador a última vez.
— Oh, oh, oh!
É um tema para muito interesse, enquanto [que] o tema da edição alemã de RAQC… “
— Ah, é? É…”
Entendem? Corresponde a essa espécie de crepúsculo que é muito parecido com esses traços da vida de Nosso Senhor. Por quê? Porque o mal é sempre o mesmo e nós não somos nada. Nosso Senhor é que no fundo joga por detrás dos homens. De maneira que a compreensão dessas situações crepusculares e o que elas têm de providencial e até de arquitetônico — porque nesse ponto isso existe muito — essa compreensão é muito importante, a partir desse ponto.
Continua a coisa aqui:
* Quando a apetência do público foi baixando, Nosso Senhor, em revanche, redobrou o zelo na formação dos apóstolos: Semelhança com o Grupo
Ele, Jesus, a partir desse ponto não dará mais com igual prodigalidade ao público as suas divinas lições. Em revanche, Ele se consagrará com zelo redobrado à obra essencial da formação dos Apóstolos e dos seus discípulos íntimos.
Há tantas coisas curiosas aqui, interessantes que me parece que a coisa chama a atenção. Chama a atenção em que linha? Quando todo o nosso apostolado externo foi cerceado, nós não tivemos outra coisa senão nos recolher, para nos formarmos a nós mesmos. Daí saiu o Grupo de “Catolicismo”. Foi precisamente esse ponto.
Então é para que nós compreendamos bem como essas catástrofes estão na via da Providência. Não constituem verdadeiros azares, mas são condições de desenvolvimento. E que é até preciso aproveitar ciosamente essas situações, porque são…
[Linha de baixo.]
… já falamos aqui: essa história de beber o cálice até o fim — que é o que tem mais de arquitetônico —, as humilhações necessárias. Sem elas não se dá essa oblação pura e desinteressada em relação a Deus que tem todos os direitos, etc. Não se dá esse amor puro e desinteressado: “Eu estou sendo imolado e sacrificado, mas Deus merece e eu faço isso de bom grado, sem nenhum resultado útil. Porque Ele é meu Senhor, Nossa Senhora é minha Rainha, é minha Mãe. Eu faço isso de boa vontade.”
Mas também depois tem esse lado: que só isso é verdadeiramente fecundo, só isso é que é verdadeiramente grande e é preciso aceitar essas coisas.
Eu tenho um pouco de receio de que nós estejamos viciados em triunfos a partir do caso do Carlos Alberto onde nós nos abeberamos de infortúnios até à borda do cálice. Que nós estejamos um tanto viciados em triunfos e que, de repente, vindo uma lavada, nós achemos que não é arquitetônico.
É, pelo contrário, profundamente arquitetônico. É preciso ter o espírito preparado para isso e muito preparado. Esse exemplo da vida de Nosso Senhor me pareceu [muito] a propósito para nós compreendermos isso ao longo dos anos.
Na história da Igreja quantos períodos houve assim. Períodos em que a Igreja parece uma mãe velha, sem graça, que não tem mais nada a dar para seus filhos, de encontro a qual existe a sepultura.
* As mutações pelas quais passa a Igreja ao longo dos séculos é semelhante à figura do Corcovado num dia de nuvens
Por exemplo, o modo pelo qual o homem do século XVIII via a Igreja era assim. É uma mãe velha, sem graça. Voltaire tinha muito mais prestígio do que a Igreja Católica inteira. A Enciclopédia é que era interessante, era espirituosa, sobre ela é que sopravam os ventos da juventude, da novidade. Entretanto, Voltaire acabou e a Igreja está aqui pujante, ao menos a não ser vista do lado de seus inimigos internos em que estado ela está.
Não é verdade?
Em várias épocas da vida da Igreja tem-se visto isso: Ela passa por crepúsculos e até as maravilhas que Ela realiza são menores, mas depois aquilo muda e varia de novo, etc., etc.
Aquela metáfora que me dá a figura do Cristo-Corcovado me vem sempre ao espírito quando eu penso nisso. A gente olha para a figura do Cristo-Corcovado à noite, algumas vezes é uma noite serena, ele é visto inteiro. Depois, outras noites são noites com nuvens, ele está coberto quase inteiramente, a gente só vê uma mancha luminosa. Depois, bate um vento, saem as nuvens, a gente vê o peito, o coração, depois vê a cabeça, depois vê a mão, vê o pé dele, depois aquilo tudo passa de novo. Assim são as mutações dessas coisas ao longo da vida da Igreja, mas é também a mutação daquele que faz apostolado junto àqueles sobre os quais o apostolado se exerce. Há também nuvens, há coisas dessas que passam de novo.
E isso está na história de Nosso Senhor também, Ele quis passar por isso. De maneira que me parece muito arquitetônico nós refletirmos a respeito desse ponto.
Aqui outra coisa sobre quem seria Ele. Então ele [Filion] diz o seguinte:
Os discípulos acabavam de citar um novo nome, o de Elias. É que esse profeta era olhado, sobretudo depois do episódio que é contado no Segundo Livro dos Macabeus, como um dos mais eminentes protetores da nação teocrática. Com efeito, antes de empenhar uma batalha decisiva com o general sírio Nicanor, Judas Macabeu teve uma visão na qual lhe apareceu “um homem distinto por sua grande idade e seu ar de dignidade, de um aspecto admirável e cercado da majestade mais imponente.”
Essa figura que eles descrevem aqui é uma descrição linda, vejam que coisa admirável:
Um homem distinto por sua grande idade e seu ar de dignidade
É como se pode imaginar bem um profeta.
…de um aspecto admirável e cercado da mais imponente majestade.
Então lhe foi apresentado pelo grão-sacerdote Onias como sendo o amigo dos irmãos e do povo de Israel e como aquele que reza muito pelo povo e pela cidade santa de Jerusalém; como Jeremias, profeta de Deus. Jeremias, ele mesmo então, ofereceu ajuda aos Macabeus: uma espada de ouro, para que com essa espada ele ferisse os inimigos do povo de Deus.
* Uma impressão de grande semelhança: Macabeus X Sinagoga; “Catolicismo” X Estrutura. Uma espada de ouro e uma auréola para o leão dourado?
Vejam que episódio lindo para começar uma chouannerie — porque os Macabeus foram, ao pé da letra, uma chouannerie —, que episódio maravilhoso para aparecer um ancião desses. E aparece com uma espada de ouro e dá a espada de ouro para o chefe da revolta. De maneira que o chefe da revolta começa a combater com uma espada toda de ouro que lhe foi dada pelo próprio profeta Jeremias. E com essa espada vai começar a luta pela libertação do povo de Israel das influências externas que estavam decompondo e deteriorando o povo de Israel.
Quer dizer, é uma coisa lindíssima que me levou, depois de ler isso, a pensar de acrescentar ao nosso símbolo, nas mãos do leão uma espada de ouro. Porque eu tenho impressão de que há uma grande analogia entre a posição do movimento do “Catolicismo” e a Igreja e a posição dos Macabeus e a sinagoga. A sinagoga estava numa espécie de liquefação e o povo judeu completamente degradado. E os Macabeus se levantaram contra as dominações que queriam impor costumes pagãos, dominação pagã, enfim, a civilização pagã ao povo de Israel. Então, a partir desse ponto, foi a luta.
Aí seria uma coisa lindíssima comparar nossa ação com a ação dos Macabeus. Eu creio que chegará até lá. Então, se eu não receasse de sobrecarregar o nosso símbolo, — eu tenho muito receio de símbolos sobrecarregados em excesso — pôr ali uma espada de ouro na mão do leão, lembrando a luta…
[Linha de cima.]
… [expressava?]. Ainda que a espada, sendo bordada lá, a ponta dela transpassasse o escudo, passasse um pouco para dentro do campo branco. Eu não veria nisso nenhum inconveniente.
(Sr. –: [Observação.])
Ah, eu sustentaria a espada. Porque eu acho que essa espada não deveria ser sustentada assim como quem apresenta armas, mas deveria estar em diagonal como quem está para descer a espada em cima de alguém. Porque conduzida como [inaudível] ou para trás.
Não acham que seria mais bonito assim? Para a frente? [inaudível].
É como a espada. Eu não sei, ao menos no meu modo de ver é mais bonita assim. Não sei o que acham.
Em continuação da mão, nessa atitude. Le bâton [inaudível] não sei o que pensam a esse respeito, mas a mim me diria muito uma espada. Espada de ouro.
A questão é que espada só não sobrecarregaria. O que eu gostaria muito de pôr, mas ali nem iria, era no leão o halo de santidade, para indicar a idéia de luta santa, de poder sagrado, um santo que está em guerra. Ficaria muito bonito. Como tem, por exemplo, a águia de Áustria e a águia da Espanha. Acho que até é imponível.
Que tamanho teria de ter um halo de santidade para cobrir a cabeça desse leão. É, podia se pôr de lado. Eu teria receio. Eu tenho muito receio de simbologia carregada. Depois aparece uma idéia bonita para pôr na copa da espada, e depois um lírio dentro do Thau e lá vai. Essas coisas quanto mais se sobrecarregam, mais se perdem na expressão. Sobriedade é muito importante aí. Não acha nosso irônico diretor?
(Sr. –: [Observação.])
Ah, isso eu não me incomodo a mínima. Acho que nós temos perfeitamente o direito de criar uma…
[Trechos da linha de baixo.]
Não [me aborrece?]. É isso. E há um poder no…
[Linha de cima.]
… em matéria de heráldica nos caberia.
(Sr. –: Na Inglaterra todas as monarquias em geral têm o pendão de guerra e o pendão de paz.(…)
Podia, podia perfeitamente. É, quem sabe…
É verdade que a espada nos conviria… É, o bonito seria se depois de algum feito nós acrescentássemos. É verdade que as chaves nós tiramos. Até que no escudo velho da capela da Pará ainda estão as chaves.
Como é, Sérgio?
(Sr. –: Depois da guerra acrescenta-se(…)
É, quem sabe. Quem sabe podemos esperar uma coisa dessas. As chaves eram uma barbeiragem nossa, porque as chaves só uma coisa pontifícia tem o direito de usar.
Enfim, isso fica assim no ar. Vamos ver o que se decide.
(Sr. –: [Observação.])
É possível. Eu não me lembro, talvez Frei Jerônimo se lembre o que foi feito dessa espada. Eu estou com a memória tão ruim que…
(Sr. –: [inaudível].)
Não, que ficaria muito bonito como pendão de guerra, ficaria. A questão é saber se para a paz…
Há também uma coisa muito curiosa em que sempre se vê repetir as relações entre a história de Nosso Senhor, a história da Igreja e a história de obras que podem surgir dentro da Igreja. É uma discussão que saiu entre os Apóstolos, muito conhecida, mas que aparece um aspecto curioso que eu não conhecia. Eles vêm falando o seguinte. [Vou ler] um capítulo do Filion:
* A inquirição de Nosso Senhor aos apóstolos sobre o que conversavam no caminho: As baixas-de-nível!
Como Jesus fazia a educação dos Doze.
[Linha de baixo.]
… na casa de Cafarnaum onde Jesus tinha entrado. Jesus formulou de repente a seus Apóstolos essa questão que eles não esperavam: “Sobre o que é que vós estáveis discutindo ao longo do caminho?”
Ele ia andando na frente e os Apóstolos iam andando atrás. E saiu uma discussão entre eles. Jesus, de repente, parou e perguntou sobre o que estavam discutindo. Por ocasião de sua recente viagem, provavelmente pouco tempo antes de chegar a Cafarnaum, enquanto ele sozinho caminhava na frente, imerso na meditação e na oração.
Que coisa estupenda devia ser Nosso Senhor imerso na meditação e na oração. E que poquice fazer uma discussão, em vez de prestar atenção nEle. E depois, o que foram discutir…
Aqui os senhores vêem as baixas-de-nível que um ou outro dos senhores terá talvez visto, e que são assim. A gente nem explica como, de repente enfurna, nem onde, nem porquê.. Mas então continua:
Agora Ele deseja que os Apóstolos dêem conta da discussão ruidosa que se tinha estabelecido entre eles num momento dado do trajeto. Ele não ignorava absolutamente o que tinha se passado. Ele que, segundo faz observar São Lucas, “via o pensamento nos corações”.
Ver o pensamento nos corações está entre aspas.
Naturalmente o homem Deus conhecia tudo. Mas Ele queria, por essa interrogação súbita, atrair de um modo mais vigoroso a atenção dos Apóstolos para aquilo que havia de imperfeito na sua conduta. A reflexão de São Marcos é a seguinte: Jesus perguntou, mas “eles se calavam”.
E diz o Filion muito bem, essa observação é muito eloqüente.
À questão do Mestre eles não puderam opor senão um silêncio embaraçado. Não ousando confessar abertamente que eles tinham discutido para saber entre eles qual teria o primeiro lugar no reino terrestre de Cristo, na qualidade de vice-rei.
Vice-rei, eu acho que é uma coisa maravilhosa. O vis-rei. Eu acho esse vice-reinado uma coisa tão expressiva, tão admirável, como mais não dizer.
(Sr. –: …)
Logo depois de João e Tiago, não é? Quer dizer, a cabeça deles estava cheia de preocupações dessas. Ah, porque tinham ousado pretensões megas, quando afinal tantos outros também podiam pretender. Estão entendendo a coisa como é, não?
É, pediu para os dois filhos: um à direita, outro à esquerda. E quando chegasse o reino terreno que estava à vista. não era o Reino dos Céus, era o reino terreno.
Daqui a pouco ele ia ser proclamado rei e era a hora da partilha dos lucros de tanto trabalho vindo anteriormente. Então, houve uma discussão a respeito de quem queria ser vice-rei. Acho uma coisa estupenda esse vice-rei.
Uma querela de ambição, de rivalidade, de precedência os preocupava, enquanto a Cruz do Salvador já se levantava no horizonte.
Quer dizer, tal era o íntimo deles que eles não percebiam que a Cruz estava chegando.
É verdade que em vários fatos recentes, entre outros a promessa gloriosa feita a Simão e o favor especial concedido a três dentre eles de acompanhar Jesus para uma missão, permanecia secreta, e outras várias palavras de seu Mestre relativas à sua Igreja tinham despertado seus preconceitos. Eles tinham, portanto, uma grande necessidade de uma lição de humildade. Para torná-la mais excepcional, Jesus [inaudível] um símbolo gracioso, chamando uma criança que se encontrava lá, Ele, tomando a criança pela mão, a colocou perto d’Ele, no lugar de honra.
* Santo Inácio de Antioquia, a criança que Nosso Senhor usou como exemplo de humildade
Essa história de colocar a criança no lugar de honra, eu nunca tinha entendido também. Pensei que fosse apenas um agrado. Não. Ele colocou-a aqui no lugar de honra.
Depois Ele se sentou, apertou a criança em seus braços e lhes disse: “Em verdade, a…[Linha de baixo.].. transformeis e que não fiqueis como uma dessas crianças pequenas, não entrareis no Reino dos Céus.
Vem aqui uma lenda graciosa que não tem nenhuma garantia de autenticidade, mas como lenda é linda. Sabem qual é que seria a criança? Aquele famoso Santo Inácio de Antioquia que, em presença dos leões, declarou que queria ser moído como trigo para ser transformado numa hóstia. É uma das coisas mais bonitas que houve em toda a história dos séculos, de todas as épocas, essa imagem de um homem moído como trigo pelos dentes do leão, para ser transformado numa hóstia.
Então esse teria sido o menino. Não tem muita importância que não seja verdade, porque é tão bonito que entusiasma a gente a ponto de arrepiar. Essa teria sido a criança.
(Sr. –: [Observação.])
O discurso é lindíssimo mesmo.
Em que erro singular os Apóstolos tinham, portanto, caído. Eles tinham ambicionado o primeiro lugar no Reino de Cristo e eis que eles são ameaçados de serem excluídos, se eles não voltarem a melhores sentimentos,
Em virtude do princípio enunciado por Jesus, a verdadeira grandeza não consiste nas honras nem na glória, mas na atitude de humildade que as crianças sabem tão facilmente tomar, tanto eles têm noção de sua insignificância.
Agora, aqui é que a coisa vai sair do comentário comum dos sermões de púlpito, etc.
O Salvador retomou, pois, a palavra para desenvolver seu pensamento. E começa a falar: “Eis porque qualquer [um] que se tornar humilde com essa criança será maior no Reino dos Céus. E qualquer pessoa que receber, em meu Nome, uma criança como essa, me recebe a mim mesmo. Porque aquele que é o menor dentre vós, é o maior. Se algum quer ser o primeiro, que seja o último de todos, servidor de todos.”
Sob essa forma viva e paradoxal, Jesus tirava conseqüências práticas do princípio que Ele vinha estabelecer. Seus discípulos com certeza ficaram ainda mais confusos depois de ter ouvido essa linguagem que condenava seus sentimentos ambiciosos e dirimia sua conversa de uma maneira tão imprevista. Eles compreenderam, sem dúvida, que seu Mestre não fazia alusão somente às crianças propriamente ditas, que Ele amava tanto, mas sobretudo a todas as almas simples e humildes que lhe pareciam.
* Apologia da criança: Não é ambiciosa, não é calculista, não quer subir, não quer se impor, tem uma alma desinteressada e assim vive
Depois vem uma explicação aqui, [é o] seguinte: que as crianças não fazem os cálculos de carreira e de futuro que fazem os adultos, e que nisso exatamente está a humildade e a despretensão da criança. A criança não é calculista, a criança não é ambiciosa, a criança não vive metida na idéia de subir e de se impor aos outros, mas, pelo contrário, ela tem uma alma desinteressada e vive desinteressadamente. E é esse desinteresse próprio das crianças que se deixam dirigir pelo seu afeto, se deixam dirigir pelo seu senso moral, quando são crianças boas, no sentido contrário do adulto que se torna calculista e ambicioso em qualquer ordem. É que é isso que eles deveriam imitar.
Quer dizer, propriamente é o espírito que nós chamamos de melódico — nas suas devidas canalizações — ao oposto do espírito que nós chamamos sinárquico, e que é de ser vice-rei, vice qualquer coisa. Enfim, todos os vices de todas as coisas possíveis, vice-prior, qualquer vice que seja; vice-chefe, vice-deputado, qualquer coisa que seja. Mas, pelo contrário, tocar a vida sem cálculos, sem ambições, procurando amar a Deus, servi-Lo e deixar as outras considerações para depois.
Então aí é que o contraste fica evidente. Os Apóstolos estavam carreirosos diante da idéia de que o chefe deles ia ter êxito na carreira…[Linha de baixo.]
… sas preocupações.
Aqui é que o contraste fica inteiro. De maneira que a gente compreender, então, o que quer dizer o pequenino, o que quer dizer o humilde. E não é pela tolice da criança, mas é não ter aquilo que Napoleão chamava a venalidade da idade madura, por exemplo. Isso aí é uma coisa muito bem apanhada, muito verdadeira, aí é que a gente compreende o que esse episódio significa.
Eu acho que já contei aqui esse caso: Napoleão quando moço se meteu a escrever um romance horroroso — restam páginas desse romance, é de uma sem gracês de cortar com a faca —, perguntaram a ele porque fazia aquilo, ele disse: “Eu tenho de escrever esse romance antes de chegar a venalidade da idade madura. Porque quando chega essa venalidade, não se entende mais nada”.
Há algo de meio verdadeiro. Tudo quanto é verdade de Napoleão, são umas verdades cintilantes postas num chiqueiro. Mas há algo de verdadeiro nisso, mas que começa muito antes da idade madura. Isso é a tolice da coisa, pensar que o moço é generoso. O moço é calculista, sobretudo quando…(…)
… de calculista, de velhaco.
Mas aqui é que está, então, o sentido desse episódio. E toda essa nossa conversa sobre o espírito sinárquico, sobre o espírito melódico, toda essa coisa encontra sua verdadeira perspectiva em função desse ponto de que eu estava tratando aqui, esse episódio de Nosso Senhor.
(Sr. –: [Pergunta].)
* Os apóstolos eram gente corroída pela idéia do sucesso terreno de Nosso Senhor.
A pergunta é diretamente essa: quem vai ser o vice? Ah, não, porque o vice não se contentaria depois. Você sabe que o vice é vice-problema. Depois nós sabemos que o vice é o primeiro passo para…
(Sr. –: [Pergunta].)
Não dá para ser nem o último. E daí Fábio, também duas coisas: a gente compreende o que Catarina Emmerich diz da Última Ceia, que de os Apóstolos chegaram na Última Ceia, ela os viu tratarem Nosso Senhor com uma certa dureza, uma certa indiferença, ao contrário dos discípulos. Quer dizer, a gente tem impressão [de] que os Apóstolos estavam em decadência.
Judas, pelo menos, falou. Que os outros tenham caçoado, não me consta.
(Sr. –: …)
Ah, Catarina diz que os outros caçoavam também.
Bem, e a atitude deles na hora da agonia, evidentemente não correspondeu ao plano “A”. É evidente. A atitude era a fidelidade na hora da agonia. Eles todos fugiram, fizeram o que você viu.
Quer dizer, só São João Batista perseverou. Agora, o que era você está vendo: era gente corroída pela idéia do sucesso terreno de Nosso Senhor e de ambições que eles queriam ter. De outro lado, na hora da provação, fugiram. Porque nem foram capazes, com essa ambição, de perseverarem na hora difícil.
Quer dizer, enquanto nós temos vontade de ser vices, nós devemos ter muito cuidado porque muita coisa pode acontecer.
São Pedro fez fanfarronada. E aqui se reflete um problema curioso, que é engraçado: em Santos, assim conversando, idas e vindas, etc., etc., — Santos é um lugar muito propício para conversas que se espraiam e que vão — houve ocasião para tocar um pouco nisso. Eu estava chamando a atenção para esse ponto curioso: os Apóstolos, afinal de contas, abandonaram tudo por causa de Nosso Senhor. É uma coisa que não se pode negar. E eles amavam Nosso Senhor, eles tiveram uma certa fidelidade para com Nosso Senhor. Bem, não se vê — com exceção de Judas —…[Linha de baixo.]
… que os outros tenham tido dificuldades muito relevantes em outros pontos. Mas a dificuldade relevante para eles foi a questão da carreira deles. Essa dificuldade foi dificuldade grossa e deu problema. A gente vê proximamente relacionada com a apostasia deles.
* Um dos grandes problemas do Grupo é preocupar-se com a opinião dos que estão fora
Perceba uma coisa curiosa no Grupo: no Grupo, os maiores problemas, as maiores dificuldades no fundo são relacionadas com a questão de saber como é que esse ou aquele membro do Grupo se sente em face dos que estão fora do Grupo. De um modo ou de outro isso acaba tomando uma importância enorme e acaba envenenando. Os maiores problemas costumam nascer deste ponto, a pessoa fica com dificuldade de praticar um ato de verdadeira abnegação e de sobrepor-se ao juízo que possam fazer a respeito dela fora do Grupo. Então, daí vêm as coisas, vêm os problemas, vem a sucessão das circunstâncias, etc., como também vêm depois as graças que Nossa Senhora dá para a pessoa poder superar isso.
Mas os problemas difíceis — eu não digo todos, mas eu digo em casos muito numerosos — partem disso, como partiram no colégio apostólico. E isso — se me permitem, veneráveis irmãos — desde a velha história da Rua Pará e da Rua Vieira de carvalho, até à novíssima história dos mais novos. A coisa pega nesse ponto. É uma atitude de desinteresse e de sobranceria para tomar em face daqueles que estão fora.
Atitude que repercute depois dentro do Grupo, dá uma espécie de vaidade dentro do Grupo também. Mas é o problema da carreira e o problema da situação. É uma coisa tremenda. A pedra de escândalo acaba sendo, em última análise, essa, como o foi com os Apóstolos.
E exatamente a conferência nossa de sábado passado era destinada a estabelecer o equilíbrio a respeito disso, fazendo-os compreender o que é aquela glória intrínseca de que eu falava e que é uma glória que Deus dá a graça de filtrar aos olhos dos outros na hora necessária e que é uma glória que a gente apetece toda por amor de Deus, ao contrário dessa espécie de glória que é o reconhecimento e aplauso dos filhos das trevas, glória essa que — essa sim — nós não devemos apetecer, nós devemos renunciar, etc., etc.
Lembram-se que eu fiz a conferência no sábado passado, exatamente a respeito desse ponto? Aqui está um dos elementos mais sensíveis dos problemas de perseverança dentro do Grupo. Porque isso pega muito mais as pessoas do que as próprias pessoas imaginariam. Pega em um certo momento, de um certo jeito, mas de fato pega. Com isso eu acho que nós poderíamos deixar a nossa primeira parte da reunião concluída, se não houvesse perguntas, e nos prepararmos para a segunda parte.
Eduardo, você tinha alguma coisa a dizer? Paulinho? Luizinho? Caio, Plinio, Sérgio, Mendonça, Fábio…
(Sr. –: [Pergunta.])
* O mistério do Thau. Mais vale a pena ser amado do que amar. “Quem tem mais Thau, Nosso Senhor supera até a infideliade para manter”
É. Aqui você vê o mistério do Thau, e como mais vale a pena a gente ser amado por Deus — até certo ponto nisso —, do que até de amá-Lo. Porque você está vendo que no plano eterno d’Ele estava de favorecer aqueles. E Ele manteve a sua escolha apesar de todas as infidelidades. E até profetizou tudo o que aconteceria depois das infidelidades e que se realizou.
Por onde você vê o mistério daqueles que são chamados para uma coisa assim alta, têm mais Thau e Nosso Senhor supera até a infidelidade para manter.
(Sr. –: [Pergunta.])
Os que tinham rateado.
(Sr. –: [Pergunta.])
Quer dizer, a graça de Pentecostes foi para os Apóstolos — não é, Frei Jerônimo? — essencialmente? Para os discípulos não? Foi uma participação, uma extensão, uma coisa relativa. Não foi uma coisa oficial, não é? Para os Apóstolos. Quer dizer, você vê uma coisa fenomenal.
(Sr. –: Agora, não pode também ter acontecido se os discípulos não tivessem sofrido a crise. […])
Ah, pode ser também. Eu não nego isso. É, isso eu não nego. Podia ser também.
Eu não acho que é a prova de que os discípulos eram melhores, mas estavam melhores. O que é uma coisa diferente.
Haveria mais uma nuance a estabelecer que é a seguinte: radicalmente falando, os Apóstolos tinham tido uma generosidade muito grande aceitando esse chamado, que envolvia muita coisa de duro, e que eles, no meio de toda a apostasia deles, não tinham abandonado isso inteiramente, com exceção de Judas. Quer dizer, os fundamentos do prédio ainda existiam. E fundamentos colossais. Essa é a misericórdia, o mistério do Thau. O Thau vence.
(Sr. –: [Pergunta.])
São João.
Não é, Frei Jerônimo?
Há…
(Sr. –: São João é Apóstolo.)
Ah, discípulo. Eu não sei. Isso Frei Jerônimo pode saber. Não há elementos, não é, Frei Jerônimo?
(Sr. –: Agora, São João foi mais ou menos fiel?)
[Linha de cima.]
… procedeu mal como os outros. Não é, Frei Jerônimo? Desapareceu, etc.
Depois, a horas tantas ele apareceu ao pé da Cruz. Quer dizer, ele se remontou a horas tantas.
(Sr. –: [Parece dizer que há uma tradição pela qual São Pedro também estava ao pé da Cruz.])
Ah, é? Nunca ouvi falar dessa tradição. Sempre supus o contrário: que ele não estivesse.
(Sr. –: …)
Ah, de longe! O que estaria na linha dele, na psicologia dele. Mas Nossa Senhora acabou sendo dada a São João.
(Frei Jerônimo: …)
Pedindo perdão. É, eu também já ouvi isso. Exatamente, que Judas não quis pedir.
(Frei Jerônimo: Nessa representação…)
Qual é a representação, Frei Jerônimo?
(Frei Jerônimo: É uma representação já clássica…)
Eu ouvi dizer que o…(…)
… está meio em decadência?
(Frei Jerônimo: …)
* Segundo Catarina Emerich, a mãe de Judas teria ido justificar seu filho perante Nossa Senhora
Mas no texto lá que estão mexendo muito, tem uma coisa que poderia dar muita coisa bonita: eles puseram no texto [inaudível] a mãe de Judas. E poderia dar uma coisa muito bonita.
(Sr. –: Segundo Catarina Emmerich, ela foi falar com Nossa Senhora para conseguir o perdão de Judas.)
Otávio de Faria tem sobre isso uma…[Linha de baixo.]
Mas é uma coisa horrorosa. É digno do Otávio de Faria.
Mas enfim…
(Frei Jerônimo: Eu não sei como está […] … eu sei que tem um encontro das duas mães…)
(Sr. –: Catarina Emmerich coloca a mãe de Judas indo falar com Nossa Senhora.)
(Frei Jerônimo: Lá, pelo que me parece, ela pediu pelo menos que ela entenda porque ela não reprova inteiramente o filho. Isso é fassurada.)
Isso é fassurada. Quer dizer, em última análise, Nossa Senhora acabaria tomando meia posição de Judas a respeito de Nosso Senhor. Mamaezonsa.
(Frei Jerônimo: …)
Não. Assim não vai.
Mais alguma pergunta? Arnaldo.
(Dr. Arnaldo: [Parece que se refere aos discípulos de Emaús.])
Não sei. Pode ser que seja.
(Dr. Arnaldo: Depois da morte de Nosso Senhor ficaram inteiramente…)
Sem fé, praticamente. É, pode ser, discípulos. Realmente, se foram chamados discípulos de Emaús. Como é o negócio? Catarina Emmerich é que conta que os Apóstolos incutiam o desespero?
(Sr. –: É. Os Apóstolos estavam com medo, descrentes, etc. Então, daí é que eles saíram de lá e foram para Emaús.)
Ah, entendo. Portanto, eram discípulos mesmo que teriam sofrido essa ação dos Apóstolos. É possível. Agora, é admirável como isso forma um todo só.
Depois, aquela vice-reisosa, e depois a debandada, etc., etc. Como isso forma…
Mais alguma coisa, Arnaldo? Bom, quem sabe se nós poderíamos então interromper aqui e retomar daqui a pouco. Vamos dizer, daqui a dez minutos.
*_*_*_*_*
1 Estava como Reunião Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.