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Santo do Dia — 4/8/1964 — 3ª-feira [SD 216] (HVicente)

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São Domingos de Gusmão

Eu estou, mais ou menos, nas condições de um pai de família cujos filhos têm fome e que tem que lhes dar migalhas. Ele pode dar sorrindo, de muita boa vontade, mas se expôs à objeção dos filhos: “O senhor pensa que isto é brioche?” Naturalmente, a resposta que ele tem é esta: “Vocês querem migalhas, é o que tenho. Se não querem, compreendo que não queiram, então não comam. Mas não tenho outra coisa”. Acontece que em minha débacle mnemônica, lembro-me de fiapos dessas vidas de Santos, e comento o que posso, porque não tenho outra coisa para comentar. A respeito de São Domingos de Gusmão também não tenho muita coisa a comentar, mas somente fiapos que tenho na cabeça.

Seria uma coisa muito boa, se alguém pegasse uma boa biografia de São Domingos e nela estudasse São Domingo enquanto fundador da Inquisição. Aqui vemos bem o trabalho da “heresia branca”. Se São Domingos tivesse, alguma vez na vida, parado o cavalo ou a mula diante de um herege, tivesse descido e dado ao herege um pouco de pão para comer e um pouco de água para beber, haveria quadros, poesias, isto estaria mencionado na Liturgia, haveria iluminuras, haveria tudo sobre a caridade de São Domingos. Mas São Domingos enquanto fundador da Inquisição é um capítulo sobre o qual se passa.

Como seria bom se tivéssemos um artista capaz de representar São Domingos estudando e meditando a fundação da Inquisição. Como seria bom se tivéssemos uma reprodução daquele São Domingos do Fra Angélico, sentado, puro, casto, direito, fazendo a leitura de um livro ao pé da Cruz, e publicássemos com o título: “São Domingos medita a fundação da Sagrada Inquisição contra a perfídia dos hereges.” Seja como for, seria interessante termos a documentação do modo como apareceu a idéia da Inquisição, o modo ou os argumentos que foram dados, os estudos que foram feitos na Congregação romana inclusive, para concluir-se que a Inquisição deveria ser fundada. E penso que seria uma coisa a pedir ao…[faltam palavras]…

Devagar, porque ele levaria um susto tremendo. Mas oportunamente. Porque é com essas coisas que a causa do Catolicismo vai muito por diante.

Meus olhos caíram incidentemente no Manomi. Imaginem o Manomi levando à imprensa brasileira um estudo assim: “Leituras piedosas: São Domingos, fundador da Inquisição”. Documentação diretamente tirada do arquivo do Vaticano.

São Domingos, autor da Inquisição, São Domingos o Santo também do Rosário. Nesse capítulo de ultramontanismo o Rosário, de movimento de Catolicismo e Rosário, há qualquer coisa de meio inexplícito, mas muito importante, que se deve focalizar. É o seguinte: o bom ultramontano reza o Rosário. As pessoas que rezassem o Rosário bem, ficariam bons ultramontanos. Há uma espécie de ordem especial de demônio contra a devoção ao Rosário, há uma capacidade especial do Rosário de incutir terror aos demônios, há uma espécie de zelo especial pelo Rosário do bom membro do Grupo; e há uma vinculação tal que quem reza o Rosário todos os dias tem — não digo garantia —, mas muita possibilidade de se tornar verdadeiramente um bom ultramontano. Quem reza o Rosário todos os dias, está no caminho para se tornar um bom ultramontano; quem vai abandonando o uso diário da reza do Rosário, está no caminho de se tornar tíbio e deixar de ser ultramontano. As coisas são coladas uma à outra. E quem está parado, rezando apenas uma parte do Rosário por dia, está parado realmente. É preciso tender para rezar o Rosário inteiro.

Mas o fervor do Rosário não é apenas o termômetro de nosso fervor ultramontano. O fervor na reza do Rosário temHá uma epséice de uma certa causalidade em nosso fervor ultramontano. Aí compreende-se como é bonito que o Santo da Inquisição, exatamente o Santo da mais ultramontana das instituições que tenha nascido na Igreja Católica, ao lado das ordens de cavalaria, que esse Santo seja, ao mesmo tempo, o Santo do Rosário.

Há aqui umas coisas profundas, misteriosas, que mereceriam ser aprofundadas e explicitadas, mas que não cabem na noite de hoje. Então, a sugestão é pedirmos a São Domingos duas coisas: que nos dê uma alma de inquisidores, que nos dê um zelo de inquisidores e que nos dê uma vontade ardente de fazer tudo quanto faria uma Inquisição, se ela pudesse funcionar hoje em dia. Deus se agrada com esses desejos. São desejos suscitados por sua graça e que em nossa alma tem muita significação. Lembram Santa Terezinha do Menino Jesus que queria ser cruzado, missionário, que queria ser tudo quanto se pode ser na Igreja. E ela dizia que Deus se agradava daqueles seus desejos. Nós devemos querer ser inquisidores. E devemos querer fazer tudo quanto se poderia fazer pela Inquisição. E Nossa Senhora se agrada de nosso desejo. Peçamos, portanto, a São Domingos, uma alma de inquisidor. Peçamos-lhe também uma ardente devoção ao Rosário. Com a junção dessas duas coisas, teremos obtido de São Domingos traços importantíssimos característicos do verdadeiro ultramontano.

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