Reunião
Normal – 1/8/64 – Sábado .
Reunião para o Grupo da Martim 1 — 1/8/64 — Sábado
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Resumo da reunião anterior. A visão de Ezequiel aplicada à vida espiritual * A decadência da Civilização Cristã deu-se à maneira da decadência espiritual de uma alma * Nas épocas de maior decadência, Deus suscita os maiores santos * O carola: fruto abortivo de uma árvore minguada * Missão do Grupo: ser o “Chanteclair” que faz levantar o sol da graça em nossos dias * A Revolução tem mais ódio à aristocracia do que à monarquia * A vingança de Deus contra a destruição do princípio aristocrático * O Grupo representa o resto de tudo quanto constituiu a Civilização Cristã * O Grupo é uma fusão de todas as plenitudes do passado
Na reunião passada não sei se se lembram que eu dei um aspecto da vida do Grupo, quando eu falei da missão de cada um, das várias famílias de almas dentro do Grupo depois aquela missão como que de “Chanteclair” que o Grupo tinha, quer dizer o primeiro Grupo dentro do mundo que trazia consigo essa espécie de graça nova. De ser equipada para, enfim, para tomar direção temporal da sociedade humana, etc., etc. não sei se lembram que eu falei a respeito disso na última reunião.
Eu mostrei qual era o movimento ascensional da graça dentro de uma civilização, excepcional na ordem social das coisas, de maneira a produzir a primeira categoria, a primeira leva de pessoas que tomasse conta… Isto ficou bem claro? Porque eu ia tirar daquela afirmação tantas conseqüências na reunião de hoje…, mas se gostassem que eu fizesse um pequeno resumo daquilo, eu gostaria, senão eu toco para a frente.
Eu pergunto quem é que gostaria de um pequeno resumo daquilo ou não? Os que gostassem levantem o braço. Assim eu posso ter uma idéia.
* Resumo da reunião anterior. A visão de Ezequiel aplicada à vida espiritual
Eu estava explicando como fundo de quadro o seguinte: o esquema da reunião seria esse: eu tomei como ponto de partida aquela visão de Ezequiel que falava a respeito dos vários impérios. Então havia primeiro um império de ouro, que era o tal colosso, era representado por um império, havia aquele colosso de espécie de barro e cabeça de ouro, o peito era de prata, o abdômen era de bronze, as pernas eram de aço e os pés eram de ferro misturado com barro.
Então aquilo costuma ser tomado como símbolo dos vários impérios que [se] precederam no domínio da História. Esta interpretação é a verdadeira, mas diz o Monliom que isto tem também uma aplicação de caráter espiritual e místico e que apresenta as várias idades da vida espiritual.
Há uma plenitude da vida espiritual [que] é de ouro mas há uma idade de prata e uma idade de bronze, as sucessivas decadências da alma virtuosa a partir da sua plenitude até a sua ruína passando assim por várias fases sempre menos preciosas, o que equivale a um processo de decadência, até a parte final, o pé que é a coisa menos nobre do corpo, da vida espiritual em que é ferro e barro.
Quer dizer, é o temor, apenas temor já com a lama do pecado, então a coisa que se esboroa, não é verdade?
Então essas seriam as várias etapas da vida espiritual, em que a vida espiritual vai perdendo as suas energias, a graça vai perdendo as suas energias na alma e produzindo portanto frutos cada vez menos preciosos.
* A decadência da Civilização Cristã deu-se à maneira da decadência espiritual de uma alma
Agora isto que se diz dos povos, diz-se das almas, pode-se dizer também da vida espiritual das civilizações. Na vida espiritual das civilizações, então, nós temos um processo de decadência que se estende através das gerações quando eles decaem lentamente, como foi o caso do Ocidente depois da Idade Média. Então, nós tivemos a Idade Média de ouro, depois os tempos modernos e clássico como uma idade de prata, depois nós poderíamos dizer…, não, o ápice da Idade Média uma idade de ouro, depois a Idade Média decadente a idade de prata, uma idade de bronze, quer dizer com material de alguma nobreza que já não é o material nobre, a era clássica antes da Revolução Francesa. A idade do aço, a idade burguesa depois da Revolução Francesa, o comunismo que é o final dessa degradação já, enfim, a idade socialista é a idade do barro e ferro, e o comunismo é o momento em que o colosso se esboroa e se arrebenta completamente.
Quer dizer nós temos então civilizações com graus sucessivamente menores de energia espirituais, estas etapas da civilização e que no fim — não é? — a energia espiritual do bem é como que insignificante, como [que] já não produz nada.
* Nas épocas de maior decadência, Deus suscita os maiores santos
Daí eu tirei…, eu mostrei como realmente as energias da Igreja tornaram cada vez menores ao longo desse tempo, mas eu exclui um fenômeno dessa regra geral. É que Deus que cria as regras do seu proceder, abre também exceções magníficas às regras do seu proceder e nessas exceções está o fato de Ele constituir santos estupendos e também até dos maiores em épocas de plena decadência, etc., por uma ação individual sobre esta ou aquela alma e que Ele se compraz em atestar a fecundidade intrínseca da Igreja apesar de toda a decadência, apesar de toda falta de correspondência dos homens, etc., etc.
Portanto esta regra não vale para os santos, mas ela vale para uma porção de outras manifestações da vida da Igreja, e entre essas outras manifestações eu assinalei a da produção dos homens muito católicos dentro da sociedade temporal, vamos dizer, dos homens muito católicos dentro da Igreja, quer os clérigos quer os leigos chamados a um alto fervor.
* O carola: fruto abortivo de uma árvore minguada
Então eu mostrei que cada vez mais as energias espirituais da Igreja foram se retirando daqueles que são os líderes naturais da Civilização Cristã. Abandonando, não pela falta das graças necessárias, [mas] pela carência das graças extraordinárias, tudo aquilo que representava valor humano, e se retirando portanto assim… Vamos dizer, houve uma época em que eram muito raras as devotas entre as pessoas de corte, mas ainda as havia na burguesia. Depois desapareceram na burguesia, e o povinho ainda era católico. Depois desapareceram no povinho e acabou sobrando em todas essas classes sociais apenas o beato. Um resto de beatério em todas essas classes, mas assim mesmo mais numeroso nas classes mais baixas e menos nas classes mais altas.
E o carola se definiu aí como uma espécie de fruto que uma árvore dá no inverno, um fruto temporão, minguado, errado, torto, defectivo, abortivo para dizer tudo numa palavra, porque todas as condições climatéricas e as próprias energias da árvore estão minguadas. As condições climatéricas são hostis e as energias da árvore são minguáveis.
Falando dos beatos, os carolas, eu mostrei que não podem de nenhum modo ser confundidos ou incluídos naquela coisa que Nosso Senhor quis triunfar do mal por meio daqueles que são pequenos, enfermos na terra, porque não é isso, porque aqueles pequenos e enfermos na terra, nesta regra dão grandes coisas.
Ora, o carola e o beato não dá grande coisa nenhuma, não é um homem muito humilde, muito bom e que triunfa do homem ruim, mas mundano, jactancioso. Mas é ele mesmo um pulha que não triunfa de coisa nenhuma, ele será menos ruim do que o homem mundano e jactancioso e sensual, mas ele não triunfa de nada, ele é uma caricatura daquilo que ele mesmo deveria ser.
Bem, daí eu tirei a conclusão, a concepção…,
[algum motor atrapalha a reunião]
O ruído que mais eu odeio é o ruído do motor…
* Missão do Grupo: ser o “Chanteclair” que faz levantar o sol da graça em nossos dias
Bom, o que eu estava falando eu perdi o fio… Eu estava dizendo que dentro dessa ordem de idéias, o normal é que quando uma Civilização Católica sobe, a graça quando ela começa por baixo vai subindo também. Então nós temos, no Império Romano, que começaram escravos e aleijados — eles até caçoavam do número de escravos e aleijados e de coisas insignificantes que havia — [até chegar] nos nobres, mas depois esses já não eram o carola, mas era gente verdadeira que ia morrer no Coliseu.
E depois começa, no meio desses, a aparecer nobres e esses nobres naturalmente começam a converter a nobreza. Cada um desses que entra numa determinada categoria e começa o trabalho de conversão ali tem de enfrentar o impacto das trevas, que ali ele é incompreendido, ali não gostam dele, ali existe birra contra ele, etc., etc., mas o ele estar ali presente implica numa graça para uma porção de outros compreenderam a ele.
E neste sentido ele é uma espécie de “Chanteclair”, quer dizer, ele entra no ambiente, mas levando graças consigo que vão fazer bem a todos naquele ambiente. E é como que um sol que faça levantar naquele ambiente e há uma espécie de martírio especial daquele que é o “Chanteclair” do respectivo ambiente ou daqueles que são os “Chanteclaires” do respectivo ambiente.
Que [são] então [os] que são incompreendidos, que são detestados, etc., etc., mas cuja presença é a própria presença da graça ali dentro. A ação deles é acompanhada de graças para outros. Então eles não são compreendidos, mas uma outra leva o é e acaba então o sol da graça penetrando aquele andar, naquele patamar da sociedade e subindo cada vez mais até a conquista geral da sociedade.
Quer dizer, isto seria o gráfico, o mesmo colosso dos pés de barro, mas com a marcha em ordem inversa. Então a vocação do Grupo, como representando a ruptura do “carolismo” em todas as categorias sociais e representando uma espécie de levantar da graça por uma energia sobrenatural sem precedentes nos últimos séculos e que fez com que aparecessem homens representando uma irradiação da graça muito maior do que em outras épocas em pleno ambiente social. Não homens levados [a] santos excepcionais, mas homens misturados completamente dentro do curso das coisas e chamados a capitanear essas coisas.
E então isto representar em nossas pessoas, non estimatur merita, sed venia, representar em nossas pessoas uma espécie de vocação para o levantar do sol nas várias condições sociais, no representar o movimento de volta da graça. E a graça que há muito tempo ia se retirando e que começa a voltar.
Era este o ponto para ser considerado de um modo específico. Eu daqui a pouco diria outras coisas dentro da compreensão dessa espécie de aspecto sobrenatural do Grupo, que enfim, numa conferência cabe a gente explanar.
Este era o resumo da reunião passada. Eu não sei se alguém quer perguntar alguma coisa a respeito.
(Dr. Luiz Nazareno: Esse período ascensional normalmente como que o apostolado dá mais certo?)
Sim. Normalmente, mais fecundo, conta com imprevistos maravilhosos, etc., etc. É uma espécie de jogo em que tudo dá certo contra toda esperança, a lo sumo, porque sempre é inerente a todo o apostolado, lutas, aparentes catástrofes, fracassos mas a lo sumo dá certo. É um dar certo como no Império Romano, perseguições horrorosas, mas dava certo. Há algo que já está resolvido, isso se dará.
(Sr. Luiz Nazareno: … estava selado o triunfo da Idade Média, extraordinários. A gente sente muito nas coisas do Grupo, já há muitos anos, nos congressos é uma coisa que conta com tudo, contra todas as marés, contra todas as ondas, já está selado.)
Há algo que já está resolvido, isto se dará.
(Sr. Luiz Nazareno: No nosso Grupo os escalonamentos a começar por baixo não é bem assim.)
Não, entra aqui o caráter nobiliárquico de nosso Grupo, que eu explicaria daqui a pouco, porque não entrou o escalonamento, eu explico daqui a pouco.
(Dr. Plinio Xavier: Se dá por baixo também por começar pelo Brasil, país novo, etc., etc.)
Mas também aqui entra uma coisa muito especial — você está compreendendo? — que se você me lembrar eu tratarei daqui a pouco.
* A Revolução tem mais ódio à aristocracia do que à monarquia
Eu tratarei agora do resto da coisa do Grupo. O Grupo considerado enquanto graça, graça de volta, o Grupo é um Grand-Retour e é o começo de um Grand-Retour, eu vou analisar aspecto desse Grand-Retour. O losango chegou assim e está fazendo assim.
Quer dizer é uma volta da História, uma esquina da História, um quarteirão da História que volta para trás.
Há uma porção de características dentro dessa graça do Grupo que tem sido insuficientemente examinada. Nunca houve [lazer?] para a gente considerar bem, também não me pareceu que fosse o momento da gente especificar bem isso, etc., mas que agora a gente pode ir traçando para dar uma espécie de imagem de conjunto do Grupo. Faz sentir bem o que é o Grupo e todas as sementes de futuro que existem dentro do Grupo.
Então, agora vamos cuidar do primeiro aspecto, e o aspecto é esse: o Luizinho perguntou se o Grupo representa uma graça que nasceu por baixo como das outras vezes ou não.
E é uma coisa curiosa, mas o Grupo não representa uma graça assim porque ele representa uma espécie de vindita [da] Contra-Revolução e uma afirmação aos olhos do mundo daquilo que a Revolução mais procurou negar, e que é a validade do princípio aristocrático. Das várias formas, enfim, dos vários aspectos da organização social, aquilo que a Revolução mais odeia não é a monarquia, aquilo que ela mais odeia é a aristocracia.
A Revolução preferiria uma monarquia plebéia a uma ordem de coisas aristocráticas, embora sem rei. Por exemplo, a sereníssima República de Veneza ou uma monarquia em que houvesse por exemplo, a do Japão em que existe um Imperador, mas praticamente já não existe mais nobreza, todo o resto é plebe. A Revolução prefere a monarquia japonesa. Porque a monarquia ela mesma não é senão uma afirmação na ordem política e social, a continuidade na ordem política e social de uma porção de pequenas monarquias individuais que existem em toda ordem social e de que a estrutura monárquica não é senão um sublimação, uma espécie de superação.
A verdadeira ordem monárquica não é apenas a ordem que tem no seu ápice o Imperador ou um rei, então a Suécia seria uma monarquia verdadeira. Mas é uma ordem de coisas em que em todos os centros de influências, em todos os centros de poder há uma pequena monarquia e é a massa desses pequenos monarcas que constituem a aristocracia.
Vamos dizer, por exemplo, uma zona do interior tem seu coronel, uma corporação tem os seus dois ou três chefes acatadíssimos que são verdadeiros monarcas na respectiva ordem, cada um no seu âmbito de influência dentro da corporação. O pai é o monarca dentro da família e tratado pela família como um verdadeiro rei.
Vamos dizer um reitor de universidade, a universidade funciona como um pequeno mundo em torno do reitor e se constitui um ambiente, uma atmosfera monárquica, ele é o rei da universidade.
E é a soma deste mundo de reis que governam unidades sociais [que] constitui uma classe de aristocracia, e a monarquia não é senão uma espécie de reductio ad mundos unum deste mundo de pequenas monarquias particulares que constituem a verdadeira ordem social.
E é por causa disso por exemplo, que a propriedade privada institui uma ordem verdadeiramente monárquica e que a abolição da propriedade privada representa algo de muito mais republicano do que a proclamação da república. Porque essa porção de pequenos reis particulares são eliminados.
O próprio professor dentro da sala de aula é o monarca da sala de aula, o bispo é o verdadeiro monarca dentro da diocese, o vigário é o monarca dentro da paróquia, quer dizer é um estilo monárquico de organizar todas as células que estão dentro da sociedade, da qual a monarquia não é uma espécie de composição, de resultante final, ela é se quiser a torre da igreja, mas ela não é o corpo da igreja, a nave da igreja, ela não é igreja, pode haver igreja sem a torre e torre sem igreja não tem sentido nenhum.
De maneira que [por] mais que a monarquia seja conseqüência lógica necessária, sacrossanta desta ordem de coisas monárquicas, a ordem monárquica que dá em aristocracia, esta ordem monárquica é evidentemente muito mais do que a própria monarquia. E nela é que propriamente os particulares têm a vivência do princípio monárquico, é nela propriamente que a desigualdade se faz sentir de um modo efetivo verdadeiro e que é dado aos inferiores representarem Deus junto aos superiores. O contrário, os superiores representam Deus junto aos inferiores como é dado aos inferiores terem para com o superior uma piedade, uma devoção que é como que a piedade e a devoção que deve ter com Deus.
E é bem esta sociedade assim cheia de corpos, cheia de fragmentos monarquicamente organizados que é o contrário da tal sociedade diáfana e transparente de que falava algum tempo atrás aquele Garaudy que nós comentamos no “Catolicismo”.
Eu não sei se se lembram desse trecho do Garaudy, ele afirmava que Marx, Engel, Lenine, etc. julgavam que a condição para abolir a religião era abolir as desigualdades fazendo uma ordem de coisas sociais transparente em que nada fosse desigual e que não, era o contrário que era verdadeiro: é preciso abolir a religião para fazer cair essa ordem social, porque essa espécie de senso de Deus o sujeito a tem exatamente nessa ordem social desigual, de maneira que era preciso então que o princípio aristocrático fosse abolido para que a mais próxima imagem da presença de Deus fosse abolida também.
Se isto está claro, nós vemos bem que o espírito revolucionário [quer] mais do que tudo abolir a aristocracia, e porque é que ele quis abolir a aristocracia.
* A vingança de Deus contra a destruição do princípio aristocrático
Bem, e nós compreendemos então bem que esse retorno de Deus tem uma espécie de nota vindicativa. Ele vai confundir a Revolução, Ele vai confundir a impiedade, Ele vai arrasá-la e é uma espécie de julgamento de todos aqueles que contribuíram para a Revolução.
E como julgamento de todos aqueles que contribuíram para a Revolução, há uma primeira nota aqui que é a confusão da plebe revoltada, e confusão de todos aqueles que quiserem afirmar a infecundidade, a nulidade, a decrepitude definitiva da História, do princípio monárquico.
Quer dizer o movimento de volta tem o seu impulso a partir daqueles que representam o princípio aristocrático num determinado país e os elementos propulsores na maior parte pertencem a esse elemento e devem representar a fecundidade desse princípio.
Foi daí que partiu de fato a volta, foi daí que partiu de fato a ressurreição de uma pessoa e de pessoas que aristocraticamente e ex-aristocracia, de matéria prima da aristocracia, resolveram dirigir aristocraticamente um Grupo o qual se empenhou em viver aristocraticamente, em sustentar as teses da aristocracia e desta fonte fazer triunfar a Contra-Revolução.
Quer dizer, nesta espécie de função que não é de nenhum modo exclusiva, mas é propulsora e iniciadora da aristocracia dentro do movimento do catolicismo. Nós temos então um elemento de valor simbólico para compreender a confusão da Revolução.
Agora, de outro lado, nós temos o contrário, a punição da aristocracia, porque isto poderia vir de uma aristocracia autêntica, poderia vir de uma aristocracia plena, poderia ter nascido de um país com estruturas aristocráticas definidas, isso seria muito mais bonito se nosso movimento nascesse de um Habsburg.
Eu mesmo quão entusiasmado ficaria sabendo que nosso movimento nasceu de um Habsburg, eu me sentiria me levantar inteiro de entusiasmo diante da idéia que o sangue sacrossanto para mim da casa d’Áustria em que quase cada gota de sangue equivale uma gota de água benta, que o sangue sacrossanto da casa d’Áustria produziu uma coisa destas assim.
Pois bem, para a humilhação de todas essas estirpes aristocráticas não foi produzido por isso. E todas as estirpes aristocráticas, o princípio triunfa mas a classe é esmagada. Quer dizer não na Europa, não é da aristocracia européia que uma coisa dessa frutifica, mas é uma como que aristocracia e de um país onde não houve no sentido pleno e efetivo da palavra aristocracia, que nasce uma coisa dessas.
Nós aqui representamos o princípio, mas nós quase não representamos a continuidade genealógica da classe, quer dizer, é apenas um fiozinho que resta, o suficiente para fazer a continuidade histórica.
Então nós compreendemos também como isto está na ordem das conveniências, como está na ordem do simbólico, como está na ordem do verdadeiro, como a gente entende que houve um intuito da Providência tocando as coisas por esse lado.
Me pareceria mais fácil interromper, porque são vários aspectos, então perguntar a cada um o que pensa e tocar adiante.
(…)
(Frei Jerônimo: Na Sagrada Escritura diz a respeito desse pequeno fiozinho que é o resto que voltará.)
Se Frei Jerônimo pudesse ver como é esse nome, enfim, o senhor se lembra qual é o texto de Isaías.
(Frei Jerônimo: Ela fala nesta história toda quando ele vai anunciando a virgindade de Nossa Senhora, Mãe do Emanuel. Eu não me lembro bem como é, é o nome a uma profecia. Eu me lembro que é o nome “o resto voltará”.)
É o princípio constitutivo, esse é o princípio constitutivo do Grupo. É bem exatamente o Grupo, ouviu?
[Frei Jerônimo lê o trecho de Isaías]
* O Grupo representa o resto de tudo quanto constituiu a Civilização Cristã
Coisa lindíssima, muito bonita, e que me impressiona, Frei Jerônimo, porque exatamente eu não ia dizer, de tanto eu ter insistido aqui em outras ocasiões e já que vem a propósito eu digo, que faz parte desse outro aspecto misterioso do Grupo, que o Grupo considerado por vários aspectos é um conjunto de restos e depois é um conjunto de restos históricos. Por exemplo,, não tem dúvida que de algum modo, mas é mesmo à maneira de resto e de resto do que há de secundário e não de resto que há de principal, o Grupo se entronca na nobreza européia. De algum modo, por algum lado, por algum sentido a nobreza portuguesa é um fio tênue pelos aspectos secundários.
Segundo lugar, o Grupo é um resto da antiga estrutura da Igreja, porque ele é um resto de vários movimentos mais ou menos sadios que tendo fraçado e que foram dados para reerguer a Igreja in extremis e que tendo fracassado deram alguns membros para aqui para dentro.
O senhor toma por exemplo, nós representamos uma congregação de Santa Cecília, já se comentou isso que era um elemento pujante do movimento mariano. O Vita, o José Fernando representam outro filão que é o filão do D. Hernesto de Paula…
(…)
…os outros representam o Pe. Mariaux que são afinal as três grandes realidades do movimento mariano. A esse título nós representamos um resto no movimento mariano que era um último sobressalto da Igreja antes de Ela ser afogada pelo modernismo, pela missa em Português e pelas outras coisas que nós estamos falando.
Depois nós de nossas famílias somos restos, quer dizer, nós representamos o apertado dentro de nosso caso, uma gota sadia que pudesse haver dentro de nossa família. Essa gota sadia nós representamos e todo o resto se perde e morre, quer dizer ainda somos o resto de nossa família.
Nós poderíamos ainda escarafunchar outros aspectos…
(…)
É por exemplo, grupos de famílias de ramo materno, coligação de sobrinhos, netos, sobrinhos-netos de ramos maternos, coisas desse tipo.
(Frei Jerônimo: [inaudível].)
Se eu pudesse arranjar esse nome, como ele é em hebraico, seria uma coisa linda.
Havia uma porção de aspectos que nós somos restos, o que aliás se vê muito na nossa própria Sede, nós representamos um resto de admiração por todos os restos que existem da cultura ocidental, nós admiramos Veneza, nós admiramos Barcelona, na Idade Média, nós admiramos o que possa haver interessante na coisa árabe, é tudo resto de tudo, se coliga ali e que nós recebemos como uma espécie de poeira sagrada mas em que cada grão de poeira é uma semente.
(Dr. Caio: O nome tem algo daquela revista “Volvere”.)
Aquela revista Carlista chamada “Volvere” que me pareceu que é o mais belo nome de revista que jamais se inventou. O resto diz mais, é resto fecundo, é uma beleza, aliás encontra uma analogia com a vida de muitas plantas em que de planta só resta semente mas a semente é o que vai de novo triunfar, tem um simbolismo nisso.
Bom, vamos tocar para frente, eu estava falando a respeito desse caráter do Grupo, enfim, dessas várias características do Grupo, uma palavra a respeito do Brasil. Por que é que essa coisa veio ter aqui no Brasil.
No Brasil veio ter exatamente, vamos dizer, os povos da América Latina nasceram já na idade de bronze dessa coisa, o que veio para cá era algo que já vinha decaindo e minguando. Bem, caminhava pelo menos para ser restos, estava em fenômenos de restificação.
Era para que o último resto possível se frutificasse era preciso que não fosse na Europa, porque nós somos tão pouco uma nobreza que na Europa nós não seríamos nobreza, nós não seríamos nada, é só porque somos a mais alta classe de um país que não tem nobreza é que por contraste com plebeidade nós acabamos tendo uma certa razão de nobreza, porque do contrário nós não seríamos nem sequer nobreza, uma coisa evidente.
O que explica que era preciso vir para um lugar ermo para um lugar abandonado enfim fundando uma nova ordem de coisas, não é verdade? E os senhores estão vendo aqui que a coisa vai renascer meio obliquamente numa ordem de coisas, um quadro materialmente falando muitíssimo aproveitável, mas vamos dizer que é o [secedanep??] da Europa que voltará, aquilo que é de algum modo o resto da Europa que voltará e não mais a Europa verdadeiramente considerada.
Quer dizer é mais uma vez uma dessas marchas que estão inerentes a nossa coisa.
* O Grupo é uma fusão de todas as plenitudes do passado
Bom, agora outra característica curiosa do Grupo, e esta característica eu acho [que] é muito importante dentro dessa ordem de idéias, é a seguinte:
É que nós somos uma espécie, porque somos uma sobrevivência de tudo isto, nós somos uma espécie de amálgama harmônico de tudo isso e a ordem de coisas a que nós devemos dar origem é uma ordem de coisas em que uma porção de valores anteriores se fundam para chegar a uma espécie de plenitude nova que é mais do que as que elas tiveram no passado, mas que é uma fusão das plenitudes do passado.
Assim, nós podemos tomar por exemplo, a mentalidade monárquica e aristocrática. Esta mentalidade aqui ela não tem um certo “bornesismo” que ela tomou nas mais puras afirmações monárquicas anteriores. A gente pega por exemplo, um Carlista, um Chouan, um Fanfedista italiano, a gente vai ver qual é a mentalidade deles, eles viram sobretudo o princípio monárquico enquanto realizado no respectivo país, limitadamente, com incompreensão pela mesma luta do outro lado, dos Pirineus por exemplo, ou do outro lado do Mediterrâneo. Para nós não. Para nós, vemos o princípio inteiro, nós representamos a coisa inteira, escarnadas de circunstâncias de tempo, de circunstâncias de lugar e de qualquer outra coisa.
Nós teríamos o mesmo interesse por um Chouan de que por nós, por um Carlista de que por nós, de um Fanfedista do que por nós, por qualquer Russo Branco que acabasse tendo um quê de ultramontano do que por nós mesmos. Quer dizer a coisa parece em nós excluída de uma série de limitações que ela tinha em outros.
Nós torcemos mais pela causa do [Glauem??] do que o próprio [Glauem??]. Bem, vamos dizer por exemplo, o entusiasmo que nós temos por exemplo, pela Companhia de Jesus eu tenho impressão que nós temos uma graça para compreender a Companhia de Jesus no que ela tem um estritamente de contra-revolucionário verdadeiro, melhor do que a maioria dos jesuítas.
Não é só ingratidão deles, não é uma energia nova, uma graça nova, razão pela qual nós vimos isso melhor do que outros viram.
A devoção a Nossa Senhora eu…, talvez não haja temeridade em afirmar que se nós correspondermos à graça, nós veremos melhor a devoção a Nossa Senhora do que os discípulos de São Luís de Montfort e que nesse ponto nós somos uma verdadeira continuação dele.
Quer dizer, tudo quanto houve de bom no passado conflui para cá de modo selecionado e exponencial criando esta coisa curiosa que não é mais um raio de sol que penetra na camada mais baixa da sociedade e depois se vai generalizando, mas é uma espécie de sociedadezinha inteira.
O “Catolicismo” é uma espécie de paisinho, é uma micro-naçãozinha que se vai formando dentro do corpo da outra nação e que é o resto de todas as outras nações, inclusive o resto do Brasil. Até isso de curioso existe, e que vai formando uma coisa que de si mesmo tende depois a crescer e a lotar tudo, quer dizer, não houve na ordem da graça, que eu saiba, uma geração deste tipo e uma semente-ação, uma inseminação desse tipo, isso ainda não ouve.
E é isto que o movimento do “Catolicismo” representa. De maneira que aí dá uma coisa que é muito singular, mas que para casos morais e para uma porção de outras coisas é verdadeiro…
(…)
Não sei [se] esse traço da coisa eu exprimo. E então nessa especificação das coisas do Grupo por hoje eu ficaria aqui, porque temos jornais falados na segunda parte da reunião.
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1 Estava como Reunião Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.