Santo
do Dia — 31/7/1964 — 6ª feira [SD 245] – p.
Santo do Dia — 31/7/1964 — 6ª feira [SD 245]
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Hoje é festa de Santo Inácio de Loyola, confessor, fundador da Companhia de Jesus e autor do livro dos Exercícios Espirituais. Sua relíquia venera-se em nossa capela. Século XVI.
Tantas coisas haveria para dizer de Santo Inácio de Loyola, que eu, verdadeiramente, não saberia por onde começar. Tal é o louvor que se deve fazer dele, e em tantas coisas ele foi notável e, sobretudo, todas essas coisas em que ele foi notável, tão claramente constituem um conjunto arquitetônico que quase não se sabe o que dizer a respeito da sua vida. Seria preciso percorrê-la toda passando muito os limites deste comentário que, por sua natureza, deve ser rápido.
* Duas coisas brilham particularmente em Santo Inácio: santo radicalismo e visão do fim último
Parece-me, contudo, que em Santo Inácio de Loyola há duas coisas que o definem, que nele brilham — é claro que têm que brilhar em todos os santos — mas nele brilham de modo muito particular. A primeira coisa é a seguinte: como em toda vida de Santo Inácio de Loyola houve um santo radicalismo. Ele nunca tomou uma posição, uma atitude, nunca fez nada, que no gênero não fosse uma coisa completamente radical. De outro lado, todas as tomadas de posições1 radicais dele, por serem radicais, visam um fim último. Não param laranjamente a meio termo, mas chegam ao fim último.
* A visão do fim último é a mais bela nota de sua vida
E essa espécie de visão do fim último é, a meu ver, a nota mais bela da vida de Santo Inácio. Volto a dizer que isto existe na vida de todo Santo, mas alguns Santos têm certas virtudes maiores do que outros Santos; cada Santo brilha especialmente numa virtude. É nisso que vejo Santo Inácio brilhar especialmente. Por exemplo, em sua conversão. Sua conversão foi uma conversão tremenda, porque foi pecador de fato, pecador encardido, homem mundano, homem impuro, completamente esquecido das coisas do Céu, militar vaidoso, cuja coragem era feita de fanfarronada, que, por causa disso mesmo, aturava muita coisa mas apenas com preocupação das coisas da terra. Mas, nessa linha, o que ele queria, ele queria. E havia algo em sua luz primordial que se notava nisso, por baixo de todo o seu pecado capital que triunfava.
Os senhores querem uma coisa mais tremenda do que um homem, que era mundano, levava o mundanismo ao ponto de três vezes, se não me engano, tendo a perna partida por uma bala que lhe caiu no cerco de Pamplona, três vezes mandou consertar a perna para que não mancasse, porque nos cânones de elegância daquele tempo, um fidalgo que aparecesse mancando na corte seria malvisto e teria sua carreira mundana, e, portanto, política e militar, muito prejudicada.
* Senso de hierarquia, fibra de alma e capacidade de olhar as coisas de frente
Agora imaginem num osso partido, numa perna doída, vir um cirurgião com métodos daquele tempo, e com o radicalismo espanhol, desferir pancadas sobre aquele osso, quebrá-lo para refazer de novo. Depois, passar horas e horas deitado, o terror da inércia para aquele homem super-ativo. É uma espécie de falta de ar o que a inércia produz num homem super-ativo, inerte no castelo, com um peso nos pés para não soldar errado a perna e agüentando mais uma vez para ver se não mancava mais. Os senhores vêem que é uma pessoa radical raciocina assim: se é para não mancar, e se vou ser manco a vida inteira se não souber fazer um sacrifício agora, eu faço o sacrifício agora, embora horroroso, pouco importa; eu olho para o futuro, não quero ser manco a vida inteira, e para não sê-lo, passarei agora pelas piores coisas.
Há uma espécie de noção da preeminência do definitivo sobre o efêmero, da grande dor de uma vida inteira comparada com a dor fulgurante, mas instantânea de alguns episódios verdadeiramente lancinantes, há uma espécie de senso de hierarquia nessas coisas e uma fibra de alma para enfrentar o que se tem que enfrentar, uma capacidade de olhar o problema de frente que verdadeiramente deslumbra a gente, e que mostra um resto de luz primordial que está jazendo debaixo de uma multidão de atos errados e pecaminosos, determinados pelo triunfo do pecado capital.
O olhar a coisa de frente: o que aconteceria com a maioria das pessoas na situação de Santo Inácio? Não encarariam o problema de frente como ele encarou. A gente vê que ele viu a coisa em sua crueza. Eu vou ficar manco e vou viver na corte e quero ser militar. Ora, um manco na corte não dança; um homem que não dança na corte, não vale nada. Um manco na corte não faz carreira militar. Ora, um fidalgo que não faz carreira militar não vale nada. Ora, eu sou um fidalgo, ora, eu devo viver na corte, ora, eu devo lutar, logo, eu me ponho o problema de frente: se não me curar dessa capenguice física, não farei nada e minha vida está cortada. É um problema visto de frente. Passando para a frente: o que será minha vida cortada? Ou pouco caso dos cortesões, ou não ter que fazer nada, a penúria, a falta de dinheiro, o tédio da vida. Então, num prato da balança está isso. No outro prato da balança está; eu posso sair mancando, mas não quebrar minha perna. E assim muita gente vai até o fim da vida. É meio cacete, mas também é um horror quebrar essa perna. Fazendo o balanço, chego à conclusão: é preciso quebrar a perna; então, eu quebro a perna.
Os senhores sabem que a maior parte das pessoas, principalmente com o temperamento brasileiro, não olharia isso de frente, e ficaria muito sentido com um amigo que sentasse à cabeceira e dissesse: Inácio, francamente… e lhe falasse a verdade. Ele ficaria sentido, achando que o amigo tinha má vontade para com ele: ele é meu inimigo, veio gozar meu infortúnio. É como o temperamento nacional considera isso, e o considera de tal maneira que talvez um ou outro dos senhores que estão me ouvindo implicasse um pouco porque estou pondo a coisa tão pavorosamente a nu.
* Coerência e radicalismo na conversão
Operada sua conversão, é também radical. E nos problemas do céu, do inferno, da salvação, etc., vai se colocar novamente de frente: eu recebi graças, fiquei compreendendo bem o que é ser católico. O ser católico é a felicidade eterna, o serviço de Deus, o amor de Deus, etc. O ser anticatólico é a felicidade terrena, mas, de outro lado também o infortúnio eterno, a injúria a Deus, etc., etc. Esta é a verdade e isto tenho que ver de frente. E disto vou tirar todas as conseqüências que daí pendem. E as conseqüências que daí pendem para mim, Inácio de Loyola, consistem em seguir a voz da graça, que me pede, à vista dessas considerações — do céu, do inferno, da glória de Deus, da perdição das almas — que eu mude completamente minha vida, dedique-me completamente, seja conseqüente com o que eu fiz, vá refazer minha vida inteira, viver ao contrário do que vivi, e construir para mim uma existência feita de abnegação, de humildade, mas, sobretudo, feita de coerência. Devo ser coerente na verdade que o adotei. Eu a vejo de frente, eu a olho inteira, eu a assumo inteira e vou ser coerente até o fim. Temos aqui o padrão de vida magnífico e temos a vida de Santo Inácio. Ele não recuou diante de nada. Tudo quanto foi necessário para levar essa coerência até os últimos limites, ele fez.
Os senhores imaginem um fidalgo daquele tempo que resolve ser mendigo. Os senhores têm que imaginar isso dentro de sua própria pele. Imaginem os senhores, que um dos senhores saia, amanhã, pelas ruas de São Paulo, ou de Belo Horizonte, ou do Rio, ou de quantas outras cidades que aqui estejam representadas, e saia vestido de mendigo, com um sapato aberto, uma roupa toda suja, esfarrapada, cabelão, porco, comendo pessimamente, pedindo esmola. Imaginem os que o encontravam:
— Você, Inácio de Loyola, o que aconteceu?
— Faço isto pelo amor de Deus.
O outro riria-se e ia embora. Imaginem isso realizado em cada um dos senhores. Eu tenho que me imaginar a mim, Plínio Corrêa de Oliveira, na boca do viaduto do Chá, ao pé do prédio da Light, pedindo esmola. Meu amigo José de Azeredo Santos, que pontifica ali na glória de seu cargo, passa e diz: “Qual, não mais o Plínio dos outros tempos! Não o conheço”. Peço esmola e dizem: “Vá trabalhar!” Frei Jerônimo passa, eu peço uma esmola e ele me declara expulso do Sodalício. Obtenho uma comida suja, uns ossos duvidosos, vou roê-los num canto. Todo mundo que me conhece comenta pela cidade: “Viu no que deu o Plínio? Eu bem sabia…”.
Isto talvez é pouco em relação a outra humilhação. Ele, como muitos fidalgos daquele tempo, era semi-analfabeto. Eu sustento que aqueles fidalgos semi-analfabetos tinham mais cultura do que a Academia Brasileira de Letras inteira. Em todo caso, para ordenar-se ele precisava aprender a ler e escrever. Entrou numa escola primária, ele, homem adulto, no meio da criançada. E as crianças faziam brincadeiras com ele, um velhote que queria aprender a ler e escrever. E o professor também… Depois disso, ele arranjou um jeito, vai estudar, acaba parando na Universidade de Paris. O modo dele, um antigo fidalgo, obter prosélitos? O modo que se poderia imaginar: ele entra na Universidade, com boa apresentação, língua afiada, boa argumentação, procura esse ou aquele, começa a conversar, discute, faz um brilhareco. Quanta consolação, depois de ter sido mendigo, pôr a cabeça fora d’água a primeira vez. Não! Brilha na Universidade São Francisco Xavier. Ele coloca-se como mendigo, sujo e…, na entrada da Universidade e pergunta: “Francisco, de que te serve toda essa glória, se perderes a tua alma?” Francisco faz uma cara de… [inaudível]… Mas ao cabo de algum tempo, percebe a verdade e junta-se a ele.
* Funda a Companhia de Jesus para pôr diques ao protestantismo
Depois, ele funda a Companhia de Jesus, obrazinha minúscula, fundada por meia dúzia de padres, com a intenção de deter a avalanche da Revolução. É a revolução protestante que existe no tempo dele. E então, temos papas, cardeais, bispos, reis, imperadores, príncipes, toda a cristandade católica lutando contra o protestantismo e levando na cabeça todo o tempo. Ele resolve fazer essa coisa extraordinária: uma ordem militar, no sentido mais elevado da palavra, para pôr diques à Revolução. Era preciso que alguém o fizesse, ninguém fazia, logo ele ia fazer. É a eterna coerência, levada às últimas conseqüências. Só ele que faz. Funda a Companhia de Jesus, põe diques à Revolução e, afinal de contas, muito da face da terra se salva, se preserva para outras ocasiões, por causa da ação que Santo Inácio de Loyola moveu.
* Combatividade e coerência: pede para ser sepultado com sua espada de cavaleiro
Afinal, no fim da vida de Santo Inácio os senhores encontram o homem que pede para ser enterrado com sua espada de cavaleiro. No fim, como um enorme movimento que volta ao seu ponto de partida. Ele reúne todos os aspectos de sua vida numa síntese: é o Geral da Companhia de Jesus. General, porque a palavra “geral” era sinônimo, naquele tempo, de general; era chefe de uma milícia espiritual, que morre com o gládio, símbolo da milícia física, para afirmar que ele inteiro morria dentro do combate, da luta, com intenções de luta, com intenções de combate. Por quê? Ainda mais uma vez, a coerência. E qual é a coerência? Ali está o inimigo, o inimigo quer o extermínio da Igreja, ele quer o extermínio do inimigo, e não vai por menos; é preciso exterminar, porque o gládio não é um canivete para arranhar ninguém, mas é uma arma para transpassar o corpo dos outros e para matar.
Para construir, o melhor sistema é ter o gládio na mão. Para edificar, nada melhor do que lutar. O principal para que as coisas se construam, é derrubar os que derrubam, porque depois, como que por si mesmas, elas sobem. Os senhores vêem a obra admiravelmente positiva desse Santo na construção da demolição.
* Os Exercícios Espirituais: um tratado da coerência humana
Esse espírito de coerência, levado até o fim, esse tratado da coerência humana, os senhores encontram nos Exercícios Espirituais. Desde o principal fundamento, até a última linha dos Exercícios Espirituais, tudo não é senão o ver os problemas de frente, sem nenhuma mitigação covarde, sem nenhuma ignominiosa2 que o homem mente a si mesmo, mas a coisa vista como ela é. É assim, e não de outro jeito. Os Exercícios têm duas gamas de coerência
levadas até o último ponto: 1º princípio, que é o pólo de todas as outras coerências, é o direito soberano de Deus, Nosso Senhor, e de Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Redentor da humanidade, e da Santa Igreja Católica enquanto Cristo na terra; 2º, a malícia, a falta de lealdade para consigo mesmo, a falta de honestidade nos seus bons propósitos da criatura humana, isto também visto até o fim.
* Uma epopéia de propriedade e honestidade: a desconfiança de Santo Inácio no homem
Nos Exercícios, Santo Inácio é desconfiado do homem a mais não poder. Todas as velhacarias ordinárias com que o homem ilude a sua própria consciência, ele põe a nu dentro dos Exercícios. O problema dos binários, por exemplo, como ele o estrutura bem. O homem que, em última análise, tem um dinheiro e quer decidir se deve ou não restituir o dinheiro a outrem, porque ele tem um caso de consciência com o dinheiro, deve começar por pôr o dinheiro na mão de alguém e tirá-lo do bolso. Depois vai se isolar e raciocinar. Os senhores percebem como isso é bem pesado. Se fico com o dinheiro em meu poder, quantos apegos tolos podem me tentar. Mas se entrego a carteira para um amigo, vou fazer o retiro, aí vai examinar e até propor ao outro: “Fulano, julgue você; eu pensei assim, mas o que você agora decidir, está bom”. Vejam a desconfiança do homem, que a todo momento vê-se de frente e reconhece que pode ser mau. Há aqui uma epopéia de propriedade, de honestidade, de tendência reta e contínua da vontade para seu próprio fim, que é uma das mais altas e belas afirmações de santidade que tenha havido na História da Igreja.
* Ditados por Nossa Senhora, os Exercícios Espirituais mostram a própria substância de Sua alma Santíssima
Juntando todas as coisas: os Exercícios de Santo Inácio são tão típicos de seu espírito. Como isso glorifica os Exercícios! Serem típicos de um grande santo! Entretanto, os senhores sabem que boas tradições nos afirmam que Santo Inácio não é o autor dos Exercícios e que os Exercícios foram ditados a ele por Nossa Senhora na gruta de Manresa. Os senhores vêem aí o espírito de Nossa Senhora. E como há muito mais do que o espírito de Santo Inácio aí, mas a própria substância da Alma Santíssima, insondavelmente Santa, de Nossa Senhora. Há aí uma supercoerência que só as almas verdadeiramente virginais podem ter. É o modelo para nós de pureza de intenção, aliada à pureza do corpo, que realmente não há palavras que possam exprimir.
* Dupla graça a ser pedida a Santo Inácio: vermos as coisas de frente e desconfiarmos de nós mesmos
Devemos pedir a Santo Inácio de Loyola que nos dê essa dupla graça: de vermos as coisas de frente, como elas são, por piores e desagradáveis que sejam, e tirar esse vício horroroso que existe na alma de tanto brasileiro, que é de olhar as coisas de esguelha. Vê a coisa de seu jeito, faz como entende, e depois, quando a coisa não dá certo, fica desgostoso com Deus! Vamos olhar de frente. O que deve ser visto de frente, deve-o sempre ser visto de frente e inexoravelmente de frente, a verdade inteira. Sem isso, nossa alma não pode encontrar sossego. Segundo, no ver a verdade inteira, ver a verdade a nosso respeito. Somos falsos, somos covardes, somos egoístas, somos infensos a toda forma de sacrifício, somos ruins. E sem muita oração para Nossa Senhora nos dar a graça de vencermos nossa maldade, não a venceremos. Precisamos vigiar por cima de nós, sermos desconfiados com relação a nós mesmos como se é desconfiado com relação ao último canalha, ao último velhaco. Porque pelo pecado original, é isto que somos. Praticando assim a piedade, teremos verdadeiramente o espírito de Nossa Senhora. O espírito dos Exercícios Espirituais é o espírito de Nossa Senhora, o espírito de Santo Inácio é o espírito de Nossa Senhora.
* Rezando, obteremos as graças para chegarmos à santidade
Mas tão duro é isso à alma e à covardia humana que, à medida que pronuncio essas palavras, eu mesmo hesito em pronunciá-las, porque não sei se elas ditas assim, mais não desanimam do que animam. Eu preciso lembrar que aquilo que nos parece inacessível à nossa fraqueza, pela graça de Deus torna-se perfeitamente acessível. Rezando, rezando, rezando, por maiores que sejam nossas defecções e fraquezas, conseguiremos isso. Santo Afonso de Ligório dizia que quem reza, se salva, quem não reza, não se salva. Rezando, obteremos isso, por mais difícil que seja para nós.
Lembro agora um ponto pacífico da doutrina da Igreja que, creio, constitui até um dogma: sem a graça de Deus, ninguém consegue, durante muito tempo, praticar todos os mandamentos. Cai em pecado, viola gravemente um ou outro mandamento. Isto prova como a graça de Deus é indispensável e como é milagroso que um homem chegue a colocar-se na posição de Santo Inácio de Loyola. Mas este milagre devemos pedir, porque foi prometido a todos os homens; a todos os homens foram prometidas as graças necessárias para se chegar a esse nível de santidade. É isso que sugiro que peçamos a Santo Inácio de Loyola na noite de hoje.
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1 No microfilme estava escrito “posição”
2 Está assim no microfilme.