Reunião Normal – 25/7/1964 – Sábado [RN 261] . 17 de 17

Reunião para o Grupo da Martim 1 — 25/7/1964 — Sábado [RN 261]

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A vida espiritual é um processo que obedece ao princípio nemo summus fit repente: quando se chega ao barro, é porque se andou pelo ferro, já se esteve pelo bronze e pela prata, e procedeu do ouro * Uma verdade transposta para as civilizações: ouro, a alto Idade Média; prata, a Idade Média decadente; bronze, o Ancien Régime; ferro, o período pós-revolucionário; e lama, o comunismo * Exceções à regra, o normal é que a sociedade humana seja dirigida pelos seus líderes para a santidade, e que esses comumente tenham mais graça do que os outros * Numa sociedade que está bem, os de maior realce normalmente têm todas as razões para ser mais santos do que os de menor realce — O grande número de santos nas classes dirigentes na Idade Média * Ao longo dos tempos, a fidelidade vai se conservando nos elementos menos exponenciais da sociedade — O fenômeno do rebotalho humano posto dentro da Igreja * Fenômeno que contribuiu mais para afastar gente da Igreja do que quinhentos livros de Voltaire * Quando Deus resolve confundir uma sociedade, a partir dessa gente começa uma reconstrução que acaba atingindo os líderes naturais dessa sociedade * Característica do Grupo: construir o tipo de homem de alta categoria inteiramente piedoso, sem a borra do beatério — Uma graça e um dinamismo todo especial, que é uma graça de volta * A força, o brilho, e o poder de ressurreição que tem o Grupo deixa as pessoas desnorteadas * Somos o sinal e a primeira pedra de um processo da graça que está se apoiando sobre instrumentos humanos e indicando seu retorno

a respeito de assuntos distância psíquica, etc., etc… um pouco carregada, e que era melhor fazer uma reunião que fosse um pouco mais teórica, e me pareceu interessante tentar a montagem de uma teoria a respeito do que é a vida íntima do Grupo. Numa noite dessas já falamos a respeito de famílias de almas, desenvolvemos muito a idéia, toda a doutrina de famílias de almas, etc. Eu gostaria agora de completar alguma coisa da doutrina de família de almas.

Mas eu confesso que eu dou a isso aí o caráter de um teste. Porque eu queria, em primeiro lugar, saber do Frei Jerônimo o que acha da ortodoxia da coisa, mas em segundo lugar também perguntar aos senhores se acham que a coisa é clara, se a coisa faz sentido, como é que a coisa é, não é, etc.

* O colosso de pés de barro do sonho do Rei Nobucodonosor

Para que a doutrina fique de pé, eu devo começar primeiro por uns certos conhecimentos de caráter genérico. E o primeiro conhecimento é uma visão de Daniel.

Os senhores se lembram daquela visão de Daniel do colosso de pés de argila. O rei tinha esquecido como era a visão e ele quis — coisa dura — que todos aqueles adivinhos, magos, etc., da Caldéia… era uma visão tida durante um sonho e ele queria então que a turma toda adivinhasse a visão que ele tinha tido e que ele não lembrava. E que depois dessem a interpretação, porque ele não tinha conseguido interpretar. Está compreendendo? E se não fizessem isso, é porque eram falsas todas as adivinhanças deles, então era morto quem não adivinhasse.

Então ele pediu para aquela pessoa, ninguém soube, e indicaram a ele Daniel, que vivia numa certa intimidade com ele. Ele então mandou chamar Daniel.

Daniel passou um dia inteiro rezando, ou a noite inteira, não me lembro bem, e afinal de contas a horas tantas apresentou‑se ao rei. E ele descreveu para o rei a visão que o rei teve…

Ele explica, eu dou aqui a visão. É uma visão muito conhecida, mas é preciso ler o texto dela para ver aonde eu quero chegar:

31. Vós, vistes, portanto, ó rei, uma visão durante vosso sonho. Vós vistes aparecer de noite alguma coisa que parecia uma estátua. Ela era enorme, de dimensões colossais. Ela se levantava diante de vós, os olhos fitos em vós, e sua fisionomia era terrível. 32. A sua cabeça era de um ouro muito puro; o seu peito e os seus braços eram de prata; seu ventre e suas coxas eram de bronze; 33. as suas pernas de ferro; os seus pés, parte ferro, parte argila. 34. Enquanto vós olháveis essa estátua, uma pequena pedra se destacou do alto da montanha sem que nenhuma mão de homem tivesse tocado nela. Ela veio bater nos pés da estátua, e esses foram postos em frangalhos. O colosso desabou pesadamente. 35. Então, o ferro, a argila, o bronze, a prata e o ouro foram triturados e reduzidos a pó, como os restos de palha que estão sobre a eira no verão depois que o trigo foi batido. Essas parcelas foram levadas pelo vento em todas as direções, sem que se pudesse ter delas nenhuma espécie de traço. Pelo contrário, a pedra que tinha batido na estátua cresceu e se tornou uma montanha enorme que encheu toda a terra.

36. Eis, ó rei, o sonho que vós tivestes. Nós agora vamos dar a interpretação.

* Aos quatro grandes reinos pagãos, será contraposto o reino de Deus, inaugurado por Nosso Senhor

Então os senhores estão vendo que é um colosso, em que as partes, de alto para baixo, são diversas, e as partes são preciosas numa espécie de degradação. Quer dizer, quanto mais a gente chega ao chão, tanto mais a coisa é vil, o material é vil. Por isso a cabeça, que está no alto, é o ouro.

A interpretação que o Daniel deu, todos nós conhecemos. Era, primeiro, o Império Caldaico, depois o Império Persa, depois, em quarto lugar, o Império Romano, não é, Frei Jerônimo? É, do Império Romano. E depois vinha… não, eram quatro impérios… egípcio. Enfim, quatro impérios antigos que se sucediam um ao outro. E depois, então, a pedrinha, que ninguém tocou, é Nosso Senhor Jesus Cristo.

A pedrinha vem rolando do alto da montanha, naturalmente no sistema da avalanche. Ela quando chega arrebenta com aquilo. Agora, aquilo cai de não ficar nada.

Então são as várias etapas: primeiro o colosso cai, depois se reduz a frangalhos, a migalhas, depois essas migalhas se reduzem a pó, depois toca o vento e dispersa o pó. Quer dizer, dos restos não ficou absolutamente nada.

Agora, enquanto essa desventura ia acontecendo progressivamente com o colosso que tinha caído, de outro lado nós vemos a glória da pedrinha que rolou da montanha. Ela cresce enormemente e ela enche todo o espaço. É o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo que enche toda a terra e que em glória deixa longe todos os reinados dos reis anteriores.

* A vida espiritual é um processo que obedece ao princípio nemo summus fit repente: quando se chega ao barro, é porque se andou pelo ferro, já se esteve pelo bronze e pela prata, e procedeu do ouro

Essa interpretação é muito conhecida, e eu a dou apenas para descartar a questão, mostrar uma outra interpretação que esse Montleon apresenta aqui, e que é propriamente o que nos interessa, que não é tanto a interpretação propriamente exegética, mas a interpretação, o que eles chamam comentário místico. E o comentário místico é o seguinte: ele mostra que isso que se deve considerar como os quatro impérios, deve se considerar também as várias fases da vida espiritual.

Toda alma tem, ou pode ter, uma idade de ouro. Se ela decair, ela não passa imediatamente para idade da lama, mas ela passa para a idade de pedra. Depois da idade de pedra ela passa para a idade de bronze… pedra, não. Ouro, prata, depois bronze, que é um metal ainda muito digno, se bem que não tem metal nobre, depois o ferro, que já é um metal trivial, e depois um misto de ferro com lama, não é verdade? Então a vida se esfarela.

Quando se chega à última fase, o colosso daquela edificação espiritual cai, desaparece, o vento leva tudo e tudo acabou. Os senhores estão vendo aí bem a afirmação de que a vida espiritual é um processo. E é um processo que obedece ao princípio nemo summus fit repente, quer dizer, não se faz de repente uma coisa péssima. Se o sujeito chega na idade de barro, é porque ele andou pelo ferro, já esteve pelo bronze, esteve pela prata e procedeu do ouro, que é graça batismal inicial. Mas é por etapas que a alma caminha.

* Uma verdade transposta para as civilizações: ouro, a alto Idade Média; prata, a Idade Média decadente; bronze, o Ancien Régime; ferro, o período pós-revolucionário; e lama, o comunismo

E isso que, aliás, é uma verdade muito conhecida, eu pretendo transpor também para as civilizações, e eu falo especialmente das civilizações temporais. Não das civilizações aqui, no sentido de que uma substitui a outra, mas a das várias idades de uma civilização temporal. Sobretudo da civilização católica.

Os senhores tomam uma civilização católica no seu período áureo, vamos dizer, a Idade Média. Passou‑se depois para uma idade que, até certo ponto, ainda podia ser chamada idade de prata, que era o Ancien Régime. Mas depois passa por um período de bronze, que nós poderíamos chamar, por exemplo… Aliás, a verdadeira gradação não é essa: é o alto da Idade Média, ouro; prata, a Idade Média decadente; bronze, o Ancien Régime; ferro, o período post revolucionário; e lama, o período comunista. Essa seria a verdadeira gradação.

Nós vemos, então, que há graus de energia dos fermentos cristãos duma civilização, por onde, em certos estados, essa civilização católica é tão fervorosa, que ela é parecida com ouro. Mas há uns certos outros estágios em que, para castigar aquela civilização enquanto tal e o pecado que ela cometeu, a graça como que se retira. E embora continue a aparecer grandes santos — isso não tem nada com o aparecimento dos grandes santos —, o teor médio das almas, o teor médio do fervor, o teor médio com que as pessoas vêm as coisas, etc., está na linha da prata, não está mais na linha do ouro.

Então, as instituições ainda são boas, mas não são ideais. Os filósofos ainda são bons, mas não são tais linces e não têm tal ortodoxia. Os missionários ainda são bons, mas não têm tal sucesso.

Quer dizer, tudo quanto é da era de ouro passa e se degrada. Fica ainda bom, ainda direito, mas muito menos bom.

O reinado de Felipe II poderia ser comparado como uma espécie de idade de prata da civilização católica. Depois nós temos a idade… a coisa fica pior, não é verdade? As energias se retraem ainda mais e as almas vão ficando… os melhores só tem força para o fazer as coisas na linha do bronze.

Depois acaba sendo que os melhores… sempre exceção feita das almas que Deus chama para uma grande santidade e que continuam a existir, a média geral acaba correspondendo ao que seria a Europa no século passado, em que aparece uma santa do porte de uma Santa Teresinha, D. Bosco, São Cafasso, São Cotolengo, uma série de outros, mas em que a média geral não corresponde a isso. Esses santos são exceções dentro disso, a média geral é mais baixa, até chegar a média da situação que nós temos em nossos dias.

Essa é, portanto, uma noção que é baseada na distinção entre os grandes santos que a Igreja produz e a média geral. Ela não vale, de nenhum modo, para os grandes santos, até muitas vezes acontece que nas piores épocas vêm santos maiores, mas ela diz respeito à economia comum das almas que não são as almas de exceção. É em relação a essas almas que isso diz respeito.

* Um princípio que a ser verdadeiro, nota-se que em determinadas épocas as graças extraordinárias não só vão se tornando mais raras, mas menos ricas

Se esse princípio é verdadeiro, nós então chegamos à conclusão que em determinadas épocas, se bem que todo mundo tenha graça suficiente para corresponder inteiramente à vontade de Deus, as graças extraordinárias, superabundantes, generosíssimas, não só vão se tornando mais raras, mas menos ricas. De maneira que uma graça generosíssima que levaria alguém a uma operação X na Idade Média, leva a uma operação X dividido por cem no século XIX, por exemplo.

E com isso nós nos explicamos a nós também uma espécie de defecção e de encurtamento de vôo, ou de visão, ou de vistas, nas próprias fileiras da hierarquia eclesiástica.

Porque os grandes santos continuam também a existir na hierarquia, mas a média dos padres, das freiras, dos bispos, dos religiosos, mesmo quando bons, o train‑train, o de comum do negócio, é também um vôo muito mais baixo. Eles vêem menos, eles sabem menos, eles querem menos, eles amam menos, por causa dessa espécie de distanciamento de graça e de resfriamento que o corpo social no todo, quer considerado como Igreja, quer considerado na sociedade civil, vai…

Eu até pergunto assim muito rapidamente se está bem claro, para depois passar para outra parte, porque depois eu chego ao Grupo. Isso está muito teórico, mas isso tudo se dirige imediatamente para uma mais profunda … [inaudível]… das graças do Grupo. Mas como é um pouco teórico, eu pergunto se está claro.

Eduardo? Luizinho? Plinio? Caio? Sérgio? Mendonça? Vita? Fábio?

* Exceções à regra, o normal é que a sociedade humana seja dirigida pelos seus líderes para a santidade, e que esses comumente tenham mais graça do que os outros

Bom, nós sabemos — e nós vamos tomar agora a questão por um outro lado — que a sociedade civil como a sociedade eclesiástica são corpos orgânicos, corpos ordenados, e que nesses corpos ordenados, o normal é que, quer para a ordem da direção da vida de todos os dias, quer para a ordem da santificação, também na sociedade civil, os maiores, os mais eminentes, recebam graças especiais para levar os menos eminentes para o Céu.

De maneira que o normal, mesmo na sociedade civil, tanto quanto na eclesiástica, é que os que são mais importantes na ordem política, na ordem social, na ordem econômica, na ordem intelectual, na ordem do valor pessoal, esse valor pessoal indefinível que não entra em nenhuma dessas categorias, isso quer para os homens, quer para as mulheres, quer para a vida do corpo social, quer para a vida das sociedades intermediárias e até as famílias seja assim também, aqueles que estão propostos normalmente à direção, recebam graças excelentes para levar os outros para a frente.

Isso não deve ser visto assim, que só eles recebem as graças excelentes, nem que as graças mais excelentes sejam para eles. Deus, que faz a regras, se compraz em fazer sempre as exceções, e as exceções que são mais bonitas do que a regra. De maneira que Deus com freqüência dá essas graças para pessoas paupérrimas, humílimas, etc., que devem contribuir para guiar todo o corpo social: uma cozinheira como Santa Ana Maria Taigi, um mendigo como São José Labre, etc. Deus faz as exceções.

Essas exceções nem são pouco numerosas e são imensamente gloriosas. Mas tirando as exceções, o normal é que a sociedade humana seja dirigida pelos seus líderes naturais, políticos, de toda ordem, para a santidade, e que esses comumente tenham mais graça do que comumente têm os outros. Porque é por esta forma que as coisas se dirigem.

Isso é verdade para a Igreja, então é verdade que normalmente o bispo tem graças para dirigir o comum de seus fiéis, embora possa haver um Frei Junípero, que é muito mais santo do que o bispo, e isso é uma coisa gloriosa.

É normal também que um nobre, que um príncipe, que um rei, etc., tenha graças especiais para conduzir os seus fiéis e os súditos, para santificação, embora possa haver exceções, muito gloriosas, no sentido oposto, e Deus se compraz em instituir essas exceções.

* Numa sociedade que está bem, os de maior realce normalmente têm todas as razões para ser mais santos do que os de menor realce — O grande número de santos nas classes dirigentes na Idade Média

Se essa regra é verdadeira, pelo menos nas suas linhas gerais, nós então chegamos à conclusão de que numa sociedade que está bem, o pessoal de maior realce normalmente tem todas as razões para, como média, ser mais santo do que o pessoal de menor realce. Eu insisto sempre como média. Eles tem mais meio de serem santos do que o pessoal de valor médio. E o pessoal de valor maior tem como média graças especiais, que os outros não tem, porque eles têm as graças especiais da direção.

Sempre excluindo a quadratura de achar que o súdito deve ser menos santo do que o superior, etc. É apenas uma média geral, uma espécie de regra geral sujeita a numerosas e nobilíssimas exceções, contrafortizações, etc.

Ora, o que é muito bonito notar é que nós observamos que na Idade Média realmente nós encontramos grande número de pessoas de vida piedosa, exemplar, etc., disseminadas por todo o corpo social. Por isso mesmo, com numerosíssimos casos de vida profundamente virtuosa, não só de santos, mas média profundamente virtuosa nas pessoas que constituíam a massa do corpo social, a massa dos elementos dirigentes, a massa da elite.

Então, nós encontrarmos, por exemplo, o quê? Reis santos, nobres santos, intelectuais, professores, etc., santos, pessoas de grande beleza santas. Enfim, os valores humanos muito freqüentemente ligados à pratica da piedade. Por uma coisa curiosa, até a da beleza.

Eu acho que os senhores todos conhecem um caso excepcional da Madre Beatriz da Silva, fundadora aqui das Concepcionistas. Ela inspirou infundadamente ciúmes a uma rainha de Castela. A rainha de Castela perseguiu‑a tanto, que ela entrou para um convento e lá no convento ela se santificou extraordinariamente. Ela era tão linda que, para não inspirar sentimentos tolos de uma admiração besta, para as freiras ela andava habitualmente com um véu posto diante do rosto.

Isabel de Castela, que uma vez foi visitá‑la, pediu a ela, como favor, de ver o rosto dela. Ela já era velha…

(Sr. –: …)

E olhe que a mãe de Isabel de Castela é que tinha mandado ela lá.

Bom, ela então levantou o véu e Isabel de Castela então ficou extasiada com a beleza dela. E então parece que deu um beijo nela, uma coisa assim, não?

(Sr. –: Não, ela observou que Nosso Senhor tinha conservado os traços dela…)

Ah, olha lá que maravilha! Ainda muito mais bonito. Meu historiador não dá esse pormenor. Isso é uma maravilha.

(Sr. –: …)

* Ao longo dos tempos, a fidelidade vai se conservando nos elementos menos exponenciais da sociedade — O fenômeno do rebotalho humano posto dentro da Igreja

Agora, esse divórcio foi se tornando mais freqüente ao longo dos tempos. E, por exemplo, nas corte de Luís XIV, o número dessas pessoas nessas condições, que eram piedosas, já era menor. E começa a aparecer o fenômeno do rebotalho humano posto dentro da Igreja.

O rebotalho humano o que é?

Começam a aparecer com mais freqüência, como católicos praticantes, militantes, na ordem intelectual, os mais insignificantes; na ordem nobiliárquica, os menos nobres; na ordem da beleza, as mulheres menos bonitas. Enfim, em todas as ordens representativas de valor humano, à medida que se vai passando da idade de ouro para a idade de prata, há uma evasão dos elementos exponenciais, cada vez mais conquistados pelo mundanismo, pela trivialidade, pela apostasia. E a fidelidade vai se conservando nos elementos exatamente menos exponenciais. Mas de um modo tão tremendo e tão profundo, que acontece coisa pior: é que nas classes baixas, onde persevera mais a religiosidade do que nas altas, ainda são os elementos marginais das classes baixas que praticam a religiosidade.

De maneira que, por exemplo, entre dois operários, será católico o menos corpulento; entre dois cantores, é o cantor de voz mais rachada que vai ser católico; se é um violinista que é muito católico, ele tem uma viola na qual falta uma corda. Não é verdade?

(…)

dizer o seguinte, não me venham com a seguinte conversa: Deus escolheu as coisas pequenas do mundo para confundir os fortes. Porque uma coisa é a coisa pequena, outra coisa é a coisa torta, esmolambada, errada, escangalhada.

Aqui não são as coisas pequenas do mundo que foram escolhidas, porque as coisas pequenas do mundo, mas direitas, entraram nos sindicatos e ficaram revolucionários, abandonaram a prática da religião. Ficou o beatério, quer dizer, a coleção de todo mundo que é esquisito, que é torto, que é esmolambado, contra o qual há uma objeção séria do ponto de vista humano a fazer para que o sujeito seja algo no ambiente a que ele pertence, por menos que este ambiente dele seja qualquer coisa.

* Fenômeno que contribuiu mais para afastar gente da Igreja do que quinhentos livros de Voltaire

E isso então dá a explicação das sucessivas críticas a que os católicos têm sido sujeitos. Por exemplo, se o católico é nobre, é pelintra. A gente diz: “Má vontade contra a Igreja”. É evidente que é, mas essa má vontade encontrou um pretexto…

(…)

Quando o católico é operário, ele tem jeito de sacristão e não tem jeito de ser líder sindicalista. Não é verdade?

Quando o católico é artista, a gente sabe o que é: é dos tais que montam a exposição artística para ser vendido de pavor. O sujeito dá os quadros dele para uma obra de caridade, para que o vigário consiga comprador, para quem tem pena da obra de caridade. Depois a gente recebe aquilo, deixa em casa num quadro e manda para a primeira quermesse do interior que pedir para a gente um donativo.

Quer dizer, tudo funciona então nessa base esmolambada, nessa base falsa. Mas por quê? Porque do artista católico, do operário católico, do nobre católico, do advogado católico, do católico que for, houve uma imagem falsa, que o espírito das trevas, com culpa para aqueles a quem seduziu, realmente apresentou como sendo a realidade daquela imagem.

Agora, isso ao que corresponde?

Isso corresponde então à idade de barro, em que dentro da sociedade civil houve uma evasão de todos esses elementos preponderantes, e só esse elemento secundário e torto é que ficou dentro da Igreja. É exatamente a pior idade, a pior situação decorrente dessa progressiva evasão das graças, que é algo de paralelo com o processo revolucionário.

À medida que o processo revolucionário vai tocando para a frente, meio como causa, meio como efeito, as graças vão se retirando. Então se dá essa situação miserável…

(…)

é a entrada desse tipo de gente dentro da religião católica.

Isso representa o fim de uma era e o fim de um horror. É propriamente a idade do barro. Depois disso é a queda.

Eu exagero nessa descrição? Se eu exagero, não, mas se torno bem clara a explicação profunda dessa espécie de lepra.

Fernando queria fazer alguma pergunta?

(Dr. Camargo: …)

De um fato, no fundo, muito misterioso e que sempre me causou um desagrado horroroso… Religião é isso.

(Sr. –: …)

Bem, eu sustento o seguinte: que esse fenômeno contribuiu mais para afastar gente da Igreja do que quinhentos livros de Voltaire. Esse pessoal dizia Voltaire, está compreendendo? Voltaire, Voltaire… Vocês até deram risada quando eu falei de Voltaire, de tal maneira Voltaire é um pobre coitado … [inaudível]… maricas, mas é isso.

Os senhores compreendem bem o seguinte, é preciso excluir essa história: Deus resolveu esmagar o mundo por essa gente, porque essa gente não esmaga o mundo, eles são esmagados pelo mundo. Eles não esmagam coisa nenhuma, portanto, vamos tirar isso de fora.

* Quando Deus resolve confundir uma sociedade, a partir dessa gente começa uma reconstrução que acaba atingindo os líderes naturais dessa sociedade

Acontece que nós podemos juntar a isso um outro fenômeno: é que muitas vezes — e isso é verdade —, quando Deus resolveu confundir uma sociedade, Ele recomeça o processo não de cima para baixo, mas de baixo para cima. Ele pega gente assim, cura do que tem de comum com essas coisas, e a partir dessa gente começa então uma reconstrução que, de baixo para cima, acaba atingindo os líderes naturais de uma determinada sociedade.

Então a gente tem os Apóstolos e tem aquela famosa invectiva de um romano, não me lembro qual deles era… não, é Tertuliano, se não me engano, não sei quem, que defende a Igreja contra o seguinte [que] os romanos diziam: tudo quanto é sujeito de perna cortada, de olho vazado, estropiado, etc., no sentido físico da palavra, todos esses é que são católicos.

A gente vê que a Providência começou por trazer gente dessa, isso sim, para humilhar os romanos, mas começou a fazer deles católicos direitos, que iam para o martírio, coisa completamente diferente. Sem falar que um homem estropiado não é necessariamente assim.

Depois que se passa da era de barro para a de aço, de aço para bronze, de bronze e tal, então começam a aparecer os homens melhores, etc., até que a virtude chegue de novo ao alto, aos píncaros das várias lideranças sociais. Chegou, então, normalmente, naturalmente, a virtude começa a se difundir.

É o reino de Cristo propriamente dito. É a lâmpada que está colocada no candelabro e que de fato ilumina a casa inteira; que é tirada dos cantos, é colocada nos candelabros, e de fato ilumina a casa inteira.

(Sr. –: …)

É, eu não excluo que às vezes tenha começado. É por isso que eu disse que por vezes o processo começa de baixo para cima. Eu não tenho elementos para afirmar que seja sempre assim. Até tenho elementos para desconfiar que não seja sempre assim.

* Na Roma antiga, o catolicismo originava-se na classe escrava, mas começa a título de exceção a conversão de certo número de nobres

Assim posto, isso se compõem de vários blocos. É um pouco complicado, de maneira que vamos passar agora para outro bloco, assim a gente entende melhor a coisa.

Nós então podemos dizer o seguinte:

Como é que se faz esse movimento quando ele se dá de cima para baixo? De baixo para cima, quero dizer. Então, como é que se faz esse movimento? Esse movimento faz‑se da maneira seguinte:

Em Roma, por exemplo, eram os escravos que eram muito católicos. Esqueci os escravos. Não eram só os estropiados, mas também os escravos. Muitas vezes os escravos é que eram católicos, mas a certa altura começa a entrar um pinguinho de gente da nobreza. E esse pinguinho de gente da nobreza já nas catacumbas havia. Encontraram em mais de uma catacumba a tribuna da nobreza para assistir a cerimônia. Mas começa a título de exceção, e de exceção berrante dentro do meio. De maneira que aquele sujeito dentro daquele meio vai criar uma espécie de escândalo. Para ele é uma vergonha se apresentar como arauto de uma coisa que vem de baixo para cima, que vem torto para o direito, do estropiado para o íntegro, etc.

* É o Lumen Christi que vai subindo de camada em camada, às custas da humilhação sem nome, do vexame, da luta daqueles que tomam sobre si o introduzir aquela coisa baixa numa coisa mais alta onde são desprezados

Ele agüenta aquela vergonha, mas ao mesmo tempo em que ele agüenta aquela vergonha, ele deita aquela luz naquele ambiente, e o exemplo dele é uma graça e um convite para que uma porção de gente assim como ele seja como ele. De maneira que os primeiros que entram, os primeiros das camadas superiores que entram dentro disso, eles são como que uma penetração da graça para aquele ambiente.

Eu digo da graça, porque todo apostolado externo é, em princípio, acompanhado por uma graça interior junto àquele que recebe este apostolado. E quando então começa o apostolado, vamos dizer, por exemplo, do nobre, do bem apessoado, do influente, enfim, do líder natural, uma porção de congêneres com ele começam então a receber graças maiores do que recebiam.

E aquela luz que era uma luz que estava no chão, é como a lâmpada que vai subindo. Ainda não é posta no candelabro, mas é o Lumen Christi que vai subindo de camada em camada, às custas da humilhação sem nome, do vexame, da luta daqueles que tomam sobre si de introduzir aquela coisa baixa numa coisa mais alta onde são desprezados.

Isso está sendo gravado?

Isso eu gostaria de que, se não fosse muito difícil, mandasse tomar palavra por palavra, porque para a “RCR”, para uma porção de coisas, depois eu arquivo e me serve, está compreendendo? Para o MNF, etc.

Bem, mas com isso perdi o fio. O que é que eu estava dizendo?

É o Lumen Christi que vai subindo, mas vai subindo com a vergonha desses normais e desses superiores que agüentam e que, pelo exemplo deles, constitui um vôo e uma penetração no ambiente superior.

Jogo de penetração muitas vezes ainda desprestigiado. Não conseguem prestigiar‑se logo, não conseguem impor‑se logo. Eles serão objeto de risota, da gargalhada, do opróbrio e até — isso faz parte do sacrifício fecundo com que o Lumen Christi vai subindo — é necessária essa vergonha para que Cristo vá sendo glorificado, para que a Igreja Católica vá sendo exaltada.

* Cada indivíduo que pertence a uma determinada categoria, quando começa a despertar essa categoria, é uma espécie de chanteclair

Mas à força dessa vergonha ser suportada com dignidade, dá‑se o fenômeno do mercador chinês. Então aquilo vai entrando, vai mudando, etc., até dominar completamente o ambiente. Essa coisa vai subindo, vai subindo de ponto em ponto.

Então, cada indivíduo que pertence a uma determinada categoria, quando ele entra, quando ele começa a despertar essa categoria, ele é uma espécie de chanteclair, da imagem de Rostand, porque pelo canto do galo dele o sol se levanta para aquela categoria.

Quer dizer, ele proclama naquela categoria a religião católica, mas a verdadeira religião católica, e a graça o acompanha. E o sol da graça — eu não falo da graça necessária, mas da graça superabundante — vai nascendo para aquela gente à medida que ele proclama, e no alto de uma proclamação, o sol da graça jorra inteiro.

Às vezes é uma sucessão de chanteclairs, mas aqueles chanteclairs vão fazendo nascer o sol da graça para aquele ambiente, e afinal daquele ambiente se faz dia, depois de uma série de sacrificados que lutam, que não saem do seu ambiente … [inaudível]… até que o sol se levante completamente.

Então, a missão daquilo que muito pagãmente se poderia chamar o chanteclair. Porque eu acho que os senhores conhecem a imagem do chanteclair do Rostand… acho que todos aqui conhecem. Aquele que muito pagãmente se poderia chamar o chanteclair .

* Quando Deus resolve começar o processo em sentido oposto, há uma graça de recomeço, que é completamente diferente, no seu dinamismo, das graças do período de decadência

Se nós entendemos que em nenhum caso o homem provocou a graça, mas foi sempre a graça que se antecipou ao homem, e portanto foi a graça que suscitou o chanteclair, é a graça que dá ao chanteclair a graça de cantar e ela depois vem depois que ele cantou porque ela quis, e postas todas as exceções a que isso é sujeito, porque transformar isso numa regra sem exceção desde logo se cai no exagerado e no falso, é preciso repetir as exceções, então a gente compreende a incomparável beleza deste apostolado de volta e este apostolado inicial que corresponde à seguinte situação:

Quando Deus, depois do processo ter terminado, resolve começar o processo em sentido oposto, então começa uma graça que é uma graça de recomeço, que é completamente diferente, no seu dinamismo, das graças do período de decadência. Elas vão mesmo, elas tocam para a frente, elas fazem nascer o sol. São graças progressivas, enquanto as outras são graças restritivas, graças que vão cair…

Então nós temos aqui a teoria da penetração inicial e temos a teoria da graça do retorno, quando Deus retorna a uma determinada sociedade.

Eu pergunto se essa concepção está clara ou se queriam fazer alguma pergunta.

Eduardo?

(Dr. Eduardo: …)

Não, eles são contrários. Eles são os restos do sol que está se pondo. Breques e restos de um sol que está se pondo. Enquanto os outros não: eles são sementes de uma coisa que está renascendo. E há santos para serem uma coisa, santos para serem outras.

(Sr. –: …)

Bem, daqui a pouco vamos ver o Grupo em função disso e depois as várias almas do Grupo em função disso.

Mas isso está claro? Luizinho? Plinio? Caio? Sérgio? Mendonça?

Vou perguntar um pouco para o pessoal da Pará também, porque eu não vou expor isso na Pará.

José Fernando? Vita? Fernando? Fábio?

Frei Jerônimo, isso está ortodoxo? É uma hipótese, representa algo de hipotético, evidentemente. Como é?

* Característica do Grupo: construir o tipo de homem de alta categoria inteiramente piedoso, sem a borra do beatério — Uma graça e um dinamismo todo especial, que é uma graça de volta

Agora vamos então tocar para a frente.

O que representa dentro desse assunto o Grupo?

Eu tenho impressão de que a graça característica do Grupo, por onde o Grupo, desde o tempo da Congregação de Santa Cecília, se diferenciava do resto — portanto, para a história do Grupo, por exemplo, isso é um elemento norteador e tem seu interesse não pequeno —, onde o Grupo se diferenciava do resto é que os legados, os tesouros enormes que estavam nas mãos daquela babugem, tesouros de tradição, tesouros de piedade, tesouros de estilo, homem, tudo, nós queríamos assumir ponto por ponto sem perder um grão de areia, mas a ganga e a borra nós rejeitávamos completamente. E nossa tese era sermos homens inteiramente normais e de alta categoria, com tudo quanto naqueles havia de bom, mas sem tomar a … [inaudível]… que naqueles havia de bom … [inaudível]…

Portanto, acabava sendo tirar a lâmpada que estava não só no chão, mas enterrada na lama do chão, na lama do caminho, abaixo … [inaudível]… pegar essa lâmpada, levantá‑la, e construir o tipo de homem capaz, do homem saudável, do homem normal. Do homem não só isso, mas até debaixo de certo ponto de vista do homem padrão, do homem de alta categoria, mas inteiramente piedoso, com a afirmação — e esse é o ponto — de que todas as qualidades que há nos homens normais, só são autênticas se baseadas na piedade. No resto ou são farisaísmo, ou são decadência, ou são infâmia. Porque tudo quanto há de bom vem do princípio que estava nas mãos exatamente da … [inaudível].

Portanto, uma espécie de reversement completo de todo o quadro de valores. Porque da borra tirar muito de bom.

Aos da alta categoria, dizer a eles que não eram nada e que tudo isso só vinha da graça, da religião, de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eles também eram borra, debaixo de certo ponto de vista. E a apresentação de uma plenitude que era a virtude e a fé colocadas num candelabro do mais alto valor e da mais alta categoria.

Isso era ou não era o traço de Santa Cecília, que explica, vamos dizer, por dentro, toda a coisa, seleção de gente de boa família? Isso … [inaudível]… era ou não era?

José Fernando que pegou o “Legionário”, era ou não era isso?

O “Legionário” era um jornalzinho de sacristia, de paróquia, mas nunca foi o “Pirilampo”, o “Hino”, porque não havia outro remédio. Mas detestando e … [inaudível]… e visando as maiores coisas.

(Sr. –: …)

Ah, ele voltou à sua posição natural. Isso é a trepadeira, a roseira que perde a estaca. O Grupo saiu, aquilo zerou.

(Sr. –: …)

* Simultaneamente com o Grupo, levanta-se a Ação Católica, que também rompeu com o rebotalho, mas transformando o ambiente católico em festivo, vivaz e alegre

Eu vou tratar daqui a pouco da esquerda católica, e o leão se quiserem. Eu trato do leão também.

Bem, simultaneamente conosco, levantou‑se uma nova era, que também já não queria aquilo. Porque aquilo tinha chegado a um ponto que já não era mais possível. Acabou aquela era, aquela era o fim.

Bem, e daquilo só podia partir outra coisa: era uma nova degradação ou um soerguimento. E partiram as duas coisas. Porque a Ação Católica rompeu com aquilo, e procurou fazer um tipo de gente que aquilo não era. Podia ter muito daquilo, mas aquilo já não era.

Eles procuraram fazer um movimento católico, transformar o movimento católico, de maneira a … [inaudível]… a normalidade festeira e vivaz, buliçosa, alegre … [inaudível]… de um mundo socialista, de um mundo pequeno burguês e socialista. Isso é bem Ação Católica … [inaudível].

Enquanto nós procuramos adaptar essa coisa não à sociedade revolucionária que vinha se formando, mas à sociedade eterna ultramontana que estava moribunda e que renascia em nós. Quer dizer, isso era propriamente o sentido de nossa missão.

Então vamos tocar para a frente. Eu estou entrando um pouquinho na segunda parte, mas é melhor acabar esse negócio de uma vez. Bem, vamos tocando um pouco para a frente.

Aqui está então o Grupo dotado de uma graça que é de um dinamismo todo especial, que é uma graça de volta. Não é, portanto, a graça dos últimos raios de sol que descem e a graça de frear, de retardar, etc., mas é a graça de criar, é a graça de volta. E é uma graça que por outro lado é feita… vamos dizer, gente normal que é destinada a quebrar essa coisa. Quer dizer, o Grupo tem esse objetivo.

* Algumas ressalvas que indicam que ainda participamos um pouco do passado

Agora, tão verdadeira parece a regra que nós estamos estudando, que embora se possa dizer que o Grupo tem a graça … [inaudível]… portanto, mesmo isso, porque exatamente vem de baixo para cima, é sujeito a algumas ressalvas que indicam que nós ainda participamos um pouco, debaixo de um certo ponto de vista, do passado que nós… enfim, daquela espécie de peso da decadência que nós…

(…)

sobrinhos, ramos maternos e coisas desse gênero. Quer dizer, ela entra mesmo, e entra com uma força de ressurreição colossal, como nós vamos falar daqui a pouco.

De outro lado, ela entra sempre por umas portas, por uns lados, por uns jeitos, está compreendendo? Ela não entra de cheio, mas ela quase se faz força para entrar. E entra, vamos dizer, encontrando uma tal resistência da maldição oposta, que ela entra de fato na cidadela, mas ela entra pelas… … [inaudível]… pelas portas do fundo. Entra mesmo e começa mesmo seu trabalho, mas entra por aí.

Quer dizer, a constante dessa nota no Grupo é uma coisa muito singular, porque a gente poderia multiplicar os casos ao infinito … [inaudível]… para a frente.

É curioso ver como, vamos dizer, essas forças históricas se cruzam e como a graça encontra assim como que… ela quer entrar, porque isso tudo é porque Deus quer ou porque Deus permite, evidentemente, mas, enfim, à maneira de duas forças contrárias humanas que se cruzam, à maneira do Rio Amazonas que desemboca no mar, ou qualquer outra coisa assim.

* A força, o brilho, e o poder de ressurreição que tem o Grupo deixa as pessoas desnorteadas

Agora exatamente a força do brilho da coisas do Grupo o que é?

É exatamente a força de que o Grupo representa algo que deixa todo mundo estatelado. Porque isso que eu estou dizendo aqui, explicitando no subconsciente de quase todo mundo estava. Não, talvez, com tanto método, com tanta força, mas eu tenho certeza que algo disso está na cabeça de todo mundo. E daí a surpresa quando eles vêem o Grupo aparecer. Eles têm a surpresa de ver o Grupo aparecer porque há séculos históricos que não acontece um fenômeno desses.

Isso aí eles compreendem também que é uma outra era histórica que se abre. Porque eles também estão habituados à idéia de ver a virtude representada exclusivamente nos escalões mais baixos, a virtude em estado de decadência. E isso que eles subconscientemente reputavam a grande morta da História, vê‑la reviver dá a eles o susto que alguém tem quando um cadáver que está começando a se decompor e no qual, de repente, começam a aparecer faces rosadas e um sorrizinho. Por mais discreto que seja o fenômeno, eles se apavoram: o cadáver está revivendo.

* Somos o sinal e a primeira pedra de um processo da graça que está se apoiando sobre instrumentos humanos e indicando seu retorno

Nós somos o sinal — ao menos para o ambiente brasileiro, depois eu falarei do ambiente internacional — e nós somos a primeira pedra de um processo da graça que está se apoiando sobre instrumentos humanos e indicando seu retorno.

Há uma revista carlista que tem um nome que eu acho grandioso, eu devo dizer que foi o nome de jornal que eu mais gostei em minha vida até hoje: “Volveré”. É grandioso. No fundo de todos os desastres da primeira era, uma coisa chamada volveré, a esperança na outra era.

Eu não conheço nada de mais bonito. Eu quando ouvi isso, eu que não sou muito emotivo, fiquei arrepiado. Eu se soubesse qual era o homem que inventou isso, o espanhol velho que inventou isso, eu era capaz de dar uma … [inaudível]…, de tal maneira eu fiquei encantado com a coisa.

Ora, em nós o que a Providência diz é o volveré. E quem nos vê, o que sente é o volveré.

Por exemplo, … [inaudível]… e todos os visitantes sentem, é essa história: eles compreendem que a graça iniciou uma operação, uma rotação em sentido inverso. Eles nem sabem falar em graça, mas na experiência deles…

(Sr. –: …)

Gostam … [inaudível]… Serra Negra e tudo o mais, é essa sensação de algo que voltou. E nós precisamos compreender essa sensação para compreender aquilo que nós somos. Porque se nós não compreendermos bem aquilo que nós somos, não temos nem coragem, nem ímpeto, nem ânimo, nem entusiasmo para nosso apostolado.

Nós somos a primeira operação da graça para uma volta, com todas aquelas dificuldades do nobre romano que vai começar a ser católico no meio da nobreza.

Quer dizer, nos espezinham, dão risada de nós, etc., mas não importa. A gente toca para diante, porque de fato naquela ordem de coisas vai ser um verdadeiro chanteclair, naquela ordem de coisas a gente vai ser uma coisa que vai fazer nascer o sol e ninguém conseguirá segurar…

(Sr. –: …)

É, estamos sendo já isso.

Isso se vê nas ordem nacional, nós somos isso para o Brasil inteiro. Na ordem de classes nós somos para nossas respectivas classes. E fica bem claro que é para todas as classes. E aqui está o exemplo da Aureliano Coutinho dando a entender bem isso.

Quer dizer, o que se quer dar a entender com isso é a coisa seguinte:

A Civilização Cristã em todos os seus membros, a sociedade temporal cristã em todos os seus membros está nascendo. Uma graça nova começou, uma era nova começou. Se nós não nos sentirmos os arautos dessa graça e dessa era, nós não temos nada feito.

Quer dizer, aqui está o segredo de nossa coragem, aqui está o segredo de nosso entusiasmo, e aqui está também — e é o ponto que eu vou me ocupar nos outros cinco minutos dessa exposição — a razão da composição do Grupo.

* Deus escolhe instrumentos débeis para realizar o seu plano — O mundo só vê em nós o lado grandioso

Por que é que está a razão de nossa coragem e de nosso entusiasmo?

Nós compreendemos então que não é uma obrinha, não é uma congregaçãozinha mariana, não é uma coisinha pequena dessas. Mas é das coisas mais transcendentes que tem havido. É uma era histórica que recomeça com toda a importância desse retorno. Não é verdade? Ao que eu dou uma importância colossal.

Conjuntamente com isso, vem a coisa seguinte:

Tortos e estropiados à maneira daquele ambiente de sacristia, nós não somos. Nós somos o contrário disso. Mas, por alguns lados, por geração-novismo, por capenguice, por moléstia, por uma porção de coisas, nós somos muitas vezes fracos no plano natural.

Quer dizer, nós não somos capazes, no plano natural, de fazer tudo aquilo que nós deveríamos fazer. E aí vem o esmagamento dos poderosos pelos fracos. Aqui, sim, aplica‑se o princípio inteiramente: é o poderoso esmagado pelo fraco, o grande esmagado pelo pequeno, Deus que escolhe instrumentos débeis para conseguir grandes coisas enormes.

Entra aqui o mistério da capenguice dentro do Grupo. Quer dizer, aqui se dá, sim, o fato de Deus operar, por instrumentos débeis, coisas enormes.

Nós não participamos daquela … [inaudível]…, mas nós temos uma fraqueza muito grande, nervosa às vezes … [inaudível]… às vezes, de todas as outras naturezas. Mas, coisa curiosa, que Deus vela aos olhos do mundo, o mundo não vê. E o mundo em nós vê apenas o lado grandioso, porque é o que ele tem que ver.

De maneira que isso para nós é uma explicação para efeito interno. Porque o mundo nem vê isso. O mundo só vê o lado grandioso.

* Todas as classes e todos os predicados humanos estão representados no Grupo, o que dá exatamente a sensação do toque de clarinada do retorno

Acontece que eu tenho a impressão de que o Grupo, nesse sentido, foi muito harmonicamente recrutado pela Providência. Porque ele foi recrutado de tal maneira, que ele apanha todas as classes sociais de um lado; de outro lado, entretanto, ele apanha todos os feitios de pessoas e quase todos os predicados humanos estão representados dentro do Grupo de algum modo.

Eu não vou agora me preocupar com questão genealógica, mas com predicados humanos.

Nós temos, graças a Deus, no Grupo, gente cuja inteligência contrasta com a tolice daquele ambiente de sacristia; cuja cultura contrasta com a cultura fofa dos pregadores desse ambiente de sacristia; cuja capacidade de ação contrasta com a inércia e incapacidade de ação daquela gente; cuja força física e cuja apresentação de saúde contrasta com o perpétuo aspecto de doença daquela gente. Gente que pela sua amabilidade, pela sua distinção, pela sua juventude, pelo esplendor de sua vitalidade, contrasta com qualquer coisa de sexagenário ou septuagenário que há em todo aquele ambiente de sacristia.

Quer dizer, nós temos uma porção de valores que estão recrutados aqui dentro, de maneira que quase tudo está representado aqui dentro. E é propriamente qualquer coisa que desnorteia para quem vem cá.

Se encontrasse, por exemplo, só gente muito sisuda, ou só gente muito contemplativa, ou só gente muito ativa, ou só isso, ou só aquilo… não, encontra de tudo. O que indica, exatamente, esse retorno.

Não estou querendo dizer o seguinte: que a pessoa fique edificada. Não é isso, não. Indica o tal retorno. E é isso que causa uma certa surpresa, e dá exatamente a sensação do toque de clarinada … [inaudível]… que vem, etc.

* Cada um de nós representa uma espécie de apelo ou de ponto de partida da Providência para uma porção de gente do mesmo gênero

Eu poderia, nessa exposição, lançar uma hipótese. É evidentemente uma hipótese. Tudo isso que eu estou dizendo tem algo de hipotético. Eu não estou dizendo isso como dois mais dois é igual a quatro, é um conjunto enorme de hipóteses. As observações da realidade são verdadeiras, o resto é um conjunto de hipóteses. Mas é um conjunto de hipóteses que pelo seu conjunto impressiona muitíssimo, e cria no meu espírito uma espécie de certeza moral. Mas o que eu vou dizer agora é mais arrojado.

Eu acho que seria razoável e seria natural a gente admitir que cada tipo de homem que está dentro do Grupo tem a missão de, pela oração e pelo sacrifício, conseguir da graça que outros homens congêneres sejam chamados. De maneira que cada um de nós representa uma espécie de apelo ou de ponto de partida da Providência para uma porção de gente do mesmo gênero.

E por essa forma, cada um de nós, mais uma vez, é uma espécie de chanteclair de um setor. Não mais de um setor social só, mas de um setor de um tipo de personalidade que para o Grupo deve ser trazido. E então aqui a gente compreende de um modo especial essa vocação do Grupo, essa vocação universal do Grupo, e o que é que o Grupo representa como elemento inicial de uma nova era.

E com isso acabou.

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1) Estava como Reunião Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.