Santo do Dia (Sede do Reino de Maria (Rua Pará)) – 10/7/1964 – 6ª feira [SD 066] – p. 6 de 6

Santo do Dia (Sede do Reino de Maria (Rua Pará)) — 10/7/1964 — 6ª feira [SD 066]

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Conceito corrente de paz interior: vida espiritual tranqüila sem tentação ou luta; nada de cruz, sofrimento ou angústia * Entende-se hoje a paz de um país, não como fruto da justiça, mas da prosperidade e tranqüilidade econômica * Nessa ótica, Nossa Senhora Rainha da Paz seria a que não teve angústias, dores, sofrimentos ou problemas * Certa iconografia alimenta esse conceito: Nossa Senhora não esmaga o demônio, mas pisa-o por acaso * Não é uma Rainha da Paz sem luta, mas há inimizades entre Ela com sua raça e o demônio com a dele — Exemplo: Lepanto * Ela acompanhou seu Filho na luta e no sofrimento e povos verdadeiramente devotos d’Ela são combativos * Só possui a paz quem quer a ordem a todo custo, dentro dos maiores sofrimentos, como Nosso Senhor no Horto * Pedir a Nossa Senhora a paz de fundo de alma, ainda que na “amargura muito amarga”

Nós temos hoje, sexta-feira, dia 10 de julho, a novena da Bem-Aventura Virgem Maria do Monte Carmelo. Amanhã, igualmente novena. Não há… para hoje nem amanhã não existe santo. Existe aqui um comentário, um pedido do Plinio Solimeo, redigido assim:

* Conceito corrente de paz interior: vida espiritual tranqüila sem tentação ou luta; nada de cruz, sofrimento ou angústia* Conceito corrente de paz interior: vida espiritual tranqila sem tentao ou luta; nada de cruz, sofrimento ou angstia

Dr. Plinio, ontem foi dia de Nossa Senhora Rainha da Paz. Não havendo santo para os próximos dias em nosso calendário, o senhor não poderia em algum deles comentar esta invocação de Nossa Senhora?

Então, rapidamente, vamos fazer um comentário hoje. Nossa Senhora da Paz.

A paz que se refere aqui pode ser considerada debaixo de dois aspectos. Em primeiro lugar, a paz interior do homem, do íntimo de uma alma. E em segundo lugar, a paz no ordem exterior dos homens.

O que é que significa propriamente a paz interior?

Como nós sabemos bem, todas as palavras atinentes a assuntos espirituais, ou quase todas as palavras e quase todos os conceitos atinentes a assuntos espirituais de piedade, a partir de uns duzentos anos para cá, pelo menos, foram objeto de uma torção. E antes de nós analisarmos bem o que uma coisa é, neste terreno, nós devemos antes ver o que é que se diz, analisarmos o que é isto, e depois mostrar que a coisa não é.

O que é que seria a paz interior segundo a expressão, o segundo sentido corrente desta expressão, em certos meios piedosos católicos, etc.?

A paz interior seria constante de dois elementos.

Em primeiro lugar, a pessoa não tem tentação nenhuma. E não tem nenhuma luta interior contra a qual deve oferecer uma resistência. Tem uma vida espiritual tranqüila, distendida, agradável e que não há problemas, em que a pessoa vai se elevando como num helicóptero, sem mais esforço. Não como o helicóptero, [que] sempre faz um certo esforço, mas como o homem que está sentado dentro de helicóptero, fazendo assim, não é? Quer dizer, vai subindo, chega ao céu, alcançou o céu então com toda a paz. Quer dizer, ele não teve nem luta na terra, ele não teve dificuldade nenhuma na terra.

Esta seria a primeira idéia de paz interior.

Ligado a isto, nada de cruz, nada de sofrimento. A pessoa não tem nada que lhe aborreça, não tem, por exemplo, angústia a respeito de doença, a respeito de dinheiro, a respeito de problemas de família. A respeito da Igreja Católica então nem se fala, nem passa pela cabeça ter angústia a respeito da Igreja Católica. A pessoa está inteiramente distendida e tranqüila. Está tudo bem organizadinho, de maneira que não tem no interior da alma nem a luta com os problemas internos nem a luta com os problemas externos.

Esta é a paz segundo o conceito corrente.

* Entende-se hoje a paz de um país, não como fruto da justiça, mas da prosperidade e tranqüilidade econômica* Entende‑se hoje a paz de um pas no como fruto da justia, mas da prosperidade e tranqilidade econmica

Bem, o que é que é a paz de um país?

A paz de um país, Pio XII definia: a obra da justiça é a paz. Segundo o conceito corrente hoje, a obra da prosperidade é a paz. Não é a obra da justiça, não é a obra da virtude, mas é a obra da prosperidade. Antes de tudo, no começo não era o Verbo; no começo era o dólar. Então, antes de tudo, é a tranqüilidade econômica. Está tudo bem arranjadinho, todo mundo come bem, o operariado tem uma aposentadoria e pensão e não sei-mais-o-quê, tem um automóvel, a classe média tem um pouco mais do que isto, há uns ricos que vão acabar logo que ainda têm um pouco mais do que a classe média, mas tudo está em paz, tudo está comendo bem, bebendo bem, dormindo bem e tratando bem da saúde, não há briga por causa disto, e está todo o mundo alegre, então há paz no país.

O que é a paz internacional? Quando todos os povos são assim, deixa de haver cachorros bravos na ordem internacional. Nenhum país agride o outro e todo o mundo leva a sua vidinha tranqüila. E isto seria paz.

* Nessa ótica, Nossa Senhora Rainha da Paz seria a que não teve angústias, dores, sofrimentos ou problemas

Então, o que é que seria Nossa Senhora Rainha da Paz? Seria o seguinte: Nossa Senhora enquanto protetora para conseguir para os homens a paz e enquanto modelo da pessoa que nunca teve estas coisas na vida, que nunca teve provações, que nunca teve angústias, que nunca teve tentações. Ela até foi concebida sem pecado original, como é que poderia ter tido tentações? Então nunca teve tentações e viveu a vida inteira sempre uma vida muito calma. Ela teve um Filho muito bom, Ela tinha um marido muito bom, vivia numa cidadezinha pequena chamada Nazaré, onde não tinha encrencas de nenhuma espécie, então Ela vivia muito desanuviada, muito tranqüila. O Filho, a certa altura, realmente sofreu e Ela teve um certo desgosto com aquilo, uma coisa que durou alguns dias da Paixão. Foi um mau passo, mas logo depois Ela se resignou. Também Ele subiu aos céus, Ela O viu subir aos céus, alegre viu que o Filho estava bem colocado. Então, acabaram-se os problemas. Ela passou o resto da vida tranqüila, e aqui está Nossa Senhora Rainha da Paz.

Então ali está Nossa Senhora da Paz e aqui estou eu louco para ter paz, não é? Está feita a devoção a Nossa Senhora da Paz.

Em duas palavras, é este o conceito de Nossa Senhora da Paz. É um pouco daquilo que nós chamamos, segundo uma metáfora polemicamente inventada pelo Prof. Fernando Furquim de Almeida contra um dos nossos amigos, a Rua Falcão Ferraz. É uma rua que eu conheço pouco, mas que ele conheceu muito porque ele morava lá perto, uma rua perto dos Capuchinhos, e que parece que é tudo assim: uma sucessão de casas, com tudo bem arranjadinho, a ruazinha, todo o mundo piedozinho ali dentro, as meninas com papillote tocando piano de manhã, os homens voltando do emprego contentinhos, trazendo chuchu para comer em casa, alegres, desanuviados, tudo de matéria plástica, não é? Tudo sem problemas, não é?

É a paz que é o ideal desta gente quando fala de Nossa Senhora da Paz.

* Certa iconografia alimenta esse conceito: Nossa Senhora não esmaga o demônio, mas pisa-o por acaso* Certa iconografia alimenta esse conceito: Nossa Senhora no esmaga o demnio, mas pisa‑o por acaso

Agora, nós devemos considerar como é que foi a paz de Nossa Senhora. Depois nós devemos considerar o que é que é então a tal paz de que se fala, e como é que a paz é para nós. Mas isto deve feito o mais rapidamente possível, para evitar que os comentários dos Santos do Dia se transformem em pequenas conferências, o que está contra a ordem das coisas.

Então, em duas palavras, o que é que foi a paz de Nossa Senhora?

O precônio, o primeiro anúncio que nós temos de Nossa Senhora é d’Ela lutando, é esmagando a cabeça da serpente. As imagens nos apresentam isto de um modo que não nos dá bem a idéia da coisa. Não é que [seja] mau apresentar assim, é bom apresentar assim, mas é que, à força de apresentar só assim, nós ficamos com uma idéia um pouco unilateral das coisas.

Eu tenho, por exemplo, uma imagem assim — do tempo do Império, mais ou menos, não é muito antiga — representando a Imaculada Conceição. D. Mayer e Paulo conhecem essa imagem. Nossa Senhora está rodeada de anjos, resplendendo de alegria, olhando para o céu e com o Menino Jesus aqui, mas cheia de alegria, e por acaso está uma serpente aos pés d’Ela. De maneira que a gente tem a impressão que Ela nem notou a existência daquela serpente. Entre Ela e a serpente há que Ela não está lutando contra a serpente, é como se Ela tivesse andado e de repente pisado na serpente sem perceber. A serpente percebe, isto é verdade.

Meu avô, que era um liberal tremendo, arrancou a serpente da imagem porque disse que não valia a pena estar olhando para o demônio. Mas naturalmente é porque ele não gostava de [o] ver esmagado. Era um demônio esculpido por uma portuguesa; a gente vê que está bem triturado realmente.

Quer dizer, a cara da serpente é de quem sentiu. Mas a d’Ela não. De maneira que a serpente está com raiva, está lutando contra Ela, mas Ela não está lutando contra a serpente. Não há uma interação; Ela está pensando em outra coisa.

O pensamento posto nisto é muito nobre. Quer dizer, a serpente é uma coisa tão secundária, de tal maneira impera a idéia da glória de Deus, o império d’Ela é tal, que para Ela pisar na serpente é como o nada, é como a coisa mais insignificante.

A idéia é muito nobre, mas não apresenta o ódio d’Ela à serpente e o espírito de luta da Rainha da Paz. E por causa disso, isto nos confunde um pouco as idéias.

* Não é uma Rainha da Paz sem luta, mas há inimizades entre Ela com sua raça e o demônio com a dele — Exemplo: Lepanto

Na realidade, está escrito que Deus poria inimizade entre Nosso Senhor, que é a raça de Maria, e a raça da serpente. Quer dizer, poria inimizade entre Nossa Senhora e a serpente. Mas porque há inimizade entre as raças, há entre elas. Isto, aliás, está escrito: “Porei inimizades entre ti e Ela, tua raça e a raça d’Ela”. Quer dizer, há uma atitude fundamental de inimizade e de guerra da Rainha da Paz, atitude de inimizade e de guerra que não entra na nossa concepção quando nós observamos certas imagens.

Entretanto, desta Rainha da Paz a Escritura também diz que Ela sozinha esmagou todas as heresias, de maneira que todas as lutas que vão ser travadas pela Igreja em toda a história contra os hereges, estas lutas são travadas antes de tudo e são vencidas pela Rainha da Paz.

Então, que paz é esta? Se esta paz fosse simplesmente a ausência da luta, como é que seria Ela a Rainha da Paz?

Em quase todos os grandes episódios da vida da Igreja nós vemos Nossa Senhora intervir para lutar e para ganhar as guerras para nós. Não preciso falar outra coisa a não ser de Nossa Senhora de Lepanto, ou então, aqui no Brasil, de Nossa Senhora dos Guararapes, para nós compreendermos o papel da constante intervenção na luta da Igreja contra os infiéis que Nossa Senhora assume. Então, mais uma vez, a gente poderia perguntar que paz é esta.

De outro lado, se ter paz é não sofrer, se ter paz é não ter angústia, como é que se pode explicar que Nossa Senhora tenha sofrido de tal modo que Simeão já disse que um gládio transpassaria Ela, um gládio de dor? E depois Ela sofreu aquele dilúvio de dores por ocasião da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.

* Ela acompanhou seu Filho na luta e no sofrimento e povos verdadeiramente devotos d’Ela são combativos

A gente pode imaginar Nossa Senhora, que viu a impopularidade de Nosso Senhor ir crescendo, Nossa Senhora que viu o ódio que se articulava contra Ele, Nossa Senhora que certamente ouviu d’Ele — porque se Ele disse aos Apóstolos, deve ter dito também a Ela — que Ele ia sofrer, que Ele ia morrer, etc., a resignação d’Ela, a permanência d’Ela até o último momento, até o consummatum est . Depois, como Ela O acompanhou até a sepultura. Quer dizer, tudo o mais, Nossa Senhora numa atitude de luta e de sofrimento. Ainda que fosse preciso sofrer aquilo tudo, Ela quereria, por causa dos homens, para salvar os homens, para esmagar o demônio, e para vencer da morte, etc.

A resignação enorme no sofrimento.

Então, se ter paz é não sofrer, e é levar uma vida gostosinha, como é que Nossa Senhora pode ter sido Rainha da Paz? A gente vê [que] há nisso uma verdadeira aberração.

Depois também falar a respeito dos tempos de paz. Quer dizer, que no mundo Nossa Senhora promove a paz. Se a paz é a ausência de luta, há nisto uma verdadeira aberração. Porque notem uma constante muito bonita na história da Igreja: os povos devotos de Nossa Senhora são povos combativos e combatem pela causa da Igreja. Onde a devoção a Nossa Senhora começa a se sentimentalizar, onde ela perde o seu conteúdo para tomar o aspecto daquelas falsas devoções de que nos fala São Luís Grignion de Montfort, ou então nos povos que perdem a devoção a Nossa Senhora, o senso do combate pelo bem desaparece.

Quer dizer, onde Nossa Senhora está, está a luta. Onde a devoção a Nossa Senhora está, está a guerra.

* Só possui a paz quem quer a ordem a todo custo, dentro dos maiores sofrimentos, como Nosso Senhor no Horto

Agora, a gente pergunta: sendo assim, como é que Nossa Senhora é Rainha da Paz, se o espírito d’Ela nos leva à guerra? A gente está vendo que leva a guerra ao mundo, às instituições, na guerra contra o mal. A gente está vendo que tudo isto está mal concebido.

Então, o que é que é a paz?

A paz — já isto tem sido dito mil vezes — é a tranqüilidade da ordem. Quer dizer, quando uma alma está em ordem, quando ela tem um firme propósito de se manter na ordem, custe o que custar, por maiores que sejam as dificuldades e as angústias que ela tenha que enfrentar, ali ela tem a paz. E esta paz existe mesmo nas piores perturbações.

Nosso Senhor Jesus Cristo, no Horto das Oliveiras, não perdeu a paz nem perdeu a alegria, como diz São Francisco de Sales, na fina ponta de sua alma porque Ele estava disposto continuamente a cumprir o seu dever.

Nossa Senhora não perdeu a paz nem mesmo no Calvário porque Ela tinha a tranqüilidade da ordem e o espírito em ordem cumprindo o seu dever.

Então, o que é que vem a ser a paz?

É a ordem das coisas ou a situação em que a ordem vence e ela incute ali, quer interna, quer externamente, a sua tranqüilidade própria, no meio de uma porção de lutas. No meio de uma porção de dificuldades, no meio de uma porção de sofrimentos, a paz impera, a paz se afirma, e ela é tanto mais clara quanto mais são as dificuldades em face das quais ela tem que se afirmar. É aqui que nós temos verdadeiramente a paz: é aquilo que está em ordem e que no meio de todas dificuldades se mantém firme, resoluta e tranqüila, na ordem em que é … [inaudível].

Isto se pode dizer dos povos, isto se pode dizer das instituições, isto se pode dizer também das almas e da vida espiritual das almas.

* Pedir a Nossa Senhora a paz de fundo de alma, ainda que na “amargura muito amarga”

Os senhores compreendem bem que este conceito de paz é inteiramente diverso da paz irenística, da paz… digamos a palavra dos que abusam do movimento ecumênico gostam de tomar e que é uma paz de confusão e desordem. Esta não é a verdadeira paz. Isto é o contrário da paz.

Por isto mesmo é que se aplica a Nosso Senhor, mas eu também já havia aplicado a Nossa Senhora — Nosso Senhor, durante a Sua Paixão, depois a Nossa Senhora — estas palavras que estão no Antigo Testamento: “Eis na paz a minha amargura muito amarga”. Então, o auge da amargura, um amargo amarguíssimo, na mesma amargura, a paz.

Eu não cometeria de modo algum o exagero de dizer que a gente não deve apreciar as épocas de tranqüilidade, em que Nosso Senhor permite no momento que não tenhamos sofrimento, que não tenhamos luta, que não se deve pedir isto a Ele, eu estou longe de dizer isto. Nós podemos e devemos apreciar que a misericórdia divina nos consiga e nos conceda épocas de respiração na vida, em que a gente de fato não tem luta ou não tem sofrimento. Mas nós não devemos fazer disto o ideal da paz. Isto são momentos de consolação, momentos de distensão, como Nosso Senhor tinha em casa de Lázaro, de Maria e de Marta, mas não são os momentos de verdadeira paz. A verdadeira paz está nesta tranqüilidade da ordem.

É, portanto, assim que nós devemos rezar a Nossa Senhora da Paz.

Bem, para tirar daqui uma conclusão concreta, o que é que nós devemos pedir a Nossa Senhora quando nós estamos diante desta invocação?

É que Ela nos dê o conceito verdadeiro de paz bem vivo na alma, o amor da paz verdadeira, que é simplesmente a tranqüilidade da ordem, e não a ausência da dor e nem a ausência da luta. Embora se nós estivéssemos muito opressos, nós possamos pedir a Nossa Senhora que dê complementarmente, com a paz interior fundada na ordem, alguma tranqüilidade, alguma distensão, decorrentes de circunstâncias propícias a esta ordem e que nos faça respirar um pouco na vida.

É este o comentário que se poderia fazer da devoção a Nossa Senhora da Paz. Isto posto, eu pediria a Vossa Excelência que encerrasse a reunião.

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