Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 30/6/1964 – 3ª feira [SD 185] – p. 3 de 3

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 30/6/1964 — 3ª feira [SD 185]

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Quem está aos pés da cruz encontra Nossa Senhora * São Pedro tinha uma forte chama de amor, entregando-se completamente sem rodeios * A exemplo de São Pedro, vencer o medo do riso, nunca ser poltrão

* Quem está aos pés da cruz encontra Nossa Senhora

Hoje em dia bate-se muito na tecla de que São João era o Apóstolo querido de Nosso Senhor, chegando-se, por outro lado, a um esquecimento quase completo dos demais Apóstolos. Com isto acaba-se tendo uma visão unilateral, e portanto falsa, do Colégio Apostólico.

No que se refere a São Pedro, por exemplo, é ele em geral apresentado tão desfigurado, que quase se chega a ter a impressão de que foi constituído chefe da Igreja para não ficar com nó. Até parece que quando Nosso Senhor conversava com São João e São Pedro chegava, era como se chegasse alguém que ia atrapalhar o colóquio.

Quão falsa é esta ideia! Quão diferente a realidade! Há inclusive quem defenda que se São Pedro estivesse aos pés da Cruz, Nossa Senhora teria sido confiada a ele. Nosso Senhor teria confiado sua Mãe Santíssima a São João por ser o único que ficara junto à Cruz.

E aqui é bom considerar a glória de São João por ter sido fiel no momento da dor. Devemos daqui tirar a lição de que quem está aos pés da Cruz encontra Nossa Senhora. Stabat Mater Dolorosa juxta crucem Domini.

* São Pedro tinha uma forte chama de amor, entregando-se completamente sem rodeios

Pois bem, quem era São Pedro?

O chefe dos Apóstolos bem pode ser caracterizado por aquela cena que sucedeu à Santa Ceia. Nosso Senhor dirigiu-se a ele para lavar-lhe os pés, ao que São Pedro replica: “Não me lavarás jamais os pés”. À resposta do Divino Mestre de que se ele não permitisse isso, não teria parte com Nosso Senhor, o chefe dos apóstolos diz: “Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça”.

Aqui temos bem delineada a figura de São Pedro. Quando se trata de ser parte de Nosso Senhor, ele a quer ter por inteiro, totalmente. Não se contenta com coisas feitas pela metade, mas quer entregar-se completamente e sem rodeios.

Vemos nessa cena algo que é constante em toda a sua vida e que é uma chama de amor muito forte e muito viva. Porém, [não] era uma chama desordenada. Pelo contrário, ela era a manifestação de quem sabia o que queria, e queria-o inteiramente, completamente, até os extremos. Não era uma manifestação esporádica de quem faz as coisas num impulso momentâneo, mas era fruto de toda uma concepção fundamentada, em última análise, no amor de Deus.

O amor leva a extremos e São Pedro, porque muito amava, ia até os extremos.

Na própria discussão que teve com São Paulo, vê-se São Pedro indo até os extremos. É verdade que aqui tínhamos um extremismo mal-entendido, tanto assim que se deixou corrigir por São Paulo, mas o que ele queria é que também a lei judaica fosse integralmente praticada, em todos os seus ritos. São Pedro não gostava das coisas feitas pela metade; se era para fazer, então devia-se fazer tudo, até o fim.

Depois de Pentecostes, já confirmado em graça, teve São Pedro seu vício capital muito atenuado, e aí, então, sua chama subiu mais e subiu compacta, ordenada. Nada tinha ela de chama bruxuleante que muitas vezes se vê em alguma pira, indo para onde a leva o vento e quase a apagar-se. Pelo contrário, a chama de São Pedro era firme e cheia, porque estava baseada no conhecimento e no amor dos princípios.

Devido a tudo isto, São Pedro era corajoso, disposto a tudo enfrentar em defesa daquilo que ele amava.

* A exemplo de São Pedro, vencer o medo do riso, nunca ser poltrão

Qual era, no entanto, seu vício capital?

Era justamente o vício oposto a todas as suas virtudes, o vício do poltrão, daquele que foi ridicularizado por uma doméstica, negou a Nosso Senhor.

E este pecado, o príncipe dos Apóstolos, chorou durante toda a sua vida. Até o último instante ele se lembrava de sua negação e chorava, a tal ponto que, diz a tradição, dois sulcos se formaram em seu rosto, de tanto correr as lágrimas. Assim, no fim de sua vida, cheia de santidade, cheia de sofrimentos, lembrava-se de seu pecado e chorava.

Pois bem, há aqui uma lição para nós.

Há soldados que vão à guerra por medo de um riso, para não cair no ridículo. Não há nada que assuste mais os poltrões do que serem ridicularizados. Tendo que escolher entre os abusos de um lado o um riso do outro, preferem enfrentar os abusos. Não sejamos nós como essas poltrões, mas enfrentemos o riso toda vez que se fizer necessário, para a causa de Deus.

Disto tudo duas idéias fundamentais devem ficar: de um lado a Cruz, aos pés da qual encontramos Nossa Senhora, e de outro necessidade de enfrentar o riso.

Quantas vezes não temos medo de que se riam de nós, de que digam que somos teóricos, fora da realidade? Quantas vezes somos tentados a negar o Grupo para não cair no ridículo?

Pois bem, devemos pedir a São Pedro e a Nossa Senhora que nos dêem forças para enfrentar o riso, para que, nesses momentos, saibamos sofrer o ridículo por amor a Deus.

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