Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 24/6/1964 – 4ª feira [SD 280] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 24/6/1964 — 4ª feira [SD 280]

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São João Batista, protótipo dos apóstolos dos últimos tempos * Profeta que invectiva os erros da época * Pregação polêmica da penitência enquanto mudança de mentalidade * Humilde e modelo do verdadeiro devoto de Maria * Pedir, como ele, que Nosso Senhor cresça e eu diminua e seja totalmente fiel à voz de Nossa Senhora

* São João Batista, protótipo dos apóstolos dos últimos tempos

Hoje é a festa da natividade de São João Batista.

Sobre São João Batista, seria interessante procurar em sua vida os traços que o caracterizam como perfeito apóstolo dos últimos tempos de São Luís Grignion de Montfort. Não porque aqueles fossem os últimos tempos, mas porque eram últimos tempos de uma determinada era.

São João Batista foi a pessoa enviada por Deus para aplainar os caminhos do Senhor, para preparar a vinda de Jesus Cristo e atuar no fim dos tempos que precediam a vinda do Messias. Os apóstolos dos últimos tempos também devem preparar a vinda do Senhor, eles também devem lutar para preparar a segunda vinda do Messias. Há um paralelismo entre São João Batista e eles, como também há um paralelismo entre a primeira e a segunda vinda do Messias.

Esse paralelismo é muito claro no Evangelho, quando Nosso Senhor fala nas duas quedas de Jerusalém. Fala primeiro da ruína do Templo de Jerusalém, como a ruína do templo material de Jerusalém, mas depois fala da ruína do Templo como sendo o fim do mundo, do qual o Templo de Jerusalém é uma prefigura.

Há duas quedas de Jerusalém, há duas vindas de Jesus Cristo, há dois enviados que vêm para preparar as vias de Jesus Cristo. Na primeira vez foi São João Batista, na segunda vez será o Profeta Elias, que é o precursor próximo de Jesus Cristo. Assim como Elias é o protótipo do apóstolo dos últimos tempos, é o mais saliente, o mais glorioso de todos eles, é o seu paradigma, assim também São João Batista é a mesma coisa: o protótipo do apóstolo dos últimos tempos.

* Profeta que invectiva os erros da época

Quando tomamos aquela Oração Abrasada de São Luís Grignion, em que ele faz a descrição do apóstolo dos últimos tempos, compreende-se melhor a psicologia de São João Batista. Quando ele fala daquele que sai dizendo: “Cuidado! Estão queimando a casa de meu irmão, estão matando meu Pai, fogo, pega fogo por toda parte”, etc., isto é uma visão muito realista — que os laranjas diriam pessimista — da situação no tempo deles, apóstolos dos últimos tempos.

Encontramos a mesma coisa em São João Batista. Um profeta que aparece e que pinta a situação moral de seu tempo com tudo que tinha de ruim. Ele não receia de dizer aos fariseus e escribas a verdade. Ele não receia censurar ao povo judaico a degradação em que esse povo tinha caído. Não receia dizer ao próprio Herodes o mal que ele tinha feito e por causa disso morre vítima de Herodes. É um homem que cumpre o seu dever — tão diferente da heresia branca — de dizer a verdade por inteiro, completamente, e com todo destemor, e que morre nesse serviço.

* Pregação polêmica da penitência enquanto mudança de mentalidade

Por outro lado, o caráter polêmico da missão.

Vê-se, pela descrição da Oração Abrasada, que os apóstolos dos últimos tempos serão homens de luta, homens polêmicos. E São João Batista foi, durante o tempo inteiro de sua vida, um homem polêmico e um homem de luta. Sua vida não foi senão uma longa polêmica para proclamar e preparar as vias de Nosso Senhor … [inaudível]… ocasião de ler aquele trecho do … [inaudível]… em que ele comenta a mensagem de São João Batista aos homens, e mostra que quando São João Batista dizia: “Fazei penitência!”, o que ele entendia — a palavra grega usada era “metanóia”, isto é, mudança de mentalidade: “Fazei uma mudança de mentalidade, se não vós não vos salvareis”. O que ele queria era uma mudança de espírito.

Ora, é bem o que quer o apóstolo dos últimos tempos: essa metanóia profunda, essa transformação profunda, que não é apenas fazer penitência numa coisinha ou noutra, ou melhorar numa coisinha ou noutra, mas é tomar o cerne da mentalidade e mudá-la pelo avesso, que é o que São João Batista pedia.

É o que os apóstolos dos últimos tempos pedirão aos homens e é por isso que serão rejeitados, perseguidos, mas os tormentos serão abreviados.

* Humilde e modelo do verdadeiro devoto de Maria

Ao lado disso, vemos a humildade.

São João Batista via os defeitos dos homens profundamente como eram. Tinha uma noção completa da gravidade do pecado original. Nada, nele, dessa espécie de otimismo insípido com relação à natureza humana, que é inerente ao … [inaudível]… e às fraquezas da heresia branca. Ele dava nome aos bois porque via que os bois eram bois.

E a gente julga ver São João Batista quando se vê São Luís Grignion de Montfort dizer que os homens são mais vaidosos do que sapos, ferozes do que tigres, falsos do que serpentes, etc., e descrever o que é o homem pelo pecado original completamente. Julga-se ouvir São João Batista.

Perguntarão agora os senhores: “Mas onde está a nota mariana em São João Batista? Onde a presença de Nossa Senhora em sua pregação?”.

Nossa Senhora deveria se manifestar à Igreja apenas mais tarde. Ela começou a se manifestar por ocasião da vida pública de Nosso Senhor, mas segundo diz Catarina Emmerich, sua ação passou a se tornar mais intensa, mais sensível na Igreja, quando Nosso Senhor subiu ao Céu e aí Ela ficou para presidir os destinos da Igreja. Não cabia a São João Batista ainda manifestar diretamente Nossa Senhora em sua pregação. Mas nela havia algo de Nossa Senhora muito importante.

Quando Nossa Senhora foi visitar Santa Isabel, ouvindo a voz de Nossa Senhora, ele que fora purificado do pecado original logo ao nascer, Santa Isabel ao ser saudada disse: “Meu filho, dentro de meu próprio seio, estremeceu de gáudio”. É uma alma tão ardentemente mariana, que com as palavras de Nossa Senhora, ainda no seio materno, prestou a Nossa Senhora um ato de devoção intensíssimo. E a voz d’Ela, como sendo uma voz precursora da voz do Cordeiro de Deus que ele devia anunciar, fez com que ele estremecesse inteiramente de gáudio.

Portanto, é o apóstolo, o discípulo fiel, o devoto perfeito de Nossa Senhora que ouve a voz de Nossa Senhora e nela discerne os primeiros ecos da voz de Nosso Senhor e que com a voz d’Ela estremece inteiramente de gáudio.

Compreendem que o gáudio que ele teve, deve-lhe ter permanecido a vida inteira. Aquela consolação espiritual tendo ouvido a voz de Nossa Senhora. E sendo ele parente de Nossa Senhora, é provável que em menino tenha privado com Nossa Senhora, tenha conhecido Nossa Senhora, e que sempre que lhe ouvisse a voz, estremecesse de um gáudio, que era a continuação do gáudio que sentiu quando ouviu a voz d’Ela.

Devemos, portanto, venerar em São João Batista o modelo de todos os nossos ideais: modelo do verdadeiro e perfeito devoto de Nossa Senhora, do verdadeiro e perfeito devoto de Nosso Senhor.

* Pedir, como ele, que Nosso Senhor cresça e eu diminua e seja totalmente fiel à voz de Nossa Senhora

Humilde em relação a Nosso Senhor, como se deve ser, a ponto de dizer que não era digno de desatar as sandálias de Nosso Senhor. E aquela expressão magnífica dele com relação a Nosso Senhor, expressão pura [do] contrário da megalice: “A Ele compete crescer e, a mim, João Batista, compete diminuir”. Porque ele não era feito senão para anunciar o Messias que vinha. Uma vez que o Cordeiro de Deus tinha chegado e que o Messias estava pregando aos homens, a sua profecia estava cumprida, e ele ia declinando para o martírio, enquanto Nosso Senhor ia subir e realizar sua missão na História.

Vejam a admirável humildade de tudo isso, o apagamento, não querer aparecer, não querer estar nas horas de triunfo. Ele vai até o martírio, mas seu nome sobe aos Céus numa glória enorme, a sua alma depois é venerada por toda a Cristandade até o fim dos séculos.

Vamos pedir a São João Batista que nos dê todas essas disposições. Faça-nos perfeitos devotos de Nossa Senhora. Sobretudo, o seguinte: que tenhamos em nossa alma um ouvido interior por onde, quando ouvirmos a voz de Nossa Senhora, estremeçamos de gáudio também. Que nunca um pedido de Nossa Senhora nos encontre de má vontade, tristes, aborrecidos, com desejo de não atendê-La. Mas que toda palavra que Ela nos diga dentro da alma, pela graça, seja uma palavra que nos faça estremecer de alegria, até quando for uma palavra austera, até quando for uma palavra de renúncia, de sacrifício e sofrimento, com a alegria que Nosso Senhor conservou na alma no Horto das Oliveiras, para dizer sempre “sim” a Nossa Senhora.

Esta é a graça essencial que devemos pedir hoje a São João Batista.

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