Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 22/6/1964 – 2ª feira [SD 324] – p. 4 de 4

Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 22/6/1964 — 2ª feira [SD 324]

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[Talvez a data esteja errada, pois o dia de Santa Maria Madalena é 22 de julho.]

O exemplo de Santa Madalena: o suco do espírito de penitência é acusar-se com imparcialidade inexorável * Prece da alma de fato arrependida, que desconfia de si * Examinar a culpa e não as atenuantes * É preciso chorar o pecado a vida inteira, não basta uma “confissãozinha” * Vigilância especial no tocante à pureza e tibieza * Arrepender com confiança e calma, mas com seriedade, e ver nossa responsabilidade sem temor

* O exemplo de Santa Madalena: o suco do espírito de penitência é acusar-se com imparcialidade inexorável

Esta santa me sugere exatamente o tema da penitência, mas não no sentido da penitência de privações e práticas de sacrifícios, etc. É claro que isto também é um tema muito bom, mas quero considerar uma outra coisa que é o suco ou substância do espírito de penitência.

D. Mayer e Frei Jerônimo me disseram que uma das coisas mais difíceis hoje é conseguir que as pessoas que se dirigem ao sacramento da Penitência, realmente, de fato, peçam perdão de seus pecados. As pessoas vão acusar-se de seus pecados, mas já vão com defesa. Alegam milhares de coisas, descarregando o pecado numa outra pessoa, numa outra circunstância, numa situação qualquer que iria justificar a ação, ou então acabam numa formulação pela qual o culpado do pecado seria Deus Padre: “Cometi tal pecado, mas não tive forças, a tentação era grande demais, não pude resistir à solicitude do pecado”. A narração toda do pecado é feita para, em última análise, tanto quanto possível, descartar-se a responsabilidade por cima dos outros.

Isto confere muito com o modo pelo qual os caipiras, como contou D. Mayer, dirigem-se à confissão. D. Mayer chega ao confessionário e pergunta:

O senhor quer acusar-se de seus pecados, ou prefere que eu pergunte?

A resposta é:

Senhor Bispo, o senhor ataca, que eu me defendo.

A confissão é até concebida no primarismo dessas pessoas que deixam escapar seu subconsciente — mas também no subconsciente de muita gente não primária — mais como uma defesa do que como um ataque.

Eu estou mencionando casos extremos, mas sempre me impressionou aquela fórmula do Confiteor — fala-se tanto em liturgia, está aí uma coisa que é da liturgia: quia pecavi nimis cogitatione verbo et opere, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa, e batendo no peito. Reconhece-se que se teve uma culpa, e uma culpa eminente no pecado que foi cometido.

Qual é, aqui, o espírito de penitência?

O verdadeiro espírito de penitência consiste em termos um olhar claro, reto, firme para nossa própria consciência, e com uma imparcialidade inexorável sabermos ver qual nossa parte de responsabilidade nos atos que cometemos, tendo em consideração que a graça de Deus nunca abandona ninguém e que aquilo que fizemos, tivemos a graça para não ter feito, e o que fizemos foi por nossa inteira culpa, éramos livres para não fazer.

* Prece da alma de fato arrependida, que desconfia de si

Compreendo que certas coisas possam ter uma circunstância a mais, compreendo que outro dado possa ter constituído uma atenuante. Sem embargo de tudo isso, uma coisa fica: eu poderia não ter feito e fiz, eu poderia não ter praticado a ação criminosa, pecaminosa e pratiquei, poderia não ter omitido tal coisa e omiti. Por ação ou por omissão, eu fiz, e sobre mim recai em cheio a responsabilidade daquilo que realmente fiz. E como sei que sou uma criatura humana concebida no pecado original e que, portanto, tenho em relação a mim mesmo todas as molezas do homem que não quer se corrigir e todas as suspeições do homem com amor próprio, vaidoso, que não quer reconhecer seus pecados, preciso ter um olho carregado por cima de mim mesmo, e preciso olhar-me com suma desconfiança. O ente com relação ao qual preciso ser mais desconfiado é comigo mesmo. Com relação a mim mesmo, preciso ser mais desconfiado que em relação ao pior comunista, ao maior celerado, porque a Deus tenho que dar contas, antes de tudo, de mim mesmo.

Preciso olhar para mim e olhar com essa imparcialidade inexorável, com essa desconfiança meticulosa de todos os momentos, compreendendo que se não tiver em consideração a tara do pecado original que existe em mim, eu não me salvarei.

* Examinar a culpa e não as atenuantes

E quando um de nós tiver a infelicidade de cometer um pecado, tem que olhar sobretudo para a culpa que teve, e não para as atenuantes que teve, tem que procurar a raiz, tem que procurar lembrar-se do debate livre que travou em sua própria consciência, tem que lembrar-se do número de vezes em que fechou os olhos para a tentação que vinha e não quis ver, não quis evitar, não quis tomar as precauções necessárias e por isso pecou. E devemos nos apresentar ao tribunal da penitência com essa imparcialidade, com essa franqueza: eu pequei por minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa.

Não adiante constatar que somente cometi pecados veniais. É verdade que mil pecados veniais somados não podem dar um pecado mortal, mas sabemos que o pecado venial prepara o caminho para o pecado mortal, e que de algum modo — é claro que somente de algum modo — os pecados cometidos pelas almas que Deus ama, O ofendem mais que os pecados mortais cometidos pelos pecadores.

Numa revelação célebre, Nosso Senhor apareceu e disse que a chaga que tinha na mão direita era a chaga ocasionada pelas faltas veniais das almas que O amavam.

Se eu quero verdadeiramente ser santo, se quero deixar a tibieza, se quero ser uma alma que não tem pecado nenhum, porque ser santo é isso, devo ter pesar, e um pesar sincero, pesar efetivo pelos meus pecados.

* É preciso chorar o pecado a vida inteira, não basta uma “confissãozinha”

Não conheço fórmula mais esplêndida de arrependimento após a penitência, do que os Sete Salmos penitenciais. São os Salmos de David que, depois de ter pecado, caiu na desgraça, foi perseguido: “Tende piedade de mim, Senhor, segundo a tua grande misericórdia, e segundo a multidão de vossas compaixões, apagai as minhas iniqüidades, porque eu pequei só diante de Vós e o meu pecado contra mim se levanta continuamente”, etc.

Aí vemos uma alma séria, que olha o pecado e a virtude com seriedade, que é capaz de se arrepender seriamente do pecado que cometeu, que é capaz de chorá-los seriamente. E quando a gente chora seriamente o pecado, quando se tem um verdadeiro pesar do pecado que cometeu, não é uma confissãozinha qualquer e depois acabou tudo. É preciso chorar aquele pecado a vida inteira. E a verdade é que quanto mais a gente vai subindo, tanto mais se deve chorar o pecado cometido.

É o caso de Santa Maria Madalena, nossa santa de hoje. Os senhores sabem que ela foi por excelência pecadora. Sabemos bem até que ponto ela chorou o pecado que cometeu. Depois de ter abandonado tudo por Nosso Senhor, depois de ter privado com Nossa Senhora, depois de ter tido a glória excelsa de receber Nosso Senhor em sua casa, depois de ter tido a glória que não tem palavras, de ter estado ao pé da cruz no momento da morte e sepultamento de Nosso Senhor, depois de ter visto Nosso Senhor ressurrecto, esse pecado ela chorou até o fim de sua vida.

Quanto maior a virtude, maior a tristeza de ter ofendido a Deus.

Assim também São Pedro. São Pedro negou Nosso Senhor três vezes. Contam as tradições que até o fim de sua vida chorou a sua negação, e que em suas faces haviam sulcos que as lágrimas abriram porque freqüentemente ele chorava de novo.

Não podemos pensar que com uma confissão liquidamos nossos pecados e isto, como bagatela, fica para trás. Devemos lembrar que esse pecado a gente carrega, que é natural que Deus nos persiga e nos castigue por causa de nossos pecados, e é bom que seja nesta vida e não na outra. E devemos manter em face desses pecados uma atitude contrita.

* Vigilância especial no tocante à pureza e tibieza

Haveria algum pecado que eu devesse enunciar mais especificamente? Haveriam dois.

O problema perpétuo do pecado contra a pureza. Isto é uma coisa que nunca basta a gente olhar e considerar.

Frei Jerônimo citou uma vez, numa conferência, uma frase de não sei que Doutor da Igreja, que dizia: “Muitos varões santíssimos caíram nesse pecado por causa do excesso de segurança”. A forma que temos de evitar esse pecado é um arrependimento de qualquer venialidade que tenhamos tido a respeito e uma vigilância constante.

Outro pecado que tomo a esmo: o pecado de tibieza. Quando a gente ouve palavras de salvação, ouve palavras de vida e nosso coração está duro para isso. Mas o duro não é o do comunista bigodudo. Esta não é a dureza pior, mas a dureza pior é a do tíbio. Quantas vezes, em nossa vida, ouvimos coisas úteis, quantas vezes ouvimos coisas que nos conduzem à santidade, mas damos de ombros, não damos a necessária atenção, não pensamos, não refletimos, não meditamos, não aproveitamos a palavra que foi dita, e vamos para a frente.

* Arrepender com confiança e calma, mas com seriedade, e ver nossa responsabilidade sem temor

Sei que o que estou dizendo estas noite está meio diferente do tom que adoto. Aqui dentro procuro mais animar do que dizer coisas dessas. Mas de vez em quando é preciso dizer. E é preciso dizer tomando em consideração a infinita misericórdia de Nosso Senhor, especialmente para aqueles que são particularmente filhos de Nossa Senhora.

É claro que Nosso Senhor tem muita misericórdia para nós, mas sabem qual o efeito principal dessa misericórdia? É que Ele tenha a paciência de nos dar o arrependimento que nós não temos.

Devemos nos arrepender com confiança, com calma, mas com seriedade de espírito. E o que devemos pedir a Santa Maria Madalena na noite de hoje é essa seriedade, essa objetividade de espírito diante de nossos pecados, dos pecados passados, para pedir perdão. Dos pecados futuros, para ter medo deles e evitá-los, sem perturbação, sem temor, prontos a nos aproximar cada vez mais de Nosso Senhor com toda a confiança, depois de termos pecado, mas compreendendo bem o que é o pecado. Pedir a Ele que nos dê, pelos rogos de Nossa Senhora, a inteira compreensão, e um espírito de contrição, de mortificação e uma tendência a compreendermos sem exagero, mas com toda firmeza e lucidez, a nossa própria responsabilidade.

Essa é a oração do publicano, que bate no peito, que sabe que está no fundo da igreja porque é um publicano, que não tendo coragem de elevar os olhos a Deus, eleva-os a Nossa Senhora, que é nossa advogada, e por meio d’Ela tudo espera de Deus Nosso Senhor, mas com confiança, com muita força, pede a Nossa Senhora essa coisa excelsa, que é o espírito de penitência.

Vamos pedir esse espírito de penitência para nós e para termos idéia se temos esse espírito de penitência, dou um pequeno teste.

A Escritura diz: “Repreende o sábio e ele te amará. Repreende o homem verdadeiramente penitente, e ele fica contente. Repreende o homem semipenitente, e ele fica semi-aborrecido. Repreende o homem impenitente, e ele se zangará inteiro”.

Façamos este teste conosco:

Numa noite assim um pouco mais puxada como a de hoje, que efeito deixa em nossa alma? Ficamos alegres, ficamos satisfeitos? Então fiquemos satisfeitos. Sentimos um não sei quê esquisito? Eu sei o que é: é a tibieza.

Então, pedir a Nossa Senhora, pedir a Santa Maria Madalena, que nos alcance a remoção dessa tibieza. Quando amarmos a repreensão, então podemos ter certeza de que adquirimos um verdadeiro espírito de penitência.

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