Santo do Dia de Sábado – 13/06/1964 – Sábado – p. 10 de 10

Reunião para o Grupo da Martim 1 — 13/06/1964 — Sábado

[Fita: Anotação 28, feita por E. M. Franco Soares em 9/70]

Nome anterior do arquivo: 640613-2Reuniao_Grupo_da_Martim_Sabado__Sao_Tomas_Dor_4.doc

São Tomás e a dor - IV

Necessidade da presença da dor e do mal no Universo

Alguém terá, por acaso, aquele papel da última vez? Não? Eu, no último comentário, eu fui quase que arrastado pela questão do igualitarismo, porque é engraçado que nesse assunto onde o problema “sofrimento e mal” está tão presente, por uma espécie de concomitância, está presente a questão do igualitarismo. E o igualitarismo é um tema que nos diz de tal maneira respeito e acerca do qual é preciso de tal forma estar continuamente insistindo; depois, a atenção de todos nós já incide naturalmente tanto sobre a questão do igualitarismo que eu achei melhor, à medida eu ia fazendo os comentários, eu via que a atenção dos senhores já ia sendo sugerida, ou suscitada, atraída para a questão do igualitarismo. Eu achei melhor acompanhar o fluxo e fazer comentários sobre o igualitarismo que cabiam inteiramente na reunião. [palavra ilegível] …de fato me afastei um pouquinho daquilo que eu queria tratar e que era o objetivo específico aqui, e era a questão da presença do mal no Universo e depois do sofrimento ligado à presença do mal.

Porque se existe… E eu, então, quero tratar disso agora; achei mais conveniente tratar da questão do mal… [faltam palavras]…de uma vez e tratar da questão do mal agora.

O problema é o seguinte: se existe uma razão para o mal existir no Universo, então existe uma razão para o sofrimento. Ambas as coisas são conjugadas. Se há uma razão para haver a dor, se uma razão para haver até o pecado, então, como a dor e o pecado, ou são o próprio mal ou são causa do mal, e cada um a seu título é mal e causa do mal, então eles têm uma razão de ser também dentro dessa ordem do Universo. Essa razão de ser nós devemos considerar melhor para nós nos habituarmos mais a uma posição diferente dessa idéia corrente hoje em dia de que sempre que acontece o mal a alguém, sob qualquer aspecto, acontece um contratempo, acontece um infortúnio, acontece qualquer coisa, aquilo é um desastre; que o normal da vida é que essas coisas nunca aconteçam e que o homem deve se considerar uma espécie de vítima inocente da justiça divina quando acontece algo…

Cada vez mais essa idéia entra, sob a forma do americanismo, dentro dos espíritos. Os senhores vêem que essa idéia é uma substância, um dos elementos substanciais do americanismo. [faltam palavras] …inconscientemente o papel do otimismo nas nossas “vivências”. A graça da vida, o atrativo da vida, a alegria da vida é que é uma luta e melhor força … [faltam palavras] … não [querer estimada?] a obter uma situação em que tudo corra [palavra ilegível], confortavelmente, segundo o gosto de cada um. Aí, naturalmente, os gostos variam quase até o infinito no modo de conceituar essa felicidade. Mas todo o mundo que é de boa família, que foi educado com certo conforto, fica com a idéia de que a vida é uma delícia. Só falta apertar um ou dois colchetezinhos para ela ficar absolutamente sem inconvenientes; e que é possível realizar nesta Terra e é desejável realizar nesta Terra uma ordem de coisas com a felicidade completa, sem aborrecimento, ordem de coisas essa que, de fato, conseguem, que pode durar muito, até a hora da morte, que vai ainda durar tanto tempo, que a gente prefere não pensar nela.

Bem, esse mito é responsável pela reação indignada, desiludida, fracalhona que todos os indivíduos sentem diante do sofrimento. Porque se isso se consegue, tudo o que não é isso é bilhete de loteria em branco. E não é razoável que um sujeito fique contente com um bilhete de loteria em branco. O sujeito fica deprimido, fica desapontado e aborrecido.

Bem, esse mito se opõe a essas idéias da necessidade da presença do mal. Nós acabamos de ver, na última reunião, mas eu quero retomar um pouco a questão, que se essa ordem de coisas se conseguisse, é uma ordem de coisas incompatível com a condição do homem nesta Terra, nesta vida de prova, máxime — segundo ponto — sendo o homem atingido pelo pecado original; terceiro ponto, se o homem conseguisse isso ficaria infeliz, porque daria nela exatamente essa frustração decorrente do inexercício dessa necessidade de sofrer e necessidade de lutar que há na alma humana, que faz com que [em] todo homem [que] não luta ou não sofre, aquilo fica nele como uma reserva de energia que não se gasta e que começa a fermentar e envenenar nele, e dá a ele a sensação de frustração. De maneira que esse mito não é possível por razões externas ao homem, ele não é possível por causa das condições atuais do homem. Se o homem conseguisse nas condições atuais, ele se tornaria perfeitamente infeliz.

Essas são as teses que nós deveríamos colocar e focalizar em matéria de sofrimento para o efeito de chegar à conclusão concreta seguinte. Nós devemos entender o contrário: nós devemos tirar partido do sofrimento, nós devemos aceitá-lo como normal, não devemos ter surpresa quando ele aparece, nós devemos nos preparar para ele. Esta é a verdadeira posição do católico perante o sofrimento da vida. Esta é a verdadeira posição por razões morais, que são as razões que eu estou desenvolvendo agora. Eu conto, ainda hoje, se der tempo na minha exposição, eu conto ainda hoje desenvolver uma outra razão que é a razão mais estritamente religiosa, que diz respeito ao culto de Deus.

Eu pretendo que nenhuma atitude verdadeiramente religiosa na vida é possível se o homem não imola a Deus determinados holocaustos que são a imagem da dor. Desses holocaustos, o primeiro, necessariamente, é ele próprio. De maneira que aí entra uma razão de caráter diferente. Bem, eu estou um pouco, como os senhores estão vendo, sistematizando, sintetizando dentro de uma reunião, mas é que eu acho que essa é uma ordem de coisas tão importante que nunca bastará a gente fazer insistência sobre ela.

Bem, o que é que nós podemos dizer a respeito do modo de utilizar essas considerações? Acontece que cada vez mais é freqüente nos homens um vício mental sobre o qual eu estava conversando outro dia com o Luizinho. Eu me lembro que há algum tempo atrás conversei com o Eduardo também. Um vício mental que consiste em não olhar as coisas de frente, quer dizer: quando aparece uma coisa desagradável, em vez de a gente aceitar aquela coisa desagradável, olhar de frente, e precisamente quando é desagradável, a gente fazer um esforço para incorporá-la ao horizonte mental da gente e funcionar normalmente em face daquilo, a gente faz o contrário: quando a coisa é desagradável, a gente olha de esguelha e olha o menos que pode, olha de viés, não incorpora aquela noção ao horizonte mental da gente. E daqui a pouco esquece, que é um dos mil modos que a gente tem de evitar o sofrimento.

Então, em função disto que eu estou dizendo aqui, o que acontece é que a pessoa ouve, acha a conferência razoável, acha que o que eu digo é verdade, mas olha de viés, não faz o raciocínio seguinte: isso que o Dr. Plinio está dizendo é uma coisa verdadeira e é tão importante, e eu tendo tanto a esquecer que eu preciso fazer um esforço de memória redobrado e, portanto, eu preciso tomar uma nota disso, eu preciso recolher a nota disso no gravador e eu vou tomar, vou fazer um esforço mnemônico, e eu vou resolver, por exemplo, cada mês uma vez, ler isso, por cacete que seja. Porque todo esforço mnemônico é meio “quadrado”, não é orgânico, não é natural, é artificial, porque tudo quanto é feito para lembrar a memória é meio “quadrado”. Não tem remédio.

Então, começam os tais gemidos: “Não, eu quereria fazer uma coisa que fosse inteiramente natural e também artificial”. Se você quer fazer dessa matéria uma coisa natural, então desista. Você fracassou, porque alguma coisa de artificial tem que entrar dentro disso. Porque uma coisa artificial é, por exemplo, tomar uma coisa dessas e ler de vez em quando, fixar isso na memória, senão… [faltam palavras] … que o Fernando estava dizendo outro dia, eu disse que eu responderia. É que acaba a reunião e meia hora depois as noções da reunião são volatilizadas, eu não acho que não esteja inteiramente na dependência do que eu estou dizendo. Mas o que eu estou dizendo não é alheio ao fato. É que muitas coisas faladas aqui dizem respeito ao sofrimento. Quer dizer, importam no sofrimento, importam na renúncia, importa na dor. E a pessoa, pelo vício de olhar de viés as coisas desse gênero, já fora da reunião fazem um esforço subconsciente para não pensar. E por essa forma não há aproveitamento espiritual possível. É evidente. É preciso fazer um esforço metódico para se lembrar das coisas, etc., etc.

Bem, eu agora comentaria, então, os trechos que foram vistos na última reunião. Não sei se os senhores têm aqui.

Não, o Fábio pergunta se eu esgotei. Na última reunião eu esgotei… [ilegível] …, não? Então, eu… [faltam palavras] …perguntava… [ilegível] …são outros? [faltam palavras] …Dr. Plinio, não, são os mesmos. Quem é, não há cópias aqui, não? Mas eu não recomendei para trazer. Eu ia recomendar, me escapou da cabeça, infelizmente. Quantas pessoas têm cópia aí? [faltam palavras] …pode dividir um pouquinho. Por exemplo, Fábio dita, acompanham juntos Sérgio, Mendonça, Paulinho, uma coisa assim. É? Engraçado que eu não sou assim. Para mim, se eu não tenho o texto, prejudica muito, hein? Então…

(Sr. –: Qual é o problema, então? Agora o senhor vai…)

Eu vou deixar de lado a questão do igualitarismo e vou comentar debaixo do ponto de vista da dor, do sofrimento, etc., etc.

(Sr. –: …)

É, mas eu… [faltam palavras] …muito o igualitarismo. Acabou, na segunda parte, o igualitarismo preponderando. Se nada de mal existisse nas coisas, o bem do homem seria grandemente diminuído. Que relação tem isso com o sofrimento? É que tudo quanto é mal, a um ou outro título, comporta sofrimento. Ele fala aqui do mal moral, mas ele fala também daquelas coisas que são mal do ponto de vista material, etc., etc. Ele abrange tudo. Ora, essas coisas são, todas elas, fonte de sofrimento. Bom, Frei Jerônimo é quem mais tem isso na memória, não é? Embaixo não tem? Ficou sobrando com alguém, não? Não tomam a providência exata.

Então, se nada de mal existisse nas coisas, o bem do homem seria grandemente diminuído, tanto quanto diz respeito ao sofrimento, quanto ao desejo e amor do bem. Esse princípio, que reação na ordem moral, que reação de nossa parte deve produzir? Deve produzir o seguinte: quando acontece alguma coisa de mal para nós, por exemplo, uma coisa em respeito à qual eu noto muita inconformidade nos membros do Grupo, uma inconformidade até virtuosa, mas é a respeito da tentação: “Toda tentação é uma catástrofe que não devia existir; a gente não devia ser tentado; a vida espiritual devia correr como sobre trilhos”, não é verdade? “E até a tentação é um sintoma de que o sujeito está decaindo.” Isso é uma coisa de uma freqüência assombrosa. Está tentado é porque está decaindo, já está querendo fazer uma “cachorrada”, é por isso que está sendo tentado… Aí vem aquele mea culpa com três tiros de revolver no peito, está compreendendo? Então, em face da tentação, em face da doença, em face da dificuldade financeira, em face da desconsideração dos outros fora do Grupo, em face do que for, nós devemos começar por notar o seguinte: que se aquilo não existisse, o bem seria grandemente destruído. E, portanto, uma… [palavras ilegíveis] …reação normal, como uma reação estável. Bem, seria diminuído tanto no que diz respeito ao conhecimento, quanto ao desejo ou amor do bem.

Bom, agora vem a explicação. Pela comparação como mal, conhece-se melhor o bem. Quer dizer o seguinte: se não houvesse o mal em nossa vida, nós não seríamos capazes — é uma das explicações possíveis disso — nós não seríamos capazes de apreciar o próprio bem que nos sucede. E a própria felicidade, ou a própria alegria que nós poderíamos ter momentaneamente na vida, ela seria menos completa se na nossa própria vida nós não tivéssemos tidos momentos de dificuldade e infortúnio. Quer dizer, … [faltam palavras] … filosófica, nós compreendemos até que o mal é uma fonte de felicidade. Mais mal haveria e menos felizes nós seríamos se não houvesse o mal, do que havendo o mal. Razão para o mal ser recebido de peito aberto e varonilmente, e não como quem trata de uma coisa que está perdendo o sentido. O mal tem sentido, o mal nos faz compreender as coisas, o mal nos faz gostar das coisas. Quem não é capaz de arrostar o mal, não é capaz do prazer, não é capaz da verdadeira diversão.

Falam muito a respeito da alegria medieval. Uma das fontes da alegria medieval , tão diferente da alegria norte-americana, é justamente porque o medieval tinha muita coragem em arrostar o infortúnio. Era preciso fazer Cruzada, toca; era preciso fazer guerra, toca para a guerra; havia desastres, havia muita insegurança em certas circunstâncias sociais e econômicas da Idade Média, arrosta com aquilo. O resultado é que aquilo também dá uma espécie de alegria para o bem, uma espécie de capacidade de aproveitar aquilo que a vida tem de bom. Exatamente à medida que de certas classes sociais se foi tirando a dor, em que em outras classes [se] foi criando a inconformidade contra a dor, a alegria verdadeira foi desaparecendo do mundo.

Os senhores querem ver um uma outra coisa característica? Duas classes de pessoas têm muita alegria, segundo a tradição — hoje isso deixou de ser verdadeiro, mas [era] há algum tempo atrás: soldado e estudante. Soldado é a incerteza da guerra, vida difícil, nos intervalos dá risada, diversão. Os senhores já notaram que o estudante dar risada na véspera do exame? Reposta: é nervosismo. Em parte é, mas não é só. É que os intervalos em que o estudante não estuda, ele, por contraste, se diverte. Eu me lembro, por exemplo, que eu, no tempo do estudo me divertia mais, vendo uma mosca com as patas molhadas de tinta por mim — usos, portanto, bárbaros, alfinete, etc. — andar sobre o papel, e meus primos e eu brincando, me divertindo a respeito daquilo — do que terminado o exame, indo ao cinema primeira vez. Aquilo parecia uma coisa besta. Primeiro dia de cinema, ainda ia, tinha um pouco de contraste. Mas depois, aquela coisa batida, repetida; enquanto na véspera do exame havia mais alegria, havia mais gargalhada. Era o contraste com o sofrimento, o contraste com a dor, que essas pessoas não querem compreender.

Quer dizer, procurando eliminar o sofrimento, a primeira coisa que acontece é que entra o tédio. Mas o tédio, além de não eliminar o sofrimento, é ele mesmo uma forma especial de sofrimento, e um sofrimento horroroso. E isso vem do fato de que se ignora esse princípio. Quer dizer, há uma espécie de vício de fazer as pessoas ignorarem essas coisas.

Bem, os senhores imaginem uma pessoa que conseguisse levar uma vida inteiramente… vamos dizer, um trapista. Um trapista que gostasse de ser trapista, e que na sua trapa fosse dispensado de todo e qualquer sofrimento. Quer dizer, ele, um homem que gostasse de estar sozinho, gostasse de comer bem, beber bem, dormir bem, peré-pé-pé, pé-pé-pé, ele arranjasse uma trapazinha onde pudesse fazer tudo isso. Nos primeiros dias ele teria encontrado a fórmula dele; nos dias seguintes ele acharia que vai; nos outros dias ele estaria se caceteando. Para ele agüentar ser trapista, era preciso um certo sofrimento também. Por quê? Porque sem um certo sofrimento não se agüenta os outros sofrimentos… Quer dizer, serve de incentivo e serve de sal. E, ao pé da letra, a vida sem sofrimento é uma vida sem mal, é uma vida sensaborona.

Os senhores querem ver a contrario sensu isso aí? Qual é o povo hospitaleiro, ao pé da letra, e o povo que tem mais animação, que deita mais graça nas coisas? É o povo espanhol. É o povo que tem mais sal, isso não tem dúvida. É o povo mais conforme com o sofrimento… [faltam palavras] …a coisa mais horrorosa da vida, que é o tédio. Se Nossa Senhora nos desse a graça de compreender que o tédio, que acompanha a vida de tantos de nós, [existe] porque nós não aceitamos o sofrimento, e que nada torna a vida mais divertida do que o sofrimento, oh! como nós teríamos feito um progresso fabuloso! Me creiam em mim.

(Sr. –: …)

É, desejam por mil razões essa maravilha. E o que eu acho é que o sofrimento, nesse sentido, precisa ser uma instituição social. Por exemplo, a Quaresma. Eu não sou grande jejuador. Não é, portanto, sem um certo constrangimento que eu falo do assunto. Mas a Quaresma, por exemplo. Fernando, isso de você imaginar um continente todo como a Europa, de tal a tal época, passando fome mesmo e jejuando mesmo; bem, imaginando isso você compreende a alegria da culinária. Mas, não haver jejum nunca e você pega o ano inteiro uma mesa transbordando de iguarias, é a coisa mais diretamente feita para matar a culinária.

Eu estou dando razões muito baixas, mas são as razões necessárias para a gente compreender certas coisas, não é? Assim, por exemplo, épocas do ano em que não pode haver baile. Antigamente, não podia haver festas [na] Quaresma, Advento, essas coisas assim; dão a alegria das épocas próprias de festa. Se a gente vai fazer festas o ano inteiro… [faltam palavras] …parece que há épocas em que tem festinhas, e o pior é que não é nem festão, porque se ao menos fosse baile com renda, cramoisi, com pompom dourado, casaca e condecorações, ainda vai, está compreendendo? Mas é uma festinha “relada”, meio-termo entre a vida comum e festa, está compreendendo? Bem, parece que em certos ambientes há isso todos os dias. Tenham a certeza de que é o modo de acabar com a festa. Fazer aquilo, quer dizer, vão por sensualidade, vão por vício, como todo o mundo vai para o cinema por vício. Mas o cinema, para a grande maioria das pessoas, é muito mais vício do que verdadeiro prazer. Ninguém tem a ingenuidade de dizer: “Que alegria!, nós temos cinema toda noite!” O sujeito vai para fugir do tédio de casa. Tenho certeza disso. Não adianta querer me dizer o contrário, porque isso é assim. Se, pelo contrário, entrassem as limitações, aí é que a coisa tomava graça, aí é que a coisa tomava alegria. As pessoas não querem compreender isso, ficam com isso girando dentro da cabeça, um sonho de felicidade perfeita, cinema o ano inteiro, etc., etc.

(Sr. –: …)

Na Quaresma, é claro. O próprio carnaval, vamos dizer, o carnaval romano, o carnaval mais inocente, um pouco o carnaval tradicional nosso, em alguns aspectos, está compreendendo? É uma explosão de alegria [antes da?] penitência. Se não [palavra ilegível] a penitência não tinha razão de ser.

(Sr. –: …)

É claro. Aqui tudo se adulterou. Mas enfim, para se ter um pouco a idéia da coisa.

Bom, portanto, nós termos estavelmente isso na cabeça. Aconteceu qualquer coisa de ruim: bom, não é um desastre, está compreendendo? É pau, eu não vou dizer que vá sorrir. É pau e é ruim, e é para ser ruim. Mas compreenda que faz sentido, que tem uma função no geral das coisas da vida e que é razão para agüentar varonilmente, porque tem vantagem, faz parte da ordem do Universo e, portanto, deve ser agüentado. É esse o ponto que eu acho que é preciso a gente considerar e não olhar de viés, viver com pavor das coisas, etc. Não, olhe de frente que dá certo. Sobretudo, e eu insisto neste ponto, no combate ao tédio. Porque eu não sei se me engano, mas as minhas observações — como eu só vivo dentro do Grupo, as minhas observações de fora do Grupo são muito incompletas — mas minha impressão pessoal, andando pelas ruas e pelo pouco que eu vejo, é que o que há de tédio por aí é uma coisa fabulosa, apesar de todos os recursos de diversão. Eu tenho impressão de que é a montanha de tédio.

Quando eu vejo grupos de gente andando por aí, até quando estão dando risada, o tédio é prodigioso. Por exemplo, aquele grupo de tarados — ao menos foi a interpretação que o Fábio e o pessoal que foi comigo para casa deu, que era um grupo de tarados que estava ontem ao nosso lado naquele restaurantezinho — aquele grupo de tarados estava se caceteando, estava fazendo, inclusive a “fassura”, estava fazendo um esforço — eu prestei muita atenção neles — fazendo um esforço para se divertir, mas eles estavam achando pulérrimo. Pelo contrário, o que eles estavam fazendo… sabe o que eles estavam mostrando, Arnaldo? Um catálogo de cachimbos, Arnaldo, com formas várias de cachimbos, e mostrando de um para outro, e não conseguiu… Um tirou isso daí como o ás que ele tinha para alimentar a prosa quando a coisa tivesse… E não surtiu resultado, por inveja, porque a inveja de um e outro por causa da forma de cachimbo era medonha, está compreendendo? Se olharam… [faltam palavras] …quando deu num desentendimento, não foi para a frente.

Bem, os senhores estão compreendendo que aqui nessa primeira coisa nós vemos um princípio ultraconhecido. Eu compreendo que o Marquês de Maricá até fez máximas dizendo o que eu estou dizendo. Eu compreendo. Essas verdades chegaram até essa profanação. Não deixa de ser verdade que é indispensável para viver. Se nós fôssemos dizer que tudo quanto o Marquês de Maricá disse é falso, era uma bomba de dinamite no mundo, porque quem diz o lugar comum diz coisas sobre as quais está baseada a Terra. É evidente. E aqui os senhores têm então assim uma apresentação com exemplos, etc., daquilo que nós devemos procurar introduzir em nossa “vivência” quando nos acontece uma coisa de ruim, a nós ou a alguma pessoa de quem nós gostamos. Vemos continuar, então.

O exemplo que ele dá é isso: os enfermos conhecem melhor quão boa é a saúde e a desejam com mais ardor do que as pessoas sãs. Um pouco foi o que nós vimos no caso do filho pródigo. O filho pródigo só conheceu o que era a casa paterna quando ele caiu no chiqueiro, com as bolotas dos porcos. É o que está na parábola. Ele ainda mediu: “Olha, em casa de meu pai…” Fez o contraste e tomou novamente o sabor da casado pai. A gente tem a impressão, pela parábola, que ele saiu com tédio e que ele compreendeu que não tinha tédio ali quando ele comeu a bolota dos porcos. Quer dizer, toda a vida eu tive essa impressão de que o filho pródigo é, vamos dizer, segundo os imponderáveis da parábola, tinha saído da casa do pai, levado por tédio. A casa era pau, a cidade deliciosa. Então, depois ele viu que a cidade era que era horrorosa e a casa do pai é que era boa. Isso é evidente, ou melhor… [faltam palavras]

seguinte:

Afirmar pura e simplesmente que o mal existe na maior parte dos casos, é falso, pois as coisas sujeitas à geração e à corrupção, que são as únicas que se pode encontrar, em que se pode encontrar o mal natural, são uma parte pequena de todo o Universo. Ademais, em cada espécie o defeito natural só se dá na menor parte dos casos. Só entre os homens é que o mal parece existir na maior parte dos casos. Porque o bem do homem enquanto homem não é o bem sensível, mas o racional, e são mais numerosos os que seguem os sentidos os que a razão.

Este trecho diz menos diretamente respeito ao nosso assunto, mas contém, de passagem, uns pensamentos que nos importam muito. O primeiro é este: o que seria a… [faltam palavras] … do homem, se não houvesse o mal? Porque o mal, em geral, é um mal sensível, é um mal de ação imediata, que se dá exteriormente. E o homem, exatamente, para tomar atitude em face desse mal, ele tem que fazer um raciocínio e sobrepor-se ao mal. Ele tem que compreender que aquilo é um mal de uma ordem secundária, mas que o verdadeiro bem consiste numa outra coisa, pá, pá, pá, pá, para enfrentar o mal. Se não fosse a necessidade de enfrentar o mal, por meio de raciocínios desses, quantos homens nunca fariam raciocínios desses, e até em que banalidade cairia o espírito humano se não fosse isso?

Quer dizer, para fazer, para o homem se manter de pé e não passar a vida inteira de quatro, o mal é uma verdadeira necessidade. Porque assim é que é levado à consideração de que o verdadeiro bem da vida é um bem de ordem superior e que, o ele ter uma pereba, o ele ter uma doença, o ter uma neurose, o ele ter uma outra coisa qualquer, é uma coisa secundária na vida. Que os verdadeiros bens da vida são de uma outra natureza que ele deve apetecer; e que desde que ele consiga isso, isso é essencial e a vida dele está dando certo, ele está alcançando o verdadeiro sucesso, o verdadeiro resultado na vida. E mais ainda, que ele só tende para aquele fim verdadeiro na medida em que ele for provado pelo mal e ele enfrentar o mal. De maneira que ele deve esperar o mal, não como um sujeito na estrada receia um desastre, mas como um caçador de urso, ou caçador de leão, quando chega o leão. O caçador de leão, quando chega o leão, não diz: “Oh, que azar! Aqui está o leão!” Você não foi à procura do leão? O que você está fazendo? O mal na nossa vida é um leão heróico, que é bonito combater, e que nós até vamos procurar. Não é como um desastre, não é como uma cobra que nós de repente encontramos aqui; quando vamos numa dessas fazendas cheias de cobras, entra uma cobra na sede, então nós consideramos isso um desastre. Não, nós fomos caçar e fomos ao encontro disso. Assim é que é o mal na nossa vida. Agora, por quê? Exatamente por isso, porque o mal forma nossa alma e nos dá essa verdadeira superioridade de espírito.

A gente diz: “Bom, Dr. Plinio, está bem, mas não é o mal que eu escolhi; me vem um mal inteiramente diferente do que eu teria escolhido”. Eu digo: meu caro, o mal que você escolheria nunca é para você um verdadeiro mal; pelo contrário, pode até vir um mal gostosinho.

Eu me lembro que o Proust tinha uma tia, Madame Octave. Era uma mulher cercada de todos os males da Terra e que vivia a vida mais deliciosa que naquela categoria de coisas se podia imaginar. Madame Octave era viuva, Madame Octave era doente, Madame Octave não tinha filhos. Então, ela morava na casa de uma sobrinha, de uma irmã, qualquer coisa, na suculenta aldeia de… [falta uma palavra] …, num quarto onde ela tinha pregado na parede um retrato de Monsieur Octave. E às vezes ela olhava e chorava um pouquinho: “Pobre Octave, morreu tão moço, como ele era bom! Nós éramos tão felizes!” Ela tinha assim um chorinho de alívio e comentava um pouco com a criada dela… A criada tinha que trazer para ela chá de camomila, quando ela se comovia lembrando do Octave. Enfim, o Octave era como um jorro contínuo de delícias funerárias e sentimentais que estava representado por aquela fotografia na parece. O quarto dela, como ela não podia receber ar fresco, era de uma espécie de ar renovado continuamente, um quarto com uma janela, com não sei mais o quê. Diz o Proust que a gente tinha a impressão de que ali havia um suave, imponderável algodão no quarto de Madame Octave., que tudo era assim, que tudo era calmo, meio… a luz também entrava aos poucos. Madame Octave tinha a vista sensível para a luz, não era qualquer luz que servia e era preciso falar baixo, porque ela ficava nervosa. E ela passava a maior parte do dia deitada. E o Proust mostra com muita finura que ela era uma espécie de… [faltam palavras] …está compreendendo?

Isso é o mal que a gente escolhe. Vai escolher mal, vira Madame Octave! Porque cada um tem uns certos sofrimentos que não se incomodaria de sofrer. Então, “Oh, meu Deus! Se Vós quiserdes me dar o destino de Madame Octave, pobre paralítica deitada na cama, eu aceitarei de bom grado”. Eu sei, o mal bom é aquele que a gente não quereria. O mal ótimo é aquele que a gente custa a entender. Essa é a verdade. O mal que a gente custa a entender, que a gente quase não entende, esse é o grande dom de Deus, porque esse é que faz bem para a alma. Quando a pessoa tem a felicidade de lhe cair sobre a cabeça um mal que não entende, eu teria vontade de dizer:

Oh, bem-aventurado, você não sabe como Deus te prefere aos outros homens. Você não sabe que convite Ele te fez para uma santidade maior, para uma glória maior. Você está se supondo azarado e você não sabe que você é um milionário da Providência, porque é a você que Deus está convidando para uma maior submissão, para uma compreensão, afinal, mais aguda das coisas, para uma elevação de alma maior.

E quando o sujeito me diz: “Mas Dr. Plinio, fosse o que fosse, mas isso não!”, eu não digo o que eu penso, porque era preciso toda essa preparação para dizer:

Meu caro, isso não? Então eu tenho certeza que é isso que é sim. Porque isso é que vai te fazer bem incompreensivelmente, ininteligivelmente. É muito mais duro, etc., eu compreendo. Eu compreendo e, dentro da medida do razoável, me condôo, e até nessa medida eu me condôo muito. Mas acho que está bom e acho que está bom porque é assim que tinha que ser. Eu sei que é muito duro, mas eu também sei que é muito verdade, e muito verdade.

Nossa Senhora, em que direito Ela estaria de dizer a Deus: “Tudo, mas até meu Filho morrer. Mas matar desse jeito? Nessas condições? Com essa brutalidade? Com essa injustiça? Tenha paciência, mas isso também não!” Porque para Ela, o cúmulo que deveria acontecer e que era ininteligível, era aquilo. Para quantos de nós na vida não acontecem coisas dessas? A gente diz: não entendi. A gente não compreende porque.

Outrora me aconteceu algo que eu não entendia. Eu dizia: eu não compreendo como é que a Providência faz isso; mas enfim, faz, está bem, etc., etc. Eu não teria uma tal ou qual força de alma para enfrentar as circunstâncias difíceis que eu tenho enfrentado depois, não fosse a aceitação daquilo, se não fosse aquilo me ter “passado a ferro”. E era a coisa mais incompreensível que se poderia imaginar. No entanto, é aquilo.

Agora, por que isso? Exatamente por causa desse princípio. Quer dizer, há qualquer coisa da eleição do mal incompreensível, do mal que a vítima não entende e que é o clou do mal, e que é o melhor da coisa, o que mais a gente deve amar.

Por outro lado, entretanto, esse artigo tem uma coisa que constitui uma espécie de contraforte ao que eu estava dizendo, e que é o seguinte: esse princípio de que o mal não existe na maior parte dos casos, ele na própria vida humana acaba tendo também uma certa aplicação. Quer dizer o seguinte: Deus nos pede muita dor, Deus nos pede muito sofrimento, e sobretudo as almas muito amadas, como nós, são convidadas para muito sofrimento, muita dor. Mas haveria uma posição calvinista e muito má em relação ao seguinte:

Está bom, então a vida é só dor e sofrimento e eu vou, em face da vida, tomar aquela posição daquele “carão”de Calvino. enfezado, e não querer se divertir com nada, não gostar das coisas, achar tudo ruim, embolorado”.

Essa posição emburrada é uma posição tão má que também não cabe. A vida humana, mesmo muito dura, oferece também suas alegrias, oferece também suas satisfações. E também dentro da aceitação do sofrimento é também preciso ter alegria com ela, é preciso ter satisfação com ela, e não viver emburrado, aborrecido, como se a vida fosse um tormento, etc., etc., mas haver nela quadro, ambiente para também glorificar os momentos agradáveis da vida, etc., etc.

Tomem duas escolas de pintura, e eu nessas duas escolas vejo erro. Escola francesa do século XVIII, por exemplo: árvores lindíssimas — Est’eau [?], não é? — árvores lindíssimas, paisagens. Não está representado o sofrimento naquela escola. Eu pelo… com a devida vênia ao Frei Jerônimo, que me perdoe, mas a escola flamenga. A grande alegria não está representada lá. É em geral tristonha, meios-tons, o conforto está representado, a segurança também está representada, mas a grande alegria, pelo menos, está representada muito raramente. Os personagens não dão gargalhada, não estão se divertindo, não estão fazendo o que se chama… [faltam palavras]. A coisa é outra. Também é uma posição unilateral. A arte deve representar a vida humana inteira, e a gente deve estar disposto a todas as posições temperamentais da alma humana, rindo na hora de rir, chorando na hora de chorar, e vendo nesse equilíbrio entre o pranto e a alegria o verdadeiro clima para a alma humana… [faltam palavras].

desenvolver mais um outro princípio, porque eu compreendo que isso seja de uma certa monotonia. Mas me perdoem, as coisas monótonas, ao menos as reuniões muito monótonas, servem para fazer achar menos monótonas as reuniões que são menos monótonas. De maneira que ainda é uma parte do papel do mal. E com isso eu dou por encerrada a reunião. Aliás, eu acho que o que eu disse é tão acaciano que eu creio que nem é o caso de perguntar a cada um o que é que está achando. Mas, enfim, por via de dúvidas, Eduardo, tem alguma pergunta? Plinio ? Caio? Paulinho? Sérgio?

(Sr. –: …)

Não, eu ia expor no fim. Posso expor na reunião que vem, se quiser. É.

Mendonça?

(Sr. –: …)

Resolve-se… [faltam palavras] …pois tinha que ser.

(Sr. - : …)

É, é isso. Você vê, Vita, [até?] nós. Você vê, aliás, isso no Evangelho mais do que em qualquer outro lugar. O Evangelho é das grandes alegrias e das grandes tristezas. Há uma alegria do Evangelho que corresponde aos mistérios gozosos, e que é uma alegria, uma espécie de um gáudio primaveril, uma coisa indizível. Há uma alegria do Evangelho, uma espécie de alegria triunfal, que corresponde aos mistérios gloriosos, e que também é fulgurante. E há uma dor profunda, que também corresponde aos mistérios dolorosos, não é verdade? Eu ainda lendo no Fillion, eu não sei em que episódio da vida de Nosso Senhor, aconteceu qualquer coisa e o Evangelho diz: Jesus Cristo estremeceu interiormente de alegria no Espírito Santo, você compreende?

A alma moderna não gosta desses extremos. Ela antipatiza com as manifestações muito enfáticas, quer do gáudio gozoso, quer do gáudio glorioso, quer da dor, para dar uma espécie de uniformidade de umas almas cretinas e aburridas, que não são capazes de acompanhar temperalmente [?] as coisas até o fim, e que dão uma… [faltam palavras] …repugnante e imunda. De fato, a alma católica é facilmente tendente para a afirmação enfática. E quando se alegra, vê razões para se alegrar muito, e quando se entristece, vê razões para se entristecer muito. E até passa com intensidade por essa variedade de estados de espírito. O resto é o tédio.

*_*_*_*_*

1) Estava como Reunião Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.