Reunião de Normal – 4/6/1964 – p. 22 de 22

Reunião Normal — 4/6/1964 — 5ª feira [Série São Tomás e a Dor IV]

Nome anterior do arquivo: 640604--Reuniao_Normal_5.doc

É falso afirmar que o mal exista na maior parte dos casos. Quando Deus permite um mal, é com vistas a um bem maior da Ordem do Universo * Todos os acontecimentos da História giram em torno das pessoas mais chamadas * As pessoas mais chamadas devem viver em contínuo estado de holocausto * O centro da História são as almas que representam o fator propulsão dentro da Igreja Católica * Na vida do Grupo é normal que haja dificuldades e derrotas. É falsa a visão “happy end” da História * Às vezes, Deus abandona o homem ao pecado para torná-lo cauto e humilde * A hierarquia no trato dispensado pela Providência ao pecador arrependido e ao empedernido * A existência do mal é necessária para a glória de Deus * Ao dizer “fazei penitência” São João Batista, na realidade, pregava a mudança de mentalidade * O nosso apostolado é essencialmente um apostolado de metanóia * Há uma certa categoria de pecadores para os quais toda severidade é pouca * Os protestantes e a heresia branca repetem os mesmos erros cometidos pelos fariseus e saduceus * Os três atos inaugurais da vida pública de Nosso Senhor * A vida dos que são mais de acordo com o plano de Deus tem uma ordem interna arquitetônica toda feita pela Providência, cujo sentido inteiro a gente só saberá no dia do Juízo Final

* É falso afirmar que o mal exista na maior parte dos casos. Quando Deus permite um mal, é com vistas a um bem maior da Ordem do Universo

tem aquele método da coisa tomista, não é? Primeiro a tese depois vem o argumento, a partir do “pois”. O primeiro argumento é “cognoscitivo”, pela comparação com o mal conhece-se o bem. O segundo argumento é sobre a vontade. Prova então a tese quanto ao conhecimento, prova então a tese quanto à vontade, acabou-se.

Bem, o texto seguinte é:

Afirmar pura e simplesmente que o mal existe na maior parte dos casos, é falso.

Quer dizer que na maior parte dos seres e das situações das coisas, existe o mal. Afirmar isto assim “tout court”, sem nenhuma nuance é uma coisa que é falsa. Agora vem a razão.

Pois as coisas sujeitas em geração e corrupção, que são as únicas que podem encontrar o mal natural, são uma parte pequena de todo o Universo.

Quer dizer, a parte material do Universo, não é isso?

Considerando o Universo dentro do qual nós nos encontramos, a parte material do Universo é muito mais numerosa, muito maior do que a dos seres vivos e que portanto no Universo não se pode dizer que haja o mal mais freqüentemente do que o bem.

É preciso dizer o seguinte, que isso propriamente devia se encaixar com um outro tópico de São Tomás no “Tratado dos Anjos” em que ele afirma uma coisa diferente, não é diferente, mas dá uma espécie de contrapeso nisso curioso.

Ele diz que os Anjos são imensamente mais numerosos do que os homens. Ele dá a explicação: é que para a excelência da Criação convém que os seres mais excelentes sejam mais numerosos do que os seres menos excelentes e, portanto, que os Anjos devem ser mais numerosos do que os homens.

O que me deixou cair de costas, porque eu entendia sempre o contrário, que o normal é que seres mais excelentes fossem mais raros, porque tudo quanto é melhor, é mais raro do que aquilo que é pior. E depois, a rigor, a gente então deveria deduzir dessa consideração dele, um número de Serafins maior do que os Anjos inferiores. Ora, eu creio que no fundo da cabeça, todos nós tínhamos a idéia contrária, que o número de Serafins haveria de ser menor do que o número… e não é menor. Quer dizer, aí a gente vê como essas regras não se contradizem, mas são jogos de princípios harmônicos aparentemente contraditórios dos quais consta exatamente a ordem do Universo, a beleza do Universo.

(Sr. –: E as camadas inferiores?)

Como?

(Sr. –: A contagem dos animais inferiores?)

Parece que é maior do que a dos Anjos, segundo esta consideração… [inaudível] se não houver outros contrapesos desse… [inaudível] está compreendendo? Daí a gente vê como é preciso “tomisizar” com cuidado, não pegar um princípio destes e partir a la Bismarck, assim como uma espécie de foguete, aéreo, vuuuummm… não, saber fazer a nuance toda, não é? Mas enfim, isso é uma consideração [ilegível] Pois não.

(Sr. –: Uma dúvida […] problemas de mal […] seres vivos […].)

Sim, é, nos outros não há mal.

(Sr. –: [inaudível] …desencadeada, mas não seria o mal no sentido próprio, mas no sentido impróprio da palavra, digamos assim, poder-se-ia falar, não é? A fúria dos elementos, um cismo, um terremoto, que derruba tudo, um vulcão. A… [inaudível] pelo menos não considera… [inaudível].)

É, há qualquer coisa de destrutível, há umas tantas forças em destruição na natureza, não é verdade?

Como é?

(Sr. –: E violentíssimas.)

Violentíssimas. E depois há mais, como há Anjos censores do Universo material, a gente tem a impressão de que a natureza — esse é um ponto muito nebuloso — de que a natureza em sua própria constituição é tal, que se não houvesse Anjos reitores poderia sair qualquer barbaridade… [inaudível].

Eu não sei até que ponto isso é verdade ou não, é uma coisa… eu tenho a impressão que é nebulosíssima, mas realmente aqui ele não toma em consideração, porque se é verdade que nas coisas materiais não há geração e corrupção, há uma tal ou qual capacidade de destruição, não da matéria mas das formas existentes. Enfim, é uma consideração muito bonita, um tema até muito bonito, mas que nos levaria a uma linha muito diversa dessa que nós estamos considerando aqui no momento.

Ademais em cada espécie, o defeito natural só se dá na menor parte dos casos.

Aqui vem portanto, ele já fala das espécies vivas. Na menor parte dos casos se dá defeito. Realmente, nós não poderíamos imaginar, por exemplo, uma raça humana em que nessa raça todo mundo fosse mutilado, embora já se deva fazer o contraforte disso no que diz respeito aos negros, porque é uma raça que em razão de uma provável punição, realmente ficou um defeito se bem que não fundamental, entretanto um defeito grosso e sério na espécie toda, está compreendendo? E aqui não adianta vir com subjetivismo, dizer que não, que para o negro o mais bonito é o negro porque… [inaudível] de não poder entrar na maior parte das espécies um defeito fundamental, um defeito não, um defeito pode entrar.

(Frei Jerônimo: [inaudível] as espécies [inaudível] espécies que o senhor está falando?)

Como é?

(Frei Jerônimo: As espécies [inaudível].)

É, portanto, diz respeito ali, por exemplo às espécies dos animais, não é verdade? [inaudível] os homens, mas poder-se-ia dizer também por analogia as raças humanas, não é?

(Frei Jerônimo: [inaudível] para o bem?)

Em que sentido?

(Frei Jerônimo: [inaudível] eu estou dizendo [inaudível] um caso.)

O garotinho é negro?

(Frei Jerônimo: Negro… [inaudível] ele… [inaudível] quando eu… [inaudível] você quer… [inaudível] brasileira… [inaudível].)

Mas é uma coisa diferente, Frei Jerônimo, é que a pessoa equilibrada e… [inaudível] boa impressão do negrinho, não tem vontade de ser aquilo que não é. Há uma espécie de conaturalidade e que ele não tem a vontade de ser o que ele não é. Ele tem vontade de ter a perfeição naquilo que ele é.

Veja, por exemplo, se alguma daquelas baianas pitorescas, engraçadas… [inaudível] com tabuleiro na cabeça, se oferecesse para elas de elas ficarem brancas, elas teriam todo o direito de recusar, porque ela quer a perfeição de seu próprio… [inaudível] mas vamos imaginar… [inaudível] é uma branca. É natural que ela dissesse: “Não, eu quero realizar no Universo o pitoresco da beleza do tabuleiro, da… [inaudível] e do tabuleiro”, quer dizer, é uma coisa que se compreende. O sujeito apetece a perfeição de sua própria espécie.

Bem.

Só com os homens é que o mal existe na maior parte do casos.

Ele fala aqui do mal moral.

Porque o bem do homem enquanto homem não é o bem sensível, mas o racional, e são mais numerosos os que seguem o sentido do que a razão.

Estão vendo que ele fala aqui da orientação da alma, não é? Entenderam bem isso, não é? É que para o bem do homem se percebe pela razão, mas a maior parte dos homens se guiam pelos sentidos, de maneira que então, a maior parte dos homens se desviam.

É próprio à Divina Providência deixar cada coisa em sua natureza, porque a Providência não é corruptível… [inaudível] mas “salvativa”.

Se alguma natureza fosse mitificada, sendo elevada do grau que lhe é próprio para o superior, embora lhe adviesse algum bem, no entanto haveria uma diminuição na bondade do Universo, pois nem todos os graus de bondade estariam preenchidos, mas permaneceria vazio daquele grau de que tal natureza foi tirado.

Diz um pouco a respeito do pretinho, não é? O pretinho quer ficar pretinho, aquilo acaba constituindo uma certa coisa na ordem do Universo, não é? Então compreende-se isto.

Todos os males que Deus faz ou permite que se façam ordenam-se para algum bem, não sempre porém para o bem daquele em que está o mal, mas às vezes para o bem de outrem, ou ainda para o bem de todo o Universo.

Estes foram os quatro textos que nós comentamos da última vez. Vem agora um outro texto.

O mal das demais partes do Universo ordena-se para o bem das mais nobres.

É melhor primeiro ler tudo, depois fazer o comentário.

mas tudo o que acontece quanto às mais nobres, só se ordenam [para o] bem delas mesmas, porque a Providência delas cuida por causa delas próprias, ao passo que das demais cuida por causa das mais nobres.

Quereriam um exemplo disso, uma aplicação ou é melhor tocar adiante? Então é melhor tocar adiante, não é?

Ora, dentre todas as partes do Universo, as mais excelentes são os santos de Deus, por isso tudo o que acontece tanto a eles próprios quanto às demais coisas, tudo conduz ao bem deles. Verifica-se assim o que se lê em Provérbios: “O que é estulto servirá o sábio”, porque também os males dos pecadores ordenam-se para o bem dos justos. Por isso diz-se que Deus cuida de maneira especial dos justos enquanto que de tal modo sobre ele vigia que não permite que a eles aconteça nenhum mal que não reverta em bem deles próprios. Isto é evidente no que diz respeito aos males penais que os justos sofrem, mas será também verdade que os próprios pecados cooperam para o bem dos justos?

Aqui é um problema muito interessante . E continua, a seguir São Tomás diz que alguns respondem esta pergunta negativamente, outros positivamente, afirmando que:

Sempre os justos se levantam do pecado num grau de graça maior, pois o bem do homem consiste no grau da graça.

Respondendo a esta observação que lhe parece falha, São Tomás responde que:

O bem do homem não consiste apenas no grau da graça, mas sobretudo na própria perseverança até a morte. Pelo fato de ter caído, o justo se ergue mais cauto e humilde.

* Todos os acontecimentos da História giram em torno das pessoas mais chamadas

Aqui já vem uma outra coisa, quer dizer, aqui há, neste texto de São Tomás, duas partes bem distintas. Há uma parte geral e depois uma parte exemplificativa no que diz respeito ao justo. Mas em cima há uma lei do governo do Universo e essa lei do governo do Universo é exatamente isto, é que pelo próprio fato do Universo ser hierarquizado também, e o bem das criaturas existentes no Universo é hierarquizado também, e o bem das criaturas inferiores consiste no bem das criaturas superiores.

Há uma espécie de entrosamento por onde o bem do inferior desemboca no bem do superior. E então os inferiores são regidos para o seu próprio bem, mas nisto servem no bem dos superiores, enquanto os superiores, pelo contrário, o bem é feito por causa deles, e não dos inferiores.

De maneira que, então, toda a economia do Universo em relação às almas, por exemplo, é aceita de tal maneira que a trama da História se passa em torno dos príncipes, em torno daqueles que são mais eminentes. É em torno deles e para servi-los, que os acontecimentos se passam.

Nós poderíamos dar um exemplo, que naturalmente eu compreendo que é extremamente odioso, mas que é verdadeiro, de uma regra de um teatro antigo.

Segundo o teatro antigo da Idade Média, apareciam os personagens mais importantes do teatro, eram os santos. A História Sagrada e enfim, a história dos santos e a hagiografia era o elemento mais importante no teatro e isto pela natural compreensão de que os casos nessa vida se jogam em torno dos santos ou daqueles que Deus destina a ser santos, e que os outros são figurantes cujo papel é servir na história dos santos.

É como o teatro já mais pagão da época do Ancien Régime no qual, entretanto, também tinha um conteúdo de razão, e que era o seguinte: só apareciam nobres no teatro, por quê? Porque não sendo… [inaudível] nobres que tinham um direito de comparecer à corte.

Como a corte era o ambiente no qual se move o rei e como na ordem temporal das coisas o que diz respeito à vida do rei e dos grandes é o ponto de convergência da vida de todo mundo, a corte é verdadeiramente o microcosmo da sociedade temporal, e tudo quanto se passa nela, e se passa com os grandes, é o eixo da história dos que não estão dentro da corte. É um coisa tremenda, mas é um coisa verdadeira.

E então a idéia de que os personagens por excelência da vida, do drama da vida, e dos personagens por excelência da História eram os nobres.

Foi com a Revolução Francesa, já antes da Revolução foi um pouquinho que… [inaudível] essas coisas, que começa a aparecer a história individualista que são casos pessoais, que já não são mais casos das pessoas-chaves do Universo.

Alguma coisa do jogo planeta, satélite, também se encaixa nisso. Há certas almas, vamos dizer, Santa Terezinha, que foi uma alma destinada a levar milhões de almas para o Céu, a vida de todos nós que recebemos graças de Santa Terezinha, a vida de todos nós girou nos problemas, nos mistérios, nos atos de generosidade dela dentro do Carmelo. E aquilo sim foi vida, enquanto nossa vida já é uma vida poca, secundária, que decorre, que esteve em função daquela e em função de uma porção de outras.

Quer dizer, nós somos conseqüências, eles são premissas, por assim dizer. E isto é propriamente a trama da vida, a trama da História, é uma coisa muito dura de aceitar, mas é assim.

Então, deste princípio geral que explica mil coisas da civilização antiga, por exemplo, desgraça: morreu o rei, está compreendendo? Que desgraça pode haver se morreu o primeiro… [inaudível] ou então, o luto se abateu sobre o ducado de Mont Serrat, por que morreu a sereníssima duquesa! O sujeito tem vontade de dizer: “Qua! qua! qua! Morreu a duquesa, que se arranje lá com… [inaudível]. O que é que tenho que ver eu com essa mulher?”

Há pouco nasceu um filho daquele — o Pacheco me exprobava por não saber inglês — Angus [Joljivi?], uma coisa assim, cujo filho é casado com a duquesa de Kent, com a filha da duquesa de Kent, uma coisa assim. Então toda a zona de antigo distrito de Angus serviam cerveja gratuita etc., os donos de botequins, entenderam? Alegria! nasceu um filho daquela família! Mas e por quê? Porque aquela família cuja história é o ponto de confluência da história de todo mundo e não só por razões funcionais e concretas do lugar etc., etc., mas é porque a História se toca assim.

Muita coisa da Idade Média, de nossa teoria da aristocracia, etc., etc., não poderia ser compreendida sem isto, quer dizer, aqui é, queiram ou não queiram, isto é assim.

Isso também pega a famosa doutrina do bem comum e lhe dá uma especificação tremenda. O bem comum é exclusivamente bem de todo mundo não sendo em particular o bem de ninguém.

Segundo essa concepção, o bem comum se identifica com o bem destes. É claro que é o bem de todos, mas é o bem de todos realizado preponderantemente nesses.

Querem ver? Imaginem o Carmelo de Santa Terezinha. Uma superiora que tivesse do bem comum das freiras, uma idéia democrática. Ela diria: “Bom, eu vou cuidar inteiramente da santificação de todas as minhas freiras e por isto eu não darei a nenhuma mais do que dei a outra”.

Chega a hora “h”, ela não fez pela santificação de Santa Terezinha tanto quanto fez pela santificação das outras, ou fez só o que fez pela santificação das outras. Santa Terezinha dá uma freira comum e todas as outras dão freiras comuns. Querem uma coisa mais frustrada do que isto? É um carmelo “mula sem cabeça”, porque o bem do Carmelo se realizava na santidade de Santa Terezinha e no bem defluente para os outros da santidade dela. Mas não é um bem comum republicano, vácuo, é um bem realizado nos mais eminentes. Eu sei que isto do lado…

(Sr. –: [inaudível] …um rei… [inaudível] …se o rei… [inaudível] …pelo bem comum.)

Pelo bem comum. Enquanto eu falava, eu me lembrava do exemplo do soldado, quer dizer, esse que é o bem comum e não…

(Sr. –: A morte de todos é o bem comum?)

A morte de todos é o bem comum.

(Sr. –: [inaudível].)

Esse que é o bem comum, ajuda a compreender muito da vida do Grupo, muito imponderável, muito mistério dentro da vida do Grupo. De maneira que se quiserem saber se… — eu estou me tornando claro no que eu disse ou não?

Eduardo.

(Sr. Eduardo: [inaudível]… não se pode entender… [inaudível] …todas as relações do Grupo com aquilo que é fora. Quer dizer, nós temos a consciência de que a coisa se ordena em função do Grupo, em função… [inaudível] …vive e faz para nos servir, seria em última análise… [inaudível].

Seria Ela, não é?

(Sr. Eduardo: É servir a Nossa Senhora, mas vamos dizer que portanto, nós temos quase que um direito de toda uma situação,… [inaudível] …uma prerrogativa, quer ele queira, quer ele não queira.

* As pessoas mais chamadas devem viver em contínuo estado de holocausto

Na medida em que estamos mais unidos a Ela, e que fomos escolhidos por Ela e que Ela deseja etc., etc., não para nossa vantagem individual ou secundariamente para nossa vantagem individual, mas para vantagem daquilo que em nós representa Ela.

Não se trata, portanto, nem um pouco de um sindicato de privilégios, mas dos que servem mais, vamos dizer, dos que por serem escravos dEla e que portanto mais pertencentes a Ela tudo se ordena mais a eles, está bem?

Está claro, Paulinho, ou não? Caio, Castilho, Sérgio, José Fernando, Duncan, Mendonça, Fernando, Arnaldo, Paulo…

Eu sei que, desculpem eu insistir, eu sei que isto está fora da linha de nossa conferência, mas isso depois tem uma outra conseqüência. Sabe o que é? É que neste que mais representa o bem comum quase que a pessoa desaparece. Porque aqui é o peso da coisa é esse, quase a pessoa desaparece e o princípio fica mais ou menos em estado puro e o sujeito vive em estado de holocausto, de imolação e sacrifical em face daquele que ele representa.

Vamos dizer, por exemplo, há um trecho lindo do Claudel em que ele fala daqueles Coufanteles, que ele mostra como os Coufanteles representam um lugar, não é?

Mas o resultado é que o sujeito que representa um lugar, por causa dessa engrenagem mística as puras vantagens individuais dele, e os puros direitos pessoais, se ele está com dor de cabeça, se ele gosta de fazer um passeio, o conforto dele etc., etc., desaparece, porque o bem dele fica como que queimado e destruído dentro dessa representação comum por onde ele é quase os outros.

E o que exatamente distingue o nobre do burguês é que é legítimo na ordem da Criação que o burguês tenha mais as vistas voltadas para aquilo que é a vida burguesa, o seu conforto individual com as suas vantagens dentro da medida em que isso se possa pôr na ordem da lei de Deus, dos direitos de Deus, isso se compreende no burguês. Mas já no nobre ou no clérigo, isso é uma traição, porque aquilo que é individual dele, desaparece e ele é quase que um princípio vivo ambulante.

De maneira que havia na França, por exemplo, todo o mundo tinha o direito a ser proprietário — mesmo antes de D. Helder — bem, todo mundo tinha o direito de ser proprietário, exceto uma pessoa, o rei. O rei não tinha direito de ter propriedade individual, toda a propriedade que ele adquirisse ao cabo de dez anos, se incorporava aos bens da nação, uma coisa altamente compreensível.

(Sr. –: (…) privada, não é?)

Não tinham atitude privada.

(Sr. –: [inaudível].)

ir à Rússia a cavalo, ele não agüentou a etiqueta.

(Sr. –: …)

Por exemplo, a gente diz, por quê que aquele pessoal… [inaudível] Ah! olhando o rei, por exemplo, o rei comer em público. É a sensação confusa de que era o eixo da História, por missão divina insubstituível

(Sr. –: [inaudível].)

É o maior dos mendigos, a coisa privada desapareceu. Quer dizer, essa temática, é um temática tão pavorosamente diferente do que se costuma imaginar que é inenarrável. Mas é esse o negócio.

Bem, nós continuaríamos por mais alguns minutos, não é?

[Inaudível] …que merece um comentário longo. Agora, ele faz então a aplicação disso, é ao mesmo tempo um exemplo para ilustrar o princípio e por isso mesmo uma aplicação do princípio.

* O centro da História são as almas que representam o fator propulsão dentro da Igreja Católica

Ora, dentre todas as partes do Universo, os mais excelentes são os Santos de Deus

Aqui a gente entende, naturalmente, os santos nas várias acepções possíveis da palavra, quer dizer, é antes de tudo a Igreja Católica que é a assembléia dos santos, de direito, em comparação com aquilo que não é a Igreja Católica. Então, a História do mundo tem como centro a Igreja Católica.

Agora, de outro lado, dentro da Igreja Católica, são as almas que dão o fator propulsão na Igreja Católica — eu não falo tanto aqui da Hierarquia da qual também isso pode-se dizer de algum modo — mas são as almas que representam a propulsão dentro da Igreja Católica.

Quer quanto a eles próprios, quer quanto às demais coisas, tudo conduz ao bem deles.

Daí vem também uma outra coisa, ouviu? Que é a importância da fidelidade das almas de especial “thau” dentro do nosso Movimento. Certas almas vacilam, tudo vacila. Se essas almas continuam fiéis, o que possa suceder com outras mais ou menos, não abala tanto o edifício, não abala porque dentro do edifício as coisas são… [inaudível] para elas.

Bem.

* Na vida do Grupo é normal que haja dificuldades e derrotas. É falsa a visão “happy end” da História

Verifica-se assim o que se lê nos Provérbios: “O que é estulto servirá o sábio”. Porque também os males dos pecadores ordenam-se para o bem dos justos. Por isso diz-se que Deus cuida de modo especial dos justos, enquanto que de tal modo sobre eles vigia que não permite que lhes aconteça nenhum mal que não reverta em bem deles próprios.

Portanto, por exemplo, no que diz respeito a nosso Movimento, os males que podem acontecer, que não forem os males em que nós sejamos os culpados — porque aí entra na autonomia do castigo e aí a coisa é diferente. Pois bem, no castigo vem tratado abaixo — esses males, existem em última análise para nosso bem. Podem ser grandes desastres, revertem para o nosso bem.

É por isso que eu não gosto muito de uma concepção que se afirma muito quando o Grupo está numa série de vitórias, e que é que tudo concorre para que o Grupo vá indo de bem a melhor necessariamente. Cuidado! Porque de repente vem uma lavada que põe esse desenvolvimentismo todo por terra. Depois não há nenhuma obrigação de ser assim, Caesare triunfatore com a… [inaudível] tantan, tan, tan, tan, tocando o tempo inteiro junto de nós clarins.

Não é assim. Em certas épocas é; em outras, é época da lavada, mas que é arquitetônica, que, se combatida até o fim com toda a energia possível — isso é outra questão, ela até existe para ser combatida… [inaudível]. Uma das vantagens dela é de nos levar a querer dar na cabeça dela até o último ponto. Ela é feita para levar na cabeça, deve levar na cabeça e há uma desordem horrorosa quando ela não leva na cabeça, mas que ela possa vencer, que ela possa triunfar…, [inaudível] etc., etc., isso é o normal. E o contrário é essa atitude de desenvolvimentismo happy end que é completamente sem elevação de pensamento, sem elevação de vontade, sem elevação de sentimento, é poca, simplesmente.

Lembra-se que eu tenho falado, às vezes, da sublime beleza da derrota de Tróia. São lados lindos, trágicos da História, mas para quem sabe ver bem, quase adornam mais a História do que os lados de triunfo.

Vamos continuar, meus senhores?

Isto é evidente no que diz respeito aos males penais que eles sofrem…

Quer dizer em relação aos próprios males quando são castigos ainda isso é evidente. Agora vem adiante:

Mas será também verdade que os próprios pecados cooperam para o bem do justo?

* Às vezes, Deus abandona o homem ao pecado para torná-lo cauto e humilde

Aqui não trata mais do castigo, mas do pecado. Porque há alguns males que vêm para provar, há alguns outros males que vêm para castigo. Mas agora o que é o pecado, é uma coisa diferente.

Sobre…

É, essa doutrina que se poderia dizer sobre os males penais, de algum modo se encaixa dentro disso.

A seguir São Tomás diz que uns respondem essa pergunta negativamente, outros positivamente afirmando que sempre que o justo se levanta do pecado num grau de graça maior, pois o bem do homem consiste no grau de graça. Respondendo esta observação que lhe parece falha, São Tomás diz que:

O bem do homem não consiste apenas no grau da graça, mas sobretudo na própria perseverança até a morte.

Isso é de toda a evidência.

Pelo fato de ter caído, o justo se ergue mais cauto e humilde.

Aqui que está a questão. Vamos dizer o seguinte. Em relação às almas que Deus ama, em geral Ele permite o pecado quando há um caroço de orgulho na alma, e de grandeza, e de vaidade que não cede a não ser por esta forma.

Então Deus abandona a alma e a alma por sua própria culpa comete pecado. Porque a alma é sempre culpada, ela tem sempre graça suficiente e peca por culpa dela, quer dizer mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa e não tem conversa.

Mas por que é que Deus faz isto? Em relação a certas almas que Ele ama muito e que Ele não abandona de nenhum modo, em relação a essas almas isto acaba sendo que Nossa Senhora continua a segurar a alma como que pelo cabelo e a alma radicalmente falando não apostata, mas a alma entra no mare magnum do pecado e no mare magnum da humilhação para compreender uma certa coisa que ela não quereria compreender sem isso, e para compreendendo essa coisa, humilhando-se, ela sair de lá mais humilde.

É o que está dito aqui, as expressões são “mais cauto” e “mais humilde”. Há pessoas que não querem ser cautas, que gostam de viver na cornija e que o único jeito é o seguinte: “Meu caro, Eu te dei dez mil graças para você não viver na cornija. Você está cornijando sempre, está bom, agora aqui Eu me retiro, você vai cair e vai se espatifar, Eu lamento muito porque Eu quereria que você não se espatifasse, mas o remédio é esse, você vai se espatifar. Está bem, vai, para o seu próprio bem, porque de lá você se levanta mais cauto”.

Bem, além de mais cauto, mais humilde. É a compreensão do papel de Deus, do sobrenatural, a compreensão de que o homem, sem o sobrenatural, sem a oração não consegue fazer absolutamente nada, e a compreensão de que ele é um poço de ruindade, um poço de maldade, que ele precisa estar sempre vigiando contra si, coisa a que muitas almas são refratárias… [inaudível].

Outras vezes é porque não querem admitir bem o princípio de autoridade dentro do Grupo. Então querem fazer as coisas por si mesmas, uma porção de coisas desse tipo. Com essas ou aquelas variantes acaba que, em raiz, nas suas mil manifestações, o orgulho leva na cabeça… [inaudível]. Megalices, enfim, toda espécie de coisas. É por isso que o pecado, o próprio pecado reverte em vantagem para os justos.

Agora, para que justo? Exatamente para os justos todos, mas isto se tem uma plenitude muito maior para certas almas muito eleitas que Nossa Senhora ama muito e que Ela segura pelos cabelos. Mais de uma vez, conversando com gente, com pessoas, eu vejo coisas dessas.

Os senhores se lembram de um princípio que está na RCR do osso partido? Por onde exatamente eu procuro provar que o Reino de Maria vai ser mais esplêndido do que foi a Idade Média. Tem algo desta coisa que está posta aqui. O seguinte:

Se os homens não observam a ordem, como é próprio à criatura racional, mas comportam-se à moda dos animais brutos, também a Providência Divina os governará segundo a ordem que é própria dos animais.

A coisa é duríssima, hein? Ordem etc., etc…

Torna-se patente, pois, que a Providência Divina governa de um modo mais elevado os bons do que os maus. Assim as coisas boas ou más que lhes acontecerem, não se ordenarão ao próprio bem deles, mas ao bem dos outros. Torna-se patente, pois, de que a Providência Divina governa de um modo mais elevado os bons do que os maus. Quando os maus se afastam de uma ordem da Providência não cumprindo a vontade de Deus caem numa outra ordem da Providência que consiste em que a vontade de Deus, quanto a Ele se cumpra.

Os bons entretanto, quanto a ambos os casos estão na ordem reta da Providência.

* A hierarquia no trato dispensado pela Providência ao pecador arrependido e ao empedernido

Aqui é dessas coisas tremendamente “inigualitárias”, porque a gente está vendo que há certas almas que Nossa Senhora rege de um tal modo que elas não decaem de uma certa ordem.

Por exemplo, esse nosso bom homem que me dizia que ele nunca pensou em sair do Grupo, nosso bom primitivo, a gente está vendo, que Nossa Senhora não rege como outros e que há uma hierarquia na direção que é uma coisa muito misteriosa e gratuita, mas que se dá mesmo e que existe e está acabado, não adianta querer discutir.

Então isso é que explica que o texto pareça quase contraditório com o que vem antes.

Se os homens não observam a ordem como é próprio à criatura racional, mas comportam-se ao modo dos animais brutos, também a Providência Divina os governará segundo a ordem que é própria…

Os primeiros, o sujeito se arrependeu do pecado redundou num bem para ele, mas os outros, eles não se arrependeram do pecado e levaram na cabeça, rolaram, não é verdade? E então eles são tratados à maneira dos animais.

Vejam a posição do pecador, do pecador endurecido, do pecador em relação ao qual a Providência foi a ponto de que a Providência rompeu com ele. Aqui não é passar para um plano B, mas é derrapar para fora do plano, quase que se poderia dizer isso, é uma coisa pavorosa.

Bem, assim as coisas boas ou más que lhes acontecerem, não se ordenarão ao próprio bem deles mas ao bem dos outros. E as coisas boas, de maneira tal que vamos dizer por exemplo, acontece para um sujeito desses uma coisa boa, isso se ordena ao bem do outro, porque ele está na linha do castigo e ele será tratado à maneira de quem é castigado.

Mais ainda, sabe o que é? É que destas coisas no fundo, as pessoas têm intuições misteriosas, mas têm. As pessoas percebem meio confusamente coisas destas e percebem que caíram numa certa ordem, onde para elas não existe mais bem, quer dizer, a possibilidade da penitência existe sempre, mas enquanto elas não se emendam elas estão sempre se atolando mais nesta certa ordem. Tremendo! O que não se dava com esse bom indivíduo seguro pelos cabelos. É misteriosa, mas é admirável, há mil coisas para dizer a esse respeito, formulemos assim. Vamos continuar?

Torna-se patente, pois, que a Providência Divina governa de um modo mais elevado os bons do que os maus, e é claro que dentro dos bons há aqueles que foram preferidos, pois quando os maus se afastam de uma ordem da Providência não cumprindo a vontade de Deus caem numa outra ordem da Providência, que consiste que a vontade de Deus quanto a ele se cumpra.

É o que eu estava dizendo há pouco. Um pouco o suicídio de Judas eu creio que se explicava com isso. É a compreensão de que se ele não se emendasse — ele naturalmente não queria emendar-se, não queria por orgulho naturalmente — se ele não se emendasse, de tal maneira para ele tudo seria desgraça que era mais ou menos a mesma coisa estar no Inferno. Então, a primeira figueira que ele encontrou, ele se pendurou. Quer dizer, é uma coisa de estarrecer, os que estão… como que infernos na Terra. Há na Terra como que céus e como que infernos.

Os bons, entretanto, quanto a ambos os casos estão na ordem reta da Providência.

Como ambos os casos, hein?

(Sr. –: Os que querem… [inaudível] …percebem, não é?

É, quer… vamos dizer, é exatamente, não cometa, não cometa um tal pecado em relação ao qual Deus rompe.

(Sr. –: [inaudível] que ele fala aqui.

Pois é. Bom, o que também explica, o procedimento do Grupo, porque se há uma coisa que se pode dizer é que o Grupo, para qualificar a dor é misericordioso. A assistência que o Grupo dá, proteção etc., etc., vai ao fantástico.

Consideremos, pois, todo o gênero humano como consideramos a universalidade das coisas.

Assim quanto aos homens, Deus quis mostrar sua bondade perdoando os predestinados e punindo pela justiça os réprobos e esta é a razão de eleger Deus a uns e reprovar a outros.

[Inaudível] …considerar é que centro do universo que é Ele mesmo como se fora um universo. Isto é o que está dito aqui. Então continua.

Assim, quanto aos homens, Deus quis mostrar a sua bondade perdoando os predestinados e punindo pela justiça os réprobos.

* A existência do mal é necessária para a glória de Deus

Quer dizer, aqui mais uma vez para mostrar como era conveniente, como era excelente, que existisse o mal no Universo. É que por meio de uns, Deus mostra a sua misericórdia e por meio de outros Ele mostra a sua severidade, a sua justiça. Ambas as coisas necessárias para etc. etc., manifestação perfeita e completa dEle etc.,etc. Bem.

E é esta a razão de eleger Deus a uns e reprovar a outros.

Quer dizer, para uns pecadores, Deus é misericordioso para provar a sua misericórdia. Para outros Ele é justo para provar a sua justiça. É claro que com todo pecador, Deus também tem misericórdia e com todo pecador Deus também tem justiça, isto não quer dizer que a uns Ele trate com justiça e a outros com misericórdia, mas se trata de uma nota tônica, de um acento tônico, de um acento que pode chegar a ser fortemente tônico.

A qual razão o apóstolo assinala quando diz: “Querendo Deus mostrar a sua ira…”

Quer dizer, Deus quis mostrar a sua justiça.

e fazer manifesto o seu poder, permitiu com muita paciência os vasos de ira aparelhados para a morte a fim de mostrar as riquezas de sua glória sobre os vasos de misericórdia que preparou para a glória

Quer dizer, existem na terra uns homens que são os vasos da ira de Deus e outros homens são os vasos da misericórdia de Deus, que Ele permite que existam e que todo mundo veja, para o brilho de sua misericórdia. Aqui está então confirmada a tese anterior com palavras que são provavelmente de São Paulo.

Agora, isto que nós vemos agora, muitas vezes na Terra não se vê, mas ver-se-á no dia da manifestação da cólera dEle que é o Juízo Final. Então aqui quando Ele disser: “Ide malditos”, brilhará de um modo especial a sua ira; e quando Ele disser: “Vinde benditos”, brilhará de um modo especial o seu amor. Então Ele inteiro Se dará a conhecer.

Então, aqui está a tese de que a existência dos maus serviu para o completo conhecimento dEle.

Bem, e agora vem uma imagem muito forte, quase surrealista, mas entendam com um pouco de malícia o texto e os senhores vão entender o que quer dizer, não é?

Diz noutro lugar:

Ora, numa grande casa…

É o mesmo apóstolo que fala, portanto é o Espírito Santo.

não há somente vasos de ouro e de prata…

Os vasos de ouro e de prata a gente põe nas salas da casa para adorno.

mas também vasos de pau e barro…

Os senhores já estão vendo qual é o uso desses vasos, não é?

e um por cento são destinados aos usos de honra, porém outros aos usos de desonra.

Quer dizer, há uns que no plano da Providência, são os vasos de ouro e de prata, há outros que são os vasos de madeira e de barro. Uns e outros têm sua razão de ser dentro da casa. Bom, isso está claro? Querem fazer alguma pergunta, como é que é o negócio?

(Dr. José Fernando: É interessante de se ver… [inaudível] de certos princípios da estética do universo).

Ah! Fantasticamente. Sempre por detrás há princípios de estética do universo, o que ajuda a compreender o MNF, porque o MNF é todo baseado nesses supremos princípios, isso é preciso dizer.

(Sr. –: Contrastes…)

Conformes etc., etc. Eu estou espantado de não sair um certa pergunta que podia sair, mas enfim vamos para frente. Mendonça, Fernando…

(Dr. Fernando: [inaudível] …está claro, não está… [inaudível].)

Bem, mas então…

-«USR»(Dr. Fernando: [inaudível] …compreensão, está claro, mas daqui a cinco minutos.)

Ah é, acaba tendo, porque essa coisa aqui, eu vim aqui com o propósito de fazer conferências sobre a conveniência da existência do mal etc., etc. Mas é tão forte a nota contra o igualitarismo, que eu não pude deixar de acentuar, porque é tremenda!

(Sr. –: Praticamente… [inaudível] …iguais.)

É

(Sr. –: Praticamente… [inaudível] …iguais teoricamente… [inaudível].)

É, e o problema é como guardar. Daqui a pouco vamos dizer uma palavrinha sobre isso. Arnaldo, Paulo, Frei Jerônimo, está certo?

(Dr. Eduardo: Qual é a pergunta?)

A pergunta é a seguinte: que ligação tem isso com o problema predestinação? Me espanta não ter saído esta questão.

(Sr. –: [inaudível].)

Está referido, mas é um problema tão crespo que eu creio que é melhor nem tratar dele. Eu gostaria apenas…

(Sr. –: [inaudível].)

Não, mas nós já estamos num grau de maturidade suficiente. Eu talvez há algum tempo atrás não teria dito isso aqui, mas nós estamos num grau de maturidade suficiente para a gente poder dizer que não convém tratar.

Outro problema seria esse, mas que não há tempo para tratar agora, mas que é o magno problema, e o magno problema é esse: o que fazer para essas coisas não saírem da cabeça?

[Nota da Comissão Apocalipse: O trecho a seguir encontra-se datilografado em separado nos microfilmes, com a mesma data. Parece tratar-se da mesma reunião.]

* Ao dizer “fazei penitência” São João Batista, na realidade, pregava a mudança de mentalidade

Ah, aqui há uma coisa muito interessante. Vamos pegar por aqui. Essa expressão de São João Batista:

Fazei penitência” — exclamava São João Batista…

Isto é um texto de São Mateus, que eu estou lendo.

Fazei penitência” — exclamava ele sem se cansar — “pois o Reino dos Céus está próximo”.

A gente entende [por] fazer penitência, comer pouco, dormir no chão, beber pouco, andar muito, vestir-se com pele de camelo, comer gafanhotos e favos de mel, enfim, uma coisa que represente um sofrimento, não é? Isso é que é fazer penitência. Todo o mundo entende assim.

Agora, querem ver a profundeza muito maior desses textos? E [como] sempre que não há um conhecimento corrente disso, o que se faz a favor da heresia branca? A heresia branca ignora o problema das mentalidades e não aceita que a mudança de mentalidade seja uma condição para se santificar. O que é preciso são aquelas praticazinhas de piedade, aquela vidinha exterior de Religião.

São João Batista ao dizer “fazei penitência”, ele dizia “mudai de mentalidade, porque o Reino de Deus está perto”.

O Reino de Deus a gente tem de aguardar como uma mudança de mentalidade. Quer dizer, muda completamente o sentido da mensagem de São João Batista.

E aqui o Fillion explica esse negócio muito direito. Ele diz o seguinte:

A palavra grega que nós traduzimos por penitência, conformando-nos com a versão latina, pede aqui uma explicação, pois exprime do melhor modo possível o rito de que nós falamos.

Que é o batismo, aquele batismo deles.

O substantivo metanóia designa uma transformação total da alma, uma modificação radical operada nos mais íntimos sentimentos do homem.

E quando São João Batista, portanto, exclamava “fazei penitência, fazei penitência”, metanóia quer dizer: “modificai a vossa mentalidade no que ela tem de mais íntimo”.

Agora, vejam a pregação da mudança de mentalidade como é completamente diferente do sentido que todo nosso modo habitual de ler o Evangelho faz notar na coisa, e como há todo um outro esclarecimento da coisa.

Quer dizer, o apostolado do “Catolicismo” que coloca como pivô de seu apostolado a mudança de mentalidade, quer dizer, não é tanto não cometer essa ou aquela ação má — que não se deve cometer, evidentemente — mas é ir mais a fundo, é não ter a mentalidade pela qual eu coloco ações más, e fazendo da mudança de mentalidade o pivô da vida espiritual. Vejam como isso está na mensagem de São João Batista.

(Sr. –: Por outro lado, não é essa a penitência mais profunda, mais verdadeira, mais completa? A penitência está bem empregada e…)

Toma outro sentido.

(Sr. –: …)

É, mas de fato a palavra metanóia é uma palavra — eu me lembro uma vez o Van Acker fazer uma exposição sobre isso — [que] quer dizer “mudança de mentalidade”. Eu compreendo que se pode dizer o que você está dizendo, mas a palavra metanóia diretamente é isso. Tanto é que o Fillion cortesmente faz entender que a tradução latina não está boa. Bom, então…

(Sr. –: …)

Bom, mas realmente pode ter defeitos, quer dizer, não é uma coisa inspirada. É, tem muitos. Ah, é uma coisa para [conestar?] nossa posição apostólica, eu julgo isso extraordinário. Por exemplo, vamos dizer: um Congresso de “Catolicismo” é um conjunto de conferências, enfim, é uma operação para a metanóia. E propriamente o que consegue são metanóias, não é?

* O nosso apostolado é essencialmente um apostolado de metanóia

Agora, aproximem isso — e vejam como é curioso — da doutrina do Grand Retour. Quer dizer, substancialmente, uma modificação de mentalidade para preparar para o Reino de Maria.

Nunca tivemos essa idéia de que isso estivesse no Evangelho, não é? A gente tem até uma sensação desagradável por estar desamparado destes textos. Mas é porque sobre este texto se passou o unto e o verniz de séculos de heresia branca e tudo quanto é coisa… está compreendendo?

Bom, mas que isso nos serve muito, nos serve. Porque o nosso apostolado é essencialmente um apostolado de metanóia. Por exemplo, a famosa coisa do igualitarismo, estes textos que nós acabamos de ler, tomados a sério devem produzir um metanóia. E inclusive em nós, produzem uma micro-metanóia, porque, infelizmente, nossa metanóia é incompleta.

Queria dizer alguma coisa, Arnaldo? Vamos para a frente? Ele continua:

A palavra, o substantivo metanóia designa uma transformação total da alma, uma modificação radical operada nos sentimentos mais íntimos…

O sentimento [em] Francês não tem bem o sentido [do] Português, ouviu? Mas é o modo de pensar, por exemplo, quando se diz “o sentir da Igreja galicana sobre tal coisa, quer dizer, não é o sentir sensação, mas é o modo de pensar. Sentire cum eclesia — nesse sentido da palavra sentir. Bem…

por oposição a um arrependimento superficial e pouco sincero.

Quer dizer, a palavra metanóia foi usada exatamente para excluir a idéia de um arrependimento superficial e insincero, porque todo arrependimento — é o que você dizia há pouco — superficial e pouco sincero não inclui a metanóia que é a verdadeira forma de arrependimento. Há toda uma doutrina do arrependimento aqui que aliás, nós conhecemos, mas que se apóia muito bem sobre este trecho e que nos dá um certa força, muito interessante aqui para todo nosso apostolado. Que fica bem evidente, o apostolado de “Catolicismo” é um apostolado de metanóia. Bem…

Trata-se, por conseguinte, de uma conversão total, de uma resolução generosa de não mais pecar no futuro e de expiar todas as faltas passadas…

(Sr. –: Especialmente para nós.)

Especialmente para nós. Ele continua aqui, quer dizer, depois de tudo isso explicado, ele se alonga um pouco na explicação.

Nós sabemos agora o que é preciso entender por penitência. Pela penitência que o Precursor exigia e que Cristo exigirá também de qualquer pessoa que aspire a tornar-se súdito do Reino dos Céus.

Quer dizer, ele leva, portanto, mais longe a coisa dele: mas essa metanóia exigida por São João Batista é uma primeira afirmação daquilo que é o produto do apostolado de Nosso Senhor, da Boa Nova do Evangelho, que é a metanóia, a transformação das mentalidades. Quem é que lendo o Evangelho pensa nisso? Alguém dirá: “É tão sabido, você dizendo tal bobagem”. É bem verdade. O único mal que tem é que ninguém sabe essas coisas sabidas. É o único mal que há.

(Sr. –: […] a pessoa lê, pensa que é o pecado de não matar etc.)

É, exatamente. Não tem idéia da coisa doutrinária que está envolvida nisso. Doutrinária e de mentalidade. É uma coisa mais profunda. Agora ele fala, então, dos que ouviam essa mensagem.

Esses ouvintes eram, segundo São Lucas…

Agora vem a palavra de São Lucas.

as multidões que seguiam São João Batista para serem batizadas por ele, segundo São Mateus.

Vem agora o texto de São Mateus.

Muitos fariseus e saduceus que se aproximavam, por sua vez, para receber o batismo do precursor”. os dois evangelistas se completam mutuamente aqui.

As multidões formavam a maior parte do auditório mas numerosos fariseus e saduceus se tinham misturado nessas multidões, levados quase sempre por movimento de curiosidade ou mesmo por um sentimento de baixa inveja. A sua presença, que João Batista constatou sem esforço, vai dar ao discurso um tom polêmico e um acento de severidade.

* Há uma certa categoria de pecadores para os quais toda severidade é pouca

Bom, então é por isso, e ele então dizia esta frase aqui magnífica — que eu acho que todos conhecem, eu vou ler por causa do comentário que eu vou fazer daqui a pouco:

Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para chegar? Fazei, portanto, dignos frutos de metanóia…

A gente está vendo que esse furor todo é dirigido aos fariseus — como diz o Fillion aqui expressamente — e saduceus que estavam lá dentro. Quer dizer, é a nossa eterna tese de que há uma categoria de pecadores para os quais toda severidade é pouca, e que aliás se encaixa muito bem com… [inaudível], não é verdade? Que são aqueles que caíram na economia dos animais, e que é a imensa maioria do gênero humano hoje em dia, não é isto? E então, para o qual essas palavras têm, uma plena aplicação. Isso explica nossa severidade. Então…

Fazei pois, dignos frutos de metanóia e não pretendei dizer a vós mesmos: ‘nós tivemos Abraão por pai’, porque eu vos declaro que Deus pode suscitar dessas pedras filhos de Abraão.

Os senhores estão vendo que essas pedras são os outros que não eram os fariseus, que eram muitas vezes pagãos misturados lá no meio da multidão, etc., que ele suscita filhos de Abraão.

Pois já o machado está posto na raiz das árvores. Toda árvore, portanto, que não produzir bom fruto será cortada e jogada ao fogo. E aquele que deve vir depois de mim…

Bom, não será não produzir bom fruto. Notem bem o que é que é bom fruto, porque acima fala dignos frutos de metanóia. O que é que é o bom fruto?

E aquele que deve vir depois de mim tem… [inaudível] e ele limpará a sua terra, e ele acumulará os grãos no celeiro, e ele queimará a palha num fogo que não se extinguirá”.

Eu queria comentar com isso, exatamente aí a gente compreende bem a idéia de uma certa categoria de pecadores sobre a qual todo o furor, toda a energia, toda a violência é pouca, porque são os pecadores que se recusam a fazer a metanóia. Quer dizer, é uma coisa que é muito clara. Ele esclarece, aliás, que os fariseus diziam que esses castigos que estavam previstos na Bíblia eram só para os pagãos, e que um judeu nunca podia sofrer esse castigo. De maneira que então a gente compreende ainda melhor o sentido dessas palavras.

(Sr. –: …)

É, para os senhores bispos é bem isso. Bom, o que é que eles diziam de si?

* Os protestantes e a heresia branca repetem os mesmos erros cometidos pelos fariseus e saduceus

Os escritos dos rabinos contêm traços múltiplos de falacioso princípio. Eles, a propósito dos méritos de seu ilustre antepassado, que era Abraão, eles pensavam o seguinte: que os méritos de Abraão unidos aos dos outros patriarcas e dos santos de Israel, formavam, diziam eles altivamente, um tesouro de uma riqueza inexprimível que pertencia em comum a todos os membros da nação e que bastava largamente para obter para cada um deles o perdão de seus pecados com uma parte da felicidade eterna.

Quer dizer, sem méritos individuais. Este tesouro bastava. Querem ver uma coisa impressionante? É a posição exata do luteranismo diante dos méritos e da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os que foram batizados e remidos, há um tal acúmulo dos méritos de Cristo que eles não precisam mais praticar os mandamentos. Eles serão salvos de qualquer forma.

Quer dizer, o luteranismo repete exatamente o princípio liberal laicista dos fariseus, saduceus etc. Vejam como tudo isso é curioso. Ao menos para mim é novo, eu não supunha essa ligação. Bem…

Chegava-se até a representar Abraão sentado na entrada da Geena, na entrada do inferno, para libertar imediatamente aqueles dos israelitas pecadores que pudessem ter sido condenados pelos seus pecados.

Vejam a coisa deliciosa dos juros e daqueles extorsistas, está compreendendo? Viúvas trituradas, mas na entrada o bom Abraão: “Não, Isaquinho, não”. Está compreendendo? “É meu descendente… Viúva imunda que protestaste contra o Isaquinho, inferno! Isaquinho, vem cá… cheio de juros, contente, para o Céu”.

Quer dizer, mas é bem a concepção luterana de certas coisas e tal.

Dizia-se aos judeus daquele tempo: “Mesmo se teus filhos fossem corpo sem veia e sem osso — o que significa, ainda que eles estivessem inteiramente mortos do ponto de vista moral — teus méritos responderão por eles”. E a seguinte palavra de Isaías, eles abusavam também dela: AEA manhã vem e a noite também», é interpretada pelo Talmud da maneira seguinte: “A noite é reservada às nações do mundo, quer dizer, aos gentios, e a manhã é reservada a Israel”

Não é, portanto, surpreendente que João tenha atacado de frente, como fará mais tarde Jesus, e depois São Paulo, esse preconceito de que as multidões partilhavam com os fariseus e escribas.

Não, a participação no Reino dos Céus, não é um negócio, nacionalidade, etc., etc. Aí a gente compreende melhor ainda o sentido da palavra metanóia, porque essa mentalidade de impunidade dentro do pecado, de fazer toda espécie de pecado e não haver um Deus que castigue, essa era a mentalidade que se castigava.

Agora, eu acabei de falar do luteranismo. A heresia branca que não gosta que se fale de Inferno, que se opõe a que haja uma pregação séria sobre o Inferno, que insinua que praticamente Deus não condena ninguém ao Inferno, a heresia branca não está exatamente nessa linha? Ela não é precisamente a penetração desse laxismo luterano dentro da Igreja Católica? Ela é precisamente isso.

E a gente encontra então a mesma linha: fariseus e saduceus, protestantes e heresia branca. Quer dizer, bastou ser batizado, Deus é misericordioso. Em concreto os protestantes não têm razão porque o Inferno existe mas o Inferno está vazio, ninguém é condenado ao Inferno. Quer dizer, praticamente, é ou não é a linha judaica?

Então, aquela metanóia concreta, que era de tomar uma mentalidade com princípios, uma mentalidade rigorosa, compreendendo que existem as penas do Inferno, com medo da justiça de Deus, não abusando da misericórdia de Deus, é a metanóia que nós pedimos à heresia branca.

A gente vê, portanto, a identidade de nossa linha. São João Batista, Nosso Senhor Jesus Cristo e os discípulos dEle. Quer dizer, vamos dizer, a contra-reforma contra o protestantismo e nós contra a heresia branca. Então nós compreendemos que nossa posição rigorista é uma posição rigorista tão nuancée, como acabamos de ler nos textos que eu li na primeira parte da reunião. Entretanto, essa posição rigorista está na melhor tradição.

E aí a gente compreende toda a base que existe, base na Escritura… [inaudível] …nosso bom espírito. Eu não sei se eu me exprimi bem sobre esse caso.

Se alguém quer me fazer alguma pergunta, algum adendo, qualquer coisa. Os senhores dirão: Mas por que é que o senhor insiste nisso? Porque eu sinto uma perpétua fragilidade em nós, pelo fato de nós não estarmos baseados nos autores de heresia branca, enfim… Porque a heresia branca tomou os bons autores e tirou só os textos que lhe convinham. Então, para combater essa fragilidade, eu apelo para o que eu estou dizendo aqui.

* Os três atos inaugurais da vida pública de Nosso Senhor

Uma outra coisa muito bonita — e com isso eu termino esse comentário — uma outra coisa muito bonita é o seguinte: Nosso Senhor passou toda sua vida oculto. Presumivelmente trinta anos, depois Ele começou sua vida pública que durava três anos.

Mas Ele não começou sua vida pública assim sem mais nem menos. Ele teve três atos inaugurais da vida pública, constituindo a vida pública com uma espécie de entrada dela, um pórtico solene, como todas as coisas grandes que começam e que normalmente — normalmente, nem sempre — não começam de um modo qualquer, com uma coisinha que aparece, mas começam de um modo solene e nunca eu vi um comentário que me fizesse ressaltar o significado das três coisas solenes que Nosso Senhor fez.

A primeira coisa solene foi o batismo dEle, no qual houve, durante o qual houve a revelação da missão dEle e da união dEle com o Padre Eterno. Quer dizer, no momento em que se batizava ouviu-se uma voz que indicou a missão dEle e que proclamou quem Ele era.

Depois, logo depois houve o retiro — engraçado, três anos, vamos dizer, no começo de uma vida que tinha sido trinta anos de retiro, não há logo a ação, mas há antes um ato religioso e uma proclamação de Deus.

O segundo elemento, um retiro. Neste retiro com oração, com penitência e com uma luta contra o demônio. Quer dizer, há um quebrar do poder do demônio, um primeiro quebrar, uma primeira batalha dEle contra o grande inimigo dEle.

Em terceiro lugar, um milagre estrondoso, que é o milagre de Caná. São os três primeiros atos. Depois disso é que a vida pública dEle começa. Quer dizer, é uma coisa magnífica, a gente vê uma espécie de tríptico, ou três toques de clarim, que anunciam à maneira diferente, o poder dEle.

E depois é que começa então a vida pública. Que relação há entre essas três coisas? Antes de enunciá-la, eu queria submeter ao Frei Jerônimo uma consideração, para ver se Frei Jerônimo acha que é ortodoxa.

O reino, a humanidade depois do pecado original, ficou de modo especial o reino do demônio. Isso é uma coisa que me parece certa. Bem, e a luta que Nosso Senhor teve com o demônio no deserto, foi uma luta que fez sentir ao demônio, pela primeira vez, um adversário como ele nunca tinha tido, e que o esmagou completamente, que o deixou completamente desfeito, estraçalhado, etc., e que ele recebeu um “retira-te”, que foi uma espécie de coisa que o quebrou.

Bem, e que a meu ver tem um sentido profundo na luta contra o poder das trevas, que deixou o demônio como que meio alquebrado, meio enxovalhado, meio escangalhado, diminuiu, em algum sentido, o poder que o demônio tinha já sobre a humanidade… [inaudível] … sobre o poder do demônio.

Aqui vem a idéia seguinte: que não tem dúvida nenhuma que um exorcismo pode circunscrever a ação do demônio, e que portanto há graus de ação do demônio que se podem tornar maiores ou menores. Nosso Senhor ali não eliminou o poder do demônio, mas diminuiu um tanto, acorrentou um tanto naquele episódio.

Isso se pode supor, ou não? Acho que pode, não é? Os senhores estão vendo como fica uma coisa lógica. Ele antes de tudo faz proclamar a sua união com o Padre Eterno, depois Ele diminui o poder do demônio para agir melhor, para começar a sua vitória. Em terceiro lugar, Ele faz um milagre, que é mais uma manifestação de seu poder divino. Depois Ele começa a falar.

Nesse milagre — coisa linda! — é a primeira manifestação do poder de Nossa Senhora também. Porque na primeira manifestação da onipotência dEle, está a primeira manifestação do poder de Nossa Senhora. Depois a vida pública dEle começa. E Ela antecipando a coisa.

* A vida dos que são mais de acordo com o plano de Deus tem uma ordem interna arquitetônica toda feita pela Providência, cujo sentido inteiro a gente só saberá no dia do Juízo Final

Para mim — não sei se para os senhores é a mesma coisa — mas para mim, ver que essa história tem um começo tão ordenado, tão estudado, tão solene, me dá uma idéia de ordem em todo o desenrolar dos acontecimentos, que enche minha alma de consolação. Enquanto que para espíritos, talvez mais revolucionários, ou qualquer coisa assim, a idéia de que a coisa foi a [trouche mouche?] sem plano. Encontra um cego: “Olha lá, traz aquele cego, vem cá”. Depois, de repente, discute com outro. Quer dizer que não houve plano, não houve ordem na coisa.

A muitos não causa nenhum bem estar saber que houve ordem. E a mim causa um bem estar enorme compreender essa ordem interna, essa concatenação na sua vida. Porque nisso ainda vai mais algo de profundo. É que então a gente compreende que as vidas daqueles que são mais de acordo com o plano de Deus — a primeira reunião — essas vidas também têm uma ordem interna arquitetônica toda feita pela Providência, e que aqui está toda a arquitetura da História, toda feita de concatenações simbólicas, de coisas maravilhosas cujo sentido inteiro a gente só saberá no dia do Juízo Final. Mas que fazem da existência terrena, pelo menos nos seus aspectos essenciais e das figuras essenciais, um drama inteiramente ordenado, e não um caos, com coisas, como se pinta em geral a História.

Vai indo o Império Romano, de repente chegam os hunos, caídos das nuvens, escangalhando tudo, atrapalhando tudo. Não tem razão de ser nenhuma. É uma catástrofe como outra qualquer. É como contar a história de que estava uma família muito virtuosa, cantando Stille Nacht na noite de Natal, caiu… [inaudível] …em cima, e matou quase todos, exceto uma criança que ficou aleijada. Conta com a naturalidade como se contaria que a festa terminou normal. Quer dizer, essa espécie de implantação normal da desordem na História é uma coisa que é profundamente contrária às apetências de meu espírito. E eu gostaria de partir dessa consideração da ordenação interna da vida de Nosso Senhor para essa idéia de uma ordenação interna de toda a História, que é uma coisa que aos espíritos contra-revolucionários deve contentar, deve alegrar, não é?

(Sr. –:… Não consigo ver?)

Por exemplo, uma coisa que eu dei na reunião passada, eu dei um pouco apressadamente, por isso não foi, talvez a coisa não chamou a atenção, mas que a mim chama muito a atenção, é a conexão dos três episódios, das três partes da vida pública de Nosso Senhor, e as nossas desventuras, não é? Porque você vê que primeiro é a apresentação de um período de recrutamento. Depois uma manifestação gloriosa, depois uma ruptura e a preparação de um levedo que vai se atirar contra aqueles, mas na dor e no sofrimento. Você quer que eu seja mais explícito? Castilho, não sei se assistiu a última reunião.

(Sr. –: Eu digo também aqui entre esse pórtico de Nosso Senhor e o que seria o pórtico do Grupo.)

Bom, como naturalmente a vida de Nosso Senhor é uma vida prototípica, em que tudo tem uma nitidez muito menor do que nas vidas muito menos, enfim, infinitamente inferiores como são as nossas — mas de algum modo se pode dizer que esse movimento em nós é cíclico, está compreendendo? E se repete, quer dizer, nós depois damos outra avançada, temos outra glória, retiramos outro magote de pessoas, vem outra luta e assim vai. Está compreendendo?

Mas eu tenho a impressão de que essa… não é assim, Sérgio?

Então por que você está rindo? Pode dizer… Você tinha alguma objeção, pode fazer…

*_*_*_*_*