São
Tomás e a dor III — 30/5/1964 — Sábado [ER
089] – p.
Reunião para o Grupo da Martim1 — 30/5/1964 — Sábado [ER 089]
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São Tomás e a dor III
Toda a vida e até a morte do norte-americano é construída no horror, no ódio ao sofrimento e desejo de seu banimento * A cultura do Grupo consiste muito em examinar e achar a fórmula certa para refutar o mal * Temos interesse especial no combate ao espírito otimista da miragem de uma vida sem dor * Pela comparação com o mal, conhece-se melhor o bem e sofrendo alguns males, desejamos mais ardentemente o bem * Aplicando aos sons: deve haver trovoada e canhões, além de música suave, para harmonia e para reflexo da cólera divina * É legítimo aproveitar todas ocasiões, com toda vigilância, para provocar cristalizações para o bem * Necessidade de não ficar em pura doutrina, mas acautelar para a influência do ambiente, dos imponderáveis
Índice
* O sofrimento, de certo modo, é um mal e se este não existisse, aquele não teria razão de ser 2
* O sofrimento é correlato com o feio 3
* Toda a vida e até a morte do norte-americano é construída no horror, no ódio ao sofrimento e desejo de seu banimento 3
* A cultura do Grupo consiste muito em examinar e achar a fórmula certa para refutar o mal 4
* Temos interesse especial no combate ao espírito otimista da miragem de uma vida sem dor 5
* Pela comparação com o mal, conhece-se melhor o bem e sofrendo alguns males, desejamos mais ardentemente o bem 5
* O papel do mal não é pequeno, porque o bem seria muito diminuído sem ele; tudo doce sem sofrimento daria “estilo versalhesco 6
* A exclusão da dor enfraquece a inteligência, a vontade e até a visão do universo, dá em HB, no carola, em nervosismo 7
* Em Versalhes, representa-se o triunfo do qual o sofrimento foi eliminado, o obsceno atraente sem caráter de mal, o que dá uma weltanschauung bestificada 8
* O academismo verdadeiro, através do mal, faz compreender o bem, como pela torpeza de Judas se conhece melhor Nosso Senhor, por contraste 9
* Algo no paraíso deveria dar idéia do mal; enfraquecida a noção do bem pelo pecado, o mal precisa ser mais ressaltado 9
* O mal não existe na maior parte dos casos, como se dá na natureza, em que só pequena parte é sujeita à corrupção e ao defeito 10
* Pelo desequilíbrio do pecado, o mal existe na maior parte dos homens, por seguirem mais os sentidos do que a razão 11
* Por não ser corruptiva mas formativa, a Providência deixa cada coisa em sua natureza; é anti-carreirosa e anti-parvenu 12
* É impossível nivelar por cima, pois uma natureza elevada a grau superior diminuiria a bondade do universo pelo vazio de um grau 12
* Princípio super anti-igualitário que se aplica ao campo social à Igreja, à ordem do universo 13
* A fobia da dor e do feio é errada porque ainda do mesmo mal Deus tira o bem para alguém ou para o universo 14
* Aplicando aos sons: deve haver trovoada e canhões, além de música suave, para harmonia e para reflexo da cólera divina 15
* O raio com sua majestade ameaça e cumpre, o que não agrada à mentalidade adocicada 15
* Apresentar o mal moral como feio e lutar para extingui-lo 16
* É legítimo aproveitar todas ocasiões, com toda vigilância, para provocar cristalizações para o bem 17
* Necessidade de não ficar em pura doutrina, mas acautelar para a influência do ambiente, dos imponderáveis 17
* _ * _ * _ * _ *
* O sofrimento, de certo modo, é um mal e se este não existisse, aquele não teria razão de ser
Uma coisa a respeito da qual… um tema o qual nós vimos tangenciando bastante em várias outras reuniões, etc., é o problema seguinte: na última reunião, falei a respeito do problema do sofrimento. Tenho falado, aliás, ultimamente, bastante a respeito da questão do sofrimento. Até eu iria tratar hoje do sofrimento considerado do ponto de vista sobrenatural.
Bem, quem trata do sofrimento, evidentemente debaixo de algum ponto de vista trata do problema do mal. Porque o sofrimento em si, e de algum modo, é um mal. Considerado nos seus efeitos próximos, nos seus efeitos imediatos, na sensação que ele produz no homem, evidentemente, o sofrimento é um mal.
Bem, e quem fala do sofrimento, fala não só do mal que há no sofrimento, mas entra todo o problema da existência do mal no universo e todo problema da existência do mal no mundo entra em cena.
Por que? Porque em última análise só se compreende que a Providência tenha permitido o sofrimento, de algum modo — ao menos é o que à primeira vista parece — em função do mal, e que se não houvesse mal, o sofrimento não teria razão de ser.
* O sofrimento é correlato com o feio
Agora, do outro lado também é verdade que o sofrimento é correlato com certas outras coisas. Por exemplo, o feio. O feio, que é o mal estético é, em si, uma espécie de imagem do sofrimento, e de outro lado, ele é uma fonte de sofrimento. Então, já essa consideração nos leva até aí. Depois existe uma outra consideração que é a respeito do mal moral, que já é o pecado. Enfim, nós vemos que toda a seqüela do problema do mal entra quando a gente se ocupa da questão do sofrimento.
De maneira que não está fora de propósito nós falarmos um pouco a respeito do problema do mal.
* Toda a vida e até a morte do norte-americano é construída no horror, no ódio ao sofrimento e desejo de seu banimento
Agora, do outro lado, também tem o seguinte: que os senhores estão vendo que eu estou me empenhando em estabelecer alguns pontos de refutação mais diretos daquilo que se poderia chamar a cultura norte-americana, ou o estado de espírito norte-americano, a mentalidade norte-americana, o estilo de vida norte-americano.
Nós temos falado muito contra a sinarquia, muito contra outras coisas do gênero e ultimamente ainda, o Edwaldo tem falado a respeito das psicoses nos Estados Unidos. É uma coisa que ele está estudando a pedido meu para ver se - enfim - monta uma refutação completa nesse assunto. Bom, acontece que também nessa matéria, dos Estados Unidos, há algo que toca o problema do sofrimento. Porque se há um povo, se houve um povo na história construído sobre o horror ao sofrimento e procurando constituir uma espécie de concepção da vida que é toda ela baseada no [horror] ao sofrimento, esse povo é o povo norte-americano.
Não é verdade? E a mentalidade norte-americana, o estado de espírito norte-americano é de quem tem a esperança — eu já tratei isso de passagem na última reunião — de banir todo sofrimento da vida, e de constituir uma vida que é uma sucessão ininterrupta de diversões, desse ou daquele gênero, em que a economia, a medicina e as técnicas modernas vão eliminar todas as fontes de dor, e para a gente compreender até que ponto vai a fobia do norte-americano contra o sofrimento, basta lembrar o enterro norte-americano como é.
Quando eles pintam o cadáver, quando eles fazem aquela espécie de festa mortuária, quando depois levam para um jardim muito bonito, onde também as criancinhas brincam e depois colocam aquele pano verde sobre a cova, e com uma música e então, cai. Quer dizer, acaba morrendo porque não tem remédio mesmo, porque senão, não morria.
Toda a idéia é de eliminar até o pensamento da morte das fronteiras, das últimas perspectivas do espírito humano, e em última análise, isso se dá por um verdadeiro ódio contra o sofrimento.
* A cultura do Grupo consiste muito em examinar e achar a fórmula certa para refutar o mal
Bem, por outro lado, há um outro aspecto por onde essa questão do sofrimento entra muito. Os senhores vão ver entrar até no que diz respeito à R-CR, e o problema é o seguinte: os senhores sabem que nós, aqui no Grupo, faz parte do espírito do Grupo acentuar muito a idéia do mal. Quer dizer, quando nós apresentamos as coisas, nós em geral, as verdades nascem em nosso espírito à força de considerar o mal. É porque a gente considera muito aquilo que está errado; examina muito aquilo que está errado, no que que está errado, por que que está errado, que acaba saindo a fórmula certa. E de algum modo, o caminhar de todo o espírito, de toda doutrina dentro do Grupo é a partir da consideração do erro.
A gente toca uma coisa que arrebenta errada, a gente começa a dizer que aquilo é errado, a querer refutar aquilo, em nome de uma verdade que não estava inteiramente expressa no fundo de nossa cabeça, e é à força de esgrimir com aquela verdade [contra] aquele erro, que, no fundo de nossa cabeça, a verdade vai nascendo.
De maneira que, por assim dizer, aquilo que se poderia chamar a cultura do Catolicismo, a civilização do Catolicismo…… então, aquilo que nós poderíamos chamar a civilização, a cultura do Catolicismo, é meio do contra.
E os nossos adversários, acentuando isso, dizem uma coisa verdadeira. Quer dizer, naquilo que é contra, naquilo que está errado, naquilo que é mal, no combate contra aquilo que não deve ser, quer dizer, tomando uma atitude de muita resignação em face da existência da dor, em face da resistência ao erro, em face da existência do erro, do mal. Resignação [aqui] quer dizer: nós tomamos o fato, o fato existe, nós não vamos fechar os olhos, nós nos resignamos a que ele exista. Nós até vamos transformá-lo num elemento de cultura, porque à força de lutar contra ele, nós vamos fazer raiar a luz do verdadeiro bem.
* Temos interesse especial no combate ao espírito otimista da miragem de uma vida sem dor
Então, [é] nesse estado de espírito que nós funcionamos, e portanto, o problema de saber qual é o papel legítimo desse erro e dessa posição, enfim, de análise do erro dentro de nossa mentalidade, em face da própria criteriologia do espírito humano. Enfim, é isso que se trata de analisar em função de uns textos de Santo Tomás de Aquino que Arnaldo me deu.
Eu resumo, portanto: eu digo que nós temos um interesse especial nessa questão, em primeiro lugar no combate do espírito otimista norte-americano que nos invade a tantos de nós, que invade sobretudo, e que maltrata e que prejudica sobretudo os de boa família que foram educados naquela miragem de uma vida sem dor e sem sofrimento da qual eu falava numa última reunião.
Depois, eu falei a respeito da questão do nosso estilo cultural. E outra coisa, de um terceiro ponto de que eu não me lembro bem — a coisa americana, nosso estilo cultural — e eu tratei de um terceiro ponto; havia mais uma outra coisa qualquer, em função desses problemas… É, exatamente à vista dessas problemáticas todas é que esses textos de Santo Tomás de Aquino interessam.
Bom, eu pergunto se sobre essa confusa focalização haveria alguma coisa para dizer ou para…
* Pela comparação com o mal, conhece-se melhor o bem e sofrendo alguns males, desejamos mais ardentemente o bem
(Aparte: - …)
Não, são textos em geral sobre a presença do mal dentro do universo, enfim, sobre questões mais ou menos contíguas com isso, que conduzem a uma certa conclusão a respeito disso.
Bem, o primeiro texto de Santo Tomás é tirado da Suma contra os Gentios, 13, 71. Santo Tomás diz o seguinte:
Se nada de mal existisse nas coisas, o bem do homem seria grandemente diminuído, tanto no que diz respeito ao conhecimento, quanto ao desejo ou amor ao bem. Pois pela comparação com o mal, conhece-se melhor o bem e quando sofremos alguns males, desejamos o bem mais ardentemente. Assim, os enfermos conhecem melhor quão boa é a saúde e a desejam com mais ardor do que as pessoas sãs.
Os senhores estão vendo que o texto vai diretamente ao ponto. Porque ele mostra que o mal é permitido, como uma das razões, é exatamente que o espírito humano, feito como é, conhece e aprecia o bem até o fim, inteiramente, devidamente, quando se faz a comparação com o mal. Sem se fazer a comparação com o mal, na pura análise do bem, o espírito humano facilmente fica longe do conhecimento profundo daquele bem. E o resultado é que ele, não tendo essa comparação, a própria visão do bem nele fica diminuída, não toma a plenitude que devia tomar. Isso não está dito aqui que nunca toma, a respeito de nenhum bem, não está dito assim, a respeito de nenhuma verdade: isto não está dito assim.
Está dito que com freqüência, habitualmente, facilmente, que é normal que o espírito humano funcione dessa maneira. Em última análise, ele precisa do mal para comparação, compreender e amar inteiramente o bem.
E notem que ele fala a respeito da compreensão. Porque ele tem essa frase aqui:
Se nada de mal existisse nas coisas, o bem do homem seria grandemente diminuído, tanto no que diz respeito ao conhecimento quanto ao desejo e amor do bem.
Quer dizer, o conhecimento do bem, daquilo que é bom seria grandemente diminuído se ele não tivesse contraste com o mal.
* O papel do mal não é pequeno, porque o bem seria muito diminuído sem ele; tudo doce sem sofrimento daria “estilo versalhesco”
Agora, notem que nesse sentido, o papel do mal não é um papel pequeno segundo o texto. É um papel grande, porque ele diz que o bem do homem seria grandemente diminuído.
Quer dizer, o bem do homem é aqui o bem de todos os homens, o bem do homem enquanto homem, o bem, por assim dizer, da natureza humana. Não é verdade que seria diminuído grandemente se — em função do bem — não estivesse também o mal? e se o homem não fizesse as comparações para conhecer uma coisa, comparar com a outra para ver como é, etc., etc.?
Os senhores vêem por aí que uma civilização cuja função fosse esconder tudo quanto é feio, esconder tudo quanto é desgraça esconder tudo quanto é ruim, produziria necessariamente essa espécie de adocicado que faz com que as civilizações percam a graça, e que os ambientes percam toda a vida e toda a força.
E é isso exatamente, a meu ver, a censura fundamental que se pode fazer ao que se pode chamar o “estilo versalhesco”. Quer dizer, a gente faz um castelo lindo, põe diante do castelo um jardim maravilhoso; põe estátuas que representam ninfas, que representam divindades muito bonitas, põe água cantando em chafarizes; põe depois uma bordadura de florestas lindas: tudo aquilo é aquela natureza européia, que quando é verde, é verde; quando não é verde, vem o outono, aquelas folhas ficam com cor de vinho, cor de ouro, cor de não sei mais o quê; quando caem, fica uma galharia linda, tão bonita que forma uma renda.
Tão bonita que a gente quase não sabe se é mais bonita do que quando tem folhas.
Quando chega a folha é uma alegria porque chegou a primavera; a gente exclui aquilo. E depois de todo o ambiente, de todos os quadros, de toda a literatura, de toda a conversa da vida, de tudo, a gente exclui de longe qualquer imagem do sofrimento, qualquer imagem do mal a gente exclui completamente.
O resultado é que a gente pensa que focaliza muito bem, que focaliza toda a verdade, e que atrai poderosamente o espírito humano pela verdade e pelo bem. Pelo contrário, a gente está enfraquecendo a inteligência, a gente está enfraquecendo o senso moral, a gente está fazendo uma coisa adocicada que, em si, enquanto doce, é muito bonito.
Mas o defeito é que só tem doce, e deveria ter uma outra coisa. E qual é a outra coisa que deveria ter? Exatamente as representações de sofrimento, as representações inclusive do mal. Daqui a pouco eu vou falar a esse respeito. [Faltam] as representações do mal, as representações da dor, da luta, etc., que completariam esse quadro para que o espírito humano pudesse ver tudo até o fim.
* A exclusão da dor enfraquece a inteligência, a vontade e até a visão do universo, dá em HB, no carola, em nervosismo
Quer dizer, os senhores percebem, quer no “estilo versalhesco”, quer depois no estilo norte-americano, que também exclui toda representação da dor e do mal, portanto, um enfraquecimento da inteligência e um enfraquecimento da vontade.
E quando a gente fala de enfraquecimento da inteligência, aqui, a gente não diz só da potência intelectual, mas é da compreensão do universo. É toda uma weltanschauung que se enfraquece muito quando a gente tira isso. E quando fala da vontade, é uma verdadeira deterioração moral, uma deterioração moral que vem, exatamente de que ponto?
Essa coisa preciosa que o Catolicismo se compraz, com tanto prazer, em acentuar e que a “heresia branca” tem horror — porque no universo da “heresia branca” o mal não existe; — aqueles santos de carinha redonda e coradinhos da arte sulpiciana, nunca viram o mal, e se vissem o mal fariam logo assim… o erro, o pecado, nunca viram nada.
Bem, porque é que no mundo sulpiciano também há uma espécie de insipidez?
Há exatamente isso: o carola. O carola é um sujeito que nunca esbarrou com o mal, nunca o viu de frente nem nada. Está dentro da Igreja [………………]
[…] que o homem tem dentro de si e quando não sofre, o abafa tanto quanto, por exemplo, um homem que não come, não fala ou não anda. Exatamente é a mesma coisa.
Então, dá nervosismo, dá frustrações de toda ordem, etc., por que? Porque esse ponto de vista não se completa.
* Em Versalhes, representa-se o triunfo do qual o sofrimento foi eliminado, o obsceno atraente sem caráter de mal, o que dá uma weltanschauung bestificada
Os senhores dirão: Mas, Dr. Plinio, tudo isso a respeito de Versalhes é uma apreciação que pode ter algo de verdadeiro, mas não é inteiramente objetivo. Por exemplo, existe um salão de Versalhes, chamado salão da guerra. Este salão da guerra em um medalhão enorme sobre uma lareira, de mármore, um medalhão […] se não me engano, aliás, representando Luís XIV vestido de guerreiro romano e marchando ao combate, a cavalo.
Existem em muitos lugares troféus militares. O mal está abundantemente representado lá por mulheres nuas pintadas naqueles plafonds. Eu não vejo com que direito o senhor vem dizer que a guerra, a luta, o mal não estão representados em Versalhes.
A guerra está representada sob um aspecto em que ela já não é mal, é um triunfo: em que exatamente tudo aquilo que foi o sofrimento, que foi a luta, está eliminado; é enquanto superado.
Eu não posso dizer o seguinte: que traz verdadeiramente a imagem do trabalho… alegre. Não é, isso é o descanso, a imagem do repouso, não é a imagem do trabalho; o repouso de alguém que esteve cansado, mas o que está focalizado ali evidentemente é o repouso; não é o trabalho. Quando eu pinto uma figura obscena no plafond, mas bonita, interessante, atraente, eu procuro tirar ao mal o seu aspecto de mal e dar-lhe o aspecto de bem.
Era preciso pintar um demônio como aqueles de Notre Dame. Agora, se pusesse um demônio daqueles no ângulo de Versalhes, Versalhes se desfaria: as árvores fanariam, as fontes secariam e as ninfas começariam a chorar. Quer dizer, não é possível por isso lá.
Quer dizer, de fato, isso estava ausente, como está ausente da concepção norte-americana da vida… qual é o resultado?
A weltanschauung fica abobada, bestificada e diminuída. E, por outro lado, o amor ao bem se torna mole também. Não há um verdadeiro amor firme, varonil, enérgico para o bem, exatamente porque se elimina o conhecimento do mal. Aqui está, portanto, um trecho de Santo Tomás que fundamenta poderosamente isso que os senhores vão ver, por exemplo, no MNF, quando nós começarmos a dar o MNF, que é o seguinte: o MNF dá a noção de ordem e é, paradoxalmente, mas depois de ter dado a noção de Revolução.
O normal seria dar a noção de ordem, depois a de desordem, não é verdade?
* O academismo verdadeiro, através do mal, faz compreender o bem, como pela torpeza de Judas se conhece melhor Nosso Senhor, por contraste
No MNF se começa pela Revolução, para a horas tantas entrar na noção de ordem. É porque exatamente a visão do mal prepara o espírito para a plena compreensão do bem. Quer dizer, não é acadêmico, mas é conforme esse princípio. Porque esse princípio deveria formar o espírito acadêmico. Este é o academismo verdadeiro.
O que está por detrás disso? Está por detrás disso o poder educativo, o poder ilustrativo, o poder intelectual do contraste. Sem o contraste nós não conhecemos. O espírito humano é feito de maneira que sem contraste não se começa bem as coisas. E exatamente as duas pontas do contraste — o mal de um lado e de outro lado o bem, — o extremo do mal e o extremo do bem é que dão a compreensão completa do que é o bem.
De maneira tal que, por exemplo, eu me insurjo contra a idéia de se representar Judas como uma pessoa que foi apenas um ganancioso — um ganancioso vil — mas que de nenhum modo duvidava da divindade de Nosso Senhor, pelo contrário, era bonzinho, etc., eu me insurjo porque Judas figura na história de Nosso Senhor como o contraste d’Ele. Aquele discípulo que o haveria de trair é naturalmente o contraste d’Ele, é uma coisa evidente.
E o contraste d’Ele, que foi infinitamente perfeito, na simbologia e na ordem da vida de Jesus, não podia ser um sujeito medianamente mal; tinha que ser infamíssimo, da pior infâmia possível. Do contrário, o contraste não estaria estabelecido.
A torpeza de Judas ajuda a compreender melhor Nosso Senhor. Por isso que eu gostei muito, por exemplo, daquele quadro de Giotto, que pinta o beijo de Judas a Nosso Senhor e põe, portanto, aquele contraste chocante entre a perfeição da santidade e a abominação completa da traição. É que — em função de Judas — se pode conhecer algo de Nosso Senhor por contraste, que não se conheceria inteiramente sem isso. A força do contraste opera muito nisso. Opera tanto que os senhores notam que Santo Tomás de Aquino não faz uma referência ao pecado original.
* Algo no paraíso deveria dar idéia do mal; enfraquecida a noção do bem pelo pecado, o mal precisa ser mais ressaltado
Ele diz que isso é assim porque o espírito humano é assim, etc. E eu creio bem que, no próprio Paraíso terrestre, deveria haver coisa em que o homem pudesse ter idéia da morte e do mal. Porque se não pudesse ter essa idéia, a sua compreensão não seria tão completa.
Agora, o que tem, naturalmente, é que nós, trazendo conosco o pecado original, trazemos também conosco uma espécie de pendor e de co-naturalidade com o mal. Nós temos uma espécie de afinidade com o mal por causa de coisas instaladas dentro de nós.
Por exemplo, diante da mentira, a reação do homem concebido com o pecado original é muito menos vigorosa do que a do homem concebido sem o pecado original. Por isso também diante de muitas coisas feias e de muitas coisas erradas, a reação do homem é muito menor. E aí ainda é preciso que ele conheça o mal, faça uma crítica do mal para que ele faça uma retificação interna. Se ele não fizer essa retificação interna, ele não se expunge de algumas coisas. E o pecado original acaba sendo, portanto, uma razão a mais para carregar a necessidade da consideração do mal para compreendermos o bem.
Eu continuo a dar alguns textos. Talvez seja melhor isso, me fazerem as perguntas no fim, ou preferiam fazer alguma pergunta agora?
Alguém gostaria de fazer uma pergunta agora?
* O mal não existe na maior parte dos casos, como se dá na natureza, em que só pequena parte é sujeita à corrupção e ao defeito
Outro texto de Santo Tomás:
“Afirmar pura e simplesmente que o mal existe na maior parte dos casos é falso”.
Quer dizer que na maior parte dos casos, das coisas existentes exista o mal, afirmar isso pura e simplesmente, é falso.
“Pois as coisas sujeitas à geração e à corrupção, que são as únicas em que se pode encontrar o mal natural, são uma parte pequena de todo o universo”.
Não sei se os senhores estão vendo o problema bonito que ele colocou. Se será verdade que na maior parte dos seres criados existe o mal. Afirmar isso pura e simplesmente é um erro. Porque a corrupção só está no que tem geração. Ora, esses seres, ele afirmará daqui a pouco, são uma minoria no universo. Então, ele diz:
“Ademais, em cada espécie o defeito natural só se dá na menor parte dos casos”.
É uma outra bonita consideração.
* Pelo desequilíbrio do pecado, o mal existe na maior parte dos homens, por seguirem mais os sentidos do que a razão
“Só entre os homens é que o mal parece existir na maior parte dos casos”.
Vejam que coisa interessante, e isso é verdade. Quer dizer, naquele que é o rei da Criação, o mal existe na maior parte dos casos, enquanto no resto da Criação, o mal existe nos seres menos numerosos e mesmo nesses seres, mesmo [……………] espécies, ele não existe na maioria, existe na minoria. Quer dizer, uma Criação toda em ordem, e no alto dela, o rei posto em desordem, que é evidentemente, o fruto do pecado original.
(Aparte: - …)
A morte é um mal, a doença é um mal. Não é um mal moral, é um mal físico, ontológico. Agora, a razão:
“Porque o bem do homem, enquanto homem, não é o bem sensível, mas o bem racional, e são mais numerosos os que seguem os sentidos do que a razão”.
Quer dizer, a razão, portanto — se eu entendo bem este texto — a razão pela qual…
(…)
Não, não! Está muito claro esse texto.
(Aparte: - …)
Justamente, é, ah sei! E porque pondo … o sentido fica claro. É exatamente: como o bem do homem, não é um bem sensível, mas um bem moral, então convém que, na ordem humana, naquilo que o homem vê, etc., essa coisa se realize. Evidente, porque ele procura o bem moral. O mal serve ali para o bem moral dele.
(Aparte: - …)
Que aliás, é uma teoria também que arrepia; o sujeito que não se coloca no ponto de vista que nós estamos nos colocando, mas que é natural (…)
(Aparte: - …)
Os teólogos inspirados pelo otimismo da época clássica, que veio até nossos dias, que é propriamente isso.
(Aparte: - …)
“Quanto aos homens, o mal parece existir na maior dos casos, quer dizer, existe na maior parte dos casos, porque o bem do homem enquanto homem não é o bem sensível, mas “o racional, e são mais numerosos os que seguem os sentidos do que a razão”.
É verdade. Quer dizer exatamente, o homem que segue os sentidos e não a razão, é o homem que está …….. pelo pecado original e que estabeleceu esse desequilíbrio.
(Aparte: - …)
É uma conseqüência do pecado original. Ah, não. Isso é fruto do pecado original.
* Por não ser corruptiva mas formativa, a Providência deixa cada coisa em sua natureza; é anti-carreirosa e anti-parvenu
Outro texto muito interessante é o seguinte:
“É próprio à Divina Providência deixar cada coisa em sua natureza”.
Esses princípios gerais de ordem são uma beleza e abrem caminho para uma série de considerações, por exemplo, inteiramente diferentes.
Por exemplo, a tese de que cada pessoa deve ficar na condição social na qual nasceu se fixa nesse princípio. Quer dizer, quando a gente, portanto, quer promover a ascensão social é uma coisa boa; mas a gente quer aí promover a ascensão de toda classe, dentro de sua própria condição. Por exemplo, melhorar e dignificar a profissão dos médicos, ou dos advogados, ou dos operários, ou seja lá o que for, mas dentro da própria condição.
Não é propriamente essa espécie de desenvolvimentismo de querer arrancar todo mundo à sua própria classe para subir, todo mundo faz carreira, todo mundo é parvenu, os parvenus que exorbitaram da própria carreira. Agora, por que? Por causa desse lindo princípio estabelecido aqui. É próprio à Divina Providência deixar cada coisa em sua natureza. Quer dizer, isso é o modo pelo qual normalmente se governam as coisas. Agora, ele continua:
“Porque a Providência não é corruptiva da natureza, mas formativa”.
Realmente, é uma coisa que não tem nada…Se todo mundo deixasse de ser, por exemplo, operário, — não é? — o estado de operário como estado que deve existir, se degradaria. Agora, ele continua:
* É impossível nivelar por cima, pois uma natureza elevada a grau superior diminuiria a bondade do universo pelo vazio de um grau
“Se alguma natureza fosse modificada, sendo elevada do grau que lhe é próprio para um grau superior, embora a essa natureza daí lhe adviesse algum bem, no entanto haveria uma diminuição da bondade do universo”.
Os senhores estão vendo, portanto, que é aquilo que o otimismo quereria insinuar — que era bom que todo mundo subisse o mais possível, o tal nivelamento por cima, o tal acabar com essa espécie de relativo mal, que é a desigualdade e o contraste entre os desiguais, serem todos iguais, que faz parte do otimismo norte-americano, isso também é o contrário à ordem posta pela Providência.
Diz Santo Tomás o seguinte: “Se alguma natureza fosse modificada sendo elevada do grau que lhe é próprio para um grau superior, embora lhe adviesse algum bem — a essa natureza — no entanto haveria uma diminuição da bondade do universo”.
Agora, ele vai dar a razão: “pois nem todos os graus de bondade estariam preenchidos, mas permaneceria vazio aquele grau de que tal natureza foi tirada”. Estão percebendo a impostação profundamente anti-igualitária disso? Esta espécie dos graus como contraste para a compreensão e, portanto, do melhor para o menos ruim, como faz parte da ordem do universo, e como a gente compreende aqui que também nesse contraste acaba havendo o lugar do mal, que não é um lugar dentro da ordem, mas é um lugar dentro da possibilidade que — ficando vazio — de algum modo prejudica essa imensa escala.
Quer dizer, é um texto admiravelmente anti-igualitário, mas é um texto que tem alguma relação com o assunto de que estamos tratando.
Não sei se gostariam que eu repetisse o comentário deste texto, ou não. O texto?
“É próprio à Divina Providência deixar cada coisa em sua natureza; porque a Providência não é corruptiva da natureza, mas salvativa. E se alguma natureza fosse modificada, sendo elevada do grau que lhe é próprio para um grau superior, embora lhe adviesse daí algum bem — a essa natureza — no entanto haveria uma diminuição na bondade do universo”….
Agora, razão:
“pois nem todos os graus de bondade estariam preenchidos, mas permaneceria vazio aquele grau de que tal natureza foi tirada”.
Como é? Ainda que fosse menor.
* Princípio super anti-igualitário que se aplica ao campo social à Igreja, à ordem do universo
(Aparte: - … (parece referir-se ao evolucionismo).
Ah, enorme. É, exatamente. E é fundamentalmente isso anti-igualitário, anti-evolucionista. Também, sem patrões. E por uma espécie de otimismo, para não ter a dor de ver alguém ser rico.
(Aparte: - …)
A desigualdade, um dos lados por onde ela implica o espírito contrário ao sofrimento, implica num relativo, não propriamente num sofrimento, mas algo parecido com isso, o fato de que um é mais e outro é menos. Não é verdade? Tem algo semelhante a isso. Não é?
Agora, aqui o que é muito bonito é toda espécie de coisas que se esclarecem com esse princípio. Por exemplo: que na Igreja deve haver, ao mesmo tempo, ordens religiosas que sejam do tipo, vamos dizer, eremitas, como ainda há hoje, até a ………..
Mater Ecclesia, faz parte do progresso da Igreja, porque todos os graus possíveis de vida religiosa devem existir. E a Igreja não acabaria, não terminaria, enquanto esses graus possíveis não florescessem. Assim a gente poderia dar uma série de outros exemplos, outras comparações, que se baseiam nessa doutrina dos graus.
(Aparte: - …)
… a ordem toda do universo, não se fala disso. Agora, os senhores estão vendo como essa — eu vou usar uma expressão horrível — essa nossa religião católica, essa que nós professamos, se ancora bem em Santo Tomás, e como a outra está distante de Santo Tomás para tudo. Esse pessoal estuda Santo Tomás por aí e uma coisa dessas sair, não sai nunca.
Vamos dizer por exemplo, …………. absolutamente.
* A fobia da dor e do feio é errada porque ainda do mesmo mal Deus tira o bem para alguém ou para o universo
Está cansando um pouco essa série de textos ou gostariam de continuar? Outro texto:
“Todos os males que Deus fez ou permite que se passem, ordenam-se para algum bem. Nem sempre porém, para o bem daquele em que está o mal, mas às vezes, para o bem de outrem ou ainda para o bem de todo o universo”.
Aqui os senhores estão vendo, portanto, que o mal é bem para outrem, é bem para alguém; ou para aquele que fez o mal, ou para outrem, segundo uma espécie de Providência de Deus que tira o bem do mal. E portanto, essa espécie de fobia daquilo que é sofrimento, daquilo que é dor, daquilo que é feio, essa espécie de fobia é uma coisa profundamente errada. Agora, por que que ela é profundamente errada?
Porque exatamente Deus tira disso um certo bem. Se nós fôssemos eliminar, fôssemos querer o universo sem isso, nós teríamos uma diminuição do bem do universo. Os senhores estão vendo que é uma coisa claríssima. Outro trecho de Santo Tomás?
* Aplicando aos sons: deve haver trovoada e canhões, além de música suave, para harmonia e para reflexo da cólera divina
(Aparte: - …)
Olha aqui, Vita. Eu, outro dia, estava vendo um trovejar, e estava pensando com meus botões: muitos cretinos, se pudessem, eliminavam o trovão. Você sabe que há, põe um pozinho no céu para não trovejar. Gastasse o que gastasse, eliminariam o trovão. Ora, eu pensava com meus botões: no mundo dos sons, você tirando desde a música mais delicada até o trovão, o mundo dos sons estaria irremediavelmente………
… se a música da cólera de Deus não figurasse no trovão, que é uma música admirável; se houvesse um disco com trovoadas, eu teria esse disco, de tal maneira há qualquer coisa que no desdobrar da cólera majestosa de Deus, que vem de cima sem esforço, roncando grosso, caindo em cascatas de ameaça — está compreendendo? — há qualquer coisa que não entende a harmonia quem não entende isso.
Quer dizer, eu mesmo seria um indivíduo manco de alma se nunca houvesse ouvido uma trovoada; se eu nunca tivesse visto uma pessoa, com razão, passar pito na outra e humilhá-la, se nunca tivesse visto a punição em seus vários aspectos. Ou então, no direito penal de antigamente, aquele caráter de punição exemplar, aquilo é uma coisa que se fundamenta muito aqui. Enquanto o direito penal de hoje, que é para tratar de um doente, não tem sua razão de ser. Ele procura eliminar esse aspecto do mal. Não é?
Por que de onde é que vem a beleza do tiro? Se vê, por exemplo, uma salva de canhão com todos os sinos das igrejas repicando. Olhem que até quanto à salva de canhão eu tenho uma objeção, porque eu acho o canhão muito bonito e não vejo no canhão a classe que eu vejo no trovão, mas eu prefiro que se dê a salva de canhão do que uma recepção adocicada só com sino: bem, belém, bem, bem, bem, berem, bem, bem.
Não senhor, ponha um rugido qualquer dentro disso para que o ruído em torno tenha graça. O trovão seria uma brincadeira.
* O raio com sua majestade ameaça e cumpre, o que não agrada à mentalidade adocicada
(Aparte: - …)
É uma conseqüência do raio, mas, vamos dizer, é uma conseqüência, mas é um prenúncio de que vem outro raio, de que está trovejando. E psicologicamente, ele é bonito como uma ameaça da qual o outro raio é o cumprimento; como eu disse, vem outro.
Aliás, o raio é lindíssimo. …… o estrépito do raio, a majestade, é maravilhoso.
Eu compreendo que haja gente de mentalidade adocicada que não goste realmente de raio, quer dizer, da ação do raio. Mas eu…
(Aparte: - …)
Bem, há mais textos aqui. Quem sabe era melhor nós vermos os textos todos de uma vez. Como preferem? Preferem ficar aqui e continuar de outra vez?
Querem continuar? Tem outro tanto.
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Como é? Posso, perfeitamente. Então, quem sabe se pode ficar guardado, aqui.
Caio, Vita. O que que há? Vamos ver quem quer continuar?
Bom, basta haver alguns que queiram interromper, para ser melhor.
Você quer guardar, Caio? Vocês querem fazer o favor de providenciar? Querem rever? Isso para guardar, para ter, seria interessante. Esses grandes são textos que assinalei.
* Apresentar o mal moral como feio e lutar para extingui-lo
(Aparte: - …)
Não, e depois, José Fernando, para forrarem nossa posição contra a “heresia branca”, fica incomparável. É outra religião. Essa religião da presença do mal, está compreendendo, naturalmente, o mal moral apresentado enquanto feio, [ …….] deve insistir nisso; não enquanto bonito. Mas essa presença, sem ela não tem nada.
Por exemplo, essa história de cara alegre… dando logo nome aos bois, não é, José Fernando?
(Aparte: - …)
Não, não, não. Extinguir o mal moral, sempre. A gente não deve nunca deixar de lutar para extinguir o mal moral, porque ele arranja um jeito de, por si mesmo…
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O isolado e o fechado existem em função de uma grande noção do mal que está lá fora. E aqui dentro só não é uma fábrica de bobos na medida em que vem a noção de que fora há o mal, fora é o mundo do pecado, noção de lutar contra o mundo do pecado. Ali, aquilo toma jeito. Porque se é uma clausura e, lá do lado de fora, existe o bem também, então aquilo tudo não tem razão de ser; é uma palhaçada…
Dá só isso e acaba a questão. Mas um jornal que de mil modos tem tratado disso na prática, em certo momento dá isso como teoria, ou numa pessoa que tem nossa formação e tem visto isso de mil modos e em certo momento aflorar a teoria, então, em função de mil coisas ditas, põe em ordem…
… com o MNF também. Mas em horas tantas. Isso no MNF tem que entrar em horas tantas.
* É legítimo aproveitar todas ocasiões, com toda vigilância, para provocar cristalizações para o bem
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… conjunto, ah é? Por exemplo, você veja o seguinte: se nós hoje fôssemos pegar essa pequena exposição que eu fiz e fazer um seminário, não adiantava quase nada.
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É, é, e isso é muito bom para nós, porque isso vem em função de mil coisas de anos de formação. Então, aí se encaixa. Do contrário, não.
Mesmo essa história de seminário de que vocês falavam há pouco, eu pergunto: um seminário, vamos dizer, um seminário comum, vamos dizer um arcebispo ultramontano. Entra um seminarista gato-louco, litúrgico dentro do seminário, e que diz as coisas mais ousadas e produz cristalização. Esse arcebispo deve por fora o seminarista? Ou pode conservá-lo durante algum tempo para ele produzir a cristalização? Eu sou mais pendente — não estou inteiramente certo — mas estou mais pendente de que ele pode conservar e até deve conservar.
(Aparte: - …)
O que deve, naturalmente, é preciso vigiar muito para evitar que ele possa ter contato com mais algum outro, para fazer mais um discípulo, porque isso não seria direito. Mas se houver uma vigilância enorme, eu seria propenso à idéia de que sim…
(Aparte: - …)
É, não, naturalmente o que tem é o seguinte: o mau sempre pode encontrar um filho das trevas apetente para receber, e que receba. A pergunta tremenda é a seguinte [………]
É aí é que está a questão. Eu não estou certo, mas é uma hipótese…
Aliás, quem quiser objetar, quem quiser se levantar esteja à vontade.
* Necessidade de não ficar em pura doutrina, mas acautelar para a influência do ambiente, dos imponderáveis
O que me parece é o seguinte: você pega, por exemplo, a igreja de São Pedro, igreja que nesse sentido sensível da palavra, pode ser de algum modo considerada de uma beleza perfeita. Não no sentido intelectivo, mas no sentido sensível da palavra, é uma linda igreja. Você tira dessa igreja toda a representação do mal, você solta uma apetência de equilíbrio que vai produzir ouvidos bons para a igreja dos dominicanos. […]
Ao cabo de alguns séculos de só ver coisas dessas, acaba uma espécie de desejo de equilíbrio, que leva o sujeito — naturalmente esse desejo se deturpa, sed desnatura etc etc, para ter o espírito aberto para as caretas da arte moderna. Quer dizer, ao longo de séculos vai se………….., dá nisso.
Que que tem Arnaldo?
(Aparte: - …)
Eu não estou certo, eu acho.
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A questão é a seguinte: é um problema, problema sem fundo. Mas a questão é a seguinte: enquanto não existisse o grupo para dar uma formação que permitisse ao sujeito a resistir a todos os imponderáveis…… e aquelas coisas todas, era possível ele formar-se verdadeiramente. Com todo, já não digo respeito, mas minha boca não tem palavras suficientes para exprimir o grau de veneração, mas você pega, por exemplo, os grandes fundadores de seminários da Contra-Reforma, etc. Eles teriam sabido acautelar os seus discípulos contra o ambiente… o suficiente? Era a manutenção de uma espécie de ascese meio medieval que levava a … fazer qualquer coisa.
Não sei se eu me exprimo bem?
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Ah, isso é muito verdade.
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É a idéia de ver a vida no…………………….. José Fernando.
Ah, o completo oposto disso.. Acho que sim. A arte moderna só quer pôr o mal, digamos assim. Eu vi um comentário outro dia….
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1 Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.