Pelo
texto, nota-se que esta reunião foi posterior à do dia
16/5/1964. Portanto, em – – p.
Reunião para o Grupo da Martim 1 — 23/5/1964 2 — Sábado [ER 088]
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São Tomás e a dor II
O mito da vida sem sofrimentos * A “sofritiva”
Índice
* A razão mais profunda dos desequilíbrios modernos está na idéia de que é possível levar uma vida sem sofrimentos 2
* Concepção equilibrada da vida: realizar o fim para o qual fomos criados, custe o que custar 3
* Dois exemplos, um extraído do Evangelho e outro do “Saint-Malot 4
* “Não há coisa mais adequada para conferir nobreza à alma do que o sofrimento 5
* Ao fugir do sofrimento, o homem acaba por não desenvolver plenamente sua inteligência 6
* Outra forma de imbecilização: fugir do sofrimento de pensar seriamente 7
* Dois efeitos do medo de sofrer no plano intelectual: a falta de varonilidade e a superficialidade de espírito 9
* Coragem de sofrer e força de vontade são conceitos co-idênticos 10
* O medo de sofrer em matéria de sensibilidade dá origem às vivências contrárias à razão 11
* Um exemplo de má vivência tirado da história do Marechal Liautey 12
* Não temos a obrigação de nos colocarmos diante de todo e qualquer sofrimento, pois a Providência nos dá uma noção do que devemos realizar na vida 14
* Com esta reunião, a falsa filosofia do sucesso cai por terra 15
* _ * _ * _ * _ *
Nós fizemos, na última reunião, algumas considerações que eu não vou senão terminar na reunião de hoje, umas considerações a respeito do sofrimento.
Lembram-se de que nós tínhamos falado, enfim, de vários aspectos dessa questão, e eu devia falar hoje a respeito.
* A razão mais profunda dos desequilíbrios modernos está na idéia de que é possível levar uma vida sem sofrimentos
A reunião última foi centrada mais em torno daquele mito, não é verdade? Mito de que se pode organizar, nessa terra, uma vida sem sofrimento, de um lado. E depois, de outro lado, a idéia, a ignorância desse fato fundamental, centro da psicologia humana, que é que dentro de cada alma humana, em virtude do pecado original, existe, por assim dizer, uma “sofritiva”.
Assim como se fala de uma cogitativa, existe uma “sofritiva”.
Quer dizer, uma como que necessidade, capacidade de sofrer que, quando não se esgota pelo sofrimento efetivo, [causa] uma frustração maior e que faz sofrer mais do que o sofrimento. De maneira que, em última análise, o modo menos [desagradável] de levar a vida, ainda consiste em sofrer.
Eu me lembro que tínhamos tratado de vários aspectos dessa questão e isso se conecta um pouco com estatísticas que o Edwaldo trouxe na última reunião.
Eu acho que uma das razões profundas exatamente dos desequilíbrios modernos não é tanto que as pessoas não sofrem, por que sofrem e sofrem muito. Mas é que as pessoas acabam estabelecendo na cabeça a idéia de que é possível levar uma vida sem sofrimento. E depois, inauguram uma série de fraudes psíquicas para levar uma vida como se não sofressem.
Então, disso se estabelece, aliás, uma espécie de regime de tapeação eterna, um regime de falseamento psicológico, cujo efeito é necessariamente um desequilíbrio mental. Eu não quero dizer que essa seja a causa determinante, mas eu acho que é uma causa muito poderosa para isso...
(...)
Era o tipo de homem que tinha posto no seu programa “não sofrer”, e que tinha uma forma especial de sofrimento, da qual ele fugia, que eram todos os sofrimentos da alma desordenada posta na solidão e no silêncio. De maneira que se se pusesse aquele homem na solidão e no silêncio, ele estaria como posto no inferno. E então, ele tinha uma necessidade de estar continuamente junto com outras pessoas e falando. Porque a fobia que ele tinha ao silêncio era tão grande que — não é dizer só que ele não podia ficar num lugar aonde não se falasse, aonde não houvesse movimento — mas ele tinha que falar, porque, do contrário, só o silêncio dentro dele começava a falar. Então, tinha que falar ele, tinha que mexer ele, tinha que dizer ele, tinha que estar ele em contato com todo mundo para fugir aos tormentos que a solidão impõe para esse tipo de gente.
Bem, a solidão e a inação. Porque gente que não gosta de ficar muito tempo quieta, não gosta de ficar muito tempo parada. O silêncio e a inação são coisas conexas.
E então, o estar permanentemente na calma passando etapas grandes da vida sem agir e, compreendendo que o miolo da vida é a etapa que se passa sem agir, como é a etapa que se passa em silêncio, que é propriamente [viver].
Se a história de uma alma feita por Deus é mais a história dos silêncios e das inações da alma do que quando a alma está falando, está agindo... bem, então, ele3 não querendo estar também quieto, estava um homem num movimento completo, e que foi num crescendo até a hecatombe dele, num crescendo tal que, no último período dele — Frei Jerônimo talvez se lembre desse fato — ele andava de automóvel com um gravador dentro e dando aulas dentro de um automóvel. De maneira que o gravador era levado depois para não sei que cursos, em que funcionava.
Ele dava aulas de religião por essa forma. Agora, o que é que é isso? É uma pessoa que acreditou na possibilidade da felicidade; toda a cara dava a impressão de que esse mito de felicidade era possível, mas ele estabeleceu um regime de evasão que tinha que dar no psiquismo — sobretudo se ele fosse geração nova tinha, que dar no psiquismo — de uma evasão contínua das condições normais do funcionamento psicológico, para ver se conseguia a realização desse mito que as circunstâncias externas não proporcionavam.
Bem, de onde, debaixo desse ponto de vista, uma forma, um exemplo de como esse mito de felicidade a ser realizado na terra é um mito que provoca, de fato, muitas das psicoses que hoje se passam.
Os senhores dirão: “Está bom, mas na Rússia o povo sofre de fato”. Mas quantos não acreditarão nessa possibilidade de não sofrer? E não raro se torcem ou não se retorcem, e não fogem do sofrimento pela ilusão de que ele não nos alcança? E com isso eles acabam constituindo para si psiquismos de várias [...]
Quer dizer, essa idéia de que se pode viver sem sofrer, essa idéia de que, paradoxalmente falando, a felicidade da vida consiste em não sofrer — porque nem consiste nisso; a felicidade da vida consiste em sofrer com conta, peso e medida em vista de um determinado fim e ter o bom sofrimento que justifica esse fim, essa é que é a felicidade da vida, e ser capaz de sofrer — está bem, as pessoas se não põem isso em vista, não só começa a degradação moral, mas começam as psicoses de várias naturezas.
* Concepção equilibrada da vida: realizar o fim para o qual fomos criados, custe o que custar
Bem, eu enuncio então, aqui, um outro aspecto da tese, antes de passar adiante, e o aspecto é esse que eu acabo de dar, do que é possível como felicidade na vida. Alguma felicidade na vida é possível, mas essa felicidade não consiste em não sofrer, e um dos maiores enganos consiste exatamente [em imaginar um] mundo organizado com “cadillac”, com não sei, com quanta coisa assim, [que] proporcione de fato a inteira felicidade com que ele sonha. A verdade é diferente dessa.
Como o homem tem essa espécie de capacidade “sofritiva” que tem que acabar se esgotando, realizando o sofrimento, e como ele sofre mais não sofrendo, a questão é ele sofrer de um sofrimento que seja, por assim dizer, adequado e proporcionado a ele. Quer dizer, um sofrimento que seja, por assim dizer, ortopédico para ele. Que faça bem para a alma dele e um desses sofrimentos que a alma dele é capaz de agüentar. Porque a capacidade de agüentar sofrimento que a alma humana tem é uma coisa prodigiosa. Mas é simplesmente prodigiosa.
Bem, então, o sofrimento que ele é capaz de agüentar, e que tem uma razão de ser e um fim que ele compreende, que ele julga que está realmente proporcionado àquilo que ele fez. Não é verdade? Quer dizer, o que ele sofreu é proporcionado ao objetivo desse sofrimento. E que ele foi capaz de lutar aquela luta, de vencer aquele combate, de agüentar aquela coisa que ele tinha que agüentar, que ele dá por bem empregado e que com isso ele realizou o seu fim. E ele conseguiu aquilo que ele queria e devia ter conseguido.
Quer dizer, o que está no fundo dessa concepção de vida é a idéia de que a única forma de felicidade verdadeira na vida é que a pessoa consiga o fim para o qual existe; e que na consecução do seu fim se torne feliz. Por mais que custe, por mais que doa, por mais que seja difícil, conseguido o fim a pessoa está feliz.
* Dois exemplos, um extraído do Evangelho e outro do “Saint-Malot”, mostram-nos a alegria de obter-se um fim, ainda que com grande sacrifício
A gente vê uns lampejos disso no Evangelho. Por exemplo, quando Nosso Senhor fala da mulher que vai ter uma criança, uma mulher que vai dar à luz um filho. Então, a apreensão da mulher antes de dar à luz; e depois a alegria depois de ter dado à luz. É propriamente a alegria, cheia de sofrimento, da maternidade. Quer dizer, uma coisa que faz sofrer muito, mas que dá a alegria da coisa que devia ter sido feita e foi feita. O normal é que ela fosse mãe, que ela pusesse um, oito, dez homens nessa vida. É um fim pequeno para uma pessoa privada, sem uma vocação especial. Bom, tivesse oito, dez filhos; ela teve os oito, dez filhos que [deveria ter] e realizou com isso uma espécie de missão terrena, de vocação terrena. Custou-lhe barbaramente. Quando ela olha para trás, para tudo quanto lhe custou, ela olha com saudades, ela olha com satisfação. Por quê? Porque, afinal de contas, o fim foi obtido.
Essa alegria do fim obtido, essa alegria daquilo que deveria ter sido feito e que foi feito, a gente vê muito, por exemplo, naqueles marujos do tipo do Saint-Malot, lá dos Juniores, da Aureliano.
Eram piratas que passaram pelos mares, passavam por coisas horríveis; um tinha perdido um olho num lugar, outro tinha perdido uma perna, riscos pavorosos, momentos em que estavam em mar alto, a onda, o navio estava lá na coisa, quase veio abaixo e apareceu tal duende, apareceu um demônio e quantas coisas eles contavam no meio disso. Está bom, quando chega a ocasião em que termina a navegação, o sujeito se recolhe para um bar do tipo Saint-Malot, toma umas bebidas fortes dessas explosivas arranca-toco, e a alegria não é de chegar... [inaudível] ...mas é de dizer o contrário:
— Lembra-se, Fulano, que coisa magnífica aquela hora de apuro em que nós passamos juntos?
— Homem, é verdade! Lembra-se daquilo? Lembra daquilo outro? Que fantástico.
É mais um sofrimento que constitui o tesouro da vida deles. Quer dizer, aí os senhores estão vendo essa espécie de “sofritiva” quando ela é feita com ordem a um fim, em que o sujeito acha que conseguiu o que devia conseguir, quando a “sofritiva” é esgotada com ordem a um fim, então acontece exatamente que o sujeito tem esta forma dura e áspera de felicidade que o sujeito pode ter na terra.
É interessante que essa forma dura e áspera de felicidade simboliza até não só em toda uma arte decorativa, por exemplo, esses barracões tipo Saint-Malot que não são feitos... alegrias adocicadas não entram. É aquele Saint-Malot forte como viram ali; bom, onde se bebe umas bebidas fortes; dá-se gargalhadas que são gargalhadonas, comem-se uns pratos meio arrebenta-estômago, está compreendendo?
E é tudo até um pouco abrutalhado, ouviu? Mas é um pouco abrutalhado para um regozo subconsciente do melhor gozo da vida, que são os sofrimentos que foram vividos em comum, e que deram exatamente essa sensação de vida realizada, de missão cumprida, cumprida porque se sofreu, em que o sujeito sente a autenticidade da vida que teve pelas razões pelas quais ele sofreu.
Este aspecto da coisa, este aspecto é de uma importância transcendental para a gente compreender bem o problema do sofrimento e para compreender o problema da psicose e da frustração moderna, e do errado que há em querer exatamente organizar uma vida sem sofrimento.
Quer uma vida de inferno? Eu dou a receita logo: evite sofrer. Os primeiros dias são deliciosos. No meio, vem de vez em quando uma cobrinha, que já é o anti-gosto das delícias. Depois, deixe passar alguns dias, veja o resto. E a gente então compreende o que é a vida do indivíduo que evitou de sofrer. Uma verdadeira barbaridade.
* “Não há coisa mais adequada para conferir nobreza à alma do que o sofrimento”
Considerando muito rapidamente a frustração nesse ponto, como os senhores estão vendo bem, eu estou evitando tocar ainda nos aspectos sobrenaturais do problema . Eu estou, intencionalmente, me restringindo aos aspectos naturais. Considerando isso, eu reporto agora a uma outra coisa, que é o seguinte: se o homem conseguisse não sofrer, ou quando um homem consegue não sofrer, nesse não sofrer entre aspas, ele, em vez de ter o sofrimento positivo e estimulante daquele que sofreu, ele teve o sofrimento depressivo, cheio de covardia, cheio de vileza e de imundície, do homem que não quis sofrer.
Então, quando isso se dá, quais são os efeitos que se dão na alma? Então, o que eu sustento é o seguinte: que não há coisa mais adequada para conferir nobreza à alma do que o sofrimento; que não pode haver nobreza para a alma sem sofrimento. E que a gente pode imaginar os mais variados tipos de temperamento e feitios de personalidade, se a gente tirar deles, dessas almas, o apreço pela dor e a dor efetivamente sofrida, essas almas ficam não valendo absolutamente nada.
Quer dizer, aqui já não é mais o êxito da vida humana externa, mas o êxito da vida humana interna; é debaixo desse ponto de vista que a gente deve considerar a coisa.
* Ao fugir do sofrimento, o homem acaba por não desenvolver plenamente sua inteligência
Como é que nós poderíamos dizer isso? Nós poderíamos dizer a coisa da seguinte maneira: que não há faculdade de alma que não seja de tal maneira, depois do pecado original, que sem o sofrimento, ela não adquire a sua verdadeira plenitude. Nós poderíamos começar pela inteligência.
O Arnaldo esteve me separando uma série de textos de São Tomás de Aquino que tratam da questão da consideração do mal na inteligência humana, mostrando como é na consideração do mal, quer dizer, que existe o mal, e é no contraste entre o mal e o bem que a inteligência humana tira algumas de suas melhores noções a respeito do bem. Como é no contraste entre a verdade e o erro que a inteligência humana tira uma de suas melhores noções a respeito da verdade. E eu pretendo exatamente tratar disso numa reunião, eu estou com os textos no meu bolso.
Acaba acontecendo que uma das formas pelas quais muitas almas procuram evitar o sofrimento é o otimismo metódico, o otimismo sistemático. Esse otimismo consiste em não querer pensar a respeito do erro, não querer pensar a respeito do mal e viver como se o mal e o erro não existissem. E é uma das formas de evitar o sofrimento.
Quando uma pessoa não gosta de meditar a respeito do erro, não gosta de aprofundar até onde o erro é capaz de levar as pessoas, não gosta de tomar em consideração a tremenda capacidade de atração que o erro tem, e, portanto, a tremenda fragilidade natural da verdade nessa vida. Quando a pessoa não gosta de pensar a respeito do mal, gosta de pensar que todo mundo com que trata é bom, que todo mundo com que trata é bem intencionado, que as coisas provavelmente vão correr bem e se deixa enleiar por uma espécie de otimismo que traz uma espécie de obesidade mental e de... [inaudível] ...mental, o que é que acontece?
É que, na medida em que isso acontece, a pessoa pode ser mais inteligente ou menos inteligente, mais capaz ou menos capaz; a pessoa pode fazer-se “intalacta” e escrever uns livros. Um homem verdadeiramente inteligente, na força do termo, esse nunca será na vida. Porque aquele gume da inteligência, aquela força da inteligência, aquela plenitude de compreensão da inteligência, aquela varonilidade da inteligência — porque o homem na plenitude de sua inteligência não consiste em ser muito instruído, consiste em ser varão — essa varonilidade da inteligência o homem não adquire, em última análise porque ele evitou, porque ele fugiu de meditar a respeito do mal, de meditar a respeito do erro; ele fugiu de ver essa vida como um vale de lágrimas, um campo de luta que é. E por causa disso, ele acabou sendo um homem colocado à margem de toda sabedoria, e colocado à margem de toda visão da realidade.
Querem ver uma prova disso? (...) ...personagem tantas vezes celebrada entre nós e tantas vezes comentada aqui, entre nós, como talvez ele não imagine. É verdade... (...) ...por si mesmo, tem um certo valor que merece que ele seja analisado numa reunião dessa importância.
Bem, eu sei que eu vou... agora, você levou um olhar... como é? Você levou dois? Bom, eu não nego a inteligência... que é que fez... não fosse um homem... [inaudível] ...foi porque, você sabe bem o horror, hein?
O horror a considerar a verdade e o erro, o bem e o mal, a ver as coisas como devem ser. Deu o sujeito que não é o varão. É um homem feito de macarrão. É farinha, ouviu?
(Sr. -: [Inaudível])
Não, manda ela e ele nunca. Agora, por que é que ele ficou tão bobo daquele jeito? É a recusa da inteligência de considerar esse lado negativo da vida. Evidentemente, com essa recusa vem uma vida muito cômoda e dá um dos aspectos do “intalacta” contemporâneo.
Fernando, como é? Fábio?
(Sr. -: [Inaudível])
Pois é, acabou descobrindo coisas que não queria ver, angústia, etc. Mas, Fernando, muito professor “intalacta” de universidade é isso. É um funcionário público que tem seus estudos, que tem suas fichas, foge de qualquer consideração da realidade... é um meio de conseguir isso. Você faz tempo integral e toca a vidinha. Tem uma mulherzinha que o trai ou que não o trai, e toca a vida.
E muito intelectual moderno é isso. Não quer considerar esse aspecto da coisa. O reverendo clero... quantos sacerdotes por aí os senhores conhecerão que gostam de olhar o mal e o bem, o erro e a verdade, e de aprofundar toda a malícia do gênero humano?
[É a] imbecilização que é o merecido castigo do fato do sujeito não querer ter esse sofrimento.
* Outra forma de imbecilização: fugir do sofrimento de pensar seriamente
Mas há uma outra forma de sofrimento da inteligência, cuja fuga imbeciliza também muito o sujeito. É o seguinte: o sofrimento próprio da inteligência, o delicioso sofrimento da inteligência é a alegria e o tormento de quem faz a coisa gostosa, que é pensar. Não é estudar, hein! Eu nunca disse que estudar é gostoso; gostoso é pensar.
Estudar é um subsídio para pensar. É gostoso quando a gente pensa depois de ter estudado. E é horroroso quando a gente estuda e depois não pensa no que estudou.
Está bem, é o esforço. Pensar causa esforço. Pensar seriamente, sobretudo, é uma coisa que exige um esforço enorme. Porque pensar seriamente é o pensar em função dos últimos fins, pensar em função das mais altas razões. E, portanto, saber aprofundar, aprofundar, aprofundar, até ter tido aquela sensação que é a paz da inteligência, de que a gente tocou no fundo do problema, e que a inteligência da gente repousa no terreno onde o problema se resolve. E, portanto, repousa já antecipadamente na solução do problema.
Eu digo francamente, tanta coisa quanto eu leio, por exemplo, qualquer pedacinho de São Tomás que o Arnaldo ou Paulinho lêem na reunião, é uma coisa que me dá impressão de paz. Que São Tomás pensou duro, e pacificou, ficou alegre.
Querem uma idéia do inferno da inteligência? ...gente que diz que estatística provou isso ou aquilo e dá a estatística. Muitas vezes... a estatística nos tira de muitos apuros e ajuda a provar muita coisa boa, mas que há um manejar de estatística que a gente vê que do lado direito do quadro é que estão os números, todo mundo confere; do lado esquerdo... — está compreendendo? — se entende mais ou menos, está compreendendo?
Muita gente — isso não é indireta para ninguém aqui dentro — que pega balancete, lê o balancete e diz: “Não, a firma está próspera”. Eu fico com vontade de dizer: “Olha aqui, deixa eu estudar uns quinze dias de contabilidade, eu te faço um aperto a respeito desse balancete aqui e eu quero ver o que é que você entendeu do lado esquerdo do balancete, está compreendendo? Você entendeu o nome do pessoal do conselho fiscal e você entendeu que deu lucro à firma. Mas você compreendeu bem se tem ou não tem chantagem, fraude desse lado de lá, e o que está aí, etc.? Quer dizer, não se atormente. Não tenha respeito humano, me diga direito o que é que é isto”.
Tormento, tormento, tormento. Tudo isso dá numa série de tormentos, um em cima do outro. Bem, o que é que é? É a inteligência que quis fugir do verdadeiro sofrimento de ser verdadeiramente profunda, de pegar os verdadeiros problemas; de não se contentar com esse tipo de probleminha que a gente encontra habitualmente nos livros, mas de querer ir — à força de amor à verdade, à força de amor a Nosso Senhor e de não se incomodar de sofrer verdadeiramente — querer ir de fato ao fundo da questão e ver como é a questão, tendo inclusive uma certa independência, uma certa originalidade para dissentir dos tratados.
Mas quem é que se quer dar a esse trabalho de fazer isso? Pelo contrário. A maior parte das pessoas vive numa espécie de regime de tapeação em que me dão mais a impressão de planadores do que de aviões. Está compreendendo?
Porque, para mim, o planador é a arte de tapear no ar. Bate um ventinho, encosta de cá, depois vem um zéfiro, voa de lá e faz... [inaudível] ...de cá e de lá, vai assim patinando pelo meio do ar, com um rumo de que o sujeito mais é carregado pelo ar do que propriamente ele vai onde ele quer. Está compreendendo? Quando ele pousa, ele sai lampeiro, diz que “pousei”.
Vamos dizer a verdade, você pousou onde você queria, ou você está plantado onde você chegou? Você teve a coragem de querer qualquer coisa antes de levantar vôo? Ou você se dá por contente de não ter espatifado?
Eu queria muito saber isso. Muita gente também aprende tal coisinha, serve depois para tal coisinha, etc., etc., dá uns jeitinhos, está compreendendo? E pensa que fez um itinerário. Nenhum. Isso é forma de preguiça. Mas dá em todo mundo, ou melhor, dá em tormento. E dá em tormento, dá em atrofiamento da inteligência. A inteligência podia ser muito maior, a inteligência podia ser muito mais profunda, ela não é porque o sujeito... [inaudível].
* Dois efeitos do medo de sofrer no plano intelectual: a falta de varonilidade e a superficialidade de espírito
Então, o que é que dá medo de sofrer no plano intelectual? Dá, de um lado, a “desvaronilização” do espírito e, de outro lado, dá esse efeito: a superficialidade. O espírito, na ordem de conhecer a vida, é um espírito sem varonilidade. Na ordem do conhecimento científico, na ordem do conhecimento intelectual, intelectual de caráter superior, é um espírito sem profundidade. Quer dizer, sofre e se atrofia. Fica pouco apreciável e fica pouco apreciável por causa disso. Agora, quanta gente foge disso... Eu estava falando...
Eu creio não ser generoso, eu já lhes disse que eu acho — ainda hoje na Comissão B, eu tive ocasião de dizer isso — que eu considero que habitualmente os homens são muito mais inteligentes do que pensam, e que há muita gente muito inteligente. A opinião que eu tenho é que a grande maioria das pessoas é bem inteligente — é a opinião que eu tenho — desde que queira aproveitar a inteligência que têm. Isso muito pouca gente o é, muito pouca gente quer. Bem, mas dentro dessa linha, o... [inaudível] ...não se pode negar isso, tinha uma bela inteligência. Não vou dizer que fosse uma grande inteligência, mas uma bela inteligência.
Porque que o... [inaudível] ...nada no plano intelectual? Porque ele tinha todas as formas de falta de coragem que a gente possa arranjar. Inclusive a falta de coragem de passar muito tempo sem aparecer, fazendo estudos que todo mundo ignora, para, um belo dia, lançar um estudo que tenha um certo porte.
Ele, não; tinha que industrializar, tinha que produzir uma conferência logo depois de ele ter estudado qualquer coisinha. Então ele pegava um alfarrábio qualquer, nunca era... [inaudível] ...evidente, nem qualquer pensador mais brumoso, um pouco mais quebra-dentes, não. Era um divulgador espanhol de Kant, uma coisa assim.
Ele lia aquilo... [inaudível] ...e dizia: “Senhores, Eugênio Bodegas, no seu magistral comentário de Kant...” — um divulgador, um divulgador, está compreendendo? — “...no seu magistral comentário de Kant, diz...” e fazia uma conferenciazinha sobre meia página que ele teve coragem de ler no Bodegas, num momento de relativo equilíbrio psíquico que ele arrancou de passagem numa coisa qualquer. Já industrializa, faz uma conferência vagabunda; na pressa de colher os resultados. O que é essa pressa de colher os resultados? Falta de coragem de esperar a demora, falta de coragem de sofrer a demora. Imediatismo. Como essas coisas se ligam e como disso está cheio — não é cheio, é repleto e arqui-repleto e saturado — o ambiente em que nós....
Quer dizer, isso é do ponto de vista intelectual.
* Coragem de sofrer e força de vontade são conceitos co-idênticos
Se eu fosse falar a respeito do sofrimento e vontade, eu nem sei o que é que eu deveria dizer. Porque propriamente a força de vontade não é outra coisa senão a disposição pela qual o homem está habituado, está disposto a sofrer as coisas árduas, penosas, difíceis, que se opõem à realização de seus desígnios. E a coragem de sofrer e a força de vontade são coisas co-idênticas.
Qual é o conceito de força de vontade corrente por aí?
É, em primeiro lugar, o sujeito que faz um trabalho de caráter material, árduo... [inaudível]. Ele chama isso de força de vontade. Mas o que é então a força de vontade, senão a coragem de tomar qualquer coisa desagradável, e por método, fazê-la até o fim, mas compreendendo que a vida é cheia de coisas dessas, e que a vontade tem que estar habitualmente tendente a isso, disposta isso; estar com a alma preparada?
Aparece uma coisa cacete, faz; aparece duas coisas cacetes, faz; aparecem duzentas coisas cacetes, faz. A vida é um vale de lágrimas, e portanto, a pessoa fará as coisas cacetes que se apresentarem. Isso é a força de vontade na sua acepção mais banal, mais comum.
E podem pegar todas as expressões de força de vontade, por exemplo, Alexandre, o conquistador célebre, teve grande força de vontade, etc. etc. Não foi outra coisa senão isso. Ele fez coisas muito desagradáveis para conseguir o que ele tinha em vista.
Eu, numa revisteca, naquela revista Point de Vue, que eu assino, e cuja seção humorística, de vez em quando, traz alguma coisa de que eu gosto. Bem, eu li no Point de Vue uma coisa de um pirata a quem Alexandre chamou e perguntou:
— Mas, como é que você é pirata?
— Ah, não posso ser um grande conquistador.
Senão, ele seria. O Alexandre disse para ele:
— Mas como é que você chama um grande conquistador?
— É um pirata que tem muitos exércitos.
E liquidou. Isso só pode ter sido inventado por um francês, compreendeu? E não por um grego...
Que dizer depois disso? Isso é líquido. Sobretudo se o sujeito soube dizer isso com graça, meio atrapalhado, bocejando, sai... [inaudível]. Sai monstro... [inaudível] ...lá fora em cima do rei. Caso que vale a cabeça cortada depois... É, depois diz-se, o rei ouviu.
Bom, teve Alexandre grande força de vontade por causa disso. A gente vai ver, por exemplo, São Tomás de Aquino, a gente diz que teve grande força de vontade correndo atrás daquela fassura com aquela brasa, é porque ele não foi mole, ele foi previdente, ele compreendeu o mal, o perigo que a fassura fazia para ele, não foi mole de ficar encostado, [e dizer] “Vai embora, mulher” e outras bobagens assim, mas ele pulou em cima de uma brasa e usou-a... [inaudível] ...incômodo, para liquidar um caso urgente.
Então, a gente diz: “Ele tem força de vontade”.
[Inaudível] ...força de vontade é comer coisa desagradável, não tem outra forma, ativa e passivamente; agüentar coisa desagradável é força de vontade, mas a forma superior de força de vontade não é agüentar o que vem, mas é tomar a iniciativa de fazer coisa desagradável que a gente podia evitar.
Quanta gente fica com a vontade perpetuamente mole por causa de tapeações e acomodações.
— Você é um rapaz de força de vontade?
— Sou... Não vê que hoje, por exemplo, eu bati à máquina vinte páginas de tal coisa?
Está compreendendo? Mas, de fato, uma outra coisa qualquer que exigia mais força de vontade, ele não fez. Ele diz que tem força de vontade porque ele teve uma certa força de vontade num ponto, mas ele não teve força de vontade em tudo. Homem que tem força de vontade, tem em tudo.
Portanto, falar de vontade e vontade de sofrer, e sofrimento é de tal maneira co-idêntico, que eu nem devo perder meu tempo com isso, de tal maneira é uma coisa idêntica à outra.
* O medo de sofrer em matéria de sensibilidade dá origem às vivências contrárias à razão
Nós poderíamos tomar a coisa mais longe e falar um pouco a respeito da sensibilidade. Aqui o campo é um campo quase infinito.
E praticamente, por exemplo, o famoso problema das vivências, que é um problema que eu estranhei tanto quando eu comecei a tratar com a colenda, benemérita e caríssima geração nova, o problema das vivências tem muita relação com isso.
O sujeito chega para mim e me diz, por exemplo: “Eu, tal coisa, intelectualmente, reconheço que é assim, mas uma vivência que eu tenho é em sentido contrário”.
Bom, hoje em dia, depois que o hábito está posto, a coisa é uma. Mas, como é que o hábito nasceu? Nasceu do seguinte modo: eu vi uma coisa intelectualmente, e depois, em vez de eu fazer um esforço de aceitação sensível interna daquilo que eu vi, eu não fiz o esforço. E continuei a sentir as coisas como se aquilo não fosse verdade. O resultado, me veio uma vivência.
Quer dizer, um modo de sentir deslocado da razão, deslocado da vontade, funcionando por conta própria sem eira nem beira, um modo de sentir que eu não consigo dominar, e que é o contrário daquilo que a razão me disse.
Qual foi essa origem dessa vivência? Foi uma falta de vontade. Um exemplo: eu sei que todo homem — o Paulo e eu sabemos — que todo homem pode ficar canceroso; por exemplo, pode vir a ter câncer no pulmão, isso pode acontecer; já tem acontecido (...) e afinal de contas, pode ter câncer no pulmão. Isso pode acontecer. Bem, agora alguém me dirá: “O que é que o senhor quer? Pode ser que eu esteja com câncer no pulmão, mas eu tenho uma vivência de que eu não tenho”.
Meu caro, você não quis ajustar sua sensibilidade e sua imaginação à idéia de que você também pode ter. Foi isso que aconteceu. O resultado é que ficou uma coisa dentro de você meio estramelada, funcionando mal. Por quê? Porque você não desceu ao fundo da coisa e não quis pôr a carapuça na cabeça. Fulano teve câncer no pulmão, porque é homem. Ora, eu sou homem, também posso ter câncer no pulmão.
* Um exemplo de má vivência tirado da história do Marechal Liautey
Eu li uma coisa... [inaudível]. E depois, o geração nova... [inaudível] ...em face da morte não há geração velha que não se conduza como geração nova. Porque a morte é o grande tira-prosa de todo mundo. Ali acabou toda a história. Eu estive lendo um artigo sobre o Liautey, no último “Historia”, “Miroir”, uma coisa assim. O artigo é interessante até porque só um sujeito inteligente escreveria um artigo sobre esse tema. Não é o artigo, o que é que o Liautey fez no Marrocos, mas é a história do Liautey depois de aposentado, escrito pelo Vladimir... [inaudível].
Esse é um tema muito mais interessante. Para o sensacionalismo de um ragazzo de hoje, não; o bonito é aquela hora em que ele deu o tiro no negro, no Marrocos, e foi “bum” no peito... [inaudível] ...beleza, e naquela hora em que veio aquele tigre em cima dele e ele ficava em cima da palmeira dando tiro no tigre, e o tigre lambendo a perninha dele e ele não sabia mais o que fazer. Aquilo é uma verdadeira beleza. Mas, um homem inteligente, como o Vladimir... [inaudível] ...o autor do artigo, é um homem que sabe ver as coisas, um espírito nuancé, ninguém pode negar. O Vladimir escreve, foi íntimo amigo do Liautey durante esse fim... [inaudível] ...e tem a fraqueza de transcrever uma carta do Liautey para ele, em que o Liautey começa dizendo: “Mon bon Slade...” Isso é para, estão vendo bem, para o que é que é? Ultra-derretido de ser o “bon Slade” do Liautey.
Liautey fez aquela coisa toda, África; foi uma espécie de pequeno César... [inaudível]. Voltou para a França e teve nove anos de vida. Então, ele foi construir o paraisinho dele de felicidade. Ele arranjou — é preciso ler o artigo dele para a gente entender — ele arranjou uma herança que ele tinha tido de uma tia, com uma casa onde ele, a vida inteira, tinha querido morar. Então, estão compreendendo, o paraisinho do sujeito, o paraíso é morar na casa de um certo tio dele, que passa por ser o homem feliz da família. Então, ele herda a casa daquele tio. Vocês estão compreendendo a psicologia toda da coisa...
Acho isso tão característico: o sujeito que no fim da vida resolve ir morar na casa do tio, do tio prestigioso da família. Ele que chegou a ser muito mais do que o tio, mas não descolou da vivência dele o negócio da casa do tio.
Bem... manda, queria ao mesmo tempo morar numa casa grande e na casa do tio, que era pequena. Então, ele mandou fazer uma grande construção, que engloba a casa do tio como parte, conservando intacta a casa do tio e depois, uma transição para o resto da casa.
Então, mandou fazer lá o salão das armas africanas, o salão de não sei o quê, o salão de não sei o quê e morava lá. Então, diz o Liautey. O Liautey conta, na Lorena, o Liautey era da Lorena; um lindo lugar para se morar, desde que o tio da gente não tenha morado lá, desde que não seja por causa do tio que a gente vá morar na Lorena, é um lindo lugar para se morar.
Bem, então, ele construiu aqueles salões todos, etc., etc., e diz que ele vivia, que tinha sempre gente para visitá-lo, gente para consultar, etc., etc., mas que o governo francês não o utilizava para nada. Ele estava abandonado. Então, nas horas de isolamento, ele se converteu. Essa é a fase em que as pessoas se convertem, é uma última tentativa de se pendurar em qualquer coisa e lá está o braço amoroso e sempre condescendente da Igreja, então pega naquilo; converteu-se.
Converteu-se e, então, um dia foi visitar uma Trapa, uma coisa qualquer que tinha por perto. Diz que ele costumava visitar essa Trapa com freqüência. E que quando chegava, tudo quanto era fradinho, mongezinho, etc., corria para conversar com ele. E que ele gostava muito de ter conversado com todos. E que o superior da comunidade permitia essas conversas. “Le Maréchal”. O único, único. Bem, ele chegou um dia lá e todos aqueles fradinhos cercaram a ele, ele disse:
— Mes chers...
É uma expressão francesa um pouco depreciativa, um pouco carinhosa. É meio intraduzível:
— Mes chers...
Um discurso mega, mas vejam quanto de verdade entra nisso.
— Pois é, vocês estão olhando para mim com tanta atenção e eu estou olhando para vocês. Agora, o que é que acontece?
Agora, sai uma megalice.
— Vocês naturalmente estão pensando: “Aí, então, o Marechal Liautey, o homem que dominou um país...”. Então, eu o Marechal Liautey, eu dominei um país, eu organizei um país, eu tive em mãos todas as lutas de importância do meu tempo, os senhores me vêem-me aqui cumulado de tudo quanto a vida pode dar. E os senhores pensarão: “Como esse homem tem experiência! Como esse homem viu coisas variadas e interessantes”. O que é que os senhores pensam que eu penso olhando para os senhores? É como os senhores são importantes, e toda a importância que há em ser como os senhores; não ter tido nenhuma aventura fora, não ter sido nada, não se ter consagrado a fazer nada, mas serem os homens de vida interior, os homens que asseguram — olhem os termos naturalistas dele — asseguram o equilíbrio do país, representando o fator de estabilidade, o fator de pensamento. É quando um país tem muitos homens como os senhores que nascem alguns homens como eu.
É ultra-mega, mas tem pedaços de verdade. Não se pode negar. Está compreendendo?
E é a tal história: quando o “Catolicismo” tiver muita gente como esses... Não pensem que eu vou dizer... Bem, quando nós tivermos muita gente assim — muita gente — quando nós tivermos algumas pessoas assim, que nossa família de almas será o que for, o que deve ser, e nós pudermos fazer aquilo que devemos fazer. Está bom.
Depois de dizer tudo isso, dizia o... O Slade que, de vez em quando, o Liautey dizia para ele: “Olha, você sabe, mon petit...” — ele gostava muito de dizer que o Liautey o chamava mon petit — “Olha, você sabe, mon petit: au fond j’ai râté ma vie.”
Então, o [Vladimir]: “Mas como pode râter la vie o homem que está cumulado de honras, cumulado de coisas; depois, com a situação econômica assegurada, etc etc., como é o Marechal Liautey...?” Ele dizia, no fundo, que o Marechal Liautey tinha medo da morte. E diante da idéia de que tudo isso ia acabar, ele começava [a ter] a sensação de que ele tinha râté a vida dele. Râté a vida dele era ele não ser imortal. Isso tem um significado tal que eu estou com o artigo do Marechal Liautey reservado para ir para a gaveta do congresso, ouviu? Porque essas coisas fazem bem na vida espiritual. Enfim, uma conferência de vida espiritual. Quer dizer um homem que enfrentou a morte no campo de batalha várias vezes, quando a morte chega naquele túnel da velhice onde não tem saída, quando a morte chega naquele túnel, não tem conversa: o sujeito fica com a sensação de que ele rateou a vida.
O que é isso? É a vivência da morte que ele não quis ter a vida inteira. E como ele não quis ter a vivência da morte, quando a morte se aproxima, vem tudo isso.
É o quê? É a sensibilidade que provocou uma vivência deslocada ou desarrazoada, e que não habituou o homem a olhar de frente aquilo que tinha que habituar. Aqui está o fundo de toda espécie de vivência. Até num homem como Liautey, essa forma de vivência, essa forma de vivência...
É a razão e a vontade que não habituaram a sensibilidade a se pôr em face das coisas... Queira ou não queira, seja ou não seja, meu caro, tenha paciência, é assim. E a morte te come de qualquer jeito. E não só a morte te come, mas tal desventura te come, tal outra coisa acontece, você queira ou você não queira. Então, tenha paciência, você se coloque dentro da coisa como ela é. Isso é que evita todos os deslocamentos, todos os trêmulos da sensibilidade que, em última análise, não houve o hábito de colocar a inteligência, não colocou a sensibilidade em face daquilo que era inevitável, em face daquilo que era real. E começou uma espécie de lusco-fusco sensível que produziu o maior dos infortúnios: é o estado em que o sujeito vê de um jeito, sente do outro e percebe que é uma máquina que não funciona bem. E não funciona bem na parte mais essencial e mais interna do seu ser.
O que foi isso no fundo? Foi o medo do sofrimento. Não tem conversa.
* Não temos a obrigação de nos colocarmos diante de todo e qualquer sofrimento, pois a Providência nos dá uma noção do que devemos realizar na vida
Outra coisa é a seguinte: eu não quero dizer daí que agora o remédio seja a gente começar a se colocar em presença de todo o sofrimento. Depois, há um mundo de... [inaudível] ...no meio disso. Há uma espécie — eu já falei disso — de uma noção que a Providência nos dá do que nós deveremos ser ou não ser na vida. Portanto, não temos obrigação de nos colocar diante de todo e qualquer sofrimento.
Enfim, há um mundo de... [inaudível] ...colocado nisso à maneira de contraforte. Eu não tenho tempo de dar o contraforte, nem sou muito hábil em inventar os contrafortes necessários. Mas aqui está a linha que num certo sentido, numa certa perspectiva, é fundamental para a gente compreender a coisa.
Agora, por que é que o sujeito sofre tudo isso? Em última análise, porque ele não teve coragem de sofrer.
* Com esta reunião, a falsa filosofia do sucesso cai por terra
Bom. Essas eram as considerações para hoje. Eu gostaria de falar no aspecto religioso do sofrimento, ao qual eu aludi apenas de passagem, mas que eu tenho impressão que é preciso desenvolver mais, que é o sofrer como uma prova de amor de Deus: uma prova de amor de Deus generosa, desinteressada, porque não há manifestação de amor que vá sem o sofrimento que a gente carrega junto.
Bem, uma conseqüência que pende do que eu digo é a seguinte: a filosofia do sucesso cai completamente. O conceber a vida como uma série de sucessos e o termo normal da vida o sucesso é coisa completamente falsa, frustra e errada. A vida não é ter sucesso ou não ter, a vida é ter feito aquilo que a gente deve e que, às vezes, é de não ter tido sucesso. É o de representar — e é um dos maiores papéis que um homem possa ter junto aos outros — é representar um infortúnio digno, um insucesso, um insucesso elevado, e com isso habituar os outros ao próprio infortúnio. Ser o mestre dos outros no infortúnio. É uma das mais nobres coisas que a vida pode ter, e isso não é sucesso.
Então, a gente compreende como a filosofia do sucesso é completamente falsa.
Bem, eu não sei se eu me exprimi corretamente ou não.
Eduardo...? Plínio...?
* * * * *
1 Estava como Reunião Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.
2) Pelo texto, nota-se que esta reunião foi posterior à do dia 16/5/1964. Portanto, em 23/5/64 e não em 23/4/64 como estava indicado anteriormente. Corrigir no índice de microfilmes. (Luiz Alexandre)]
3) Não consta o nome da pessoa no microfilme.