Santo
do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) – 3/3/1964 –
3ª feira [SD 235] – p.
Santo do Dia (Auditório da Santa Sabedoria) — 3/3/1964 — 3ª feira1 [SD 235]
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Santos chamados a representar uma virtude nos mostram que a santidade é sobretudo ser e não agir * O santo soube conciliar a pompa do cargo com a penitência * Lição de santo ardil junto ao próprio pai
Amanhã, 4 de março, é festa de São Casimiro, príncipe.
São Casimiro, príncipe polonês, nascido em 1458, foi o terceiro filho de Casimiro III, rei da Polônia e Isabel da Áustria, filha do imperador Alberto III. Seu preceptor foi João … [inaudível]…, cônego da catedral e historiador da Polônia, homem cultíssimo e profundamente virtuoso e que exerceu benéfica influência sobre o jovem príncipe.
Este, criança ainda, dedicou-se às práticas de mortificação e piedade. Usava um cilício sob seus trajes de corte e seu espírito era tão unido a Deus, que sua paz interior manifestava-se numa grande serenidade de rosto. Amava profundamente a Igreja e uma coisa se lhe tornava clara a partir do momento em que a glória de Deus fosse dela objeto.
Devoto da Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santíssima Virgem, compôs, em honra da Mãe de Deus, um hino que recitava freqüentemente, pedindo que ao morrer colocassem uma cópia dele em seu túmulo.
Ao completar Casimiro 13 anos, os húngaros, descontentes com seu Rei Matias, quiseram levar o santo ao trono de seu país. Seguiu o jovem à frente de um exército para a Hungria, para sustentar o direito de sua eleição. Mas na fronteira deste país soube que o rei húngaro reconquistara a estima de seus súditos e que, além disto, o Papa Sixto IV declarava-se pelo rei destronado e desaprovava a expedição. São Casimiro voltou atrás e, para não aumentar o desgosto de seu pai, que planejara aquele empreendimento, retirou-se para o Castelo de Dobczyce, onde se entregou a austeras penitencias durante três meses. Ao fim deste tempo voltou ao palácio real, onde já encontrou tudo mais em paz.
São Casimiro faleceu aos 24 anos de idade, em 1483, tendo-se até o fim de sua vida recusado a se casar. Predisse sua morte e para ela preparou-se particularmente. Cento e vinte anos após a sua morte, seu corpo e as ricas vestes com que fora enterrado foram encontrados intactos, construindo-se riquíssima capela de mármore para conservação desta relíquia. É padroeiro da Polônia e modelo de pureza para a juventude.
* Santos chamados a representar uma virtude nos mostram que a santidade é sobretudo ser e não agir
A respeito de São Casimiro há uns dois ou três traços aqui que vale a pena notar de modo especial.
Nós temos falado muito aqui a respeito dos santos que são fundadores de povos, santos que são fundadores de ciclos de civilização e que por sua ação extraordinária movem a História. Nós podemos considerar que há uma outra categoria de santos que nascem e se tornam exímios na prática de uma virtude a qual eles vão representar em toda a vida da Igreja. Mas parece que para que a atenção dos fiéis não se desvie deste ponto central para outros, estes santos morrem então relativamente jovens e a sua vida fica circunscrita à prática daquela virtude.
Os senhores considerem, por exemplo, São Luís Gonzaga. Fazer, São Luís Gonzaga fez pouca coisa. Mas ele morreu no apogeu da virtude, ainda adolescente. Se ele tivesse feito muita coisa, as atenções se voltariam para o que ele fez e se desviariam talvez daquilo que ele foi.
Estes santos assim nos mostram que a santidade consiste sobretudo em ser, que ela consiste sobretudo numa ação de presença dentro da Igreja, no difundir o aroma desta santidade, não só enquanto estão vivos, mas depois de mortos. E que a vida deles, tão precocemente imolada e em geral oferecida em benefício da Igreja Católica, é um elemento preciosíssimo para a salvação das almas.
Mas é um elemento que é valioso na ordem do oferecer, que é valioso na ordem de sacrificar-se, e não é valioso na ordem da ação. Com isto fica bem mostrado como sendo a ordem da ação muito preciosa, ela entretanto não é a mais preciosa de todas.
A ordem do exemplo, a ordem do sacrifício, a ordem da realização interior de uma obra própria que justifica inteiramente a existência, embora externamente não se tenha feito nada, isto é ensinamento que santos como São Domingos Sávio, como São Casimiro, São Luís Gonzaga e como tantos outros nos trazem à mente. É um outro aspecto deste sol de santidade que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.
* O santo soube conciliar a pompa do cargo com a penitência
Há um outro aspecto interessante aqui: é a atitude de São Casimiro vestindo roupas régias e levando cilício por baixo. Os senhores estão vendo aí bem o equilíbrio do verdadeiro santo. Ele quer fazer penitência, mas ele sabe que a sua condição impõe a ele que se vista com a pompa inerente à sua categoria. E como ele não é um igualitário, como ele não é um progressista, como ele não é um filho das trevas, ele reconhecendo isto, usa tudo quanto é necessário para a manutenção de seu estado. A penitência ele faz também; ele a leva sobre si, mas leva como que às ocultas.
* Lição de santo ardil junto ao próprio pai
Por fim, há uma coisa interessante também e que pode servir para os senhores especialmente.
Os senhores vêem que este santo teve dificuldades com o pai dele. O pai dele não queria que ele conquistasse a Hungria, ou por outra, queria que ele conquistasse a Hungria e não compreenderia que por uma razão que para o pai dele pareceria frívola e que era que o Papa dava razão a um outro e que ele seria um usurpador, não queria então que ele ficasse à margem, não queria que ele se abstraísse, se abstivesse de conquistar este reino. Ele foi muito jeitoso. Ele ficou rezando três meses fora até que as coisas acalmassem e depois voltou.
Há aqui um santo ardil — um santo apuro e depois um santo ardil — que deve servir de inspiração para todos os senhores.
Com isto nós terminamos.
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1) Repete‑se na mesma jaqueta com data de 03/03/66, mas o ano correto parece ser 1964.