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Santo do Dia ( pág. 1 de 3) — 22/2/1964 — Sábado [SD 232]

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Distinção entre a pessoa do Papa e o Papado * A Cátedra de Pedro é a coluna do mundo

* Distinção entre a pessoa do Papa e o Papado

Os senhores sabem que Pio IX, que foi um grande Papa, do qual temos até aqui uma relíquia indireta, que é um pedaço de seu caixão mortuário, e cujo processo de canonização está introduzido, o Papa Pio IX teve um primeiro período de seu governo como período liberal. Não que ele tivesse cometido algum erro doutrinário do liberalismo nos seus documentos, mas ele tomou uma série de medidas liberais e das mais puxadas.

De maneira que na Itália daquele tempo, dividida, pitoresca, proveitosa e eficiente em matéria de pequenos reinos, principados e cidades-livres, na Itália daquele tempo que pendia para a unificação, os que eram irredentistas e queriam unificar a Itália, queriam dar um brado revolucionário pelas ruas, para ligar, para atrair para uma ação comum os anarquistas e os afilhados da seita de Mazzini, davam então um brado, que era “Viva Pio IX”. E este brado recrutava nas ruas a fina flor dos lazzarone, dos sem-vergonhas, dos revolucionários, da máfia, da camorra e de tudo o mais que queiram, na luta contra aqueles pequenos tronos cujo desaparecimento nós hoje lamentamos.

E nessa situação difícil em que um Papa era, afinal de contas, um símbolo da revolução, vivia um grande santo, que era D. Bosco. Então, nos colégios de D. Bosco penetrava também o brado “Viva Pio IX”. Um ou outro desses alunos — que os senhores podem imaginar de que jeito eram — gritavam “Viva Pio IX” no meio do recreio, o brado de revolta. Então D. Bosco teve uma atitude, que foi a seguinte: “É proibido gritar viva Pio IX. Gritem: ‘Viva o Papa!’”.

É a saída soberanamente inteligente. Porque viva o Papa a gente deve gritar sempre. Viva Pio IX ou um seis qualquer, a gente grita conforme as circunstâncias.

Isto está no processo de canonização de D. Bosco, e isto não impediu que ele fosse canonizado e que sua obra fosse abençoada pela Providência de todos os modos.

Na raiz disso está uma distinção muito importante: a distinção entre o Papa e o Papado; entre a pessoa do Papa, sujeita a miséria humanas, sujeita também a erros em toda medida que não é garantida pela infalibilidade e, de outro lado, a instituição, que é inteiramente distinta da pessoa. E se é verdade que a gente de vez em quando grita “Viva Fulano”, e às vezes a gente cala, às vezes a gente chora, e sempre a gente reza, há um brado que a gente dá sempre: este brado é “Viva o Papa!”, “Viva o Papado!”.

* A Cátedra de Pedro é a coluna do mundo

É por causa disso que a festa que vai ser celebrada hoje, que é a festa da Cátedra de São Pedro, é uma festa extremamente oportuna, porque ela celebra o Papa enquanto mestre, ela celebra o Papado enquanto tendo uma cátedra infalível que se dirige ao mundo inteiro e que esta é, de fato, infalível. E é, portanto, a infalibilidade do Papa, por assim dizer, é a ortodoxia, aquilo que o Papado não erra nunca, que é objeto dessa cerimônia de hoje.

Nós sabemos que da cadeira de São Pedro conservou-se quase tudo, conservou-se quase toda estrutura, e que essa cadeira é guardada na Igreja de São Pedro em Roma, no fundo, onde existe a Glória de Bernini, existe uma cadeira de bronze. Essa cadeira é oca, de vez em quando se abre e tira-se de dentro um bancozinho, do qual eu vi a fotografia, e que é considerado como tendo sido de São Pedro.

A festa da Cátedra de São Pedro tem em vista esse objeto, mas tem, muito mais do que esse objeto, em vista o fato de Roma ser a cátedra de São Pedro, e o fato de Nosso Senhor Jesus Cristo ter dado a São Pedro uma cátedra infalível, e o fato dessa cátedra governar a Santa Igreja Católica Apostólica e Romana.

É, portanto, esse o fato que se celebra no dia de hoje.

A alturas tantas da Basílica de São Pedro, na nave central, há uma imagem, que é preta, de material escuro, que representa o Papa. É São Pedro, com as chaves na mão, sentado numa cátedra e com o pé à altura dos lábios dos fiéis. E todos os peregrinos que vão a Roma passam por lá e beijam o pé de São Pedro. O resultado é que com o ósculo mil e mil vezes repetido, o pé de São Pedro está até desgastado. Acho que é o único exemplo da história em que ósculos destroem bronze. O pé que é beijado está completamente desgastado, alisado, etc.

O que é bonito é que no dia da festa do Papa — parece-me que é do aniversário do Papa, em todo caso no dia de São Pedro — revestem essa imagem com os ornamentos pontificais. De maneira que ela tem tiara, tem tudo, fica vestido como se fosse um Papa vivo, para indicar a magnífica e evidente solidariedade e continuidade que vai de São Pedro até o Papa de nossos dias.

Nós oque devemos fazer hoje?

Em espírito, oscular o pé dessa imagem. Quer dizer, em espírito oscular o Papado, em espírito oscular esse princípio de sabedoria ou de infalibilidade da autoridade que governa a Igreja Católica. E por meio de Nossa Senhora, agradecer a Nosso Senhor Jesus Cristo a instituição desta infalibilidade, desta cátedra que é propriamente a coluna do mundo, porque se não houvesse infalibilidade, o mundo estava completamente perdido, a Igreja estava destroçada e com ela estava o mundo perdido.

E também o caminho pare o Céu. Porque os homens não encontrariam o caminho para o Céu se não houvesse uma autoridade infalível para governar.

Entretanto, uma coisa que devemos lembrar é o seguinte: a fidelidade à cátedra não se confunde inteiramente e sob todos os pontos de vista com a aceitação incondicional do que faz a pessoa. Nosso Senhor Jesus Cristo fez uma distinção entre a cátedra e a pessoa. Embora o catedrático seja ele e os poderes da cátedra residam nele, nem tudo nele é cátedra, e não podemos imaginar a Igreja como ela não foi feita por Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Igreja foi feita por Nosso Senhor Jesus Cristo de maneira a ser assim. Portanto, nossa suprema fidelidade à cátedra tem que ser a seguinte: se o catedrático como Pio IX faz algo que a cátedra não ensinou, com quem nós ficamos, com a cátedra ou com o catedrático? Com a cátedra, até morrer, notando sempre que a cátedra nunca está fora do catedrático. O catedrático às vezes pode sair da cátedra, mas a cátedra não sai nunca do catedrático.

Portanto, não se pode ter uma fidelidade abstrata no Papado, que não seja fidelidade concreta ao Papa atual, em toda medida em que ele é infalível e tem o poder de governar e reger a Igreja Católica.

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