Santo
do Dia — 3/2/1964 — 2ª feira – p.
Santo do Dia — 3/2/1964 — 2ª feira [Cotejado: APC_1_19]
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Má-fé do mundo contemporâneo diante dos milagres de Lourdes
Hoje é a festa de Santa Joana de Valois, rainha, e São José de… [falta palavra] …, confessor, a respeito do qual fizemos algumas considerações ontem. Hoje é novena de Nossa Senhora de Lourdes.
A respeito de Nossa Senhora de Lourdes, creio que se poderia desenvolver, a partir de hoje até o dia da festa, cada noite, um ponto sobre a novena.
* Cegueira e má-fé do mundo em relação a Lourdes: para evitar conclusões que não quer aceitar, recusa verificar a veracidade dos milagres
Tomando os aspectos de Lourdes, a esmo, tenho a impressão de que um ponto interessante, que já temos discutido aqui, é a cegueira do mundo contemporâneo com relação a Lourdes. Creio que poucas coisas poderiam servir de um teste mais adequado para aquilo que, propriamente, se chama a má-fé do mundo contemporâneo em relação à verdadeira Igreja Católica, do que os fatos de Lourdes. Se não houvesse os fatos de Lourdes, seríamos propensos a dizer que, se hoje houvesse milagres como no tempo do Evangelho, as multidões se moveriam como no tempo do Evangelho; a ausência dos milagres determina exatamente esse ceticismo de hoje.
Na realidade, os milagres se produzem e os milagres estão se produzindo há cem anos, e estão se produzindo continuamente. E em nenhuma época da história foi tão possível1 controlar a autenticidade dos milagres como em nossa época. Todos os meios possíveis de controle têm sido empregados, os mais requintados, os mais rigorosos, os mais severos, e o que mais há é o seguinte: é que esses milagres, depois de verificados por juntas médicas, passam pelo crivo dos cardeais e arcebispos da França. E essa comissão é tão rigorosa que tem rejeitado alguns milagres aceitos até pelos médicos, não sem imenso burburinho da parte de muitas almas fiéis, de maneira que passa por um fogo duro de passar. Apesar disso, quando esses milagres são aceitos como tais, são publicados por toda parte e o mundo médico tem toda a oportunidade de se inteirar a respeito deles; portanto, não há possibilidade de se fazer uma discussão séria a respeito disso.
Apesar da continuidade desses milagres, o mundo moderno não se move, não toma atitude. E não toma atitude por causa de uma posição de espírito que, no fundo, parece uma inatenção. À primeira vista, dir-se-ia que a atenção do mundo moderno não está concentrada no fato, mas se se prestasse atenção, mudar-se-ia de opinião. Mas não é verdade, porque o fato é de tal natureza que deveria chamar a atenção de toda pessoa reta e de boa-fé. O fato disso não prender a atenção e não ser um acontecimento dominante da vida intelectual e dos problemas religiosos de nossos dias, é uma prova da má-fé do mundo contemporâneo. E é de uma má-fé que se exprime nesses pontos. Não é a má-fé seguinte: “Estou vendo que há milagres e não quero ver”. É uma coisa diferente: “Eu receio que seja milagre e não quero verificar, porque, se for milagre, sou conduzido a conclusões que não quero aceitar; então, por causa disso, fecho meus olhos e recuso o milagre”.
* O Grupo encontra no mundo uma reação semelhante; críticas às menores coisas e nenhum elogio a qualidades nossas
Isso nos mostra que Nossa Senhora é objeto — e então num grau imensamente maior — de uma reação por parte do mundo contemporâneo, parecida com a reação que o Grupo encontra. Realmente, o Grupo não produz nenhum milagre, mas produz um fato que, de si, é um fato completamente anormal. Dentro da sociedade contemporânea, profundamente corrompida, o Grupo tem a felicidade de dar o exemplo a respeito de tudo. Nós, graças a Deus, cumprimos todas as leis, cumprimos todos os deveres, damos o exemplo de muitas virtudes, e se é verdade que não somos perfeitos, em comparação com o mundo que está aí, somos admiráveis. São Tomás de Aquino diz que toda coisa intermediária, vista de um lado, se parece com a outra. Nós, vistos do ponto de vista da perfeição, somos muito imperfeitos. Mas, vistos do ponto de vista do mundo de hoje, realmente somos muito mais perfeitos do que o mundo de hoje. Portanto, o que ele pode ver de nós, não é aquilo que em nós deveria ser melhor, mas é aquilo que em nós está bom. Pois apesar disso, têm críticas às menores coisas nossas, não tendo nenhuma palavra de elogio para qualquer qualidade nossa; não têm uma palavra de condescendência em relação a nada daquilo que fazemos de bom. Porque os outros pedem a condescendência para o mal, nós pedimos para o bem.
Uma vez conversava com o Luizinho a respeito do modo pelo qual os filhos das trevas comentam o homem viciado. Comentário desse tipo: “Fulano é um bêbado, um mau filho de família, mas, coitado, no fundo tem bom coração”. Pergunta-se por quê. Resposta: “Ele não deixa passar um aniversário da mãe, sem levar-lhe uma bonita flor”. Quer dizer, durante 364 dias por ano, o sujeito aborrece a mãe. Mas como dá uma flor por ano à mãe, no fundo, então, tem bom coração.
Um outro é um homem que rouba muito nos negócios, comenta-se: “É verdade, mas não sejamos tão severos ele dá muita esmola”. É um gatuno, mas dá muita esmola. Olha-se para a esmola e não se olha para o roubo. Outro é um marido muito infiel, muito adúltero. “Mas — dizem — protege a honra de sua casa. Por exemplo, nunca fez fassurada com alguma criada em casa”.
Quer dizer, o mínimo de qualidade que tem, é aumentada, por causa da mínima qualidade, engolem os maiores defeitos. Conosco, por causa do menor defeito, recusam toda espécie de qualidade. Ainda ontem, a discussão do João com Frei Ludovico não deixa de participar grossamente desse estado de espírito.
* Parcialidade contra Nossa Senhora e contra nós, porque somos d’Ela
Quer dizer, é sempre a mesma forma de má-fé. Quando alguma coisa leva essa gente a aprovar qualquer forma de bem, não querem ver; quando leva a aprovar qualquer forma de mal, eles querem ver. Nossa Senhora faz milagres, silêncio. Se não houvesse mais milagres, diriam: “Por que Ela não faz mais milagres?”
Ora, há coisa mais extraordinária do que milagres a jato contínuos por2 ao longo de cem anos? Para isso não existe consideração de nenhuma espécie. Ela é taumaturga? É, mas olhem o Arigó. Mas, por que comparar aquelas coisas, misturas de patifarias e demônios, com as coisas de Nossa Senhora de Lourdes? Quem é que faz, a respeito de Lourdes, a propaganda que se faz a respeito do Arigó? O demônio faz uma coisa: propaganda. Nossa Senhora faz uma coisa: nada. Quer dizer, para o bem, olhos fechados. Para o mal, olhos abertos. Querem ver toda espécie de bem que haja no mal. E toda espécie de mal que haja no bem. É isso que é propriamente má-fé.
Isso indica essa espécie de má-fé sistemática do ímpio em relação àquele que procura servir a Nossa Senhora. E isso para nós é uma fonte de alegria porque, se somos frutos da mesma parcialidade que há contra Ela é, em última análise, porque somos dEla, temos parte com Ela e estamos debaixo de seu manto. De maneira que isso, para nós, deve ser objeto de reconhecimento e de gratidão. Levamos a marca, que é a mesma marca que Ela tem.
* Pedir a Nossa Senhora de Lourdes que nos dê coragem e alegria de sermos um signo de contradição
Isso nos deve levar, na noite de hoje, a pedir a Nossa Senhora de Lourdes, que nos dê a graça de cada vez mais sermos assim, e de cada vez mais atrair sobre nós a parcialidade dos maus, porque essa parcialidade dos maus é a prova de que Deus está conosco. Todas as coisas de Nosso Senhor foram julgadas assim. Fazia aquelas curas, aquela santidade prodigiosa, aquela doutrina extraordinária, aquela presença inefavelmente perfeita. Dizia-se d’Ele que era glutão, que freqüentava as “fassuras”, que tinha parte com o demônio. É sempre a mesma história. Isso nos deve alegrar e fazer-nos pedir a Nossa Senhora que nos dê coragem e alegria por sermos também um signo de contradição, como foi Ele e como foi Ela.
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1) O datilógrafo pôs “fácil”, mas não está nesta versão da imagem.
2 Apesar de soar mal, está desta forma nas versões dos microfilmes.