Santo
do Dia – 5/1/1965 – p.
Santo do Dia — 5/1/1965 — 3ª-feira
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* Valor da representação e do símbolo * Sentido da palavra “mago”, sua realeza * Representantes a que título * Representação ao pé da cruz * Que representamos nós? * Todos as almas esparsas mas fiéis e a fidelidade do passado * Repercussão eterna de qualquer ato * Nossa Senhora, Rainha ameaçada * Coragem de permanecer fiel na solidão
* Valor da representação e do símbolo
Amanhã é festa da Epifania do Senhor; reconhecendo nos Magos adoradores as primícias de nossa vocação e de nossa fé, celebramos com coração jubiloso o início dessa feliz esperança.
A respeito da adoração dos Magos, temos aqui um bonito quadro pertencente a Dom Pedro Henrique. E a respeito dele é preciso fazer a seguinte consideração: o valor que têm as coisas de caráter representativo e de caráter simbólico, dentro dos planos da Providência. Não há um comentador da Adoração dos Magos que não diga que era conveniente que os Magos viessem adorar a Nosso Senhor, para representar os vários povos da gentilidade que desde o começo se aproximavam de seu berço, e que era conveniente também que fossem Magos, para representar toda a sabedoria antiga prestando homenagem a Nosso Senhor.
* Sentido da palavra “mago”, sua realeza
Nós sabemos que a palavra “Mago” designa aqui homem de uma sabedoria extraordinária, de uma sabedoria relevante, vindos de todos os lados para adorar a Nosso Senhor. Se esses Magos eram reis, costuma-se pôr em dúvida. A meu ver essa dúvida tem um certo aspecto republicanizante: é uma forma de proclamar a república na festa dos Reis, um quinze de novembro a seis de janeiro. Porque a Cristandade, movida por uma tradição venerável, em todos os tempos acreditou que eram reis. E essa tradição é de tal maneira contínua e que não deixa de ter alguma consonância com trechos da Escritura, que falam de reis vindos de longe, para adorar o Messias; essa tradição de si mesma merece fé, merece crença e eu não vejo nenhuma razão para que não fossem reis. Eu compreendo que possa atrapalhar a ala esquerdista do Concílio, que homens com uma profissão “tão péssima” como [a] de rei, terem sido chamados a adorar Nosso Senhor desde menino. Mas eu acho inteiramente razoável; vejo, ao contrário, objeção em se pôr dúvidas a esse respeito.
De qualquer maneira temos aqui homens procedentes de várias raças — um negro, inclusive — representando todo o mundo antigo e representando toda a sabedoria antiga em sua homenagem a Nosso Senhor; e numa forma bem conhecida: de ouro, incenso e mirra.
* Representantes a que título
Mas representando a que título e de que maneira? Quase ninguém soube que eles iam, não receberam nenhuma delegação para irem e, no entanto, estavam numa verdadeira representação. Porque a razão por que foram não era um motivo individual, mas era um razão de representação. Os senhores estão vendo que é uma coisa toda ela simbólica: eles estavam representando esses povos porque Nosso Senhor quis que eles representassem, e que foram lá porque Nosso Senhor os chamou como representantes. Ele quis ter representantes desses povos, escolheu quem os representaria e a representação ficou feita. E ficou valendo, com seu caráter simbólico, apesar de não haver nenhum sufrágio de nenhuma espécie, nenhuma preocupação credenciando-os aos pés de Nosso Senhor. Mas o fato de haver ali um de cada um desses povos constituía, na ordem absoluta e profunda dos fatos, uma verdadeira representação. Ali, de fato, eles estavam representando; essa representação tinha um valor nos planos da Providência. Eram só três, mas esses três representavam algo nos planos da Providência.
* Representação ao pé da cruz
Vamos encontrar algo de parecido com isso aos pés da Cruz. Como Nossa Senhora, São João e as santas mulheres estão representando tudo quanto há de bom e fiel no gênero [humano], no passado, no presente e no futuro; aos pés da Cruz também. Eles representam uma delegação, representam porque são fiéis, estão ao pé da Cruz; e todo aquele que é de um certo gênero, numa ocasião muito solene, representa naturalmente os seus congêneres. Por isso eles estavam representando seus congêneres por seleção e eleição divina.
* Que representamos nós?
E nós nos podemos perguntar, se desta verdade se pode tirar algo de aplicável para nós. Nós também somos poucos, também representamos uma minoria muito pequena e de tal maneira comprimida, que quando nos sentimos muitos — mas muitos não no sentido de massa da população, mas muitos apenas em relação ao âmbito normal das relações de um homem —, nós já nos sentimos espantados, de tal maneira é antinatural, na época de hoje, que sejamos numerosos. Entretanto representamos o dever da fidelidade; e aos pés da Igreja perseguida, aos pés da Igreja humilhada, aos pés da Igreja lançada na pior das confusões de sua história, Nossa Senhora quis que representássemos a fidelidade, a pureza, a ortodoxia, a intrepidez, o espírito de iniciativa, de ataque, de ação, no momento em que tudo deveria falar em recuo, em transigência, em fuga.
* Todos as almas esparsas mas fiéis e a fidelidade do passado
O que representamos nós aí? Aos pés dessa nova crucifixão de Nosso Senhor e da Igreja, representamos todos os fiéis, representamos a fidelidade de todos os que foram fiéis no passado, de todos aqueles que dormiram na paz do Senhor e que nos antecederam. Se um São Gregório VII, se um São Luís, se um São Luís de Montfort, se um São Fernando de Castela, um Beato Nuno Álvares pudesse de longe, ao morrer, saber que numa época assim de crise haveria fiéis que representariam a fidelidade inteira à Igreja Católica, eles nos teriam abençoado de longe, teriam se sentido nossos congêneres, de longe teriam sentido uma espécie de desafogo: “Ao menos estes estão fazendo o que eu quereria fazer, se estivesse vivo naquele tempo”.
Estamos, portanto, representando a todos eles, estamos representando a todas as almas fiéis esparsas e esmagadas por esse mundo e que não sabem aonde sequer pousar sua fidelidade, mas que gostariam de fazer o que estamos fazendo. Estamos representando as almas que vierem depois de nós; essas almas que, olhando para trás, vão ficar entusiasmadas com aquilo que fazemos, vão dizer: “Se estivéssemos vivos naquele tempo, faríamos aquilo”.
* Repercussão eterna de qualquer ato
Há essas interpenetrações na História, em virtude dessa doutrina da representação, algumas das quais são verdadeiramente impressionantes. Os senhores sabem que quando São Remígio e seus auxiliares ensinavam a Clovis e seus francos a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, eles davam urros, levantavam suas lanças e diziam: “Por que não estávamos lá, na hora da Paixão, para defender Nosso Senhor?!”. Pois eles estavam. Pois, na Paixão, Nosso Senhor anteviu o que eles queriam, anteviu que eles diriam isso e eles O consolaram naquela hora. Há, portanto, uma espécie de reversibilidade por cima do tempo, dessas várias ações, e tudo isso se funde numa cena única e grandiosa. Nessa cena única e grandiosa, os poucos fiéis dessa época representam toda a fidelidade passada, do presente e toda a fidelidade do futuro.
* Nossa Senhora, Rainha ameaçada
Eu tive ocasião de dizer que a cena e a projeção do “Auto do Divino Infante” acentuou muito essa impressão aqui no Grupo, e a situação histórica dentro da qual nos encontramos é precisamente essa: Nossa Senhora está como uma rainha sentada em seu trono, mas, pela injúria dos homens — e de que homens! — já descoroada, já atada com cordas e condenada a ser arrancada aos safanões de seu trono. Nessa sala, onde esse crime se prepara, uns poucos são fiéis [e] estão dispostos a tudo para que esse crime não se consume. Esses fiéis que estão lutando nessa hora, que tiveram a felicidade incomparável de agüentar os sofrimentos, as incertezas, as torturas espirituais dessa situação, esses fiéis representam todas as almas marianas do passado, do presente e do futuro nesse momento de tanto sofrimento para Nossa Senhora. Eles são, para Nossa Senhora, o que Verônica foi para Nosso Senhor. Enxugando a Divina Face, Verônica representou o mundo inteiro e não houve uma alma piedosa, desde o momento da prática desse ato que não se sentisse com inveja dela e não se sentisse, por assim dizer, representada por ela. E a nós nos foi dada a felicidade e a vocação de enxugarmos a Santíssima Face de Nossa Senhora, cheia de prantos, como a visão de Siracusa nos fez sentir, cheia de prantos nessa época dolorosa.
* Coragem de permanecer fiel na solidão
E essa representação nossa, nesse ato sentimos a necessidade dela em face da representação dos Reis Magos em face do Menino Jesus… A doutrina da representação nos deve alentar. Peçamos aos Reis Magos que orem por nós — porque certamente estão no Céu junto a Deus —, para que tenhamos uma das muitas formas de coragem que nos são pedidas e que devemos ter: a coragem de sermos sós como eles eram; sós, no mundo pagão, mas à espera da estrela; à espera da hora de Deus para cumprir sua vontade quando ela se apresentasse, e cumpri-la com toda fidelidade e pontualidade na hora em que se apresentar.
A hora, para eles, foi consoladora: foi a hora em que o Menino Jesus nasceu. A hora, para nós, deve ser a hora da “Bagarre”. Mas, de qualquer maneira, chegará para nós um momento muito preciso em que uma estrela nos dirá que a hora esperada chegou. Não será uma estrela exterior, mas será uma voz interior; será uma convicção de que os tempos se consumaram, e que a hora de todas as lutas e de todas as batalhas felizmente está chegada. Devemos nos preparar para essa hora, como para sermos modelos de exatidão e fidelidade como foram os Reis Magos, sendo agora modelos de fidelidade no isolamento.
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