Reunião
Normal – 23/11/63 – sábado .
Reunião para o Grupo da Martim1 — 23/11/63 — sábado
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Para se compreender bem a história de uma alma é preciso começar pelo despontar da razão; exemplificando com Santa Terezinha * Os primeiros gostos e movimentos da criança vão determinando-lhe o pendor * A lógica profunda da natureza humana não se confunde necessariamente com o puro raciocínio * Instinto de sociabilidade e formação interior do papel que se deseje representar para os outros * A interligação entre os mais variados desejos e a possante unidade subconscientemente lógica dos desejos ilógicos * O que a pessoa era em menino se desvenda inteiramente quando chega à velhice; exemplificando com Churchill * O gosto pela vida sensitiva ocasiona um contradição entre a parte racional e a parte subconsciente do homem * As duas grandes razões pelas quais não se gosta de olhar retamente dentro de si mesmo * O papel capital da humildade para raciocinar com clareza * Esquematizando o processo de emenda do operar temperamentalmente: admiração do contrário, reconhecimento humilde e firme pesar de ser como se é; do contrário, não há vício impraticável * Em geral, os nossos defeitos têm algo da psicologia de Caim: oferece a Deus frutas podres e tem um fundo de raiva dos justos
(…)
… era a seguinte: se eu poderia dar uma explicação do modo pelo qual as nossas volições, nossas tendências, nossos caprichos, nossos apegos afetam o mecanismo do raciocínio e da vontade. Quer dizer, se eu poderia explicar como isso se passa, como isso se faz, como isso se dá.
E eu até, já que estamos no dia das introduções, vou introduzir uma outra coisa. É que eu julgava isso aí tão evidente, que a primeira vez que eu li o papel, eu fiquei meio espantado, porque eu julguei que todo mundo soubesse como isso se dá. Mas depois julguei que essa pessoa que me perguntou tinha certo [proveito?] e que, portanto, não era evidente. E depois fui levado a achar que para outros não era evidente.
E por um ou outro sinal que eu percebi aqui, pelo ar, está compreendendo, realmente para a grande maioria, enfim, para um bom número dos ouvintes aqui, alguns dos quais ínclitos, isso não é tão evidente assim. De maneira que então eu vou me mover para dar a explicação que foi pedida.
* Para se compreender bem a história de uma alma é preciso começar pelo despontar da razão; exemplificando com Santa Terezinha
Bem, eu tenho impressão de que nós devemos, para compreender bem esse mecanismo, para demonstrá-lo sem dar indiretas, portanto não há indiretas — é um tema pedido em tese — para compreender bem esse mecanismo nós devemos ver bem a cabeça do homem como é. E talvez começar a ver como ela é em criança, porque assim como todas as biografias completas começam em criança, todas as santificações, todas as perdições começam em criança.
E não há possibilidade de uma história de uma alma ser bem escrita, como Santa Terezinha escreveu a dela, sem remontar aos albores da primeira infância.
Aquela posição em que se colocou Santa Terezinha de começar quando os primeiros lampejos da razão dela estavam se manifestando, é uma coisa inteligentíssima.
Não é uma coisa assim de aluna correta, [à qual] a Madre Superiora permitiu ou deu ordem que ela escrevesse a história de sua alma e como sua alma começou a viver, pelo menos para a vida espiritual, a partir da idade tal, ela começa em tal idade. Não é, não. Quando a gente analisa o que ela dá dos primeiros lampejos da razão dela, é algo com que ela quer explicar o começo do que depois se passou.
E no quê está imbricado a história de uma alma é na idéia de que a trama toda da vida espiritual, da maturação da alma para a realização de uma determinada vocação etc., que tudo isso se realiza a partir dos primeiros albores da vida espiritual. E é por isso que tantas e tantas vezes eu aqui falo a respeito de tempo de infância. E quando eu começo, quando eu trato de assuntos espirituais eu me reporto a problemas que se dão no tempo de infância.
E exemplifico com os problemas da infância quase como se eles contivessem e recapitulassem depois os problemas da idade madura. Porque eu tenho a impressão de que uma grande parte — é muito difícil falar em porcentagem a respeito desses assuntos — mas digamos, pelo menos cinqüenta por cento do destino espiritual de uma pessoa, na medida em que não haja conversões espetaculares assim, do destino tramtram, se passa no período da infância. De maneira que eu vou começar a exemplificar com a infância.
* Os primeiros gostos e movimentos da criança vão determinando-lhe o pendor
Os senhores estão vendo uma criança gritar lá fora. Os senhores estão vendo que é uma criança que está brincando no quintal; e é uma criança que pelo jeito está falando continuamente, ela está embombada, e é de presumir que ela esteja sem distância psíquica, deslumbrada talvez com aquelas laranjeiras cafajestes que estão ali naquele quintal, ou qualquer outra coisa assim, e que é uma tarde de sábado e que ela está vivendo uma grande tarde dela.
Ela está radiante. Bem, ela ali encontra todos os atrativos que nós encontrávamos nos nossos jardins, em nossos quintais, que eram naturalmente melhores do que esse, não é, e que uma criança muito mais fina, muito mais rica do que nós, se é que as houve na face da terra, também haveria de considerar os brinquedos que teve.
Quer dizer, ela está colocada diante de uma espécie de delícia. Como é que aquela criança se move? Ela tem determinados gostos, quer dizer, determinadas coisas que ela acha gostosa, como, por exemplo, correr; como, por exemplo, tomar vento; como, por exemplo, o movimento de várias criança com que ela mexe ao mesmo tempo; como, por exemplo, conseguir dominar as outras crianças com que ela está em contato ou como, por exemplo, conseguir agradar, — porque há pessoas que gostam de agradar — as outras crianças com quem está em contato, enfim, uma série de prazeres aos quais ela está se entregando agora e à la criança sem boa vida espiritual, como a maior parte das crianças é. Porque ninguém aqui é da escola de que criança é anjinho, isso já é um ragazzo que já pecou contra a castidade, não é… Esse assobio já traz a marca da violação do sexto mandamento.
Então, essa criança está brincando pelo jardim, ela está se preocupando única e exclusivamente em fazer coisas gostosas, em seguir o penchon das coisas gostosas. Na hora de escurecer, ela vai ficar em certa baixa porque está escurecendo, depois na hora do jantar vão pôr um prato para ela, que ela come, ela vai ficar contente, mas depois começa aquela batalha inglória contra o sono.
Começam a chegar os mais velhos, começam a fazer festa para ela, ela quer ainda participar do resto daquele dia de sábado, mas o sono vem como lufaradas, e ela resiste também mal ao sono, porque o sono é meio gostoso. E quando chegar mais ou menos às nove, nove e meia, ela está agarrada a uma bola, com uma boneca que brada ao lado, dormindo exausta numa sala onde ela quer ficar porque ela ainda quer passar, quer participar daquilo que se passa em volta dela.
E assim acaba numa espécie de crepúsculo, triste e amarrotado, um dia que foi um sábado ensolarado, alegre e que teve o seu apogeu, digamos, nessa hora em que ela estava com as meninas todas brincando no jardim, etc., em que ela estava satisfeita.
Essa criança é uma criança totalmente, vamos supor, uma criança, portanto, de não boa vida espiritual e, portanto, totalmente irrefletida e vivendo para fora. Quer dizer, não prestando a menor atenção no que se passa dentro dela e não tendo outra preocupação a não ser de gostar, gostar, gostar, prazer, prazer, prazer. Quem vê a criança correr, quem vê a criança andar, tem a impressão de que essa criança está numa situação, ou tem uma conduta, que nada tem de lógico, e que até o gostoso é o ilogismo da atitude dela.
* A lógica profunda da natureza humana não se confunde necessariamente com o puro raciocínio
O que ela acha gostoso é fazer coisas completamente ilógicas.
Mas acontece que a natureza humana tem uma lógica profunda, que não é uma lógica consciente, mas que está na própria estrutura psicológica de qualquer homem, desde o Manuel, digamos, até o Salazar.
Ou, numa escala mais pujante, desde o William, até o Churchill. Bem, em toda essa escala, o ser humano tem lógica. E essa lógica não é a lógica do raciocínio à procura da verdade, mas é uma espécie de lógica dos movimentos da pessoa. Lógica dos movimentos, por onde uma pessoa gostando de uma coisa, necessariamente gosta menos de outra, de outra e de outra.
E ela depois não gosta do contrário dessa outra. Pelo menos em certas horas do dia. Se ela for muito mutável, em outras horas do dia ela muda. Então, ela gosta do contrário daquilo, daquilo e daquilo outro. Mas quando ela está num certo estado de espírito, ela gosta de uma seqüela de coisas, e ela rejeita uma outra seqüela de coisas.
Bem, e isso faz com que ao longo dos dias, vivendo, ela vai mais ou menos depurando o gosto; vai mais ou menos decantando seu próprio gosto. Eu não quero dizer “depurando” no sentido de tender para melhor, mas eu quero dizer “definindo”. De maneira que cada vez mais ela vai gostando de um número, vai gostando muito de um número menor de coisas. Uma criança gosta igualmente de um número enorme de coisas.
Uma pessoa mais adulta gosta muito de um número menor de coisas. E aquelas coisas ela deita, ela trela a coisa para conseguir aquilo na sua vida inteira. Se quiserem um exemplo: uma criança, por exemplo, vai gostar de ler — os meus exemplos são, forçosamente do tempo do Paulo, digamos, portanto, da Condessa de Ségur — vai gostar de ler a Condessa de Ségur, vai gostar de ler a Becassine; outro menino, não.
Outro menino gosta de ler o Chiquinho, as aventuras do Chiquinho. Não sei se havia no tempo de vocês uma revista cafajeste chamada “Tico Tico”, onde havia o Chiquinho [inaudível], podia chamar-se “O Junqueirinha”, um horror [inaudível] Chiquinho [inaudível] nojo do Chiquinho que eu tenho pela “Última Hora”. Quer dizer, eu não lia [inaudível] Jagunço, um buldogue cinzento cor de chumbo. Uma coisa horrorosa. Meus primos, os Gabriéis gostavam. Quando liam, gostavam de ler.
Quando eles tinham distância psíquica, a Becassine não liam nunca. O que eu dava depois em troco miúdo de uma prevenção inaudita, como podem imaginar. Circulavam depois comentários desse analfabetismo de meus coetâneos. Respondia-se em caneladas, pontapés na canela. E repúdio meu, porque eu vou me quebrar [inaudível] então, monstro [inaudível] que se arranje.
* Correlação entre futebol, sujeira e má dicção
Bom, eu perdi o fio.
Aquilo vai se especificando e dando… outro gosta de jogar futebol, outro é um menino suarento e fedorento que gosta de brincar com terra.
Havia disso, entende? Chegava-se na terra, mexia, fazia bonequinhos de terra, cavava com a mão, ficava com as unhas imundas, emporcalhava toda a roupa… mas isso corresponde, no fundo, a coisas que vão se definindo dentro desses gostos. E esses gostos tem a sua lógica própria, tem a sua lógica específica.
Eu notava, por exemplo, coisa curiosa: os meninos que gostavam muito de brinquedos convulsos, tinham má dicção, e pronunciavam as coisas empastando as últimas palavras, letras de uma palavra na palavra seguinte, o que representa uma falta de nitidez fundamental em tudo, está compreendendo? É uma forma de unhas sujas, compreende?
Assim eu poderia dar quinhentas coisas que vão se especificando segundo uma certa lógica, segundo uma certa coerência, que não foi raciocinada, absolutamente não foi raciocinada. Por quê? Porque esse gênero de gente que estou falando não raciocina, mas que tem a lógica inerente à natureza humana e é uma lógica da qual ninguém foge e que se impõe, e que é uma lógica a partir de certos gostos ou de certas tendências fundamentais preliminares.
* Instinto de sociabilidade e formação interior do papel que se deseje representar para os outros
Bem, o que se dá no gosto dos brinquedos, dá-se em grau maior — no menino brasileiro, sobretudo — para o trato com o próximo. Eu tenho a impressão de que eu já fiz uma conferência aqui em que eu punha em evidência que o trato com o próximo enche, lota completamente a mentalidade, a preocupação da criança brasileira mais do que brinquedo, do que tudo. Não sei se lembram que eu falei dos coroinhas de Amparo, ajoelhados diante do Santíssimo Sacramento, enchendo aquela… o tempo inteiro mexendo um no outro e se esfregando um no outro.
Quer dizer, o tempo inteiro o quê que o outro está pensando, quer conversar com o outro. Bem, uma sociabilidade…
Isto também faz com que o sujeito vá definindo aos poucos e para si mesmo aquilo que ele quer ser tido pelos outros, o papel que ele quer representar junto aos outros. Isso também ocupa uma certa unidade, vai formando uma espécie de polo na cabeça do sujeito, que chega ao auge quando se destila no seguinte ponto: uns tipos que ele gostaria de ser, que ele admira, que o influenciam e que exercem, e que ele toma como modelo, como espelho no qual ele vê toda a humanidade.
(…)
… aos senhores adivinhar quem é, eu conversando sobre isso, deu um risadão largo, de boca aberta e disse: isto é bem verdade. Existe muito, não é? Ele mesmo tem dois modelos ideais, que são duas pessoas em cujos comentários ele vê os dois olhos da realidade universal que o fitam e que o miram e segundo os quais naturalmente ele procura, em última análise, se modelar.
* A interligação entre os mais variados desejos e a possante unidade subconscientemente lógica dos desejos ilógicos
Por essa forma acaba se constituindo no fundo da pessoa todo um mundo de preferências, de hábitos, de impulsos, de tendências, de volições que, ao mesmo tempo, são profundamente coerentes, mas foram profundamente não raciocinadas, não analisadas pela crítica, não lógicas, mas que — sendo cada uma delas lógica num certo filão — tem, entretanto, no fundo, algumas contradições.
Porque o que está nessa zona da alma é a capacidade de ser lógica até nas últimas ninharias em certa direção e depois ter certas contradições. Por exemplo, um sujeito pode ser muito amigo de seus amigos e ser capaz de momentos de dedicação muito grandes para seus amigos, porque um dos valores que ele quer retirar do convívio humano, porque seu temperamento pede isso, porque seu feitio pessoal pede isso, é, por exemplo, a amizade.
Mas, de outro lado ele tem uma tendência contraditória a se impor absolutamente, a transformar seus amigos, vamos dizer, em escravos, a mandar nos seus amigos, e ter gosto de ver que seus amigos fazem completamente a sua vontade. De maneira que vem contraditoriamente uma tendência a atormentar àqueles mesmo que em certas horas ele agrada.
Então a gente diz: “fulano é muito caprichoso, ele é muito cheio de manias, vamos dizer”. Está bem, é; mas é preciso notar o seguinte: que essas manias não são tão ilógicas nem tão incoerentes como aparecem à primeira vista. São lógicas que se sucedem ilogicamente, isso sim.
Vem a tona ora o desejo de agradar, ora o desejo de mandar, ora o desejo de deslumbrar, ora outros desejos do mesmo gênero — são lógicas que se sucedem ilogicamente, mas de fato no sujeito, aquele fio existe — uma lógica possante. Os ilogismos entram assim na alternação de coisas que são contraditórias.
Nós teríamos, assim, portanto, uma espécie de inventário primeiro do que está na cabeça do homem adulto. Porque o homem adulto acaba sendo isso. É o que fica na cabeça do homem adulto, com seus repentes, com suas novidades, com suas coisas inesperadas, etc., etc.
A cabeça do homem adulto normalmente é constituída assim, portanto — eu insisto —, profundamente coerente. Mas enquanto coisa profundamente subconsciente, enquanto coisa profundamente não raciocinada, porque todos esses movimentos são movimentos espontâneos, naturais e como tais não passam pelo crivo de uma análise, não foram conscientizados; a pessoa ao mesmo tempo que tem tudo isso, não sabe o que tem.
E como nem sequer conhece — ao menos não conhece de um modo explícito a teoria que eu acabo de dar aqui —, acontece que essa pessoa nem sequer percebe que ela não é o joguete do ilogismo senão no ponto em que ela é o joguete de lógicas que se sucedem. Mas que nela há, dentro do seu ilogismo, duas, três ou quatro lógicas perfeitamente coerentes e que se burlam dela sucedendo-se na cabeça dela nas horas em que ela menos quer, do jeito que ela menos entende, etc.
Bem, me permitam, mas eu ando sempre com a cabeça sempre muito cansada e não sei bem qual é o grau de clareza que eu alcanço nessa exposição. Gostariam de alguns exemplos? Ou isto está claro suficientemente, ou não, etc.? Porque eu fico sempre hesitando entre o receio também de estar dizendo uma coisa arqui-sabida que nem deveria ser dita, ou de estar dizendo uma coisa que deveria ser melhor exemplificada, porque é meio bizantina. De maneira que eu pergunto então, se gostariam de exemplos. Eu então posso escavar algum outro exemplo. Eduardo?
(Sr. –: … gostaria, mas não é necessário.)
Paulinho? Fábio? Luizinho? Caio? Sérgio? Plinio? Vital? Arnaldo?
* O que a pessoa era em menino se desvenda inteiramente quando chega à velhice; exemplificando com Churchill
Vamos dizer, por exemplo, o Churchill. Quando o sujeito chega à velhice, a infância se desvenda, ouviu? E o que o sujeito era em menino, sobretudo quando ele chega ao auge da sua maturidade, o que há de menino se desvenda inteiro. Pega o Churchill, por exemplo, a velhice do Churchill.
A gente está vendo que está sendo uma compota única, cheio de pijamas de seda cor de rosa, conhaques, charutões. Depois outra coisa, eu tenho a impressão de que ele ainda se faz conduzir de cadeira de rodas a um lago onde tem patos, e ele então pensa que está um pouco diante do lago, um pouco que ele está na África caçando não sei o quê, mata uns patos; põe bala falsa na coisa dele para só dar tiros, fingindo que ele vai matar o outro que está do outro lado. Ele não percebe bem.
Faz “V” assim para a gente que nem mais está aplaudindo a ele. Quer dizer, há uma porção de coisas assim, em que a infância passa do outro lado. A gente vê que o Churchill, aquele retrato de menino que eu publiquei no “Catolicismo” — parece expressivo ao máximo a esse respeito — é um sujeito muito bem equipado no ponto de vista natural, um prodígio e, portanto, ávido de várias coisas ao mesmo tempo e meio dissonante, e que ele mais ou menos realizou.
A gente vê que o Churchill, com aquele jeitinho dele, aquela cartolinha — não sei se todos se lembram bem — a carinha do Churchill aqui, cartolinha, bengalinha, aquele jeitinho dele, ele tinha o desejo era, por exemplo, um menino já meio intalacta, como um homem inteligente intalacta, não como pode ser intalacta o José Pedro. Mas era dado a livros. Vê-se que é um menino que lê, e que quer fazer uns discursos.
Se pedirem a ele um discurso, na hora ele tira a cartolinha e improvisa um discurso. Agora, ele é meio guerreirinho, meio petulante, meio querendo agredir qualquer coisa. Ele, de outro lado, a gente vê que gosta de uma vida brilhante, faustosa, mas que os gostos sensíveis da vida não lhe são estranhos nem um pouco; e que ele gostaria de ser essas quatro coisas ao mesmo tempo. Bom, mandãozinho, o jeito dele é de capitãozinho que está na proa de um navio, mandando.
A gente está vendo que por ser um tipo extraordinariamente bem equipado, foram se definindo nele, cinco gostos paralelos que daria para cinco vidas de cinco indivíduos, e que houve uma nota na vida do Churchill, que era o seguinte: ou isso tudo, ou nada, porque se me derem só uma dessas coisas para fazer, eu acho — não é dizer que eu acho que eu fracassei — mas eu não gozo tudo quanto eu quero e não aproveito tudo quanto há em mim para gozar aquilo.
Então, a gente vê ao longo da vida do Churchill uma espécie de polimorfia, que nas memórias dele é muito evidente, em que ele a cada hora procura aproveitar os intervalos e os fracassos de uma função — porque a vida do Churchill, até ele ser ministro, se fez de fracassos sérios hein!? Não foi na vida dele — aproveitar os intervalos de uma coisa para fazer outra.
Quando ele pegou uma guinada…
(…)
… de lado, ele, que tinha uma veia de pintor, foi fazer exposições de pintura. Foi pintar e fazer exposições de pintura, que ele nunca mais abandonou, porque depois ficou meio pintor até o fim da vida. Para algo que ele também queria realizar, para uma espécie de síntese churchilliana que a gente vê que era o cone de uma vida muito variegada, muito cheia de facetas, muito diferenciada.
Em todas essas coisas, o Churchill põe uma certa nota comum, que acaba sendo pouco mais ou menos a luz primordial do Churchill. Isto o Churchill percebe até o fundo, ou não percebe? Ele não percebe até o fundo isso que se construiu… quanto mais que eu tenho a impressão de que o Churchill, prodigiosamente inteligente, nunca fez um minuto de exame de consciência sério, com aquela cara de patusco, de sem-vergonha que ele… um exame de consciência direito, aquele cão nunca fez.
Churchill nunca fez um exame de consciência. Está bem, ele, eu tenho a impressão de que foi desde menino, naquele menino, essa tendência para essa polimorfice harmônica e total já vinha se delineando, e construiu nele cinco personagens homogêneos e subconscientes que vão se movendo. Talvez no fim da vida dele, olhando para trás, ele perceba e então ele compreenda para o que ele lutou a vida dele inteira.
Eu não sei se o exemplo diz um pouquinho num outro terreno ou se quereriam mais algum outro exemplo, ou queriam alguma explicação sobre o exemplo? Eduardo? Não me lembro se Fábio havia pedido exemplo ou não. Luizinho? Caio? Plinio?
* O gosto pela vida sensitiva ocasiona um contradição entre a parte racional e a parte subconsciente do homem
Bem, nasce agora a segunda parte da coisa. Porque, notem, isso tudo é uma vida coerente, mesmo nas suas incoerências, mas nas quais o raciocínio não entrou.
O raciocínio lo que se dice raciocínio, quer dizer, o alguém por-se, julgando sua própria vida de acordo com uma teoria e uma doutrina. O alguém começar a raciocinar tomando premissas, espichando de dentro das premissas conclusões e depois fazendo um confronto entre aquilo que são os impulsos da pessoa e aquilo que o raciocínio manda que a pessoa faça.
E então quando isso começa a se desenvolver, acontece que se estabelece uma contradição, uma contradição entre a parte racional do homem e a parte subconsciente do homem, e que nem sempre é a contradição entre o dever, entre a razão e o dever de um lado, e o mau lado do homem do outro lado. Mas é a contradição entre uma personalidade rica, orgânica, cheia de coisas implícitas, muitas vezes com algo de bom, mas ignorada porque imergiu completamente no subconsciente.
E depois uma personalidade, que é a personalidade teórica, que é deduzida dos manuais, que é deduzida dos sistemas de lógica, que é deduzida dos sistemas teóricos dados pelos pais — quando os filhos ouvem os pais, o que não é uma coisa tão freqüente assim —, é deduzido de pontinhas de catecismo e noçõezinhas de doutrina católica, é deduzido sobretudo de certos elementos da moral ambiente, que ficam pairando pelo ar e que se incrustam na cabeça do sujeito e que constituem uma espécie de censura ou de crítica para aquela posição que ele mesmo tinha tomado.
Bem, nessas condições, se estabelece um conflito e esse conflito cria habitualmente um qui pro quo, cria uma coisa dentro da qual a pessoa dificilmente sai; e dificilmente sai porque a pessoa não se analisa bem, e a pessoa não se analisa bem porque acha cacete analisar-se bem; e acha cacete analisar-se bem porque acha cacete viver fora do terreno das sensações, o terreno das impressões.
* As duas grandes razões pelas quais não se gosta de olhar retamente dentro de si mesmo
O que acontece [é que] olhando para fora de si, mexendo para fora de si, querendo preocupar-se apenas com o que está fora de si e não querendo nem um pouco parar para essa verdadeira ação de ascese que é de não estar olhando para fora de si, mas estar prestando um pouco de atenção dentro de si.
A primeira — há muitas outras, mas das duas grandes razões que me ocorrem no momento — pelas quais a pessoa não gosta de olhar dentro de si, é essa então: o horror do recolhimento. Essa é a primeira razão. Mas há uma segunda razão que é a seguinte: é que o subconsciente funciona mais ou menos como uns guardados cheios de poeira, em que tem bicho, tem rato, tem — alguma coisa maior do que rato, que corre — um ratão, gambá, está compreendendo, tem aranha.
Além disso tem coisas boas antigas, interessantes, está compreendendo? Tem vazinho azul, tem tudo dentro, tem coisa quebrada, tem objeto sujo que foi jogado para cima, tem mala com roupa suja e nunca aproveitada de um tio que morreu e estava de viagem. Tem coleção de jornais do tempo da grande guerra mundial, que um primo que morreu deu, e que estão em cima, mas que ninguém mais lê porque não tem valor nenhum, porque as bibliotecas estão cheias disso, mas que ninguém se resolve a jogar fora achando que o fulaninho que tem cinco anos algum dia pode precisar disso, se der um intelectual como a família espera.
Homem, tem tudo dentro daquilo. E isso é o subconsciente de cada um. E quando o sujeito vai procurar introduzir a lógica naquilo, ele encontra tanta sujeira que ele não quer limpar, e que lhe dói a idéia de limpar. Tanta coisa inútil a que ele deveria renunciar e que lhe dói a idéia de renunciar. Tanta desordem em que ele se habituou assim, à agradável idéia de uma desordem promíscua e aprazível que seria preciso por em ordem.
Quer dizer, há tanto remorso, tanto mistério, tanta contradição e tanta dor porque mexe nos tesourinhos subconscientes. Vai mexer naquilo? Não, aquilo não. Guarda aquilo e guarda naquele lugar e daquele jeito, está compreendendo? Porque ali se mexer vai uma coisa na minha cabeça que é um apego qualquer que eu tenho, e está ligado às coisas que eu tinha, àquelas minhas lógicas profundas. Está ligado a minhas lógicas.
Então, eu deixo aquilo ali guardado também. Bom, que eu tenho verdadeiro horror a mexer naquilo.
* Conseqüências provenientes do não analisar-se profundamente: uma vida incoerente e crises nervosas quando algum fator externo o obrigam a ordenar-se
Então acontece a seguinte coisa: é que eu não me olho até o fundo e cada vez que eu vou raciocinar, eu raciocino com o cuidado de não chegar até o fim da verdade, me queima e me arrebenta inteiro e me lanho inteiro. E eu tenho uma faixa de meia verdade e meio erro, em que eu vou caminhando levado pela filosofia de que no fundo tudo se arranja, e que há um jeitinho que conserta tudo na vida, e que todo mundo vive mais ou menos assim de maneira que nem vale apena tirar muito isso a limpo.
E quando vem uma pessoa — um importuno de um Plinio Corrêa de Oliveira, por exemplo — e diz uma coisa que, de repente, bate num pau que bate num vidro quebrado, uma meia chapa de vidraça quebrada e colocada lá, em cima da qual está um gambá, quebra o vidro, cai o gambá. O gambá cai numa garrafa meio vazia de champanhe que foi guardada lá por um criado que não entendeu o que era para fazer daquilo e saiu uma bagunça no sótão.
E isso, às vezes, pode chamar-se uma nervosa. Eu não quero dizer que toda nervosa seja isso, mas que isso sempre em nervosa, evidentemente dá. E dá num estado de sobressalto, um viver pisando pé ante pé e sobre ovos, com medo que algo esbarre naquilo. Esbarrando naquilo cria exatamente as encrencas que a gente não quereria mexer, dá o sobressalto naquilo.
[N.D.: Há uma série de pontilhados no texto que parecem referir-se a um corte]
Eu entendo mesmo que os psiquiatras — a palavra complexo — dão à palavra complexo um outro sentido que é um sentido meio parecido, meio diferente com esse. Até é um sentido que faz sentido, mas ao menos eu gostaria de dizer que há na alma, uns pontos, ou na vida uns pontos sensíveis, como na pele humana há mais sensibilidade aqui, por exemplo, do que no joelho. Assim também na alma há uns pontos mais sensíveis; térmica e nevralgicamente mais sensíveis.
Assim também nós temos nossos pontos mais sensíveis na nossa alma, muito numerosos e tanto mais numerosos quanto mais a alma está posta no terreno do subconsciente. Agora, vem um homem que vai tomar uma resolução. Ele vai tomar uma resolução e ele acabou fazendo na vida dele uma espécie de média.
Ele mexe naquelas coisas de trás, e impõe-se um certo sacrifício apenas na medida em que o sacrifício for até tanto. E assim mesmo em certas horas. Fora destas horas ele não faz mais sacrifício. É só aquilo, ou fora daquele limite também não tem mais sacrifício. Ele vai tomar uma deliberação sobre um problema. Vem ao problema todos aqueles pontos que foram acumulados pela criança ao longo do processo que eu falei, começam a entrar numa espécie de ação, de imantação, de atração e repulsa.
Há todo um campo magnético-psicológico de atração e repulsa. Vem o problema, a pessoa começa a raciocinar. É evidente que ela vai raciocinar sem isenção de ânimo, pelo menos num grande número de casos. E que ela vai procurar um modo de por as premissas que não vai esbarrar em problemas internos que ele não quis resolver.
De onde as conclusões, os problemas mal postos, a lógica sai errada. Porque o problema vale na medida em que vale a matéria-prima das premissas que foram postas. A lógica sai errada, e está tudo liquidado.
* Um exemplo paradigmático de como questões temperamentais influenciam o raciocínio
Querendo tomar um caso ultra — e aqui está então a pressão das apetências sobre a lógica e sobre as resoluções — vamos tomar um exemplo. Não sei porque me ocorre o exemplo, eu vi um homem nessas condições, aqui que está, num lugar, numa situação, eu vi um homem assim, e por isso eu me lembro disso. Esse homem não pertence ao grupo.
Eu até posso dizer onde é. É um vendedor de carne sentado no jardim do hotel de Londrina, ele tinha ido comprar carne naqueles sertões. E sentado na calçada do hotel de Londrina, daquele hotel onde a gente se hospeda, numa cadeira de vime, em manga de camisa e deliberando.
E eu que não tinha o que fazer, estava assistindo a deliberação dele. E então vi perfeitamente o homem às voltas… passou a ser para mim um símbolo. Tinha terminado o dia, ele tinha vindo de uma viagem grande, complicada — eu soube disso porque conversei depois um pouco com ele — tinha vindo de uma viagem grande, complicada, e estava numa dúvida a respeito de uma deliberação a tomar, que era: voltar para São Paulo, ou para o Rio — já não me lembro bem — para fechar o negócio, ou voltar para lá para comprar outra partida de carne.
Bem, o problema teoricamente, é um problema que se põe. Há razões pró e contra que um homem pode examinar aí para resolver. Mas a gente percebia nele que outros dados estavam interferindo. Entrava um problema de comodidade. Entrava, provavelmente, alguma fassura que ele tinha e que estava com exigências dele de chegar até o dia tanto, dele fazer qualquer coisa; entrava qualquer coisa desse tipo, está compreendendo?
E entrava uma certa questão de fazer mais esforço em fazer um negócio, do que outro, porque na conversa que eu tive depois com ele, alguma coisa disso, enfim, eu reconstitui mais ou menos o debate interior dele, porque eu achei muito saboroso, muito interessante.
O curioso do caso foi que ele resolveu o problema em termos de carne, e chegou à conclusão que mais valia a pena comprar carne, não sei o quê. O resultado dele é que ele foi para a grande cidade e deixou a cidade do interior, para onde ele deveria voltar.
* O papel capital da humildade para raciocinar com clareza
Bem, é evidente que o quê ele pegou é que ele não tinha bastante humildade para dizer para si o seguinte: eu devo fazer uma coisa, mas não tenho força e vou fazer outra. Porque é a única solução em caso desses, é essa: a solução humilde. Não é ser colosso, mas a solução humilde. Eu vou raciocinar com clareza e prefiro raciocinar com clareza, ainda que eu tenha que reconhecer para mim mesmo que eu estou fazendo a maior das borracheiras.
Eu então vou dizer: vou fazer uma borracheira porque quero, mas eu vou raciocinar para mim mesmo com clareza. Isso ele não fez. Ele deu uma coisa torcida a respeito da carne, que a gente vê que são premissas que ele falsificou para si mesmo não analisando até o fundo o problema, que ele poderia analisar e ele poderia chegar às conclusões verdadeiras, ele não analisou até o fundo os problemas, ele tangenciou algumas coisas, para chegar, não inteiramente à realização do gosto dele, mas para exigir de si apenas a quota de sacrifício que estava habituado a fazer para o exercício de sua profissão.
Quer dizer, ele fez, portanto, uma espécie de maquilagem da realidade, que pesou sobre a deliberação que ele tomou.
* Outro exemplo do jogo de influências do temperamento sobre o raciocínio: Madame Ngu e seu marido
Bem, um outro exemplo frisante, é este exemplo doloroso [da] Madame Ngu. Madame Ngu conta, nessa entrevista dela — eu estou com a cabeça tão cansada que ontem ia falar disso e esqueci — a Madame Ngu conta na tal entrevista dela, que ela, quando saiu dos Estados Unidos, saiu porque ela tinha um quisto no olho e que ela ia operar esse quisto.
Então, ela teve, a horas tantas… fica no fundo da coisa que ela tinha consultado vários médicos e tinha uma operação marcada. E a horas tantas ela ficou então na alternativa: adia a operação e volta para Saigon ou faz a operação nos Estados Unidos e deixa correr o martírio de Saigon. Ou faz a operação no Japão, que é a meio caminho de Saigon.
De maneira que a certa altura ela pode passar para o Japão. Isto está como fundo de quadro. De fato as palavras dela são muito sintéticas, mas a gente percebe indiretamente que a problemática é essa. E ela estava percebendo que a situação em Saigon estava piorando cada vez mais.
Então, ela telefona para o marido e há uma conversa dela com o marido — ela conta rapidissimamente umas duas conversas — em que ela [que] quer voltar, e o marido faz questão que ela se opere num médico, se não me engano de Los Angeles, que operava as stars, para ficar a operação estética, perfeita.
E ela não quer, ela quer voltar para o Japão, ele diz que não, que ele ia encontrá-la no Japão quando ela voltasse, mas que ela faça a operação nos Estados Unidos, e ela então se resigna a fazer a operação nos Estados Unidos. Quer dizer, o marido empurra ela para longe do teatro dos acontecimentos. Primeiro ato.
Segundo ato: os acontecimentos se definem, quer dizer, começa uma bagunça qualquer lá, ela telefona para ele. Consegue uma ligação. Ele vem ao telefone. Ela então diz que nota que ele não está com todo o ânimo pronto e que ele está meio vacilante e que ela queria reverdecer a ele, mas que ela receou de agastá-lo.
(Sr. –: O que é reverdecer?)
Reerguê-lo.
Ela receou de agastá-lo e por isso ela não disse a ele que ela viria e desligou o telefone. Nesse momento… eu acho esse episódio um episódio sublime, e aqui apesar de tudo quanto há de horrendo na Ngu, sob alguns lados, o sublime entra mesmo.
É a mulher forte com um tipo que, se pelo menos não era medíocre, valia muito menos do que ela, no outro lado do fio. É um tipo, e um drama, que é a vida espiritual de um homem, mas é também a vida terrena de um homem e é o destino de uma instituição que se joga nesse jogo de influências.
Ela quer que ele tenha coragem até o fim, é essa tal coragem até o fim, essa tal coisa que vai até onde ninguém imagina, até… porque a coragem nessa linha ou é isso ou é nada, entende?
Quer dizer, a coragem supersônica, além de todos limites possíveis, essa coragem ele não tem. E em certo momento ela nota que está colocada num estado de impotência em face disso. Porque ele chegou num tal ponto, com certeza os pontos foram vários ao longo da vida dele, do casal, em que se ela insistir rompe-se algo e ela perde a influência sobre ele.
Como, por outro lado, naturalmente ela tinha alguma esperança que as coisas se resolvessem bem, ela achou que esse perigo próximo era maior do que o perigo remoto da queda do regime. E por outro lado, ela sabia muito bem que rompendo com ele, estava tudo perdido porque provavelmente ele era o elemento de ligação com o presidente, ou ao menos a junção entre ela e ele era viva para manutenção do equilíbrio ali na família presidencial.
* O destino do Vietnã dependia de um homem que, na hora da firmeza, vacilou
No momento em que esse homem — vejam o diálogo entre uma alma forte e uma alma fraca, ou pelo menos menos forte, chamada a apoiar-se sobre essa alma forte — o oceano Pacífico percorrido em diagonal por um fio de telefone entre os dois circula uma voz de um lado, outra de outro: num momento há naquela alma fraca, ou menos forte, uma vacilação filha de mil vacilações anteriores; e ele estabelece uma barreira. A partir do momento em que ele estabelece uma barreira, toda uma situação que cai: esse homem morre e é toda uma situação que cai.
Quer dizer, é um gongo que bate na história. Deus resolveu que o tempo acabou e que a prestação de contas chegou para o Sr. Ngu e para o Sr. Dien. E que agora é preciso explicar como são as coisas: não tem remédio, acabou.
Bem, o resto é miséria. Ela conta, nessa entrevista, que várias vezes os dois irmãos estavam sur le point de, e que ela tinha erguido. E ela diz: “ah, se eu estivesse lá…” Eu não creio que nenhum dos senhores acha impossível que ela tenha razão.
Agora, o quê levou o Ngu a essa atitude? É que o Ngu em face da Madame Ngu, era o meio inexplicitado, não inteiramente coerente, com pontos fracos que ele não quis ver, que ele não quis criticar, que ele não quis vencer, em suma, com dodóis.
É evidente que se pode construir uma hipótese a partir disso: ele confiou nos americanos, ao que parece, e afastou suas tropas, achando que com alguém na gang americana tinha possibilidade de ter sucesso. Parece que foi isso. E portanto, distanciou-se de suas próprias bases, numa atitude que parece [que] foi de confiança. A reação deles os senhores vêem que parece que foi uma reação muito bonita, mas que não foi até o fim. Inclusive aquela tal atitude de irem rezar numa igreja e serem presos lá, aquilo cheira mais a heresia branca do que a qualquer outra coisa.
Porque não é assim. A gente tem pena e acha bonito. Mas isso só é verdadeiramente bonito depois que o homem esgotou todas as possibilidades de resistência. E choramingar aos pés de Deus quando se tem possibilidade de ação não é bonito dessa vez, ou melhor, não é o bonito verdadeiro. Os senhores sabem bem que a Madame Ngu naquela hora não iria rezar, e que nem aquela hora era hora de rezar. Pois bem, era o quê? Era um certo apego a não agir muito, um certo esforço que ele tinha que fazer na hora e para o qual ele não tinha coragem.
* O papel da oração e da humildade para corrigir-se das tomadas de atitude puramente temperamentais
Era uma certa desconfiança de uma certa pessoa com quem ele não queria desconfiar. Ilogismos daquele fundo [de alma] oposto permanentemente à razão, mas que a pessoa não quer ver de frente. Falta de humildade de reconhecer de frente o seguinte:
— Eu sou poca e muitas e muitas vezes eu agirei mal; agirei mal e agirei ilogicamente porque tal sou eu. E eu vou reconhecer isso para mim e não vou manter isso dentro de um mistério diante de mim. Porque ao menos eu vou oferecer a Deus a homenagem da minha vergonha. Não vou ter o farisaísmo de não querer olhar para dentro de mim mesmo e reconhecer que diante de mim mesmo há de tudo. Eu me ponho nessa posição, [e] digo: “eu sou poca agora. Se eu não tenho força de vontade, tudo tem remédio, porque eu vou rezar, rezar, rezar, talvez na hora Nossa Senhora me dê força de vontade. Mas eu quereria, dentro de minha fraqueza, ser uma alma fiel até o ponto em que o santo é fiel”.
Quer dizer, muito mais do que a Madame Ngu. Sem comparação, porque a Madame Ngu ainda é começo de conversa. Então, procurar entrar nesse tremedal de seu subconsciente com calma, o que exige esse ato de humildade, batendo no peito e muitas vezes reconhecendo sua própria capitulação, sem fazer disso uma tragédia, sem berrar por dentro como sereia de ambulância: aaaaaa… Não. É isso, eu sou isso, está acabado. Eu tenho uma Mãe misericordiosa que me ama muitíssimo.
Vamos agora com calma ver, reconhecer, pedir um perdão que ainda nem é o perdão do arrependimento, mas com muita calma e com uma confiança sem limites na misericórdia de Deus, rezar, rezar, para que na hora eu seja fiel, eu seja capaz do impossível. Deus, que multiplicou os pães e que transubstancia o pão e o vinho pode me dar na hora “h” aquela coragem para a qual eu ainda não tenho força.
Bem, epílogo. Só um e muito simples: procurar não fechar os olhos, não manter os tais pontos que a gente não olha dentro. Olhar com calma e com misericórdia, com respeito para consigo mesmo. Não dizendo para consigo mesmo horrores. Mas tendo conosco o respeito que Deus tem conosco. E depois, passo a passo, tranqüilamente, como um verdadeiro filho de Deus, confiando em Nossa Senhora, ir fazendo o que pode e esperando que Ela faça o que não podemos. Mas sem fechar os nossos olhos a isso.
Não sei se isso corresponde bem ao que pediu essa exposição, mas ao menos é o que eu posso dar. Também não nessa matéria. Você queria [fazer] alguma pergunta, Eduardo? Paulinho? Fábio? Luizinho? Caio? Sergio? Plinio? Vital? Arnaldo? Censura eclesiástica?
(Sr. –: Qual a verdadeira ocasião?)
Como, qual é o verdadeiro perdão, ou melhor, a verdadeira ocasião?
(Sr. –: Verdadeiro perdão.)
* Esquematizando o processo de emenda do operar temperamentalmente: admiração do contrário, reconhecimento humilde e firme pesar de ser como se é; do contrário, não há vício impraticável
Não, essa ainda não é a verdadeira contrição. Perdão foi lapso. O arrependimento deve ser seguido, para ser pleno, do firme propósito de emenda. Mas eu nem desejo, nem peço isso. O que é preciso é uma firme admiração do contrário e um firme pesar da gente ser como é. Olha que é pedir muito pouco. Porque quando isso existe, a gente acaba se emendando.
Reconhecimento humilde: “eu sou assim. Não tem conversa. Segundo passo: eu lamento profundamente ser assim, porque é um horror para mim, porque me torce de todos os lados, [me] desfigura de todos os lados, porque ofende a Deus, porque isso não devia ser assim, eu sei que minha consciência me manda ser de outra forma. Como eu deploro ser assim”.
Terceiro: como eu quereria ser de outro jeito. Como eu acho bonito ser de outro jeito e como eu admiro e estimo os que têm as qualidades diferentes dos meus defeitos. Aqui só, já entra um ato tão bom, que eu acho que tudo não se pode dizer, [mas] que tudo se pode garantir, mas tudo pode-se esperar de quem é assim.
Mas esse finzinho de raiva, está compreendendo: “aquele tipo lá, eu minto e ele nunca mente; um tipo veraz, está compreendendo? Ele é uma besta, ele não compreende a fineza da mentira. Ele não compreende a elegância de uma potoca contada com jeito. É um cretino, um quadrado, está compreendendo? Eu desprezo a ele.”
Tanto assim que no fundo é a ambulância, é “aaaaaahhhhhhh”, porque no fundo é isso. Queira ou não queira, diga ou não diga, é, está compreendendo?
Eu não acho que isso possa atrair a bênção de Deus sobre nós. Se Caim, fez justo o contrário do que eu estou dizendo. Ele procurou, em vez de reconhecer que as forças dele não valiam nada e não mereciam ser oferecidas — se batesse no peito e dissesse: “eu sou o pobre Caim…” — ele procurou fazer a fraude: “minhas frutas são muito importantes, qualquer porcaria queima”.
Depois, a atitude dele diante de Abel. Se ele amasse Abel por causa da superioridade de Abel, quem dos senhores não acha que Deus teria acabado por ter pena de Caim? Não é verdade?
* Em geral, os nossos defeitos têm algo da psicologia de Caim: oferece a Deus frutas podres e tem um fundo de raiva dos justos
Mas, em geral, e isso é o mais triste, os nossos defeitos tem algo da psicologia de Caim. Algo tem. Nós procuramos oferecer frutas podres e nós temos um fundo de raiva de Abel. Fazendo o contrário, não sei, Frei Jerônimo é diretor de consciências, pode dizer, mas acho que pelo menos são circunstâncias que predispõem muito a alma à emenda, a chegar para uma emenda. Não é frei Jerônimo?
E eu acho que é propriamente o pecador assim que é o pecador de que Nosso Senhor tem aquela pena enorme, aquela paciência sem fim, etc., que nós vemos no Evangelho. Não como Caim; [querendo] que Deus aceite a fruta podre e de raiva acaba matando Abel, acaba tendo uma birra de Abel, antipatia de Abel, não pode ouvir o som da voz de Abel que se eriça todo.
O que fazer? Ainda que Abel fique sentado para Caim matá-lo, o que fazer com Caim? É só rezar mesmo.
E se me permitem dizer isso aí, eu acho que nós todos homens do século XX, nesse ponto temos um progresso a fazer: é que nós não temos verdadeira alegria das qualidades espirituais dos outros. Nós vemos os outros com virtude, quando são as virtudes que nós não temos, temos momentos de alegria e momentos que não é de alegria. Vem aquela restriçãozinha, aquela coisinha que no fundo é uma “cainhidozinho”.
Bom, não sei se a minha resposta responde à sua pergunta. Frei Jerônimo, tem algo a acrescentar, corrigir ou qualquer coisa? Bem, então c’est fini. Vamos mandar vir o café e cuidar da vida [inaudível] por [inaudível] dez minutos de intervalos.
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1 Estava como Reunião Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.