Santo
do Dia ─ 20/11/63 ─ 4ª feira .
Santo do Dia ─ 20/11/63 ─ 4ª feira
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Ao ver na Igreja algo que parece esquisito, o contra-revolucionário procura aprofundar, certo de que daquele mistério surgirá uma maravilha * Ao fazer a união hipostática com a natureza humana, Deus realizou uma maravilha maior do que unindo-se hipostaticamente aos Anjos * A Maternidade Divina de Nossa Senhora é a própria raiz da devoção marial * É próprio do espírito liturgicista desprezar todos os demais títulos de Nossa Senhora sob o pretexto de venerar apenas o principal deles * A mais preciosa graça em matéria de devoção a Nossa Senhora é quando Ela estabelece conosco, por laços inefáveis, uma relação verdadeiramente materna * “O Grupo vive de um crédito de misercórdia aberto por Nossa Senhora” * “Mais vale cair em graça do que ser engraçado”
Hoje é festa da Maternidade da Bem-Aventurada Virgem Maria. Novena de Nossa Senhora Aparecida. Amanhã é festa de Nossa Senhora Aparecida, padroeira principal do Brasil.
Vamos dizer alguma coisa a respeito da Maternidade da Bem-Aventurada Virgem Maria.
* Ao ver na Igreja algo que parece esquisito, o contra-revolucionário procura aprofundar, certo de que daquele mistério surgirá uma maravilha
A importância dessa festa para a piedade católica e, mais especialmente, para nós, por causa de nossa devoção especialíssima para com Nossa Senhora, é que todas as graças extraordinárias que Nossa Senhora recebeu e que fizeram d’Ela uma criatura única em todo o universo e na economia da salvação, todas essas graças têm como título e como ponto de partida e como razão de ser, o fato de Ela ser Mãe de Deus, o fato de Ela ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas envolvida nessa afirmação de que Ela é Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, há essa idéia ou afirmação do ensino da Igreja de que Ela é Mãe de Deus. Dentro de nossas concepções, haveria um comentário especial a fazer?
Haveria no seguinte sentido: vejam como é que se estabelece a hierarquia na obra de Deus, e como todas as coisas feitas por Deus são matizadas, contrafortizadas e nuancées. E como isso é contra-revolucionário.
O espírito revolucionário é a favor das simplificações. Alguma pessoa maldosa diria que o espírito revolucionário é politécnico. Pelo contrário, o espírito contra-revolucionário ama o matiz e quando vê uma coisa meio difícil de compreender e até meio antitética, entretanto ama aquilo porque compreende que naquela aparente antítese há, no fundo, uma verdade muito bonita uma verdade insuspeita, que a gente vai acabar encontrando. É uma coisa que desde pequeno eu me habituei a ver na Igreja.
Uma surpresa que eu tive com a Igreja, foi quando eu começava a ver coisas esquisitas na Igreja e eu ficava meio enovelado com aquilo, para usar a expressão que o Luizinho empregou ontem à noite. Mas depois do enovelado, eu aprofundava a coisa e percebia que quanto mais esquisito era o que eu via, tanto mais bonita era a explicação que tinha ali.
E então eu me habituei à idéia de que toda objeção que se pode fazer à Igreja, é como aquele furinho que há na praia. A gente vê um furinho besta, estão saindo borbulhazinhas. A gente metia o dedo, de dentro saía um caramujo. Assim também na Igreja. Tudo o que é uma coisa esquisita, que a gente não entende bem, o que parece antitético, contraditório, a gente não querendo uma explicação logo, a gente sabendo esperar a explicação quando de fato Nossa Senhora nos der a entender aquilo, ali tem uma pérola ou tem uma verdadeira maravilha.
* Ao fazer a união hipostática com a natureza humana, Deus realizou uma maravilha maior do que unindo-se hipostaticamente aos Anjos
É próprio isso da Igreja que, uma coisa eriçada de contradições, se encontre sempre uma harmonia profunda resultante de uma verdade no fundo.
Querem uma coisa que pode parecer, para um espírito cartesiano, uma coisa mais absurda do que Mãe de Deus?
Imagine o sujeito que nunca teve ensino de doutrina católica e que sabe o seguinte: que a Igreja Católica, ao mesmo tempo, ensina que Deus é eterno e puro espírito e, ao mesmo tempo, a Igreja ensina que Deus tem uma Mãe. E logo Mãe… Porque se fosse pai de Deus, ainda vai… Mas logo essa Mãe de Deus, quando a gente não sabe qual é o pai de Deus, essa Mãe sem pai, essa Mãe material, carnal, de um ente espiritual, essa Mãe temporal de um ente eterno.
Como a gente vê, é uma série de contradições que um espírito qualquer protestante, daqueles comedores de arenque da Noruega ou da Suécia: eu estou vendo como o senhores: “Mãe de Deus, impossível, oh, oh, oh!”
Oh, oh, oh, não! É assim, e é porque você julga absurdo. E porque no fundo de tudo quanto você julga absurdo, tratando-se da Igreja, nunca há absurdo. Existe uma harmonia profundíssima e superior presa a um princípio extraordinário. A questão é esperar para compreender.
Aqui a gente vê: Deus eterno, perfeito etc., etc., cria os anjos. Abaixo dos anjos cria os homens. Mas a Encarnação, a união hipostática, Ele não estabelece com anjo, Ele estabelece na natureza humana. É uma coisa que pareceria uma contradição: a superior dignidade dos anjos pediria que a união hipostática fosse feita com anjos e logo de cara com o mais alto, ou melhor, como o mais alto dos anjos. Pois Deus estabelece a união hipostática com uma criatura, com uma natureza humana, vamos dizer assim. Ele assume a natureza humana. Ele estabelece essa união hipostática e estabelecendo a um grau menos elevado do que os anjos, ele faz uma maravilha maior do que se ele fizesse a união hipostática com os anjos.
Porque feita a união hipostática com anjo, ele digni…
[Faltou uma linha no microfilme]
…união hipostática com o homem, ele dignifica os anjos porque o homem, enquanto tem alma é participante da dignidade espiritual dos anjos. A Ele dignifica depois todo o reino da matéria, porque o homem é feito de matéria. Portanto, é todo o cosmos que se dignifica muito mais com essa aparente incongruência da união hipostática feita com a natureza humana, do que uma união hipostática feita com uma natureza angélica.
* A Maternidade Divina de Nossa Senhora é a própria raiz da devoção marial
Depois Ele estabelece: Deus e depois então vem Nosso Senhor Jesus Cristo. Depois de Nosso Senhor Jesus Cristo há um abismo, naturalmente. Mas do alto do que vem depois, Ele coloca uma criatura humana que é o nec plus ultra de tudo quanto pode ser a mera criação. E aqui se estabelece algo que tem certo aspecto de hierarquia: porque é Deus, infinito, incomparável a qualquer criatura. Depois vem Nosso Senhor Jesus Cristo, em que a condição criada é aceita em união hipostática com a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e depois vem uma pura criatura. E essa pura criatura é Nossa Senhora.
Estão vendo que se estabelece uma espécie de hierarquia, que é uma coisa admirável, mas que é toda cheia de contrafortes: os anjos ficam meio de lado, é com a natureza humana que se faz a união hipostática e logo atrás vem uma criatura que é uma pura criatura, e que embora não haja propriamente intermediários entre Deus e o homem, num certo sentido da palavra, é um arco de aliança, é algo de intermediário entre Deus e o homem, e é o espelho mais perfeito de Deus que possa ser uma mera criatura. Então, temos Nossa Senhora, Mãe de Deus.
Como Mãe de Deus, posta como Rainha dos Anjos como Rainha dos homens, como rainha do Céu e da Terra. Depois, investida de todas as outras qualidades e de todas as outras graças, de todos os outros títulos que Ela tem, inclusive a Mediação Universal, por causa desse fato de Ela ser Mãe de Deus.
Assim, a festa de hoje atrai a nossa atenção e a nossa piedade sobre aquilo que, de algum modo, é a própria raiz da devoção marial: é a Maternidade de Nossa Senhora.
* É próprio do espírito liturgicista desprezar todos os demais títulos de Nossa Senhora sob o pretexto de venerar apenas o principal deles
Querem ver agora como todas essas coisas são assim?
Isso é tão verdadeiro ─ salvo censura do Frei Jerônimo ─ isso é tão ortodoxo que mais não podia ser. Pode não ser ortodoxo por algum defeito de expressão, porque a doutrina da Igreja a esse respeito é inteiramente ortodoxa.
Há uns vinte anos atrás eu quis fundar a Congregação de Santa Teresinha, e convidei uns filhos do Abraão Ribeiro de Almeida, o Hugo Ribeiro de Almeida, Tito Ribeiro de Almeida e outras flores que vicejavam no bairro de Santa Teresinha, para essa Congregação. Confabulam ─ a minhas não sambendas ─ já infectados pelo vírus litúrgico… [inaudível] … etc.
Hugo Ribeiro de Almeida: A Congregação chamará “Nossa Senhora Mãe de Deus”. Irrepreensível.
─ Mas por que você escolheu esse título que é pouco usual?
Resposta:
─ Porque afinal, em Nossa Senhora, só o que importa é ser Mãe de Deus. Todo o resto não é nada.
Aqui já entra o desequilíbrio. É o mesmo que dizer: na árvore só o que importa é o tronco. A galharia, as folhas, as flores, os frutos, nada disso importa. Uma vez que tem que aceitar a doutrina, por procurar despojá-la de toda essa complexidade que dela sai, de toda essa variedade de títulos que dela sai para ficar só com o tronco, o que já é, por sua vez, uma posição errada.
Vejam aí o bafo do espírito simplificador, liturgicista, protestante, sob o pretexto de ir às raízes, rejeitando o resto da galharia. O espírito católico é ao contrário: Venerar imensamente esse título de Nossa Senhora, respeitando-o como ele merece ser respeitado, mas sequioso de tirar desse título todas as suas conseqüências.
Então com o espírito voltado para as mil invocações que existem e se criarão novas até o fim do mundo, para cultuar Nossa Senhora debaixo desse, daquele e daquele aspecto, que é sempre uma decorrência da maternidade divina d’Ela.
* A mais preciosa graça em matéria de devoção a Nossa Senhora é quando Ela estabelece conosco, por laços inefáveis, uma relação verdadeiramente materna
Parece-me que essa invocação tem um ponto muito importante: é que Nossa Senhora Mãe de Deus, por ser Mãe de Deus, também por uma série de conseqüências, é, a título especial, Mãe dos homens. E, portanto, nossa Mãe.
Eu acredito que a mais preciosa graça que se pode ter em matéria de devoção a Nossa Senhora é quando Ela condescende em estabelecer, por laços inefáveis, com cada um de nós, uma relação verdadeiramente materna. Isso se pode dar de mil modos, mas em geral Nossa Senhora se revela principalmente nossa Mãe quando Ela nos tira de algum apuro de um modo que nos fica inteiramente inesquecível. Ou quando Ela nos perdoa alguma falta que particularmente não tinha perdão, mas que Ela, por uma dessas bondades que só as mães têm, passa por nós, perdoa e elimina aquilo como Nosso Senhor Jesus Cristo curava a lepra.
De maneira que não fica nada. Realmente, nada ali merecia ser perdoado, nada ali tinha atenuante, nada ali merecia senão a cólera de Deus, mas Ela, como Mãe, com seu poder soberano e com essa indulgência que as mães têm, com um sorriso, apaga isso, elimina e o passado fica completamente esquecido.
Nossa Senhora faz graças dessas, às vezes de um modo tal que para a vida inteira fica marcado a fogo, mas com um fogo que é fogo do Céu e não fogo da Terra e, menos ainda, fogo do inferno, fica marcado a fogo na alma essa convicção de que poderemos recorrer a Ela mil vezes, em circunstâncias mil vezes mais indefensáveis, e Ela sempre nos perdoará de novo porque Ela abriu para nós uma porta de misericórdia que ninguém fechará.
* “O Grupo vive de um crédito de misercórdia aberto por Nossa Senhora”
Eu acho, meus caros amigos, se Frei Jerônimo aprovar essa teologia, eu acho que é propriamente do que o Grupo vive. É um crédito de misericórdia aberto por Nossa Senhora, mas dessas misericórdias como poucas vezes terá havido, e que por causa disso, nós não merecendo e fazendo de tudo, Ela ainda tem mais um sorriso, ainda tem mais um perdão, Ela nos repesca mais uma vez. De tal maneira que me lembra uma palavra que, se não me engano, está no Apocalipse e que é a seguinte: “Porque eles eram fracos, eu lhes abri uma porta que ninguém poderá fechar”. Eu vi uma aplicação disso à devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Eu acho imensamente legítimo.
Acho que também é muito legítimo aplicar isso ao Imaculado Coração de Maria e ao Coração Materno de Maria para conosco.
De maneira que quando propriamente se fala do Grupo, e quando se fala da graça especial do Grupo, não se deveria falar da graça especial enquanto merecida por nós. Isso é conversa fiada, com C e F maiúsculos. Mas enquanto dado por Nossa Senhora, porque quis dar e desmerecido.
Eu não conheço verdade mais palpável, mais digna de nosso amor e de nossa gratidão. Porque, para dar uma imagem criada muito reles, mas que me vem agora ao espírito, nós estamos para com Nossa Senhora, como o Brasil está [para] com os Estados Unidos: Nós pagamos empréstimo, contraímos novo empréstimo em que entram incorporados os juros do empréstimo anterior. Estamos completamente encalacrados, entalados.
Só que Ela nos trata como os Estados Unidos estão muito longe de nos tratar. Se, portanto, Nossa Senhora nos der a graça, no fim desse nosso dia de, estejamos nós contentes ou não conosco, ao cabo dessa semana, ou ao cabo desse dia, se Ela nos der a graça de ter, no íntimo de nossa alma, um sentimento de confiança especial, não porque tenhamos razão de estar contentes conosco, mas porque sabemos como Ela é boa, se Ela nos der essa graça, eu tenho impressão de que o dia e a semana foram inteiramente pagos.
* “Mais vale cair em graça do que ser engraçado”
Minha avó adotava um ditado que ela repetia muito, porque eu embirrava, ou melhor, com que eu embirrava por causa de um certo anacronismo da expressão, mas que depois eu compreendi que era muito verdadeiro. Ela dizia que mais vale a pena ser engraçado do que cair em graça, ou melhor, mais vale cair em graça do que ser engraçado.
O que ela queria dizer propriamente era o seguinte: que quando há um rei ou um potentado que acha graça em alguém, isso é melhor do que alguém de fato ter graça.
Porque se o potentado achou graça, todas as coisas se passam como se fossem engraçadas.
Agora, o que adianta a gente ter graça, ou ser engraçado, se o potentado não acha graça?
Então, mais vale a pena cair em graça do que ser engraçado. É do que nós vivemos. Nós não somos engraçados mas por nossa suma… [inaudível] … nós caímos em graça. De maneira que isso é que nos deve dar alegria, nos deve dar satisfação.
Amanhã temos a festa de Nossa Senhora Aparecida. É muito bom nós nos recomendarmos desde já à intercessão d’Ela. Se me lembrarem amanhã, eu vou falar alguma coisa exatamente sobre as maravilhas que há no lado ultrabrasileiro de Nossa Senhora Aparecida.
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