Santo do Dia ─ 02/07/63 ─ 3ª feira . 5 de 5

Santo do Dia ─ 02/07/63 ─ 3ª feira

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O “Magnificat”, hino triunfal da grandeza de Deus * Um canto de oposição às unilateralidades meladas da “heresia branca” * O Senhor Doutor Plinio dá a noção verdadeira de humildade * Nossa Senhora, Sede da Sabedoria, exemplo de ponderação em tudo o que Ela pensa e diz * Atráves do “Magnificat” conhecemos a escola de vida espiritual que devemos trilhar

A festa da Visitação de Nossa Senhora está muito ligada ao Magnificat, que Nossa Senhora cantou nessa ocasião.

Farei um comentário breve sobre o Magnificat, satisfazendo um pedido a respeito, é uma homenagem a essa festa de Nossa Senhora.

* O “Magnificat”, hino triunfal da grandeza de Deus

O Magnificat parece-me que é uma obra-prima de raciocínio, e mostra bem qual é o espírito de Nossa Senhora, isto é, qual a estruturação lógica de seu espírito, mostra-nos também como no maior transporte de alegria e entusiasmo, Ela conserva naquilo que diz uma estrutura racional que verdadeiramente impressiona.

É interessante notar como, em Deus, Ela decidiu cantar sobre tudo o poder e a grandeza de Deus e os outros atributos de Deus em função de seu poder e de sua grandeza.

Isto é muito pouco próprio daquilo que convencionalmente chamamos “heresia branca”, que, em vez de dar o devido realce ao que diz respeito à grandeza de Deus, apenas dá realce ao que diz respeito à misericórdia de Deus.

É claro que se deve cantar a misericórdia de Deus e se deve cantá-la eternamente; é claro que sem essa misericórdia, nós não seríamos nada, mas também não se deve ser unilateral e encarar apenas a misericórdia, como também não se deve ter em vista somente sua grandeza.

É preciso ter em vista uma coisa e outra.

É isso que se nota no Magnificat, que fala da grandeza, mas à horas tantas descreve a misericórdia como uma das manifestações da grandeza de Deus.

Focalizo, então um comentário do Magnificat desses dois pontos: coisa eminentemente racional e estruturado, é um cântico que é uma verdadeira tese, contrário, portanto, à “heresia branca”, que é apenas emotivo, e também, onde a visão da grandeza de Deus domina, embora com uma referência das mais ardentes à misericórdia de Deus.

* Um canto de oposição às unilateralidades meladas da “heresia branca”

Vejam o caráter de tese que tem o Magnificat.

Os dois primeiros versos são a tese:

A minha alma engrandece o Senhor; e o meu espírito se alegrou em extremo em Deus, Meu Salvador.

O resto são motivos.

Primeiro motivo:

Por Ele ter posto os olhos na baixeza de sua escrava, porque eis que de hoje em diante me chamarão bem-aventurada todas as gerações.

Engrandeço a Deus porque Ele fez tão grande obra, de uma escrava, de uma simples serva humilde, fez uma rainha que todas as gerações chamarão bem-aventurada.

Aqui está uma manifestação do poder de Deus.

Outra razão:

Porque me fez grandes coisas O que é poderoso, e Santo é Seu Nome.

Ele fez nEla grandes coisas, e essas grandes coisas manifestam a grandeza d’Ele; e Ela então engrandece o Senhor.

Outra razão:

Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre os que O temem.

Então, porque Ele fez isto, e porque Sua misericórdia se estende de geração em geração. É outra manifestação de Sua grandeza, de Sua enorme misericórdia, que se estende de geração em geração sobre os que O temem.

Notem que é só sobre aqueles que têm temor de Deus, que têm, portanto, o senso da grandeza de Deus e que diante dessa grandeza, sentem temor.

Esse temor é o temor reverencial, o temor do reconhecimento da grandeza, da santidade e bondade de Deus.

O verso seguinte ainda é um argumento para cantar a grandeza de Deus:

Manifestou o poder de seu braço; dissipou os que no seu coração, formavam altivos pensamentos.

Deus grande, não em relação aos que O temem, mas em relação aos que não O temem, em relação a esses, manifestou o poder de seu braço e dispersou os homens maus, no fundo do coração dos quais se formavam pensamentos orgulhos.

Deus é grande na sua capacidade de ferir aqueles que não O temem.

Manifesta-se aqui a grandeza da cólera de Deus, depois de ser ter cantado a grandeza da misericórdia de Deus.

Os senhores vêem como isso é equilibrado, como mostra Deus em todos os seus aspectos e sempre grande em tudo. Como isso é diverso das unilateralidades meladas da “heresia branca”, que só vê a Deus num aspecto de misericórdia, condescendência, sem a manifestação de Sua grandeza.

E como tudo isto é raciocinado! É uma tese, e segue depois ponto por ponto, os argumentos da tese.

* O Senhor Doutor Plinio dá a noção verdadeira de humildade

Outra razão:

Ele depôs do trono os poderosos e elevou os humildes.

Depor do trono os poderosos não é, e evidentemente, tomar um homem que está no trono e tem poder, para tirá-lo do trono e depois coloca os humildes no trono.

Seria uma bobagem, porque esses humildes se teriam tornado poderosos e seria preciso derrubá-los também. Se o verso fosse esse, Ele depôs do trono os poderosos e fez com que todos fossem iguais, teria um mau sentido, mas teria um sentido.

Mas essa forma de roda gigante, exaltando os humildes e depondo os poderosos, para depois ter que depor os humildes que ficaram poderosos, é absurda. É evidente que não é assim que isso deve ser entendido.

O que é o poderoso e o que é o humilde? O humilde é o que fez o que Ela faz nessa canção, isto é, atribue tudo a Deus, reconhece que Deus é a origem de todo o bem, a fonte de todo poder, sem seu concurso, nada podemos na ordem sobrenatural e também na ordem natural.

Ele é o centro de todas as coisas e o Senhor que manda em tudo.

Humildes, por exemplo, eram os poderosos de quem Ela descendia e de quem também descendia Nosso Senhor.

Por exemplo, o rei Davi, que foi um poderoso e que morreu no seu poder, e que era humilde porque reconhecia tudo isso.

O poderoso de que fala a Santíssima Virgem, é quem não reconhece isso, pensa que tem poder independente do concurso divino.

Então, Deus depôs os poderosos e elevou os humildes.

Aqui está a manifestação do poder de Deus rindo de todo poder humano.

Dá poder a um humilde e este fica poderoso; tira todo o poder a um homem orgulhoso, que só confia em si e este fica [sem] nada.

É a grandeza de Deus, perto da qual todas as grandezas humanas não são absolutamente nada.

E continua:

Encheu de bens os que tinham fome e despediu vazios os que eram ricos.

Aqueles que eram pobres ─ os que são pobres de espírito, aqueles que têm fome e sede de justiça, encheu de bens.

Os que não tem fome e sede de justiça, que são apegados aos bens da terra, despediu empobrecidos.

Quer dizer, os ricos nada são para Ele. [Deus] faz dos ricos-pobres, e dos pobres-ricos, conforme entende.

Mais uma manifestação da grandeza de Deus. A proteção que dá ao povo eleito:

Tomou debaixo de sua proteção Israel, assim como havia prometido a nossos pais Abraão, e à sua posteridade para sempre.

Quer dizer, naquilo que promete, é grande, cumpre sua aliança até o fim.

* Nossa Senhora, Sede da Sabedoria, exemplo de ponderação em tudo o que Ela pensa e diz

Os senhores percebem que é uma tese, seguida de todos os argumentos até o final e canta muito equilibradamente a grandeza e a misericórdia de Deus: a grandeza de Deus em sua misericórdia; a grandeza de Deus em sua justiça; o vácuo de todos os homens diante de Deus, e o domínio de Deus sobre todo o universo. É o hino triunfal da grandeza de Deus.

No momento em que Santa Izabel falou d’Ela, glorificando-A, Ela mostrou que se considerava nada diante dessa grandeza infinita de Deus, que Ela cantou de modo excelente com um fogo e um sentimento extraordinários, mas, sobretudo, com equilíbrio, numa construção absolutamente racional, que poderia ser comparado a uma construção da Suma Teológica de Santo Tomás.

Isto é de tal maneira articulado, pensado a fundo, articulado. E isto Ela compôs, sob inspiração do Espírito Santo, na hora, quando foi saudada por Santa Izabel. Aí os senhores têm o espírito de Nossa Senhora.

As poucas coisas que Ela disse e que se registra no Evangelho, esta nota racional figura.

Por exemplo, quando Ela recebeu o anuncio de que deveria ser a Mãe do Salvador. Ela respondeu com uma objeção de caráter eminentemente racional: “Como pode ser isto, pois tenho um voto de virgindade?”

[O anjo] deu-lhe uma explicação. Quase como um silogismo, Ela tem a resposta: “Eis aqui a escrava do Senhor, portanto, faça-se em mim segundo a sua palavra”.

É uma coisa conseqüente. Ela dá um princípio e uma conclusão a ele.

Outra palavra é quando encontrou o menino Jesus no templo. A pergunta é uma pergunta que pede uma explicação. É uma pergunta cheia de aflição, cheia de angústia, mas que pede uma explicação: “Meu Filho, por que fizeste isto conosco? Teu Pai e eu te procurávamos aflitos”. E, mais uma vez, um pedido de uma explicação.

Compreendemos alí como a alma católica, sem ser absolutamente uma alma racional, é uma alma cheia de razão, cheia de pensamento, cheia de densidade em tudo que diz e faz.

Nossa Senhora, Sede da Sabedoria, representa assim a nós, como o exemplo da razoabilidade, o exemplo da ponderação, e exemplo da medida em tudo que se pensa e se diz.

Podem analisar o Magnificat e notar que nele não há uma palavra que sobre, não há um pensamento que não esteja colocado no lugar.

É uma jóia perfeita, em que cada pedra está colocada em seu corte para dar uma idéia global do conjunto.

Aí temos o espírito de Nossa Senhora, tão diferente da bobeira dos sentimentalismos fátuos, dos entusiasmos vazios próprios da “heresia branca”.

É uma coisa da razão. Não nasce de uma exacerbação do sentimento, nem de uma coisa irrefletida, que se atira.

E assim compreendemos de um modo descritivo aquilo que sabemos de outra maneira sobre Nossa Senhora que Ela é a Sede da Sabedoria.

* Atráves do “Magnificat” conhecemos a escola de vida espiritual que devemos trilhar

E então compreendemos o que é ter o espírito de Maria e ser escravo de Maria; é procurarmos ter essa sabedoria, essa ponderação, essa grande estruturação de raciocínios, de idéias, de pensamentos como couber em nosso nível intelectual, mas procurando fazer tudo razoavelmente com a razão dominada pela Fé, e com o sentimento servindo de escravo à razão.

De maneira que ele vibra quando a razão manda e cessa de vibrar quando a razão se opõe.

E se em certo momento a razão não vibra, ou melhor, o sentimento não vibra com a razão, é a razão que vence e não o sentimento.

Os senhores têm aí uma escola de vida espiritual na imitação de Nossa Senhora.

E isso atestado pela principal obra d’Ela que vem a ser exatamente o Magnificat.

A propósito da Visitação gostaria de lembrar um outro ponto: quando Nossa Senhora falou, São João Batista, no seio de Santa Izabel, ouviu a voz de Nossa Senhora e estremeceu de gáudio.

[Que] alegria santa que sentimos quando estremecemos à palavra de Nossa Senhora em nossos corações!

Vamos pedir a Nossa Senhora que ao par das provações que [Ela] nos dá, dê-nos também na festa de hoje, ou com as graças alcançadas na festa de hoje, uma dessas palavras interiores em que a gente exulta de gáudio e tem coragem para carregar todas as cruzes e ânimo para chegar até o fim da vida sofrendo por Ela.

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