Reunião
Normal – 8/6/1963 – p.
Reunião para o Grupo da Martim1 — 8/6/1963 — sábado
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Vícios mentais do brasileiro que dificultam a procura do absoluto [Acréscimo à reunião de 25/5/63]
Quais são as coisas que impedem o brasileiro de ser tão recolhido, tão contemplativo e procurar de tal maneira a procura do absoluto quanto nós deveríamos desejar.
Trata-se da sociabilidade excitada do brasileiro. Essa sociabilidade caracteriza-se pelo seguinte: é uma atenção voltada de um modo veementíssimo para as relações com outrem e, sobretudo, com certos ambientes coletivos, nos quais a pessoa se põe, que constitui quase que uma alma coletiva, dentro da qual a pessoa se insere. Não se trata de fazer uma inserção dessa alma coletiva através de idéias nem através de sentimentos, mas é através de uma afinidade de vibrações, de maneiras de vibrar.
As maneiras de vibrar sendo afins, procurando [o] indivíduo, no contacto com o outro, apenas vibrações, acaba sendo que o desejo de vibrar, em contacto com os outros, toma completamente a atenção do brasileiro e para ele, mesmo nos prazeres em que ele mais parece se interessar por algo que não é uma vibração, essa vibração intervém como fator muito importante.
Por exemplo: cinema, baile, futebol, etc., dir-se-ia que o brasileiro gosta muito da fita. É verdade até certo ponto, mas ele gosta sobretudo da participação da emoção comum na sala do cinema. Assim também com o futebol. Isto começa desde menino com o recreio, com os berros, com a barulheira, com a explosão degradante de nervos que se dava no Colégio São Luiz, no momento em que o Padre apitava e que havia um urro, seguido de uma demarragem, que era um debandar indigno.
Essa excitabilidade nervosa, então tem como efeito que as pessoas não se preocupam, no contacto com os outros, com as idéias dos outros, nem com as qualidades dos outros, nem mesmo com a psicologia mais profunda dos outros. Mas é uma espécie de cinismo, porque todos estes valores fundamentais passam para segundo plano.
O gosto de vibrar pelo vibrar acaba tomando completamente o primeiro plano. Depois isto que já produz uma espécie de cinismo, uma espécie de vazio, tem como conseqüência uma espécie de frustração dolorosa quando a vibração cessa. Exemplo é a frustração do primo do Dr.… [pequeno espaço em branco] …na tarde de domingo, quando pensava que tinha que voltar para o colégio. Era a vibração que cessou.
Tem como outro efeito que todo e qualquer recolhimento se torna doloroso e impossível, verdadeiramente execrável e que portanto toda paz de alma, tão necessária, a pessoa perde essa paz de alma e perde até a apetência dessa paz de alma., no desejo da excitação. O resultado desse cinismo-vibração produz então uma espécie de vazio completo em que toda procura do absoluto se torna impossível.
É importante notar que esta vibração não se confunde com a vivacidade. A pessoa pode ter uma vivacidade grande, mas não ter essa vibração e a característica disso é quando a pessoa passa do estado de vivacidade para o estado de recolhimento de um modo orgânico, normal, sem baixa nem tempestade e reciprocamente, quando o sujeito passa do estado de recolhimento para o estado de vivacidade, sem esforço, com um movimento natural, como as pálpebras se abrem e se fecham sem que a pessoa faça esforço, do mesmo modo se dá esse movimento. Esta é sem dúvida a característica da pessoa bem constituída neste sentido.
Então, ou nós procuramos combater em nós essa sociabilidade excitada, adquirindo ódio a esse ambiente assim. Isto é, em primeiro lugar o pressuposto para toda vida espiritual séria; mas, do outro lado, uma exigência do espírito contra-revolucionário, porque o ambiente onde essa excitação se compraz é um charco de democracia, de cinismo e de sensualidade e de orgulho, porque é claro que, nesse regime de vivacidade, as trombadas são a toda hora e a pessoa participa do modo mais individualista possível dessa espécie de inferno coletivo que é o ambiente marcadamente carnavalesco brasileiro, cínico, etc.
De maneira que, para formação contra-revolucionária, para este recolhimento típico de nossa vocação e para a correção dos defeitos típicos que são tão freqüentes na “geração-nova”, é uma conditio sine qua non a pessoa adquirir este atrativo da solidão, atrativo da calma, esse atrativo da meditação e da contemplação.
Eu tenho uma firme convicção de que vicia a pessoa de tal maneira a pessoa, esse atrativo da excitação, que é uma verdadeira graça especial a pessoa começar a odiar isto, a detestar isto. É quase o Espírito Santo que fala na pessoa, sem ela perceber, fazendo-lhe sentir de um modo vivencial o gosto da calma, o gosto da distância em relação às coisas.
É quase uma espécie de conversão o pôr isto de um modo vivencial, mesmo porque, quando isto não é fator de um modo vivencial fica muito pouco posto e eu considero uma das graças mais insignes que um membro do Grupo deve pedir é exatamente isto.
[No parágrafo seguinte aparecem várias … não ficando claro a que correspondem. Foram todas registradas.]
Se me permitirem uma referência biográfica, esta semana, do que eu gostei na Fazenda Morro Alto é que me pareceu que ali está posto um ambiente para serem dispensadas as graças deste tipo, desde que a Fazenda seja bem usada, desde que não seja usada com excitatório seguinte: resolve X partir às 6 da manhã, para subir o morro, fulano… de manhã já o acorda, já é excitado… bam, bam, bam, na porta do vizinho… “olha, tá no horário…” já começa a provocação de manhã…
A gente diz para ela qualquer coisa… berro de uma porta para outra, …
“Fulano, você já fez tal coisa assim?” …
Berro na janela: “Fulaaano!!” … já é o nervosismo que está ecoando pelos morros, etc., etc.
A Fazenda pode ser usada neste péssimo sentido mas pode ser usada no sentido que a vi sendo usada nestes dias.
Se houver uma correspondência à graça da Fazenda Morro Alto, ela é uma verdadeira casa de paz que é como ela deve ser vivida e deve ser desejada e procurada.
De modo que aqui fica como complemento inadequado ao resumo, mas enfim me ocorre dizer isto aqui: “Domus Pacis”, Nossa Senhora da Paz, a Fazenda deve ser Assis, tranqüilidade e acabou-se.
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1 Estava como Reunião Normal. Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.