Reunião de Sábado à tarde – 18/5/63 (019.604) – p. 15 de 15

Reunião para o Grupo da Martim1 — 18/5/63 — Sábado (019.604)

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Analogias entre formas, cores, sons e valores espirituais, ponto de partida para a procura do Absoluto * Viver é admirar! * Importância fundamental de uma vivência primeira muito rica das coisas para fazer o exercício de transcendência — A explicitação no fundo é uma vivência considerada numa ordem superior * Correlações entre impressões e idéias e formação das visões de conjunto exemplificadas com o banquete das bodas de Maria Antonieta em Versailles e o cortejo papal * A tríade de defeitos que atrapalha o vôo do pensamento explica muitos problemas de convívio no Grupo * “Ordena questo amore”! Temperança e recolhimento contrapondo-se à megalice e frenesis, preparam as condições para pensar retamente * Papel fundamental do enriquecimento das premissas pela degustação prévia das primeiras vivências de uma coisa a ser analisada * O apostolado do Grupo deve consistir em saber explicitar na linha Ambientes-Costumes e pôr alma nas coisas como um espírito contemplativo, procurando sempre o Amor de Deus * Feita a “mise au point” o Senhor Doutor Plinio mostra como viver “lo que se dice” é admirar segundo sua própria luz primordial

* Analogias entre formas, cores, sons e valores espirituais, ponto de partida para a procura do Absoluto

Nós devemos tomar o ciclo de nossas conferências que ficou interrompido há quinze dias, nós devíamos tomar no ponto que tínhamos deixado a última vez. Nós estávamos falando a respeito da procura do absoluto, e que eu plutôt estava fazendo indagações a respeito das dificuldades existentes na matéria do que propriamente fazendo uma explanação.

Eu tinha mostrado, e eu lembro isso apenas para situar um pouco o assunto, eu tinha mostrado que este trabalho da procura do absoluto no que diz respeito às coisas que nos cercam, quer dizer, de maneira a nós podermos nos elevar dos valores criados que nós encontramos entre nós e em torno de nós e que são os bens da alma superiores aos bens do corpo que nós devemos pesquisar nesta terra para nos elevar a Deus, que esse trabalho devia ser feito da seguinte maneira: o ponto de partida, a idéia de que toda a forma, de que toda cor daquilo que pede os nossos sentidos — portanto, um som, portanto também um movimento, um modo de algo se mover, enfim, tudo o mais, que todas essas coisas são analogias de valores espirituais existente no homem e que eu posso portanto estabelecer uma analogia, por exemplo, entre esse estandarte e um estado de espírito que eu posso imaginar num grupo ou posso imaginar num homem ou posso imaginar num movimento. Porque as coisas materiais que estão aqui são [analógicas] com valores morais, e por esta forma eu posso através disto não só ligar-me ou fazer a idéia do que é um estado de espírito que está no homem e portanto a virtude que pode estar no homem bem como os defeitos que podem estar no homem, como também eu posso me elevar muito mais, e me elevar até Deus Nosso Senhor.

Porque se isto é símbolo, é símbolo de valores espirituais, como Deus é puro espírito, e mais do que puro espírito, Deus é o Ser por excelência, tudo aquilo que se pode dizer de seres espirituais inferiores e criados de algum modo, mutatis mutandis mas por excelência, pode-se dizer d’Ele, que é o ser espiritual incriado, de maneira então que desta forma eu me devo elevar até Deus.

* Viver é admirar! — A única forma de felicidade possível nesta vida é ter um espírito aberto à consideração dos valores espirituais

Eu faço lembrar que essas considerações se prendem a uma conferência que eu fiz aqui a respeito dos bens espirituais, em que eu mostrava que a grande felicidade na vida, o grande bem-estar na vida, a grande fonte de equilíbrio interno na vida consiste na apreciação dos bens espirituais, em fazer consistir a nossa felicidade na fruição dos bens espirituais.

Um dos grandes enganos da vida moderna é dar a ilusão de que os bens materiais são a finalidade da vida e que o sujeito vive para ter qualquer coisa, para ser dono de alguma coisa, para garantir-se contra determinada dores físicas, ou necessidades físicas, etc.

Eu mostrei que isto é completamente errado, e que na realidade o homem vive para os bens de caráter espiritual e que os bens de caráter espiritual são esses assim. E eu mostrei toda a felicidade que um homem pode ter nesta terra ao mesmo tempo que ele prepara sua alma para o céu. Toda felicidade que ele pode ter nesta terra é conhecendo e degustando os bens espirituais.

E nós estávamos, portanto, tratando de ver quais eram as dificuldades que se levantam para nós sabermos conhecer e apreciar esses bens espirituais, nesta ordem em que as conferências vinham sendo feitas.

Eu tinha dito que tinha feito perguntas análogas à Rua Pará, e que o Fernando tinha dito que uma das dificuldades para a gente fruir bem essas coisas na linha dos bens do espírito, uma das dificuldades para a gente fruir essas correlações, é que nós não temos uma idéia muito precisa de quais são os valores do espírito. Se eu devo tirar, por exemplo desse estandarte, uma relação com determinado valor espiritual, mas eu tenho noções muita vagas a respeito dos valores espirituais com que esse estandarte deve ser comparado, então, naturalmente eu não posso fazer esse jogo, porque o termo principal da comparação, o termo mais nobre da comparação, que são exatamente os valores da alma humana a respeito desses termos, eu tenho noções vagas, imprecisas, não sei lhes dar o devido valor. O resultado é que eu não sei fazer esse jogo.

Essa era, das várias perguntas feitas na Pará, ou das várias objeções feitas na Pará, aquela que tinha me parecido mais frisante, mais importante. Aí eu me lembro que o Fábio me fez uma consideração que me pareceu muito interessante também, e que é o seguinte. Que não se trata aqui apenas ou sempre de fazer uma explicitação das coisas, mas é que é uma espécie de sentir do qual depois mais tarde nasce a explicitação, mas que esse sentir é uma espécie de primeiro passo indispensável.

* Importância fundamental de uma vivência primeira muito rica das coisas para fazer o exercício de transcendência — A explicitação no fundo é uma vivência considerada numa ordem superior

Então o Fábio contou o caso de que quando ele era novo ainda no Grupo, que ele me viu ir à Igreja de São Francisco, não sei com quem, e de repente analisar uma janela, digamos, não sei bem o que era, e fazer uma análise daquela história. Então eu dizia: isso é muito bonito, porque tem tal coisa assim, e tal coisa assim… E procurei explicitar a impressão que a mim pelo menos causava aquela coisa que estava sendo analisada.

E que ele então achou que o membro do Grupo que devesse estar em ordem com o espírito do Grupo, iria tomar o hábito de fazer isso e procurar fazer isso por toda parte por onde ia. Então, naturalmente, com dificuldades muito grandes, com atrapalhações muito grandes. Até que o Carlos Alberto explicou a ele que não era propriamente assim.

Essa explicitação era uma espécie de segundo estágio, que o primeiro estágio, o mais rico, do qual todo resto dependia e com o qual habitualmente a gente se contentava e só explicitava em certos casos, mas com o qual a gente habitualmente se contentava, era de simplesmente olhar a coisa e sentir. Não só de um sentir sentimental, mas não é nenhum pouco o sentir sentimental, mas sentir de perceber a coisa, vivenciar a coisa, e depois a explicitação daria a gente os elementos necessários quando a gente quisesse. Mas, não era preciso estar a todo propósito, a todo momento explicitando.

O que eu achei muito verdadeiro, em primeiro lugar, porque é isso mesmo. Em segundo lugar, porque sem uma espécie de vivência muito rica todo o resto é zero. Se eu me detenho diante de uma determinada coisa, e começo desde logo a fazer explicitações, eu até nem posso ter toda a vivência da coisa. A palavra “vivência” é muito ruim, muito perigosa, mas ela serve aqui. Eu não posso ter toda a vivência da coisa, com toda sua riqueza, é só depois, por assim dizer, de encher com a coisa que eu posso então subir para aquela explicitação que é a vivência considerada na sua ordem superior.

Então, tratava-se de saber um pouco como é que essa vivência deve ser tomada. Eu queria falar um pouquinho dessa vivência, e depois continuar a ouvi-los a respeito da matéria, porque eu acho que são duas ou três reuniões em que os senhores devem falar mais do que eu. Em que se trate de dizer alguma coisa que representa a dificuldade que os senhores podem sentir nisso.

* Senso comum e bom senso: distinções e exemplos — O dom dos exemplos, fruto da sabedoria, escachoante em nosso Fundador aplicando os cinco sentidos num só lance

Há uma coisa em psicologia que é muito importante, e que se chama o senso comum, que não tem muita relação com aquilo que se chama o senso comum na linguagem comum: Na linguagem comum, o senso comum é mais ou menos sinônimo de bom senso, quer dizer, um patrimônio é de bom senso na medida e na forma em que todas as pessoas sensatas o têm, de maneira tal que o sujeito que não tem tem o senso comum é gagá.

Vamos dizer o senso comum faz-nos entender que nós não devemos chegar uma hora antes do trem na estação, para evitar uma espera estúpida, esse é o senso comum. Agora, uma pessoa que tem a mania de chegar uma hora antes na estação… (…)

o senso comum aberra disso, porque ficar fazendo o quê numa estação? Não há lugar de maior tédio do que uma estação. Antes do trem chegar, não há lugar mais desagradável enquanto bem-estar e não há lugar onde a gente tem vontade de sair depois que o trem foi embora.

Bom, então isso é uma verdade do senso comum, segundo a expressão corrente do senso comum, mas o que eu vou dizer agora a respeito do senso comum não tem nada a ver com essa expressão. É uma outra coisa. O que é que vem a ser? É o seguinte:

Eu estou colocado diante de um objeto, por exemplo, vamos dizer, eu estou num teatro — isso eu acho que é o melhor exemplo — num teatro eu tenho a percepção da música pelos sons que se tocam. Meus olhos, além disso, têm a percepção daquilo que se passa no palco, as pessoas que se movem, as cenas que se passam. Então, além dos ouvidos, os olhos estão engajados nisso também. Vamos supor que seja um teatro freqüentado por gente extremamente fina, e que um vago perfume paire na sala, porque muita gente usa perfume fino. Ali o olfato está engajado naquilo. Ao mesmo tempo eu estou por exemplo naquela sala muito bem sentado numa poltrona cuja matéria para a poltrona é como aquela cama em matéria de cama. Então meu tato está engajado também ali. Eu acho que não falta nenhum dos sentidos… Há o paladar. Vamos dizer que eu estou comendo um bombom francês muito gostoso nessa ocasião exatamente…

Os senhores estão vendo que a pessoa está sendo cercada pela realidade exterior de todas as formas.

* Correlações entre impressões e idéias e formação das visões de conjunto exemplificadas com o banquete das bodas de Maria Antonieta

em Versailles e o cortejo papal

Há agora uma espécie de senso por onde a pessoa encontra uma espécie de correlação de todas essas coisas que está sentindo, e essa correlação lhe dá uma idéia conjunta de todo aquele ambiente, de toda aquela cena que se poderia chamar uma noite de teatro em Versailles, no apogeu de Luiz XV. Ou então, vamos dizer, assistir a cena que se deu ali, o famoso banquete oferecido por Luiz XV a Madame la Dauphine, Arquiduquesa d’Áustria, vinda para se casar com Luiz XVI.

Imaginem que as pessoas todas estão sentadas lá, a gente diz a impressão que teve daquele banquete. Aquela impressão é uma conjunção de todas essas sensações que me entraram pelos vários sentidos, mas que antes mesmo de serem analisadas pela minha cabeça, antes mesmo de serem objeto de uma explicitação encontram uma espécie de harmonia interior, encontra uma espécie de imbricamento com conjunções anteriores, que ainda estão no domínio dos meus sentidos, ainda não foram intelectualizadas, ainda não foram para o meu espírito, e que dá uma espécie de nota dominante, que eu chamaria uma espécie de bem-estar onímodo, elevado, nobre, agradável. É isso que toca a minha pessoa inteira, e que não toca apenas um determinado dos meus sentidos, e que é uma coisa sumamente ordenada, e de fato una.

Eu vou provar que é una. Imaginem que estão tocando ali um minueto. Um minueto é propriamente a música daquele ambiente. Bem, eu estou achando aquela música muito harmoniosa com o ambiente. Agora, imaginem que a pára a música, e começa: “Ai que saudades que eu tenho da minha casinha pequenina, onde meu amor nasceu, tinha um coqueiro ao lado…” (…)

O que aquela choradeira tem que ver com a alegria leve de cores claras saudáveis, engraçada, fina, toda feita de tules e mousselines daquele ambiente do teatrinho de Versailles? Uma pessoa bem construída sente imediatamente estranheza, porque não tem propósito.

Eu mostro outra coisa. A pessoa começa a ouvir de longe as duzentas ou trezentas trombetas de prata de Michelangelo, do cortejo Papal que vem se aproximando, e que vão tocando perto daquele teatro, etc., etc. Apesar daquilo a meu ver ser muito mais bonito do que o teatro, sente uma certa discrepância, porque aquilo é de um estilo militar e de um estilo religioso… (…) Mas que em todo caso discrepa, em todo o caso não tem a harmonia inteira com aquele conjunto de impressões que aquela ambiente dá.

* Destilação das impressões, esforço da atenção, degustação e intelectualização das sensações são etapas na procura do absoluto — Papel do seletivo para a hierarquização

Note bem isso, porque isso é muito importante para a explicação: além da impressão que cada coisa dá, há uma vivência da coisa no seu conjunto, há um sentir a harmonia conjunta daquela coisa que tem algo de seletivo, algo de hierarquizante, em que as notas principais, as notas harmônicas de tudo como que se fundem em algumas principais, como que se reduzem a algumas principais que mais chamam a minha atenção, e que até não são necessariamente as mesmas para cada um.

Vamos dizer, por exemplo, que eu, colocado naquele ambiente, tivesse uma impressão de graça leve e deliciosa, vamos dizer que um outro colocado naquele ambiente, em vez de ter a impressão diretamente da graça, tivesse a impressão da harmonia. São impressões até um pouco diferentes, porque conforme a luz primordial de cada um a atenção se fixa sobre um determinado ponto daquela harmonia, e já vai de algum modo realçando aquilo, evidentemente. Mas, de qualquer forma, as impressões são meio parecidas em todos e são uma espécie de impressão una que é uma destilação de todas aquelas impressões que se deram lá.

Agora, como é que o indivíduo passa deste sentir aquela cena para a parte propriamente intelectiva?

É por um esforço de atenção que é um esforço de atenção ao mesmo tempo fora de si e dentro de si. Fora de si para captar aquelas impressões, mas dentro de si no sentido seguinte: que a pessoa começa então a prestar atenção no jogo do senso comum, quer dizer, começa a procurar sentir dentro de si mesmo a harmonia que vai sentindo resultante da conjugação de todos aqueles dados e a degustar essa harmonia, e apreciar essa harmonia quase que eu diria contemplativamente. Quer dizer, como quem pega um vidro, uma taça da qual está se evolando um perfume, e fica assim para pegar todo o perfume, e fica cheirando aquilo para respirar o perfume, para sentir bem o perfume, para se impregnar bem daquele perfume, assim também a gente faz com o seu senso comum interior, como se fosse uma espécie de fogo de braseiro, do qual se evola esse perfume que é a nota do seu próprio senso comum, da própria conjugação desses valores harmoniosos. E fica prestando atenção naquilo, e degustando aquilo.

* A crítica intelectiva, o vocabulário para explicitar as impressões e as dificuldades postas pelos vícios de certas gerações no fazer o exercício da procura do absoluto

Em determinado momento essa degustação é tão clara, e tão definida, que o sujeito encontra a palavra para explicitar, encontra o vocábulo, encontra o termo necessário para fazer a explicitação. Quer dizer, do sentir ele passou então para algo que entrou e se transformou em valor de espírito. Ele do sentir, ele compreendeu. A inteligência, a alma funcionou, e a prova de que a alma funcionou é que ele proferiu uma análise, fez uma crítica intelectiva. Nesse momento está pronta a coisa para comparar com os valores de espírito, etc., etc., mas é uma primeira atitude.

Bom, eu vou mostrar quais são os vícios por onde a pessoa não faz esse serviço.

O primeiro vício é um vício muito freqüente hoje em dia. Não é tanto a exteriorização. A exteriorização é mais o vício da minha geração, ou da geração que vem depois de mim — Castilho, Azeredo, Adolphinho. Mas o primeiro vício é a interiorização. Vê aquilo, sofre uma espécie de trauma com aquilo, uma espécie de desequilíbrio interior, e começa prestar a atenção em si, em vez de prestar a atenção na coisa. Então uma exteriorização boba, sem utilidade nenhuma, sem sentido nenhum. Quer dizer, eu estou nervoso, eu estou não sei o quê, e olha tal coisa, depois volta e presta atenção em si mesmo. Quer dizer, uma coisa desordenada.

Outro vício é a exteriorização errada, sem distância psíquica… (…) Passa uma marquesa, toda bem arranjada. O olhar do primeiro caiu de repente no penteado da marquesa, que tem uma flor cor-de-rosa. Então, cor-de-rosa, logo comentários… Ou então de repente passa um lacaio superiormente bem vestido, conduzindo um sorvete à maneira de castelo: pum! mão em cima, e pega um pedaço. Impressões fragmentárias violentas, completamente desordenadas, e se excedendo tumultuariamente.

Bom, em qualquer dos dois vícios, o segundo é a dispersão, o primeiro é a interiorização errada. Há, naturalmente, o papel do egoísmo, que é uma coisa pavorosa. O sujeito vê uma coisa dessas, fica pisado… (…)

* A tríade de defeitos que atrapalha o vôo do pensamento explica muitos problemas de convívio no Grupo

Depois dessas três coisas — introspecção boba, extropecção a la barbárie, e mania de aparecer e de se colocar no centro das coisas — que não se excluem, podem passar violentamente a la trambolhão, depois de qualquer de uma dessas três coisas, quando o sujeito volta para casa, volta numa desordem interior extrema, lanhado, excitadíssimo, cansadíssimo, e ao mesmo tempo com uma vontade prodigiosa de dormir, ligada a uma vontade prodigiosa de não dormir, o que dá num bate-papo bobo e numa briga com o companheiro. É o ponto terminal. E a respeito de uma coisa que às vezes nada tem que ver com o lugar em que estiveram juntos: “Você não sabe quem sou eu!” E mil outras megalices contra o companheiro. É a desforra contra aquela história que o pisou e triturou de todos os modos. O conjunto de repercussões dessas coisas é horrível. (…)

A pessoa procura, huuuum, ilhando o companheiro, consolar-se um pouco da desordem que sentiu dentro de si expandir-se e consolar-se ao mesmo tempo. Queijo completamente mal partido, totalmente errado, é preciso dizer.

Bem, agora imaginem um outro que tenha assistido a isso harmonicamente, essas coisas constituem uma espécie de unidade. Uma das coisas é: “Eu não sou desse ambiente, é ridículo querer brilhar aqui dentro, eu nem vou querer brilhar, eu já dou graças a Deus de poder olhar e de sair enlevado com isso. É uma posição ordenada e humilde, porque afinal de contas, por mais que eu possa pensar de ser Ribeiro dos Santos ou Corrêa de Oliveira, uma das melhores famílias do Brasil, eu sei que não sou nem Souza Queiroz, nem Clermont-Tonerre, está compreendendo? Nem Larochefoucauld, nem nada disso, Duque de Rohan, etc. Eu não sou nada disso.

Resultado: metido dentro dessa gente, eu sinto o meu Itú dentro de mim, e não posso deixar de compreender que aquilo não é para o meu bico, estar contente de estar ali dentro no meu cantinho, e se eu levar dali de dentro o panorama, eu já levo muito.

Conhecem aquela história do homem que olhou numa aldeia e perguntou tal coisa, tal coisa e tal outra coisa, de quem é tal casa, tal outra? É daquele, daquele, e daquele outro.

E a sua, qual é?

É o panorama.

Também, se sair da festa levando o panorama, você já levou um colosso. Vou dizer mais: levou o melhor da festa! Não vá agora ficar no meio da sala mostrando-se e fazendo graça para atrair os outros ou bancando o filósofo, porque não adianta. Fique no seu lugar, seja ordenado. Primeiro movimento.

(Sr. –: … querer ser o panorama?)

* “Ordena questo amore”! Temperança e recolhimento contrapondo-se à megalice e frenesis, preparam as condições para pensar retamente

Querer ser o panorama é o sumo da megalice. Você definia a forma mais aguda da megalice.

Bom, em segundo lugar, nada de introspecção e nem extropecções inúteis. Não se emocione sem medida. Não há razão para: “Ah! que cor-de-rosa!” Não. Ordena questo amore. Senta um pouco, olha isso de longe. Ponha-se de fora, de longe, para conseguir entrar dentro. Procure sentir a harmonia depois disto, e desta harmonia que então é exatamente o dado do senso comum, rico, cognoscitivo, esplêndido, retirar uma compreensão e um ato de amor.

Aí entrou então uma procura verdadeira do absoluto. Por que absoluto?

Porque de toda aquela coisa que o meu senso comum notou, sai uma palavra. E esta palavra é um valor absoluto. Saibamos dizer, como eu diria para mim a palavra “elegância”, “leveza”, “graça”, “charme”, por exemplo (mas o charme já é um valor de alma), e eu então saio com um valor de alma que eu vou apreciando, que era um valor de alma que estava naquelas almas, que pode estar em várias almas, que de algum modo existe também em Deus, e que portanto se eleva para uma ordem superior de valores. Então aí eu preparei a procura do absoluto.

Portanto, esse primeiro procurar sentir, mas procurar sentir as coisas com distância, ordenadamente, não se dissipando, prestando ouvidos a essa espécie de senso comum interior, é o que me parece que era a explicitação de que o Fábio falava na última reunião, a respeito do sentir e do viver a coisa. Porque o ordenadamente ver a coisa é assim, e as coisas só se vivem ordenadamente, ou do contrário é melhor não se viver. Para viver desordenadamente é melhor não viver as coisas. E aqui está, portanto, a verdadeira posição recolhida perante as coisas.

E a verdadeira posição recolhida é ver, mas ver com distância, sentir esse dado do senso comum e procurar compreender. Aqui está a questão.

* Introspecção e exteriorização excessivas, defeitos psicológicos que se opõem frontalmente à procura do Absoluto

Antes de abrir o tema para toda a sua amplitude, quer dizer, voltar à procura do absoluto, eu pergunto se eu consegui dar verdadeiramente o aproveitamento devido à contribuição que achei do Fábio? É mais ou menos explicitadamente isso.

Então, como é que se explica? É nessa tensão em relação ao senso comum.

Eu pergunto se isso ficou claro para todos, ou se alguém me queria fazer alguma pergunta a esse respeito?

(Dr. Fábio: … é na interiorização…)

O sujeito começar a prestar atenção em si, nas reações que está sentindo. Tem muita gente que faz isso.

(Dr. Fábio: Isso é próprio da geração do senhor?)

A interiorização é mais de vocês, e a exteriorização é muito própria da geração do Castilho, da geração formada…

(Sr. –: … inaudível.)

Não, é um pouco diferente. Era querer mover-se, ver muito. Vocês imaginem um norte-americano ali dentro, pode ter idéia … Depois sobe aqui, olha embaixo como é, quer falar com todo o mundo. É uma exteriorização um pouco… (…)

O defeito do exemplo que eu dei, é que eu notei que é um exemplo coruscante demais, fala demais. Um baile, um banquete com todas as suas harmonias, etc. etc., fala demais. Mas, diante desse estandarte, por exemplo, ou diante daquela imagem, ou nesta sala em modo menos vibrante, é claro, porque eu tomei uma coisa pinacular, em modo menos vibrante esta coisa dá-se também.

Quer dizer, o estandarte dá um conjunto de impressões, que são impressões de forma e cor apenas, mas são impressões muito harmônicas e muito bonitas, que exatamente consideradas no conjunto do estandarte acabam tendo esta espécie de homogeneização do senso comum, acabam produzindo uma impressão única e essa impressão única é um valor moral. Nós passamos aí da parte material para a parte espiritual. Todo “ambientes e costumes” que eu pudesse fazer a esse respeito não é senão a explicitação do que se passou nessa espécie de conjunção, e depois dessa passagem de esfera: primeiro uma unificação dos sentimentos e dos sentidos, e depois um valor — ainda nos sentidos — único, que já dá para um valor moral.

Eu poderia fazer isto, como tenho feito aqui. Os senhores me têm visto fazer mil e mil vezes, mas que o mecanismo é sempre este. Vamos dizer por exemplo aqui, a mim, porque aqui sempre entra o seguinte: que o que eu disser é uma coisa que você pode ver também, embora eu não seria inteiramente o que chamaria a sua atenção.

* Nosso Pai e Fundador faz uma belíssima análise do Estandarte aplicando os conceitos do exercício de procura absoluto

(Sr. –: …A passagem.)

Para mim, Plinio, o que chama muito a atenção nesse estandarte, é o seguinte. Eu olho para o dourado, e é um dourado plutôt escuro, é uma coisa um pouco dada a ouro velho, não é desses ouros estardalhaçantes, esfarfalhantes. É uma ciosa um pouco dada a ouro velho. Esse ouro, no que tem de mais escuro dentro dele, casa-se muito bem com o marrom, forma uma espécie de harmonia muito agradável com esse marrom.

Agora, esse marrom é também ele uma cor forte, séria, um pouco dado para o escuro. Esta mesma idéia da seriedade e da força, mas uma seriedade de uma superioridade de espírito de algo que se eleva, eu a noto muito no marfim e no vermelho. Um marfim que também não é um branco alvo, maculado. É um verdadeiro marfim uma coisa que em matéria de branco está para o branco alvo como o ouro está para o ouro muito dourado. É uma cor um pouco matizada, um pouco nuancée, um pouco mais carregada. Com o vermelho, forma uma harmonia, uma contradição forte mas bonita também. Depois o dourado novamente dentro, com todas as cores muito fortes, muito sérias e muito elevadas, dando para uma harmonia muito austera, muito séria, muito muito superior.

Eu falei das cores. A forma do estandarte, depois o escudo que constitui uma espécie de mancha vermelho no estandarte, a forma muito definida dos dois escudos, a força do leão, o thauzinho, a nota vermelha que parece ainda dar mais força, mais vitalidade ao leão — tudo isso se conjuga para me dar uma idéia de força, de vida, e de superioridade séria. Então força, vida e superioridade séria são notas já espirituais que eu deduzi de impressões físicas, e que dominam no meu espírito a visão do estandarte. É um valor espiritual, moral, que se desprendeu para mim das notas de forma e de cor do estandarte.

[…]

Pode ser isso, tem facetas individuais dentro, pode compreender o que eu digo mas não é especialmente o que lhe chama a atenção. O que importa aqui, o que responde a sua pergunta é como é que se destilam de várias impressões algumas notas de conjunto e como já essas notas de conjunto são já espirituais, já são morais. Que é o que eu procuro demonstrar aqui.

* Analisando uma imagem de Nossa Senhora, o Senhor Doutor Plinio aponta a nota central que mais lhe atrai

Aquela imagem de Nossa Senhora, por exemplo. Aquela imagem, a meu ver, causa uma grande impressão. Há uma diferença entre a imagem e o estandarte. É que a imagem representa a figura humana em que os valores espirituais transparecem muito mais do que num objeto puramente material, como é o estandarte. Mas, enfim, vamos tomar a imagem.

É para mim uma coisa inteiramente evidente, a idéia que a imagem dá para mim, a idéia central, é uma idéia de placidez muito ordenada, muito casta portanto, e ao mesmo tempo materna. Ela ali até não está olhando para o menino. Ela podia até nem ter o menino no braço que aquele gesto d’Ela, e aquele modo de Ela receber é de mãe que é verdadeiramente mãe. Quer dizer, que tem uma atitude materna em relação a tudo e a todos. É afável, casta, misericordiosa, acolhedora e Mãe de todo o mundo.

Vejam a placidez extrema d’Ela. Placidez no olhar, placidez no rosto, placidez no modo de estar sentada. A pessoa fica sentada horas sem estar com vontade de mover-se, sem nenhuma necessidade de se mover, e que passa muito tempo assim dentro do próprio bem-estar de sua placidez.

Aquele gesto do braço, que é meio aberto, como quem está disposto a acolher quem está olhando para o quadro, daquilo eu tiro uma noção de placidez, serenidade, castidade materna, quer dizer, idéia da Mãe. O movimento todo do véu, e também da saia. O véu auxilia muito, mas o que tem é que o véu está muito bem representado para isto. Um véu muito abundante, posto sem nenhuma pretensão, e o artista soube muito utilizar o véu para dar essa impressão.

Bem, depois a posição da cabeça, do pescoço também, muito materna, muito bondosa. Agora, a moldura em torno concorre para confirmar esta impressão, esta nota central é confirmada pela moldura gótica. O gótico presta-se muito a entrar em harmonia com essas impressões. A mim me dá essa impressão.

* A elegância da torre e a calma da tradição analisadas numa praça de Veneza

Por exemplo, vamos dizer o seguinte: essa pracinha de Veneza que está aqui atrás de mim. A mim, a impressão que ela dá é a seguinte: é uma praça pequena, na qual sem dúvida alguma se leva uma vida de intimidade, quer dizer, toda a praça hoje em dia é uma ruptura de intimidade… (…). Note como as pessoa estão aí dentro, e como por outro lado as casas estão dispostas em volta disso, há uma espécie de fraternidade dessas casas. Essas casas parecem irmãs umas das outras, aconchegadas umas nas outras, e as pessoas que estão na praça são pessoas que a gente está vendo que levam uma vida de uma certa suavidade, de uma certa intimidade, mas que é como as casas: numa intimidade cerimoniosa. Porque ao mesmo tempo que nessa praça há intimidade, não existe nenhum pouco clima nessa praça para, por exemplo, de repente um sair de pijama. Não há clima para o pijama nessa praça. (…)

Há uma espécie de calma de tradição. A gente vê que há muito tempo de intimidade cerimoniosa nessa praça, que é uma espécie de bom gosto difuso em tudo. Cada coisa tem o seu bom gosto. Há duas ou três fachadas aqui, que na sua discreção eu reputo fachadas bem bonitas. Depois esse palacinho aqui, que é ao mesmo tempo muito pequenininho e muito pomposo. Eu não sei se notaram uma coroa de conde em cima, e tem um átrio que é ultra pretensioso, imponente. Não é qualquer coisa. É uma coisa importante essa história.

Tem-se a impressão de que houve uma representação teatral armada para uma festa. Depois, no fundo, a Igreja, que é muito bonitinha, e sobretudo a torre muito elegante. Vejam aqueles desenhos da torre como são desenhos bonitos, muito harmônicos, muito distintos.

* Análise Ambientes e Costumes das fachadas das casas na pracinha de Veneza

Como eu dizia, a meu ver há duas fachadas aqui que são muito bonitas. Uma delas, para não perdermos demais tempo, é essa aqui. Não sei sei notam que apenas com um jogo de distância e de proximidade de janelas, numa casa de um tamanho comum, foi obtido um efeito muito elegante. Notem que a fachada da casa não aparece inteira, uma das portas a gente nota que é coberta pela igreja. A gente vê, portanto, que a fachada é maior. Percebe-se ali até onde vai a casa, vê-se bem onde ela termina. É composta de duas partes: uma parte feita de janelinhas estreitas, cujo estreito é compensado pela grandeza das portas embaixo. A base é mais forte do que o que ela carrega, que é próprio de toda base. E outra parte é essa, constitui quase outra fachada. E notem como essas duas fachadas juntas dão uma idéia de largueza e de [compressão?] agradável, movimentada, interessante, que forma uma fachada.

Eu não vou dizer que forma uma obra-prima. Não vou dizer isso, não. Mas a escola segundo a qual isto é construído, é uma grande escola. Bom, e depois outra coisa: não é com mais dinheiro pôr esta janela mais para ca, ou mais para lá. Nem isto é uma fachada onde entrou muito dinheiro. É um nível barãozinho ou castelinho, palacinho modesto, mas vejam como é bonitinho e como ele colocado ali fica interessante.

Eu ia falar deste aqui. Eu gosto mais da janela gótica, se bem que eu tenho muita inclinação por este. No detrás a simetria está mais definida, mas neste também tem um jogo de janelas muito interessante. A gente nota as duas partes da fachada, mas nota o seguinte: para compensar um pouco o lambido da parte pobre da fachada, tem uma porta grande e rica que compensa. Por outro lado, do lado de ca não tem porta, porque parece uma espécie de tapera embaixo. Já é a nota meio arrebentada. Pode ser até uma oficina de carpinteiro ali dentro.

Bem, é engraçado, há uns imponderáveis. O sujeito que fez isso soube pôr isso numa espécie de parênteses que não conspurca todo o resto. Está meio entre parênteses, não conspurca o resto. Mas vejam que interessante, isso aqui, três… depois uma, duas, três, quatro, cinco, seis… Mas isto já forma simetria com aqui. Depois aqui menos. Quer dizer, os vários andares têm muito mais jogo do que ali. Aqui também existe uma simetria, com algo de imponderável aqui. Quer ver: corta aqui, corta aqui, acaba sendo simétrico, psicologicamente simétrico.

* Papel fundamental do enriquecimento das premissas pela degustação prévia das primeiras vivências de uma coisa a ser analisada

Agora, o ruim dessas explicações é o seguinte: é quando a explicação é dada antes da coisa ser vivenciada, porque parece fotografias reduzidas a metros de ……. Não é assim. É primeiro vivenciar, para depois dar. É primeiro achar bonitinha, gostar para perceber de um modo vivo, por exemplo a simetria aí, e depois falar em simetria. Porque a gente entra em simetria, e o pessoal [começa a pensar] em geometria. Nada é pior.

Notaram como essa praça ficaria falha se não houvesse o poço no centro? Na verdade ficaria faltando alguma coisa na praça. Ela ficaria enorme. A gente nota que a praça não é calçada. Ela é calçada apenas em parte. O poço tem um papel, que é uma coisa extraordinária. É os tais centros psicológicos superiores.

A chaminé é uma beleza.

Há duas coisas que indicam a presença da plebe. A plebe representa o elemento calorífico das coisas. Onde tem plebe, tem calor humano. Uma coisa sem plebe fica uma coisa inumana, fica meio cristaleira. A chaminé, que é uma maravilha, estou imaginando o italiano que limpa a chaminé e que está cantando, etc. E depois parou para o almoço… Até que o vento toca na escada que vem caindo em cima de uma menina, que por intercessão de Santo Antônio a escada se desvia, está compreendendo?

Bom, eu acho isso pitoresco. Acho pitoresco aquele gradeado para bater tapete, e que vai uma mulher para lá, e “pem, pem, pem!” aqui no varal, para bater tapete. E depois é necessário ser ali, porque embaixo não tem onde bater, e depois a poeirada sobe. E depois um aparelho que tem aqui, que eu não sei para o que é, mas que é visivelmente de artes manuais. Não exclui que ele fique maravilhosamente dentro da praça.

Agora, notem na torre que coisa interessante: a parte baixa da torre como é forte, como que suportando harmonicamente a leveza, e fazendo contraste bonito com a leveza do resto.

Mas o errado, a meu ver, é como fazem nos cursos de arte: começam chamando a atenção para isso. O verdadeiro é pôr um aluno diante de um quadro e dizer a ele: “Você gosta disso? Se você gosta, fique aqui muito tempo olhando. Depois nós viremos juntos aqui e eu vou explicitar o que eu vejo para depois você fazer o seu.” E aqui está a questão.

* O apostolado do Grupo deve consistir em saber explicitar na linha Ambientes-Costumes e pôr alma nas coisas como um espírito contemplativo, procurando sempre o Amor de Deus

(Sr. –: … inaudível.)

A explicitar não, porque às vezes existe muita dificuldade de linguagem, vocabulário, etc., etc. Mas eu acho o seguinte, não estou inteiramente certo do que eu vou dizer, mas eu acho que o grosso do Grupo, não cada um, mas o grosso do grupo — e eu quando falo do grupo, também digo, evidentemente, da nata — a nata eu tenho impressão que deve saber e até explicitar coisas dessas. E o grosso, não cada um, o grosso explicitar. Porque o próprio do grupo, o apostolado do grupo é dar alma para isso para as pessoas. Não é a única coisa, é claro, mas está na linha de uma civilização cheia de amor de Deus. É claro que as pessoas que viviam aqui tinham alma para isso, e quando perderam a alma, começou a entrar a Revolução.

E, portanto, nós, se quisermos fazer uma coisa impregnada do espírito propriamente contemplativo, porque isso é uma contemplação dessa coisa — nós acabamos de fazer juntos uma verdadeira contemplação — se é preciso ter o espírito contemplativo, o grosso do grupo deve tender para isso, deve poder fazer isso. Não só deve poder fazer isso, mas deve haver no grupo pessoas que façam coisas dessas. Quer dizer, o grupo deve criar ambientes com sua alma própria, etc., etc. O pôr alma nas coisas, e uma alma naturalmente virtuosa, que seja a imagem de Deus e que tenda para Deus, e perceber aquilo que numa linha de impressão um pouco perigosa se poderia chamar “a alma das coisas”, percebê-la e apreciá-la é traço fundamental da nossa vocação. E quando tem muita gente capaz disso, deve haver um número um pouco menor de gente capaz de enunciar também.

* As quatro posições perante a vida: as que passam sem “pescar” nada, os introspectivo doentios, os que não têm distância psíquica e os que possuem uma visão de conjunto da vida porque são contemplativos

Aquelas três posições de que eu falei durante a festa e as quatro posições perante a vida. Há pessoas que diante do jogo da vida humana passam e não pescam nada. Há outras que passam prestando demais atenção em si, com se o jogo importante fosse só eu mesmo. Outros que passam nunca prestando atenção em si, mas perdendo a distância psíquica em relação a outros. Mas há algo que é a síntese de todas essas coisas que é a vida humana, e que é um senso que conjuga nesse sentido, que é o mais alto objeto natural e criado de nossa contemplação.

Então vem aquele tipo de sábio que faz reflexões sobre a vida, que conhece a vida, que entendeu a vida e que tem exatamente esse senso comum dos valores da vida que o leva para ….. Todas as caras dos profetas de Aleijadinho envolvem uma espécie de visão de conjunto da vida.

Como nós há quinze dias não fazemos reunião, a reunião constou de duas partes. Em primeiro lugar uma mise-au-point; depois a reunião propriamente dita. A mise-au-point foi a relação entre essa reunião e as anteriores. Eu mostrei que se tratava aqui da procura do absoluto, o modo de fazer a procura do absoluto, e evitar a impressão de que nós estamos fazendo um caminho de rato. Eu lembrei que a procura do absoluto deve nos proporcionar aqueles bens do espírito superiores aos bens da matéria, de que eu falei em reunião anterior a esta.

Eu agora passo da mise-au-point para a temática propriamente dita. Nessa reunião eu tratei de explicitar uma contribuição dada pelo Fábio a respeito do modo pelo qual se deve fazer, deve-se colocar uma pessoa do grupo diante das explicitações que eu faço. Quer dizer, a pessoa não deve colocar-se imediatamente dentro de uma coisa e começar com explicitações. Mas é preciso antes viver a coisa, para depois, pela impressão viva dada pela coisa, passar à explicitação.

Agora, então, o que é viver a coisa?

* Feita a “mise au point” o Senhor Doutor Plinio mostra como viver “lo que se dice” é admirar segundo sua própria luz primordial

Viver é uma fórmula tão vaga que não diz nada se ela mesma não for explicitada. E eu então tratei da explicitação do viver, do que é o viver da coisa. E eu fiz jogar essa explicitação em torno da noção do senso comum. Quer dizer, a conjugação dos vários dados sensíveis que as coisas nos dão conduz a uma nota dominante. Uma nota dominante que objetivamente existe na coisa, mas que cada pessoa vê de um modo um pouco diferente do modo pelo qual o outro vê, de acordo com a sua própria luz primordial.

Então, essas notas sensíveis todas chegando a uma nota dominante, essa nota dominante acaba sendo por sua vez uma nota do espírito, um valor espiritual. E este valor espiritual é o que se trata então da gente aproveitar.

Eu dou um exemplo. Diante dessa pracinha aqui, à força de olhar a pracinha, esse senso comum elabora ou destila um seletivo ou algumas notas dominantes que dizem respeito a todas as notas particulares existentes na coisa. Essa nota dominante, por sua vez, é uma nota dominante que para mim é um valor do espírito. Eu diria, por exemplo, a intimidade cerimoniosa, afável, espiritual, desta pracinha cheia de harmonia, de distinção, mas marcada pela nota de uma suave intimidade, é o encanto dessa pracinha.

Então tem a idéia de encanto, que é a nota dominante, mas a modalidade desse encanto, o por que isto é encanto, quer dizer, o fato de ver na intimidade valores tão altos e tão harmônicos que essa é a essência desse tal encanto, que acaba sendo dito por mim.

Então eu fiz uma explicitação da pracinha e de outras coisas do gênero.

Aí então nós vemos bem como é a coisa. É uma nota dominante, que foi adquirida à força de prestar atenção e de ver. Então, quais são as dificuldades para prestar a atenção e ver? Nós voltamos ao nosso ponto.

* Os vícios do espírito que atrapalham ou impedem a contemplação

As dificuldades são as seguintes. Os vícios de espírito que levam a não prestar atenção e a não ver — primeiro vício de espírito é a pessoa que presta excessivamente atenção em si mesma, e diante das coisas, em vez de procurar ver as coisas, olha para si, uma introspecção exagerada. Outro vício é a extropecção exagerada. Essa extropecção consiste em falta de distância psíquica, estar se engolfando em ver isso, em ver aquilo, aquilo e aquilo outro, sem procurar constituir essa espécie de arquitetura ou arquitetonia de sensações, que venha a ser precisamente a conjunção disso como nota dominante.

Agora, há um outro defeito que é dado pela vaidade: é a pessoa que procura essas coisas situar-se a si própria de modo orgulhoso e dominador, ou sensível, etc. E portanto não entra na coisa. Um caipira, por exemplo, que olhasse para esse estandarte e dissesse: “Bobagem, para que tanta coisa?” (…)

Deixa sentida, e impede que a pessoa entre dentro disso.

Bem, depois então dessas noções todas dadas, eu procurei aproveitar a ocasião para apresentar a noção seguinte.

* A arquitetonia da vida e os Profetas do Aleijadinho

Que a vida humana, a existência humana é objeto de uma sabedoria de conjunto suprema que é a noção da vida e ciência da vida, que é a arquitetura de todas as impressões que o viver humano dá, e que é o objeto de uma espécie de sabedoria suprema. Essa arquitetura ou essa sabedoria dá os supremos valores da vida que nos levam esplendidamente até Deus. A esse respeito eu mostrei os profetas do Aleijadinho, cujos olhos são abertos para uma espécie de ciência da vida.

Bem, depois disso eu tratei de responder uma pergunta do Plinio ou do Fábio, não me lembro bem, que tratava do excesso de discussões existente entre nós, quando se trata de coisas em que esses valores entram em jogo. E eu mostrei que essas discussões existem em parte pela penetração do espírito do mundo, mas eu não creio que seja o mais importante. Eu creio que o mais importante é o fato de cada um na sua luz primordial não tender a encaixar essa luz numa nota dominante. Ficou tratado para uma outra reunião. Fábio também fez uma objeção interessante, quando ele falou de pessoas, ele até citou um nome fora do grupo, mas muito chegado ao grupo, de uma pessoa que era incapaz, que ela olhava para as coisas como boi para palácio, como é que eu colocava essa pessoa entre os defeitos de que eu falei.

Não, isso é mais ou menos como eu fazer uma classificação de defeitos da vista: então um sujeito tem hipermetropia, outro miopia, e alguém me pergunta: “E o outro que não tem nada?” É cego, já não entra nesta classificação. São outros quinhentos mil réis.

E com isso ficou concluída a reunião.

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1 Nos Sábados à tarde eram realizadas reuniões para os membros do Grupo da Rua Martim Francisco, na Sala dos fundos da mesma sede; e, no domingo, para os membros da Pará, na Sede do Reino de Maria, da rua Pará.