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Normal — 23/5/1962 — Quarta-feira [RN347] – p.
Reunião Normal — 23/5/1962 — Quarta-feira [RN347]
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No trabalho a respeito da “Mater et Magister” que nós devemos publicar, eu estava planejando o trabalho da maneira seguinte:
Primeiro: uma introdução explicando o porquê da necessidade de uma mise au point a respeito da “Mater et Magister” para mostrar que ela não é socialista. Porque um trabalho especialmente para dizer dela isso, quando dela tantas outras coisas se poderiam dizer.
Então, o trabalho deve ter nessa primeira parte, a lista de todas as tolices que se diz e que se tem dito sobre a “Mater et Magister”: socialização, etc.
Depois então, deve vir um segundo capítulo, que deve ser uma exposição sobre o que seja o socialismo. E depois então um terceiro capítulo para mostrar como a estrutura geral da “Mater et Magister” não é uma estrutura socialista. Por exemplo, o princípio de subsidiariedade e outras coisas assim que nada tem a ver com socialismo.
Depois viria então o texto com comentários. Texto português e talvez o próprio texto latino também, para justificar, enfim para dar um critério, para conferir bem, etc.
Isso seria em linhas geria o trabalho.
Mas eu todavia senti uma confusão de idéias tremenda, a respeito do que é socialismo. Quer dizer, aliás, eu notei que reina uma confusão de idéias muito grande a respeito do socialismo e nas várias aplicações que o vocábulo tem. E me pareceu que para fazer uma coisa especial sobre o socialismo, eu deveria ler alguma coisa. Dispondo de pouco tempo para ler, eu resolvi comprar na coleção “Que sais-je?”, esse livro “Le Socialisme”, por um tal Georges Bourgain e Pierre Handé. A coleção “Que sais-je?” como toda coleção muito grande, e que contém muito material, naturalmente é muito desigual nos trabalhos que apresenta. Mas eu já tinha lido dessa coleção dois trabalhos muito bons, sobre comunismo e sobre anarquismo. E exatamente desejava um trabalho sobre o socialismo, que foi uma “África” mandar vir da Europa. Porque é uma coisa curiosa, para fazer um capitulozinho dentro da obra “Enciclopédia de nossa História”, as “Áfricas” para obter certos documentos, certas coisas, que depois …[faltam palavras]… um partido grande. E eu achei que esse livrinho aqui, dava uma exposição razoável, não de todos os sentidos que dão a respeito do socialismo, mas de uma doutrina que é a doutrina socialista vista no campo econômico. Mas, sendo que ele considera a doutrina socialista vista no campo econômico, a mesma coisa que o leninismo e o marxismo. O que me parece que é um certo abuso de linguagem exatamente. É uma coisa que não se pode dizer bem exatamente assim.
Mas eu não quero fazer aqui propriamente uma conferência sobre o que é o socialismo. Mas eu quero expor o que ele apresenta como sendo socialismo, e que é certamente uma exposição social do marxismo; para fazer uns comentários para algumas doutrinas econômicas nossas. Quer dizer, é um ponto de partida diferente da utilização que eu pretendo dar a isso no nosso trabalho a respeito do socialismo. Nessas condições, eu vou passar a dar a doutrina dele e depois, au fur et à mesure eu vou fazendo os comentários que convém para a conceituação de algumas doutrinas nossas, inclusive ao que diz respeito ao famoso problema da máquina, da indústria, etc.
A primeira parte do livrozinho dele, é a respeito de uma distinção que ele quer estabelecer entre o socialismo científico e o socialismo utópico. O socialismo utópico é antes de aparecer o socialismo propriamente materialista e econômico, antes de Marx, havia uma porção de escolas socialistas que procuravam deduzir a necessidade da igualdade econômica e de algum domínio de toda a economia pela comunidade dos cidadãos e pelo Estado, procuravam deduzir isso de idéias abstratas, de idéias de caráter filosófico: todos os homens são iguais, têm direitos à mesmas coisas, não se compreende, portanto, a diferença econômica, a diferença econômica é uma injustiça, a miséria precisa ser eliminada, e em nome desses princípios que são mais ou menos uma aplicação dos princípios igualitários da Revolução Francesa no campo econômico, em nome desses princípios apareceu o chamado socialismo utópico. Que é chamado utópico, porque ele está na linha daquela utopia de Tomás Morus, e daquela “Cidade Sol” de Campanela e de outras construções assim, concebidas nas nuvens, concebidas num mundo irreal, mas para serem aplicadas num mundo real.
Agora, como esse socialismo utópico - ele diz arqui-curiosamente no libro - que está renascendo sob a forma de socialismo católico, que o socialismo católico não é um socialismo marxista, mas é um socialismo utópico e aí ele faz uma barretada ao socialismo utópico. Então, como o socialismo utópico ele acha que está renascendo, então ele consagra uma parte para a distinção entre o socialismo utópico e o socialismo técnico, científico.
Me parece aqui digno de nota, a coincidência entre a opinião dele e o nosso modo de sentir. Porque na RAQC exatamente, nós devemos uma grande importância ao socialismo utópico. Pode-se dizer que a RAQC foi mesmo na sua parte doutrinária, principalmente, uma refutação do igualitarismo econômico, ou seja socialismo utópico. Porque julgamos que esse socialismo utópico representava um fator muito mais importante na campanha agro-reformista, do que o socialismo técnico e científico. E a gente vê aqui um autor que é comunista e que se sente exatamente a coisa como nós: o renascimento do socialismo utópico.
Agora, que relações ele estabelece entre o socialismo utópico e o científico? É muito curioso isso, porque esse livrinho aqui só trata do socialismo econômico e mais nada. Ele aceita ou rejeita o socialismo de caráter filosófico? Ele não cogita das idéias de caráter filosófico. Mas de vez em quando essas idéias aparecem. Ele não consegue evitar algumas formulações em que as idéias aparecem. E quando aparecem idéias filosóficas, são idéias igualitárias. Quer dizer, há muito mais aqui um esforço para colocar a campanha comunista fora do terreno propriamente doutrinário, para colocá-la no terreno exclusivamente econômico. Esforço que é muito compreensivo, porque é o meio de tentar evitar discussões ideológicas, de realizar depois a revolução industrial e de sobretudo evitar encrenca com os católicos. De maneira que nesse primeiro capítulo, ele é muito aveludado e ele é muito prudente. A primeira afirmação, ele diz e aí já se vê que ele não consegue evitar uma tomada de posição de caráter filosófico, e moral, que há uma coincidência entre o socialismo utópico e o socialismo científico. É que ambos são igualitários, porque são contrários “a abusos, desigualdades e injustiças mais ou menos semelhantes”.
Está-se vendo, portanto, que ser contrário aos abusos, justifica o direito a uma idéia filosófica sobre o que é direito ou não. Ser contrário às desigualdades, significa ser favorável às igualdades. Depois ele fala contra as injustiças mais ou menos berrantes, o que envolve uma idéia de justiça. E se ambos esses sistemas tem início em comum, é evidentemente porque o sistema econômico envolve, embora ele queira dizer que não, ou queira insinuar que não tem posição, de fato tem e é a posição do socialismo utópico no duro.
Então, isso tem de comum. Mas ele cita um texto de um tal Maxime le Roi, que diz que há muitos socialismo, mas “todos esses socialismo têm algo de comum, que é a abolição da propriedade privada, fonte de todas as desigualdades e injustiças”.
Quer dizer, é portanto, enquanto fonte de desigualdade, que eles não querem a propriedade privada. E isso neles todos é comum. Compreende-se bem como, portanto, o igualitarismo, meio inconfessadamente está no fundo da posição que essa gente.
Então, diz ele no que são diferente. A diferença também é curiosa. Que o socialismo utópico é uma construção que ele chama celebrina [cerebrina?], de uma sociedade que não tem esses defeitos. Quer dizer, é uma coisa que a gente imagina, celebrina [cerebrina]. De uma sociedade que então não teria essas desigualdades.
A segunda característica do socialismo utópico apela para a razão, para a compreensão, para o espírito de justiça de todos, dos pobres, dos povos quero dizer, do governo, dos ricos e dos pobres.
Quer dizer, o socialismo utópico se funda, portanto, em razões. E em vez de procurar despertar propriamente a luta de classes, procura convencer ridos e pobres, grandes e pequenos de que essa causa é boa. E levar todas as causas para o socialismo. Há, portanto, duas características que são opostas ao socialismo dito científico. No que são opostas? Ele acha que esse socialismo deveria ser chamado um socialismo conceptual. Diz ele que a palavra utópico tem qualquer coisa de pejorativo. Mas que como esse socialismo é uma concepção do espírito, deveria chamar-se um socialismo conceptual. E ele acha que não é merecido esse sentido pejorativo, exatamente porque ele a certa altura do livro, elogia o bom serviço que está prestando o socialismo. Diz ele que a era áurea desse socialismo foi a primeira metade do século XIX, mas que “sob denominação de socialismo humanista, humanismo ou personalismo, refloresce hoje”.
Os senhores estão vendo que taco-taco.
Então, são duas razões. A primeira, um conceito, uma celebrina. Em segundo lugar, não procura realizar a luta de classes, mas procura levar todos juntos para a mesma ofensiva.
E o terceiro conceito é o seguinte: o socialismo utópico se pudesse realizar o socialismo de uma vez, realizá-lo-ia. O socialismo marxista não deseja realizar o socialismo todo inteiro e de uma vez. Considera a realização do socialismo fruto de toda uma maturação social. E, portanto,, enquanto essa maturação não tiver ocorrido, não deve dar-se o socialismo.
Quanto ao socialismo-marxista, ele insiste.: o objetivo é da mesma maneira a igualdade econômica entre os homens. Mas, diz ele, o socialismo científico em vez de considerar essa igualdade como algo a que a gente deve chegar por uma campanha ideológica, considera essa igualdade como algo que se dá pela própria ordem natural das coisas, em função do desenvolvimento da indústria e da economia. Da economia em geral e da indústria em particular. E que é de tal maneira o produto normal do desenvolvimento do capitalismo e do industrialismo, que ainda que os homens não pensassem dessa maneira, acabavam realizando o socialismo. Porque é uma coisa mais ou menos inevitável. É uma coisa de caráter físico. E eu tirei essa frase do Marx, que dá bem a idéia da coisa - frase aliás hedionda - é tirado do Manifesto Comunista: “os instrumentos de trabalho, e o instrumento de trabalho por excelência é a máquina, portanto, a indústria; os instrumentos de trabalho devem ser meros meios para ampliar, enriquecer e estimular as funções vitais do trabalhador. E então, uma espécie de inteiração. A máquina ampliar quase que um sistema angular. As funções vitais estão entendendo o que é? É comer, é digerir, é eliminar, é procriar, é respirar, isso é que é. A máquina é um meio para satisfazer isto e o trabalhador satisfeito com isso atua também melhor a máquina. Então, numa espécie de conúbio da máquina com o trabalhador, desenvolvendo o produtor e desenvolvendo o instrumento de produção, por uma ação assim chegar a uma espécie de situação do capitalismo em que forçosamente tem que sair o comunismo. Isso, ainda que os homens não quisessem. Quer dizer, portanto, a observação ou é uma doutrina que afirma que a ordem natural das coisas realiza necessariamente o comunismo dentro do processo da economia. E, portanto, os senhores estão vendo que se diferencia a esse título, profudamentre do socialismo utópico.
Marx é frontalmente contrário ao trabalho manual, ele é a favor da máquina, a máquina é o grande ídolo dele. A máquina liberta o homem.
Em segundo lugar então: o marxismo é para dar a conhecer as leis que regem os fatos e utilizar os antagonismos que dominam a sociedade existente. E dar à classe oprimida em luta, a consciência de seu papel histórico. Quer dizer, enquanto o socialismo utópico não conta com a luta de classes, o socialismo científico conta com a luta de classes necessariamente. Não é desejável, na concepção do socialismo científico, por exemplo, abolir a luta de classes, fazendo com que todo mundo ficasse comunista. Esse antagonismo é um meio necessário para chegar de fato à maturação que deve implantar o comunismo.
Em terceiro lugar, o comunismo, ou a comunidade de bens, vamos falar assim, só devem vir, depois da economia estar maturada, de maneira que seja inevitável que a comunidade de bens se imponha na ordem concreta das coisas. Portanto, é uma posição que a esse título não é uma posição doutrinária. Agora, ele sem ser muito claro, porque ele evita exatamente as tomadas de posição filosóficas, a gente vê que entra de fato a concepção hegeliana dentro da idéia dele. A concepção evolucionista e a concepção hegeliana.
Concepção evolucionista no sentido de que o universo está impelido por uma força que vai constantemente para o progresso. E que a fatalidade com que a sociedade vai chegar até o comunismo, essa fatalidade é fruto de um progresso irreversível, que a natureza inteira tem e que se dá também nos homens. Essa própria ação deandular [?] progressiva e operário, ainda é um progresso da espécie favorecido pela máquina e da máquina a serviço da espécie, etc. E em segundo lugar aquela coisa curiosa de Marx que é tal a tese, antítese e síntese. De Hegel, quero dizer. Há uma afirmação, logo depois há uma negação, toda a História é isso. Há uma afirmação, nós veremos depois nos seus pormenores como, logo depois, há uma afirmação do contrário e um choque. E depois desse choque, nasce um estado de equilíbrio, que é por sua vez uma afirmação. Tese, antítese e síntese. Daí nasce uma outra afirmação, que está em choque com a antítese anterior e que fica funcionando como tese e caminha para uma síntese. A gente vê que ele no fundo, coloca também esta concepção filosófica ao serviço das idéias dele a respeito do processo econômico. E, portanto, ainda que ele não queira, ele de fato é profundamente filosófico. Agora, por que isso é científico? Por que esse socialismo é científico?
Ele diz que é científico porque o próprio da ciência é conhecer as regras da natureza, en enunciá-las e ensinar o homem a utilizá-las. Ora, essa são regras da natureza. Essa marcha da industrialização e esse caminho da economia para o socialismo, é uma regra da natureza. Enunciá-las e realizá-la faz parte das ciências naturais e não das coisas especulativas, filosóficas como o comunismo e o socialismo celebrinos.
Então, socialismo celebrino ou utópico, ou conceptual é: um conjunto de idéias abstratas sobre injustiças, sobre igualdades, etc. Primeiro ponto. Segundo, esse conjunto de idéias abstratas, para realizá-lo se convidam ambas as classes sociais ou todas as classes sociais. Terceiro ponto, se fosse possível, desde que os homens se convencessem, valeria a pena realizar logo.
No socialismo científico: não é produto de idéias abstratas, mas é fruto de uma coisa que se daria ainda que os homens não pensassem. Em segundo lugar, é um fato de caráter, baseado na luta de classes; quer dizer, é preciso que haja luta para que a coisa mature, não se trata de convencer as pessoas todas, e em terceiro lugar é preciso que este socialismo se realize por etapas. Ainda que os homens todos se convencessem, não era o caso de realizá-lo imediatamente.
A luta de classes é a substância do processo. É um dos elementos de centro do processo a luta de classes. Há um processo econômico, que é a máquina mais a luta de classes, que a máquina provoca. É um emaranhado de fatos. A máquina provocaria a luta de classe de qualquer jeito e a luta de classes acentua os defeitos naturais daquilo que a máquina produz. Então, eles estimulam a máquina e a luta de classes, as duas coisas. É isso.
A questão do governo. Governo não é propriamente classe para ele. A segunda fase, que já não é a luta de classes, mas é o Estado que vai se diluindo para transformar-se numa espécie de vasta cooperativa. A luta de classes é até um certo ponto. Depois o Estado se transforma numa espécie de cooperativa em que não há mais Estado. E no que esse Estado transformado em cooperativa se diferencia do Estado? É que o Estado é um poder para governar homens. E essa cooperativa é um poder para governar coisas apenas, para administrar coisas. Os homens estão fora de qualquer governo.
Vamos ver as aplicações práticas agora, que são aplicações estratégicas. Notem bem o seguinte: mais ou menos até o momento em que o Getúlio começou a revolução industrial dele, aqui no Brasil se discutia muito o socialismo e o comunismo em termos ideológicos. Em termos de socialismo utópico. Conversava-se nas casas de família, etc. Porque o Brasil ainda não estava na Revolução Industrial. Mas agora, a partir do momento em que começou a Revolução Industrial no Brasil, nos ambientes, não digo nos ambientes culturais, que constituem uma espécie de bolsão dentro do mundo brasileiro, mas os ambientes domésticos comuns, as conversas desapareceram completamente a esse respeito e começou-se a conversar sobre esses problemas apenas em termos econômicos. Apesar de no subconsciente toda aquela problemática de filantropia, de humanismo, etc., continuar. Mas é uma coisa no subconsciente. Por quê? Porque a partir do momento em que o país entra na Revolução Industrial, convém abafar os conflitos ideológicos. Esses conflitos ideológicos, só vão alertar as desconfianças, só vão criar problemas. A indústria vai e transforma a coisa no socialismo e está acabado. Queiram ou não queiram, percebam ou não percebam, de maneira que o melhor é não pensar no caso.
É preciso ver o caráter não-ideológico do problema e o desejo enorme, por exemplo, na questão agrária, de não colocar que questão em termos ideológicos. Um vago fundo de ideologia: a Igreja apóia a reforma agrária., umas vagas coisas assim, sim. Mas exatamente toda a problemática que nós levantamos no livro, eu não sei se percebem como é o contrário do que essa técnica deseja que se faça. Quer dizer, seria de não tratar do socialismo utópico nem um pouco, de não tratar do problema do igualitarismo, de tratar a reforma agrária apenas nos seus termos econômicos, porque ela é apenas uma questão econômica, fazer da questão econômica o terreno da polêmica, mesmo uma polêmica onde o tema econômico fosse no caso brasileiro menos tratado possível, porque embaraça muito a eles.
Quer dizer, para mim é muito frisante esse aspecto da transformação por que passa a Opinião Pública brasileira. Eu acho que há muito poucos que aqui na sala acompanharam isso, mas alguns devem ter notado isso aí. Antigamente falava-se muito de comunismo e socialismo em termos não econômicos. Hoje é apenas uma questão mercantil e econômica. Explica uma mudança completa aí, de toda a psicologia com que o assunto era tratado. Me parece muito interessante o caso.
Diz ele o seguinte: onde quere chegar, qual o sonho desse processo de Revolução Industrial e social que o marxismo descreve? O marxismo descreve esse processo. Qual é o ponto terminal desse processo? Ele diz o seguinte, ele dá uma definição de Bertrand Rousseau: “O termo final desse processo, é a propriedade comum da terra e do capital, sob uma forma democrática de governo. Importa numa produção dirigida, com vistas ao uso e não ao lucro e à distribuição dos produtos que seja se não igual para todos, pelo menos com as menores desigualdades exigidas pelo interesse público”. Isto é o comunismo, não é ainda a forma final, o anarquismo, que deve suceder ao comunismo. A ordem visada, a ordem de coisas socialista com um Estado, quando houver um socialismo de Estado, o objetivo a ser visado é esse. Sempre, apesar deles não dizerem, o objetivo a ser visado é esse. Sempre, apesar deles não dizerem, o objetivo igualitário aparece. Eles não querem dizer, mas aparece.
Ele diz que em concreto as linhas gerais desse estado de coisas seriam as seguintes: propriedade coletiva dos instrumentos de produção, primeiro ponto. Segundo, gestão democrática desses instrumentos de produção. Terceiro, orientação da produção para satisfazer as necessidades dos homens. Não, portanto, para satisfazer um lucro ou um interesse do fabricante, mas para satisfazer as necessidades do corpo social. Quarto: para isso, desaparecimento da propriedade privada. Quinto: e também desaparecimento de todas as pátrias. Só a humanidade.
Esta seria então, em concreto a realização dessa máxima que o Bertrand Roussel dava numa formulação abstrata. Para mim, pareceu muito misterioso como se dará a tal grande cooperativa comum, que manda nas coisas e não nos homens, porque afinal, na hora de mandar nas coisas, tem que acabar mandando no homens, porque a gente não manda numa laranja, a gente manda num homem que não coma uma laranja ou que coma a laranja. E tudo isso me parece que visa uma outra ordem humana em que os homens serão diferentes do que são hoje. Agora, isso é dirigido pelo Estado, é o Estado que dirige. Eu acho que o Marx não diz, mas que existe a esperança de que com a gnose, o homem chegue a esse ponto.
Na concepção desse hominho, ele apresenta assim, que Marx acha que o resultado é necessário e, portanto, não é uma coisa que a gente pode inventar, mas já pode entrever e pode agir para facilitar a produção. Quer dizer, enquanto coisa que se entrevê, não como coisa cerebrina, mas uma coisa que se entrevê, então aí não seria uma concepção anti-marxista ter uma idéia assim. Na linha de uma previsão, não na linha de uma utopia. Não é utópico nesse sentido de que o sujeito construa e que podia deixar de acontecer, mas é uma coisa que o sujeito entrevê e que deve desejar.
“Um julgamento de valor seria contrário a essa posição descritiva, seria cair exatamente no utopismo”. Mas o que ele diz é o seguinte, é que a História da humanidade começou tendo o trabalhador manual, que é o centro da História; o centro da História quando se fala da humanidade é preciso ver bem, é o trabalhador manual; tendo o trabalhador manual completamente alienado. Alienado o que quer dizer? Proprietário de outrem que não ele próprio. Quer dizer, pertencente a alheio. Então a primeira forma de alienação que houve é a escravidão, é a mais completa. Necessariamente por um movimento necessário, que ele vai explicar depois, a escravidão passa para a etapa seguinte, que é o regime do feudalismo, que é uma meia escravidão, é a servidão. Depois, necessariamente o feudalismo tem que acabar e dar numa coisa ainda mais, menos alienada, quer dizer, com gente menos obediente, que venha a ser o regime capitalista, atualmente vigente. Agora, o que virá de futuro? São graus de liberdade cada vez maior que a gente pode entrever não á maneira utópica: eu quero tal coisa, vou realizar, mas a gente poder entrever como a evolução da ciência, em que sentido caminhará. Então, aqui estão as várias etapas sucessivas do socialismo, que ele vai descrever depois. Mas, está-se vendo que sem dar um julgamento de valor, ele acaba dando um certo julgamento de valor. Porque ele acaba afirmando como princípio que a linha ascensional, está na ordem da liberdade. E nesta idéia do homem que não está alienado nem um pouco, entra a idéia de que quanto menos alienado o homem estiver, se o homem estiver num estado de completa desalienação, tanto melhor. O que é, acaba sendo de um modo ou de outro, importando involuntariamente num julgamento de valor. A meu ver, isso é uma coisa que não se pode negar. E um homem inteiramente desalienado, é um homem - é claro - que não tem nenhum superior a si. E, portanto, homem completamente igual a todos os outros. Quer dizer, aquele ideal de igualdade, que fervia de maneira utópica na cabeça do revolucionário francês, é uma coisa para a qual ele acha que vai caminhando necessariamente a sociedade humana. Aqui está a relação entre uma coisa e outra, segundo me parece entender o julgamento, a carência de julgamento de valor.
Quer dizer, nesse sentido, basta falar em evolução, para haver um julgamento de valor, porque há um certo critério segundo o qual eu percebo que o caso anterior representa uma coisa pior do que o estado posterior.
O capítulo seguinte dele é onde ele fala a respeito do manifesto marxista de 1848. Ele dá uma espécie de descrição do manifesto.
O que é muito curioso é que a descrição que ele dá - e por aí se vê, ele se diz marxista, não sei até que ponto ele é competente, e eu não me professo discípulo dele, quer dizer, é tribuna livre a respeito dele, quer dizer, não tenho nenhum empenho em sustentar que a tese dele seja a verdadeira tese marxista. Mas, me chama a atenção que apesar dele se dizer marxista, sobre a questão do hegelianismo e a parte filosófica do marxismo, ele na diz uma palavra. A questão do materialismo marxista, da tese, antítese, síntese, do evolucionismo, ele não diz uma palavra a respeito de nada disso. Ele vai dando diretamente o que ele chama os pontos centrais do marxismo, mas que são pontos econômicos, a preocupação diametralmente oposta, é uma economia embebida de ideologia, embebida de um julgamento de valor, exatamente fixista e não evolucionista, que é precisamente o ponto de vista oposto ao de Marx.
O que ele chama os pontos essenciais do marxismo? O primeiro princípio: a sociedade humana, aliás, a história de toda a sociedade humana é a história da luta de classes. Quer dizer, a História, dos homens alienados contra os homens que detêm a alienação deles. Seria, por exemplo, a história dos oprimidos contra os fortes, seria a história dos empregados contra os patrões, dos filhos contra os pais, dos alunos contra os professores, também seria se ele acreditasse em Deus, a história do demônio contra Deus.
Ele se diz contra a idéia de um Deus enquanto alienação. O homem se aliena para uma idéia, para um ser inexistente, mas que de fato o domina, é uma alienação. O que eu digo é, portanto, bem verdade: se houvesse anjos, os anjos teriam que fazer dentro dessa história o que o demônio fez. É evidente, porque se a idéia de Deus é uma alienação para o homem, o Deus real, para o anjo real seria uma alienação.
Eu acho que não é sem um certo pitoresco para nós, nós compreendermos como essa doutrina da alienação vem a ser a doutrina, a fundamentação da Revolução, o orgulho. Como está nas nossas concepções de RCR e de quanta outra coisa assim. E depois o caráter satânico do comunismo, como aparece claramente nessa formulação: se a idéia de Deus, Marx a considera errada, não existe Deus, mas é uma idéia que nós criamos e à qual nós nos alienamos, ficamos obedecendo a essa idéia abstrata, a fazermos o que essa idéia abstrata nos comanda, etc. Mas, se Deus houvesse e anjos tivesse havido, os anjos deveriam ter feito contra Deus aquilo que fizeram. E depois diz-se muito bem: como condição para o progresso. Porque então Deus perde - tese: demônio: antítese; luta dos homens contra Deus, a luta dos contrários, igual ao progresso.
O resultado é o seguinte, que se Deus há, o demônio também é Deus e deve estar em luta permanente. De maneira que um espírito marxista, desde que ele acreditasse em certo momento em Deus, ele deveria acreditar em termos gnósticos. Da luta do princípio do bem contra o princípio do mal, dos princípios antitéticos, produzindo o progresso do cosmos. Quer dizer, não sei se fica claro, como não é uma construção de nosso espírito ver a gnose nisso como um detetivismo, mas é um fato. A Igreja, por exemplo, aliena a pessoa no terreno espiritual. Depois, não sei se percebem como isso cheira tudo: isso cheira livre exame, cheira protestantismo. Afinal é a negação da alienação religiosa.
O que é curioso é que fica um espírito marxista preparado ao ocultismo num grau supremo de iniciação, quando se disse a ele: olha aqui, Deus neste sentido assim da palavra vamos revelar que existe. O homem até vai descobri-lo. Então entra a gnose, mas a gnose está para o marxismo como o fruto está para a flor. Tudo na flor prepara o fruto. Embora a flor pareça de algum modo ser o contrário do fruto. Assim também tudo no marxismo prepara para uma visão gnóstica do problema religioso. Quer dizer, nessa perspectiva panteísmo é uma espécie de lavagem das cabeças das pessoas das idéias católicas, para depois poder entender uma concepção panteísta.
Agora, no rigor destas idéias, o homem sendo a tese e a mulher a antítese, o normal é que num estágio superior de evolução da humanidade essa própria diferença também se resolver. Mas se resolvesse não só estabelecendo a igualdade, mas algo físico. Quer dizer, aí a gente entra no reino da fantasia, mas uma fantasia que a gente não pode deixar de olhar. É o Júlio Verne da coisa, mas um Júlio Verne no qual de fato há uma visão do futuro. Estamos tendendo para isso, em tudo, na psicologia, na tendência.
Isso com o descobrimento de regras sobre fecundação, isso, aquilo, aquilo outro, a gente não sabe que tretas há dentro de uma coisa dessas. Androginismo. É um tremedal no qual não vale a pena a gente entrar.
Isto tem uma meta a respeito da qual o Marx diz exatamente o que nós dizemos do Reino de Maria. Ele diz: eu não posso dar o plano minucioso e concreto do que será a próxima etapa. E a próxima etapa não é o comunismo de Estado, mas já é agora o que se pode ver no futuro, vamos à tal sociedade anárquica. Mas eu posso dar os princípios segundo os quais isso se regerá, que dão uma noção do que a coisa será.
É uma esplêndida resposta a nós, quando nos dizem que nós não temos programa positivo. Exatamente dizer: Marx também não tem. Porque ele conhece os princípios e, portanto, algumas conseqüências necessárias dos princípios. Sem conhecer tudo com o pormenor de um planejamento estrito.
Então o primeiro princípio dele é de que a história de toda a sociedade, é a história das lutas das classes. As lutas das classes obedecem a quatro características, aliás, não são características, está mal dito. Sobre elas pode-se dizer quatro coisas principais (sobre a luta de classes): 1º Que elas são ora abertas, ora veladas. Lembrem-se daqueles interstícios de que nós falamos na RCR, como isso corresponde exatamente. Porque o período de interstício da Revolução, que o direitista bobo pensa que a Revolução deixou de existir, nós achamos que é um período de Revolução velada, mas que continua. Ora, ele diz exatamente isso, que há períodos em que a luta de classes é aberta, outras vezes é velada, quer dizer, velada é que à primeira vista parece não existir; isso é que é o velado. Mas no fundo existe.
2º Ela é incessante. É bem a RCR.
3º Muda de forma no espaço e no tempo. Ela é polimórfica, apesar de sua unidade.
4º Ela tem sempre por desfecho o seguinte: 1) uma transformação revolucionária de toda a sociedade, quer dizer, uma transformação por onde a sociedade fica mais igualitária em algum ponto. Isto é que é o revolucionário. Então é uma transformação revolucionária de toda a sociedade ou é uma destruição, portanto, é uma vitória a mais da classe que está por baixo em relação à que está por cima, ou então a destruição de ambas as classes em luta. Quer dizer, se a sociedade não se igualitarize um pouco mais, se a classe dirigente segura a sociedade, ela explode e cai na ruína; o que dá como resultado o seguinte: a hierarquia nunca vence, a desigualdade nunca vence, porque se ela vence, estoura tudo. E se ela não vem, então ela não vem. Quer dizer, é fatal que a Revolução ganhe sempre.
Eu gostaria de fazer um comentário aqui do que está pelo ar. Por exemplo, muito do “ceder para não perder”, é inspirado por um estado de espírito parecido com esse. É fatal que todas as marchas para a igualdade vençam porque os que estão em baixo vão acabar vencendo completamente. E se eu resistir, cria um estado de efervescência, em que algo estoura. Então é melhor em vez de eu estourar, eu ceder. Quer dizer, o comunista que está de cima, ele é comunista praticando o “ceder para não perder”. (…) São sinceramente a favor do “ceder para não perder”. É o normal da posição deles. E esse determinismo comunista que fica insinuado em todos os livresquinhos de História de que fatalmente a Revolução vai ganhar, de que fatalmente as monarquias tinham que cair, de que fatalmente a nobreza tinha que desaparecer, de que fatalmente os que têm propriedade, têm que perder. De que fatalmente em última análise o comunismo vai vencer, esse subconsciente - está-se vendo - como é um subconsciente que já é uma afinidade com a doutrina marxista. É uma vivência marxista antes de ser uma doutrina marxista. Mas é um modo marxista de viver a História. Quer dizer, quanto à esquerda católica é bem isso: a Revolução vencerá, porque se fará, conosco ou por cima de nós. Façamo-la de cima ou do altar, ou que ela seja feita na nave reservada ao povo, etc.
Agora, essa crença na fraternidade, domina noventa e nove por cento dos homens de hoje, inclusive da direita. E se a direita não é tão audaciosa, é porque ela pelo menos vivencialmente, ela acredita na fraternidade. E exatamente onde nós nos diferenciamos pela graça de Nossa Senhora, vivencialmente dos outros, é que nós acreditamos não na fraternidade, mas na inexorabilidade do cumprimento da promessa de Fátima, já está profetizado, portanto, haverá. “O Reino do meu Imaculado Coração triunfará”. É esta nossa confiança em que o processo vai ser quebrado, que nos distingue muito das outras direitas por uma porção de aspectos.
E me parece que essa outra observação, que nos flancos disso pode ser interessante. A raiva contra a Idade Média entra em todos os graus, em todos os meios, em todos os modos.
Então, o primeiro ponto é essa doutrina a respeito da luta de classes. Eu gostaria de relacionar a luta de classes com o princípio hegeliano, para ver bem. A tese é o senhor de escravos. A antítese é o Esparta que se quer libertar completamente. A síntese: depois de mil lutas de escravos, é o feudalismo. Depois, a tese é o senhor feudal, a antítese é o servo; a síntese é o capitalismo. A tese é o capitalismo, a antítese é o proletário, a síntese é o socialismo de Estado. A tese é o socialismo de Estado, a antítese é o homem, o trabalhador, que não quer aceitar nem o Estado, a síntese é a ordem anárquica. Quer dizer, é assim por tese, antítese e síntese. Mas essa tese-antítese e síntese, Marx não vê nela um movimento peculiar dos homens, ele vê toda a natureza. Em todos os seres, que todos são matéria, existe isso. Porque essa e uma propriedade de matéria. Só há matéria, todos os seres só são matéria e na matéria existe esse movimento: tese-antítese-síntese; tese-antítese-síntese. Existirá nessa garrafa de água, nessa lâmpada elétrica, se não fosse blasfêmia, eu diria que existe nessa imagem de Nossa Senhora, etc. Em tudo que é matéria, essa lei existe.
Segundo ponto, é a aplicação desse princípio geral ao mundo no tempo dele. A sociedade burguesa é filha de uma dessas revoluções. É evidente, é a Revolução Francesa. Mas ela por sua vez passa por uma revolução, que em 1848 começava pela cisão da classe plebéia em duas classes: a burguesa e a proletária. Os senhores vêem como tudo isso cheira a RCR de perto ou de longe, mas cheira muitíssimo. Então, a idéia é essa: houve uma luta, tese: aristocracia; antítese: plebe. Agora, venceu a plebe, abre-se uma cisão na plebe, que é dos que tem e dos que não tem, para uma nova luta de classes. É a burguesia dominante, é a luta do proletariado, quer dizer, uma cisão, mas em virtude das propriedades da matéria, é que isso sucedeu. É preciso bem compreender isso. É a aristocracia em luta contra a plebe. A aristocracia acaba e nasce como antítese a sociedade burguesa, na qual se dá uma cisão. Gera-se o contrário e o burguês gera contrário. Para compreender o pensamento marxista, é necessário, como é necessário que daqui a algumas horas, o sol esteja se levantando. Quer dizer, a coisa é desse naipe.
Terceiro ponto, como se procedeu isso? A classe burguesa desenvolveu-se e concentrou em si as riquezas. E ela com isso produziu uma classe que não tem nada e que é a negação dela, que são os assalariados. Então, novo conflito.
Quarto ponto, por que maneira a sociedade burguesa gerou isto? Ele diz o seguinte, que pela lei da concordância, a sociedade burguesa, deu às forças de produção um tal desenvolvimento, que essas se tornaram por demais poderosas para se tornarem burguesas de produção. Depois vou explicar isso. Daí uma contradição entre o pode das forças de produção, e o poder de sua utilização jurídica.
Quer dizer o seguinte. Por meio da lei da concorrência, houve uma categoria de homens de negócios, industriais ou comerciantes, porque é engraçado que todas as outras formas ficam de fora, hein! O trabalhador intelectual que nós colocamos na classe burguesa, porque ele freqüenta as mesmas salas e conversa de igual a igual com o trabalhador industrial, quero dizer, com o proprietário industrial ou comercial, o trabalhador intelectual para ele é um assalariado também. A burguesia é dos que tem empregados, mas empregados e não criados, mas é empregado. E a nota principal, a aile marchante da burguesia, não é o agricultor - os senhores vão ver em que pouca conta ele tem o agricultor - menos ainda o proprietário de imóveis que vive de rendas na cidade, que esse os senhores podem imaginar, a classe que eu tanto amo, os senhores podem imaginar os ultrajes, os desaforos, o desprezo, o paredón, bandido, ladrão, etc., portanto, também não e este, mas a aile marchante é o homem de negócios. É o parasita. São resquícios da era passada e que não produz a plus valia que é a substância da evolução na ordem econômica. Afinal de contas….
Os senhores vão ver que aqui é que começa a coisa interessante para nós, é que há uns homens de negócios, dotados de muito mais dinamismo do que os outros. Isso não é dito assim, eu estou dizendo, dotado de muito mais dinamismo do que os outros. E que manipulando a concorrência, acabam eliminando todos os outros por concorrência. E, formando então umas empresas gigantescas, que açambarcam praticamente o melhor da riqueza geral. Agora então, fica um estado burguês, quer dizer, com a sua estrutura jurídica clássica, que é a que nós conhecemos, vamos dizere a República brasileira de 1891, da Constituição de 1891, fica então aí colocada uma coisa que é uma realidade fora dessa ordem jurídica. Porque na ordem jurídica tem os eleitores, tem a Câmara dos deputados, o senado, a presidência da República. Mas na ordem real, tem o magnata e uma multidão de assalariados e o magnata tem um poder que não está na constituição, mas que governa completamente os assalariados - é o tal poder econômico.
E um poder não jurídico, não e o Poder Executivo nem o Legislativo nem o Judiciário, é um poder extra-legal que não cabe dentro dos quadros extra-legais e que domina de fato toda a sociedade. Faz o que quiser, é o poder econômico. Esse poder econômico por sua vez, que gerou esses assalariados, ele acabou ele mesmo fazendo uma primeira concentração das propriedades. Porque as propriedades ficaram pertencendo a poucos. E ficará depois muito mais fácil ao Estado confiscá-las do que se pertencessem a muitos. De maneira que a própria grande concentração das propriedades, se de um lado cria um desajuste jurídico, de outro lado, já vai facilitando a operação confisco. Então, está-se vendo bem, ele fala dos vitoriosos na concorrência. Ele afirma, portanto, de modo implícito o que eu estou dizendo, que é uma categoria de homens que são os tais lobos da indústria e do comércio, que são os agentes desta revolução, pelo seu dinamismo, eles produzem, pelo dinamismo exagerado, maluco, doentio, neurótico de que eles são dotados, eles produzem uma concentração também exagerada e com isso eles fabricam o poder econômico e concentram bens que ficam prontos para a Revolução. Quer dizer, então o busisnesman é o grande propagandista desta revolução.
Não é mais como no socialismo utópico, o professor universitário que chega numa cátedra do Largo São Francisco e abanando assim as mãos, diz: “meus senhores, os homens são todos iguais, porque” (…) por isto, mas é um homem que não tem doutrina, olha com pena como se os senhores fossem cretinos, que quando compreende, finge que não compreende e que apresenta o fato consumado de uma transformação, que é uma transformação de substância revolucionária. Quer dizer, notem bem que quando ele fala da vitória da concorrência, não está só a máquina, mas é exatamente o agente humano dessa concorrência, que é este homem hipertrofiadamente ativo, que produz a fortuna hipertrofiadamente grande, e um homem sem idéias, que não tem convicções. Ele só tem avidez e trabalho incessante. Eu não sei se toda a transformação da sociedade brasileira, do tempo em que era uma sociedade feita de idéias e de fortunas proporcionadas (…)
E depois numa ordem fora do sistema, numa ordem concreta dos fatos, é a concentração que ele prepara é evidentemente uma primeira etapa para outra concentração maior. É a exacerbação da antítese. Mas também no caso do rei, se tivesse havido senhores feudais, como proclamar a república em Paris, de uma só vez para a França inteira, com mil pequenos monarcas cravados nos mil recantos do território francês? Teria sido preciso proclamar mil repúblicas, mas de Paris não seria possível. A partir do momento em que tudo ficou no rei, a cabeça do rei estava sendo preparada para a guilhotina, assim também no dia em que se verifica que quase todo o dinheiro de São Paulo pertence a vinte homens, estes homens estão selados pela destruição. Mas se em vez de vinte, seria um, a cabeça dele cairia sem que ninguém a cortasse.
O liberalismo político preparou necessariamente para o socialismo. Aliás, Leão XIII diz isso muito nas encíclicas dele: o liberalismo vai preparar a pior das tiranias que o mundo conheceu. Isso ele diz, é preciso fazer-lhe essa justiça. Essas noções, sobretudo do lado do papel, porque quanto a esta questão da máquina, e da tomada de posição perante o mundo moderno, eu acho muito importante a gente focalizar o papel do homem super-ativo e em geral, do homem super-produtivo na aparência, que é o grande artífice da Revolução. Isso para as nossas tomadas de posição vivas é tão importante que vale uma exposição.
Por um processo análogo quanto à música, que fica sendo patrimônio de só alguns e aí ela é recusada. Quer dizer, em suma o princípio é: todas as concentrações parecem sublimações, mas são a morte.
Há um problema clou: é claro que numa civilização católica isso não deve funcionar e que há as graças de Deus para que não funcione. Mas, solto o homem a si mesmo, não pelo dinamismo inevitável de uma fatalidade histórica, mas pelo desenvolvimento do processo moral, de degradação moral, enquanto não intervém uma graça de conversão sempre possível, se então o mal desdobrando-se segue esse caminho. Esse é o problema que em última análise se está pondo, e que respondo depois.
As pessoas morrem, mas a ordem natural progride. Mais ainda, aqui vem um comentário humano também, é um comentário que não está nele, é meu, é de nossa observação quotidiana, mas eu suspeito muito que esses magnatas são industriados na idéia de que em determinado momento eles vão desaparecer e que (…) para mim, tudo isso é sempre a mesma história.
Concluindo: nós estávamos vendo por que processo da concorrência, nós vamos ver depois que a máquina ainda tem mais importância do que a concorrência no negócio. Então agora vamos ver por que processo essa sociedade em que tudo pertence a poucos por via de concorrência, gera a Revolução. É o quinto ponto da exposição.
Diz que o assalariado, quer dizer, essa classe nova que apareceu e que não tem nada, é engraçado o reconhecimento implícito de que antes da Revolução Francesa, essa classe tinha alguma coisa, porque se ela ficou assalariada, é por causa de um processo subseqüente à Revolução Francesa. Essa classe nova que apareceu, e que é classe dos assalariados, está alienada aos proprietários, aos grandes concentracionistas. E o meio que ela tem de dar um passo á frente no processo de desalienação, quer dizer, dessa sujeição econômica, qual é? É destruir então aquela casca burguesa, que não corresponde mais a nada e criar todo um outro modo de dominar os meios de produção. Quer dizer, o progresso da alienação, não é mais dominar o Estado, porque o domínio do Estado já foi dado às classes assalariadas, ao alienados já foi dado com a Revolução Francesa. É preciso agora dar um passo a mais, e alterar a forma do Estado, para dominar os meios de produção, esse [é o] próximo meio de fazer cessar a alienação (…)
Então, daí é preciso que a classe - é o sexto ponto - a classe dos alienados, se organize em partido. E esse partido é o partido dos trabalhadores, não é o partido dos que querem o comunismo, é o partido dos trabalhadores. Um comunista não-trabalhador, entra lá como exceção. Como entrava na sinagoga um não-judeu no tempo do judaísmo. Mas é propriamente o partido dos trabalhadores que tem por objetivo conquistar o poder político. Mas para quê alcançar o poder político? Para alterar as leis, e conquistar as formas de produção.
Então, há aqui uma linguagem muito cara aos marxistas: a infra-estrutura e a super-estrutura. A super-estrutura é a sociedade burguesa; a infra-estrutura é a ordem econômica, não é a ordem jurídica, é a ordem econômica. A ordem econômica já não está de acordo com a ordem jurídica; é preciso modificar a ordem jurídica para depois modificar a ordem econômica. Reformas de base é nessa linha.
Agora essa luta - é o sétimo ponto, o penúltimo - é uma luta que é dentro das várias nações de início. Mas assim como um incêndio em duas ou três casas vizinhas, transforma-se ao cabo de algum tempo em um só incêndio, assim também esta luta que nasce em várias nações, se transforma em internacional. A Revolução Comunista é de natureza uma Revolução Universal. É uma das características da r contidas na RCR.
Depois, essa luta de classes, que se dá numa cidade como São Paulo, digamos entre os empregados e os industriais, propaga-se num país entre as regiões mais pobres e as mais ricas. E depois passa para a esfera internacional entre os países mais pobres e os países mais ricos. E é uma outra forma de ser internacional da revolução social. E esta luta entre os países mais pobres e os países mais ricos, acaba tendo como resultado, o triunfo das Áfricas, dos países mais pobres e a República Universal.
Por que eu queria fazer isso? Não sei se estão vendo que não só mil metas políticas nossas, mil estrategias nossas, mil modos de nós no sentirmos, de nós sentirmos o ambiente em que vivemos, se esclarece por uma porção de lados, mas sobretudo o que tem é o seguinte: na linha da MNF econômico, fica-se percebendo o que houve de revolucionário no ativismo econômico e no desenvolvimentismo econômico, que é uma forma de concentrar e, portanto, de preparar para a Revolução. Então essa tese, eu pediria para o MNF econômico (…).
Esta forma revolucionária, apresentada como sendo o revolucionário dinâmico dessa fase, como o ideólogo foi na fase anterior, (…) a economia capitalista. E depois, qual é o padrão humano que entra nisso, do businesman e o horror que há nisso. Eu acho que é tão bom para a gente compreender uma porção de coisas dessas, que me parece vantajoso para o MNF econômico.
É preciso ver também isso, que a “Mater et Magister” exatamente tem esta temática presente: da competição entre os países e a competição entre as regiões. E a necessidade de estabelecer um equilíbrio entre regiões pobres e ricas, países pobres e países ricos. Que é exatamente um ponto por onde João XXIII acha que a encíclica dele é mais rica do que as anteriores. Porque as anteriores não focalizavam esse problema.
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