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Reunião
do MNF — 6.9.61 — Página
IHS
Advertência
Tipo de reunião: Reunião do MNF
Data da reunião: 6.9.61 — Quarta-feira
Local da reunião:
Este texto é anotação integral do que disse Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, tendo sido feita por [...]. Redatilografado do microfilme pela Comissão Plinio Corrêa de Oliveira, foi conferido com o original por Luís Alexandre de Souza em 1995/1996. Houve apenas correção de ortografia, pontuação e gramática. As palavras entre colchetes [...] foram introduzidas para melhor entender-se o texto. No lugar das palavras ininteligíveis ou espaços em branco na anotação original, foi colocado sinal de reticências.
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Reunião do MNF — 6.9.61 — Quarta-feira
A cavalaria é a ação empreendida contra o mal, considerado enquanto ataque intencional contra a estética do universo
É preciso distinguir a cavalaria enquanto instituição que existiu na Idade Média e aquilo que é, em tese, a cavalaria como nós a entendemos, e que sempre deve existir.
Em tese, chamamos de cavalaria a ação empreendida contra o mal, considerado enquanto ataque intencional contra a estética do universo. Aonde não há uma afirmação no mal contra um princípio da estética do universo, não existe, propriamente, uma ação de cavalaria.
Por exemplo, prender um ladrão não é hoje uma [ação] de cavalaria porque o ladrão não pretende ir contra um princípio da estética do universo. Agir contra um comunista para defender a mesma propriedade privada que se defende contra o ladrão, é uma ação de cavalaria; aí se visa não só a instituição, o direito de alguém, mas também um princípio de estética do universo. A distinção entre qualquer repressão do mal in genere e a cavalaria em concreto, parece bem feita desse modo.
* A primeira plenitude da cavalaria está no combate habitual contra o mal, introduzido como ideal de estética do universo
A cavalaria atinge a plenitude de si mesma não só enquanto ela visa o mal concebido como um ideal de estética do universo, mas quando ela visa o combate desse mal. Habitualmente um homem que, per acidens, faz algum combate a isso de vez em quando, pratica uma ação que seria de cavalaria, mas isto não basta para o caracterizar como um verdadeiro cavaleiro. O verdadeiro cavaleiro precisa ter a prática habitual dessa ação.
* A segunda plenitude da cavalaria está na estrategia de seu combate habitual
Em segundo lugar, há uma plenitude maior quando, além de ter essa prática habitual, ele tem essa prática metódica, isto é, ele não se entrega a ações impensadas e irrefletidas em face desse programa, mas age como verdadeiro militar. Não é um briguento solto, mas tem uma estrategia adequada e que serve para acentuar a ação característica de militar. Atinge uma realidade ainda mais plena quando se organiza para fazer isto numa (inaudível ...) ou numa cooperação com vários outros...
* A terceira plenitude da cavalaria está no combate à Revolução
... e atinge sua plenitude das plenitudes quando ele tem em vista não só qualquer manifestação esparsa de afirmação contrária à estética do universo, mas quando tem em vista a Revolução, como ela existe concretamente como tal, e a organização que promove a Revolução, que vem a ser a judeu- maçonaria.
* Quando se dá a plenitude total da cavalaria
Quando essas notas todas se reúnem, pode-se dizer que a cavalaria existe em sua plenitude.
A cavalaria, considerada assim, e comparada com o que ela foi na Idade Média -- que apresentava um caráter rudimentar -- tem sua plenitude. Entretanto, isso vem também do fato de como se apresentavam o mal e a Revolução na Idade Média e o modo pelo qual vem se apresentar depois.
* O crescimento do bem traz consigo também um maior requinte para o mal agir
Temos aqui um princípio da lei do amor que é preciso considerar: a medida que o mal vai determinando certos pecados, a reparação pode determinar até uma santidade muito maior; mas o mal adquire um vigor, que não perde, mas é preciso lutar contra ele constantemente.
Por exemplo, um anacoreta, que cometeu inúmeros pecados e depois foi para o deserto. A penitência dele pode levá-lo a um altíssimo estado de virtude; mas os seus maus hábitos, em decorrência de seus pecados, ficaram com tal vivacidade, que o obrigam a uma luta a vida inteira.
Assim também os pecados que a humanidade foi cometendo, foi requintando o mal. Por isso, quando comparamos o mal como existia, por exemplo, entre os bárbaros, em comparação com o mal como ele era no fim da Idade Média -- um maniqueu e um bárbaro germânico, por exemplo -- notamos que o mal do bárbaro tem qualquer coisa de pueril em relação com o mal do maniqueu. É o progresso do mal, decorrente, em parte, do progresso da civilização e do mau uso das armas dessa civilização.
Isto fazia com que a cavalaria tivesse, em seu nascedouro, qualquer coisa de tão tenuamente ligada propriamente à estética do universo, que até não é muito fácil ver o filão da ligação. Num cavaleiro que ia defender as viúvas, os órfãos etc., é preciso um certo trabalho de química, para extrair essa nota. Também no mal que está do outro lado é preciso um certo trabalho de química para perceber nele uma germinação de Revolução.
A cavalaria cresce e tende à sua plenitude característica ao mesmo tempo que o mal também cresce e atinge a plenitude de si mesmo. A coisa é muito germinativa no começo.
* O conhecimento da pessoa augustíssima de Nosso Senhor Jesus Cristo, como modêlo perfeitíssimo da estética do universo, era o ideal da cavalaria medieval
O Arnaldo observa que essas preocupações dos cavaleiros, essa nota de cavalaria que existia entre eles, embora fosse muito vaga, muito inexplícita, era o ponto principal do idealismo e a tônica da psicologia neles. O Adolpho nota que a cavalaria sempre visou a luta pela estética do universo, mesmo porque eles queriam implantar o reino de Deus por toda parte.
Eu noto uma coisa que o medieval tinha em alto grau e que se perdeu em virtude da Revolução A: a idéia de Jesus Cristo como ponto convergente de toda a estética. Não é um Jesus Cristo cuja única bondade consiste em ter pena dos que sofrem, mas é um Jesus Cristo que, além dessa perfeição, tem todas, e cujo simples nome é o compêndio da estética do universo.
Mas é o Jesus Cristo nosso, aliás, é o Jesus Cristo que a Santa Igreja ensina.
* A rejeição do bem pelo mal, torna ainda maior a malícia do mal
A malícia do mal não está na proporção do número das pessoas más, nem da expressão que esse mal consegue na sociedade temporal. Mas está na proporção da intensidade da graça que foi rejeitada, da plenitude da intensidade do bem que foi negado e não foi querido. Por antítese, forma-se o mal no sentido oposto. Se um homem visse inteiramente Nosso Senhor e o rejeitasse plenamente, ele teria alcançado um grau de malícia maior do que muitos outros que não tivessem feito essa rejeição.
Os maus, que continuarem maus apesar da Bagarre, apesar do Grand Retour, apesar do golpe de Nossa Senhora contra as forças do mal, terão rejeitado uma tal carga de bem, terão tido uma tal noção do bem e o terão rejeitado tão completamente, que cairão para um grau de espécie diferente de malícia, que era o grau de malícia da nossa época.
Eles estarão para nossa época como a malícia da nossa época está para a malícia da Idade Média, e como a malícia da Idade Média está para a malícia dos germanos. Há diferenças específicas de grau, que até poderiam ser estudadas, do ponto de vista da malícia. Assim, isto fará com que a malícia tenha atingido, no reinado de Maria, uma perversidade suma.
De onde decorrerá que, no Reino de Maria, embora o mal tenha sido jugulado, no sentido de que não consegue nenhuma expressão, que representará um perigo maior do que nunca. Vai ser preciso uma ação sumamente vigilante e sumamente constante, não só para detectar a conjuração dos maus, mas para detectar a expansão mais ou menos expontânea dos germens do mal que nasceram daí e que serão piores do que os contemporâneos. Portanto, haverá uma ação -- pairando sobre o Reino de Maria -- contra o mal, que será a condição de sobrevivência dele.
Um pouco como uma torre que, quanto mais alta é, tanto mais exige alicerce, assim também o Reino de Maria quanto mais alto subir, mais precisa dessa ação preventiva contra todas as formas de mal.
Isto em virtude do princípio de que o reino do mal vai se acentuando à medida que se vai acentuando o reino do bem. Ou melhor, a intensidade do mal e a intensidade do bem.
* Como se processa a luta entre o bem e o mal
Alguém levantou uma objeção contra a doutrina de que o mal e o bem vão crescendo, paralelamente, cada vez mais. A objeção é a seguinte: parece que o mal, em certa época da história da antiguidade atingiu uma intensidade tal que todo mal que se fez de lá para cá, parece abeberar-se e reportar-se àquele. Por exemplo, os mistérios do Egito, etc.
Esta objeção do Paulinho é muito boa porque importa em precisar um pouco a afirmação que eu fiz, que é dessas coisas verdadeiras, mas não é suficientemente nuancée. Não é dizer que cada vez mais e necessariamente o bem vai ficando melhor e o mal vai ficando pior, porque estaria aí, inclusive, um certo sabor de evolucionismo e de determinismo histórico. Diga-se, antes, antes, que sempre que o bem cresce e que se lhe opõe um mal, quando este mal se lhe opõe, ele é pior do que era antes.
Não há aqui propriamente uma regra histórica no sentido de dizer que o mal sempre piora e o bem sempre melhora, mas no sentido de que sempre que o bem é recusado pelo mal, o mal com isto piora; sempre que o bem vence o mal, o bem com isto melhora.
Há um princípio de filosofia da história e da lei do amor, que é o seguinte: ambos os combatentes crescem no combate. Isto não quer dizer que não há épocas históricas em que o bem como que elimina o mal e o mal sai da balança.
* A teologia da história dos povos
Vou agora responder à argumentação do Paulinho. Devemos distinguir aqui a história do mundo greco-romano, a história da Ásia e da África, que representam três dinamismos do mal completamente diferentes. A África recebeu uma dessas maldições tais que a arrasaram e do qual ela está apenas começando a se reerguer hoje para cair numa maldição pior.
Há toda uma teologia da história da África parecida com a teologia da história de nossos índios, diferente da teologia da história das nações asiáticas e das nações européias. Porque, se é verdade que as nações européias tinham consigo uma certa carga de mal, e mesmo os gregos e romanos, não os vemos empestados com a carga de mal que tinha a Ásia.
No início das civilizações asiáticas -- incluindo o Egito -- houve uma espécie de epifania do demônio e de domínio do demônio, que parece atingir uma plenitude, parece ser conservado em plenitude por certas seitas secretas, mas tem-se a impressão de que essas seitas perderam muito do seu ascendente sobre o povo e que o povo se rotinizou e escapou de dentro disso por uma reação saudável meio misteriosa.
De maneira que quem estuda a História do Egito, tem a impressão de que a tal decadência do Egito é, em última análise, uma ascensão. O povo foi rompendo com aqueles mistérios e fugindo deles.
Compreende-se que aquela malícia foi transformada numa espécie de bolsa, através da História; vai-se até lá como numa espécie de reservatório.
O Paulinho argumenta se aqueles gigantes antigos não tinham uma malícia que dificilmente foi atingida depois. Eu imagino esses gigantes como uma espécie de super-Esaús. Eu lembro que esses povos gigatnes eram povinhos e que na filosofia e teologia da História é preciso distinguir a filosofia e teologia da História da humanidade, de uns tantos povinhos isolados, que não marcam a humanidade inteira, mas que constituem quase que corpúsculos que gravitam em torno de si mesmos, e que quando um certo grau de malícia, são extintos. Há, por eles, um micro-fim de mundo.
A liberdade que Deus dá aos demônios é progressiva e segue os vais-e-vens da História. Assim também há uma história das graças de Deus, conexa com a história da humanidade.
A. R. M.