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Reunião
do MNF — 3.8.61 — Página
IHS
Advertência
Tipo de reunião: Reunião do MNF
Data da reunião: 3.8.61 — Quinta-feira
Local da reunião:
Este texto é anotação integral do que disse Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, tendo sido feita por [...]. Redatilografado do microfilme pela Comissão Plinio Corrêa de Oliveira, foi conferido com o original por Luís Alexandre de Souza em 1995/1996. Houve apenas correção de ortografia, pontuação e gramática. As palavras entre colchetes [...] foram introduzidas para melhor entender-se o texto. No lugar das palavras ininteligíveis ou espaços em branco na anotação original, foi colocado sinal de reticências.
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Reunião do MNF — 3.8.61 — Quinta-feira
A cavalaria, a nobreza, as funções de reinar e governar
... tanto o guerreiro romano quanto o cavaleiro representam a luta; mas o modo da luta é diverso. O guerreiro romano luta pelo seu direito; quando ele é probo, honesto, tem o espírito penetrado pelo direito romano, luta pelo seu direito. Mas não é, como o guerreiro medieval, um lutador do direito considerado em abstrato, a verdade em abstrato, o absoluto, a ortodoxia, o bem. O guerreiro romano luta pela Pátria, pela ordem natural das coisas, etc., mas enquanto vantajosas para ele.
Essa diferença corresponde à doutrina católica de que no mundo existe uma debilidade do homem em consequência do pecado original, em virtude do qual, mesmo com a ação da graça, o bem sofre de uma espécie de fraqueza como que congênita. O mal é ágil, vigoroso (inaudível ...) ele auta como uma força maligna da natureza. É preciso estar em luta constante contra ele para o bem sobreviver. É como um jardineiro cuidadoso que a todo momento precisa estar arrancando erva daninha do jardim.
* Os vários graus da luta do cavaleiro
Mas, enquanto operando uns sobre os outros, para essa luta de cúpula, que é a luta entre todas as nações para a conquista do mundo para Nosso Senhor Jesus Cristo. Essa luta é idêntica à luta pela Igreja Católica e pela Civilização Católica e constitui a mais alta missão do cavaleiro. Essa luta é muito específica da ordem de cavalaria. Enquanto o cavaleiro, senhor feudal e o cavaleiro andante são mais adstritos às circunstâncias locais, não sendo alheios ao resto, o cavaleiro da ordem religiosa é filho desse ideal, lutando por esse ideal no mundo ideal.
Vem depois um outro ideal, que não se identifica com esse, mas que também é imensamente sublime: lutar pela causa católica e pela estética do universo num determinado país ameaçado por heresia. Por exemplo, a cruzada contra os albigenses. Vê-se bem a vantagem que havia para a Europa toda que não se espalhasse a heresia. Era um problema francês, local, bem diferente da luta inteira da Cristandade contra o Islã.
Abaixo de uma luta local, vem a luta para a manutenção da luz primordial da pátria, da manutenção da própria pátria, das fronteiras da pátria, tudo isto enquanto luz primordial da pátria, enquanto bom direito da pátria. É uma luta pelo direito, mas mais restrita; é uma luta pela estética do universo, mas numa luz primordial.
Temos aqui o bem comum diretamente espiritual, o bem comum espiritual, na ordem temporal, de uma nação ameaçada pelo inimigo e a nobreza de lutar por isto. Cabe aqui o patriotismo católico, no que ele tem de verdadeiro.
Temos aqui agora uma luta que não é mais a manutenção de uma luz primordial, mas é a repressão ao banditismo, das injustiças feitas às viúvas, aos órfãos, etc., a repressão até do ladrão de galinha, a manutenção da ordem, que deve sempre ser inspirada pelos mais altos princípios, mas que não se volta contra pessoas que tem por ideal a destruição de alguma coisa da estética do universo; volta-se contra pessoas que são apenas movidas por interesses pessoais, egoísmos, etc., e muito menos por um ódio à ordem universal. Aqui entra a verdadeira função do policial e do miliciano.
* Diferença entre o cavaleiro andante do simples miliciano
O Adolpho pede uma explicação do que diferencia o cavaleiro andante do simples miliciano; dentro dessa classificação pareceria que o cavaleiro andante não é senão um miliciano avulso.
O cavaleiro andante não está voltado só contra a heresia organizada e estruturada, como a dos albigenses, mas contra toda espécie de foco de espírito revolucionário nascido aqui e acolá, e que ele ouve extinguir -- e que é o mais comum. Com esse pulular a toda hora, ele ainda está na ordem da cavalaria. Como ele faz seu métier abnegadamente também no restabelecimento de certos casos de polícia, ele faz ressaltar muito o absoluto que existe nessa coisa pequena.
Nesse ponto ainda ele é absolutamente cavaleiro. Quando vai defender uma viúva, de fato, não defende todas as viúvas do mundo, mas ele o faz de tal maneira que tem em si, e acende nos outros, um ideal da viúva bem tratada. É um princípio da estética do universo. Ele está na esfera miúda da cavalaria, mas não está na esfera do miliciano.
O combate miúdo que o cavaleiro faz à heresia participa do combate geral imenso à heresia e não está na linha mais baixa do combate às fraquezas pessoais.
A importância dessa tarefa do cavaleiro resulta, exatamente, do fato de que o espoucar de uma heresia só se dá quando os cavaleiros há muito tempo não fazem isto. Os esforços miúdos do mal vão se aglutinando, se coagulando aqui e lá, sendo sempre reunidos e derrubados, não é possível o detonar de uma heresia assim.
A Cavalaria tem alguma coisa de preventivo e de repressivo também; porque, depois de uma heresia, se não há a destruição de alguns focos pequenos, ele renasce de novo.
Podemos dar uma concepção da dignidade de cada uma dessas posições. Uma pessoa de espírito literário diria que quanto maior o mal, maior a dignidade de combatê-lo. Mas do mal não sai dignidade nenhuma, e essa expressão é um pouco figurada. Ela seria mais bem posta assim: quanto mais alto o nível da glória de Deus atingido por um determinado mal, tanto mais nobre é o vindicar essa glória.
Vindicar a glória de Deus aos olhos de todos os povos é maior do que os olhos de uma só nação, aos olhos de uma nação maior na ordem da pura estética do universo dentro do país, do que da pura luz primordial da ordem temporal do país, etc. Por aí se estabelece a dignidade da função do miliciano.
Santa Joana D´Arc não estava colocada num nível de ação tão alto quanto Godofredo de Bouillon, o que não quer dizer que ela tenha sido uma flor de cavalaria maior até que Godofredo de Bouillon.
Assim, entre os milicianos pode haver algum que faça ações até que toquem o martírio. Mas a função dele não é revestida de glória como a do cavaleiro, porque não vindica tão alto a glória de Deus. O miliciano pode cobrir-se, ele, de glória em sua função, por causa do modo como ele a conduz; pode mesmo comunicar algo de sua glória à função.
* As funções de reinar, governar e combater
O Adolpho faz a seguinte pergunta: isto posto, temos um painel, do outro lado, temos outro painel que é a de reinar e governar, da soberania etc.
Há um nexo entre a suprema função de reinar e governar e o supremo grau da função de comandar militarmente. Isto porque a mais alta função de reinar e de governar, é combater o mal. O chefe de Estado tem algo de preponderantemente militar, que está ligado à condição preponderantemente militar da função de governo.
Essa explicitação da preponderância da função militar não tinha vindo muito ao nosso espírito. Agora, os dois quadros se completam. Aí, uma das razões desse instinto profundo pelo qual, normalmente, os reis, até há pouco, apareciam fardados. A função de combater é própria do rei.
Por isso mesmo, quando os reis não estavam fardados, estavam armados; a espada era inseparável do cetro. Muitos dos reis se faziam pintar com um elmo à mesa, ou tendo ao fundo do quadro uma cena de batalha etc. É a função predominantemente militante do reinar e governar.
Como todas essas funções devem coexistir no mesmo homem e consistir num todo só, o homem que deve exercer as funções deve ter, a priori, uma necessidade de ser personificador da luz primordial comum às três funções: combater, reinar e governar.
Personificar a luz primordial para governar e reinar já o sabemos porque. Vejamos o combater.
Numa guerra concebida completamente diferente da guerra de hoje, numa guerra concebida por ideal e por iniciativa de calor individual, o rei que avança e que, como símbolo de sua pátria corre todos os perigos e todos os riscos, e arrasta os outros, ele ... é preciso que o cabeça da nação se exponha aos riscos. E aqui ligar o personificar com o combater é muito importante.
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O Adolpho faz outra pergunta: se todo nobre deve ser a personificação de um ideal, como é que o cavaleiro medieval ...
... chegamos, então, a uma concepção de nobreza mais fina do que aquela que havíamos dado e que não estava explícita na concepção dada. O que é o nobilitante
O nobilitante é o personificar, em termos de sociedade temporal, certos valores de ordem universal da estética do universo, que são valores, em última análise, de caráter ... porque ... porque, nesse sentido da palavra, ser padre não é nobilitante, embora, em certo sentido, o padre seja uma categoria social superior ao leigo.
Mas não é nobilitante no sentido em que o leigo é nobilitante. Nesse sentido o nobre, que é produto da aristocracia e de famílias locais, faz esse desponsório através de um processo; e o guerreiro faz outro desponsório através de outro processo. Mas, em última análise, eles se casam com a mesma esposa; eles irradiam a mesma luz. São lâmpadas talvez de cores diversas.
Isto me leva a dar um salto e encontrar a explicação de como o comerciante pôde, em certos caos, ser considerado nobre, numa Europa onde o comércio não era considerado atividade nobilitante. É que no caso específico de Veneza, o comércio era a vida da cidade e dirigir o comércio era estar de posse da luz primordial da cidade. Daí o fato da nobreza de Veneza ter algo de regnativo, de governativo, que era ... do comércio na esfera privada.
A. R. M.