Conferência
– 16/1/1961 – p.
Conferência — 16/1/1961 — 2ª-feira
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Primeira conferência do Congresso de “Catolicismo”
Revdo. Frei Jerônimo, Revmo. Frei Emídio, meus amigos.
Eu peço desculpas não só pelo atraso, mas por algum lapso que essa conferência possa ter, porque os senhores conhecem as circunstâncias dentro das quais eu estou falando com extrema dificuldade que eu tive não só de chegar até aqui, mas em coligir ontem, depois de algumas notícias um pouco menos desalentadoras a respeito do estado de saúde de meu pai, em coligir alguns elementos e alguns dados para a conferência de hoje. Essa conferência, infelizmente, deveria ser das mais importantes para os senhores, porque deveria dar uma espécie de introdução para a matéria que vai ser tratada nas conferências sucessivas; e uma introdução desta vez muito necessária, porque seria preciso dar a focalização exata dos assuntos que vão ser tratados. Esta focalização muito importante, porque não se faz intuitivamente. O todo humano focaliza espontaneamente as coisas. A mente humana focaliza com facilidade aquilo a que está habituada. Mas há determinados aspectos e certos problemas, há certas circunstâncias, há certos [fatores que nessa?] matéria a ser tratada nesse ano, precisam ser apresentados com muita clareza para que realmente a focalização [dos assuntos?] se faça bem.
E por isso, na confecção… [ilegível] …uma conferência… [ilegível] …essa conferência sairá como eu… [ilegível] … e ajudar. Eu vou entrar diretamente ao assunto.
… [ilegível] …nós… [ilegível] …aquilo que é… [ilegível] …matéria que está… [ilegível] … “Catolicismo”,… [ilegível] …atitudes de espírito, há um mundo de tendências que ficam mais ou menos inexpressas.
* O estudo da obra e do pensamento do Sr. Dr. Plinio não pode basear-se exclusivamente em suas publicações
Nós vemos uma pessoa que quisesse dizer o seguinte, que se dedicasse como se está dedicando — e, aliás, com muita eficiência, é o Prof. Furquim — em fazer a História do “Catolicismo”, uma pessoa que quisesse fazer um apanhado doutrinário do “Catolicismo” tomando apenas o jornal “Catolicismo”, fizesse uma condensação das teses publicadas no jornal e completasse essa condensação com as teses contidas na “Pastoral” de D. Mayer, no livro “RCR”, agora no livro “Reforma Agrária questão de consciência”, e em outras coisas que temos publicado, uma pessoa que apenas baseada em livros quisesse fazer uma condensação das teses de “Catolicismo”, faria algo que daria uma imagem real do nosso movimento, mas uma imagem incompleta. Porque, se é verdade que tudo quanto ali está representa a nossa alma, representa o nosso espírito, é muito verdade que há muitas outras coisas que estão em semente entre nós, que estão em gérmen entre nós e que, de fato, a envergadura ideológica e doutrinária, e os planos concretos de ação, as tendências de nosso movimento são muito mais amplas do que aquilo que nós temos publicado.
Isso, aliás, acontece com tudo aquilo que é humano. São Tomás de Aquino diz muito bem que o conceito contém a realidade, mas que a realidade sempre extravasa um pouco do conceito. E que todas as coisas que o homem diz, devem por isso mesmo, diz ele, ser tomadas cum granus salis, como grãozinho de sal, para se compreender que é bem aquilo, que é tudo aquilo, mas que é um salzinho, há um quid, um id, de realidade que ainda não figura aí dentro.
E nós não temos nas nossas coisas apenas um granus salis, mas nós temos um tonel de sal. Nós temos muita coisa para ser dita ainda, nós temos muita coisa para ser formulada, muita coisa para ser apresentada; e esta idéia de que nós temos ainda um longo itinerário ideológico e doutrinário diante de nós, esta idéia paira sobre as conferências deste ano e explica as conferências deste ano para a turma dos senhores que são os mais antigos, os mais conhecedores de toda as nossas aspirações etc.
* A doutrina da Revolução e da Contra-Revolução, por sua natureza, supõe desdobramentos que tornam impossível sua compilação em uma simples biblioteca
Para que se compreenda bem isto, é preciso notar o seguinte: que nós somos uma reação à Revolução; nós somos especializados em Contra-Revolução; ora, se nós formos analisar a Revolução, nós vemos que, como ela se apresenta no momento, também não consta de tudo quanto foi escrito a respeito dela; mas que ela abrange algo de muito mais amplo do que o que foi escrito a respeito dela. Se nós tomássemos todos os escritores revolucionários que houve e há, e fizéssemos uma biblioteca que seria, infelizmente, a maior do mundo, e uma equipe de pensadores fizesse ali a condensação exata de todo veneno que eles destilaram, nós não teríamos ali também toda a Revolução. Porque a Revolução é um movimento que está em trânsito, é um movimento que está se desdobrando. E é natural que esse movimento, por isso mesmo que está se desdobrando, ainda tenha muito de inexpresso, muito de incompleto.
Nós que somos a Contra-Revolução devemos ter necessariamente, por isso, muito de incompleto.
Para se notar bem como há confusão, por exemplo, como as coisas da Revolução, como a Revolução é impalpável, como ela age com aquela tática subliminal de que nós falamos na primeira parte do livro “Reforma Agrária, questão de consciência”, basta notar o que aconteceu, há pouco, a respeito daquelas proposições que figuram na primeira parte. Uma pessoa conhecida do Dr. Mendonça de Freitas declarou o seguinte: que nunca aquelas proposições deveriam ter sido publicadas, porque a parte errada convence muito mais que a parte certa; a parte errada é a simpática, é a verdadeira, é a boa; a parte certa é a parte antipática, odiosa. De maneira que quem lê a parte errada se sente como que chupado ou sugado pela parte errada, diz ele. Isto é dito por um homem que é de uma tal ou qual cultura, e de uma tal ou qual expressão e representação nos meios políticos e sociais de São Paulo.
Pois bem, o Sr. Gustavo Corsão sai com um artigo que diz o contrário: que ninguém pensa aquilo que está na parte errada. Os senhores estão compreendendo: são dois revolucionários — porque eu creio que ninguém negará ao Sr. Gustavo Corsão a qualidade de revolucionário — pois bem, são dois revolucionários. Os senhores estão vendo de quantas contradições a Revolução é capaz nas suas dobras. O que mostra a amplitude dela, porque um pano muito dobrado, quando a gente o desdobra, sai muita coisa. Uma sanfona dobrada quando a gente a desdobra, sai muita coisa. A Revolução é uma sanfona que está longe de se ter desdobrado inteira, não é verdade?
E nós a pari passu também temos o nosso desdobramento que vai acompanhando isso.
* As diversas “bombas” lançadas pelo Sr. Dr. Plinio contra a Revolução
Bem, até aqui… E eu passo agora ao que eu poderia chamar “a teoria do golpe mortal”, expressão um pouco melodramática, mas ela diz o que eu quero dizer.
Nós temos feito no movimento do “Catolicismo” uma espécie de dualidade de processos. Num primeiro processo, numa primeira coisa, nós temos o “Catolicismo” e o movimento que representam o tempo [sperarum?] da vida do nosso movimento. A gente publica o “Catolicismo”, tem os seus grupos que existem por toda parte e que fazem suas reuniões, e espalham a influência do jornal, que propagam o jornal etc, etc. Mas, ao par de nós termos o movimento cujo surto representa o andar diário do “Catolicismo”, nós temos aquilo que nós podemos chamar “as grandes bombas da vida do ‘Catolicismo’”. E isto diz respeito não só à vida de “Catolicismo” mas àquilo que é a primeira parte da história dele, ou a primeira parte da ogiva deste projétil que é o movimento de “Catolicismo” e que vem a ser o antigo “Legionário”.
Desde o tempo do antigo “Legionário” nós fazíamos isso, nós tínhamos o nosso trânsito comum, mas de vez em quando, soltávamos uma bomba. Uma bomba foi, por exemplo, o livro “Em defesa da Ação Católica”.
Como sempre acontece com as bombas, às vezes queimam também o artilheiro. Nós não deixamos de ser queimados por essa bomba, mas de queimaduras que não foram de terceiro grau e que representaram o riso calculado. E, depois, a bomba teve a vantagem de que ela fez o que devia ter feito; ela queimou muito mais aos outros que a nós; ela representou uma espécie de impacto contra determinados erros, depois do qual, esses erros tiveram uma sobrevida, nutridos com tantos soros, com tantos elementos, numa tal tenda de oxigênio que evidentemente eles ainda vivem, mas eles vivem uma espécie de sobrevida. O magnífico élan que eles estavam preparando, o pulo de onça esplêndido em que eles estavam, pois bem, este pulo de onça encontrou um punhal, esse élan encontrou uma barreira que, pela graça de Nossa Senhora, foi um livro.
Passou-se o tempo e vieram bombas de outra natureza que não são os livros, e que foram as promoções de D. Mayer e de D. Sigaud ao episcopado. Essas são bombas festivas, mas que queimam também.
Depois vieram bombas de outra natureza, como a Pastoral de D. Mayer. A Pastoral de D. Mayer foi um estouro em céu sereno e depois do qual o céu continua sereno. Continuou-se a sorrir, continuou tudo azul, mas a atmosfera foi purificada por uma boa carga de ozona.
Bem, depois disso, nós tivemos a “RCR”. A “RCR” cujas repercussões nós vamos estudar melhor em outra sessão, mas que teve, sobretudo, uma esplêndida detonação na Europa. Os senhores vão ver, no momento oportuno, como na Europa as irradiações desta bomba de hidrogênio estão se propagando favoravelmente.
Bem, e em matéria de poder explosivo, não se pode negar que a “RA” está excedendo todas as expectativas, e que com a “RA” nosso movimento passou das bombas de canhão do tipo Große Berta da guerra de 1914 a 18, para não mais a bomba atômica, mas para a bomba de hidrogênio da qual a bomba atômica é espoleta.
Os senhores viram pela própria repercussão, contra o nosso desígnio, que está sendo dada a esse Congresso, e o nexo que está sendo feito com a questão da “RA”, os senhores viram bem, todo estouro que este assunto está produzindo.
Quer dizer, então, nós, em matéria de movimento, temos um movimento corrente e, depois de vez em quando, uma “bombada” que nós jogamos.
* Seria possível dar um tiro mortal na Revolução?
Bom, isto posto, nós podemos nos perguntar o seguinte: se além de nós jogarmos uma “bombada” qualquer no adversário, não seria possível dar no adversário um tiro tal que não tivéssemos mais que jogar “bombadas”.
Aqui está, diante de nós, a Revolução. Cromwell, que entendia ou que era entendido em matéria de regicídio, tinha a seguinte afirmação: que aos reis só se deve ferir na cabeça. Quando eu li isto, eu achei que havia a sabedoria das coisas do demônio; porque a gente cutucar um rei… Se a gente tem que brigar com um rei, é melhor decapitá-lo.
Bem, isto se diz de todo adversário poderoso. Com o adversário poderoso, não adianta a gente estar metendo alfinetinhos, porque ele dá alguns tantos rugidos, de repente sai o que a gente não quer. Se a gente está em face de um adversário poderoso, é o caso de perguntar se não se poderia lançar contra ele uma bomba da qual ele não se restabelecesse. Em termos mais claros, é o caso de perguntar se a Revolução não pode sofrer um golpe mortal.
Há muita gente que tem golpeado a Revolução. Os senhores viram, no ano passado, uma exposição que nós fizemos sobre os principais faróis da Contra-Revolução. Lembro-me bem que, entre eles, figurava um grande herói contra-revolucionário brasileiro que é D. Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira que, por exemplo, deu ele um tiro muito sério na Revolução. A Revolução tem levado assim muitos outros tiros muito sérios. Mas nós não podemos imaginar que tenham sido tiros mortais, pois ela não está morta. Não está morta e infelizmente não está para morrer.
E então nós poderíamos perguntar se existe um meio de nós darmos um tiro mortal na Revolução. E a resposta é a seguinte:
* O que a Revolução mais teme é produzir cristalizações — O Sr. Dr. Plinio dá exemplos históricos
Não sei se os senhores já fizeram a si próprios, claramente, esta pergunta: nós estamos no dia 26 de janeiro do ano de 1961, a Revolução está no seu apogeu. Ela domina países como a Rússia, como a China; nenhum de nós aqui tem a infantilidade de tomar a sério as brigas entre a Rússia e a China, que são brigas de opereta estritamente, no melhor sentido da palavra, para inglês ver; inglês e algo de mais ingênuo que inglês, que é o filho bastardo do inglês, que é o americano do Norte. Bem, são coisas, portanto, estritamente para inglês ver, e que ninguém toma a sério. Eles dominam quase metade da Europa, eles estão deitando tentáculos por toda a América, há um câncer comunista na América que por metástases tende a se espalhar por toda ela, e que é Cuba. Há partidos comunistas enormes por toda parte. Mas, se fosse [só] isso, não era nada; e os favoráveis, os partidários do comunismo que não são comunistas declarados, os inocentes úteis do comunismo, mais ou menos inocentes, mas certamente muito úteis, se a gente fosse fazer uma espécie de inventário de toda esta coisa, onde é que nós chegaríamos em matéria de poder do comunismo?
Está bem. Agora, há uma pergunta que nós devemos fazer: por que é que os comunistas não dão o golpe já? Por que eles não entram na França, não entram na Espanha, não entram na Itália; por que é que eles não se levantam no Brasil, por que é que eles não matam este Papa? Os senhores pensam que eles não têm poder material para fazer isto no momento? Pelo menos que eles não têm poder material para tentar isto no momento? Os senhores pensam que eles não fazem isso por preguiça? Que não fazem isso por indolência? Que não fazem isso por um resto de respeito? Nenhum dos senhores pensa isto. Os senhores sabem que eles têm os meios, pelo menos, para desencadear uma tentativa gravíssima. Os senhores sabem que nada é mais fácil para eles, pelo menos humanamente falando, do que atentar contra a pessoa sagrada do Santo Padre e, portanto, provocar, ao menos por algum tempo, a vacância do governo supremo da Santa Igreja. Aqui, neste momento, eles sabem bem que está reunida a fina flor do ultramontanismo brasileiro, são os piores inimigos deles, aqui estão os peixes que se reúnem todos juntos no mesmo aquário; nada melhor do que deitar a rede em todos nós reunidos aqui. Por que é que eles não metem uma bomba de dinamite aqui? Não seria um serviço limpo, não seria pelo menos para eles uma limpeza? Por que é que eles não chegam a essas medidas de violência? Qual é o elemento natural? Porque eu não olho aqui para o elemento sobrenatural que, evidentemente, tem um papel muito grande no problema, mas que é imponderável até certo ponto e que, portanto, escapa à nossa análise. Mas qual é o elemento natural que detém o comunismo e lhe impede de dar o golpe que ele podia dar?
A resposta é muito simples. É que o comunismo sabe muito bem uma coisa que em matéria de estratégia, todo mundo sabe. Uma coisa é a facilidade para invadir um país, outra coisa é a facilidade para ocupar um país. Invadir o Brasil, por exemplo, será fácil, mas ocupá-lo estavelmente será muito mais difícil. Há uma coisa mais fácil do que invadir a Espanha? Há uma coisa mais difícil do que ficar na Espanha? Porque depois do primeiro movimento de invasão que se faz, começa a guerrilha espanhola, não é verdade?
* Reação individualista de um coronel espanhol anticomunista
Eu me lembro de um espanhol a quem eu perguntei — de um individualismo um pouco exagerado, mas um tanto magnífico — eu perguntei a ele:
— Coronel, se houver uma invasão na Espanha pelas tropas russas, eu queria que o senhor me dissesse se o governo é capaz de apresentar alguma resistência?
Ele muito antigovernista — e, a meu ver, com boas razões; não as razões que levaram o navio português a se revoltar agora, mas por razões bem diversas — bem, ele me disse:
— Não, o governo não vai resistir nem um pouco.
Eu disse a ele:
— Bem, então os senhores têm alguma organização de resistência?
— Ni tan poco.
Eu disse:
— Mas o que acontecerá?
Ele disse:
— Eu sei qual é o lugar nos Pirineus onde eu vou ficar com as minhas armas matando os comunistas que passarem.
Esse homem não é um bobo. Ele sabe que está diante de uma nação indomável e indomada; e que se entrarem lá para ficar lá, é coisa muito séria, porque haverá milhões de espanhóis que já sabem os lugares onde têm que ficar para matar gente; e que o episódio de Napoleão Bonaparte se repete. Repete-se e não se repete só na Espanha.
A Igreja tem um caráter sobrenatural, tem uma tenacidade, tem uma capacidade por onde, não só nessa circunstância, com a superabundância da graça de Deus, Ela como que num certo sentido se poderia dizer que se supera a Si própria.
* Plano de Napoleão para constituir, na França, um clero moderado e favorável à Revolução
Mas acontece que exatamente nessas ocasiões, os mais ardorosos tomam a dianteira, os mais fervorosos é que começam a dirigir, tudo quanto é “elemento-modorra”, tudo aquilo que constitui o que aparece tantas vezes, hoje em dia, foge nessas ocasiões; porque não são toureiros para enfrentar esse touro. Eles vão logo para a arquibancada. Mas os elementos ardorosos ficam. E a Revolução não teme nada tanto quanto a permanência, a coligação, a ação desses elementos ardorosos libertos de umas tantas peias que fora das ocasiões críticas exibem.
Eu não sei se já contei aos senhores a razão pela qual nas memórias dele, Napoleão Bonaparte explica por que é que ele restaurou os seminários franceses que estavam fechados durante a Revolução. Eu poucas vezes tenho visto uma coisa tão infernalmente lúcida. Alguém perguntava a Napoleão em Santa Helena:
— Não foi um erro reabrir os seminários?
Napoleão disse o seguinte:
— Olhe: quando eu subi para o consulado, eu verifiquei que os seminários funcionavam clandestinamente e que não havia meio, porque eram tantos, e eram de tanto jeito que não havia polícia que desse para fechá-los. Mas, com um inconveniente: é que eram só os padres mais corajosos que eram professores de seminários. E eram só os alunos mais corajosos que ficavam para estudar neles. Ia se formando, na clandestinidade, um clero briguento que ninguém conseguiria quebrar. Eu restaurei o seminário, mas exigi uma condição: que fossem nomeados professores de seminário, homens prudentes, sem ligação com as lutas do passado.
Arquibancada… Chamar o pessoal da arquibancada.
— Nasceu, daí, um clero moderado — dizia Napoleão — e esse foi um dos maiores serviços que eu prestei à França.
Os senhores estão vendo por que é que a Revolução não dá os seus últimos golpes. Os senhores estão compreendendo o que é que eles temem, e os senhores estão compreendendo qual é a arma que ainda resta para manejar.
* O maior mal que podemos fazer à Revolução é desmascará-la
Bem, passando adiante, nós poderíamos dizer o seguinte: que, nessa situação, o que a gente percebe é que a Revolução teme, mais do que tudo, aquele fenômeno que nós temos chamado de “cristalização”. Quer dizer que, o que a Revolução teme mais do que tudo é que suas teses, seu espírito, sua mentalidade sejam claramente enunciados. Ela teme, mais do que tudo, que o público seja posto diante dela como ela é, porque então as cristalizações começam a se produzir.
E por causa disto existe um modo que nós temos de combater a Revolução. E é exatamente tomá-la, denunciá-la, e denunciá-la inteiramente, descrevê-la inteiramente como ela é. Não só naquelas coisas que são explícitas nela, mas naquelas coisas que são implícitas. Porque, a partir do momento em que o povo tenha, em que a opinião católica tenha a verdadeira fisionomia da Revolução, então começam a se produzir determinadas ações, determinadas oposições que constituem para a Revolução algo de absolutamente insanável.
Os senhores considerem isso: a Revolução vem se desenrolando desde o fim da Idade Média até nossos dias. Desde esse período até hoje, ela tem empregado seu maior empenho em conservar-se secreta. Começa que ela não gosta que se diga que existe uma Revolução. “Exatamente o Protestantismo foi uma coisa que nada tem que ver com a Revolução Francesa, a qual nada tem que ver com o Comunismo; são coisas completamente distintas, não existe uma unidade de desagregação, de movimentos históricos desde o fim da Idade Média até nossos dias; pelo contrário, essas são coisas esparsas”. Ela procura ocultar a sua própria existência.
Mostrá-la, mostrar-lhe seu espírito é fazer aquilo que ela mais teme. Fazer aquilo que ela mais teme é feri-la no ponto que ela sente que é o ponto fraco. E, portanto, é isto que nós devemos querer fazer. De um modo mais preciso, o que nós devemos querer fazer para esta teoria do golpe mortal, o que nós devemos querer fazer é isto: por meio de estudos, por meio de apresentações bem feitas, desmascarar a Revolução. E desmascará-la deixando-a como um verme que se contorceu — desses vermes de debaixo da terra, que são feitos para a umidade e que são feitos para a escuridão — e que se a gente deixar sobre um papel, ou uma superfície clara, se contorcem simplesmente pelo fato de estarem ao ar livre. É isto que nós devemos fazer com o espírito da Revolução. Nós temos que defini-lo inteiro, nós temos que descrevê-lo inteiro, temos que arrancá-lo das entranhas do segredo e deixá-lo se contorcendo. E isto é o pior mal que pode haver para ele.
* Para desfechar um golpe mortal na Revolução, bastaria transformar os católicos em verdadeiros contra-revolucionários
Os senhores têm o exemplo na própria “RA1”. Por que é que a “RA” está causando o dano que está causando à Revolução? Porque a Revolução, agora, começa a aparecer aos fazendeiros atingidos nos seus interesses, ela começa a aparecer no seu verdadeiro aspecto. O caráter igualitário da Revolução, o caráter nivelador dela, os fazendeiros começam a compreender em função da “RA”. A “RA” abre os olhos dos fazendeiros para a Revolução. E é este o dano que causa. O importante para a Revolução é exatamente ela ser desmascarada.
Agora, desmascarada aos olhos de quem? Não se trata aqui tanto de a desmascarar diretamente para o grande público. Não se trata aqui tanto de desmascarar a Revolução, por exemplo, para os homens do Partido Socialista que já são revolucionários avançados; não é disso que se trata. Desmascarar, então, aos olhos de quem?
Há aqui um problema que eu apresento novamente em seus termos naturais e humanos, mostrando, entretanto, que ele não se contém inteiramente em seus termos naturais e humanos, mas é um problema que, para aquilo que representa escol no movimento de “Catolicismo” aqui reunido, pode ser mostrado e deve ser mostrado com o critério suficiente e necessário.
Os senhores imaginem o seguinte: humanamente falando, a Igreja Católica tem, mais ou menos no mundo, [quarenta milhões2] de membros. Os senhores imaginem que esses [quarenta milhões] de membros da Igreja atacassem a Revolução claramente e como tal. Os senhores imaginem que aqui em São Paulo, aqui no Brasil todo, todo mundo que é católico ficasse explicitamente contra-revolucionário. [Quarenta milhões] é uma minoria dentro do mundo, mas bastaria que todos os católicos fossem contra-revolucionários para que a face da Terra estivesse completamente transformada.
Depois, tão grande é o poder da Igreja, tão grande é a sua influência, que aquilo que se passa n’Ela tem uma certa repercussão nas seitas e religiões erradas. Isso se verificou desde o tempo do Concílio de Trento. O Concílio de Trento teve uma influência tão grande em certos elementos do Protestantismo que houve como que uma mitigação e uma moderação do Protestantismo por influência do Concílio de Trento. Quase se poderia dizer que o Protestantismo, sem deixar de ser protestante, em algumas seitas e em alguns de seus elementos, procurou acertar o passo com o Concílio de Trento, de tal maneira é poderosa a influência da Igreja Católica.
E realmente se pode dizer que é muito verdadeiro o pensamento daqueles milaneses que no tempo do reinado de Pio XI deram a ele um trono no qual estavam escritas essas palavras do Evangelho referentes a Nosso Senhor: “Venti et mare obœdiunt ei” — “os ventos e os mares obedecem a Ele”. Uma palavra do Papa tem um poder enorme. Uma palavra de uma autoridade eclesiástica tem uma repercussão colossal.
Mas eu digo mais — e isso nos interessa mais diretamente — a palavra de um católico destemido, de um católico categórico que fala com espírito de fé, que fala sabendo que fala para reproduzir, embora como discípulo, o pensamento da Santa Igreja, essa palavra tem uma repercussão enorme. E os senhores têm a prova disto num fato que se deu conosco: nós quisemos fazer essa reunião a mais discreta possível, mas não houve jornal nem televisão de São Paulo que não se preocupasse por ela. Por quê? Pelo poder e pelo peso da palavra de católicos.
Pois bem, os senhores imaginem que todos esses católicos fossem contra-revolucionários e os senhores compreendem aonde é que poderiam ir as coisas.
Quer dizer, para desmascarar a Revolução, para derrotá-la, para dar-lhe um golpe que de fato é um golpe mortal, bastaria que nós conseguíssemos fazer dos católicos, verdadeiros contra-revolucionários.
E então, a tarefa se explicita mais. É tomar a Revolução e denunciá-la em termos de sua incompatibilidade com a doutrina católica. Feita essa denúncia, provado a cada católico que a Revolução existe e que esse católico não pode deixar de ser contra-revolucionário, mobilizado cada católico contra a Revolução, nós teríamos uma rotação enorme feita nos assuntos da terra e no que diz respeito à salvação das almas. E é mais proximamente isto que se trata de fazer.
O que é mais digno de nota dentro disso é que, como sempre acontece, nossos adversários viram isso muito antes de nós.
* Sob o reinado de Luís Felipe, a vitória do liberalismo francês sobre a Santa Sé, por meio de artimanhas de Mons. Garibaldi que desmantelaram a reação católica
Eu vi, numa ocasião, há algum tempo atrás, um estudo extremamente interessante a respeito deste ponto que é uma tese para concurso na Sorbonne, se não me engano, feito por uma historiadora francesa que trabalhou diretamente com base nos arquivos do Vaticano. Essa tese era a Nunciatura de Mons. Garibaldi em Paris no tempo em que o excelente pontífice Gregório XVI reinava sobre a Igreja universal e um rei de excelentes descendentes, mas que eu não ousaria chamar um excelente rei, que era Luís Felipe, rei dos franceses reinava sobre a França. Bem, nesse tempo deu-se um fato que esse livro descreve com apoio nos documentos do Vaticano e que é tão interessante e vem tão diretamente ao nosso caso, que eu não posso deixar de narrar.
Esse Mons. Garibaldi que seria talvez parente um tanto do futuro general Garibaldi [e] que, em todo caso, fez uma obra um tanto “garibaldina” na França… Seja dito com a veneração que se deve a seu caráter de Núncio, mas a história — como diz muito bem Leão XIII quando ele abriu os arquivos do Vaticano aos historiadores — a história da Igreja é tal que não se precisa fazer toilette dela para se perceber que a Igreja é bonita; não precisa esconder as rugas, esconder as manobras porque, posta toda a verdade a nu, percebe-se o esplendor da Santa Igreja de Deus.
Bem, então a História dá, a respeito de Mons. Garibaldi, com esse recuo de cento e trinta anos mais ou menos, dá um veredictum que não é dos mais elogiosos. O que é que aconteceu com ele? Os senhores vão ver aqui o jogo apresentado em toda a sua nitidez. Mons. Garibaldi chegou lá, no momento em que Gregório XVI, Papa particularmente voltado à luta contra-revolucionária, estava em relações tensas com Luís Filipe que era rei elevado ao trono por um movimento de caráter liberal. E havia uma tensão especial, pois havia uma concordata entre a França e a Santa Sé, pela qual os bispos candidatos ao episcopado eram apresentados à Santa Sé pelo Governo francês, e a Santa Sé escolhia entre esses candidatos. Naturalmente, quando o candidato não fosse bom, a Santa Sé pedia outros. Mas isso ia rolando e o governo ficava com liberdade de manter assim durante dez anos ou mais vacante uma sede na França.
Bem, então o Governo francês, para combater Gregório XVI, começou a apresentar homens inteiramente indignos para o episcopado. Gregório XVI recusava os candidatos. O Governo francês dizia então que ia investigar para ver se arranjava outro candidato. Mas naturalmente isso levava tempo e, enquanto a coisa ia e vinha, a diocese ficava vacante, com todos os inconvenientes da vacância da diocese.
E iam morrendo os bispos e naturalmente as dioceses iam ficando vacantes em número cada vez maior. E a Igreja na França ficara cada vez mais ou menos desgovernada.
Então havia um Núncio apostólico muito combatido que foi promovido a cardeal secretário de Estado, exatamente por causa disso, e Mons. Garibaldi foi nomeado para substituir esse Cardeal. Mons. Garibaldi, homem extremamente pacífico, homem que os contemporâneos o descrevem como um homem gordo — o que não quer dizer que sejam sempre pacíficos os homens gordos, mas enfim, como um homem gordo — calmo, amigo de todas as combinações e todas as soluções.
Mons. Garibaldi tentou mitigar a situação e entrou com o Governo francês num acordo verbal que foi o seguinte: “Eu peço aos senhores interiormente…”
É pena que eu tenho que resumir muito, do contrário eu gostaria de lhes perguntar, era um teste interessante: qual é o lado inconveniente do acordo?
Mons. Garibaldi entrou com o governo num acordo verbal que era o seguinte. “Nós vamos fazer isto: o Governo não apresenta mais candidatos indignos para o episcopado, mas também não apresenta mais candidatos que tenham interesse pela política. O Governo toma apenas sacerdotes que sejam muito modestos, que não tenham interesse nenhum por problemas políticos e que se ocupem apenas com os deveres de dentro de sua igreja. Eles distribuem os sacramentos, eles dão aulas de catecismo, mantêm orfanatos e escolas e são homens que têm raiva de política e que não deixam os problemas de caráter político de nenhuma natureza entrar dentro do santuário.
O Governo de Luís Filipe aceitou a idéia esplendidamente e começaram a se apresentar para Roma uma série de candidatos dos quais Roma fazia investigação: eram candidatos dignos, bons padres, direitos, cumpridores de seus deveres. Depois das propostas horrendas feitas antes, os senhores compreendem que isso pareceu muito potável, não é? Resultado é que esses candidatos começaram a ser encaminhados em série para o episcopado.
Então, esta autora, com uma esperteza que causa surpresa, põe em foco o seguinte ponto: quando tinha terminado a Nunciatura de Mons. Garibaldi, a fisionomia do movimento católico francês tinha mudado completamente. Por quê? Porque, embora houvesse na França aquela luta tremenda entre a Revolução e a Contra-Revolução, já os bispos indicados eram infensos a isso que não tinham compreensão para o problema nem interesse por ele, que se limitavam corretamente a dar as suas instruções e a tocar a vida para frente, mais nada do que isto, e que afastavam da direção das associações religiosas, afastavam de qualquer participação de influência no movimento católico francês as pessoas que tinham compreensão para o problema Revolução e Contra-Revolução.
De maneira que então, não saiu daí um clero imoral — seria uma gravíssima injustiça dizer isso — não saiu daí um público sem piedade — seria uma gravíssima injustiça dizer isso — mas saiu um público com tapa-olhos, só vendo da vida eclesiástica aquilo que era o seguinte: ter, de manhã cedo, a igreja aberta; ter a igreja, portanto. E, portanto, a principal atividade da Igreja é construir igrejas. Bem, nessa igreja, ter uma sacristia espaçosa para atender o expediente, uma boa casa paroquial para o pároco viver convenientemente. Depois, nessa igreja, os recursos necessários para manter a limpeza, um bom curso de catecismo. A igreja abre a uma certa hora, toca o sino, as pessoas vêm receber os sacramentos, depois saem, a igreja fecha a uma certa hora, tem os seus enterros; a vida eclesiástica está perfeitamente bem. Os sacramentos são distribuídos, tudo está bem. Mas um determinado público católico que não tendo mais compreensão para o problema Revolução e Contra-Revolução, não se preocupava com mais nada; e que considerava que desde que a Igreja tivesse liberdade de existir; a partir do momento em que ela tivesse liberdade de agir um bocadinho no setor da caridade e da instrução, estava tudo feito.
Qual foi resultado? Observa bem essa autora, uma dissociação. O elemento católico como que entrou num desvio e a luta contra a Revolução, num sentido direto e num sentido expresso, não contou mais com o apoio do elemento católico. Quem é que ganhou? Foi o rei Luís Filipe, foi o liberalismo ou foi a Santa Sé, ou foi a Igreja, com a política de Mons. Garibaldi? Evidentemente quem ganhou foi o Governo francês, foi o liberalismo. Houve uma atonia que se produziu e houve um devassamento. Ora, é curioso notar que essa fórmula “Garibaldi” se internacionalizou…
Eu não seria capaz de, numa conferência dessas, me estender tanto sobre um pequeno episódio da história francesa, se não eu tivesse exatamente a impressão — colhida não só do fato de ter viajado muito pelo Brasil, mas ter viajado muito por muitos países do mundo — de que esta fórmula, depois, implicitamente foi entrando e foi sendo aceita. E que nós nos encontramos diante de um número enorme de pessoas muito dignas, de pessoas muito corretas, dignas de respeito, mas que não tendo nenhuma consciência do que seja a Revolução e a Contra-Revolução, fazem muito bem, mas estão longe de fazer todo o bem que poderiam fazer. De onde decorre que exatamente a Revolução prossegue incólume, tranqüila, atrapalhada, mas de um modo incompleto, pelos católicos.
* Efeitos de uma ação “garibaldina” no Brasil
Para os senhores verem em que sentido ela é atrapalhada e não é atrapalhada, os senhores podem ver isto. Em que sentido é ela atrapalhada? Os senhores querem ver esta ação dentro da qual tudo quanto Mons. Garibaldi ainda tem de admirável e de bom3, os senhores imaginem que o Brasil não tivesse esses elementos “garibaldizados”, os senhores imaginem o que ficaria o Brasil. Se transformaria desde logo num nó de víboras, porque a decadência moral que é grande iria rapidamente a um tal ponto que o país se desconjuntaria. Esta ação assim, portanto, pode-se dizer que é ainda o que sustenta o que no país possa haver de bom.
Mas os senhores querem ver o que isto tem de fraco? Os senhores considerem o outro lado da medalha. É um país que é, hoje em dia, segundo me disseram, eu não estou a par das estatísticas, mas o país católico de maior população católica no mundo, e os senhores vêem que este país está nas condições em que está apesar de quase todo ele ser católico. Nós somos tudo, nós enchemos tudo. Por que é que nós não transformamos tudo? À primeira vista se poderia dizer, por um raciocínio superficial: é porque há muitos maus católicos. Mas não é verdade. Porque se os bons católicos tomassem as atitudes contra-revolucionárias que devem tomar, quer dizer, que se aqueles católicos que têm uma intenção mais ou menos séria de viver de acordo com o espírito da Igreja, tomassem essa atitude, nós estaríamos numa situação profundamente diversa. Os senhores estão vendo bem, portanto, todo o bem que não é feito por causa disso.
* Para combater eficazmente os erros da Revolução, é necessário mostrar toda a envergadura da posição católica face a eles
Então, o grande problema, o problema mais profundo não consiste em tomar o liturgicismo e outros erros assim [que], para usar a expressão de Pio XII na Mistici Corporis Christi, serpeiam entre os fiéis, não é de tomar esses erros e de combatê-los só. Esse é um problema muito importante, mas não é o mais importante. É preciso a gente atender a um outro ponto: além de fazer isto, é preciso a gente ir fazendo um trabalho para mostrar toda a envergadura, toda a amplitude, toda a extensão da posição católica nesses assuntos em face da posição revolucionária. Quer dizer, isto é exatamente um modo de “contra-revolucionalizar” os católicos.
Naturalmente, muitas coisas já foram feitas nesse sentido. Nós temos muitos escritos de autores ortodoxos, ultramontanos, que têm tratado da Revolução por um aspecto ou outro, que têm feito muito bem; mas eu vou apontar aqui uns tantos pontos, umas tantas matérias, por exemplo, que deveriam ser tratadas e que não o foram e de que provêm efeitos muito inconvenientes.
* Exemplo de pontos que deveriam ter sido abordados por autores católicos: o papel das instituições na formação de um povo
Os senhores se lembram, por exemplo, daquela carta que Mons. Dell’Acqua, então substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé, escreveu ao Cardeal Motta, Arcebispo de São Paulo, em que ele dizia que o exemplo da separação da Igreja e do Estado se estendeu tão largamente pelo mundo inteiro e foi tão funesto para todo mundo que praticamente a imensa maioria dos fiéis perdeu o senso cristão da vida. O que quer dizer isto? Aqui está um dado que nos livros que comumente tratam da questão da separação da Igreja e do Estado vem tratado de um modo muito incompleto. Fala-se a respeito da separação e vem logo a tal história: “Bem, existe uma distinção entre separação e união. A separação pode ser tolerada, ela em si é má, mas pode ser tolerada; a Igreja vive bem dentro do regime da separação. E então, à base disto, como a Igreja vive bem, nós que estamos no regime da separação, nunca atacamos a separação”.
Isto se repetiu em muitos outros países onde existe a separação entre Igreja e Estado. Mas nós temos aqui um documento emanado de uma alta autoridade da Santa Sé que nos mostra que o problema não foi visto na sua integridade. E que, além da questão jurídica das relações entre a Igreja e o Estado onde talvez o mal não seja tão enormíssimo — porque é isso que se pode dizer — além desse aspecto jurídico que é o que costuma ser tratado, existe um aspecto moral, existe um aspecto espiritual.
As instituições formam ou deformam a mentalidade dos habitantes de um determinado país. E uma instituição errada deforma uma população inteira; porque a instituição é um símbolo, porque a instituição contém uma regra, ela contém um ensinamento. E uma má instituição é como um mau professor que está continuamente ensinando o mal. Resultado: como é possível formar almas de espírito intensamente sobrenatural numa atmosfera em que a separação da Igreja e do Estado é tão euforicamente aceita, tão pacificamente aceita? Compreende-se que isto não é possível, não é? É um aspecto novo para o qual se chama pouco a atenção e que um apostolado de divulgação como o nosso tem obrigação de focalizar.
* Outro exemplo: o simbolismo e sua relação com os ambientes, costumes e civilizações
Mas esse aspecto já nos leva a uma consideração mais alta; e a consideração é a seguinte: se existem símbolos que deformam tanto os homens, se as instituições devem ser vistas como símbolos, que outras coisas deformam assim os homens, o que é um símbolo, qual é o poder do símbolo na formação das almas.
Então todo problema do simbolismo que é um problema tão delicado do ponto de vista doutrinário, mas para o qual não se pode fechar os olhos, todo problema aparece, e é exatamente esta a questão de que vai tratar o Dr. Adolpho Lindenberg nas conferências que vão ser feitas nesta série. É o problema, novo para nós, do simbolismo. O que é que o símbolo faz, o que é que ele pode, qual é o papel do símbolo etc.
A sessão “Ambientes, Costumes e Civilizações” do “Catolicismo” em alguma medida já tende para isto, porque ela mostra o papel dos imponderáveis na vida de uma civilização. Ela mostra exatamente que pode haver numa determinada sociedade algo que não seja diretamente contra o sexto mandamento, mas que seja muito malfazejo para as almas. É que uma porção de ambientes habitualmente impregnados por uma influência má, são ambientes contra os quais os católicos não se premunem porque todo o problema do simbolismo se escapa da cabeça.
Eu dou um exemplo inteiramente frisante disso: os senhores imaginem a Santa Casa da Sagrada Família em Nazaré. Aquela casa que os anjos transportaram para Loreto. Os senhores imaginem essa casa no tempo em que ela estava habitada pela Sagrada Família em Nazaré. Os senhores podem imaginá-la com toda pobreza possível; eu pergunto se os senhores podem imaginá-la suja. Os senhores podem imaginar sujeira na casa de Nossa Senhora? Não há uma incompatibilidade entre a sujeira e o ambiente no qual se movia e resplendia a Virgem das virgens? Os senhores podem imaginar a casa paupérrima, mas os senhores imaginam, por exemplo, de entrar na sala e encontrar uma sandália de São José jogada desordenadamente pelo meio da sala? Quem não compreende que, por mais pobre que fosse a casa da Sagrada Família, ela era sumamente composta, sumamente ordenada na sua miséria, mas que tudo ali tinha o aspecto do decoro, da coisa arranjada, direita? Quem não compreende isto? Porque é uma coisa impossível nós imaginarmos como cenáculo de todas as virtudes, algo onde existem manifestações de desordem material, porque desordem material é ela mesma uma expressão, um símbolo de uma desordem mais profunda. Numa casa onde há uma sandália jogada no meio da sala, e depois, noutro lugar existe, por exemplo, não sei, uma garrafa trincada onde se bebe — não havia garrafas — e a xícara é toda desbeiçada quando poderia haver um pouco de jeito para arranjar melhor, quando poderia haver um pouco de arte para apresentar de um modo mais agradável, isto significa uma espécie de co-naturalidade com coisas erradas e tortas e que isto é a expressão de uma alma errada. Mas é, por sua vez, a manifestação de algo que vai tornar errada a alma, porque o homem se habitua com aquilo, ele se deixa modelar por aquilo e ele se deixa, portanto, deformar por aquilo.
Então, todo problema do símbolo na sua ligação com o ambiente, na sua ligação com a arte, todo esse problema aparece para nós compreendermos qual é papel modelador para as almas, não da sociedade espiritual apenas, notem bem isto, mas da sociedade temporal também. A sociedade temporal é feita para o bem comum espiritual e, portanto, ela deve, antes de tudo, cuidar bem das almas. Ela cuida a seu modo, mas não como a Igreja cuida. Ela cuida servindo a Igreja. Mas não só o Estado, mas toda a sociedade temporal, tudo aquilo que se move em torno de nós tem que trazer uma expressão de uma nota católica.
E infelizmente a precipitação com que eu preparei esta conferência não me permitiu que eu trouxesse aqui um texto extremamente interessante de Pio XII, em que ele dizia o seguinte: que mesmo não considerando o problema do sexto e do nono Mandamentos, a forma de um móvel pode ser católica ou não, pelo simples fato de ela traduzir uma ordem de espírito, uma ordem de mentalidade, de ela traduzir um desequilíbrio de espírito e de mentalidade.
Os senhores estão compreendendo aqui o papel, então, da sociedade temporal. E como a nós leigos a quem incumbe ordenar suficientemente a sociedade temporal, a nós leigos toca também orientar os espíritos para que esta sociedade temporal reflita assim o espírito da Igreja.
E aqui há uma coisa importante: é ligada a uma conferência que eu fiz no ano passado na Semana de Estudos, e que tem por tema o que Pio XII chama a Consecratio Mundi que ele diz que é… [ilegível] …o que vem a ser isto? Não é o espalhar, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e difundir a boa nova do Evangelho, que é a ação da hierarquia sagrada. Mas é cada leigo, no ambiente em que vive, no ambiente em que se move, como… [ilegível] …naturalmente pelo direito natural estava colocado na direção desse ambiente, um chefe de família, por exemplo, ou um dono de pensões católicas, ou qualquer outro que tem a obrigação daquilo que é o ambiente profano, um ambiente civil, introduzir ali aquela impregnação do espírito da Igreja.
O que não se faz apenas com um compendiozinho de direito natural desses que circulam por aí, mas se faz compreendendo essa vida quente, essa vida rica de símbolos que é um verdadeiro mar, mas que tem a seguinte importância concreta: os senhores ensinam às almas mil doutrinas, os senhores persuadem as almas de mil verdades, mas elas depois passam para ambientes temporais em que a arte, em que os ambientes e costumes e a civilização estão impregnados de outro espírito, e os senhores têm aquilo que D. Mayer me disse que ia falar ontem à noite e provavelmente falou com a autoridade que lhe é costumeira, os senhores têm aquilo que é espantoso: as pessoas recitam o Credo, as pessoas crêem no que a Igreja ensina, mas quando a gente vai ver como é que a mentalidade delas está modelada, não está modelada pelos ensinamentos que receberam. Porque mil influências da sociedade civil, grande número delas impregnadas pelo assunto “simbolismo”, mil influências dessa natureza existem e se manifestam de maneira a deformar as almas.
* Importância de restaurar a idéia de ordem universal nas pessoas para combater o espírito revolucionário
Outra coisa — eu agora passo aqui de um dado para outro dado — que é extremamente importante, é o problema da ordem universal.
Nós vivemos num mundo de caos. Num mundo que eu exprimi outro dia, numa reunião que eu fiz com rapazes da Martim e depois com amigos da Vieira de Carvalho, poderia ser representado como uma espécie de teatro louco. Os senhores imaginem um teatro no qual todas as regras de acústica estivessem impraticadas e então tem uma orquestra que está tocando; logo na primeira fileira as pessoas dormem dizendo que a orquestra toca tão [baixo4] que não conseguem ouvir o que ela está tocando. Depois mais em cima tem um camarote em que todo mundo aplaude porque está gostando muito. E na galeria há gente que põe as mãos no ouvido porque a orquestra toca tão forte que não conseguem ouvir. Os senhores estão compreendendo o paradoxo. Como é que perto não se ouve e longe se ouve? Do outro lado há gente que joga ovos na orquestra porque a detesta. Mas, nota predominante, tem gente que acha que o concerto está transcorrendo naturalmente. Os que dormem não acham extravagante que na primeira fila não se ouça; mais ainda, quando acordam e percebem que lá em cima está tocando forte demais, também não estranham, e assim ninguém estranha nada, todo mundo faz as loucuras que quer.
O perigo… Nós estamos positivamente num mundo louco. Os senhores tomem, por exemplo, uma questão entre mil outras — e eu poderia mostrar outras mais interessantes — os boatos que se espalham, a respeito da orientação do próximo presidente da República. Ele mesmo… Não votei nele nem contra ele. Os senhores já estão vendo em quem eu votei, não é? Minha cédula tinha este aspecto… Ela era menor, mas havia escrito isto nela… Bem, ele mesmo figuraria bem como ator neste teatro, igualado ou talvez excedido por quem o antecedeu.
Bem, enfim, tomemos a coisa. Os boatos que correm a respeito do que ele vai fazer, todo mundo está esperançado. A extrema esquerda diz que o homem “é do barulho”; o centro diz que não: “ele agora é um conservador que quer pôr tudo no lugar”; há gente da direita que diz que ele agora vai dar uma brecada, uma marcha à ré que ninguém sabe o que vai sair. Cada um vê o homem esperançoso. Vêem nele coisas diversas. E acham natural que o outro esteja esperançado e o nosso homem fica recebendo as palmas…
Bem, todo mundo acha isso natural e ele acaba achando também. É o caos do mundo contemporâneo! E um caos que todo mundo vai achando normal e aqui é que está o caos do caos. É que todo mundo vai achando isto normal.
Ora, restaurar esta idéia de ordem universal, restaurar esta idéia de que todo universo se rege por grandes princípios, conhecer os princípios que regem o universo, compreender que esses princípios se aplicam à parte mais nobre do universo, que é exatamente o homem; compreender que a sociedade humana é ela toda suscetível de uma ação sublimíssima, que ela foi criada por essa ordenação sublimíssima: ter um ideal de ordem que não é apenas um ideal regulamentar de ordem: sinal verde, azul e amarelo, um homem que apita e faz parar os automóveis, e isso é o ideal dos socialistas; não é isto não; mas é compreender que há princípios superiores de ordem que orientam toda a vida e que devem ser compreendidos no seu mais alto sentido, princípios metafísicos de ordem que inspiram a política, a sociologia, a arte, todas as manifestações da vida. Compreender isto e ter a nostalgia da ordem, ter fome e sede dessa ordem, porque isto é propriamente a fome e sede de justiça, que é uma bem-aventurança, isto é um tesouro enorme para as almas.
E é aqui outro filão enorme onde a Revolução tem que ser caracterizada e tem que ser apontada.
* O Sr. Dr. Plinio anuncia uma série de conferências sobre: os anjos, o amor a Deus e o sentido da vida do homem
Vai haver uma conferência5 a cargo do Prof. Arnaldo Xavier da Silveira que toca a questão de um modo muito direto e muito interessante, porque toca. E nós com isso subimos para além das nuvens, mas quando a gente quer encontrar a realidade deve procurar a realidade no seu vértice. E o vértice da realidade está no céu. Então, o Prof. Arnaldo Xavier da Silveira vai dar uma conferência6 a respeito dos anjos, mostrando qual é a ordenação altíssima que existe no mundo angélico e deduzindo daí princípios que podem servir para esclarecer os próprios problemas humanos. A base que ele vai tomar para isto é o “Tratado dos anjos” de Santo Tomás de Aquino. Tratado nem sempre bem visto pelos tradutores e introdutores etc.
Eu me lembro que na coleção B.A.C. eu vi um prefaciozinho assim: “Essa é uma obra toda hipotética de Santo Tomás de Aquino, mas ela representa o gênio do santo”. Não é isso, não. Santo Tomás não é um poeta de tocar cítara. Dante é uma coisa, Santo Tomás é outra… Eu respeito Dante, venero muito mais a Santo Tomás.
E aí se trata de uma coisa com base em dados da Revelação, mas sobretudo, da reconstituição da mais alta das ordens instituídas por Deus Nosso Senhor para que depois [se] faça a compreensão do princípio de ordem que deve reger o universo.
Há uma outra conferência que trata propriamente de outro ponto, e isto me faz lembrar de uma conferência7 e uma conversa que eu tive com o nosso caríssimo Frei Jerônimo. Nós conversávamos a respeito de que se poderia dizer que o primeiro Mandamento é o mais desconhecido de todos os Mandamentos, e que se poderia até escrever assim — como [Carrel?] escreveu um livro um tanto envelhecido, com o título “O homem, este desconhecido” — poder-se-ia também escrever um outro livro com o título “O primeiro Mandamento, este Mandamento desconhecido”. Quando as pessoas fazem um exame de consciência, as pessoas se examinam, em geral, sobre todos os Mandamentos, exceto o primeiro.
Eu digo o comum dos homens. Porque quase não sabem como examinar o primeiro [Mandamento]. Como é amar a Deus? Amo a Deus… A gente tem uns escrúpulos que parece que eu quero mais bem a meu pai, a minha mãe do que a Deus. Como é bem isto? O confessor tranqüiliza muito bem; explica que se trata de um amor insensível; a gente compreende bem isto; mas vá a gente acompanhar agora esse amor insensível para saber como está. Como é que se entra neste empíreo para saber, como se penetra assim nas profundidades incógnitas de nossa personalidade? Ninguém sabe… zero… interrogação…
Para nós do comum, para nós que somos a platéia. Uma conferência8 sobre o amor de Deus, sobre o papel que têm no amor de Deus todas as coisas que nos cercam, como é que nós podemos nos servir de todas as criaturas para chegar ao amor de Deus, não apenas na medida em que devemos nos afastar delas, porque não é só disso que se trata. Mas é precisamente também disso se trata. Bem, e dessas criaturas todas a mais nobre, a mais excelsa, a mais esplêndida, a maior maravilha do universo perto da qual todos os panoramas são zero, todas as grandezas são zero, todas as belezas são zero, que é esta instituição divina e sobrenatural que é a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, forma e fonte de inspiração e elemento para nós estarmos sempre considerando a Deus, para nós estarmos sempre louvando a Deus. Como, de tudo isso, se chega até o amor de Deus? Esta é uma conferência9 que vai ficar a cargo do conferencista Prof. Paulo Corrêa de Brito Filho.
Os senhores vão, no meio de conferências tão agradáveis, ingerir uma desagradável. Essa conferência vai tratar do que nós poderíamos chamar o sentido da vida do homem. Como é que propriamente se desenvolve o homem ao longo de toda sua existência; o que é o desenvolver da personalidade humana; o que é a formação da mentalidade humana; como é que essa mentalidade humana vai se aproveitando de todos os elementos para se enriquecer e se formar e, em última análise, qual é o termo, vamos dizer, a que Deus destina cada pessoa humana. Depois, quais são as regras, qual é o modo pelo qual Deus vai governando a História, suscitando a variedade das pessoas humanas e, depois, a compreensão do que é a unidade e variedade dessa verdadeira maravilha da harmonia que é o universo das almas, as que existem em cada época na terra e depois essas almas quando estiverem conduzidas para o Céu e quando elas constituírem um conjunto para louvar a Deus. E os senhores terão aí o sentido da vida humana. Daquilo que um tanto impropriamente nós chamamos o processo humano, e que vai ser feita por mim.
Bem, essas três conferências correspondem aos trabalhos de uma comissão que se tem dedicado muito a isso e que é composta exatamente por esses conferencistas. Nós adotamos um método de estudo que é um pouco sui generis, porque consiste em ler pouco — um dos nossos pressupostos, desta primeira fase, bem entendido, é a homeopatia em matéria de leitura — e a discutir, a conversar e a submeter regularmente as nossas apreciações ao alto juízo de D. Mayer, à consulta a Frei Jerônimo, a D. Sigaud, a um ou outro para que tudo isto se dê, no tremedal dos problemas, dentro daquele rigor de ortodoxia que é evidentemente o nosso ideal.
Eu devo acrescentar, a respeito disso, que muitas vezes os problemas que aparecem são tão novos e tão variados que os termos nos faltam e que nós adotamos termos um tanto esdrúxulos, à falta de melhores. E que é preciso, portanto, compreender esses termos que são tomados, entre aspas. Mas com a compreensão, de nossa parte, que não há nada de mais importante do que ser correto no emprego dos termos e que, normalmente, é preciso acabar encontrando os termos e as fórmulas exatas para os pensamentos exatos.
Trata-se aqui, portanto, de uma espécie de elaboração inicial, uma espécie de trabalho inicial ao qual nós associamos os senhores nessas conferências da Semana de Estudos.
Eu vejo diante de mim alguns médicos e uma associação de imagens entre médicos e termos me lembra as discussões — as discussões não — as confabulações que eu tenho ouvido à cabeceira de meu pobre pai nesses dias. Como eu tenho o hábito de fazer ambientes, costumes e civilizações até sem querer, enquanto os médicos confabulam, eu vou prestando atenção na linguagem deles já que não posso entendê-los nem os quero entender porque escapa à minha compreensão e porque não é essa a minha missão: compreender todos os mistérios da ciência médica que se desdobram à cabeceira de um doente…
[Até aqui foi gravada esta conferência]
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1 ) Deve ser referência ao livro “Reforma Agrária, questão de consciência”.
2 ) No microfilme vinha indicado o número “4.000.000.000”.
3 ) Esta frase, no microfilme, estava assim: “Os senhores querem ver esta ação dentro da qual Mons. Garibaldi tudo quanto ainda tem de admirável e de bom”.
4 ) No microfilme está escrito “devagar”, mas não se encaixa no sentido geral do pensamento do Sr. Dr. Plinio.
5 ) No microfilme está escrito “confusão”, mas não faz sentido no contexto.
6 ) Idem.
7 ) Ibidem.
8 ) No microfilme está escrito “confissão”, mas não faz sentido no contexto.
9 ) No microfilme está escrito “confissão”, mas não faz sentido no contexto.