+
Reunião
do MNF – 20.8.60 – Página
IHS
Advertência
Tipo de reunião: Reunião do MNF
Data da reunião: 20.8.60 – Sábado
Local da reunião:
Este texto é anotação integral do que disse Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, tendo sido feita por Oilsson Gugelmin em Setembro/2004 a partir da fita MB 120.
* * *
Reunião do MNF – 20.8.60 – Sábado
O caminhar da Sabedoria ao longo dos séculos * Poder-se-ia fazer uma história da decadência da Sabedoria mais ou menos como a história das três Revoluções
[Voz de Dr. Camargo: "estes sinais foram gravados na madrugada do dia 20 de agosto de 1960 de 2h08m a 2h23m.
[...] tem casinha bonitinha, bem arranjadinha, tem tudo o mais, tem economiasinhas, feriasinhas, e acabou-se. E todo mundo é muito solidário com todo mundo para que esta máquina ante bem. É uma forma de não querer tomar conhecimento da sabedoria.
Para um indivíduo construído assim, também o sábio é um cretino. Porque ele se isola desses prazeres, ele entra para uma outra esfera de idéias.
No comunismo já não se pode... o comunismo é um caso um pouco parecido com o nazismo, é mais o caso de uma falsa sabedoria que a de uma carência completa de sabedoria..
Haveria uma fórmula brasileira, algum pecado especificamente brasileiro contra sabedoria?
É preciso dizer o seguinte. Há duas espécies de brasileiros: há o brasileiro "junqueiroso", e este exatamente como não tem ciência nem intelectus, não pode ter sabedoria. Para ele, viver é como um bicho, e gozar do prazer do campo.
Mas há também a forma do brasileiro inerte, do caipira que não é o vaqueiro, que não é o boiadeiro, mas é o agricultor miúdo, inerte, morando na porta de sua choupana, aquele tipo de agricultor que o Almeida Júnior pintou naquele famoso quadro picando fumo, um caipira sentado. É o caipira do tal "vida marvada não adianta fazer nada" etc.
Na aparência esse homem tem uma sabedoria porque a gente tem impressão de que ele pensa. E se ele tivesse, todo o resto lhe poderia ser perdoado. Mas a questão é que ele não tem. Nestas horas em que ele está assim, ele nem sequer propriamente divaga, mas ele está na inércia completa. Completa. É um erro pensar, conmstruir o seguinte quadro: uma tarde muito calma, na orla de um mato muito profundo, passa um regato muito bonito, e o caipira sentado ali terminada a faina do dia, com o seu foguinho aceso, está com um cigarro, fumando. Aquela fumacinha é a única coisa que se move ali. Os olhos intensos do caipira dão a impressão de que ele está sorvendo todo significado daquelas coisas e que seu pensamento se ergue solitário no panorama espiritual daquilo como se ergue solitária aquela fumaça cujas espirais seriam o ritmo do seu pensamento subindo para o infinito.
Errado. Ele não pensa em nada. O Paulinho diz bem, ele cisma. E cismar é pensar em ninharia, em batagela a respeito de absolutamente nada. Este é um pecado contra sabedoria.
Dados estes elementos a respeito de sabedoria, originou-se uma conversa em que o Adolphinho começou por dizer que ele sugeria que sempre que fosse dada uma dessas virtudes, houvesse cuidado em especificar bem as formas incompletas dessa virtude. Depois, as situações psicológicas em que essa virtude seria inteiramente inexistente, e depois por fim, a situações que se possuía o contrário dessa virtude.
Sendo preciso frisar a distinção entre a inexistência da virtude e a existencia do contrário dela porque pode uma pessoa não ter um pingo de sabedoria e pode uma pessoa ter uma falsa sabedoria. E portanto são coisas diversas.
Em seguida o próprio Adolphinho fez outra observação que é a seguinte: nesta numeração de virtudes intelectuais, intelectus, ciência, sabedoria, prudência, arte, à medida que se passando de uma virtude para outra, o papel da vontade vai se acentuando. De maneira que menos profundo no intelectus, esse papel já é pelo menos mais palpável na ciência, mais ainda na prudência e mais ainda na arte.
Aceita esta observação, o Paulinho fez notar que na Idade Média havia saúde mental suficiente para que os sistemas filosóficos do tipo do cartesianismo ou sobretudo do idealismo alemão, nem sequer fossem aceitos, nem sequer examinados seriamente.
Eu me lembro que acrescentei até que talvez muitos filósofos nem entendessem bem aquilo.
E não entendessem pela grande saúde que os impelia [impedia?] de entrar em sistemas construídos sobre o absurdo, sobre uma ordem de coisas irreal. Mais ou menos como uma pessoa que tem uma vista muito boa nem podem envesgar a pedido de outros. Um que tenha uma vista meio ruim, pode envesgar para dividir um auditório, por exemplo.
Uma pessoa muito sã, mesmo hoje em dia, teria dificuldade em entrar dentro da apreciação destes sistemas. E a este propósito então, eu tive ocasião de fazer notar que havia profundezas de virtude e de defeito possíveis na alma humana em que nas épocas sãs a pessoa nem saberia chegar. Não é dizer que na Idade Média a pessoas simpelsmente não entendesse as virtudes contrárias ao intelectus, digamos, mas se a pessoa quisesse perder as virtudes contrárias ao intelectus nem lhe seria dado perder porque a corrupção não teria chegado nela até este ponto.
A contrário sensu, também, é só com um auxílio especial da graça que justifica tudo quanto nós temos dito a respeito de oração, que a pessoa é capaz de, estando trincada no intelectus, regenerar-se neste ponto. Porque são profundezas da alma, em que a vontade humana chega bissextamente, com um esforço formidável. E que é preciso o auxilio da graça para pessoas se regenerar.
Como, em sentido contrário, seria preciso um auxílio do demônio para a vontade, num homem são, atingir essas profundidades. Uma tentação poderia levar o homem até estas profundidades de si mesmo.
Desta consideração passou-se para outra. Lembramos que na Idade Média havia uma saúde intelectual muito grande, que impedia praticamente de chegar a tais extremos do vício, chegou-se à verificação que foi preciso a arte real para que o homem chegasse a esta situação.
Mas que, o ponto de transição na própria Idade Média, foi o século XV, em que os homens tendo perdido o amor do absoluto, não se incomodavam mais, em matéria de idéia, em saber propriamente qual era a verdade, mas fazer daquilo um exercício intelectual em que a vaidade de pensar e a vaidade de dizer coisas requintadas os inebriava.
Então, a partir deste momento, as virtudes intelectuais começaram a cair. E a partir do momento em que as virtudes intelectuais começaram a cair, começou a transformar-se completamente a filosofia escolástica, e a decair. Daí a decadência do mundo.
A este propósito, para mostrar bem como essas coisas se passam, nós evocamos aqui a cena de uma sustentação da tese numa universidade medieval: sala magnífica, do ponto de vista da arte real muito impressionante, muito grave, muito séria, muito solene e, possivelmente tendo ao centro um crucifixo. Nesta sala entra todo mundo e começa-se a rezar. Dedica-se a sessão a Nossa Senhora. Começa o jogo, são pessoas que começam a tratar de coisas vaidosas. Terminado o negócio, um deles sai e vai agradecer a Nossa Senhora na capela pelo fato de ter-se saído bem em seu exercício de vaidade. E ainda reza ao Santíssimo Sacramento.
Ele pensa que possui o primeiro Mandamento, do amor de Deus, mas de fato ele não pratica mais este primeiro Mandamento porque perdeu a procura do absoluto.
A gente tirando a doutrina da procura do absoluto, a prática do primeiro Mandamento fica incompreensível.
Mas daí nós passamos ao conceito a respeito da história da filosofia. E esse conceito sobre a história da filosofia é o seguinte: a verdadeira história da filosofia consistiria em estudar a história das virtudes intelectuais, na medida em que elas se refletem nos sistemas de pensamento. De tal maneira que nós pudéssemos ver o aumento ou declínio dessas virtudes no maior ou menor teor de verdade que os sistemas filosófica conteriam em si.
Então, com a plenitude das virtudes intelectuais e escolásticas. Poder-se-ia fazer a história da antiguidade, de Sócrates, de Platão, de Aristóteles, da gnose, com base nisso, como se poderia fazer a história da decadência da civilização atual através dos autores do século XV, depois Décartes, depois os alemães até nossos dias.
E poderíamos então fazer uma verdadeira história das três Revoluções, lembrou o Arnaldo, feita com base nesse ponto. Passamos agora então para outra coisa: é a apresentação da estradas três revoluções no campo ideológico. Arnaldo lembrou muito bem uma certa fase em que a humanidade tinha a sabedoria, ciência e intelectus. Seria a Idade Média.
Com o século XV abrem-se os tempos modernos do pensamento e vem a primeira Revolução. A sabedoria é eliminada mas a humanidade continua a possuir a ciência e o intelectus.
Depois disso vem os tempos contemporâneos, até a Belle Époque, em que a humanidade ainda possui o intelectus. E já não possui ciência.
E por fim vem o mundo futuro em nem o intelectus mais o homem possui.
Seriam, portanto, as três Revoluções dentro deste campo.
Esta consideração levou-nos a mostrar que de fato -- e aqui já vem outro ponto -- esta história das três Revoluções é verdadeira com a cronologia dada pelo Arnaldo no que diz respeito às sociedades. Os escritores de livros de fato andaram mais depressa, embora com eles também se justifique este modo de ver as três Revoluções. Mas numa cronologia diferente.
Então daí nasceu a distinção de uma história da filosofia estudada em função da sociedade enquanto filosofante e uma história da filosofia estudada nos livros de filosofia e nas condições dos filósofos.
Agora passamos para outro ponto: o Adolphino fez sentir aqui a distinção entre as igrejolas e a massa. Sendo que a massa e as igrejolas se distinguem e as igrejolas representam a coisa mais superficial do que a massa.
E agora resumindo coisas ditas pelo Paulinho, pelo Adolphinho, pelo Arnaldo e por mim, nós poderíamos dizer o seguinte: que a sociedade vive de um determinado corpo de tradições. Estas tradições recebem como uma espécie de enxerto que tende a deitar raiz nelas, as coisas que as forças secretas da Anônima resolvem colocar. Estas coisas são postas pela sociedade, pela Anônima e lentamente criando raízes na superfície do espírito da sociedade. As vezes raízes mais profundas, as vezes menos, conforme o grupo social, conforme a época, conforme as circunstâncias mas sempre fica um certo substratum capaz de despertar em sentido contrário num toque violento. Da arte real.
Exemplo: a visita da rainha da Inglaterra a Portugal e à França. Oceanos de arte real, mas um certo fundo que de repente se desperta quando tocado num determinado ponto.
Esta consideração levou a um outro que é uma regeneração dos conceitos de pastoral, pelo menos enquanto difusão de idéias, fazendo ver que a pastoral deveria tomar estas coisas em consideração para compreender como é que as idéias se desenvolvem ao calor das virtudes intelectuais. E portanto também saber fazer a refutação das idéias, corrigindo num ambiente as virtudes intelectuais que ao ambiente faltam. Não apenas uma pura refutação de idéias mas uma refutação do ambiente intelectual.
Faltava uma ultima coisa, ao menos pelo que me lembre, que era a distinção entre ...
A. R. M.