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Reunião Normal ─ ?/5/59(1) ─ 6ª feira

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A decadência da Idade Média teve como efeito uma transformação da mentalidade * O primeiro período da História da Europa: A época das lutas para a constituição da Cristandade * Segundo período da História da Europa: Após o triunfo da Cristandade, os católicos começam a afrouxar o cinto * A decadencia da Idade Média através da sensualidade e o contínuo afastamento da Cruz e do sacrifício * “Quem quiser viver sem preocupações dentro da virtude já abandonou a virtude e está vivendo fora dela” * O princípio da onipotência da intolerância ─ A vitória dos maus se dá pela moleza dos bons * Por causa do fracasso de alguma “família de almas” houve toda a decadência da Idade Média ─ O pecado imenso * “A nossa posição é a interpretação da História por meio de princípios puramente espiritualistas”

* A decadência da Idade Média teve como efeito uma transformação da mentalidade

O primeiro parágrafo diz respeito a uma crise de mentalidade. É uma crise de mentalidade ocasionada pela sensualidade; é um clima moral ocasionado pela sensualidade. A segunda parte é ocasionada pelo orgulho. Os efeitos da sensualidade descritos dessa maneira:

No século XIV começa a se observar, na Europa cristã, uma transformação de mentalidade que ao longo do século XV, cresce cada vez mais em nitidez.

Peço para observar que a palavra mentalidade foi posta muito de propósito. Não falei de doutrina, porque a doutrina não é a mesma coisa que mentalidade. Não é isso que quero falar, mas exatamente me refiro a um estado de espírito, a uma mentalidade.

Então, “uma transformação de mentalidade que cresce em nitidez”. Notem bem o que vai aí afirmado: essa mentalidade nasce de um modo confuso mas, à medida que cresce, vai se tornando mais nítida.

Essas transformações de mentalidade passam assim por um progresso de nitidez. E é essa uma das regras da processividade.

Quais são os elementos dessa mentalidade?

1) Apetite de prazeres terrenos. Esse apetite vai se transformando numa ânsia. Notem que é um apetite consentido, que cresce por uma ânsia; e as manifestações da ânsia são mais nítidas do que as do simples apetite.

2) Freqüência das diversões, que vão se tornando mais freqüentes, mais suntuosas, mais complicadas. Isto se espraia nos trajes, nas maneiras, na linguagem, na literatura, na arte, em uma vida cheia de deleites e fantasias dos sentidos.

Um pouco mais adiante falamos de sensualidade e moleza, depois de perecimento da austeridade e seriedade. Depois a mania de tornar tudo risonho, gracioso e festivo. Depois os corações se desprendem gradualmente do amor ao sacrifício, a cavalaria se torna amorosa, a literatura se influência com isto, entra o excesso de luxo e avidez de lucro. Quer dizer, tudo isto caracteriza uma doutrina, isto é, uma mentalidade. A doutrina vem depois.

Na parte B, depois de empregar a palavra mentalidade, eu falo em clima moral. Mentalidade e clima moral são coisas muito afins que quase se completam. Entra agora não mais a sensualidade mas a vaidade: é o orgulho. E o orgulho penetra mais diretamente no campo dos princípios, da doutrina. Então, temos disputas aparatosas e vazias; exibições fátuas de erudição; velhas tendências filosóficas que renascem. Isto são doutrinas de caráter filosófico e religioso. Embaixo vem logo uma doutrina política: é o absolutismo que entra.

O absolutismo é muito ligado ao orgulho por que é a vaidade daqueles legistas de conhecerem o Direito Romano, estar ao par das coisas de Roma e querer imitá-las, mas é também a vaidade dos reis, que queriam ser monarcas absolutos, dominar, etc.

Concomitantemente, a extinção, no povo, daquela fibra de resistência de outrora.

(Sr. –: [Inaudível].)

A História só pode cogitar dos fatos na medida em que eles se exteriorizam. Pode-se dizer que a Revolução, enquanto fato interno, começou a produzir efeitos externos, no século XV, pelos excessos do desequilíbrio que se começa a notar nos vários domínios. Portanto há uma espécie de Revolução A meio desacompanhada da B e primordial nessa ocasião.

Vou tratar agora do ponto de transição entre a era em que não havia Revolução e a era em que a Revolução começou, como se fez essa passagem e qual foi o primeiro primórdio da Revolução.

* O primeiro período da História da Europa: A época das lutas para a constituição da Cristandade

Poderíamos dizer que quem quisesse fazer uma História da Europa, tomada debaixo de um certo ângulo, poderia dividi-la em dois períodos: haveria um período em que a Europa ─ tomando-a no sentido em que a empregamos, isto é, uma mescla de povos latinos e germânicos batizados e cristianizados ─ viveu num aperto medonho, e a sua sobrevivência muito duvidosa ameaçada por inimigos de toda ordem.

Depois houve um segundo período em que a Europa se firmou. Derrotou esses adversários e a partir desse momento começa então uma expansão que tem o seu apogeu no século XIX e o domínio de quase todo o mundo pelo colonialismo europeu.

Por exemplo, podemos nos reportar à Europa de Carlos Magno, ou logo depois dele, no século IX. Nesse tempo, qual era a situação da Europa? Os árabes dominando a Espanha e constituindo um perigo permanente para Carlos Magno, do lado dos Pirineus. Os árabes sarracenos praticando invasões no sul da França, Itália, etc. Portanto, pondo todo o litoral mediterrâneo do império de Carlos Magno a ferro e fogo.

Do lado da Alemanha, os germanos constituindo um perigo permanente, e ainda vindos pelo mar, os normandos que chegaram a atravessar a França fluvial, depois de entrar pelos rios que dão no Mediterrâneo, chegar até a Sicília e Constantinopla, onde queimaram parte da cidade. Os famosos leões de São Marcos, que eram de Bizâncio e que foram levados para Veneza, há inscrições no focinho dos leões. Há inscrições que foram indecifráveis, até que se conheceram os caracteres normandos. Os normandos, chegando a Constantinopla, marcaram injúrias nos dentes dos leões.

Vê-se, portanto, qual era o perigo normando. Carlos Magno que nos parece um homem que reinou na paz do seu poder, pelo contrário, teve uma vida repleta de aventuras. Esse destino de aventuras para a Europa durou mais ou menos até o século XIII.

* Segundo período da História da Europa: Após o triunfo da Cristandade, os católicos começam a afrouxar o cinto

Aí podemos dizer que a Europa é vitoriosa. Mas vitoriosa em que sentido? Em primeiro lugar os árabes não foram expulsos da Espanha, mas sua influência é nitidamente decadente e já se percebe que eles vão conseguir vencer.

De outro lado os árabes também estão decadentes em toda a costa do Mediterrâneo, e essa decadência é tal que no século XV, os turcos vão abocanhar rapidamente os árabes. De outro lado, os germanos estão completamente convertidos, os húngaros que constituíam grande perigo estão convertidos também, os prussianos, lituanos, etc., que também constituíam um perigo e contra os quais haviam combatido os cavaleiros da Ordem Teutônica estão meio convertidos também; os normandos desapareceram do mapa, confundiram-se com outros povos, entraram na Inglaterra, já não são perigo. A Europa tem uma uma sensação de que está dominando completamente a situação.

Então começa a aparecer na Europa uma situação que é a chamada atmosfera imperial da Idade Média. Outros chamam a atmosfera triunfal da Idade Média. É a sensação de que a Europa está triunfando, Jesus Cristo começa a ser apresentado nas catedrais não apenas como um mártir crucificado e sofredor, mas como o um Rei cheio de glória.

Na Liturgia começa a entrar a afirmação do triunfo de Jesus Cristo por todos os séculos, no mundo. Mas por detrás da idéia do triunfo de Jesus Cristo, entrava a idéia, muito justificada, do triunfo dos cristãos. Por detrás da idéia do triunfo dos cristãos entrava a idéia de que para todo o sempre o poder de Jesus Cristo estava formado na terra; o mais glorioso e mais civilizado dos continentes era cristão. Tinha-se aberto um reino de paz na terra e as promessas do Evangelho iam ser realizadas e o triunfo da Cristandade.

Ora, acontece que nesta transição que vem, e que era muito pujante, as pessoas da Idade Média sentiam muito bem no que é que isso ia dar e o triunfo que teriam, não nos esqueçamos que depois disso veio a queda de Granada, a descoberta da América e seu povoamento, vem a formação do Império Português Colonial e a Europa começa a dominar o Oriente. Temos, no século XIX a formação dos imensos impérios coloniais europeus. Estava-se, então na aurora de uma era de prodigiosa expansão da Europa. Os europeus desse tempo sentem isso e a atmosfera era de grande esperança, de grande expectativa, de grande alegria.

Ora, acontece que um movimento ─ ainda mal estudado ─ tinha feito com que aparecesse no começo da Idade Média muitos santos como apareceu após aquele patriciado romano e aquela efervescência bárbara, no tempo de Clóvis, uma Santa Clotilde, um São Remy, um São Gastão, um São Gregório de Tours e tantos outros santos ao mesmo tempo, que foram ponto de partida para a conversão da Idade Média? Isto é algo mal estudado, mas deve ter havido no fundo disso uma família de almas e uma espécie de ciclo de santidade que fundou a Idade Média.

Esse ciclo de santidade se desenvolveu sob o ciclo da luta: era a Igreja perseguida, ameaçada, cada homem era obrigado a lutar contra o inimigo externo e também contra a heresia, inimigo interno, depois lutavam uns contra os outros pelo hábito daquelas guerras bárbaras feudais, ainda muito próximo, enfim, todo mundo levava uma vida duríssima.

Ora, ao mesmo tempo que se delineia esse triunfo europeu, os costumes vão se mitigando, as guerras privadas vão se tornando menos numerosas, vai começando uma espécie de doçura e alívio em tudo. Nesse tempo, então começam os católicos a desapertar o cinto. E é propriamente nessa descompressão que se começa a ver um fenômeno legítimo que se dá.

Deve-se notar que esse fenômeno aparece ainda como legítimo. Os medievais começam a organizar uma vida dentro da qual o prazer tem um certo papel. Começa-se, na vida social, a fazer festas mais numerosas, mais brilhantes, as canções populares tornam-se mais alegres e joviais, não apenas guerreiras, a arte começa a produzir coisa mais risonhas, etc. E isto enormemente porque dentro da vida essas coisas têm um papel. Essa suavização dos costumes segue-se mais ou menos até os séculos XIII e XIV. Depois disso surgem fenômenos mais complexos e começa a decadência. E começa por quê?

* Três princípios básicos para se fazer o julgamento de um problema social

Podemos fazer o histórico disso bem analisado se nos reportarmos ao esquema que eu fiz aqui e que parte de três princípios:

1) Nada de extremo, quer no sentido do bem quer no sentido do mal, se faz de repente. Ora, depois desse passo que descrevemos, a Europa se despenha numa crise gravíssima que não pode ter aparecido de repente. Ela tem que ter tido seus primórdios muito discretos, antes dela se tornar tão grave. E por quê? Por que isto é um princípio de vida espiritual.

2) Temos o direito de aplicar nos problemas de vida espiritual dos povos, os mesmos princípios que se aplicam à vida espiritual dos indivíduos. Poderíamos falar para um povo coletivamente em paixões, em livre arbítrio, em ascese, nas três vias da vida espiritual, purgativa, iluminativa e até mesmo unitiva. Portanto, temos o direito de fazer uma análise histórica, baseados nos princípios de vida espiritual aplicados ao povo.

3) A História é um método bom para sabermos quando uma coisa está bem definida ou não, é a gente aplicar a cifra àquela coisa enigmática. Se a cifra dá um sentido a tudo, quer dizer que aquilo está realmente decifrado. Ora, com os princípios da vida espiritual construímos uma hipótese a respeito dessa queda da Idade Média, depois veremos se essa hipótese explica os fatos.

* Há no processo de conversão um fator desfavorável que faz com que o indivíduo perca certas qualidades naturais que tem

Deixando a Idade Média um momento, vou tratar de um problema da vida espiritual num homem. Por isto devemos lembrar que cada condição de vida tem algo que pelo menos acidentalmente favorece o bem e também dá ocasião ao mal. Reciprocamente, as melhores condições de vida têm alguma coisa que também dão ocasião ao mal.

Por exemplo, um apache. Ele tem condições de vida péssimas. Ele é um homem que faz o mal por definição. Mas a vida do apache dá oportunidade de praticar alguma coisa, como a coragem, por exemplo. Embora não sendo virtude tem algum aspecto de virtude enquanto praticada pelo apache. Pelo contrário, tomando a mais santa das vidas, a de um religioso em estado de santidade, sabemos que mesmo essa vida dá certas ocasiões ao mal.

Este é o primeiro princípio. O segundo nem é preciso enunciar, pois é evidente: solidariedade de todas as virtudes e de todos os vícios. Quando uma pessoa progride numa virtude, progride em todas, quando progride num vício, progride em todos.

Isto posto, vou imaginar três histórias da regeneração de um bandido.

1) Um gangster americano que, como gangster é o que quiserem, mas ele tem um certo amor pelo risco, pela luta e pelo futuro incerto. Ao lado disso ele tem certa “varonilidade”. Entre aspas porque não é uma varonilidade verdadeira. Ao lado disso ele pode ter uma certa generosidade. No fim, um bandido pode até ter uma certa piedade. Por exemplo, François Villon e sua balada a Nossa Senhora, Bocage também. Eu não quero dizer que isto seja verdadeira piedade, mas há algum quê de piedade nessa atitude e até de elegância moral.

Supomos que esse homem passe por um fenômeno de maturação. Começa a ficar ajuizado e a passar da fase má de ladrão para a fase boa. E começa a pensar que muito mais razoável do que tudo, o verdadeiro da vida é a segurança. Depois, outra coisa, a fartura, depois o repouso: “Vou deixar tudo isto e vou ser agente de correio em Taquaritinga. E lá vou ser um homem honesto, levar minhas contas direito, levar uma vida de burguês. Vou me regenerar porque não é um bom cálculo ser gatuno”.

Bem, ele se regenerou, pelo menos em algum sentido da palavra regeneração. Ele perde seus defeitos de ladrão mas perde também algumas qualidades. Ele amolece, torna-se avarento ─ de generoso que era ─ e fica deselegante. Pode ficar piedoso e ─ é incrível ─ pode até ficar em estado de graça. Mas nunca sairá dela uma balada de François Villon a Nossa Senhora. A piedade dele pode ter crescido em raízes, mas um certo jorro, um certo jato ela não terá mais. Esta é uma das evoluções possíveis entre as muitas outras possíveis também.

Como é que deveria ser essa transformação: É o segundo caso. O ladrão regenerado não deveria passar de um egoísmo para outro, porque isto, absolutamente não é regeneração verdadeira. Pelo contrário, ele deveria passar do egoísmo para a procura do Absoluto, para uma atitude de humildade diante de Deus e de uma verdadeira abnegação.

Então, seria um homem que somaria ao seu progresso moral as qualidades de outrora ─ que passariam a ser qualidades autênticas ─ e as qualidades de seu estado novo. Ele caminharia para a sua santificação.

* A decadencia da Idade Média através da sensualidade e o contínuo afastamento da Cruz e do sacrifício

Então, o que se deu na Idade Média? É uma coisa importante para nós, porque pode se dar com os que ficarem depois da Bagarre e na aurora do Reinado de Maria. Na Idade Média, aqueles católicos de uma Fé muito intensa e de um grande espírito de sacrifício, no fundo lhes faltou uma coisa: aceitavam a cruz e a carregavam, garbosamente, mas não estavam compenetrados, de um modo consciente e explícito, de que a cruz não era na vida deles apenas uma contingência irremediável por causa da dureza de circunstâncias que eles não conseguiam remover; que aquela vida da Cristandade não era uma coisa inevitável porque há mouros, pagãos e inimigos de outra natureza, mas que a vida do católico é dura e que ela corre sobre um leito falso quando ela não é dura, de maneira tal que, cessadas as provações, eles deveriam ter entrado na vida nova com um verdadeiro pânico de perderem o amor à cruz, um verdadeiro pânico de perderem o senso do sacrifício. Portanto, se organizarem dentro da vitória com mais medo do que quando se tinham organizado dentro da luta, percebendo que teriam uma dificuldade muito maior em perseverar no período da descompressão do que durante o outro período.

Isto deveria ter sido matéria para que os púlpitos ressoassem, os confessionários apertassem as cravelhas, para que todas as pessoas responsáveis pela vida espiritual da sociedade cristã se manifestassem insistentes: “Agora é que vem o perigo porque agora é que vem a vitória”. É exatamente a vitória a hora do amolecimento. Quer dizer, ganhar a vitória depois de ter ganho a guerra é o grande problema em circunstâncias assim.

Eu não sou um medievalista profundo e não conheço bem as coisas da Idade Média, mas em tudo que eu folheei a respeito do século XIII, por exemplo, eu não encontro nada que indique o receio do abuso dessa vitória; eu não encontro essa idéia explícita de que agora as coisas estão correndo bem, eu preciso tomar cuidado com o bem em que as coisas estão correndo, porque a vida do católico é uma luta perpétua e se não houver luta a coisa vai mal. E não havendo luta é sinal de que a derrota começou.

Então passamos dessa primeira fase em que a Idade Média se revela ainda ponderada, equilibrada, etc. etc., passamos para uma fase em que os prazeres vão se acentuando.

Ainda são prazeres honestos, legítimos e até equilibrados, mas há uma sede de prazer que se vai tornando cada vez mais acentuada. Numa terceira etapa os prazeres começam a degenerar e já não são prazeres honestos mas apresentam pontos de deformação.

Numa quarta etapa notamos todo o corpo social da Idade Média indo à garra e notamos uma espécie de febricitação, de agitação, de delírio, etc. ─ que é bem o século XV ─ que fazia com que muitas pessoas daquele tempo pensassem que o mundo ia acabar.

Vemos São Vicente Ferrer percorrendo a Europa, ensinando que o mundo ia acabar e dizendo que ele era o anjo previsto no Apocalipse, que deveria percorrer o mundo antes dele acabar. E, realmente, se o mundo não estava acabando, talvez fosse o começo do fim.

Lembro-me que li em Maquiavel: estamos na hora vinte e três e o mundo inteiro está na iminência de ser saqueado. Temos aqueles desenhos macabros de Dürer. Enfim, toda uma atmosfera que está se adentrando e qualquer coisa horrível que vai acabar.

Então, temos a passagem sucessiva de um apogeu para uma decadência. Qual foi o ponto de onde, do apogeu se saiu para a decadência? Foi a falta de cuidado, foi a falta de prevenção. Foi uma atitude despreocupada, confiante em si mesma, que a Idade Média como se pensasse que nela havia raízes suficientes, que não tinha que se preocupar porque tinha um lastro de virtudes. E isto era bem intencionado, não era para fazer o mal, mas apenas relaxamento. E, entretanto, nessa primeira fase ela nos impressiona pelo que ela tem de temperante, de digna, de nobre, até mesmo nos seus prazeres.

Vocês notam que isto não é uma afirmação, não é uma tese que venha acompanhada de documentos, mas é uma hipótese baseada em alguns conhecimentos. Quando formulamos a hipótese dizíamos que os fatos se alinham de tal maneira que tudo fica claro. A meu ver, a coisa por si mesma se explica.

Temos que considerar ao que isto se refere. Isto não se refere a desvios, mais ou menos excepcionais, embora até profundos, existentes? Por exemplo, encontramos na Idade Média fenômenos marginais, por exemplo, heresias, as heresias não são a Idade Média. Encontramos casos de satanismo, mas o satanismo não é Idade Média. Encontramos um imperador que é até arabizante e muçulmanizante e isto também não é a Idade Média. É a doença inteira do corpo social que eu procurei descrever e não apenas certas chagas.

* “Quem quiser viver sem preocupações dentro da virtude já abandonou a virtude e está vivendo fora dela”

Digo isto porque nos interessa em relação ao Reinado de Maria. Se nos for dado sobreviver para uma nova Idade Média, só seremos dignos de agir nessa nova Idade Média se ensinarmos àqueles que vierem depois de nós que foi assim que as coisas começaram e que se não houver um cuidado extraordinário de conservar um verdadeiro amor à Cruz e um verdadeiro senso de luta e de sofrimento dentro das novas condições que o mundo terá, novamente a coisa escapará. Há essa espécie de ponto de transição insustentável.

As coisas vão indo bem? Previna-se e confie, porque senão elas decairão.

Isto é tão verdadeiro que se aplica até aos fenômenos de vida espiritual dos membros do Grupo. Em geral, quando o indivíduo adere ao grupo, ele tem uma fase de luta tremenda que é, na vida dele, o que foi na Idade Média, a fase dos normandos, dos sarracenos e dos bárbaros. Batalhas, lutas, ele briga em casa, briga com os amigos, separa todo mundo. Há depois uma segunda fase em que ele se estabiliza e em que ele começa a desapertar o cinto dentro do Grupo. Esta fase é perigosa.

Eu não tenho medo das lutas da conversão, eu tenho medo é das lutas da segunda fase, porque se começa a querer viver sem preocupação dentro da virtude. Quem quiser viver sem preocupações dentro da virtude, já abandonou a virtude e está vivendo fora dela. Está na substância da virtude esse desejo de luta e de cruz.

Temos agora, aqui, as várias etapas da decadência:

Primeira etapa: quando o agradável bom se acentua demais, mas é honesto, nobre e equilibrado. Por exemplo, o traje feminino habitual na Idade Média. Eu o acho lindíssimo, acho belíssimo aqueles chapéus de cone com véus pendentes. Também outro chapéu em forma de gomos, com uma coroa em cima. É uma coisa muito nobre e bonita e também muito calma e repousante. Toda a arte medieval, aquelas casas, etc., tudo é muito calmo, equilibrado, repousante, bonito.

Este agradável encontra sua expressão melhor no gótico flamboyant, mas cuidado porque o flamboyant vai invadindo todos os campos e em vez de ser apenas um agradável bonito para a sala de visita, tudo começa a ficar engraçadinho e o gótico começa a ficar catita nesta fase.

Não é mais a época das grandes catedrais, mas das capelas quase só feitas de virtude e pouca pedra; capelas à maneira de escrínio colocadas digamos, no meio da floresta. Depois, começa a deteriorar quando começa a ficar imoral. Isto também na literatura de cavalaria e em mil outras coisas, etc.

* Há no homem várias personalidades hereditárias, às vezes contraditórias entre si, que funcionam à maneira de facções antagônicas na sociedade

Agora, como é que essa crise se generalizou no corpo da sociedade medieval? Temos que ver as profundidades. E por profundidade aqui eu entendo as várias camadas. Neste sentido, o povinho seria a última profundidade, a última camada, a mais alta profundidade seriam as cortes.

Há um princípio que eu gostaria de lembrar. Quando analisamos alguém que tem personalidade, encontramos nessa pessoa, sobretudo se é liberal, várias personalidades conjuntas que entram numa espécie de diálogo. É muito característico com as reações que Dom Bertrand disperta.

Dom Bertrand vai a lugares muito prevenidos contra príncipes. Por exemplo, foi ele à casa do Joaquim. É gente que tem raiva de príncipe e que se visse um príncipe ficaria emparafusado, diria que só podia ser aquilo mesmo. Mas quando encontra um príncipe que é príncipe em sua massa e em sua carne e é substancialmente muito maior que a dos pergaminhos ─ porque Dom Bertrand é príncipe com a mesma razão e com a mesma autenticidade com que nós somos paulistas de 400 anos ─ percebemos bem o que nós somos, é bastante nos compararmos a ele.

Então, por subtração, podemos medir bem o que nos falta para sermos príncipes. Então, ele vai num lugar desses e começa o lado monárquico ─ que jaz em todo mundo num país onde houve monarquia ─ e que numa primeira impressão faz dizer: “Que bonitinho!” Depois: “Ele é um príncipe bonitinho”. Depois o raciocínio dá uma cambalhota e se pensa: “Como é bom ser príncipe! Que bonita coisa é um príncipe de verdade!” Depois pensa-se: “Como o principado é uma coisa interessante”. Mas isto é um sininho que toca, é mil anos de monarquia dentro desta alma. Há um monarquista que dorme dentro do republicano e que se acorda quando passa Dom Bertrand.

Há uns republicanos que dormem em alguns monarquistas e que se acordam quando alguém dorme.

Então, eu diria que há num homem várias personalidades assim: o monarquista, o republicano, o católico, o protestante, etc. Sujeito que tem um antepassado protestante, ele herda um protestante dentro de si, queira ou não queira. É muito interessante quando isto coincide com hereditariedades opostas. Uma pessoa tem uma hereditariedade profundamente católica e outra profundamente protestante. O ramo protestante da família tem um católico dormindo dentro de si; o ramo católico tem dentro de si um protestante.

Esse princípio das várias personalidades opostas, estabelecendo um diálogo interno, é o princípio que existe na vida espiritual de um homem. Mas de que maneira esse princípio se transmite para a vida espiritual de um país? São as várias correntes de opinião.

O Brasil com seus republicanos, seus monarquistas, seus protestantes e seus católicos, ele constitui um imenso cérebro coletivo parecido com os cérebros individuais de muita gente.

* Na Idade Média, o relacionamento das classes sociais entre si favoreceu o progresso do câncer revolucionário

Na Idade Média podemos dizer que esse diálogo interior, esse princípio do diálogo interior entre várias personalidades, dava-se um pouco conforme as classes sociais. Quer dizer, essa deterioração começou e os mais ricos e poderosos; notamos isto nas cortes reais e mesmo em certas cortes principescas tão altas que eram como cortes de reis. É aí que começa uma primeira vida de extravagância e as primeiras ampolas, a se fazerem.

A metástase, à maneira de câncer, disso pelas outras classes sociais, foi se dando de proche en proche. A alta nobreza corrompe a nobreza média que, por sua vez, corrompe a pequena nobreza. A alta burguesia, que é sempre a primeira a se corromper junto com os reis, corrompe a burguesia média e a pequena. Mas isto se dá devagar. De maneira que houve tempo, na Idade Média, como que notamos isto nos altíssimos letrados, nos altos aristocratas, nos altíssimos argentários e no altíssimo clero.

Mas há correntes de opinião, há tantas classes sociais que constituem centros de resistência. Por exemplo, o movimento humanista e renascentista, que floresceu tanto entre os altos intelectuais, encontrou certas resistências nas universidades, a tal ponto que as universidades, durante muito tempo ficaram à margem do movimento novo e apegadas às coisas antigas. De outro lado notamos também em algumas…

(…)

Madame de La Vallière e Madame de Montespan. O povinho ia ver admirado o rei passear com três rainhas. Mal se dava conta da imoralidade pavorosa. Beatificamente, olhava um rei tão poderoso que tinha três rainhas.

Por isto vemos ainda no tempo de Luiz XIV festas e diversões populares tudo na atmosfera da Idade Média. A perversão demora a andar no povinho.

Quais foram os graus de degradação desses resistentes?

Primeiro: eu não quero, eu me engano.

Segunda fase: contemporizante suspiroso. O rei e os príncipes são assim, mas eu, na minha vida não o sou. Mas não há uma reação. Depois, passa tolerante indiferente. Depois, admiração e inveja: veja, o rei faz isto. Se eu pudesse fazer também. Daí vem a imitação.

Pergunta-se qual foi o lado para onde isto vergou.

* O princípio da onipotência da intolerância ─ A vitória dos maus se dá pela moleza dos bons

Eu sustento uma teoria histórica, segundo a qual se pudesse dizer que, propriamente, essas coisas levaram a breca porque os reis, o clero, deram o primeiro passo. Há uma teoria a que eu sou apegado: a intolerância agressiva, indignada e militante paralisa qualquer coisa.

Há um princípio de coesão na sociedade humana que faz com que todo mal que encontre diante de si uma reação violenta, enérgica e que desmascara esse mal. Portanto, os bons têm sempre a possibilidade de deter o mal.

O mal não está em que os maus sejam audaciosos está em que a lavada dos bons não corresponde ao mal. Não há reação.

Vejam, por exemplo, como uma família, como a família Ablas, punha em polvorosa toda a cidade de Santos, ou que um menino, como meu afilhado Luiz Felipe, ponha em polvorosa um colégio porque vai ao colégio de gravata. Por que isto? Porque notam uma reação violenta nos Ablas. Mas porque se incomodam com os Ablas? Pelas fibras mais profundas da sociabilidade humana. Vendo uma pessoa urrar que é mal feito o que eles fazem, ainda que eles não queiram, alguma fibra se atrapalha. É esta espécie de atrapalho interno que produz o estertor deles.

Muitas poucas pessoas têm coragem para contra-urrar contra um que urra. E a partida acaba ganha por quem urrar mais forte.

Pode-se dizer que a coisa aqui depende inteiramente da violência. Eu me lembro que uma pessoa altamente qualificada me dizia:

Meu amigo, outrem mais qualificado do que eu não lhe tem hostilidade alguma. Até ele só queria que o senhor não fizesse oposição a ele.

E eu disse:

Mas no que é que faço oposição a ele?

Ele me disse:

O senhor não faz, mas seus amigos fazem. O senhor dissolvendo sua roda de amigos, está tudo bem.

Eu perguntei qual a oposição que meus amigos faziam, e ele me disse que propriamente meus amigos não diziam nada, mas que andavam com um ar, com um jeito, como se só eles tivessem razão.

Ora, o mal está precisamente quando os bons deixam de ter essa intolerância violenta e triunfante. Temos o exemplo característico disso na Espanha. Afinal, toda a filosofia da História que o Fernando está dando é a seguinte: toda a história do carlismo é a história de uma parte dos espanhóis que são intransigentes, que não querem ceder. Enquanto eles não forem reduzidos, está tudo atrapalhado. E até hoje a Espanha vive atrapalhada pelo fato de ter carlistas. E a história da decadência da Espanha não é a história do progresso dos liberais, mas é a história da decadência da intransigência dos carlistas.

Esse é um princípio da onipotência da intolerância.

À margem do esquema, devo explicar outra coisa. Por que razão, de lá para cá, a Igreja, nos seus melhores elementos, não tem feito outra coisa senão defensiva? É que os soldados que ela encontra são todos eles, mais ou menos desse tipo. Todos eles estão pensando em defender, em salvar, em pôr muros. Nenhum tem essa intolerância agressiva em sentido contrário. Em alguns lugares tiveram: São Luís Grignion de Montfort é o tipo da intolerância agressiva. Resultado: tem a Vandéia.

* Por causa do fracasso de alguma “família de almas” houve toda a decadência da Idade Média ─ O pecado imenso

Chegamos aqui à questão das famílias de almas. A questão é esta: se todo o apogeu veio do fato de ter-se saído de um mal, toda crise começa com o fato de que a gente sai dessa posição de amor à cruz e começa a tomar uma posição de contemporização, etc. etc., parte daquela plenitude para isto, depois os bons decaem por isso. Se isto é assim, nós nos poderíamos perguntar como é que uma coisa dessa consegue ser conjurada.

Vem aqui uma coisa que eu considero o suco de uma concepção católica da História, e que seria a doutrina das famílias de almas. A Providência sugere todo um sistema de planetas e satélites para evitar essa coisa. E se esses planetas e satélites, que constituem entre si uma família de almas, se mantém íntegros e aplicam o princípio da teoria da intolerância triunfante, não há o que desanda, porque o fincapé deles é tal que a coisa segura. Se, pelo contrário, eles relaxam, tudo relaxa.

Então, o peso do mundo realmente repousa sobre os satélites dos satélites, etc., que são a verdadeira alavanca da História.

Então, eu chegaria ao fim da coisa, à teoria que eu chamo de pecado imenso. Houve, na raiz de tudo isto, evidentemente um pecado imenso. Essa apostasia começou por um imenso pecado.

Lembram-se que eu falei do diálogo interno das várias fibras de um povo que entram em luta. Essa família de almas deveria, no diálogo interno, manter a situação. Alguém não manteve. Houve algum ente sublime, extraordinário, predestinado, que pecou. E isto é todo um plano da Providência que se estraçalha.

A Providência quer condicionar à generosidade de certos indivíduos… [ilegível] … curso de certos fatos. É um plano de Deus.

Acontece que a Idade Média, que viveu de grandes ordens religiosas formando grandes famílias de almas ─ beneditinos, reforma de Cluny, franciscanos, dominicanos ─ e eu não vejo uma ordem religiosa como uma família de almas, ela pode ser uma nervura, houve uma ou algumas famílias de almas que fracassaram em determinado momento. Por causa disso, todos os vírus maus começam a se soltar no momento perigoso. E tivemos a hecatombe da [divisão?] feudal.

Mas, por que veio essa carga brutal de revolta, essa explosão tremenda logo no começo? Por que havia tal força explosiva em tão alto grau? Isto porque quanto maior a altura, maior o tombo, e quanto maior a virtude, tanto mais rugem… [ilegível] …quando são soltos.

Ora, o mundo estava num pináculo. O fato dele sair-se desse pináculo era soltar feras muito ferozes. Daí as paixões tremendas que invadiam o mundo contemporâneo. Exatamente, o pecado imenso se deve em duas gamas: foi de alguém ou de alguns que pecaram, de outros que por sistema pecaram também. Donde a decomposição pavorosa de todo um continente que dura até hoje. E aqui o regime da… [ilegível] … e da [ruína?] lenta da Igreja. Não havia vitalidade para outra coisa. Era tudo se… [ilegível] … era de prata o plano B porque era de ouro o plano A.

Para concluir, pergunto: isto é pura hipótese, ou não?

Lembrando a visão de São Francisco, que fazia o papel da pessoa que segura a Igreja; a igreja de São João de Latrão se rachava em dois, vemos que aquilo servia para indicar a Igreja inteira. São Francisco teria cometido um pecado imenso se não tivesse previsto.

Provavelmente, se não houvesse São Francisco de Assis, essa revolução teria estourado muito mais cedo, o que torna compreensível que um São Francisco de Assis qualquer, em dado momento não tenha correspondido e a coisa tenha explodido.

Quando se deu esse pecado imenso? Deu-se a sós, numa cela de frade, numa cela de religiosa, no quarto de algum homem predestinado que recusou talvez um sacrifício pequeno. Porque às vezes essas coisas começam por um sacrifício pequeno. Isto é mistério de Deus. Mas tudo leva a crer que foi assim que as coisas se passaram em seu sentido mais profundo.

* “A nossa posição é a interpretação da História por meio de princípios puramente espiritualistas”

Para terminar, o que poderíamos reter de tudo isto? Uma série de princípios que poderiam servir para a explanação de uma série de outros pontos históricos para a constituição de toda uma doutrina assim que não é mais, afinal de contas, do que a História interpretada segundo a psicologia e a moral. Esses princípios são quatorze.

Se o trabalho Revolução e Contra-Revolução fosse completo, dever-se-ia pesquisar essas profundidades para trazer de dentro toda espécie de coisas assim, para constituir um vasto sistema de hipóteses históricas a serem comprovadas pela pesquisa. Essas afirmações aqui já são comprovadas. Mas haveria uma imensidade para comprovar. Quando tudo bem construído, eu me pergunto, não se poderia, com os próprios dados da historiografia corrente, provar quase tudo o que eu disse? É bem possível.

Mas aqui fica um rumo para o espírito de todos nós. É a elaboração de um conjunto de normas de vida espiritual para aplicar à vida dos povos e não apenas dos indivíduos, para os dados da psicologia e da moral explicar a História.

Vocês farão o confronto disso com o comunismo e notarão que o comunismo faz a mesma coisa: toma uma filosofia ─ no caso materialista ─ estabelece uns princípios e interpreta a História segundo esses princípios. A nossa posição é a interpretação da História por meio de princípios puramente espiritualistas. Espírito como a Igreja diz que é, mais a vida sobrenatural, graça, etc.

Folheando…

(…)

encontrei o que o Tristão de Atayde conta sobre a situação de Roma antes da encíclica Aeterni Patris: São Tomás inteiramente abandonado nos seminários de Roma. Os santos não deveriam ter ensinado isto? Provavelmente para castigo da humanidade, Nosso Senhor não fez isto. Porque a partir do momento em que isso se deu, nota-se que Deus vai se tornando cada vez mais ausente do mundo e que a esfera de ação dos santos, humanamente falando, vai se tornando menor também. É uma das formas da ausência de Deus. Deus suscita heróis para batalhar, mas permite que os grandes muros vão sendo cada vez mais arrasados.

Ele suscitou Leão XIII para por em foco a Aeterni Patris; poderá suscitar outros para pôr em foco esses princípios. Mas isto e muitas outras coisas que estão em todas as nossas cabeças, são os princípios que estão contidos no livro preto do homem que tem a arte de construir e de destruir e que no Reinado de Maria é necessário que esteja plenamente explicitado para prevenir coisas futuras.

[ND: O texto abaixo foi microfilmado logo em seguida ao anterior como “continuação”.]

* O arianismo tem suas raízes mais remotas num orgulho bárbaro germânico

Uma pessoa, por exemplo, que tenha o hábito de roubar, mas cujo defeito predominante não é o roubo, ela tem uma aptidão grande para roubar.

Mas ela foi educada num meio de gangsters e aprendeu a roubar. Contudo, seu defeito predominante é o orgulho.

(Sr. –: [inaudível].)

Nos bárbaros aquela selvageria era mais um mau hábito do que a dobra predominante de um espírito. No caso do bárbaro há todo um atavismo, todo um conjunto de circunstâncias, que não estavam colocados deste lado. Qual era a dobra dos bárbaros? A meu ver, pelo menos o bárbaro germânico, a dobra fundamental que se revelou com o tempo foi o orgulho. O que estava mais profundo é o defeito do ariano, que é o orgulho.

(…)

isolar no mundo interior; construir um mundo exterior; revoltar-se, em nome do mundo interior, contra o mundo exterior, etc.

Então, a atitude contra-revolucionária sistemática se explica dentro dessa linha. Temos aqui a justificação da intransigência, do não dar tréguas ao adversário em nenhum ponto.

Uma coisa que se deveria ver é como esse processo revolucionário se dá de pai para filho, muitas vezes, de maneira que o filho parece o herdeiro da marcha revolucionária do pai. Ainda, seria interessante ver de que natureza e de que força são essas espécies de contra-vapores que existem no homem, contendo suas paixões de um e outro lado, a tradição, etc.

(AX: O que devemos focalizar sempre é o problema da gnose. Então diremos que entre os países árabes está havendo um surto do maometanismo. Ora, o maometanismo é uma simples religião e, como tal, melhor do que o simples laicismo. De modo que parece haver aqui um vício bom. Ou, em tal país católico a Igreja está ganhando muito terreno, é verdade que com umas tendências meio esquerdistas, heréticas.)

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1 ) O dia da reunião não consta do microfilme. Reunião feita entre o dia 1 a 13 de maio