+ Reunião do MNF – 17.6.58 – Página 7 de 7

IHS

Advertência



Tipo de reunião: Reunião do MNF

Data da reunião: 17.6.58 – Terça-feira

Este texto é anotação integral do que disse Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, tendo sido feita por [...]. Recuperado do microfilme pela Comissão Plinio Corrêa de Oliveira, foi conferido com o original por por José F. Vidigal e/ou Renato Pezotti em 1995/1996. Houve apenas correção de ortografia, pontuação e gramática. As palavras entre colchetes [ ] foram introduzidas para melhor entender-se o texto. No lugar das palavras ilegíveis ou espaços em branco no original, foi colocado sinal de reticências.


* * *



Reunião do MNF – 17.6.58 – Terça-feira


Vertentes e luz primordial ── Quadro * A vertente prisma e a luz primordial * O que são as vertentes prismas da luz primordial * Quais os objetos nos quais o homem habitualmente considera sua luz primordial * Mesmo à luz da fé, o homem considera as coisas de acordo com a vertente-prisma de sua luz primordial * Quanto mais o homem sobe na ordem sobrenatural, tanto mais ele compreende e ama as verdades naturais * O vício capital é o oposto da luz primordial * A fidelidade à graça e à luz primordial são os alicerces da perfeição da sociedade e da cultura dos povos * A relação entre os princípios e as diversas vertentes para o ultramontano ── As vertentes-prismas e sua relação com os primeiros princípios do "intelectus" * A importância fundamental de se considerar Deus como causa exemplar do Universo * A consideração do Universo segundo a vertente religiosa * A consideração do Universo segundo a vertente sócio-política * A consideração do Universo segundo a vertente psicológica * As três vertentes e o papel da graça * A curiosidade como defeito de espírito ── O pecado de curiosidade intelectual * A procura dos divertimentos como desvio das luz primordial







* Vertente e luz primordial ── Quadro



I- Vertente: prisma ── (objeto) absoluto incriado

A- Sobrenatural ── Deus (Revelante)

B- Natural

a) Político-social (Soc. hum.)

── Macro-soc.

── micro-soc.

b) Psicológico (alma humana)

c) Interpenetração do Universo

── Metafísico

── Artístico

a) Bel.-artes

b) Artes mec.



II- Universo (modos de atualização da luz primordial subjetiva)

(Adolpho)



A- Os seres em si:

a) Mat.

b) Homem - alma

c) Instituições



B- Rel. entre os seres

a) Proporção (quadros gerais)

b) Harmonia





Nesta reunião estivemos coligindo dados que se relacionam com o problema da luz primordial e da lei do amor. Para tratarmos dessa questão começamos por estabelecer alguma notas distintas a respeito da luz primordial.

Na última reunião falamos de dois modos de ser, ou de dois modos de atualização da luz primordial tomando em consideração, em 1º lugar, a luz primordial enquanto tem por objeto os seres em si e enquanto ela tem por objeto relações entre os seres.

Partimos hoje de uma outra ordem de observações sobre a luz primordial. É aquilo que chamaríamos as vertentes-prismas da luz primordial.

Por que vertentes-prismas? Porque de um lado constituem realmente um prisma, no sentido de que é um ângulo por onde a luz primordial é vista. Por outro lado, constitui uma vertente porque é toda uma série de coisas que caminham, atraídas por uma espécie de mesma lei da gravidade, para o mesmo ponto central, etc.



* A que se referem as vertentes-prismas da luz primordial



As vertentes-prismas não cuidam, propriamente do objeto da luz primordial ── o objeto da luz primordial, como vimos é sempre uma virtude ── mas cuidam do objeto no qual essa virtude é considerada pelo homem. Por exemplo, o homem pode ter por luz primordial a fortaleza; mas pode ter a preferência de considerar essa luz-primordial em uma determinada categoria de objetos e não em outra determinada categoria de objetos.



* Quais os objetos nos quais o homem habitualmente considera sua luz primordial



Por isso veremos agora quais são os objetos nos quais habitualmente o homem considera sua luz primordial.

Estabelecemos uma distinção: ou o objeto é sobrenatural ou é natural. O objeto sobrenatural é Deus enquanto revelante, isto é, o Deus da Fé e da Revelação, e não o Deus da filosofia; é também tudo quanto diz respeito à vida sobrenatural, à graça, ao Céu, etc..

A esta vertente-prisma se contrapõe uma outra, que são os objetos naturais. Quer dizer, o homem pode considerar sua luz primordial de preferência ou na esfera político-social, enquanto ele considera as sociedades e, mais especialmente, enquanto considera a macro-sociedade ── a sociedade em seu conjunto ── ou as micro-sociedades ── sociedades intermediárias, famílias, etc. ── pode ter uma vertente-prisma para considerar a luz primordial na psicologia, isto é, tomados um homem e uma alma particularmente considerados. Aí entra tudo quanto diz respeito à pedagogia, psicologia, e certos tipos de direção espiritual, etc..

Em terceiro lugar, ele pode ter um feitio de luz sobrenatural que se compraz, de preferência na consideração do absoluto enquanto realizado, ou na metafísica, ou nas considerações de caráter artístico: belas-artes, mecânicas, etc..



* Mesmo à luz da fé, o homem considera as coisas de acordo com a vertente-prisma de sua luz primordial



Estabelecida essa classificação, lembramos que, quando as coisas passam como devem ser, lembramos que a luz primordial que o homem considera como matéria natural dispõe seu espírito para aceitar a vocação que todos os homens têm de considerar depois essas coisas à luz da Fé. Mas mesmo à luz da Fé, ele vai considerar dentro da Fé, de preferência sob uma vertente-prisma que lhe é próprio. Por exemplo, um homem psicólogo. Ele tem uma visão natural muito boa, muito reta de todo os aspectos naturais da psicologia. Mas, ao mesmo tempo, ele percebe a insuficiência disso, e, entretanto em contato com a Santa Igreja, percebe que ela dá uma plenitude disso, uma admirável perfeição, numa explicação, eleva isto a um plano incomparavelmente maior, etc.. Ele se converte ao Catolicismo, ou ele já era católico, e percebe isso dentro da religião, mas dentro da religião católica vai continuar a considerar, de preferência, esses assuntos de caráter psicológico, que constituem o ponto por onde ele vai alimentando o seu amor à Santa Igreja e mesmo a Deus.



* Os feitios de espíritos



Esta ordem natural e sobrenatural de luz primordial e muito ligada ao que chamaríamos o feitio de espírito. São feitios de almas que tendem para essas várias coisas. Constitui um dos modos do governo da Providência no Universo, criar as almas com esses diferentes feitios de espírito, de tal maneira que eles se equilibrem em número, em quantidade, em qualidade para constituir um todo harmônico. E quando uma geração nasce Deus cria todos esses feitios de espírito para que essa geração realize essa sua finalidade. Também no conjunto dos povos. Quando um povo nasce, Deus já dá um feitio de espírito ligado a esse povo. De maneira que, propriamente, o que constitui a essência de uma nação não é só a luz primordial, mas também o fato de que essa luz primordial se distribui harmonicamente através de um conjunto, de uma coleção completa de feitios de espírito, para que se constitua uma verdadeira sociedade humana. Exatamente, uma das regras fundamentais da verdadeira sociedade de almas é o respeito à luz primordial e ao feitio de espírito com que cada um nasceu e com que o povo nasceu.



* Quanto mais o homem sobe na ordem sobrenatural, tanto mais ele compreende e ama as verdades naturais



Consideramos depois quais as relações entre a fidelidade à luz primordial e a fidelidade a esse feitio de espírito. Assim como o homem tem uma luz primordial e um feitio de espírito muito marcados, na medida em que ele se aproxima de Deus revelado e das verdades de caráter sobrenatural, quanto mais ele sobe na ordem sobrenatural, tanto mais ele ama e compreende melhor essas verdades naturais para cujo amor seu espírito foi criado. Suponhamos um metafísico que se volta para a consideração das verdades naturais, dos dados filosóficos da religião, por feitio de espírito.

Quanto mais ele fica piedoso e sobe na fé, tanto mais aquelas verdades naturais para ele se iluminam e tanto mais esplêndidos metafísico ele vai ficar.

Em sentido oposto podemos imaginar como funcionariam as desordens. O indivíduo ou recusaria a sua luz primordial, ou recusaria o seu feitio de espírito para adotar um diferente, o que já é uma maneira de recusa da luz primordial.

Acontece que no primeiro período ele teria um florescimento até maior de alguma coisa a qual ele se dedica. Mas depois, num outro período, aquilo iria decaindo e de tal maneira que ele chegaria à barbárie. O exemplo do Império Romano é bom. Os romanos tinham um senso jurídico e organizador muito bom. Foram decaindo moralmente e o fracasso do senso jurídico romano foi o estabelecimento da ditadura imperial. Aparentemente esse espírito jurídico chegou ao seu auge na ditadura imperial; porque fizeram um Império que dá a impressão de uma arquitetura política das maiores que o mundo tem concebido. Mas essa hipertrofia imperial, que é a destruição de todo conteúdo do Império, é ela um primeiro passo para deterioração do Império Romano do Ocidente. Os funcionários imperiais fugiam, todos recuavam diante dos bárbaros porque aquele colosso era podre e deteriorado. Pela recusa à sua luz primordial de caráter jurídico, dentro da vertente político-social, os romanos acabaram violando isso, passando, durante algum tempo, por uma hipertrofia e, finalmente, se desagregando.



* O vício capital é o oposto da luz primordial



Esse fenômeno histórico está de acordo com duas verdades já exploradas anteriormente por nós. A primeira verdade é de que o defeito capital é per diametrum o oposto da luz primordial. De maneira que quando um povo, ou um indivíduo cai, ele vai cair no oposto de sua luz primordial.



* Os dois estágios pelos quais passam os indivíduos e os povos na fase da decadência



A segunda verdade é que o indivíduo passa, na fase da decadência, por dois estágios diversos: o primeiro estágio é o do mero pecado mortal. O segundo estágio é o estado satânico.

No estado de pecado mortal, ele produz uma civilização cuja hipertrofia se destrói a si mesma.

Aqui se observa isto exatamente. O povo, no patamar do pecado mortal, caminha para o satanismo, que é a destruição de todos esses valores. Vem então a diferença entre o gosto pela Revelação e pelo sobrenatural e a tendência para o preternatural. O indivíduo que se entrega à tendência para o preternatural cresta nele tudo quanto é excelência ou harmonia da natureza. Ele fica como que com uma espécie de ódio da natureza, e tudo quanto é gosto pelas várias vertentes do espírito desaparece, para dar apenas numa espécie de adoração estúpida do demônio que destrói tudo nele. E é o que explica que os povos que se entregam inteiramente à adoração do demônio são povos que perdem toda a cultura.

Entretanto, é preciso distinguir: há povos que adoram o demônio durante uma fase determinada da civilização, portanto, há civilizações que adoram o demônio. Mas isto porque o culto do demônio não atingiu ali a sua plenitude. Quando atingir a plenitude, destruirá completamente o povo.



* A fidelidade à graça e à luz primordial são os alicerces da perfeição da sociedade e da cultura dos povos



Com isso estabelecemos a relação entre a luz primordial e essas vertentes-prismas, para dar uma fundamentação a uma verdade genérica bem conhecida, que é a seguinte: a vida cultural de um povo, e a autenticidade da sociedade de almas de um povo se alicerça sobre a fidelidade desse povo à sua luz primordial.

A fidelidade da generalidade dos homens às respectivas luzes primordiais e sua fidelidade a esses vários modos de ser da luz primordial, de que acabamos de falar, quando isto se dá, o conhecimento das coisas naturais e sobrenaturais cresce enormemente num povo e sua cultura chega ao apogeu. E há um circuito vicioso bom pelo qual tanto mais cresce o conhecimento das coisas, quanto mais cresce o amor; quanto mais cresce o amor, mais lúcida fica a inteligência e maior é o conhecimento. Há uma aspiral ascendente do conhecimento para o amor, do amor para o conhecimento, que é só Deus que sabe até onde poder parar. Mas há também, em sentido oposto, a aspiral descendente. Uma decadência no amor produz uma decadência no conhecimento, que produz uma decadência no amor, etc., até embaixo.

Então, a lei do amor chega a esta conclusão: quando um povo corresponde à graça de Deus, por se manter na graça e subir nela, ele caminha para a perfeições de sua cultura. Quando nega isto, caminha para a decadência.



* A relação entre os princípios e as diversas vertentes para o ultramontano ── As vertentes-prismas e sua relação com os primeiros princípios do "intelectus"



(Dr. Paulo Brito: Eu queria acrescentar que o objeto próprio da inteligência é a verdade e o objeto próprio da vontade é o bem moral. Mas quando uma pessoa, mesmo no campo puramente intelectivo, pretende alcançar a vontade, de certa forma a vontade já entra na concepção deste fim, pelo menos naquele recesso íntimo, naquele santuário que é a essência humana, no qual mais ou menos estão identificadas as potências da alma.

(O intelectus agens, diz São Tomás que é como uma centelha do intelecto divino impresso na alma humana, sendo essa luz que ilumina a alma humana, através dele é que os primeiros princípios se manifestam, e podemos dizer, são inerentes, portanto à mente humana.

(Esses primeiros princípios que são os princípios de contradição, de casualidade, de razão suficiente e de identidade, são como que consubstancialmente, ou melhor são como que consubstanciados no princípio axiológico que é o princípio da ordenação intrínseca de todas as coisas. Conforme a luz primordial de cada pessoa, assim também os primeiros princípios se enquadram na mentalidade de cada um. Assim, por exemplo, uma pessoa que se aproxima do ultramontanismo pela vertente psicológica ou filosófica tem mais o princípio de casualidade, de finalidade como base desta sua luz primordial.

(Aqueles que se aproximam mais pela vertente sociológica ou política, têm mais como base da sua vertente ou da sua luz primordial o princípio axiológico de ordenação de toda a natureza. Existem também os tipos de vertente religiosa que se aproximam mais do ultramontanismo devido ao princípio de finalidade e até certo ponto por um aspecto do princípio axiológico, enquanto o princípio axiológico encarado no seu ponto de vista negativo. Eles não encontram nesta vida uma ordenação que eles desejariam, então procuram uma ordenação transterrena, o princípio axiológico em Deus, uma ordenação de tudo e como uma explicação para todos os fracassos e todas as frustrações que eles têm.)



* O valor apologético do princípio axiológico



Eu gostaria de deixar aqui um lembrete de estabelecer uma relação entre isto, a Conferência das Vertentes para efeito da Semana de Estudos, porque realmente aqui há uma ilustração maior. As vertentes não se explicam inteiramente somente por aí, mas todo o problema se enriquece muito por aí.

Como eu gostaria também de dar um acréscimo a respeito do valor apologético destas várias vertentes.

De cada um desses princípios quase se pode deduzir um filão próprio dentro da apologética, que não invalida o valor lógico dos outros filões, mas que tem seu valor próprio e que constitui, vamos dizer assim, vários dentes de um mesmo pente, todos eles juntos servem para uma mesma função.

A esse respeito eu gostaria de dizer alguma coisa a respeito do valor do princípio axiológico como elemento apologético:

Se o princípio axiológico consiste na percepção de que o mundo é um cosmo e não um caos, posta uma Religião que dê ela só a explicação perfeita da ordem do Universo e seja o complemento sem o qual o Universo está em desordem, seja mais ainda ── eu vou dizer uma palavra bárbara, mas enfim ── uma hipótese que, se fosse verdadeira, o Universo estaria em ordem e se ela fosse falsa o Universo todo seria um caos, o princípio axiológico por si só nos leva a achar que esta Religião é a Religião verdadeira.

Daí vem então o trágico equívoco da Action Française. Eu creio que na Action Française, a afirmação de que a Religião Católica devia ser professada porque era a Religião que convinha à França, continha ao menos para muito espíritos, no fundo, uma apologética baseada no princípio axiológico e não de um puro oportunismo nacionalista, embora eu possa admitir que o oportunismo nacionalista também estivesse compreendido dentro da questão.

De que maneira a coisa se daria? Dar-se-ia da seguinte maneira: o francês perceberia que a França é como que a melhor amostra do Universo e aquilo é verdadeiro para a França, é verdadeiro para o Universo. Que ela é o eixo do Universo e que aquilo que é bom para ela é bom, implicitamente, para o Universo inteiro e que a Religião que faria com que a França realizasse seu fim e aquela França estivesse em ordem seria, portanto, a Religião verdadeira em virtude do princípio axiológico.

Essa concepção naturalmente foi mal vista pelas pessoas da Action Française, pelos chefes que eram positivistas e foi transformada então numa doutrina péssima como também, de outro lado, católicos da Action Française darem a mise au point que estava no fundo, de onde equívocos trágicos. Mas eu tenho a impressão que se tivesse tocado a coisa por aí, isso poderia ter salvo muita coisa, coisa que eu creio que devemos dizer oportunamente.



* Deus como Causa Final e Exemplar da criação e as três vertentes



Esta idéia foi aproximada com a idéia das três vertentes que tivemos na semana de estudos anterior

Hoje em dia, e de há muito tempo para cá, considera-se Deus muito mais como causa final do Universo, do que enquanto causa exemplar. E nisto está um erro porque apenas concebido apenas enquanto causa final, há como que um modo incompleto do homem amar a Deus. A natureza humana pede que Deus seja conhecido também enquanto causa exemplar. O ato de amor humano não é completo se não tomar isto em consideração. Ficar em Deus somente enquanto causa final é algo fundamentalmente errado. É preciso ligar as duas coisas.

Mais ainda. Só como uma verdadeira cultura e uma verdadeira civilização podem nascer é assim. E por isto é que hoje não temos nem verdadeira cultura nem verdadeira civilização.

Aproximamos então disto a doutrina das três vertentes.

Há determinadas pessoas que correspondem à vertente religiosa. Mas consideramos aqui vertente religiosa num sentido especial da palavra, quer dizer, considerando o homem enquanto ele considera o Universo, e não tomando diretamente na problemática a Revelação e o sobrenatural. A vertente religiosa é aquela do homem que, na consideração do Universo tem uma noção muito viva de tudo quanto o Universo tem de fugaz, de transitório, de perecível, de tudo, portanto, que a Criação tem de fraco. E parte dessa consideração para as considerações mais altas a respeito de Deus na linha metafísica. É uma pessoa que sobe à ordem das realidades superiores e então considera Deus como causa final do Universo sobretudo, e todas as coisas como passageiras, transitórias, meros degraus para chegar a Deus, etc..

As duas outras vertentes partem de um prisma diverso que é Deus considerado enquanto causa exemplar do Universo e menos como causa final.

Enquanto causa exemplar do Universo o indivíduo, na vertente sócio-psicológica, mas que nós chamaríamos uma Weltanschauung, quer dizer, uma concepção total do Universo externo. Nesta vertente sócio-psicológica, ou política, o indivíduo considera a criatura como tendo causa exemplar em Deus sobretudo, ou melhor, enquanto aquilo que Deus é causa exemplar. De maneira que ele não foge à consideração das criaturas para subir até Deus, mas pelo contrário, ele aprofunda o estudo da Criação no que ela tem de positivo, no seu lado belo, bom, etc.. A própria consideração do mal pode levar a pessoa, na vertente sócio-política para um lado muito diferente da vertente religiosa.

Na vertente psicológica a pessoa não considera tanto o mundo externo, mas considera a si mesmo no seu mundo interno tendo Deus como causa exemplar. Estuda sua própria alma, as relações que ela tem com Deus e com o Universo. Estas seriam as três vertentes.

Agora, que valor têm essas três vertentes?



* Como se manifestam estas três vertentes no espírito humano



Certos espíritos, em que essa divisão de vertente é muito pronunciada, se fixariam numa só vertente reduzindo as outras duas a um certo mínimo, mas não as eliminando nunca. Nos outros espíritos em que a divisão é menos acentuada, há uma vertente predominante, mas as outras duas são bastantes salientes também.

Não se trata de uma antinomia entre as três vertentes, nem se trata de uma exclusão. Trata-se de uma composição das três, em que uma é muitíssimo mais desenvolvida e corresponde à luz primordial da pessoa, etc..



* As três vertentes e o papel da graça



É preciso considerar ainda o papel do sobrenatural dentro disso. Eu diria que é evidente que o sobrenatural não pode ser percebido pelos sentidos. Mas o sobrenatural na economia atual, na Igreja, etc., muitas vezes age sobre a matéria, por exemplo, sobre o corpo humano. E enquanto produzindo no corpo humano determinados efeitos, o sobrenatural não é ele visível pelos sentidos, mas alguns dos seus efeitos são perceptíveis pelos sentidos.

Assim, por exemplo, o corpo glorioso é corpo, mas nele se podem ver alguns efeitos que mostram melhor Deus enquanto causa exemplar, dão uma idéia de Deus muito mais alta do que toda a consideração do Universo. Quando um indivíduo tem verdadeira vida sobrenatural, ele é levado a compreender que além de todas essas coisas naturais que ele considera, existe o sobrenatural muitíssimo mais excelente do que tudo isto e que Deus mesmo é Ele todo sobrenatural. É claro que todos esses movimentos retos são aproveitados pela graça para conduzir seu espírito até o sobrenatural, que é o termo final. Também não podemos dizer que a retidão dessas operações sobrenaturais produza a graça, ou é foco de graça. Mas se aproveita disso para conduzir o homem. Tanto mais que não poderíamos dizer de nenhum modo que a vida sobrenatural fecha o homem às considerações de caráter filosófico.

Então, diríamos que a própria vida sobrenatural pode caber dentro dessa... [inaudível].

A pessoa sobe para Deus na vida sobrenatural por considerações dessa natureza também.



* A curiosidade como defeito de espírito ── O pecado de curiosidade intelectual



Em todo, ou melhor, em tudo existe. Ou melhor, corrigindo: eu estive vendo de ontem para hoje um documento de São Pio X ── da encíclica Pascendi ── onde São Pio X faz uma explanação a respeito da questão da curiosidade como defeito da inteligência. Diz ele que a curiosidade concebida enquanto defeito é um defeito tal que, a partir dele, podem se deduzir todas as aberrações do espírito.

Mas o que é, propriamente, a curiosidade?

É a apetência que o espírito tem de coisas que não lhe são necessárias, pelo mero gosto de ter essas coisas sem nenhum fim definido. Isto é exatamente o pecado contra esse princípio que estávamos dando. O homem de espírito ordenado, quer perceba, quer não perceba, passa a vida inteira procurando dados e noções para maior complementação de sua visão do Universo com ordem a Deus.

Quer dizer, ele constrói em torno de um eixo central, que seria a sua luz primordial, toda uma catedral com as três dimensões. Pelo contrário, o indivíduo curioso é o que aberrou da procura da luz primordial, e que por causa disso acumula dados pelos dados, por uma mera sofreguidão estúpida, por uma gula imbecil, idiota, da inteligência e que não vai a procura dessa luz primordial. E uma das primeiras fontes de apostasias exatamente está nesta curiosidade sem aplicação e sem destino.



* A procura dos divertimentos como desvio das luz primordial



Pode uma criança já pecar contra isto, quando é uma criança dissipada, que procura ver e mexer em tudo, tendo horror ao recolhimento. Isso se dá quando a criança já não procura a sua luz primordial, mas procura exclusivamente divertir-se. E há umas formas de temperamento de crianças que constituem uma tentação gravíssima para crianças se transviarem nesse ponto.

Isto não vem muito a propósito dentro da reunião do MNF, mas eu sustento precisamente que o jogo de futebol e os esportes, atraindo exageradamente a atenção da criança para exercícios físicos de uma importância secundária, constituem um mal de desviá-la da luz primordial e de evitar que a criança tenha, durante o recreio, qualquer preparação intelectual séria para seguir uma aula.

O futebol, a agitação, a torcida tornam impossível seguir a aula, são os maiores inimigos da aula.

Nos meus tempos do colégio São Luís era assim. O menino voltava suado, estuante do futebol. Perdia as aulas seguintes naquele horror de concentrar numa coisa abstrata, porque o futebol tinha dado ao seu espírito a delícia do oposto disso.



* As duas espécies defeituosas de curiosidade



Há duas espécies de curiosidade. Há a curiosidade do indivíduo que se deixa extravasar pelos sentidos e que não procura na natureza os símbolos que devem levar até Deus de acordo com a luz primordial, mas se dispersam. Existe a curiosidade do indivíduo que se intelectualizou e chegou até o genérico, quer dizer, o abstrato. Mas ali não procura de nenhum modo sua luz primordial. Ambas as curiosidades são defeituosas. Cada uma delas pode chegar a aberrações muito graves, isto é evidente.





A. R. M.