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IHS

Advertência



Tipo de reunião: Reunião do MNF

Data da reunião: 12.11.57 – Terça-feira

Local da reunião: Santos

Este texto é anotação integral do que disse Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, tendo sido feita por [...]. Recuperado do microfilme pela Comissão Plinio Corrêa de Oliveira, foi conferido com o original por por José F. Vidigal e/ou Renato Pezotti em 1995/1996. Houve apenas correção de ortografia, pontuação e gramática. As palavras entre colchetes [ ] foram introduzidas para melhor entender-se o texto. No lugar das palavras ilegíveis ou espaços em branco no original, foi colocado sinal de reticências.


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Reunião do MNF – 12.11.57 – Terça-feira




O estudo da procura do Absoluto * Qual a distinção entre luz primordial fundamental e luz primordial aplicada aos diferentes campos de ação * A personalidade da pessoa compreende ambos aspectos da luz primordial * O que é a "Weltanschauung"? * Mentalidade é o estado de alma pelo qual a pessoa ama e acresce a todo momento a sua "Weltanschauung" * Cada homem deve amar a Deus segundo uma "Weltanschauung" global, mas com uma intelecção viva dos valores espelhados por sua luz primordial * Os argumentos "tipo Santo Inácio" são elementos indispensáveis para o amor a Deus, mas só eles não bastam para a plenitude desse amor * As luzes primordiais se ordenam entre si pelo sistema feudal * A luz primordial da pessoa muitas vezes é dada pela família, mas há exceções





Estudar a procura do Absoluto na seguinte temática:

1) Como o amor natural e o sobrenatural à luz primordial formam no indivíduo a mentalidade e a Weltanschauung [nota do anotador: visão do universo] católicas.

2) Como esta mentalidade governa os atos livres e modela o subconsciente, os instintos, impulsos, gostos, atitudes, hábitos.

3) Como a junção de várias pessoas de mesma mentalidade católica forma um ambiente com todos os elementos supra, em estado coletivo, nos grupos intermediários.

4) Como se forma a cultura e a opinião pública católica e não católica de um país.

5) A onipotência da mentalidade coletiva, e a diferença entre ela e a opinião pública.

6) Daí estudar a influência do amor ao Absoluto nas instituições, costumes e leis.



* O estudo da mentalidade católica através da personalidade



Sobre a primeira questão:

1) O estudo da mentalidade católica nos permite distinguir dois tipos de heresias: as livrescas e as que nascem de um choque de mentalidade com a Igreja. Estas é que são realmente perigosas.

2) Para compreendermos bem o que é a mentalidade, devemos antes estudar o que é a personalidade.

3) Convém distinguir antes:

a) Luz primordial fundamental: é aquela que existe no âmago da alma humana, isto é, na câmara obscura, e que é absolutamente una e indivisível.

b) Luz primordial aplicada aos diferentes campos de ação. Com efeito, a luz primordial fundamental, que é una, manifesta-se através das várias potências do homem, através dos vários sentidos, e nos mais diversos campos de ação aos quais o homem se aplica. É a essa luz primordial aplicada aos diferentes campos de ação que nos referimos quando falamos em luz primordial artística, ou luz primordial filosófica.



* A personalidade da pessoa compreende ambos aspectos da luz primordial



4) Isto posto, podemos dizer que a personalidade é a luz primordial subjetiva atualizada da pessoa, compreendendo tanto a luz primordial fundamental, quanto a aplicada aos diferentes campos de ação. Exemplo: num artista espanhol, a personalidade será a atualização dos cavalheirismo -- luz primordial fundamental -- mais a atualização de sua luz primordial artística.



* A personalidade aqui compreende a personalidade filosófica, a ordenação dos seus vários elementos e a tendências nascidas dessa ordenação: luz primordial e vício capital



5) A personalidade é o conjunto dos elementos pessoais, comandados pelo elemento pessoal chave. Ora se volta para os princípios metafísicos para se alimentar, ora para as coisas corriqueiras da vida.

6) Ager sequitur esse. A personalidade -- sentido corrente da palavra -- é o acidente do homem que possibilita certo agir e, portanto, logicamente anterior à luz primordial.

7) Na linguagem corrente a personalidade compreende a personalidade filosófica -- incluindo portanto, a animalidade do homem --, mais a ordenação dos vários elementos da personalidade filosófica -- ordenação essa que é um acidente -- mais a tendência que nasce dessa ordenação -- luz primordial e vício capital.



* O que é a "Weltanschauung"?



8) A Weltanschauung é a visão do universo elaborada pelo encontro de todos os elementos intelectivos e volitivos integrantes da luz primordial subjetiva, com a luz primordial objetiva.

9) A mentalidade é uma parte da personalidade.

10) Não tem mentalidade quem pecou contra a luz primordial subjetiva, não construindo para si qualquer visão do universo ou parando em visões contraditórias.

Exemplo: pessoa que só vê os elementos fragmentários que o seu ambiente fornece, e não chega a formar uma visão do universo. Daí pende a doutrina da opinião pública que a seu tempo estudaremos.



* Mentalidade é o estado de alma pelo qual a pessoa ama e acresce a todo momento a sua Weltanschauung



11) Ter mentalidade é ter de tal maneira essa Weltanschauung que ela arraste a vontade e todos os outros elementos da personalidade.

12) Mentalidade é o estado de alma em que:

a) Movida pelo amor, a inteligência, tendo preparado toda a Weltanschauung, ...

b) ...a todo momento considera amorosamente essa Weltanschauung e a acresce.

c) Nessa consideração e nesse acréscimo, são praticados atos contínuos de amor, em que a vontade cada vez mais se confirma na luz primordial, e os outros elementos da personalidade cada vez mais se integram nela.

d) A inteligência tomou assim a plenitude da força, da penetração e da estabilidade para as quais foi preparada pela experiência da vida.

13) A mentalidade que ainda está em vias de formar-se ainda não adquiriu toda a estabilidade e amplitude que pode ter.



* A mentalidade do homem compreende também suas virtudes intelectuais e seus frutos, os quais se manifestam até mesmo nos elementos orgânicos do homem, como por exemplo os olhos



14) A mentalidade de cada homem é a sua sabedoria? Não simplesmente, pois a mentalidade compreende também as virtudes intelectuais, e os "frutos" dessas virtudes todas. Alguns desses frutos manifestam-se até mesmo nos elementos orgânicos do homem: olhos, etc.

15) Ut vond contest: não resolvemos o problema do papel da inteligência e da vontade na sabedoria.

16) Para haver senso católico, a pessoa deve ter o amor de Deus ajustado à sua luz primordial. As coisas que se amam tendem a se assemelhar; assim sendo, tendo o amor de Deus o homem vai cada vez mais se assemelhando a Deus, na linha de sua luz primordial.



* Cada homem deve amar a Deus segundo uma "Weltanschauung" global, mas com uma intelecção viva dos valores espelhados por sua luz primordial



17) Objeção que nos poderiam fazer: os argumentos pelos quais se deve amar a Deus são os mesmos para todos os homens. Poderíamos chamá-los de argumentos "tipo Santo Inácio".

Assim sendo, para que dizer que cada homem deve amar a Deus segundo sua luz primordial?

A maior parte dos homens deve ter uma Weltanschauung global, isto é, que compreenda uma visão lógica do universo, mas também uma intelecção viva de todos os valores simbólicos e culturais nele espelhados. Não ama retamente a Deus quem tem apenas uma Weltanschauung parcial ou unilateral. Para as pessoas que tenham essa visão global do universo, os argumentos "tipo Santo Inácio" por si sós não mordem, não bastam para mover a alma. É preciso ter também uma compreensão dos valores simbólicos, e saber subir a Deus por meio deles, o que se faz em cada pessoa de um modo que lhe é peculiar. Por outro lado, é preciso observar que se alguém quiser ter uma Weltanschauung desprezando os argumentos "tipos Santo Inácio", fará obra de egoísmo e nem chegará a adquirir uma verdadeira Weltanschauung. Daí concluímos que uma reta Christanehauung é o elemento indispensável para uma reta Weltanschauung.

18) Entra aqui o problema da contemplação natural e sobrenatural que já foi suficientemente estudado em outras ocasiões.



* Os argumentos "tipo Santo Inácio" são elementos indispensáveis para o amor a Deus, mas só eles não bastam para a plenitude desse amor



19) Para refutar aqueles que se querem contentar com os argumentos "tipo Santo Inácio", é muito eficaz definir a tese deles de modo seguinte, no qual o erro fica bem patente. A criação natural é de tal maneira supérflua para a ascensão da alma a Deus, que o comum dos fiéis pode e deve dispensá-la e é ocioso ensinar-lhes o meio de se servirem da Criação como elemento para glorificar a Deus.

20) A luz primordial subjetiva potencial, mais a luz primordial objetiva, mais o amor, é igual à luz primordial subjetiva atual. Esta luz primordial subjetiva atual é sinônimo de personalidade. A mentalidade é a parte da personalidade consistente nas virtudes intelectuais.

21) A mentalidade é o estado de espírito que vê certa Weltanschauung. A mentalidade é o elemento subjetivo enquanto a Weltanschauung é o elemento objetivo.

Definição de Weltanschauung: é visão do universo em que a mentalidade destacou e estruturou os aspectos da luz primordial objetiva.



* Há elementos da personalidade que não fazem parte da mentalidade



22) Como vimos, a mentalidade é a parte da personalidade que compreende as virtudes intelectuais e seus frutos. Pergunta-se: que parte da personalidade não faz parte da mentalidade?

Vários elementos. Quase toda a sensibilidade; aspectos da inteligência não relacionados com a luz primordial como, por exemplo, os conhecimentos da matemática que possa ter um cavaleiro espanhol, etc.



* Porque é a mentalidade que governa os hábitos, os instintos, etc.?



Sobre a segunda questão:

1) Note-se que, conforme o enunciado das questões a luz primordial primeiro modela a mentalidade, e depois a mentalidade modela os hábitos, instintos, etc. Por que isso? Por que não dizemos, diretamente, que a luz primordial modela os hábitos, instintos, etc?

Dado que a inteligência é o elemento mais nobre do espírito humano, sobretudo se a considerarmos enquanto sede da sabedoria, é evidente que qualquer ação profunda que se exerça sobre o homem deve começar por dominar a sua inteligência; só depois é que passará as suas demais faculdades, modelando-se.

2) As demais observações sobre a segunda questão, bem como sobre as questões seguinte, foram ditadas no gravador.



* O amor ao absoluto e sua influência nas instituições, costumes e leis



[Nota avulsa a ser encaixada no fim do texto gravado -- nota relativa à 6ª questão]

No estudo da influência do amor ao Absoluto nas instituições, costumes e leis, devem-se estudar dois problemas:

1) Em que medida o amor de Deus diferencia a sociedade católica da não católica? Na resposta a essa questão, não se deve apenas distinguir a sociedade católica -- existente num povo católico -- da não católica, mas deve-se antes de mais nada distinguir a sociedade orgânica -- que é a verdadeira sociedade católica -- da revolucionária. Estudar a sociedade orgânica pré-católica.

2) Na sociedade católica, de que importância é o fato de que o amor seja mais ou menos intenso? Na resposta deve-se focalizar a "chama" existente na câmara escura, na qual está a origem de todo o dinamismo do amor. E aí devem-se distinguir três hipóteses.

a) A chama é tal que é capaz de fazer com que a pessoa pratique todos os Mandamentos em sua integridade;

b) A chama é tal que é capaz de fazer a pessoa, além dos Mandamentos, pratique também muitos conselhos;

c) A chama é tal que nem sequer é capaz de fazer com que a pessoa pratique os Mandamentos em sua integridade.



* * *

1- Há a sociedade semi-orgânica pagã, baseada nos restos da religião primitiva e da sociedade patriarcal.

2- Há a sociedade anorgânica pagã em que isto se deteriorou -- Grécia dos demagogos, fase plebéia da República Romana, Império Romano, etc. É sociedade revolucionária.

3- Há a sociedade católica orgânica: Idade Média.

4- Há a sociedade semi-católica e semi-orgânica: Ancien Régime.

5- Há a sociedade ex-católica, neo-pagã e revolucionária, gnóstica; comunismo, etc.

6- Esta é pior do que a nº2 porque é uma apostasia pior.





* O problema da luz primordial, quanto aos indivíduos, às famílias, às profissões, aos países



(Dr. Adolpho: A luz primordial é uma apetência da alma, ou melhor, é uma apetência de toda a alma, portanto das três potências da alma: inteligência, vontade e sensibilidade. Para umas pessoas é uma apetência da inteligência, para outras mais da vontade, para outra mais da sensibilidade.

Para as pessoas que têm apetência para sua luz primordial objetiva por meio da sensibilidade, ela mais facilmente possui a parte da inteligência no subconsciente, de modo que ela tem aqueles movimentos muito violentos de seu ser tendendo para aqueles bens, para aquelas perfeições, mas de um modo meio subconsciente. Ao passo que aquelas pessoas que têm a tendência para aqueles bens de sua luz primordial por meio de uma ação da inteligência, racionalizam e tornam a coisa consciente com muito mais facilidade.)



* Se o ambiente material forma uma mentalidade



Pergunta nº3: como a junção de várias pessoas de mesma mentalidade católica forma um ambiente com todos os elementos supra, um estado coletivo nos grupos intermediários?

É evidente que uma pessoa pode formar para si uma mentalidade inteiramente católica, sem o concurso de um ambiente ou sem o concurso do convívio de pessoas afins. Mesmo porque muitas vezes, é exatamente o extremo do erro, ou o extremo do mal que possibilita à pessoa, por exclusão, compreender perfeitamente o bem. Assim, faz, por exemplo, a Igreja quando em função das heresias, ela define os dogmas. De maneira que isto é uma coisa líquida.

O problema, portanto, se precisa no seguinte: posto que uma pessoa esteja em convívio com outras afins, num ambiente afim, de que utilidade é, que papel tem na formação da mentalidade, da...

A pergunta fica facilmente respondível à luz dos dados que foram expostos ontem à noite. Porque consideramos o fenômeno da contemplação mostrando que, na contemplação quer natural, quer sobrenatural, o espírito considera uma determina coisa da qual ele tem uma apetência por sua luz primordial subjetiva, detesta aquilo que na realidade consiste o objeto da luz primordial objetiva, detém-se na consideração disto, e faz aquilo seu, no sentido de que, amando aquilo, de algum modo conforma-se com aquilo e, portanto, faz nascer em si aquelas qualidade que aquilo tem.

De maneira que, então, está muito bem entendido que o homem, num ambiente favorável, encontra riqueza de alimentação toda especial.



* O ambiente vivo é mais importante do que o ambiente material



Haveria apenas a situar o papel preponderante que existe num ambiente, no contato das pessoas vivas, dos seres vivos de um homem com outro homem, coisa muito mais importante do que o ambiente material de que a pessoa se cerca. Para Adão, no Paraíso, tudo está meio vazio antes que aparecesse outra pessoa com que ele convivesse. Todas as coisas materiais constituem um universo menos rico do que um só homem.



* O reflexo da concentração e interpenetração das luzes primordiais sobre a sociedade de almas



Uma outra questão está ao lado dessa, e que é de toda importância estudarmos, que seria a seguinte: todo grupo de pessoas que se encontra junto consiste, ou pode formar, uma sociedade de almas, desde que esse convívio tenha uma certa estabilidade. Então, trata-se de saber se o fato delas agirem em função de sua luz primordial, e agirem prestando cada uma à outra o serviço e a cooperação de uma detectação recíproca de luzes primordiais e de uma concentração de luzes primordiais, se isto tem algum reflexo nessa sociedade de almas e qual seja esse reflexo.



* As luzes primordiais se ordenam entre si pelo sistema feudal



(A.X.: Ainda no estudo da questão terceira devemos observar que as luzes primordiais das várias pessoas se ordenam entre si no sistema feudal que já tem sido descrito. Poderíamos colocar um princípio máximo que seria a luz primordial da pessoa mais propriamente, por exemplo, do cavalheirismo; abaixo desse princípio outros menores que viriam imediatamente depois. Assim poderíamos construir pouco a pouco uma verdadeira árvore de luz primordial da pessoa ou melhor, uma verdadeira árvore dos princípios que compõem a luz primordial da pessoa. Esses princípios se ordenam entre si como os gêneros e as espécies.

Com efeito, um gênero mais vasto compreende a espécie que, portanto, é mais determinada que o gênero.

Na nossa comparação, um princípio mais genérico estaria na parte inferior, ou melhor, nessa árvore das luzes primordiais, o princípio mais genérico seria aquele estivesse na base da montanha; o princípio mais específico, mais determinado, seria aquele que estivesse no cume da montanha.



* Como se processa a fusão das luzes primordiais



Isto posto, nós nos devemos perguntar como se dá, nas diversas sociedades, vamos tomar em primeiro lugar a sociedade intermediária como se dá essa fusão dos homens em torno dessas luzes primordiais, de tal modo que a convivência alimente e enriqueça a luz primordial de todos eles. Como se dá esses... [ininteligível] das luzes primordiais?

Parece-me que poderíamos estabelecer a seguinte comparação: se a luz primordial de um homem é uma montanha, a luz primordial de outro seria também uma montanha. Mas essas duas montanhas não são duas montanhas inteiramente isoladas que desde a base até o pico nada têm em comum. São montanhas que a partir de uma certa altura, ou melhor de um certo ponto para baixo formam um bloco único. Seria então uma grande montanha que tivesse dois picos. A parte comum das duas montanhas é formada pelos princípios que são comuns às luzes primordiais das duas pessoas. Cada uma tem, pois -- numa larga medida pois suas luzes primordiais são assim princípios comuns que correspondem a ambas as luzes primordiais -- mas cada uma tem sua individualidade própria, sua luz primordial própria que seria aquele pico.



* O que se entende por pessoas da mesma luz primordial



O que é uma sociedade grande de pessoas da mesma luz primordial? Quando se diz pessoas da mesma luz primordial quer-se indicar pessoas que numa larga medida têm as suas montanhas em comum, mas cada uma, naturalmente, terá o seu pico próprio.



* Como conseguem conviver pessoas de luzes primordiais muito diferentes entre si



Como se passam as coisas no caso de pessoas que têm luzes primordiais muito diferentes e que então, num contraste, conseguem conviver muito bem e, por exemplo, manter uma conversa muito interessante e rica.

De fato, são picos que estão longe uns dos outros. Por isto, a parte das montanhas que é comum a ambos, é uma parte que está muito embaixo da montanha, muito próximo à base. No entretanto, existe esta parte comum. Conseqüência: se as duas pessoas numa conversa, põem em relevo esta parte comum, podem manter uma conversa muito interessante. Cada uma iluminará esse ponto comum pela luz que é própria à sua luz primordial. Assim, será possível a cada uma delas compreender novos aspectos, novos valores daquele princípio que já admitia, porque fazia parte de sua luz primordial.



* A classificação das sociedades conforme o atendimento às luzes primordiais de seus membros



Podemos distinguir vários tipos de sociedade segundo elas atedam às exigências da luz primordial de seus membros. A sociologia americana estudada pelo Adoplho estabelecia a distinção "sociedade primária" -- "sociedade secundária": a sociedade "primária" seria aquela em que todos os membros se conhecem; "secundária", aquela em que os membros não se conhecem.

Esta distinção tem alguns aspectos interessantes, mas nos parece pobre. Para nós seria mais interessante tomar uma outra distinção, que seria: a sociedade "capital" e a sociedade "complementar".



* O que é a sociedade capital e a sociedade complementar



A sociedade "capital" é aquela que pega o homem do lado da sua luz primordial; na qual ele encontra a plena satisfação da sua luz primordial. A sociedade "complementar" é aquela que lhe fornece outros elementos que lhe facilitam as outras atividades, mas que não são propriamente aquelas ligadas às atividades da sua luz primordial. Por exemplo, alguém que tenha a luz primordial do lado militar, pode, ao lado disso, gostar de praticar um determinado esporte. A sociedade esportiva a que ele pertença será uma sociedade "complementar".

Todo homem tem uma sociedade "capital". Muitas vezes ele não a encontra. Muitas vezes não há outros que tenham a sua luz primordial ou uma luz primordial semelhante e que, por isto, se unem a ele para formarem uma sociedade que seria a sociedade "capital" dele. Ele borboleteia entre várias sociedades procurando destilar de cada uma aquilo que corresponde à sua luz primordial. Mas isto é um fenômeno de desajustamento. O normal do homem é encontrar uma sociedade na qual sua luz primordial encontre sua plena satisfação.

Por sua vez, a sociedade "capital" precisa ser distinguida em sociedade "próxima" e sociedade "capital transcendental". A sociedade "capital próxima" seria, normalmente, a família. A "transcendental" seriam as sociedades maiores dentro das quais a família se encaixa.



* A luz primordial da pessoa muitas vezes é dada pela família, mas há exceções



Há exceções em que a família não dá a luz primordial de uma pessoa. Por exemplo quando é o caso de um defeito de família, quando, por exemplo, o indivíduo é católico e toda a família passa para o protestantismo. Resultado: a pessoa já não tem a sua luz primordial na família, porque a família entrou para a linha dos defeitos capitais e vai afundar. Ou é o caso de um indivíduo que se complete e passe de republicano a monarquista, numa família republicana. É claro que muito da luz primordial da família já se dissocia. O filho pródigo, por exemplo, para ele a família já não representava a sociedade "capital". Exatamente, ele apostatou da família para ir para a cidade. Ele era um aventureiro. De um modo geral o aventureiro entra nessa linha.

Dentro dessa linha também podemos colocar o... (...), isto é, o sujeito cuja família toda morreu. São situações excepcionais.

Podemos conceber certos casos excepcionais -- muito mais raros, portanto -- mas que não tenham esse caráter morboso, mas que têm sobretudo em matéria de luz primordial, um morbos especial que é uma falta de hierarquia, de hierarquização de todas as apetências da pessoa, em torno da luz primordial verdadeira, em que a pessoa se acha num fenômeno de dissociação, em que ela quereria, ao mesmo tempo, correr atrás da luz primordial e de várias pseudos-luzes primordiais: a pessoa não encontra seu eixo em lugar nenhum. E isto é um caso morboso, freqüente em nossos dias devido à desorganização em que o mundo caiu. Então, gerando desajustamentos, etc. Mas para o grosso dos indivíduos, a família dá toda a luz primordial.



* Como se deve entender a família de luzes primordiais



Acontece que a família deve ser vista num sentido amplo e não apenas num sentido estrito; ou por outra, em todo o seu sentido amplo e não apenas em seu sentido estrito. Porque o próprio da família é não se reduzir a apenas um conceito de caráter congenealógico. Por exemplo, a doutrina católica costuma afirmar que a sociedade heril formada pelas relações entre patrão e empregados, é um elemento integrante da família: Vê-se aí a receptividade da família para acolher a integrar a si elementos que não são necessariamente ligados a ela pelo sangue.

O mesmo se pode dizer da profissão. A profissão é um campo no qual a família encontra a aplicação conveniente da sua luz primordial. A família vai viver aquela profissão. Por esse mecanismo, a generalidade de seus membros entra para aquela profissão. Se não entra para essa profissão, entra para profissões muito afins com ela. Esta é a regra geral. De onde há todo um ambiente profissional marcado pela penetração da família.

(...)

O que acontece?

Os outros elementos que se encontram nesse ambiente profissional e que não são da família, são como que assumidos e assimilados por ela. Portanto, tudo isto acaba entrando dentro da vida de família. Exemplo muito banal mas muito elucidativo: o marceneiro que forma uma só família com sua família, com os seus empregados domésticos, mas também com os empregados da carpintaria. Ou exemplo muito frisante do século XIX ainda: o tabelião que morava junto ao cartório e que formava uma só família com os escreventes do cartório também. Nesta linha a família pode até ser integrada pelos mendigos que vão lá pedir esmolas e que têm um prato de comida pelos fundos da casa.



* As famílias de luz primordial vão se formando em diversas escalas



Então a profissão acaba sendo marcada pelo ambiente de família. Por outro lado, acontece que a profissão se requinta a si mesma na conjugação das várias unidades da profissão. Assim, por exemplo, na corporação. A corporação é uma sociedade de carpintaria que, pela aproximação dos vários elementos da carpintaria destila os elementos comuns, genéricos da carpintaria. Um carpinteiro que tenha fibra, não se contenta em freqüentar a carpintaria, mas se aproxima da corporação dos carpinteiros. Com o convívio com a corporação, ele fortifica alguma coisa em si que pela amplitude de sua personalidade pede mais do que a carpintaria. Mas acontece que, por seu lado, a carpintaria é ela também imersa no ambiente de família; não da família deste homem, mas das relações das famílias que constituem o ambiente social dos carpinteiros. O ambiente da família não é dado apenas pelas relações de parentesco das várias famílias parentes entre si, mas também das famílias que mantém entre si relações familiares sem parentesco. Forma, portanto, uma grande família que é o ambiente social que acompanha a corporação. De maneira que neste sentido a corporação fornece ao indivíduo em ponto mais amplo, toda a sua luz primordial também... que ele tem em casa.

Concluímos então, que alguns indivíduos ou, alguns casos, algumas famílias de maior plenitude, dirigem-se como que ao centro de todo aquele ambiente, e se compenetram mais profundamente daquilo. Elas continuam a ser profundamente elas mesmas. Mas por uma riqueza que lhes é própria, além delas mesmas, elas ainda representam o ambiente geral, representam a corporação, ou representam aquele ambiente social que flutua, que vive em torno da corporação.

Poderíamos, depois, ir ampliando a pirâmide. Um certo grupo de famílias ser o grupo mais importante dessa profissão no país. Isto vai indefinidamente.

Este esquema se aplica mutatis mutandis também a outras situações. Por exemplo, um nobre. A família do nobre é um pequeno feudo. A luz primordial do nobre é uma espécie de síntese de todas as luzes primordiais do povo, assumidas pela sua família, marcada pelo que sua família também tem de específico, de maneira que a família do nobre é aquele lugar. É o que Claudel exprimiu naquele trecho sobre M. de...: era uma árvore que tinha de tal maneira deitado raízes em todo o solo, que ela, a bem dizer, sugava toda a seiva do solo, e ela era como a sublimação daquele solo onde deitava raízes. Então, a família de M. de... é profundamente....

Mas se a família... tem verdadeiro tutano, ela não representa apenas...., mas ela se eleva. Vamos tomar o caso da família.... É inteiramente o lugarzinho chamado.... Mas sendo este lugarzinho, ela é também por um processo de transcendência, ela é também inteiramente nobreza húngara, e ela é a personificação da nobreza húngara. Mas, ao mesmo tempo que ela é a personificação da nobreza húngara, por um processo de sublimação, ela toca nos interesses gerais da Hungria e, de algum modo, ela personifica a Hungria; está próxima de personificar a Hungria. Ela vê a Hungria. E vendo a Hungria, por um processo de sublimação, ela vê a monarquia dual. E vendo a monarquia dual, vê a nobreza inteira. Ela não é senão a personificação da nobreza húngara. Mas ela tem já "uma como que" visão de todo esse resto. De tal maneira que se a família real se extinguisse, a família... muito facilmente poderia substituir a família real. Ela estaria madura para ocupar o trono. Toda grande monarquia tem várias famílias assim; maduras para ocupar o trono caso a dinastia se extinga. E é isto que explica bem o papel do príncipe... coberto de peles de pantera e de brilhantes, vestido à maneira de um magnata húngaro, desembarcando em Londres para representar a monarquia húngara na coroação da rainha Vitória. Ali ele estava representando as...[inaudível], mas, ao mesmo tempo, representava toda a nobreza húngara. Era também a representação da Hungria, da monarquia dual, etc., etc.

Há, portanto, um processo de sublimação, ou de transcendência que se exprime por esta forma.



* Qual o papel da sociedade "complementar"



À vista de um exposição tão estrita, seríamos levados a perguntar o que faz a sociedade "complementar", porque se tem a impressão de que a sociedade "complementar" não tem razão de ser.

Eu procuro colocar o problema nos seguinte termos: a razão de ser da sociedade "complementar", hoje, é óbvia, porque hoje é uma época de desajustamento, em que não se respira essa sociedade "complementar". Numa sociedade organizada como deve, que papel faz a sociedade "complementar"?

Na minha concepção, a sociedade "complementar" é uma sociedade de que, normalmente, salvo casos excepcionais, existe dentro do próprio ambiente social. Ela só não existe dentro do próprio ambiente social, quando é uma sociedade de... de si mesma.

Vou dar uns exemplos: vamos tomar uma sociedade orgânica. A sociedade orgânica tem uma corporação, ou tem um exército, ou uma nobreza, onde as pessoas que têm gosto pela música, os bons músicos amadores se reúnem para fazer música. Então, num ambiente desses, muito rico, deve-se engendrar uma porção de sociedades "complementares", de si mesmas, mas dentro de si mesmo.

Então compreendamos o coral de.... É exatamente um ambiente fechado que engendra para todos os membros, para a satisfação das necessidades de seus membros, engendra determinadas coisas que agrada. Mas acontece que os espíritos verdadeiramente excepcionais dentro dessa atividade "complementar", não devem satisfazer nisso, porque são maiores do que aqueles simples amadores com que privam.

Então, compreende-se um fenômeno de dualidade. Por exemplo, característico desse fenômeno de dualidade numa sociedade orgânica é um indivíduo que é ao mesmo tempo membro da Academia Francesa -- no tempo de Luís XIV por exemplo -- e é nobre. Outro membro da Academia Francesa é clérigo e ainda outro membro da Academia Francesa é burguês e até comerciante. A Academia Francesa vem a ser uma sociedade "complementar" onde se reúnem os ases de uma determinada atividade. E se reúnem para uma produção tal que acaba havendo uma inversão de valores; um membro da Academia de Letras continuando principalmente membro de sua família e, entretanto, muito secundariamente, membro de sua profissão. Ele é, principalmente, na ordem profissional, membro da Academia Francesa de Letras. É uma sociedade de ases, o que uma Universidade, necessariamente, não é.

E aqui, eu posso compreender ases da filatelia, etc. Ases em todos os campos. Mas para compreender o papel dessas sociedades é preciso compreender que o ás é uma exceção, mas uma exceção que existe sempre. Mas ele não é um homem comum. Por exemplo, um grande músico é uma exceção. Por isto o papel das sociedades complementares acaba sendo, em princípio, um papel também ele, de natureza excepcional.

Agora, aqui vem o lado viscoso e escorregadio da coisa. Entre o ás e o homem comum, há transições, há gamas intermediárias. Portanto, pode haver situações em que se compreenda sociedades complementares fora do ambiente de cada um, que não seja necessariamente de ases também, o que também serão exceções mais ou menos freqüentes.

O Arnaldo lembra que além desses casos, pode se conceber também o seguinte: certas pessoas que em determinadas profissões têm, além de um interesse dominante profissional, etc., a título de repouso, de deleite de espírito, etc., pretensão para um determinado ramo, um determinado tema, em que ele não encontra dentro de seu próprio ambiente muitos congêneres. O resultado é que ele vai procurar esses congêneres, as pessoas que gostam desses congêneres vão procurá-los em vários ambientes, formando uma sociedade que, por isto mesmo, é.... Radioamador é uma coisa característica.

Poder-se-ia conceber, por exemplo, uma liga de radioamadores especialmente dentro de um certo grupo de exército, por exemplo. Mas o radioamador não vai falar só de exército, é lógico. Os rádioamadores de uma cidade, por exemplo, o farmacêutico, o bilheteiro de cinema, o prefeito e o padre formam uma sociedade de rádios-amadores. Depois certa atividades dessa natureza estendem-se, entrelaçam-se através de grupos sociais diferentes.

Então há relação, por exemplo, de esgrimistas em várias classes sociais que forma como uma floresta, os cipós que passam de uma árvore para outra e que estabelecem linhas fecundas de entrecruzamento dentro do corpo social.



* O centro de gravidade do indivíduo está na sociedade mais transcendental da qual ele é membro estável



Segundo uma ponderação do Adolpho registramos aqui o seguinte: que um indivíduo dentro da linha... tem seu centro de gravidade na vida de corte, entendido centro de gravidade como sendo aquele atividade que ocupa qualitativamente um papel preponderante dentro do conjunto das atividades que um... desenvolve. Com efeito, um homem desses deve passar, para ser ele mesmo, uma parte de sua vida em..., e uma parte de sua vida na corte.

Mas a parte mais alta, a parte mais nobre de suas atividades, ele realmente realiza na corte que é, por isso mesmo, o lugar onde suas melhores apetências se dilatam mais e ele se sente melhor. Neste exemplo passamos para um princípio de caráter geral. Quando uma pessoa pertence à uma sociedade capital básica e, depois, também a várias sociedades transcendentais, ele tem seu ponto de gravidade normal na sociedade mais transcendental da qual ele participa. Mas no conceito de centro de gravidade entra um outro elemento, que é o seguinte: é a sociedade transcendental com a qual ele não toma contato furtivo, mas com a qual ele toma um contato estável e durável. Assim, esse..., de fato, teria contatos furtivos com sociedades transcendentais mais altas, mas esse não seria seu centro de gravidade. A noção de seu centro de gravidade não comporta, a não ser isso, esses elementos de estabilidade também.





A. R. M.