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Normal – ??/??/55 – ?ª feira .
Reunião Normal — ??/??/1955
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Na Idade Média, a Igreja era verdade estabelecida e certa, não podendo ser negada em boa fé * Sendo a Igreja Católica a única verdadeira Ela ocupa uma posição única na sociedade com exclusão de qualquer outra * Na Idade Média estava-se convencido que o Estado tem o mesmo fim dos homens que o compõem, isto é, a glória de Deus * É obrigação do Estado apoiar a Igreja na salvação das almas * O ato de coroação da Rainha da Inglaterra contém a idéia medieval de que todo poder vem de Deus * O ver no chefe de Estado o representante de Deus acabaria com o permanente carnaval da política * O agnosticismo do Estado provoca a indiferença religiosa * O Papa como supremo juiz da sociedade temporal * A prática dos mandamentos pode fazer qualquer país uma das maiores nações do mundo * Como a prática dos Mandamentos é a chave da vida de um país, para o Estado não há coisa mais importante que promover isso * A Igreja, cercada de prestígio pelo Estado, promove a caridade, e esta o progresso social e até científico * A Igreja, propagando a caridade, formou a civilização. A paganização moderna, sem caridade, a está destruindo
* O estudo em nível universitário da História pede que se remonte até as fontes doutrinárias
Eu dou a maior importância nas exposições, a que as idéias estejam bem claras e os fundamentos bem demonstrados, porque os fundamentos bem demonstrados servem de ponto de partida bom para as coisas, enquanto os fundamentos fracos dão naturalmente edifícios fracos.
Eu deveria falar hoje a respeito da posição [da Igreja Católica] na Idade Média.
Mas quando nós estudamos História, não no nível ginasial ou secundário, mas no nível já universitário, nós compreendemos que para que se tenha uma noção exata das instituições, da doutrina, dos costumes enfim, é preciso remontar até a fonte doutrinária e conhecermos um pouco os pensamentos e as idéias que serviram de fundamento a determinadas instituições.
* A compreensão da Igreja na Idade Média depende essencialmente de sabermos o quê o católico medieval pensava d’Ela
Para nós compreendermos bem a posição da Igreja na Idade Média, o elemento essencial, primordial, consiste em nós compreendermos bem o quê é que o homem medieval pensava a respeito da Igreja Católica.
À primeira vista, poderiam me dizer o seguinte: “O homem medieval era católico, o brasileiro contemporâneo é católico. Uma estatística recente assinala que mais de 95% dos brasileiros são católicos. Ora, o que pensa um católico da sua Igreja? Pensa que ela é a Igreja verdadeira”.
Então, os senhores daí poderiam concluir que se o homem medieval era católico e o brasileiro é católico também, o homem medieval pensava mais ou menos, ou exatamente a respeito da Igreja Católica o que pensa um brasileiro médio de nossos dias. De fato, o raciocínio seria especioso, mas não é concludente.
É que em um ponto central, o brasileiro médio de nossos dias tem um pensamento a respeito da Igreja Católica que não é muito exato. E isto o diferencia do europeu medieval. É o pensamento, são as provas de que a Igreja Católica é a verdadeira e única Igreja de Jesus Cristo.
Para acentuar antes de tudo a importância do problema, vou recorrer a noções de caráter diverso.
* O fato científico estabelecido não pode ser negado por quem tem boa fé
Os senhores tomem, por exemplo, o que nossas leis determinam em matéria de medicina. Elas determinam que há livre pregação para as duas grandes escolas de medicina que existem: a homeopatia e alopatia. Um médico tanto pode ser homeopata quanto alopata. Pode montar consultório, difundir suas idéias, discutir cientificamente o problema. Nenhuma autoridade policial vai perseguir um médico porque ele é alopata ou porque ele é homeopata.
Mas, por outro lado, nossas autoridades não vão permitir que um indivíduo exerça a medicina, e empregue sistemas médicos, e curar com processos que sejam infantis e absurdos.
As nossas autoridades não vão permitir, por exemplo, que uma pessoa vá fazer propaganda de macumba para curar. É uma coisa ilegal.
Por quê não se pode fazer isto?
Porque é cientificamente certo que a macumba não cura. É uma coisa cientificamente certa que a homeopatia pode curar e que a alopatia pode curar. Pelo menos, é uma coisa que se pode discutir. Pode-se dizer com bons argumentos científicos que a homeopatia cura, como pode-se dizer com bons argumentos científicos que ela não cura. Mas não é uma coisa cientificamente [certa] que a homeopatia não cura. O resultado é que a homeopatia pode se difundir. Mas a macumba, como é uma coisa rejeitada pela ciência como processo de cura, não pode ser aceita.
Tomemos outra questão. Há muito tempo atrás houve uma revolução aqui em São Paulo [1924], e pouco depois o governo ganhou a revolução e, pouco depois da revolução, arrebentou uma epidemia de tifo nos arredores de São Paulo. A Saúde Pública então, começou a vacinar obrigatoriamente o povo contra o tifo.
Certas pessoas do povo, levadas pela ignorância, começaram a afirmar que o tifo era uma coisa que se curava sem vacina e que o governo estava vacinando o povo, para castigar o povo pelo fato de ter aderido à revolução.
Os senhores vêm que é um absurdo. Como era uma opinião estapafúrdia, o governo mandou proibir esta propaganda e mandou tornar obrigatória a vacina.
Qual é a razão que está por detrás desses fatos correntes e comuns?
A razão está em que, quando nós, quando a ciência, quando o raciocínio humano prova de um modo inteiramente claro, inteiramente certo para toda pessoa de boa fé, que uma determinada afirmação é verdadeira, não se pode fazer propaganda do contrário.
Quando a razão ainda não provou isto com uma certeza tal que não tenha discussão, então pode-se fazer propaganda do contrário.
* Na Idade Média, a Igreja era verdade estabelecida e certa, não podendo ser negada em boa fé
Esta ordem de idéias entra também no terreno religioso. O homem medieval entendia que as provas que a Religião Católica tem de que Ela é a verdadeira religião, são provas tão claras, tão certas, tão acessíveis a todo intelecto humano pela graça de Deus, que nenhum homem de boa fé, devidamente instruído, pode negar que a Igreja Católica seja a verdadeira. Todo homem de boa fé devidamente instruído — acentuo os dois atributos. É preciso que seja de boa fé, quer dizer, tenha vontade de encontrar a verdade e, em segundo lugar, que seja devidamente instruído, isto é, que tenham posto ao alcance dele as provas adequadas. Que ele tenha tido uma boa demonstração de acordo com seu nível de cultura.
Todo homem de boa fé e devidamente instruído tem graça de Deus para verificar que a Igreja Católica é verdadeira. E isto com a mesma certeza com que o homem faz qualquer outra demonstração do mesmo gênero. Uma boa demonstração filosófica, uma boa demonstração científica etc. É um grau de certeza. O homem pode ter certeza disso.
* Sendo a Igreja Católica a única verdadeira Ela ocupa uma posição única na sociedade com exclusão de qualquer outra
De onde, então, decorre que sendo certo que a Igreja Católica é a Igreja verdadeira, Ela deve ocupar dentro da sociedade, deve ocupar dentro da vida, dentro do mundo um papel incomparável.
Uma vez que Ela é a Igreja de Deus, a Igreja instituída pelo próprio Jesus Cristo, Ela tem um papel incomparável, único na sociedade, que não pode ser comparado ao de qualquer outra instituição.
Esta ordem de idéias tem também outro corolário: fica proibida a propaganda de outras religiões que não seja a Religião Católica. É permitido a uma pessoa praticar uma religião que não seja a Religião Católica, mas não é permitido fazer propaganda. Porque eu posso permitir que uma pessoa, no seu foro íntimo, ache qualquer coisa. Mas eu não posso permitir que ela propague coisas que são claramente contrárias à razão.
* Objeção: raciocínio rigoroso demais?
Os senhores me dirão: “Mas não é um pouco rigoroso este modo de pensar?” E eu direi que é. É rigoroso com o rigor da lógica, porque tudo quanto é lógico é rigoroso. A lógica não admite coisas que não sejam rigorosas. A tal ponto que quando a gente quer fazer um raciocínio bem feito, a gente diz: um raciocínio rigorosamente lógico. A lógica é rigorosa por sua natureza.
Quando a lógica prova que todo homem é mortal, ora, se sou homem, logo sou mortal; esse raciocínio é rigorosíssimo. Não admite mais ou menos.
A lógica e a certeza são rigorosas pela natureza. Daí decorre que um raciocínio desses é um raciocínio rigoroso, mas é um raciocínio que nos conduz à verdade.
* Nosso Senhor Jesus Cristo é o Deus Humanado. Como poderia ter Ele fundado a Igreja com base no “mais ou menos”?
Os senhores imaginem Jesus Cristo instituindo Sua Igreja, como o Evangelho nos conta que instituiu, e dizendo aos Apóstolos o que Ele disse: “Ide e ensinai a todos os povos em Meu nome, batizando-os em Nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Os que crerem serão salvos e os que rejeitarem não serão salvos”.
Agora, se Jesus Cristo foi Deus e se Jesus Cristo tinha, como tem, uma sabedoria infinita, era possível Ele dizer o seguinte: “ensinai a todos os povos que esta religião é verdadeira, mas os argumentos dessa religião são argumentos mais ou menos”.
Como é que a gente pode ensinar com argumentos mais ou menos? Quem é que aceita mais ou menos? Os argumentos da verdadeira Igreja não são argumentos inteiramente decisivos, então se torna impossível fazer uma verdadeira demonstração dela.
Ou Jesus Cristo é Deus e criou uma Igreja para justificar, inteiramente, para ser aceita pela razão humana com o auxílio da graça, ou Jesus Cristo não foi Deus. Porque criar, mandar que todos os homens acreditem e dar provas insuficientes para os homens acreditarem, não é obra de um Deus.
Um Deus não tem defeitos com sua obra. Era um defeito eu fazer uma obra, mandar que todos creiam, mas eu não dar um argumento suficiente para crerem.
Ou a Religião Católica é verdadeira, ou ela não tem argumentos bastantes claros para convencer os homens. Se Ela é verdadeira, seus argumentos tem que ser bastante claros para convencer os outros. É isto que nós brasileiros, hoje em dia, não temos muito.
Nós achamos que a Religião Católica é a verdadeira. Mas não achamos a coisa mais natural do mundo uma pessoa não ser católica. E achamos que a pessoa com a maior boa fé do mundo, com a melhor boa vontade, estudando pode achar que a Igreja Católica é errada. Se isto é verdade, então, a Igreja Católica o quê é? E Jesus Cristo que recursos deu à Igreja Católica?
Nós vemos por aí, que é falsa essa posição. E em resumo, nós dizemos que devemos sustentar o seguinte: que a Igreja Católica não só é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo, mas que é claro para quem queira estudar o problema, que Ela é a verdadeira Igreja, e que portanto, de boa fé, não se pode sustentar o contrário.
* Na Idade Média estava-se convencido que o Estado tem o mesmo fim dos homens que o compõem, isto é: a glória de Deus
Na Idade Média nós temos um mundo que está inteiramente certo que a Igreja Católica é a verdadeira e que age de acordo com isso, sem maiores preocupações. Eles diziam que todos os homens são criados por Deus. Sendo criados por Deus, todos os homens tem como fim o próprio Deus.
Ora, o Estado é composto de homens e não pode ter outro fim a não ser o próprio fim dos homens. Se os homens são criados para a glória de Deus, qual é o fim do Estado? O fim do Estado é o fim dos homens. É auxiliar os homens para eles viverem nessa terra e darem glória a Deus.
* É obrigação do Estado apoiar a Igreja na salvação das almas
Assim, a finalidade do Estado é uma finalidade que em última análise acaba sendo a própria finalidade da Igreja. Quer dizer, a salvação das almas.
De quê maneira o Estado agia no sentido da salvação das almas? Eles consideravam na Idade Média, que a obrigação do Estado consistia antes de tudo, em reconhecer a Igreja Católica como a verdadeira religião e, com isso, tributar à Igreja honras, tributar uma proteção, um apoio, que eram a maior proteção, a maior honra e o maior apoio que um Estado possa tributar à Igreja.
* Um prova do papel do Estado que ainda permanece: a coroação da Rainha Elizabeth II da Inglaterra
Nós temos disto provas incontáveis. Uma das provas mais evidentes disso, eram as cerimônias da coroação dos reis que se realizavam na Idade Média. Quem assistiu a coroação da Rainha Elizabeth da Inglaterra, teve oportunidade de ver um espetáculo todo ele medieval.
A abadia de Westminster, […inaudível] gótico maravilhoso, repleta das notabilidades do reino da Inglaterra. De um lado, são os elementos do clero, de outro lado são os representantes da nobreza, do outro lado são os representantes da plebe, e hoje em dia, os representantes das colônias que a Inglaterra tem espalhadas pelo mundo inteiro; os membros do corpo diplomático, etc., enchem literalmente a catedral, revestidos de seus trajes mais esplêndidos.
Desde a manhã um povo enorme se aglomera pelas ruas de Londres. A rainha sai às dez horas da manhã mais ou menos, quando as multidões já estão tão imensas, que houve gente dormindo à beira do caminho durante a noite, para ver o cortejo passar. Ela sai em sua carruagem dourada, precedida de pagens e palafreneiros, ela sai com seus trajes de coroação e se dirige para a catedral de Westminster para receber a coroa.
É o ato pelo qual ela toma posse do poder. É a partir do momento dessa cerimônia que ela se torna Rainha da Inglaterra. Antes disso ela não era rainha. Era a princesa herdeira com direito ao trono, exercendo até já o direito ao trono. Mas exercendo a título provisório, a título interino, enquanto não se realizasse a cerimônia na qual ela vai ser coroada.
Ela entra na igreja, toca o órgão, todas as pessoas se inclinam à sua passagem, ela se dirige ao altar. Então, começa a cerimônia tradicional. Ela começa por receber os óleos da igreja — infelizmente hoje, a Igreja Anglicana, separada da Igreja Católica. Mas essa cerimônia foi criada pela Igreja Católica.
Ela começa a receber os óleos para ser sagrada em sua pessoa, para ser intocável em sua pessoa. Depois, ela vai recebendo das mãos da Igreja, uma a uma, as insígnias da realeza, até o momento supremo em que o arcebispo de Canterbury se aproxima e, trazendo a coroa real nas mãos, ele a coloca sobre a cabeça da rainha. Neste momento então, é que a rainha se torna realmente rainha.
Começam a tocar os sinos, de Westminster, os canhões começam a dar salvas, todos os sinos da Inglaterra vão tocando, depois os sinos de todas as colônias inglesas. E há um júbilo em toda a Inglaterra. Qual foi o ato que desencadeou todo esse júbilo? Foi o momento em que o arcebispo de Canterbury colocou na cabeça da rainha a coroa. Foi o ato da coroação.
* O ato de coroação da Rainha da Inglaterra contém a idéia medieval de que todo poder vem de Deus
Esse simples gesto de tomar de uma coroa e de colocar sobre a cabeça da rainha, é o centro dessa […inaudível] que movimenta homens do mundo inteiro, que determina festas e regozijos, solenidades, etc. O que está contido neste ato? Está contida esta idéia, própria de todas as monarquias católicas da Idade Média, de que de acordo com a doutrina católica, todo poder existente na terra vem de Deus, o que aliás, são palavras de Nosso Senhor e estão escritas no Santo Evangelho. E que se todo poder vem de Deus, um soberano não deve tomar posse do seu cargo, como numa cerimônia leiga qualquer, como fazem tantos chefes de Estado hoje em dia.
Comparece perante um parlamento e, numa cerimônia em que a religião não tem nenhuma significação, declaram que são donos do poder público. No poder vindo de Deus, é preciso que a Igreja, que representa Deus na terra, a Igreja verdadeira dê as insígnias do poder ao rei.
Então o rei, ou nos países que não são monarquias, os chefes de Estado vão à Igreja e recebem das mãos da Igreja a insígnia do poder. Pode-se compreender quanto estas cerimônias tem um valor simbólico.
* O ver no chefe de Estado o representante de Deus acabaria com o permanente carnaval da política
Os senhores imaginem uma cerimônia destas — com o rei ou com qualquer outro chefe de Estado, porque isto não se dá só com o rei — se uma cerimônia dessas se realizasse aqui no Brasil. Os senhores não acham que toda a nossa vida política lucraria em dignidade, em seriedade, em moralidade, tomando este conteúdo religioso? Vendo no chefe de Estado o representante de Deus para a direção cívica do país? Nós não compreenderíamos muito melhor como é grave, como é sagrada a função política, e como não se pode fazer da política esse carnaval permanente, como é, infelizmente a política brasileira?
Exatamente o que nos falta é esse sentido religioso do poder, esse sentido religioso da política, e é esse sentido que está no fundo de uma cerimônia impressionante como esta. O Estado, na Idade Média, era, além disso, um Estado que vivia de manifestações católicas.
* O Estado assumindo oficialmente seu papel de católico, sacraliza a vida pública e põe a Igreja como Rainha benfazeja em seu reino
Quando havia luto nacional, por exemplo, quando havia guerra e havia uma batalha em que morriam muitos soldados na defesa da pátria, o rei mandava celebrar na catedral de sua capital, uma missa de Réquiem pela alma dos soldados mortos. Quer dizer, que era uma solenidade mandada fazer pelo Estado. Era o Estado que mandava celebrar a Missa.
Não era um ato particular do Presidente da República. Pode isto acontecer numa república em que a Igreja esteja separada do Estado, numa república moderna, que o presidente mande celebrar uma missa por conta própria, como homem, em favor das vítimas de guerras.
Aqui é o Estado; o Estado é que é católico e manda celebrar a Missa. Nessas missas o rei comparecia com toda a sua corte: compareciam as famílias dos soldados e ouvia-se um sermão em que todo mundo chorava a morte daqueles heróis que haviam morrido pela pátria e rezava-se pelo eterno repouso deles. Se havia vitória, o rei mandava celebrar um Te Deum soleníssimo na catedral, com repique de todos os sinos, com festas populares, para agradecer a Deus a vitória obtida.
Quando havia grandes datas nacionais, a primeira das celebrações era sempre missa, era sempre um ato religioso. Porque o Estado sendo oficialmente católico, agia como age um particular católico. O que faz um particular católico quando faz um bom negócio, quando obtém uma grande vantagem para sua vida? Ele manda celebrar uma missa em ação de graças.
O que ele faz quando perde um parente? Manda celebrar uma missa de Réquiem. O que ele faz quando está numa aflição? Ele manda celebrar uma missa, ou pede orações num convento, para que o apuro em que ele está se resolva.
Quantas vezes isto não se dava na Idade Média! Quer casos de calamidade nacional, misérias, epidemias, perigos de toda natureza, a gente via o rei sair à rua com toda a corte, convidando o povo para uma procissão penitencial. Iam todos se flagelando, pedindo perdão a Deus e pedindo que afastasse o perigo que ameaçava o país.
É impossível que ouvindo narrações como estas, não se sinta que este é que é o natural da vida de um católico. Estar num ambiente onde as coisas se passam assim. A religião está colocada no alto, como uma espécie de mãe no seu lar, como uma rainha benfazeja dentro do seu reino. Este é o estado normal da religião e isto é o que devemos desejar para ela.
* Na Idade Média a legislação era de acordo com a doutrina católica, caso contrário seria anulada
Além desta parte que eu chamaria a parte formal, havia uma outra coisa muito bonita. Se todo poder vem de Deus e se é verdade que é em nome de Deus que os Estados governam, a lei do Estado não pode deixar de ser uma lei de acordo com a lei de Deus. E por causa disso, todas as leis que eram feitas pelo Estado deviam ser conformes à doutrina católica. E se elas fossem contrárias à doutrina católica, eram nulas.
Na Idade Média, o modo de fazer leis era muito diverso do nosso. O rei podia fazer leis: nos feudos os nobres podiam fazer leis: por toda parte os costumes do povo tinham valor de lei; eles tinham certos organismos chamados estados gerais ou cortes, ou parlamentos — um pouco parecidos com os nossos congressos de agora — que faziam leis também. Toda essa riqueza de produção de leis estava sujeita a uma condição: se uma lei fosse contrária à doutrina católica, essa lei não devia ser obedecida pelos súditos.
Nós tínhamos, por exemplo, leis proibindo botequins ficarem abertos aos domingos na hora da missa. O botequim exercia uma atração sobre o medieval, maior que a de hoje. Mas a razão disto, é que o homem hoje, quando se distrai, ele se distrai muito com o cinema, com o rádio, com esporte, com televisão, de maneira que a conversa no botequim e a beberagem de algumas doses de pinga ficou um pouco desprestigiada, já não parece uma distração de primeira ordem.
Mas a vida era muito simples e muito sem distrações na Idade Média, de maneira que a atração do botequim era grande. E era muita gente que saía de casa para ir à Missa, parava no botequim para tomar um trago e, em vez de ir à missa, ficava conversando. Não tanto para se embriagar, mas pelo gosto de ficar conversando.
As leis de quase todas as cidades medievais proibiam a abertura de botequins ou de qualquer outra diversão, na hora da missa, para que à hora da missa, todo mundo tivesse razão de estar presente na Igreja.
* O agnosticismo do Estado provoca a indiferença religiosa
Os senhores estão vendo como isto é feito para apoiar a religião de todos os modos. E como isto forma bem a alma do povo. Isto é diferente de hoje, em que a gente vê a igreja aberta, os sinos tocando para chamar os fiéis, enquanto que ali perto, um auto-falante anuncia uma exposição onde está uma cobra de três cabeças. E muita gente vai ver a cobra e deixa a missa. Quer dizer, a missa fica uma coisa indiferente. Vai quem quer. Aquilo é uma coisa duvidosa. Vai quem quer. Quem acredita naquilo entra, quem não acredita, não vai.
* Exemplos de como leis de acordo com a Igreja protegem a sociedade
Os senhores imaginem a atmosfera de respeito que cria na cidade, na hora da missa todas as casas de diversões fechadas. As famílias que passam são famílias que vão calmamente assistir a sua missa. Depois, terminado o horário das missas, abrem-se os lugares de diversão honestos. E a cidade começa a gozar o seu domingo.
A Igreja, como os senhores sabem, tem uma porção de exigências em matéria de leis. A Igreja rejeita o divórcio, a Igreja dá toda uma organização à família; a Igreja determina que os operários tenham condições convenientes de existência, de trabalho, de remuneração; a Igreja protege os pobres, os infelizes contra a ganância dos ricos, contra os impostos exagerados; a Igreja, por outro lado, protege as elites contra a demagogia da plebe; a Igreja é um organismo de estabilidade social, de ordem social.
Nas leis, tudo deveria ser conforme o espírito da Igreja. Uma lei estabelecendo o divórcio, na Idade Média, era nula. Porque é contra a lei da Igreja. Então, se um Estado estabelece a lei do divórcio, considera-se a lei como não tendo sido escrita. Uma lei determinando, por exemplo, uma igualdade de direito de marido e mulher, no lar, como certas leis modernas chegam a fazer, esta lei seria nula, porque a Igreja considera o homem como chefe da sociedade conjugal. Como tal, uma equiparação completa entre os dois não é possível.
A Igreja dá direitos à mulher, mas não faz dela a cabeça do casal. Hoje há leis que praticamente estabelecem o contrário. Há leis, por exemplo, que dão à mulher o direito de tomar a profissão que quiser sem consultar o marido. Estas leis seriam impossíveis na Idade Média. Leis como existem hoje, equiparando os filhos legítimos aos filhos ilegítimos; dando aos filhos do pecado o mesmo direito no lar que aos filhos do sacramento, isto não seria possível na Idade Média. Porque seria contrário à doutrina católica. Não se discute.
* O Papa como supremo juiz da sociedade temporal
Isto deu origem a episódios dos mais bonitos na Idade Média e dos mais honrosos para o papado. Vemos muitas vezes na Idade Média, os povos oprimidos recorrerem ao Papa, para pedirem a proteção do Papa contra o rei. Nós vemos os papas intervirem e obrigarem os reis a baixar os impostos, a introduzir leis mais humanas, a não fazer guerras injustas, etc.
Eu me lembro do caso de um chefe de Estado de Milão — Milão era uma república e não uma monarquia —,o […inaudível] de Milão quis entrar em guerra com uma cidade vizinha. A cidade vizinha teve medo da agressão e mandou a toda pressa um mensageiro ao Papa, expondo a situação.
O Papa manda um recado aos milaneses: venham se justificar em Roma para ver que direito vocês tem de fazer essa agressão. Os milaneses mandam embaixadores com razões muito pouco convincentes. O Papa dá razão à cidade que os milaneses iam atacar e proíbe Milão de desencadear a guerra. O governo milanês passa por cima e desencadeia a guerra. O Papa, servindo-se desse poder supremo que ele tinha em todos os assuntos referentes à justiça e ao cumprimento da Lei de Deus, o Papa manda interditar a cidade de Milão.
E a interdição de Milão é um ato grandioso. O clero de Milão, acende todas as luzes das igrejas à noite e lê o decreto pelo qual as autoridades milanesas ficam depostas pelo Papa. Na hora em que se lê o decreto, todos os sinos dobram finados.
Os sacramentos não se distribuem mais nas igrejas, o culto está interrompido; o povo é convidado a sair à rua para, de modo pacífico, manifestar à autoridade que não está de acordo com aquela guerra injusta. De outro lado há recomendação para todas as cidades onde haja comércio com Milão, para suspenderem o comércio e desencadearem contra Milão a guerra econômica, de maneira a depois de algum tempo Milão estar reduzida a incapacidade de lutar.
Tão grande é o peso dessas armas em que nenhum sangue se derrama, que dentro de alguns dias as autoridades milanesas se entregam e a coisa volta a se normalizar.
* O Papa, sendo o Vigário de Cristo, podia interditar o reino que mantivesse injustiças sociais
Noutras ocasiões eram pessoas do povo que iam reclamar ao Papa, que os impostos lançados pelo rei eram pesados demais. Vem o Papa e examina a questão. E se os impostos eram extorsivos, o Papa declara que o reino está interditado se ele não voltar atrás. E se o rei não volta atrás temos a repetição da mesma coisa. Os impostos voltam então, à sua normalidade e o povo continua a viver.
Outras ocasiões o rei abandona sua mulher legítima e quer tomar uma concubina. A mulher legítima recorre ao Papa e este excomunga o rei. O rei procura às vezes resistir, às vezes cede. Mas, se ele procura resistir, o Papa desliga os súditos da obrigação de obedecer ao rei. O quê acontece? Uma revolta? Não, mas todo mundo continua a viver obedecendo àquele que é o sucessor do rei.
Automaticamente o rei fica de lado. O rei, para não se sentir definitivamente deposto, volta atrás. Ele faz cessar o escândalo no seu palácio, abandona a concubina e a normalidade se refaz. Os senhores estão vendo que todas estas idéias procedem de alguns princípios que são muito caros aos nossos corações de católicos. O princípio de que o Papa é o vigário de Jesus Cristo e que ele pode na terra, o quanto Jesus Cristo. Se Jesus Cristo estivesse presente na terra, não lhe reconheceríamos o direito de fazer todas estas coisas? Pois o Papa, vigário de Jesus Cristo pode fazer isto. Quem acredita de fato, quem não tem dúvida, chega a reconhecer isto. É claro que quem tem dúvida não chega a essa atitude. E esta atitude o que representa? Representa para os pais a maior […inaudível] que se possa imaginar.
* A prática dos mandamentos pode fazer qualquer país uma das maiores nações do mundo
Não sei se os senhores já fizeram a reflexão da importância que há para um país ser verdadeiramente católico. Tomem os senhores um país como o Brasil. O Brasil é novo, tem muitos recursos naturais, tem uma população que já não é pequena, tem todos os elementos para ser feliz.
Por quê o Brasil é um país tão trabalhado por crises de toda ordem? A única razão em última análise, é uma crise de moralidade. Os senhores agora imaginem que no Brasil todo mundo cumprisse os dez mandamentos da lei de Deus. As crises brasileiras não se resolviam imediatamente? Se no Brasil ninguém roubasse, ninguém pecasse contra a castidade, ninguém fizesse adultério, ninguém mentisse, os senhores não acham que em pouco tempo ficaríamos uma das maiores nações do mundo?
Porque a grandeza de uma nação consiste em seguir os dez mandamentos. Quando uma nação segue os dez mandamentos, ela sobe ao fastígio do seu poder. Mas o contrário, é uma nação que não siga os mandamentos, ela começa necessariamente a decair.
Os senhores tomem as maiores nações da terra. Elas conhecem momentos de força, mas elas decaem logo quando não são nações católicas. A razão é que quem não segue os mandamentos não tem elementos para verdadeiramente progredir. Os senhores imaginem um país onde todo mundo minta, todo mundo peque contra a castidade, todo mundo roube, todo mundo deseje a mulher do próximo, todo mundo desrespeite seus pais. Este país poderia viver? Desaparecia.
* Como a prática dos Mandamentos é a chave da vida de um país, para o Estado não há coisa mais importante que promover isso
Aqui os senhores tem os dois pontos extremos. Os Mandamentos são tais, que se um país os seguir chega ao cume da prosperidade; se um país os violar inteiramente, chega ao cume da perdição. Haverá coisa mais importante para um país do que fazer seguir os dez mandamentos? É a chave da vida de um país.
Este é o papel da Igreja. A Igreja faz precisamente ensinar os mandamentos, […inaudível] é atrair o povo para a prática dos mandamentos, é dar ao povo uma […inaudível] das ações imorais que constituem a violação desses mandamentos; é pela promessa dos bens futuros, pelo terror dos castigos futuros, incutir no povo que é melhor sofrer todas as desgraças do que violar um só mandamento, sobretudo pela idéia da bondade de Deus, que de nenhum modo deve ser ofendido.
Os senhores por isso vêem que para o Estado não há coisa mais útil, mais preciosa, mais importante, do que promover a prática dos mandamentos. O Estado da Idade Média compreendia isto e tirou disto proveitos de toda ordem e os mais profundos. Vejam por exemplo a situação da sociedade medieval no que diz respeito à saúde pública.
Nós estamos no ano de 1955. A Idade Média cessou em 1400 mais ou menos. De lá até hoje houve seis séculos de desenvolvimento, de civilização, de progresso pelo menos material. É claro que estamos incomparavelmente mais adiantados, pelo menos no sentido material da palavra.
* A Igreja, cercada de prestígio pelo Estado, promove a caridade, e esta o progresso social e até científico
Na Idade Média a medicina estava muito mais atrasada que a de hoje e não era possível fazer um combate às doenças, às epidemias, de um modo tão racional quanto hoje. Em todas as épocas que antecederam a Jesus Cristo, não havia hospitais, não havia um trabalho metódico no desenvolvimento da medicina; nada que nos pudesse lembrar o de hoje.
Por quê? Porque não havia caridade. E onde não há caridade, o cuidado dos doentes é muito elementar. O pânico do contágio é colossal. E com isto, o sistema de uma assistência se torna praticamente impossível. Vemos isto no Evangelho. Não sei se os senhores notaram no Evangelho, o número colossal dos doentes que rodavam pela Palestina.
É verdade que essa gente ia à procura de Nosso Senhor, mas a gente via que muitas vezes era uma gente sem eira nem beira. Foi pela caridade cristã que na Idade Média se fundaram os primeiros hospitais. Foi pela caridade cristã, que na Idade Média, tendo aparecido epidemias medonhas, até epidemias de lepra, se fundaram hospitais de pessoas abnegadas, que deixavam a vida de […inaudível] e iam morar com os leprosos, para consolá-los e evitar que quisessem morar no meio da gente sadia.
Foi com os tesouros incontáveis de dinheiro dados à Igreja, pela caridade, na Idade Média, que se pôde fazer esta coisa única até então: construir hospitais para todos os lugares daquele tempo, de tal maneira que se cobriu o continente europeu de uma rede hospitalar notável. Conseguiu-se extinguir a lepra na Europa.
E com os hospitais construídos pela caridade, começou-se a fazer-se então, normalmente, o estudo da medicina e com o estudo da medicina, todo o progresso científico que nesta matéria se tem alcançado. Qual é o fundamento disto? É a caridade que nasce da prática dos mandamentos, nasce do espírito católico, nasce da Igreja. Este é apenas um dos frutos enormes que a Idade Média lucrou com a ação da Igreja.
Estes frutos dependiam em última análise, do fato e que a Igreja estava cercada de prestígio pelo Estado, pelos poderosos da Idade Média, e este prestígio lhe dava os meios de exercer uma grande ação, uma grande […inaudível].
* A Igreja, propagando a caridade, formou a Civilização Cristã. A paganização moderna, sem caridade, a está destruindo
Veremos também, nas universidades, a ação da Igreja. E então, veremos pela caridade e pela cultura, a Igreja formando a alma do homem ocidental e dando origem àquela maravilha que foi a Civilização Cristã.
Os senhores querem ver como as coisas mudam […inaudível]. Consideramos a cena num hospital pagão: um doente entra, ferido num desastre de automóvel, para ser tratado urgentemente num hospital de emergência.
Está ferido gravemente, mas fica esperando algum tempo que o atendam. Ele começa a gemer e implorar pedindo que o socorram e lhe respondem que não. Ele morre por falta de socorros, mas não é atendido. Sabem qual a razão? Era a greve das enfermeiras e dos médicos e por causa disso o doente não teve quem o tratasse.
Essa cena de brutalidade numa das maiores cidades contemporâneas é a queda da caridade. Cada um olha para seu direito, para seu interesse, e esquecem o próximo. Por aí os senhores vêem quantas luzes se apagam do mundo donde é tirado Nosso Senhor Jesus Cristo que é a verdadeira luz do mundo.
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