Capítulo 9 - Fascínio? encantamento? ou bruxedo? 1
A. JC está acima das fragilidades próprias da natureza humana 2
B. JC não pode se desviar nem prevaricar 2
C. Mas se JC incorreu em algum desvio ou falta, é preciso fechar os olhos 2
E. É preciso amar a JC até a loucura 4
F. Se para favorecer a JC for preciso se aliar a um traidor, não há problema 4
G. JC não pode ser contrariado nem contestado 5
H. JC é aclamado em público quando, tomado pela ira, ameaça destruir a TFP 6
III. “Fundamentos” da adesão a JC 9
A. Não é porque seja santo, discípulo perfeito ou tenha o espírito de Dr. Plinio 9
B. papel do apagamento do “lumen rationis” e do senso de contradição 10
C. Papel dos eflúvios - Exploração da espiritualite 14
D. Papel da ação preternatural 14
IV. Inibição dos cooperadores que ficamos cristalizados com JC 18
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Numa conversa entre o Pe. David e o Pe. Olavo, este afirmou: “O Sr. João está acima das fragilidades tão próprias à natureza humana, e como que blindado”; está cada vez mais transparente, dando exemplos de santos.
(Cfr. Carta do Pe. David Francisquini aos Padres Olavo, Antônio e Gervásio, 6/6/97)
Noutra ocasião, o Pe. Olavo sustentou “que o Sr. João era um santo tal, que estava acima de qualquer queda. Disse-lhe então que se eu [Pe. David], sacerdote, me colocasse na situação dele, em pouco tempo apostatava. Ele então afirmou: o Sr. João é o Sr. João e o senhor é o senhor ”. (Cfr. Carta do Pe. David a Dr. Caio, 3/2/97).
Conversando com um cooperador da TFP Americana, o revoltado Héctor Beltramino disse que “estava convencido de que Nossa Senhora não permitiria que o Sr. João prevaricasse; e que se isto chegasse a acontecer, Nossa Senhora o chamaria, pois a vocação dele não permitia que se desviasse. (...) dada a vocação do Sr. João, Nossa Senhora não permitiria um desvio (...)” (Cfr. Grafonema de André Dantas para Marcos Faes, 30/10/96).
Marcos Faes diz que, se realmente JC tem amor próprio e vaidade, “não seria o caso de simplesmente fecharmos os olhos e rezarmos por ele, em lugar de fazer todo [um] furacão?
(Cfr. grafonema de Marcos Faes, para André Dantas, de 22/10/96).
Nessa mesma ordem de idéias, José de la Riva Aguero costumava repetir, enquanto fazia proselitismo, a seguinte frase: “ao Sr. João é preciso seguir sem reservas”.
(Cfr. Depoimento do Sr. Enrique Loaiza, abril de 1998).
Carta do Pe. David a Dr. Caio (3/2/97):
Não entendo como muitas pessoas sendo tratadas por [JC] tão mal, tão sem espírito luciliano, mesmo assim ficam tão pressas com ele e tomam seu partido. (...) Sei de casos de pessoas que foram tratadas muito mal por ele e ainda estão dispostas a tomar sua causa e levá-la para frente. (...) Esse tipo de caso não são raros no Grupo.
Entre essas pessoas pode-se enumerar: Atila Guimarães --outrora difamado por JC a todo momento e a todo propósito-- ; Antônio Augusto Lisboa Miranda --de quem JC espalhava que era agente da maçonaria-- ; Roberto Kallás --que 2 ou 3 anos antes do passamento de Dr. Plinio se queixava que JC estava tramando mandá-lo embora dos Buissonets-- ; Ramón León --que foi praticamente banido do São Bento-- ; Fernando Larrain --detestado por JC desde a época do São Bento I, José Antônio Tost --difamado pelos agentes de JC na Argentina do pior modo com que um homem pode ser difamado--; Fábio Cury --idem.
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Roberto Kallás, quando esteve em Cardoso Moreira no 25 de agosto de 1996, “viu a algazarra e a vergonheira dentro da Igreja e no jantar oferecido por nós, e se expressou assim: ‘aonde isso vai parar?’ ” (Cfr. carta do Pe. David a Dr. Plinio Xavier, 21/4/97).
Quer dizer, ficou chocado com os desmandos havidos na apresentação da fanfarra e do coro, dirigidos por JC.
Mas assinou o processo e é valioso colaborador da facção rebelde.
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A certa altura do caso do Norte Fluminense, Roberto Kallás disse para o Sr. Ghioto mais ou menos o seguinte: as coisas são ruins com o Sr. João Clá , mas piores sem ele. O que o Sr. quer? Que o Grupo ficasse com os Provectos para no final cair nas mãos do Dr. Caio e o Grupo virar um banco?
O Sr. Ghioto perguntou: “mas toda a posição que o Sr. vinha me apresentando em relação ao Sr. João Clá como fica? E as críticas que fez em tal conversa assim, a perseguição que disse ter sofrido, etc.?”
Kallás não respondeu.
(Cfr. carta do Sr. Ghioto ao Pe. David, 24/5/97, p.34)
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No Natal de 1996, o Dr. Mário Navarro foi procurado pelo Dr. Edvaldo, que sustentou o seguinte: JC está tomando por um demônio enorme, agiu mal, foi muito precipitado, não há a menor dúvida, mas vamos esquecer tudo; ele está tomando medidas para resolver o problema do apostolado feminino e da devoção a ele. (Cfr. Depoimento do Dr. Mário Navarro, 6/7/97)
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Em uma conversa com a Madre Soror Maria Elena da Divina Sabedoria, OCIF, Gustavo Campos disse:
La última vez que estuve en la sede de Alemania (...) hubo alguien que me pasó hablando mal del Sr. J. Clá toda la noche, así 8 horas seguidas, y sabe Madre lo que al fin le contesté: “si en este momento yo fuese por la calle y encontrase al Sr. J. Clá, me arrodillaba y le besaba la mano, porque apesar de todo lo que Ud. me há dicho, yo sigo confiando en él, que está haciendo mucho bien”.
(Cfr. Carta de Sor Maria Elena de la Divina Sabiduria a seu irmão, o Sr. Luis Criollo, Toledo, 6 de mayo de 1998)
A esse joanino não lhe interessou saber se, aquilo que ouviu, era verdadeiro ou falso. “Apesar de tudo” parece significar “mesmo que as coisas que o senhor me disse a respeito do Sr. JC sejam verdadeiras, eu continuo confiando nele”.
Segundo narra um cooperador do setor operário de Campos, ao mostrar um fax de JC, uma correspondente e suas filhas “voaram em cima (...) como loucas, dizendo: ‘A letra do Sr. João Clá! Padrinho do meu coração!’ Beijavam (...) escandalosamente o fax, sem parar (...) dizendo: ‘temos que ser radicalmente a favor do Sr. João Clá; ele é tudo, temos que amá-lo até à loucura; o que é o amor senão o exagero?’ ”
(Cfr. Relatório do Sr. Ghioto a Dr. Eduardo, de março de 1997).
Na eleição das autoridades da TFP Argentina, realizada em 12/1/98, os joaninos daquele País contaram com o apoio ostensivo de:
Cosme Beccar Varela --representado por um eremita de S.Bento--, que em março de 1990 renunciou à Presidência da TFP “a causa de uma diferença doutrinária, de raiz religiosa e de princípios de fé, moral e princípios canônicos” (Declaração de CBV perante o Juiz Miguel J. Del Castillo, a fs. 107/108 autos); e em 1991 publicou um libelo gravíssimamente injurioso para o SDP, escrito esse que deu origem ao maior estrondo publicitário sofrido pela TFP Argentina. (Cfr. Grafonema do Sr. Carlos Ibarguren ao Dr. Eduardo, de 23/1/98).
Esse mesmo CBV tinha sido qualificado por Storni como “traidor”, “influenciado profundamente pelo demônio” (Cfr. Grafonema confidencial de Storni para André Dantas, 4/10/96).
Por sua vez Andreas Meran, na proclama que leu no ANSA o dia da ruptura, 25/11/97, disse: “o Cosme B. Varela, (...) se julgava automaticamente investido de certo dom de profetismo”.
Alfonso Beccar Varela, que não frequentava mais a TFP Argentina desde outubro de 1996 e em diversas oportunidades expressou publicamente sua desvinculação com a Entidade. (Cfr. Grafonema do Sr. Carlos Ibarguren ao Dr. Eduardo, de 23/1/98).
Na eleição, Storni, chefe da facção joanina, afirmou que “as questões de tipo moral são alheias ao âmbito do tipo desta assembléia”. (Cfr. Grafonema do Sr. Carlos Ibarguren ao Dr. Eduardo, de 23/1/98).
A aliança dos joanistas com CBV não se limitou à eleição da Diretoria da TFP Argentina. O advogado deles no tocante a outros campos da luta (posse da Sede Dom Pelayo, direitos autorais do nome “Tradición Familia Propiedad”, etc.) é CBV.
Fala Amorim a nome dos novatos da Saúde:
(Sr. João, eu gostaria de fazer uma pergunta ao senhor, mas previamente gostaria de dizer que de maneira alguma nós gostariamos de contradizer ao senhor).
(Cfr. Conversa na Saúde, 27/12/94)
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Em março de 1996, André Dantas e Dominguez disseram para o Dr. Mário Navarro: “pode ser que JC não tenha razão na questão da Missa, mas isso não interessa, o que interessa é que JC não pode ser contestado”.
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Em novembro de 1997, ao abrirem o processo contra os Estatutos da TFP, os joanistas apresentaram-se como pessoas irmanadas em “ideais de inspiração católica, no esforço voluntário, desinteressado e incessante”, movidas por “anelos de perfeição cristã”, que “resolveram voluntariamente dedicar toda a sua vida (...) em prol dos ideais da TFP”.
E quando abriram a série de processos trabalhistas contra a Instituição (mais ou menos a partir de julho de 1999), apresentaram-se como “funcionários” e “asalariados”, que trabalhavam na TFP por causa do dinheiro e não de ideal nenhum.
Quer dizer, quando seu chefe manda que assumam o papel de pessoas abnegadas, obedecem; e quando manda que assumam o papel de pessoas interesseiras, também obedecem. Seu chefe pode mandar a eles o que quiser, que eles se submetem com a maior facilidade.
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Na mesma ordem de idéias, cabe registrar que, quando o Auditório Nossa Senhora Auxiliadora foi restituído a seus proprietários e nós comparecemos alguns dias a esse local, os joanientos --colocados no êremo Praesto Sum-- desataram uma chuva de insultos e injúrias contra nós, até mesmo chegaram ao extremo de jogar estêrco.
Pois bem, uma semana após disso, começaram a nos procurar como se nada tivesse acontecido: “Salve Maria!”, “Fulano, nós continuamos amigos”, “precisamos nos reconciliar”, etc., etc.
Evidentemente, tanto num quanto noutro caso, seu capataz tinha lhes mandado proceder dessa forma. E eles obedeceram.
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O relacionamento entre os joanistas e JC lembra uma cena do filme S. Tomás Moro: Henrique VIII atravessa o Tamisa num navio pequeno e resolve descer num lugar cheio de lodo, dando gargalhadas; seus acompanhantes descem da embarcação e imitam ao heresiarca, se encharcam no lodo, dando risadas também e achando graça naquilo.
Na manhã do dia 15/10/96, JC fez uma reunião para os veteranos a respeito do recente desentendimento que teve com as autoridades da TFP Americana. À tarde, numa reunião na Saúde, descreveu o estado de espírito que assume quando alguém se põe no seu caminho:
Eu me lembro uma noite que alguém se atravessou na minha vida. Os senhores pensam que eu [não] tenho defeito, eu vou contar um defeito agora.
O Sr. Dr. Plinio disse o seguinte: que eu sou muito pouco afeito à inveja, muito pouco afeito a ter uma ira aqui, lá e acolá. Eu tenho um temperamento... apesar de muito expansivo e muito explosivo até, eu não dou muito para ter acessos de cólera a todo o momento. Mas quando eu tenho, vai a fundo a ponto de pegar fogo no mundo.
(Todos: Fenomenal!!!!)
Eu vivo pedindo à Sra. Da. Lucilia que me proteja, que me projeta, mas quando...Eu me lembro de uma noite -- uma noite de sábado para domingo -- que chego no São Bento, depois do jantar do Sr. Dr. Plinio, para preparar a reunião do dia seguinte, e vejo debaixo da porta um bilhete de uma pessoa X, que era um travessão no meio da minha vida que me liquidava com não sei quantas coisas. Eu peguei o bilhete e passei a noite pegando fogo, não dormi.
No dia seguinte de manhã eu pensei: "Puxa, não posso cancelar o JxJ; não tenho jeito de cancelar, mas eu estou em condições que não consigo fazer o JxJ, porque eu não consigo falar. Eu vou ficar atravessado por esse negócio aqui. A única coisa que eu posso fazer é telefonar para o Sr. Dr. Plinio. Eu sei que é manhã de domingo, mas o que é que eu posso fazer? Não tenho outro jeito".
Telefonei para o Sr. Dr. Plinio e eu chorava de ódio no telefone. [Exclamações]
Depois de eu expor o assunto, em três, quatro, cinco minutos, ele pôs minha alma nos eixos:
-- Você não se perturbe, esqueça esse assunto. Você esqueça, quem assume esse assunto sou eu. Quem vai tratar desse assunto sou eu, eu vou tratar hoje mesmo, você não vai pensar mais nisso, isto está tirado completamente da sua responsabilidade, este assunto é responsabilidade minha. Não pense mais, esqueça, vá fazer sua reunião tranqüilo.
O senhor passa de 1000ø de temperatura para 36,6ø novamente.
Agora não. Se alguém atravessar os trilhos...
(Todos: Fenomenal!!!!)
É fenomenal, mas como é que o senhor resolve? Bagarre.A única coisa que o senhor pode dizer para o fulano que lhe atravessa os trilhos é:-- Fulano, não me atravesse os trilhos porque eu ponho fogo na casa. Sai da frente.
Mas isso já é Bagarre.
Ou é uma graça que lhe entra na alma numa ação que ele produz da eternidade, ou então o senhor comete um desatino, o senhor faz uma loucura, como me aconteceu muitas vezes na infância.
Eu era um menino pacífico, sereno, tranqüilo, o senhor me dava uma laranja, eu tirava toda a casca da laranja, depois ainda tirava a pele dos gomos da laranja e comia as garrafinhas uma por uma; calmo...
Mas um dia, por exemplo, eu subo num telhado para pegar um desses papagaios, subi na escada, fui lá para pegar um negócio qualquer, um menino tira a escada do telhado, e gargalhada da meninada toda embaixo.
Eu peguei meio tijolo e disse:
-- Olha.
[Risos]
(Todos: Fenomenal!)
Isso não é virtude, isso não é virtude. Eu estou contando uma coisa como não virtude, estou contando um defeito aqui.
Eu disse para o sujeito, mas aí com a cólera que tinha subido até as orelhas:
-- Ou você põe essa escada aí já ou eu te racho a cabeça.
O sujeito:
-- Quá! Quá! Quá!
Eu, váááááááá... [atirei o tijolo].
Aí não foi ele que quis pôr a escada, mas a família inteira. Juntou a família inteira e pôs a escada. Toca eu a me agarrar nas calhas e passar de uma calha para outra, de uma calha para outra, até chegar em casa e dizer para a ala espanhola, não para italiana:
-- Olhe, aconteceu isso assim e assim, eu rachei a cabeça do menino porque aconteceu isso.
-- Está bom, não se preocupe, fez muito bem. [Risos]
Porque o princípio que tinham me dado quando criança era esse: "Se você chegar em casa chorando de que apanhou, você leva outra surra". Então eu não podia chegar em casa chorando, tinha que chegar em casa...
Aí aparece toda a família na porta com o menino todo ensangüentado -- porque eu tinha rachado a cabeça do menino -- e dizendo:
-- Olhe aqui o que foi feito.
-- Ah, não tem dúvida, isso não devia ter sido feito, mas também ele tirou a escada. É, vamos ver como a gente conserta isso.
[Virou-se para mim e disse]:
-- Fez muito bem, é assim mesmo.
Isso penetrou. Para tirar isso depois, ou é ele e ela, ou então não sai.
Mas nós estamos nisso, estamos sem ele [SDP], estamos na Bagarre.
Trecho de “"Em Defesa da Ação Católica”, (Artpress, segunda edição, São Paulo, 1983, pp. 337 e 338), que se aplica ponto por ponto aos adeptos de JC. É só substituir a palavra “Ação Católica” por “joanismo”. Os colchetes são nossos:
É evidente que muitas pessoas [que aderiram à Ação Católica] não percebem as conseqüências profundas, que estão implícitas nas idéias que professam, e outras nem sequer professam estas idéias na sua totalidade, aceitando pelo contrário apenas uma ou outra. A História da Filosofia nos demonstra, porém, que sendo o homem naturalmente lógico, ele jamais aceita uma idéia sem experimentar a necessidade de aceitar as conseqüências que dela decorrem. Este trabalho de frutificação ideológica é feito em geral lentamente; mas se examinarmos as razões mais profundas das grandes transformações que às vezes ocorrem em um homem, encontrá-las-emos freqüentemente neste amadurecer paulatino de conclusões, nem sequer suspeitadas em seus princípios remotos.
Assim, as pessoas que aceitaram algumas [das] idéias [da Ação Católica] costumam apoiar e aplaudir as que caminharam mais avante no mesmo terreno, revelando singular entusiasmo pelos que chegaram às posições ideológicas mais radicais, e uma real desprevenção de espírito para perceber os erros flagrantes que nestas posições se notam. Em outros termos, estamos em presença de uma idéia em marcha, ou melhor, de uma corrente de homens em marcha atrás de uma idéia, nela se radicando cada vez mais, e de seu espírito cada vez mais se intoxicando.
Quer dizer, há certo “absoluto” simbolizado por JC, um “fio de alta tensão” que, uma vez tocado, a pessoa se emaranha de modo irreversível num processo que, passando pelo “non serviam” e pela idolatria, terminará não se sabe onde.
Exemplo flagrante desse estranho fenômeno é o caso de Severiano de Oliveira:
Numa primeira fase ficou chocado com a alegria que JC manifestou no momento em que Dr. Plinio estava entregando sua alma a Deus Nosso Senhor; mas foi dos que pediram a JC que fizesse reuniões diárias.
Em dezembro de 1996, apesar das evidências em sentido contrário, considerou absurdo afirmar que JC estava fundando uma “tfp” feminina, usurpando a autoridade dos Provectos e colocando-se como sucessor de Dr. Plinio (cfr. grafonema de Severiano ao Dr. Mário Navarro, 10/12/96). E de mero “habituée” às reuniões do guru, passou a ser desbragado entusiasta.
Em fevereiro de 1998, virou um perfeito jacobino.
Fala JC:
1. [Dr. Plinio] tomou conta já de alguns dentro do Grupo? Eu acho que não, porque quando ele tomar conta vai ser tão patente que aquele não é mais aquele, mas é outro.
É das tais coisas: como é que uma pessoa pode levantar uma peneira e querer tapar o Sol com a peneira? Não dá. Vai ser uma tal evidência de Sol, solar, uma tal clarividência solar, que não vai haver margem a dúvida.
Agora, há isso? Eu não vejo. Eu tenho que ter honestidade de dizer para os senhores que não vejo. (Cfr. Reunião na Saúde, 30/4/96)
2. Eu não tenho esse discernimento dos espíritos, mas adquiri muito a experiência no convívio com ele.
Os senhores ficam inventando coisas. Eu sou obrigado a dizer a verdade tal qual ela é, não vou mentir aqui: "Não, olhe aqui, eu tenho". Não tenho. (Cfr. Reunião na Saúde, 27/2/96)
3. Eu não me apresento como um discípulo perfeito, porque não o sou. Eu não me apresento como uma pessoa sem defeitos, porque eu os tenho. Eu não me apresento como uma pessoa inteiramente sem mácula, porque eu as tenho. (Cfr. "jour-le-jour" 5/11/96)
4. Eu estou muito longe de ser um santo e ainda em tempos idos estava mais longe ainda, estava muito mais longe do que estou hoje. (Cfr. "jour-le-jour" 27/1/97)
5. Eu sei todos os defeitos que eu tenho (...). Eu não sou santo e digo isso com toda segurança. (Cfr. Reunião para os veteranos, 6/8/96)
6. Eu sou infelizmente revolucionário (...). (Cfr. "jour-le-jour" 12/5/96)
Fala Storni:
Personalmente pienso que él [JC] no es ni santo ni discípulo perfecto.
(Cfr. grafonema de Storni, para Dr. Mário Navarro, 10/12/96 p.3).
Fala Tejedor:
[JC] nunca se presentó como discípulo perfecto. Eso del discípulo perfecto creyeron verlo sus detractores. Lo deben haber visto en los ‘imponderables’.
(Cfr. grafonema de Tejedor para o Dr. Mário Navarro, de 9/12/96, p.4).
Fala Severiano de Oliveira:
Não tenho motivo para duvidar de que o SDP não considerava o Dr. João um discípulo perfeito.
(Cfr. Grafonema de Severiano de Oliveira para o Dr. Mário Navarro, de 10/12/96).
Relatório do Sr. Frederico Hosanam ao Coronel Poli (2/11/97), a respeito de uma conversa que teve com o joanista Seitiro Hirano:
Vejo o Sr. Hirano como uma pessoa que não responde categoricamente ao que se lhe pergunta; é todo sinuoso e sai-se com evasivas. (...)
Foi nessa conversa com ele que levantei a questão de se o Sr. João Clá tinha autorizado ou não a celebração de missa nova numa sede da Espanha. Ele negou molemente, dizendo que não era verdade, saindo-se com evasivas que não respondiam nada.
(...) o Sr. João Clá autorizou ou não missa nova na Espanha e na Colômbia? Não disse nem sim, nem não (...)
Disse-lhe que soube que um cooperador esteve na Argentina, talvez um eremita do Eremo do Pilar, e que este disse a um da sede: ‘vou cumprir o preceito’. Seria domingo e essa pessoa iria assistir missa progressista em algum lugar de Buenos Aires. O Sr. Hirano disse que não sabia do fato.
(...) Perguntei-lhe se ele notou como a buscha até hoje não tocou na TFP e que eles só estão esperando a nossa cisão. Ele concordou. (...) Enfatizei bem para ele que o Sr. João Clá seria responsável por uma cisão no Grupo. Ele concordou --não sei se a contra gosto, nem também se nessa cisão ele achava que o Sr. João seria igualmente responsável (...).
Nessa conversa também abordei a questão do Sr. Ramon Leon, dissendo-lhe que teve um procedimento péssimo, um procedimento de um ‘sans culotte’, de um Marat. (...) Praticamente não fez comentários. Notei que não queria emitir opinião sobre o caso. (...) Diante de coisas tão importantes que eu lhe interrogava e que ele dizia que não sabia, disse-lhe, então: ‘mas o senhor dá sua adesão a algo que não sabe?’ Saiu-se com uma evasiva, em que pareceu-me querer dizer que via toda a movimentação de graça entre o Sr. João Clá e os enjolrras e que por isso ia na onda; disse que recebia graças quando cumprimentava o Sr. João Clá.
*
Logo depois de afirmar que o flash não é algo que a gente pode produzir por uma técnica, JC dá um exemplo e afirma que aquilo suscitou um flash. E os presentes no auditório acreditaram:
O flash não é produzível por um esforço natural. Isso é uma coisa que precisa ficar bem clara entre nós. Porque se fosse, seria a coisa mais simples do mundo: bastava a gente fazer tais e tais esforços, que os flashs desceriam em quantidade.
O flash vem na hora em que Deus quer, no modo que Deus quer, na intensidade e na duração que Deus quer. É hora, modo, intensidade e duração. Depende de Deus.
(...) nós podíamos fazer análise [dessa] cabine aqui. O senhor toma essa cabine, o senhor pode fazer uma análise psicológica, ou então pode fazer uma análise lógica a respeito da cabine. O senhor pode começar dizendo o seguinte:
O Sr. Dr. Plinio em certo momento ficou muito sensível aos ventos, e ficou muito sensível sobretudo a uma temperatura um pouco mais baixa do que 27ø. Abaixo de 27ø ele sentia uma sensibilidade nasal muito forte, então era preciso que ele vivesse num ambiente sem vento e com uma temperatura interior de uns 25, 26, 27ø graus.
Então não houve outro meio senão fazer uma cabine para que ele pudesse, de dentro da cabine, sentir-se normal, não ter que estar com o lenço no nariz e poder fazer uma reunião com toda a desenvoltura.
A cabine foi construída com acrílico, não vidro, porque o vidro é um material perigoso e podia se espatifar de um momento para outro. Ainda mais com o entusiasmo crescente dos enjolras, de repente um cotovelinho agudo poderia causar um estrago não pequeno. Então, ao invés de pôr vidro, colocaram acrílico.
Para não ficar uma coisa assim um pouco rude, deu-se um ambiente de salãozinho. Dentro colocaram-se umas arandelas, colocou-se uma foto da Sra. Da. Lucilia, dentro foi posta uma coluna com a imagem de Nossa Senhora, um tapete persa, uma boa poltrona, uma mesinha para colocar os objetos dele, também a água, o copo, a xícara de chá e a sineta, para que ele usasse durante a reunião.
O senhor está fazendo uma descrição psicológica. Mas --aí, então, o senhor passa para o sobrenatural-- quando o Sr. Dr. Plinio chegava já era uma alegria que se estabelecia no auditório, e quando ele entrava na cabine, a cabine parecia uma catedral.
O senhor já passou para o sobrenatural, porque o senhor está descrevendo impressões sobrenaturais que o senhor teve em certas circunstâncias.
Quando saía da cadeira de rodas, ele se sentava na poltrona e começava as orações, já era um clima que se estabelecia completamente outro. Eram os anjos presentes na reunião.
Vê-lo às vezes até no cansaço da noite, depois de ter tido um dia de luta tremendo, quando começava uma proclamação vê-lo fechar os olhos e dormir dentro da cabine... Ele estava no sono e a gente entrava no sonho.
Eu estou descrevendo sensações e impressões de todos. O que é isso? Flash. São as visões sobrenaturais, são as análises sobrenaturais, os prismas sobrenaturais, mediante os quais a gente vê o Sr. Dr. Plinio dentro da cabine.
Nós já adquirimos a experiência: quando o Sr. Dr. Plinio começava a esfregar a mão esquerda na testa, significava que ele estava querendo espantar o sono e o sono já estava começando a aparecer. Aí via-se que ele, para combater o sono, tomava a xícara de chá, tomava uma xícara inteira, daqui a pouco um arauto vinha com jeito e trocava a xícara vazia por uma outra cheia. Se ele voltava a esfregar a mão na cabeça era sinal de que ele ia tomar mais chá.
Tomava mais chá, mas às vezes as várias xícaras não eram suficientes e ele dormia. Mas quando ele acordava tinha-se impressão de que ele tinha acompanhando o tema dormindo, porque ele retomava a matéria e dizia coisas brilhantíssimas que encantavam o auditório, porque percebia-se que ele durante o sono tinha acompanhado o tema totalmente.
Tudo isso que eu estou dizendo já entra como uma graça, e o que eu digo faz os senhores recordarem uma graça que os senhores assistiram, que os senhores sentiram, que os senhores experimentaram, que é uma graça de fundo de alma.
O que é isso? Já é o sobrenatural. O senhor já tomou a cabine e a cabine ficou transformada em catedral para o senhor.
Agora, isso depende de uma graça sobrenatural que desce na hora. Porque uma pessoa de fora, por exemplo, podia ver isso, não sentir nada, e via apenas um homem que está cansado e que dormiu, pronto. Choca os senhores porque os senhores nunca viram assim. Está claro?
(Cfr. "jour-le-jour" 1/12/96)
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"Jour-le-jour" 14/4/97 - JC está discorrendo a respeito da graça. À certa altura da exposição, houve a seguinte troca de perguntas e respostas:
Está meio etéreo isso.
(Todos: Não.)
Precisa de algum exemplo ou não?
(Todos: Sim.)
A gente olha assim e vê uns olhos vidrados.
Primeiro JC pergunta se a doutrina que estava expondo estava meio etérea. Os joaninos responderam que não.
Logo a seguir, JC pergunta se precisam de algum exemplo. Resposta: sim.
Ora, o fato de precisar de um exemplo para entender uma tese, prova que essa tese estava etérea. Daí os olhos vidrados dos joaninos.
Mais uma observação: os adeptos de JC não só apagaram seu senso de contradição, mas são vítimas da tirania do “pátio”. Com efeito, disseram que a exposição não estava etérea, porque se afirmassem o contrário, seriam mau vistos.
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Em março de 1996, JC pediu a vários de seus subordinados (por exemplo, os encarregados dos Grupo da Espanha e Portugal), depoimentos no sentido de desmentir que JC tivesse intenção de aproximar-se da Estrutura. O pedido foi atendido. (Para ser breve, abaixo apenas transcrevemos o documento de Pedro Paulo Figueiredo).
Em janeiro de 1999, o Presidente da ACNSF, falando em nome de JC e de seus seguidores, disse que eles tem o “firme propósito” de dar apoio à Estrutura, colaborar com ela e ter contatos mais estreitos com ela.
O normal seria que essa mudança de 360 graus na posição oficial de JC produzisse desconcerto, perplexidade, inconformidade, nas fileiras de seus adeptos. Sobretudo entre aqueles que fizeram os depoimentos mencionados. No entanto, isso não aconteceu. Continuam tão joaninos quanto antes. Ou até talvez com maior “fervor”.
Logo, a adesão que lhe tributam é irracional.
Grafonema de Pedro Paulo Figueiredo a JC, de 22/3/96, transcrito em “Juízo Temerário”, pp.118 e 124:
Como inúmeras vezes aconteceu em nossa presença aqui em Espanha, foi o próprio vigário que tomou a iniciativa de nos incentivar a pedir um reconhecimento canônico. O senhor há de se lembrar que o senhor chegou a nos levantar a hipótese de que toda encenação feita a propósito da concessão e retirada do Santíssimo não passou de um jogo --“hábil” segundo eles-- para nos empurrar a um pedido de reconhecimento eclesiástico.
Somos testemunhas e podemos enviar uma carta aos Provectos a respeito da escola que o senhor nos deixou nessa matéria, desde que temos a graça de receber seu auxílio e orientação. Ao longo de anos --mais de 10, é certo-- o senhor nos instruiu como jeitosamente ir tirando o corpo dessas e outras pressões para ir ganhando tempo. E agora, nessa última passada por aqui, o senhor insistiu várias vezes sobre os graves inconvenientes de termos qualquer relação oficial com a Estrutura. O senhor chegou a fazer uma longa reunião para os maiores só sobre esse ponto.
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Fala Ramón León, no libelo “Quia nominor provectus” (p.43):
Por uma questão de justiça e objetividade, é preciso reafirmar que até agora nenhuma das incontáveis e pesadas acusações e calúnias lançadas contra o Sr. João Clá pelo Dr. Luiz Nazareno e por outros, foi comprovada. Tudo não passa de boatos, inverdades e distorções” (p.20).
Quando é que o Sr. João Clá se lançou como sucessor? (...) E quando foi que o Sr. João Clá se apresentou como ‘apóstolo das mulheres’?
As “incontáveis e pesadas acusações e calúnias lançadas contra o Sr. João Clá” se resumem em 3 pontos: a) fundar uma “tfp” feminina; b) colocar a TFP sob a canga da Estrutura; c) usurpar a missão de Dr. Plinio, bem como as homenagens a eles devidas.
Hoje, dezembro de 1999, tudo isso é realidade, não só que ninguém pode negar, mas que os próprios “joanistas” proclamam em público.
E Ramón León continua tão apegado a JC quanto antes, ou mais até.
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Em dezembro de 1996, Storni sustentou que, afirmar que JC está usurpando a “autoridade legítima dos Provectos” , é uma “grave acusación carente de todo fundamento”.
(Cfr. grafonema de Storni, para Dr. Mário Navarro, 10/12/96 p.5).
Um ano depois, em novembro de 1997, a tentativa de usurpar o poder, tornou-se patente e inegável. Entretanto, Storni continua joanista.
JC emite eflúvios por onde hipnotiza, paralisa e arrasta as almas.
Ele contagia sobretudo estados de espírito, mas também modos de pensar falsos e cria modas --não tanto no campo da vestimenta, mas por exemplo, moda de linguagem, modos de dizer, modos de falar, modos de gesticular, modos ser, etc.
E sabe como mandar que determinado círculo de influência veicule determinada moda para determinada coisa, para que em um determinado grupo todas as pequenas manias caminhem na mesma direção, para que não apareçam modas que se contradigam uma às outras, que se entrechoquem umas às outras, e para que cada grupo não comece a viver como um pequeno centro sem relação com o todo.
JC explora uma espécie de aflição das pessoas de não estarem bem na vida espiritual. Um de seus temas favoritos é falar das infidelidades e desvios havidos ao longo da história do Grupo. Mas trata daquilo de tal maneira, que da a impressão de que, aderindo a ele, imitando a ele e seguindo suas orientações, a gente fica em dia com a vocação, ou pelo menos entra na trilha certa da vocação.
Por outro lado, a grande maioria daqueles que se deixam levar pela Revolução Joanina, o fazem muito menos por convicção, do que por medo de estarem em desacordo com uma torrente que parece avassalar tudo --isto é, o pátio.
Carta do Pe. David a Dr. Caio de 4/3/97:
Não consigo entender toda essa situação criada em torno de João Clá Dias, a não ser por uma infestação diabólica intensíssima, levando as pessoas a não reagirem e não examinarem o caso em toda sua profundidade.
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MNF 15/4/87. Dr. Plinio trata da garra que os gurus podem exercer sobre os enjolrras:
(Aparte: Aqui em São Paulo há pouco se apresentou uma banda de "rock-and-roll", cuja apresentação inicial era um culto a satanás. Agora, isso não havia antes [nas gerações não-enjolrráticas], essa abertura não havia.)
Isso é inteiramente verdade e eu acho mais, está na lógica das coisas que [o enjolrras], não tendo este elemento pessoal de personalidade, fique muito mais aberto os elementos extrínsecos. Porque você se lembra daquela distinção povo e massa. O sujeito não é mais povo, acaba sendo massa, ele é movido de fora para dentro, e de fora para dentro, ou são os Anjos ou são os demônios.
A diferença é que o Anjo quando começa a agir, já começa a restaurar a personalidade. E o demônio quando começa a agir começa a destruir.
O que eu acho é que eles são, por causa desse jeito deles, muito mais dificilmente resgatáveis da ação de um guru do que um homem que tenha restos de personalidade. Porque os restos de personalidade constituem sempre algo que com o guru tem uma interrogação, uma pergunta, tem alguma coisa.
E eu tenho a impressão de que eles quando caem num papo de algum guru, caem mesmo e completamente, é a forma de estabilidade que eles têm no mal.
E quanto ao demônio, eles não tem mais nenhum dos elementos, nem sequer emocionais para ter reação ao demônio.
(Aparte: A perda do "lumen rationis" é um jogo do demônio. Agora, por que é que o senhor diz que a garra da Revolução é menor agora, quando eles estão muito mais preparados para o reino do demônio?)
(...) Eu acho que com os enjolras a Revolução tem menos garra no sentido de que eles são menos opostos às coisas da CR. E que, portanto, quando nos encontram tem menos objeções.
Aqueles sobre os quais uma certa ação preternatural já não começou a se exercer, e que a garra já não começou a levar --e que são essas incontáveis almas, inclusive das novas e principalmente das novas-–, quando entram numa ação qualquer do demônio, o demônio pega e é quase impossível tirar, é portanto uma coisa diferente.
Na geração deles o demônio tem mais garra sobre uns e a grande multidão; tem menos garra sobre um número bem considerável, mas fortemente minoritário da mesma geração. Mas menos garra é só isso: é que enquanto ela não deita a mão o indivíduo tem menos preconceitos, quando ele deita a mão o sujeito leva a breca, é só nesse sentido.
(Aparte: É uma espécie de casa sem portas e sem janelas.)
Isso. É, mas com essa circunstância que quando entra o vento da Revolução, a Revolução não é mais a doutrina revolucionária, entra o vento da apetência e do comércio com o demônio. E aí não sai.
Agora, as objeções revolucionárias do tempo da razão não se levantam mais. E nesse sentido é que é uma menor objeção contra as nossas coisas racionais, aqui eu encontro melhor a exposição.
Na parte racional a garra do demônio está quase eliminada, na geração deles, e está substituída por uma, não é mais uma discussão, mas é um embate de influências, entre Anjos e demônios.
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A ausência do senso crítico moral, que carateriza tantas atitudes dos “afilhados” de JC, tem uma origem preternatural. Reunião de Dr. Plinio para os dirigentes do Grupo da Colômbia, de 29/11/94:
[A ação do demônio] é uma ação súbita que quando vem, vem numa espécie de força de impacto muito grande. Age sobre os sentidos e a imaginação com uma espécie de suspensão mais completa ou menos do senso crítico moral (...).
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A seguir, duas amostras de como são vistos os joanistas pela opinião pública.
a) Depoimento do Sr. Edson Neves, 19/8/99:
Contou-me o coronel Tognetti que foi procurado pelo rebelado Uchida para que mudasse para a ACNSF o donativo que dava para a TFP. Embora sabendo do que se tratava, o coronel pediu a Uchida que explicasse por que.
Uchida disse que depois da morte do Sr. Dr. Plínio houve problemas dentro da TFP, para saber quem manda, quem dirige.
- Há um problema de fidelidade. Infelizmente nem todos são fiéis ao Sr. Dr. Plínio e nós achamos que o mais fiel não faz parte do grupo dos mais velhos da TFP, é fulano.
- Mas o Sr. Dr. Plínio enquanto viveu não deixou a ele nomeado sucessor? Tão previdente ele era que deveria ter deixado indicação: eu morro e fica fulano no lugar. Ou sicrano. Ou deixaria dois ou três nomes. Não deixou?
- Não, não deixou, mas acontece que JC é mais fiel que os outros.
- Então é questão de ser fiel, de ser santo?
- Sim, isso mesmo.
- E como vocês arranjaram o caso?
- Pedimos aos mais velhos que nos ouvissem, mas não adiantou, eram muito autoritários, faziam as coisas sem nos consultar. Em certo momento começaram a cortar as verbas de nossas sedes e tivemos que mover um processo contra a TFP para poder viver.
- Quer dizer que vocês processaram a TFP?
- Sim, processamos.
- Olha, Uchida, eu sou militar, tenho muita experiência da vida, conheço muitos ambientes, ruins e bons, e no quartel onde vivi a autoridade devia ser respeitada, fosse o general santo ou não santo ele era obedecido. Dentro do quartel, o que vocês fizeram é classificado de motim, porque o subalterno em caso algum tem direito de tomar as rédeas do poder para se sublevar contra o que manda uma autoridade constituída. Se o Sr. Dr. Plínio faleceu deixando tais e tais pessoas da diretoria, não recomendou ninguém em concreto como sucessor, fica valendo a ordem estabelecida por ele. (...)
O Coronel conta que quando chegou nesse momento, o Uchida estava tão excitado que só respondia: não, o Sr. não está entendendo, não está entendendo. E disse que olhando para a cara do Uchida teve a impressão de que estava possesso, tal era o estado de revolta dele. Disse: eu não tenho medo das pessoas, mas desse baixinho eu fiquei com medo porque atrás dele havia uma coisa esquisita, de tal maneira ele ficou indignado.
b) Depoimentos do Coronel Poli e do Sr. Gonzalo Larrain, 4/9/99:
Coronel Poli: fui [hoje] ao cemitério [da Consolação] e fiquei entre 12:40 hs até 13:10. Quando cheguei havia um bando de rebelados, bem vestidos, quase todos com roupa escura, todos sem excesão com o broche grande de Nossa Senhora de Fátima, dava impressão que estavam vindo de alguma cerimonia. (...) Ao sair, (...) quando cheguei no automóvel, vi o pneu baixo, como se tivesse furado. Estava na primeira vaga do estacionamento, bem perto daquela mulher que tem uma banquinha de flores, que vende ou distribuir material dos rebelados. Perguntei se ela tinha visto alguém mexer no carro. Disse que não, só havia “dois rapazes do Dr. Plínio que olharam o carro, deram a volta no carro e depois, curioso, saíram correndo. Aliás, um deu a volta no carro enquanto o outro ficou comprando flores aqui comigo. Depois saíram correndo”.
Eu lhe mostrei o pneu furado e ela: “mas então só podem ter sido eles. Mas eu pensei que eram gente boa, de paletó com a medalha de Nossa Senhora, mas então são uns malditos? Porque isso é coisa do demônio”. Eu tenho má memória mas isso eu guardei perfeitamente. (...)
Eu desci, andando, fui até o borracheiro que fica no quarteirão logo embaixo. Disse que ele fosse lá encher o pneu. (...) Daqui a pouco ele volta e disse que o pneu não estava esvaziado, mas estava rasgado e a pintura está riscada. (...)
Sr. Gonzalo Larraín: eu estive logo depois lá, a mulher estava muito tomada, ela me conhece, me chamou e disse que queria explicar o que havia acontecido com ela. Contou tudo que disse o Coronel e acrescentou duas coisas. Disse que “foi usada”: um deles veio falar comigo para me distrair enquanto o outro, eram 3, um ficava olhando para ver se o Coronel não vinha, um falava comigo e um terceiro riscava o carro. Eu sou uma mulher de 60 anos e não tolero que uma coisa dessas aconteça comigo. Eu sei quem são eles, vou reconhece-los, e se aparecerem aqui eu denuncio. E agora não vou vender nunca mais essa palhaçada que estou vendendo aí [se referia ao material dos rebelados].
(...) Ela insistiu: “eles são uns demônios, eles corriam como demônios”.
Aí eu entrei no cemitério para rezar e quando voltei ela me abordou de novo dizendo: “isso vem do inferno, porque quando o João Clá vem aqui, eles ficam enlouquecidos. Quebraram muitos vasos meus, ele coloca essa gente como louca. Eles me pagaram, mas ficam loucos. Isso vem do inferno”. Quer dizer, ela estava chocadíssima.
Na sua última viagem aos Estados Unidos (1996), JC foi despertando muitas cristalizações, mas ninguém ousava dizer “o rei está nu”:
SRM, 16/12/97:
Sr. Henrique Fragelli: ................. quem está cristalizado, era óbvio, estava aqui escrito “estou cristalizado”. ........... [A gente conversando com um deles], na hora desabafava, “mas que alivio!” E então contava as perplexidades deles. Alguns estavam na beira da apostasia, disseram isso. Teve gente que não dormia à noite, porque não entendia o que estava acontecendo. ................
Sr. R. Lyon: ............ eu já estava cristalizado, mas não sentia possibilidade de falar com ninguém. Cada pessoa pensava que seu caso era um caso isolado.
Sr. HF: Quem estava cristalizado era evidente que estava com problema de consciência, um andando pelo pátio, outro ... ,com cara preocupada. E quando se explicava para eles, eles mudavam. Era impressionante a mudança de fisionomia. Ficavam alegres, luminosos, uma coisa do outro mundo.
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Resumo de depoimentos diversos durante uma reunião nos EEUU (post 15/10/96):
Ao perceber certas coisas erradas de JC, a gente ficava trincada, porque ele era tido como um homem fidelíssimo ao SDP. Então a gente pensava: “não estou entendendo isso, deve ser que eu estou vendo mal, meus olhos são revolucionários, etc.”
Outros, notando que se penetrassem a fundo nessas problemáticas, comprariam uma briga tremenda, optavam por deixar as coisas passarem, não pensar nisso e levar a vida normal.
Por causa da pressão do “pátio” não se podia levantar dúvida nenhuma a respeito da integridade de JC.
Cada um tinha o problema na cabeça, mas ficava ... achando que era o único que estava assim.
“Este EM se convenceu de que deveria pensar, analisar as coisas e chegou à conclusão de que ele [J] estava errado, mas demorei muito. Pensei que estava sozinho, que o Sr. Mário Navarro, Sr. Luiz Antônio Fragelli, todos estavam a favor do Sr. JC e pensei ‘eu estou fora dessa coisa’. (...) Eu tinha medo de dizer às pessoas que eu achava que ele estava errado, achava, não que seria expulso do Grupo, mas tratado com desprezo por todos” (Depoimento do Sr. James Dowl).
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Em carta a Pedro Morazani, 16/2/97, o Sr. James Dowl conta que, depois de ter percebido em JC uma série de coisas heterodoxas:
Mesmo assim, este escravo de Maria não quis largar a idéia da santidade dele. (...) Isso me causou grande consternação, pois se ele era tão santo e eu não confiava nele e não concordava com certas coisas que ele fazia, algo em mim estava seriamente errado e eu não conseguiria viver muito tempo nessa contradição, e comecei a receiar por minha perseverança na TFP. O que eu fiz foi simplesmente evitar de pensar no problema e fingir que eu estava gostando de tudo e pensava que ele era santo, inerrante, etc.
(...) Eu não falei com ninguém a respeito, eu não ousava levantar o assunto com ninguém. (...)
Procurei não pensar mais nas minhas dúvidas até depois do dia 3 de outubro. Uma das razões que eu receiava cultivar dúvidas foi que eu imaginava que o SDP havia dado, ou transmitido todos os dons e carismas ao Sr. João. Duvidar no Sr. João era igual a duvidar a missão e autenticidade do SDP --e isso é impensável!
(...) É preciso dizer que fiquei tão preocupado com a situação da TFP que passei mal por 2 dias, mas [depois que as coisas ficaram claras] senti o maior alivio da minha vida por não estar mais tendo que aceitar a contradição. Senti uma serenidade que está comigo até hoje.
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Depoimento do Sr. Ghioto (carta ao Pe. David, 24/5/7, pp.10,11,17,18):
Desde o inicio [da graça nova] senti que ele [JC] mantinha reservas para comigo. Devo confessar que também as tinha com relação a ele. Essa reserva, fruto de mil observações, também comentários de outros membros do Grupo, não a tinha explícita. Via muitos pontos errados, que não entendia, mas procurava aceitar sem entender, pois uma pessoa que ocupava tal destaque no Grupo não podia estar tão errado. Muitas vezes fugi do problema, não queria enfrentá-lo. Pensava que o problema estava em mim. Foi uma cruz que carreguei durante muito tempo. (...) Nessa situação toda, ficou uma provação. Por mais que queria, não consigo entender muitas atitudes, maneiras de ser, e outras coisas mais dele. Inúmeras observações me levavam a isso e, assim sendo, qualquer coisa dele me era estranho. (...) Apesar de todas as objeções que tinha, não queria enfrentar o problema, pois pressentia todo o sofrimento que acarretaria. Também tinha muitas dúvidas não resolvidas. Resolvi desafabar com um auxiliar meu, pois nem sequer estava conseguindo dormir.
(...) Procurei um outro cooperador que também se mantinha meio quieto, meio provado e pus a questão. Ele se acendeu na hora. Disse que não sentia a tal ‘graça nova’, e que corria porque todo mundo corria.
(...) Depois ficamos sabendo de uma senhora que estava provadíssima a ponto de chorar. Ia às reuniões, ouvia falar do Sr. João Clá, aplaudia, etc., e depois quando chegava em sua casa chorava. Julgava ela, que sua família tinha cometido algum pecado.
Palavras de Dr. Plinio, almoço 25/9/94:
Uma coisa que me deixa muito desconfiado que é o seguinte:
Na Companhia de Jesus há [as tais conversações de Strasbourg] no século passado, sob o reinado de São Pio X que tiveram encontros em Strasbourg com a maçonaria. E chegaram a um entendimento com a maçonaria.
(Dr. Paulo Brito: Mas São Pio X sabia?)
Eu acho que não sabia. Eles não ligavam, hein!
(D. Bertrand: Não é Pio IX?)
A idéia que eu tenho que foi São Pio X.
(D. Bertrand: São Pio X é de 1903 a 1914.)
Bom, seja como for, fosse Pio IX o dado essencial do problema não está afetado. Mas o fato concreto é o seguinte: não é o fato de ter aparecido um geral que fosse um traidor, porque isso podia acontecer. Mas a facilidade com que esse geral conseguiu levar atrás de si toda a Companhia.
(D. Bertrand: E qual foi o acordo que eles fizeram?)
O acordo foi uma espécie de não atacar mutuamente e caminhando para um eventual entendimento (1). Foi o que se fez.
Porque no meu tempo, no primeiro tempo de São Luiz, meu, foi nessa ocasião que morreu tio João Alfredo, e eles tinham um hábito que depois, no tempo de vocês, e talvez de D. Bertrand e D. Luiz, se perdeu completamente, era fazer alguns comentários de caráter político sobre temas históricos e outros sobre temas atuais.
(Dr. Paulo Brito: Em aula?)
Em aula. Então quando morreu tio João Alfredo, eu me lembro -- eu sabia que era meu tio mas assim nas nuvens, ele nunca vinha a São Paulo, eu nunca o tinha visto. [...inaudível] surpresa em aula quando o padre disse: "Aconteceu no Brasil uma coisa muito importante, acaba de morrer um homem que teve muita parte na história do Brasil, e que foi o conselheiro tatatá. E então nós precisamos dizer uma coisa para saber o que pensar a respeito dele".
E lá vinha uma cantilena atacando a investida feita por ele contra D. Vital. Cantilena inteiramente fundada, inteiramente razoável, [mas que fizeram].
Depois vinha a história [da conversão] do tio João Alfredo. E tio João Alfredo membro da ordem terceira do Carmo, etc. Então aí ele se converteu.
(Cel. Poli: Antes de morrer ficou terceiro do Carmo?)
Morreu terceiro do Carmo. A questão é que ao menos aí eles fizeram também um ataque muito grande à maçonaria. [...inaudível] a maçonaria é que tinha colocado todo aquele caso, etc. e tal.
E depois disso nunca mais ouvi falar de maçonaria. E eu acho que foi o último toque de sino em São Paulo da posição antiga da Companhia, anti-maçônica, etc.
Mas como é que todos se deixaram levar por isso?
É um mistério muito grande que se prende a uma coisa que também por sua vez é muito misteriosa, que são os votos de obediência [da Companhia] (2).
Comentários:
O acordo da Companhia com a Maçonaria não é análogo ao acordo de JC com a Estrutura?
Em certa ocasião, fins de 1994 ou 1995, Dr. Plinio confidenciou a Dr. Luiz que passou um certo período hospedado no êremo de São Bento para ver se descobria o mistério por onde os eremitas prestavam maior obediência a JC do que a ele (Dr. Plinio); que esteve fazendo apostolado com André Dantas para tentar conseguir que se abrisse e revelasse o enigma, mas que André Dantas permaneceu hermético.
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Almoço de 3/10/94, um ano antes do falecimento de Dr. Plinio:
(Andreas Meran: Mas o senhor acha em que momento foi que [os jesuítas] desviaram do Fundador?)
(...) Para mim houve um momento em que na Companhia prevaleceu a idéia de que algumas coisas instituídas por Santo Inácio deveriam mudar de formulação, à vista de um mundo profundamente modificado. E depois talvez devessem mesmo. Mas a questão é que em certas coisas você não mexe, porque é melhor elas ficarem tortas ou atrasadas, do que reescritas por gente que vai desfigurar.
(D. Bertrand: Sobretudo porque os jesuítas foram [instituídos?] especificamente para acabar com a pseudo-Reforma, e em certo momento eles desviaram desse objetivo. E deixaram essa cruzada, para serem os confessores do rei, os donos dos colégios de formação da elite, etc.)
Governar o Ocidente.
(D. Bertrand: O senhor insistiu muito nesse ponto, que a TFP existe para destruir a Revolução e implantar o Reino de Maria. No momento em que nós esquecermos isso...)
Morreu a TFP.
(Andreas Meran: E o que o senhor diz também. "Cuidado em inventar novas fórmulas que o Fundador colocou, porque aí começa: não, mas na época dele, ele deve ter pensando diferente, agora está mudado...")
"Foi de tal maneira, antes de morrer..."
Isso posto, vejamos como os joanistas incorrem exatamente no erro censurado por Dr. Plinio:
a) No tocante ao relacionamento com a Estrutura – Fala Patrício Amunátegui:
Quando em 1970 foi levantado o assunto da Missa Nova, com o livro “Considerações sobre o Ordo Missae de Paulo VI”, o SDP seguia uma política de confronto aberto e declarado com o clero progressista, denunciando a infiltração esquerdista na Igreja.(...) Quem não vê que, naquela época, (...) ele podia fazer denúncias, as mais contundentes, com um desembaraço que não seria possível ostentar hoje?
(Cfr. "E Monsenhor Lefevre vive?" p.41)
b) No tocante à Missa Nova - Referindo-se ao que Dr. Plinio disse e ordenou no SD 26/5/73, “se bem que a Missa [Nova] seja válida, nós não podemos participar dessa Missa”, o ideólogo do joanismo pontifica o seguinte:
Esta última afirmação não pode ser entendida ao pé da letra, mas, conforme as circunstâncias, comporta excepções (...). (Cfr. "E Monsenhor Lefevre vive?" p. 20)
c) No tocante aos alicerces da TFP, isto é, nossos Estatutos:
[São] obsoletos (Cfr. “Quia Nominor Provectus”, p.189)
Foram concebidos numa época em que essa multiplicidade de aspectos [NB: o que os joanistas denominam : “organicidade da TFP”] não era tão nítida aos olhos de todos (Cfr. “Quia Nominor Provectus”, p.186)
80% dos membros da TFP (...) abriram um processo civil, em novembro de 1997, com o intuito de obter a alteração dos estatutos, de modo a ampliar largamente o direito de voto nas assembléias gerais (...) (Cfr. volante intitulado “Divisão no seio da TFP?”, 29/6/98).
d) No tocante às normas enquanto tais, isto é, em si, independentemente do assunto sobre o qual versem:
As normas do SDP variam dependendo das circunstâncias que rodeiam cada caso concreto.
(Cfr. "E Monsenhor Lefevre vive?" p.61)
Em tempo de guerra as leis mudam. Em tempo de perigo as atitudes diplomáticas, salvaguardando devidamente a moral, não poderão variar? ("E Monsenhor Lefevre vive?" p. 106)
e) No tocante às normas da moral católica - Reunião dos encarregados do mailing de Fátima, CCEE, eremos itinerantes, Comissão Padre Anchieta, etc., com JC, em 24/4/96:
Aparte: Parece que o problema que está por detrás disso é o seguinte: como eles [os CCEE] por um certo lado procuram nos imitar, para eles só serve [para apostolado] quem é capaz de nos imitar, e eles acham que eles decaem si eles mantiverem relação com quem não é capaz de nos imitar (...). Agora nós fizemos [um encontro regional de CCEE] lá em Juiz de Fora, uma correspondente que mora lá nos diz: “bom, agora eu quero que os Srs. me digam: essa gente vai sair daqui e vai continuar vendo televisão, vai continuar a usar calça comprida?” É claro que não vai mudar numa primeira ... Então, em princípio não presta.
Resposta de JC:
E nem é conveniente, por incrível que pareça, apesar de ser um pecado, nem é conveniente que se mude de hábito assim. Porque si mudar demais de hábito se destaca do ambiente. Se destacando do ambiente, não consegue mais fazer apostolado