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O "day after" em Jasna Gora

"Expulso" de Jasna Gora e da TFP, para mim o caso estava encerrado ─ momentaneamente. Porém, para o Sr. Fernando Larrain começava um calvário difícil de conceber. Os algozes são seus próprios irmãos de vocação, que dizem ter herdado a direção da "família de almas" da TFP.

Sendo o Sr. Fernando Larrain originário de uma das famílias mais tradicionais do Chile, e um dos fundadores da TFP andina, o rude trato recebido de seus pares brasileiros, paulistas de 400 anos, e do Sr. F. Antúnez, chileno como ele e bem mais novo no Grupo, tinha ainda como agravante essa proximidade de relacionamento.

Um empregado não poderia ser tratado assim. Muito menos uma pessoa que merece todo o respeito por sua vocação, pelos longos serviços prestados à Causa e pela sua condição social. Mas nada disso parece que tiveram em vista os diretores da TFP brasileira, coagindo-o arbitrária e secamente a recolher-se a uma "camáldula restrita", sob pena de expulsão de Jasna Gora.

Este tipo de expulsöes sumárias, inauguradas no Grupo após o falecimento de nosso Pai e Fundador, vem se consolidando como método de ação, certamente para "pôr ordem na casa". Inaugurou-se nos Estados Unidos, com a expulsão brutal do Sr. Steven Schmieder, vice-presidente da TFP norte-americana, foi aplicado depois na França, em seguida na antiga sede de apostolado de Campos e agora em São Paulo. Não será preciso demonstrar a falta de espírito pliniano do sistema. E o que dizer de seus frutos?... Nos Estados Unidos, quando o Sr. Steven Schmieder foi despedir-se cortesmente do Sr. L.A. Fragelli, o Sr. E. Bianchini quis se aproveitar da situação indefesa de quem se retirava para lhe infligir uma humilhação derradeira, no último instante de sua permanência na Sede de Spring Grove. Aos berros insultou-o grosseiramente, chamando-o de "ladrão" e "traidor", aproveitando também para se vingar de todos os ressentimentos alimentados contra seu irmão de vocação. Uma leitura rápida de um tratado de moral é suficiente para dar idéia da gravidade do pecado de injúria, e ver como anda esquecido, em alguns setores do Grupo, o cumprimento de certos preceitos da Lei de Deus.

Um relato de sua situação, que o Sr. Fernando Larrain fez chegar a chilenos próximos a ele, dar-nos-á uma idéia clara de como ocorreram os acontecimentos.



GFN PARA EL SR. FRANCISCO LECAROS

CONFIDENCIAL ─ 15.X.97

Caríssimo Sr. Francisco

Salve Maria!

Há tempos que estou por lhe responder e não me chegava o momento. Certamente o Sr. estará informado dos últimos e tristes acontecimentos de SP e Jasna Gora. Agora teria matéria para lhe escrever um livro... Mas não se assuste, só lhe contarei uma ou outra coisa mais decidora. O faço a título pessoal e reservado. Pode, logicamente, mostrar a seus irmãos com quem por laços de família e amizade nos unimos desde sempre. O Sr. compreenderá que, na atual confusão preternatural, esta carta facilmente será pretexto para as piores sançöes contra mim. Mas estando sozinho na camáldula restrita, sem ainda proibição de escrever nem de contar as faltas de sintonia que ocorrem por aqui, com alguém posso eu desabafar tantas e tantas impressöes e perplexidades.

O Sr. saberá que, por ordem dos membros do grupo da Martim, sob pena de expulsão de Jasna Gora, estou coagido a levar uma vida de camáldula com clausura restrita. Em termos concretos, não posso falar nem olhar ninguém. Qualquer falha nesta linha devo relatar, não a meu confessor ou diretor espiritual, mas ao Sr. Dávila.

Tenho obrigação de clausura. Foi determinado que me cortariam o telefone, mas ainda não o fizeram, e devo suportar com paciência qualquer desordem ou esquecimento em me trazerem as refeiçöes na cela.

O anterior consta em documento escrito com letra do Sr. Fernando Antúnez e também me foi reiterado pelo Dr. Plinio Xavier em reunião aqui em JG, quando me ditou os mesmos pontos no sábado, 11 de outubro. Estas medidas começaram a vigorar a partir da meia-noite desse dia.



De tal forma este modo de agir da nova diretoria estatutária da TFP é contrário ao Direito Natural, e aos costumes estabelecidos pelo Sr. Dr. Plinio, que quase me parece supérfluo insistir neste ponto. No entanto, não se perde nada em transcrever a fórmula de compromisso assinada por todos os camaldulenses de Jasna Gora, na qual fica inteiramente claro que esse regime de vida nunca pode ser imposto a ninguém; só pode ser adotado por livre e espontânea vontade. Pois para tal se necessita de uma graça de Deus muito específica, como o Sr. Dr. Plinio várias vezes ressaltou, sem a qual a camáldula seria sinônimo de prisão. Parece que os membros da Martim não conseguem captar esse tipo de particularidades, o que, entretanto, é essencial para quem pretende substituir o Sr. Dr. Plinio na condução de almas. Por aí se vê que graves prejuízos devem advir para a Causa no futuro.



DECLARAÇÃO DE ESTADO DE VIDA CAMALDULENSE

Eu, Fulano de Tal, abaixo assinado, declaro que por livre e espontânea vontade, estou levando a vida de silêncio e clausura denominada internamente na TFP de "camaldulense".

(Data e assinatura)





Que surpreendente amnésia atingiu o Dr. Luiz Nazareno, Quidam de Jasna Gora há cerca de vinte anos e conhecedor de todos estes costumes estabelecidos pelo Sr. Dr. Plinio, fazendo com que ele de repente ignorasse tudo isto e passasse a agir em sentido diametralmente oposto? As palavras do Dr. Luiz Nazareno são um testemunho expressivo:



O senhor depois fala que "é evidente que a graça camaldulense é uma honra imerecida diante de Deus, de Nossa Senhora, do Sr. Dr. Plinio e do Grupo. Mas uma coisa é aceitar voluntariamente essa vida. Outra lhe ser imposta e em termos rigorosos".

Isso não tem dúvida, Sr. Fernando, isso concordo com o senhor. É verdade que havia ainda a possibilidade de o senhor deixar Jasna Gora e isto eu devo dizer ao senhor que eu vejo, com muito gosto, quanto apreço o senhor tem pela casa, a ponto de suportar essa penitência para poder permanecer aqui conosco. Isso me deixa contente.

Sim, de fato, eu reconheço que a coisa imposta é muito mais dura, mas também sendo justas ou não sendo justas as queixas que existem a seu respeito, só podem fazer bem para o senhor. Se forem justas porque reparam, se não forem justas porque o senhor consegue mais méritos ainda. [...] 1



Voltemos ao relato do Sr. Fernando Larrain:



Todo o anterior, como disse, sob pena de ser excluído de Jasna Gora após 22 anos de serviços prestados à CR nesta dura e abençoada trincheira em que o Sr. Dr. Plinio me colocou. De 1975 até seu tristíssimo falecimento, em 1995, não exageraria dizendo que, semana após semana, só teve palavras de proteção e estímulo ─ mesmo quando justa e misericordiosamente me corrigia ─ em todo o apostolado que aqui tenho tido a honra de desenvolver.

Estou proibido, ademais, de falar com o Dr. Luizinho, quidam de Jasna Gora e vice-presidente em exercício da TFP, com poderes de presidente.

Posteriormente, no dia 11, por concessão do Sr. F. Antúnez ─ um dos "maire de palais" dos membros da Martim ─ fui autorizado a comunicar-me, só por escrito, com o Dr. Luiz. Por bilhete que recebi do Dr. Luiz, que está elaborando o ordo definitivo que serei coagido a seguir, talvez as medidas acima referidas venham a ser em algo atenuadas, uma vez que o Sr. F. Antúnez viajou e o Dr. P. Xavier pode ajudá-lo menos na matéria de dirigir as almas. Enfim, veremos.

O Sr. dirá: mas qual o crime horroroso em que este seu velho amigo se meteu?

Se eu lhe conto, vai ser uma versão suspeita. O "criminoso", não tem obrigação de depor contra si mesmo. Por isso dou o testemunho dos acusadores. O suposto crime foi declarado pelo Dr. Eduardo, com todo o apoio do Dr. P. Xavier em reunião que tivemos na SRM no dia 7 de outubro e que foi gravada oficialmente:



Sr. Fernando Larrain: Mas eu preciso da razão pela qual saio.

Dr. Eduardo Brotero: É por uma influência pela qual nós discordamos.

Sr. Fernando Larrain: Mas qual é essa influência?

Dr. Eduardo Brotero: É uma influência contra o espírito do Sr. Dr. Plinio.

Sr. Fernando Larrain: Ah, está perfeito.

* * *

Tanto o Dr. P. Xavier quanto o Sr. F. Antúnez, em conversa não gravada, no dia anterior, na mesma Sede do Reino de Maria, reconheceram não lembrar nenhum fato, em concreto, contra meu procedimento, mas disseram que, com facilidade, o Dr. Luizinho poderia gravar uma fita de 15 a 30 minutos enumerando minhas faltas. Isto foi no dia 6 de outubro e até hoje não recebi a tal fita e, fazendo juízo temerário, prevejo que nunca a receberei.

De fato, para resumir, estou simplificando as coisas, mas o Dr. P. Xavier em duas oportunidades fez menção a um só fato que ele considera da maior gravidade e que reconhece ser a única coisa que alegou sobre meu mau procedimento.

Diz que quando se deu a compra de Jasna Gora eu pressionei a ele: eu consultei a seu irmão advogado, o Sr. Andrés Lecaros, um problema legal que surgiu; consulta que eu teria feito sem antes perguntar a ele, Dr. P. Xavier. Eis as palavras gravadas na mesma conversa do dia 7 passado:

Dr. Plinio Xavier: Eu contei ontem uma única coisa, que foi a atitude dos senhores na compra de Jasna Gora: a pressão que exerceram, todo aquele caso da consulta ao Sr. Andrés Lecaros.

O senhor negou. Eu disse para o senhor que não adianta dar o [motivo] porque o senhor vai negar do mesmo jeito. 2



Convém notar, neste ponto, que o Dr. Plinio Xavier não admite o direito de legítima defesa. Verdade é aquilo que ele pensa, ou o que o ilustre colégio dos "provectos" determinam. Se a realidade for diferente, tanto pior para a realidade, ou para o acusado... A sentença será executada da mesma forma. Não lembra isto certas histórias da época do Terror na Revolução Francesa, ou nas depuraçöes do regime estalinista?

Sr. Fernando Larrain: Então vamos pôr por escrito essas razöes para que o senhor saiba que...

Dr. Plinio Xavier: Mas se o senhor vai negar todas...!

Sr. Fernando Larrain: Não é para negar, é para que conste no Grupo que eu fui levado a..., por essa razão, que é Andrés Lecaros. Andrés Lecaros veio aqui, convidado pela senhora do Sr. Eugenio Echeverría, passou em Jasna Gora três dias, e daí o senhor conclui que se fez uma conspiração. Eu nego, mas não importa! Ponha as razöes para que eu possa dizer: "Minha camáldula restrita é por ordem..., porque eu fiz isso para Andrés Lecaros. Porque Dr. Plinio Xavier reconhece que não foi porque [houve algo infamante]..." 3



Alguns dias depois, tendo o Dr. Luiz Nazareno ─ o vice-presidente do Conselho Nacional, no exercício da presidência ─ declarado que obtivera autorização (sic!) do Dr. Eduardo Brotero para tratar pessoalmente da situação do Sr. Fernando Larrain, estabeleceu-se entre o Dr. Luiz Nazareno e o Sr. Fernando Larrain um intercâmbio por escrito e por meio de fitas gravadas. Nessas gravaçöes, das quais serão transcritos alguns trechos mais expressivos, expöe o Dr. Luiz Nazareno com muito mais clareza e desinibição o fundo de seu pensamento, e as razöes que o levaram, bem como os demais membros da diretoria estatutária da TFP, coadjuvados por um de seus "desinteressados" conselheiros, o Sr. F. Antúnez, a tomar medida tão drástica ─ encerrar alguém numa espécie de solitária ─ passando por cima dos estatutos da TFP, das leis brasileiras e do Direito Natural.

O objetivo dessa troca de fitas gravadas seria a de esclarecer alguns pontos do "ordo" camaldulense que a diretoria estatutária da TFP brasileira, preocupada com o "bem espiritual" do Sr. Fernando Larrain, lhe impôs sob coação. No entanto, após esclarecer um ou outro detalhe, o Dr. Luiz Nazareno passa a tratar do assunto que nos últimos meses quase de forma exclusiva lhe ocupa a mente, tecendo as mais impiedosas críticas contra o Sr. João Clá, indo muito além do que dissera anteriormente.

Um dos pontos que até agora ninguém conseguiu explicar é no que consiste a "má influência", tão contrária ao espírito do Sr. Dr. Plinio, que o Sr. Fernando Larrain exerceria em Jasna Gora, e que justificaria o seu isolamento total, como se se tratasse de um vírus altamente contagioso.



Agora, mais recentemente, o que me dava realmente muita preocupação com respeito ao senhor era sua posição diante da questão João Clá. O senhor, por exemplo, uma vez me disse aqui no salão aqui meu, não na cabine onde estou agora. Mas no salão me diz assim, o senhor estando em pé: "Não. Para mim todos os lados têm qualidades e têm defeitos. Eu o que quero é que haja um acordo e uma união".

Nisso, Sr. Fernando, eu pensei várias vezes e tinha vontade de dizer o seguinte: "Olha, francamente, essa igualha não aceito. Eu, por mais defeitos que tenha, os horrores de um João Clá eu não fiz".

Primeiro o seguinte. São duas fases de horrores.

De 85 a 95 todos os que eu já tenho escrito e que ouvi de Meu Senhor, onde entram as coisas as mais graves, as mais duras, as mais cortantes, as mais severas. Até um certo ponto as mais horríveis e as mais tremendas. Ou seja, Meu Senhor via-se obrigado pela... de ter uma linguagem oficial com ele da qual conseguiram extrair 77 páginas de elogios ─ modéstia à parte, não é?4



Pela afirmação do Dr. Luiz Nazareno, vê-se que segundo ele o Sr. Dr. Plinio era um homem de duas faces: uma coisa era o que ele dizia ─ e repetia numerosas vezes ─ em público, e outra ─ em sentido oposto ─ seria o que ele afirmava privadamente. Esta hipótese choca profundamente logo ao ser ouvida. Só pode ser energicamente rejei­tada por todo e qualquer membro do Grupo que se preze de ser filho espiritual do Sr. Dr. Plinio, constituindo um atentado à sua memória ilibada. Todos atestamos a retidão e a fidelidade à verdade do Sr. Dr. Plinio. Acusação desse tipo, nem os seus mais acérrimos inimigos foram capazes de levantar contra ele, tão refulgente é sua integridade moral.

Argumentandi gratiae, se tais afirmaçöes privadas do Sr. Dr. Plinio sobre o Sr. João Clá fossem verdadeiras, o tornariam indigno de desempenhar as graves responsabilidades apostólicas que o Sr. Dr. Plinio lhe conferiu. E nunca nosso Pai e Fundador teria depositado nele a confiança que todos nós testemunhamos. Ora, nessa hipótese absurda, o Sr. Dr. Plinio estaria manifestando uma complacência com o mal, incompatível com sua integridade.

Ainda segundo o Dr. Luiz Nazareno, o que deve ser levado em conta é o que ele, Dr. Luiz Nazareno, e o Sr. F. Antúnez teriam ouvido em privado do Sr. Dr. Plinio. Em conseqüência tudo o que o Sr. Dr. Plinio disse muitas vezes diante de todo um auditório, e ficou registrado, de nada vale, pois basta aparecer alguém alegando ter ouvido em privado o contrário, que já seria suficiente para anular o que é público e notório.

Salta aos olhos a insensatez desta pretenção. Diz o aforisma de direito: "Testis unus, testis nullus". O que uma única testemunha diz deve ser desconsiderado. Quanto mais ─ acrescento eu ─ quando os documentos contradizem rotundamente tal testemunha.

Fica clara a disposição dos que se afirmam sucessores do Sr. Dr. Plinio, não só de governar toda a "família de almas" da TFP, mas de ficar com o poder de alterar tudo quanto ficou estabelecido em vida por nosso Pai e Fundador, porque... em privado teriam ouvido dele outra coisa. Prova? A sua palavra de "provectos". Não é isto a autodemolição de uma obra?

Continua o Dr. Luiz Nazareno:



Mas ele [Sr. Dr. Plinio] queria ter uma testemunha e que de 85 a 91 fui eu, e depois veio o Sr. Fernando Antúnez também, de que ele estava vendo perfeitamente a crise que se montava a respeito desse homem [o Sr. João Clá]. Desculpe falar aqui "desse homem", mas que de fato eu estou convencido de que é uma pessoa ruim. Eu não tenho remédio se não dizer que é uma pessoa ruim. Entende? Uma pessoa que se entregou ao mal. 5



Aproveito este parágrafo para ressaltar um ponto que parece passar despercebido ao Dr. Luiz Nazareno: muitos membros do Grupo tiveram palavrinhas particulares com nosso Pai e Fundador desde 1985, e é certo que centenas deles podem dar testemunhos de que o Sr. Dr. Plinio lhes recomendou se colocarem sob a autoridade do Sr. João Clá. Como se entende que nosso Fundador fosse pondo seus filhos espirituais sob a batuta de quem se "entregou ao mal", enquanto, en cachette, advertia do perigo dois confidentes privilegiados, Dr. Luiz Nazareno e o Sr. F. Antúnez? Compagina isto com a santidade e a sabedoria de nosso Pai e Fundador? Tem ares de veracidade tal alegação? Eu, particularmente, estou convencido de que a explicação disso se encontra alhures. Continuemos com as palavras do Dr. Luiz Nazareno:

Bom. O senhor vê aqui. É uma falta moral? Eu não vou dizer o que é, Sr. Fernando. Mas já que o senhor fala, vou dizer que esse dito do senhor me deixou muito, muito cristalizado. Quer dizer, é uma coisa assim: "não, os dois lados têm defeitos...". Me parece uma tal simplificação, entende? Uma tal falta de exatidão em analisar as pessoas e as situaçöes. Mas dizer: "o Sr. João tem também qualidades extraordinárias. Olha o que ele fez pelo movimento".

Isso não tem dúvida. Ele fez. Mas também ele teve depois apegos que motivaram ao Sr. Dr. Plinio críticas que ele não teve nem aos provectos. Repito o que já está dito antes. Entende?

E por mais que tenha feito, isso não o admitiria a se lançar como sucessor, como santo, como apóstolo das mulheres, como animador dos jovens único, exclusivo, etc, etc, entende?

Não, não vai, Sr. Fernando. Por aí, francamente. Pode ser que haja um engano, mas enfim.6



A "exegese" das palavras do Dr. Luiz Nazareno nos levaria longe. São reveladoras de um pensamento até agora desconhecido para a grande maioria dos membros do Grupo, só explicável se considerarmos os comentários de nosso Pai e Fundador a respeito da profunda dissonância de cogitaçöes entre ele e os membros da Martim.

Se eu fosse analisar detidamente todos os dizeres do Dr. Luiz Nazareno, nas fitas enviadas por ele ao Sr. Fernando Larrain, teria de escrever um trabalho volumoso, e não é minha intenção de momento.

Limito-me, portanto, a apontar aqui e ali afirmaçöes mais clamorosamente contraditórias da verdade. Apresenta-se agora mais uma oportunidade para isso: quando é que o Sr. João Clá se lançou como sucessor? O Dr. Luiz Nazareno é capaz de apresentar algum documento onde apareça tal declaração do Sr. João? Pelo contrário, dos chamados "provectos" estas não faltam. E quando foi que o Sr. João Clá se apresentou como "apóstolo das mulheres"? É certo que o Dr. Luiz Nazareno tem um incompreensível preconceito contra as correspondentes, do que são prova as palavras ultrajantes que difundiu a respeito delas. Todavia, goste ou não goste, são elas parte integrante de nossa "família de almas", e resultado de anos de apostolado de nosso Pai e Fundador. Se este disse várias vezes ─ e está documentado ─ que desejava deixar o Sr. João como responsável pelo apostolado com os correspondentes, diria o Conselheiro Acácio que as mulheres estão incluídas. Além disso, quando é que o Sr. João se apresentou como o apóstolo exclusivo delas? Estão aí a desmentir tal afirmação as atividades de vários membros do Grupo, como, por exemplo, o Sr. Glavan e os diversos encarregados de sedes fora de São Paulo.

Todavia, neste parágrafo do Dr. Luiz Nazareno que se presta a tantos comentários, quiçá mais chocante seja o desconhecimento mostrado pelo atual vice-presidente da TFP ─ com funçöes de presidente ─ das intençöes de nosso Fundador. Não seria supérfluo que ele reouvisse centenas de fitas de Santos do Dia de Sábado, chás no São Bento, Praesto Sum e outros locais, almoços, telefonemas diversos, inclusive para os Estados Unidos, quantas reuniöes mais, nas quais, sempre que se apresenta a oportunidade, nosso Pai e Fundador reitera sua recomendação, e às vezes de maneira muito enfática: os "enjolras" devem se orientar segundo a formação dada pelo Sr. João. E ─ note-se bem ─ na maior parte das vezes o Sr. Dr. Plinio fazia tais declaraçöes na ausência do Sr. João Clá.

Escamotear essa mole de documentos, e pretender derrubá-la com supostas confidências particulares, não é muito abonador para quem se diz sucessor do Sr. Dr. Plinio.

Voltemos à gravação do Dr. Luiz Nazareno.

Mas do jeito que o senhor fazia parece uma igualha completa.

Ele está lá, os outros estão aqui. Ele com seus defeitos e suas qualidades; eles com seus defeitos e suas qualidades. Eu tenho uma defesa para o senhor: não, é que eu não disse as proporçöes. Bom digamos. Então, mas...

Eu sei que estou fazendo um pouco desabafo, mas já que o senhor pergunta, Sr. Fernando, isso aqui preciso deixar bem claro. Que francamente essa igualha com o Sr. João Clá eu não aceito.

Ainda há pouco tempo o Dr. Edwaldo falou com o Dr. Eduardo se aceitava uma mediação. Dr. Eduardo disse o seguinte: "Eu só aceito uma mediação quando a outra parte for válida", entende?

[...] Eu peço mais uma vez, e ainda vou pedir mais vezes desculpas ao senhor por causa do tom um pouco acalorado. Infelizmente esses assuntos me acaloram um pouco.

[...] Eu digo ao senhor o seguinte, mas digo uma coisa minha. Cria uma dificuldade em minhas relaçöes com o senhor, ou criou, o fato do senhor tomar essa posição. Porque eu, realmente, eu não aceito, e enquanto não houver um desmentido do Sr. João Clá eu continuo a não aceitar, entende?7



Certamente o leitor terá curiosidade de saber o que motivou tanta animadversão do Dr. Luiz Nazareno e dos demais membros da Martim contra o Sr. João Clá. Com sua característica agilidade de pensamento o Dr. Luiz Nazareno cita uma série de fatos, quase sem precisar fazer esforço para os relembrar:

Agora, passa-se 3 de outubro de 95. [...]

É um tal galope de coisas, entende? Esse homem se mete numa questão da Missa que ele agora desembrulhou com essa reunião do auditório do Sr. Paulo Brito. Mas que durante um ano e meio perturbou todo mundo e ainda recentemente em São Bernardo, um emissário dele foi procurar relativizar a Missa junto aos correspondentes, que depois o acusaram desse assunto. Portanto tudo isso até que ponto vai jogo, não vai jogo, eu não sei.

Depois ele se pôs a receber homenagens absolutamente malucas, entende? [...]

Esse ambiente de que ele é santo, que é sucessor, isso, isso continua tout court, tout court, tout court, tout court. Quer dizer, ele criou o ambiente, retirou-se. A coisa continua.

Quer dizer, ele... como as dúvidas a respeito da Missa também precisa ver um pouquinho se na Espanha está tudo bem esclarecido.8



As "dúvidas" não existentes foram mesmo assim respondidas exaustivamente num brilhante trabalho de 347 páginas9 o qual, tenham certeza, será franqueado aos interessados. Não compreendo por que o Dr. Luiz Nazareno insiste num ponto em que ele se viu desmentido de modo irrefutável.

Mas essa coisa de ser santo e sucessor, continua tout court. Continua, não no seu primeiro movimento, vuuu-vuuu! Porque ele ficou...

Só o contravapor que levou nos Estados Unidos e outros fizeram cessar. Mas se o senhor conversa com qualquer pessoa ardita, eles tomam...

Ardito, o homem, ou ardita, mulher, eles tomam ainda essa pessoa como santo sucessor. Pouco mais ou menos. Quer dizer o mal está feito e o mal continua. Porque isto é uma ofensa grave a Meu Senhor. Uma pessoa que se atreve a se colocar no lugar dele.10



Eu sei que o Dr. Luiz Nazareno não tem a menor prova de que o Sr. João Clá apresentou-se alguma vez como santo. Mesmo porque, santo, ou se é, ou não adianta querer passar por tal.

O Dr. Luiz Nazareno, que pelo menos reconheceu a inteligência e agilidade do Sr. João, deveria concluir ser este o primeiro a evitar o ridículo de representar esse papel. Não estou me pronunciando sobre a virtude do Sr. João Clá, nem a que altura está no caminho rumo ao discipulato perfeito. Não vem ao caso neste assunto. Mas, parece-me que só uma pessoa tomada pela inveja chegaria à conclusão de que a solução para "equilibrar" a adesão e as homenagens que a maior parte do Grupo presta à liderança do Sr. João, e "contrabalançar" os elogios feitos a ele pelo Sr. Dr. Plinio, fosse enumerar abertamente ou soto-voce defeitos ou carências que se imaginassem esquadrinhar nele.

Depois, terceiro ponto, ele fez esse apostolado feminino. O senhor aqui um dia me perguntou: "Mas isso não acabou?". O senhor não se lembra, mas isso foi antes de minha viagem aos Estados Unidos, antes de minha operação. [...]

Só uma fotografia que há dele saindo de Cardoso Moreira, que o senhor deve ter visto. Isto, se fosse mostrado a Meu Senhor, seria para mandar uma pessoa para uma camáldula que estivesse a mil quilômetros da camáldula do Sr. Paulo Texeira Campos no Mato Grosso.

Ora, francamente Sr. Fernando, os dois têm qualidades e defeitos, não! O senhor pode continuar pensando o que o senhor quiser, mas eu quero que fique bem feito ─ já que nós estamos tocando o assunto ─ meu protesto. [...]

Queira o que se queira, queira, não queira. Ele danou com o apostolado feminino com o apostolado... com a propaganda profetizante da pessoa dele e com a confusão a respeito de Missa. Ele fez um dano à TFP ir-re-pa-rá-vel e que disto ele está pagando...

Mas Sr. Fernando, quando eu falei em "irreparável" não quero entrar na cabeça do senhor. Digo "irreparável" porque eu estou pensando, eu estou sozinho, e eu quando começo a pensar, eu nesses pontos eu penso sempre, sempre, sempre. É um dano irreparável. Me desculpe falar assim. A ênfase é argumentandi gratiæ argumentando.

Agora, dizer o seguinte: que os dois lados têm erros e defeitos, não.

Porque tem o seguinte: nem os provectos, com todos os defeitos que nós temos, nem eu mesmo, pintou o caneco de fazer qualquer maluquice dessas.

De modo que os provectos têm os defeitos que sempre tiveram. O Sr. João tem os defeitos que sempre teve. Só que o Sr. João foi objeto para mim, pelo menos, de dez anos de acusaçöes do Senhor Doutor Plinio, enquanto os provectos foram objetos de críticas mas não de acusaçöes pesadas, como era o caso do Sr. João Clá. E, os provectos mais ou menos tocaram a coisa depois da morte de Meu Senhor com uma discrição maior ou menor, mas tocaram. Enquanto esse nosso chefe da... disso que se chama, não sei, a TFP mística, entende? Ou coisa que o valha, fez toda espécie de coisas erradas.11



Além de toda esta verdadeira catilinária, o Dr. Luiz Nazareno não se esquece, numa das duas fitas, de confirmar as anteriores calúnias levantadas contra o Sr. João Clá.

O Pinheiro, José Eduardo Pinheiro, gravou à traição, com a maior deslealdade, umas coisas que eu disse para ele [toca o telefone] e ele José Eduardo, e então, o Sr. João começou a dizer que eu o caluniei. E de fato, eu posso, se for necessário, um dia, explicar para o senhor que NÃO HOUVE CALÚNIAS. Houve verdade apenas e não houve calúnias.12



Para coroar o libelo acusatório, a afirmação de que o Sr. João Clá tem parte com o demônio para fazer tudo quanto faz. Razão pela qual ele não quer que o Sr. Fernando Larrain tenha o mínimo contacto com o Sr. João Clá.

O procedimento dessa pessoa chamada Sr. João Scognamiglio Clá Dias, merecia e merece, a meu ver, uma repulsa completa.

Sem falar numa coisa que não falei até agora: até que ponto ele é infestante e tem o preternatural atrás de si para exercer o fascínio fanático que ele exerce sobre tanta gente. E tanta gente que me parece que teria lucidez para perceber como é que ele é.

[...] se se verificasse que de fato ele é uma pessoa no momento muito tocada pelo demônio, haveria uma razão objetiva para que eu não quisesse que uma pessoa, ainda que em silêncio na casa, tivesse contacto com ele. Porque essa pessoa ficaria como uma espécie de antena preternatural dele aqui dentro.

[...] Se se verificar que de fato para fazer toda essas coisas, essas artes que ele fez agora, sobretudo depois da morte do Dr. Plinio, não precisava uma certa ajuda do demônio?

Não se pode simplificar a questão. Nesse caso, não é tão descabido assim que eu não queira que o senhor ─ pelo telefone ou pelas saídas ─ tenha contacto com o Sr. João, porque se ele passar algumas coisas para o senhor, ainda que o senhor aqui não faça apostolado pró-João. Entende? Ainda assim, a coisa fica um pouco carregada. Entende? E aí pode ter um fundamento um pouco objetivo. Mas precisaria uma pessoa com discernimento dos espíritos, portanto, só Meu Senhor que podia dizer se o Sr. João está de fato ou não está ajudado, meio tomado pelo demônio. Eu pessoalmente estou convencido.13



Não me é possível passar despercebido o desvario no qual parece ir mergulhando o Dr. Luiz Nazareno. É pena que o papel não consiga transmitir a exaltação com a qual essas palavras são ditas, pois seria muito ilustrativo. O assunto "João Clá" tornou-se para ele obsessão. O simples fato de alguém ter contacto cordial com o Sr. João Clá, como era o caso do Sr. Fernando Larrain, o meu e o de tantas outras pessoas no Grupo, já constitui motivo de suspeita de uma trama contra os "provectos" e, até mesmo, de se ter tornado "antena do demônio"...

Agora, uma coisa é ter relaçöes cordiais. Isso se deve ter. Outra é o seguinte. É não examinar, tanto quanto se deve, qual é o estado de espírito da pessoa com a qual se têm relaçöes cordiais. Pois se a gente não examina bem quem é o outro, a influência do outro passa para a gente.

Eu posso dizer para o senhor que nesse ponto eu tive uma luta árdua. Eu só falava com ele com relíquia na mão, porque eu percebia que em todas conversas ele acabava me engazopando, com toda a arte, com todo o jeito, com toda a lábia que ele tem. Entende?

Mas eu procurava ver, e até hoje ─ foi uma graça que eu recebi vindo dos Estados Unidos e da Europa para cá ─ foi o seguinte: eu pedi a graça de ter bem presente a malícia dele. [...]

Bom, então. Eu não tinha propriamente a queixa de suas relaçöes cordiais com o Sr. João, porque eu também tinha relaçöes cordiais com o Sr. João. O que eu tinha era uma queixa porque sabia que o Sr. João queria se aproximar do senhor para ver se de algum jeito influía nas coisas daqui de Jasna Gora.

Bom eu acho. Eu acho... eu ouvi dizer que havia muitos ─ por pessoas que falavam, que havia na portaria ─ que o Sr. João o chamou várias vezes. Com que freqüência? Não sei. Há umas pessoas aqui que falam demais, que dizem que era uma freqüência enorme. Eu não sei. Eu sei que chamava o senhor. [...]

Mas que eu temia enormemente que os tentáculos do Sr. João, através do senhor e do Sr. Ramón acabassem envolvendo essa casa de Jasna Gora, temia. Tanto que, apesar de ser violento para mim, apoiei o que foi feito.

Violento para minha natureza. Eu apoiei o que foi feito, seja com o senhor, seja com o Sr. Ramón. Entende? Essa é a realidade. [...]

E depois, naquele infeliz relato de tudo o que os Patrícios andaram falando, aparece isto. Em Jasna Gora o Sr. João não tem maiores problemas, porque conta com alguma vantagem para si, porque através do Sr. Fernando Larrain consegue influir lá dentro. Algo assim. Se o senhor leu, o senhor saberá melhor que eu. Mas, enfim, o Sr. João Clá fala das vantagens que ele tinha das relaçöes com o senhor. [...]

Eu não vejo como pode haver um razoável equilíbrio na sua camaldulização se continuarem as relaçöes com o Sr. João. Francamente não vejo. O senhor pode dizer: "Dr. Luizinho, essa é uma coisa subjetiva do senhor". É... quiçá, Sr. Fernando, mas aqui eu tenho que dizer uma coisa com... que é o seguinte. É uma miséria, Sr. Fernando, eu não agüento.

Não agüento porque me dá uma tal preocupação saber que o senhor está trancado, mas tem um fio telefônico ligado com São Bento, entende? Que eu não sei o que dizer. Bom, eu vou ter que parar aqui...

[...] eu vejo que falei um pouco enfático, depois, de fato, o que posso fazer, Sr. Fernando, minha carga contra o Sr. João é terrível, entende? Eu fico passado com as coisas que ele faz, que ele mexe, que promove e toda uma orientação inteiramente diferente do Sr. Dr. Plinio, sobretudo na questão igualitária, a questão ordem religiosa, há ditos e mais ditos dele, por exemplo, uma na Espanha de que na Bagarre tudo será igual entre correspondentes e membros do Grupo, e depois, que ele vai fundar uma ordem religiosa, depois todo o desprezo que ele tem pelo lado político-social, toda sabotagem que estão fazendo nas reuniöes de quinta e de sábado, entende? Francamente...

Sabotagem por ordem dele que fazem os "são-bentinos" e...

Em todo caso isso faz com que eu tenha sido um pouco pesado, um pouco exaltado nesse ditado, mas eu estou disposto a ajudar o senhor de todos os modos, e não deixe portanto de fazer as objeçöes que o senhor quer, e conte com minhas oraçöes e um desejo ardente, mas realmente ardente, de que se possa encontrar uma solução razoável e proporcionada ao que está acontecendo com o senhor.

[...] Reze muito por mim, Sr. Fernando, eu sei que o senhor faz, mas eu peço muito instantemente, porque o senhor vê que eu tenho um estado de saúde que está ainda meio vacilante, embora esteja francamente melhor, depois tenho o peso das minhas misérias, porque se eu conseguisse ver com muito mais isenção de ânimo, não! Nem com muito mais, com isenção de ânimo só a questão do João Clá, mas o senhor vê que não é com isenção de ânimo, eu vejo muito animado, como eu tenho segurança de que eu estou certo, e tenho na minha companhia os provectos e mais em São Paulo umas 40, 50 pessoas, mais o Grupo todo dos Estados Unidos, mais isso, mais aquilo, enfim, eu não creio que possa ser que simplesmente estamos todos assim, errados, enganados, não, eu acho que não. Eu acho que a coisa assim também não é.14



Como se vê, pelo que diz o Dr. Luiz Nazareno, o único motivo real das medidas tomadas contra o Sr. Fernando Larrain, e também contra mim, era o relacionamento com o Sr. João Clá, e o receio obsessivo de que, através de nós, ele influenciasse outras pessoas em Jasna Gora. No início de toda esta novela trágica, o Sr. F. Antúnez afirmara que o Dr. Luiz Nazareno poderia gravar uma fita inteira com fatos que justificariam a camaldulização do Sr. Fernando Larrain. Ao pedir que os apontasse, o Dr. Luiz Nazareno apenas conseguiu mencionar um, que ele próprio reconhece não ter importância. A seguir as perguntas feitas sobre esse ponto pelo Sr. Fernando Larrain, e as respostas do Dr. Luiz Nazareno:

Pergunta do Sr. Fernando Larrain:

"[...] que fique inteiramente claro para mim, se houve de minha parte alguma falta moral, falha especial disciplinar contra os costumes desta casa, em fim qualquer descortesia para com o senhor ou qualquer outro membro daqui".

Resposta do Dr. Luiz Nazareno:

Não. Eu não entraria na coisa por aí. Se houve falta moral, falha especial disciplinar contra a cortesia dessa casa...

Não. Pode ter havido coisas dessas também. Mas eu acho que nos devemos encaminhar o assunto de outro modo.

Sr. Fernando Larrain:

"O Sr. F. Antúnez me disse que existiam, mas que ele não se lembrava de fatos de momento, mas que o Sr. me poderia gravar uma fita de 15 a 20 minutos relatando meu mau procedimento. É claro que não pedirei um esforço especial do Sr. Mas o que Sr. puder dizer-me nesse sentido, o tempo que lhe ficar mais leve, eu lhe seria muito grato. Se pelo contrário nada de especial há, uma palavra expressa do senhor deixaria minha consciência desanuviada".

Dr. Luiz Nazareno:

Bom. Aqui o que eu teria a dizer é o seguinte: sem classificar de falha deste tipo, daquele ou daquele outro, o que... Me parece o seguinte. Já que o senhor pergunta, já que isso aborda em certo modo as suas relaçöes para comigo, para com a casa, eu sempre notei da parte do senhor... Se o senhor fala em descortesia. Isso é preciso dizer que o senhor nunca foi descortês, pelo menos o senhor sempre cumpriu para comigo o mais exatamente possível todos os deveres da cortesia. Eu sublinho isso de maneira muito especial porque o próprio Dr. Eduardo, que afinal das contas teve talvez, com quem o senhor terá tido uma dificuldade diante desses incidentes todos, me dizia, por exemplo, da pontualidade com que o senhor telefonava para ele para saber de meu estado de saúde todos os dias quando eu estava naquela agonia lá do Hospital Hopkins, daquela coisa toda e depois. E assim, uma porção de outros pequenos deveres de cortesia eu sempre vi de sua parte muita atenção.

O que se passa, eu creio que é uma outra coisa. Que é uma diferença de pontos de vista, muito freqüente.

Eu não me lembro mais exatamente do que se passou na época do Sr. Fernando Gioia. [...]

Agora, na questão do Sr. Fernando Gioia é preciso dizer o seguinte. Que eu... ─ já que o senhor pergunta se há alguma coisa passada, eu digo ─ não tinha maior entusiasmo de toda guarida que o senhor deu às queixas dele. Muitas queixas eram justas, pois a casa não correspondia, e mais isso, aquilo e aquilo outro. Não tem dúvida, mas o modo dele se queixar era inteiramente egoístico, inteiramente apaixonado e no fim da vida dele meio amalucado.

[...] Mas eu me lembro que naquele tempo também o senhor ficou com muita dificuldade comigo. Eu, a única coisa que tenho na cabeça, é uma discussão que o senhor teve com alguém aqui nesse caminhozinho de areia que existe entre, logo no começo do gramado, no início da rampa em que esse alguém falava qualquer coisa a meu respeito e o senhor então invectivou-me de algum modo por descontentamento que o senhor estava comigo em virtude de meu modo ─ terá sido mais certo ou mais errado ─ de conduzir o Sr. Gioia.

Bom, também isso não tem maior importância. Até um certo ponto é um fato passado.

Mas se o senhor pergunta, desse fato concreto eu me lembro.15



Por fim, alguns pontos do "ordo" do benéfico regime de "camáldula restrita", que o Dr. Luiz Nazareno solicitamente impöe:

Também eu queria que desse ordo constasse que o senhor não tem direito a conversar a não ser com o Sr. Dávila e com o Dr. Luizinho e não tem direito a conversar com o Encarregado de Disciplina. O Encarregado de Disciplina muda. A semana que vem já vai ser o Sr. João Sérgio e também como eles não são pessoas que, do ponto de vista da política com o partido..., partido, enfim, digamos partido. Ou se o senhor quiser uma palavra mais suave, o setor João Clá.

[...] Eu entendi que o senhor durante a semana teve um desabafo com o Sr. Eurico. Mas isto, eu não estou fazendo uma reclamação. Eu estou apenas fazendo uma constatação para dizer ao senhor que eu preferiria que, de agora em diante, não fosse assim e que isso constasse por escrito. Que o Encarregado de Disciplina não é a pessoa que o senhor possa se dirigir para desabafar. Mas sim o Sr. Dávila ou Dr. Luizinho.

Bom, também o fato de o senhor ter mandado a cópia da carta que o senhor me mandou ontem, o senhor ter enviado, a cópia da carta que o senhor me mandou ontem ao Sr. Eurico, me deu um certo sobressalto. Eu prefiro que, havendo correspondência, só possa dirigir ao Sr. Dávila e a mim. Se isso puder também constar numa regra ou numa norma disciplinar, como o senhor achar melhor, isso não tem importância, mas que fique por escrito de que contactos serão só com o Sr. Dávila ou comigo. [...]

O ordo externo seria telefone para negócios e saídas para negócios. Aí, Sr. Fernando, também eu gostaria que constasse por escrito o seguinte: os telefonemas só podem ser sobre assuntos extra-Grupo. Quer dizer, sobre negócios. Por exemplo o senhor tem que falar com o Sr. Francisco Lecaros, então trata de negócios. Mas se ele perguntar "e a situação de Jasna Gora como vai?" Como vai o Dr. Luizinho? Como vai fulano? Estão muito contra o Sr. João Clá? Estão a favor? Isso realmente eu acho que seria totalmente impossível. Tem que ser proibido. Entra aí uma questão disciplinar segundo desejo dos provectos, segundo desejo meu expresso que eu, de um lado quero muito que o senhor fique aqui, mas eu temo muito, Sr. Fernando, suas conversas com as pessoas do outro setor.

[...] Também eu queria que do ordo externo constasse que o senhor não pode freqüentar as sedes a não ser combinando comigo antes. Pois se o senhor não tiver outro lugar para encontrar uma pessoa que o senhor tiver que encontrar, a não ser a Sede do Reino de Maria, por exemplo, eu admitiria. Ou a Martim Francisco talvez seja mais discreto. Eu preferiria que fosse assim. [...] Mas eu preferiria que o senhor não fosse à Sede do Reino de Maria. Isso eu queria que constasse do ordo.

E... bom. A respeito de todos os telefonemas e das saídas eu queria que o senhor fizesse um relatório de como correu o que o senhor fez. Semanal. Saídas e telefonemas. Apesar das saídas eu já ... só podem ser com autorização prévia minha e isso eu queria que constasse do ordo, eu gostaria depois saber como foi.

[...] Sr. Fernando, o quinto ponto é um pouco delicado, mas... mas eu queria dizer ao senhor o seguinte: que para mim ─ aqui é coisa pessoal minha ─ o espantalho dos espantalhos é que continua um bom contacto do senhor com o Sr. João Clá.

[...] Agora, ele, Sr. João Clá, se eu souber que ele continua tendo contacto com alguém aqui da casa, realmente cria para mim uma insegurança, uma impossibilidade completa em ver, em ter essa pessoa aqui. Então, se ele tentar falar com o senhor ou se valer de uma saída do senhor, de um negócio, para entrar em contacto com o senhor, pedir coisas, Sr. Fernando, eu vou ser muito franco com o senhor. Isso eu não... Não há razão nenhuma, não há propósito. O senhor não precisa disso, entende? E aí eu realmente, eu perderia a cabeça. Eu não teria nervos para agüentar a idéia de que o Sr. João Clá continua em contactos com o senhor.

[...] Mas em todo caso o ponto ─ eu digo para o senhor porque o senhor vai saber... ─ o que mais me sobressalta é que ele possa ainda usar de um artifício qualquer para ter algum contacto com o senhor ou com outro. Mas com o caso concreto é com o senhor.

Agora, se isso deve ser por escrito ou não, eu também não sei. Mas pelo menos fica dito. Para mim seria o ponto mais sensível.16



Destas declaraçöes do Dr. Luiz Nazareno, limitar-me-ia a ressaltar dois pontos.

Um é o fato de terem sido criados dentro da TFP "partidos", em decorrência de uma série de atitudes dos membros da Martim contra a pessoa, o apostolado e a influência do Sr. João Clá, que são já de domínio público. Obviamente, a partir do momento em que foi permitida a criação do partido "contra", e este começou a atacar abertamente a outra parte, ficou ipso facto formado o partido "a favor". Como se tal não bastasse, mantêm os membros da Martim uma atitude irredutível e apaixonada contra todos aqueles que estão sob a autoridade e a influência do Sr. João Clá, como se pode verificar pelas palavras do Dr. Luiz Nazareno. Qualquer tentativa de conciliação, para ter possibilidade de se tornar frutífera, depende assim de um milagre da graça ou de uma intervenção extraordinária da Providência.

Para acabar com essa divisão, que a própria diretoria estatutária da TFP brasileira provocou, e assim "salvar" a unidade que ela mesma rompeu, tudo leva a crer que o passo seguinte consistirá na expulsão sumária do próprio Sr. João Clá, o que acarretará uma convulsão, de conseqüências difíceis de prever, em toda a Obra do Sr. Dr. Plinio.

1Fita de 23/10/97.

2Grafonema do Sr. Fernando Larrain ao Sr. Francisco Lecaros de 15/10/97.

3Idem.

4Fita de 23/10/97.

5Idem.

6Idem.

7Idem.

8Idem.

9"Juízo Temerário da parte dos que procuram infamar-me? Resistência e Defesa contra os ataques e suspeitas daqueles que me precederam com o sinal da Fé. Resposta a um relatório infundado", 3/4/96.

10Idem.

11Idem.

12Fita de 19/10/97.

13Fita de 23/10/97.

14Idem.

15Idem.

16Fita de 19/10/97.