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O Anticristo já veio?


CAPÍTULO 4 - ELEMENTOS PARA ENTENDER E ADMIRAR O PROCEDIMENTO DO SR. DR. PLINIO EM RELAÇÃO A JC

CAPÍTULO 4 - ELEMENTOS PARA ENTENDER E ADMIRAR O PROCEDIMENTO DO SR. DR. PLINIO EM RELAÇÃO A JC 1

I. Um sofrimento que Nossa Senhora quis que houvesse na minha vida para eu expiar pela Santa Igreja - Prefiro não dar nome aos bois, porque os bois também são meus filhos 10

Chá SRM, 26/1/93: 10

Assim são as desilusões com os amigos na TFP. A gente tem um amigo, parece o amigo perfeito, que corresponde à vocação, cuja perfeita devoção nos leva a nos entusiasmarmos com ele, entusiasmarmos com o que deve ser a TFP. De repente é deste homem que nós recebemos uma felonia (...). Às vezes é assim que a coisa é, e é de junto de nós que sai o Judas Escariotes. Pode acontecer. 10

Na minha vida não houve pessoa que me fosse tão nociva quanto [um] congregado mariano que eu vi nas fileiras da congregação quando --eu ainda não era congregado mariano. Eu o conheci de vista, era uma pessoa com quem eu tinha certas relações. Eu não tinha a menor idéia que ele fosse uma pessoa católica, antes podia parecer meio protestantoso pelo tipo racial dele. Eu o vi nas fileiras dos congregados, vi que ele se levantou, comungou e o exemplo dele foi o passo que me era necessário para eu resolver entrar na congregação. 10

Eu me levantei quando acabou a Missa, fui a ele e disse: "Fulano, você quer me apresentar aqui porque eu quero entrar para a congregação?" Ele ficou muito contente, me recebeu muito bem, me levou ao padre diretor, me apresentou --o padre diretor, aliás, já me conhecia-- e eu entrei para a congregação. 10

Este fez contra mim o discurso mais injusto, mais cheio... homem, não havia recriminação que não pudesse ser feita a ele pela atitude que ele tomou. 10

Está bem, eu poderia dizer a ele isso: "Tu que comigo comias doces frutos...", tanto mais que numerosas vezes eu convidei para minha casa, numerosas vezes ele me convidou para a casa dele, mas dele veio uma punhalada que o pior revolucionario não me deu. 10

[Podem] dizer: "A congregação não é o que ela devia ser". Não! Aquele miserável não era o que ele devia ser. Ele era bom quando eu tive contato com ele e ele me ajudou a entrar para a congregação, mas depois decaiu e decaiu completamente. É muito longo aqui estar contando toda a história, mas decaiu completamente. No ponto em que ele decaiu nós entramos em desacordo, e nesse ponto ele me apunhalou. 10

Essa situação leva-me a bendizer à TFP. Porque se entre os sofrimentos que Nossa Senhora queria que houvesse na minha vida para eu expiar pela Santa Igreja, estava esse de ter que encontrar esse Judas no meu caminho, eu iria me sentar ao pé da figueira onde ele se enforcou, esperar ele chegar para me dar a punhalada. Se Nossa Senhora quisesse isso de mim, isto é o que eu iria fazer. 10

Então era uma desilusão ter encontrado Judas no caminho perto da figueira? Não! Não me tires Judas do caminho, se Nossa Senhora quer que eu encontre com Judas. 11

* 11

Depoimento do Sr. Sepúlveda, 12/1/99: 11

Quando estava trabalhando no estrondo do Rio Grande do Sul lá no êremo de São Bento [NB: 1994-1995] eu fui fazer uma consulta sobre assuntos de Portugal. Dr. Plinio já estava na cadeira de rodas, saindo da sala, fiz a consulta, ele respondeu e aí voltou-se para mim e disse: "meu filho, você se dá conta que a TFP está a ponto de se dividir?" 11

Respondi: não, eu não vejo. Eu acredito porque é o Sr. quem diz, mas não saberia dar nome aos bois. 11

Ele: "eu também prefiro não dar nome aos bois, porque os bois também são meus filhos"! 11

II. O caso de Frei Ângelo Maria - Quando uma pessoa ruim fez algumas coisas boas, Deus, antes de mandá-la ao inferno, lhe paga por aquilo nesta terra 11

Conversa de Sábado à Noite, 4/7/92: 11

... Frei Ângelo Maria, de Taubaté. O mais engraçado, para contar a coisa inteira, é que eu tinha muito pouca relação com aquela igreja, que ainda está hoje de pé, ali perto da av. Paulista, a igreja de capuchinhos na rua Brig. Luís Antônio. (...) E passou por mim a seguinte idéia: o razoável é que more aqui, nesta torre, um capuchinho muito bom, muito perseguido, que pensa muito como eu e que um dia colaborará ainda comigo. Isso foi a idéia que me passou pela cabeça. 11

(Sr. P. Roberto: Quando o senhor olhou a igreja?) 11

Não, lembrando-me da igreja me veio isto à cabeça. Mas era uma coisa inteiramente gratuita, nem se punha senão como muito vago pressentimento, que talvez se prendesse ao seguinte. 11

Eu tinha lido uma biografia de Santa Isabel de Hungria, e ela tinha como confessor, um santo Conrado de Parzan, Bem-aventurado hoje, que é o tal que disse que fa-la-ia subir ao nono céu, ou décimo segundo céu, quando perguntaram - ele deu uma surra na Santa Isabel com um bordão por alguma imperfeição que Santa Isabel praticou - então perguntaram à Santa Isabel, que era duquesa da Turíngia, uma pessoa graduada, o que ela sentiu quando levou as bordoadas dele. E ela disse: "eu me senti transportada ao terceiro céu". E contaram ao Bem-aventurado Conrado, e ele fez esse comentário: "se ela me tivesse contado, eu teria feito ela subir ao nono céu". 11

(Sr. Gonzalo: Idade Média total.) 12

Idade Média total! Eu simpatizei muito com o gesto dele, embora o biógrafo diga que é preciso compreender a rudeza da Idade Média, para não estranhar essa dureza... Deixemos isso de lado.Mas me veio a idéia de que deveria haver ali um capuchinho assim. 12

Li esse livro "Fráguas de amor" e foram as primeiras ondas de consolação que eu tive ainda antes da morte do Reizinho, se não me engano - tenho quase certeza - foi a leitura dessas tais "Fráguas do amor". Eu achei uma leitura extraordinária! E ainda pensei: quem sabe se esse capuchinho que eu pensei, é esse frei Ângelo que está aqui. O livro me deu muitas consolações. 12

Depois deixei o livro de lado, porque essas coisas, se gastam, e ficou em qualquer canto dos meus livros, e acabou-se. 12

Muitos anos depois, nós quisemos fazer um retiro e o D. Ernesto de Paula, que naquele tempo era vigário geral em São Paulo... Eu estava doente, com as minhas gripes, e o Paulo foi de minha parte ao D. Ernesto de Paula consultar qual seria o pregador. E o D. Ernesto de Paula deu frei Ângelo do Bom Conselho, de Taubaté, no convento dos capuchinhos. "Procure a ele". 12

E foram fazer o retiro na Penha. Só eu não fui, mas todo um certo creme de congregados marianos de Santa Cecília foi. O Paulo foi também. 12

Quando o Paulo voltou, voltou ébrio de contentamento, que o homem era um homem prodigioso, maravilhoso, etc., etc. E depois com a risadinha dele, ririi-ririi-riii!, que vocês conheceram tão bem, dizia: "olha, ele é muito mais católico do que você, porque é muito mais exigente do que você, e exige tal coisa, tal coisa, tal coisa - coisas pequenas --, mas exige isto, isto, isto." 12

E a crise do clero não tinha arrebentado, ainda vivíamos na admiração e na confiança do clero, eu fiquei contentíssimo. E o tal frei Ângelo começou a trabalhar no meio da nossa gente. 12

Ele fez um certo bem a nossa gente, é uma coisa incontestável. Mas também afastava de mim quem ele podia. E eu estranhava muito, e disse ao Paulo, certo de que o Paulo diria isso ao frei Ângelo. E o frei Ângelo disse ao Paulo... 12

O Paulo perguntou: "que defeito o senhor encontra no Plinio?" 12

Diz ele: "um defeito muito grave." 12

O Paulo perguntou a ele: "Qual é esse defeito?" 12

Disse: "Ele é muito subjetivista." 12

O que quer dizer subjetivista? O que é que é isto? Na linguagem corrente, o sujeito subjetivista é o que deforma as noções objetivas da realidade que lhe chegam ao espírito, por imaginações, por querer figurar a realidade como ela não é. E estas figuras falsas da realidade forjadas pelo indivíduo para satisfazer a sua fantasia, constitui o subjetivismo. 12

Olha, eu tenho a consciência bem tranqüila de que subjetivismo eu não tenho. 13

O Paulo ria! "Você é subjetivista! Iiiiiih!", e espalhava isto para todo o mundo, a quem ele podia. 13

E eu perguntava a ele: "Paulo, o que é subjetivismo?" 13

Dizia ele: "está vendo, isto já é subjetivismo." 13

Ora, isso é arbitrário, estúpido, não tem comentário. 13

E este homem mesmo, em relação a quem eu tinha tido esses pressentimentos e que tinha sido um socorro para mim, por meio desse livro dele, e eu acho que as graças que eu recebi por meio do livro dele, são autênticas, esse homem entretanto veio ser um trambolho muito sério no meu apostolado. Você vê que o que tudo leva a supor, é que ele andava bem... 13

Ah, eu soube pelo Paulo a quem eu nunca tinha contado o negócio da torre da Imaculada nem nada, que o frei Ângelo pouco antes daquele tempo, passou muito tempo vivendo na torre. Vocês sabem que a torre tem como que andares, não é? Ele vivia na torre, isolado e mal visto pelos superiores pela grande intransigência dele. Ele era muito intransigente. 13

Mas ele coitado, eu acho que decaiu em certa altura, e chegou a levar o subjetivismo dele, isso sim, a tal ponto, que quando o Getúlio deu o golpe de estado de 10 de novembro, ele, num sermão da igreja Santa Cecília, elogiou o Getúlio porque o Getúlio tinha fechado a maçonaria - você sabe que não fechou nada - e tinha fechado o integralismo. 13

Então, a Providência quis que eu encontrasse no meu caminho essa graça, quis que eu devesse essa graça a este homem como instrumento, mas estava nos planos dEla, que este homem constituísse depois para mim esses entraves e que eu fosse bastante objetivo para não me iludir a respeito dele, de maneira a formar um juízo desfavorável do tempo em que ele era bom. 13

E nisto procurei ser fiel a Nossa Senhora, neste ponto de continuar a formar dele uma idéia dando a ele tudo quanto tinha cabimento de dar pelos fatos que se tinham passado antes. 13

Não sei se estou narrando bem esse fato? 13

Eu digo isso a vocês por quê? 13

Porque pode haver vais-e-vens que Nossa Senhora permita e nos quais nós não devemos estar pensando. Eu digo isto de uma vez por todas, etc. Se se apresentar o caso, lembrem-se disso, mas não estejam pensando (...). Esses fatos assim são exceções, mas se se der exceção, saibamos interpretá-las, porque essas coisas são muito cheias de patinadas, e a Providência é muito misteriosa no guiar as coisas dEla. (...) 13

Em relação a esse homem, eu transbordava de respeito, de consideração, e até ele morrer eu respeitava bastante, mas ele para mim era um enigma, e até ele morreu estando nós inteiramente afastados um do outro. Se nos encontrássemos, nos cumprimentaríamos com cordialidade, mas estávamos inteiramente afastados um do outro. Mas em certo momento, ele foi um instrumento pela Providência, de graças autênticas. Seria muito errado considerar que aquelas graças não foram autênticas porque nele havia essas sombras. 13

* 14

Reunião para CCEE 17/3/91: 14

Nós conhecemos nesta vida muitas pessoas boas e infelizes, e muitas pessoas más e felizes. A Igreja Católica ensina-nos que o verdadeiro prêmio que o homem recebe pela sua virtude não se limita a esta vida, mas sobretudo na outra. Às vezes sofre-se muito aqui para não cair na fornalha do inferno ou no terrível fogo do Purgatório, mas terá no Céu sua recompensa. Então, ele é infeliz, mas pago por causa do prêmio a receber no outro mundo, onde a justiça de Deus se afirma. 14

Vemos também tanta gente ruim nesta terra, mas feliz. Santo Agostinho explica por que: esses homens ruins e felizes tem algumas qualidades, e por causa disso, Deus, que é infinitamente justo, antes de os mandar para o inferno, paga-lhes na terra suas qualidades. Depois é a hora do ajuste de contas ... 14

III. Os casos de Fernando Filho e de Dr. Fábio 14

Palavras que, segundo Ramón León, teriam sido ditas por Dr. Plinio no êremo de Amparo e que conferem com o que todos conhecemos de nosso Mestre: 14

Nesse mesmo libelo (pp.76, 77) o amotinado transcreve o seguinte depoimento de Dr. Paulo Brito: 14

Continua Ramón León: 14

De tal modo o SDP tratou o caso todo com delicadeza e tato extremos que, antes de se consumar a defecção do Sr. F.F., continuou a prestigiá-lo e tratá-lo com toda a bondade e afabilidade, fazendo força para que seus subordinados não notassem o que se passava com seu superior. Tudo isto ele revelou depois, nessa reunião com os “eremos itinerantes”. 15

(Cfr. "Quia nominor provectus", p.77) 15

* 15

[Dr. Plinio] disse que se lembra perfeitamente de como o Dr. Fábio se aproximou do Grupo, que ele viu o grande thau que a Providência tinha dado a ele, viu que se ele não se mantivesse fiel nas vias da castidade ia dar um trabalho de louco, mas de louco. Ele fez de tudo para ver se o mantinha dentro das vias da pureza, mas que ele em certo momento desandou. Aí o Sr. Dr. Plinio percebeu todo o drama que ele ia causar, até, inclusive, a possibilidade de uma apostasia. E que se ele apostatasse, ele destruía o Grupo por fora, porque ele tinha uma tal capacidade de atrair, de fazer graças, de ser interessante, que ele liquidava com a fama do Grupo na alta sociedade de São Paulo. (...) 15

Então o Sr. Dr. Plinio disse que deu o sangue que ele tinha e o sangue que ele não tinha para evitar que Dr. Fábio apostatasse. Chegava a esse cúmulo: 15

Como o Dr. Fábio saindo às ruas tinha tentações contra a pureza e se deixava levar pelas tentações, o Sr. Dr. Plinio combinava mais ou menos uma hora com ele para pegá-lo. Como o Sr. Dr. Plinio não tinha carro naquele tempo, o Sr. Dr. Plinio ficava num táxi dando voltas no quarteirão da casa dele, até ele aparecer no portão. Quando ele aparecia no portão ou pela rua, o Sr. Dr. Plinio o pegava, punha no táxi e o levava para a sede. 16

Vejam o quanto o Sr. Dr. Plinio gastava de dinheiro com isso, o quanto ele gastava de tempo com isso, e as aflições: "Ele aparece ou não aparece?". 16

E depois mais. Ele dizia: Minha apreensão maior era que levantassem algum problema na linha moral, porque eu, com muito mais idade do que ele, fico dando voltas de táxi em torno da casa de um rapaz para pôr esse rapaz dentro do carro e depois sair com ele. O que é que poderia comentar alguém que visse? Eu tinha que passar por esse risco, porque eu não podia permitir que ele apostatasse. Se ele apostatasse seria a nossa ruína. 16

IV. O caso de Carlos Antunez 16

Quando se desfez o São Bento I, houve uma dispersão, e um dos que se dispersaram foi o Carlos Antunez. Eu queria que ele ficasse no Brasil e ele não quis, e claramente desobedeceu saindo do eremo. E eu então designei para ele a Venezuela. 16

Mas eu pensei o seguinte: “É uma coisa curiosa, ele está me desobedecendo tão frontalmente que se diria que deveria expulsá-lo, e dever-se-ia também concluir que essa frontal desobediência vai conduzir a uma apostasia que o torna incapaz de qualquer forma de bem. Mas olhando para ele, ele parece um reservatório que ainda tem álcool ou que ainda tem gasolina, e que algum bem ele ainda pode fazer. Eu vou apoiá-lo na Venezuela como se ele estivesse me obedecendo. 16

Foi e eu dei a ele na Venezuela toda espécie de apoio. 16

Na Inglaterra fez toda espécie de absurdos, dos quais o principal absurdo foi reatar com o Jaime, que vira e mexe estava na Inglaterra e gastava dinheiro com ele à vontade. Ele foi piorando, etc., e deu no que deu. 16

Mas aquele paradoxo de romper em estado de revolta contra mim e, entretanto, eu continuar a dar apoio a ele na Venezuela, originou o grupo da Venezuela, que é um grupo excelente e que está prestando serviços excelentes como na camáldula, etc. É uma das poucas unidades do grupo contra as quais eu não vejo queixa interna. Todo mundo gosta deles. 16

Quer dizer, a Providência pôs o paradoxo de que eu devia aguentar tudo que saiu na Venezuela para que saíssem esses, e o resto tomou o seu rumo. 17

V. Posição e conduta de Dr. Plinio em face das ondas internas 17

Comissão Médica, 14/8/94, pp.12,13: 17

Em certo momento da vida da TFP eu notei precisamente isto: que o espírito de admiração ia decaindo, e que as mesmas pessoas que decaiam no espírito de admiração procuravam paradoxalmente firmar-se na TFP por meio do raciocínio, e então muito estudo de raciocínio, muito trabalho de raciocínio para se agarrarem àquilo que eles queriam, mas queriam que fosse de outro jeito, e queriam que fosse puramente tomista, sem nada com o que S.Boaventura complementa S.Tomás. 17

E portanto também uma atitude durante as minha conferências que era uma atitude exigindo conferências muito raciocinadas e com poucas coisas próprias a provocar admiração. Quando no começo da TFP era o contrário. 17

E daí veio um longo período de, não é de ploc-ploquização, mas de como que ploc-ploquização, e uma série de tiradas, e portanto também de graças, que iluminavam a vida da TFP antigamente, deixaram de iluminar. 17

As tentativas feitas por mim de combater isto, por exemplo por meio da europeização e outras coisas do gênero, são tentativas que fracassaram, como também tentativas de opinião pública fracassaram, porque sempre havia aquela coisa: "você está pondo aqui coisas para admirar, está pondo aqui coisas que enlevam, mas nós queremos saber no duro a coisa, etc." 17

Para fazer no duro, você vê que os espíritos dizendo isto que é justo, porque é justo querer que as coisas sejam razoavelmente explicadas a la tomista, etc., eu tenho entusiasmo por isso, mas não pode ser de tal maneira que essa admiração que reside numa peculiar sensibilidade da alma seja extinta com isso. 17

Mas daí tivemos o novo período de exposições, etc., em que eu me conformava com a onda, não podendo levá-la, e disposto a todas as transigências que não fossem contrárias à doutrina católica. E aí as coisas tomaram um rumo um pouco "tertium genus". Não era uma coisa ruim, mas era uma coisa muito menos boa do que poderia ter sido. 17

VI. Teoria geral das condições do poder 18

Quando se trata do feudalismo a gente tem a impressão de uma organização maravilhosa, mas cujas articulações são um tanto frágeis, porque são articulações de lealdade. A lealdade é que faz os contatos entre os vários elementos do corpo feudal. E se diria que é muito frágil aquilo que se baseia na lealdade. Mais frágil seria aquilo que se baseia na gratidão. Ora a lealdade tem muito da gratidão, a gratidão é uma forma de lealdade. (...) 18

Mas quando se aprofundam as coisas percebe-se que todas as formas de organização política e social tem como base a lealdade, vista sob um ângulo ou outro ângulo. 18

Quando a Realeza chega ao auge de si mesma, chega a um misto de sumo poder e suma fraqueza 18

Eu parto de um fato muito interessante assinalado pelo Funck Brentano (...), que quando na Idade Média a Realeza estava começando a se formar, os reis misturavam as funções que eles tinham de dirigir o reino e de dirigir a própria Casa. De tal maneira que o somelier, o boutelier, o senechal, o comes estábile, que tomava conta dos estábulos do rei (...), essas funções todas eram funções domésticas às quais o rei ia acrescentando funções políticas à medida que a Realeza ia evoluindo de uma grossa entidade patriarcal e familiar --uma grossa “domus” pessoal cuja preeminência vinha de ser uma “domus” muito grande, por causa disso dava força de arrasto (?) para os outros--, para propriamente uma organização que já se distinguia da Casa do Rei. E que tinha funções de ....... para cuidar do Estado, enquanto as funções da Casa do Rei ficavam para segundo plano. 18

E como o Funck Brentano acentua bem, essa separação se fez tão lentamente, e começou tão organicamente, que até o fim do Ancien Regime algumas dessas funções tinham importância política e tinham ao mesmo tempo a função de fato de cuidar de coisas do palácio real. Se conjugavam. E não passava pela cabeça de ninguém separar em nome do princípio, aliás teoricamente muito razoável, da distinção entre a Casa do Rei e o Estado que o Rei governa. 18

Agora, esse fato muito conhecido, muito admirado, muito saboreado entre nós, esse fato pode servir de ponto de partida para a consideração que eu quero fazer, que é a seguinte: 19

A Realeza tem uma série de funções, que não se condensam, não se reduzem apenas a essa função de governar o Estado, mas é também de reinar no sentido mais amplo da palavra, de servir de símbolo, apresentando os mais altos ideais, etc., instrumentalizada pela sociedade espiritual para a finalidade de promover o Reino de Cristo na terra, o Reino de Maria na terra, e de espalhar, de assegurar a difusão do Evangelho no mundo inteiro. 19

Na nossa concepção, a mais alta finalidade de um rei, a mais alta finalidade de um imperador teria qualquer coisa de profético, que era de sentir as vias da Providência, por si ou sentindo quem é que Deus lhe mandou para escolher as vias da Providência e lhe dar a atenção ........... 19

Porque eu creio que os reis tem para este ponto uma sensibilidade especial quando eles correspondem à graça. 19

Então de um modo ou doutro conseguir apontar para as mais altas finalidades do reino e conduzir para lá todo o corpo social. Essa é a mais alta função da Realeza. 19

Ora acontece que à medida que a Realeza cresce, que ela progride, ela vai fazendo como o papel de um guardasol ideal e mythico, que vai deixando de deitar galhos na parte inferior de seu tronco, e de ir deitando galhos sempre mais na parte superior à medida que ela vai crescendo. 19

De maneira que quando ela chega em cima, ela cobre todo um espaço com a fecundidade de sua parte superior, mas ela está desnuda na sua parte inferior. Ela tem apenas seu tronco que a comunica com as raízes. Os galhos foram embora. 19

O que quer dizer isto? Quer dizer que, à medida que a Realeza sobe, ela vai comunicando por sissiparidade, por diferenciação, as suas funções a órgãos ou a famílias ou a estirpes inferiores, que vão assumindo essas funções, e a Realeza vai se desprendendo da servidão das ocupações inferiores para se absorver cada vez mais nas ocupações superiores. 19

E quando ela atinge esta grande visão por assim dizer profética de compreender as vias de Deus para a Cristandade, senti-as, saber compreender quais são os homens que o podem guiar para isto, ter ela mesma uma certa concepção disso alcandorada e privilegiada, quando ela tem isso ela cobriu inteiramente como um guardasol um espaço meio místico, meio metafísico enorme sobre o qual ela paira. E todas as funções inferiores ela foi largando para tarefas inferiores também, de tal maneira que ela está completamente absorta naquela função suprema. 19

(...) Bem, o que supõe, nos reis também uma espécie de alcandoramento, aonde eles, sem deixar de serem batalhadores na ordem física do corpo, vão sendo cada vez mais batalhadores na ordem moral, na ordem espiritual, compreendendo bem a grande guerra dos anjos e dos demônios, compreendendo bem a transesfera, todas essas coisas. 20

Nisso eles vão vivendo. Mas viver inteiramente nisso causa uma espécie de dificuldade em administrar, em governar, em cuidar da política, porque são atividades de caráter inferior, e o espírito superior deve até certo ponto desdenhar isto e deve estar colocado [muito acima]. 20

De maneira que quando a Realeza chega ao auge de si mesma, ela chega a uma espécie de misto de sumo poder e suma fraqueza, por onde de um lado, se ela cair, toda a circunvizinhanza deixa de ser coberta pelo guardasol e é o caos para toda uma área que ela cobre. E não há ordem possível sem ela. 20

E nisto está a força dela. É que os homens verdadeiramente superiores compreendem que sem ela a ordem é impossível. 20

Agora, no que está a fraqueza dela? É que ela vai, cada vez mais, vivendo da lealdade e se tornando incapaz de se defender por si mesma. Porque um Rei que tivesse a preocupação de ter constantemente nas mãos a policia, o exército, as finanças, a administração, etc., para dizer “daqui eu não saio, daqui ninguém me tira”, bem, este rei ficaria até certo ponto autônomo das lealdades, mas ele não chegaria à sua copa, ele seria um guardasol inútil que não teria dado o “despliegue” inteiro a todas as suas realidades, às suas possibilidades, e ele seria um frustro. 20

(...) O sustentáculo de um tal governo é a lealdade. Quer dizer, se não forem leais com ele, ele cai; e se ele procurar se agarrar descendo para a esfera dos inferiores, ele se diminui. E lhe é mais glorioso cair inteiro, do que ser reabsorvido pela própria raiz. 20

(...) Ele fica numa situação em que ele oferece à nação a sua galharia. Ou a nação inteira ama e quer mantê-lo, a lealdade dele é ter aberto a galharia sobre a nação, nisto ele foi leal; o que desde o primeiro dia da dinastia esperaram dele, em certo momento [ele] deu: abriu a galharia de todos os ideais, de todos os caminhos, de todas as vias, indicou, simbolizou e apontou, e deu aquele sinal do sino que “bran-bran-bran” e chama todos para irem naquela direção. É a lealdade do campanário. 20

Aparte: É o ego sum dele. 20

É o ego sum dele, perfeitamente. 20

Conduta do Rei perante a falta de lealdade geral 21

Agora, se os outros não forem leais, rompeu-se o organismo, porque começam a conspirar entre si, a corroer as atividades dele, etc., e a exigir dele que entre por cogitações policialescas, etc., para se manter, nas quais ele mingua forçosamente, nas quais ele é chupado de cima para baixo, quando muitas vezes lhe é mais digno dizer “está bom, se quiserem me derrubar, derrubem, eu me entrego como Nosso Senhor se entregou”. Porque é uma forma de sacrifício. 21

(...) Quer dizer, quando falta lealdade aos súditos, e eles querem inutilizar a copa da árvore, ou corroé-la, etc., em tese se forem todos os súditos –-disso que eu falo-- de alto a baixo da árvore numa espécie de falta de lealdade geral, o rei não pode fazer outra coisa. Eu estou falando portanto da resistência inútil. 21

O que ele pode é ornar a sua galharia, flori-la, torná-la mais bela que nunca. Se os homens forem insensíveis a isso, não tem saída. É como Nosso Senhor na hora da Paixão. 21

Eu falo portanto do complot geral, de uma apostasia geral e irremissível de uma nação onde não haja fidelidade tenha desaparecido, a lealdade tenha desaparecido. Isso seria um lado. 21

Agora, o outro lado é o seguinte: 21

Supõe que no corpo social apareçam alguns elementos que resistem. Aí o princípio dele é diferente: ele fica engajado, antes da ação policial, e para cima da ação policial e militar, se ele encontra alguma base, ele fica engajado numa ação que, mais do que isso, é apostólica, ideológica e persuasiva. Ele deve ser o estímulo de todas as lealdades, para que elas se mantenham, para que elas voltem. É o articulador para que elas conservem a sua coesão e resistam às forças da erosão. 21

E nisso ele deve ser o político, o diplomata e o administrador que cuida do próprio tronco substituindo na medida do possível a cada coisa, e arranjando, de forma que seja possível uma resistência e uma vitória. 21

Em termos concretos, ele deve estimular o ideal que ele representa junto ao povo, junto aos nobres, junto ao clero, ele deve tornar esse ideal mais atraente do que nunca, ele deve remover aqueles que espalham o contrário, e se possível remover de modo desapercebido, se possível. Se não for possível remove até no estrondo, no raio se for necessário. Mas se for possível remove de um modo desapercebido. De maneira que essas crises de vergonha se reabsorvam por si e nem a História as registre. Isto é por ideal. É da doença que a família não percebeu: o pai [percebeu], a família não percebeu. Assim também o rei apostólico e jeitoso, de cima para baixo, equilibra a gente. 21

Esta tarefa não é inferior a ele. Pelo contrário, nesta tarefa eminentemente cruciante, ele se alcandora. Nascem flores de cores novas na copa da árvore. 22

Aparte: Ele nunca fica um sargentão. 22

Nunca. Agora, se essa tarefa fracassa, ele deve ser o homem que usa a força, mas a força aí então claramente numa posição épica e como que cindindo a nação: “quem é saudável está comigo, quem for contra mim é contra a nação, nós vamos fazer uma amputação”. Mas aí é uma cruzada, não é uma mera ação policial, é uma cruzada da qual a nação deve ter consciência. Ele deve ser um homem capaz de dizer isto, capaz de falar isto, capaz de dar este nível àquilo que ele está dizendo, e a ser uma cruzada o primeiro na frente tem que ser ele. 22

(...) 22

(...) Uma coisa curiosa é que, quando tudo anda bem, o próprio carisma da Realeza vai descendo, por embebimento, às partes inferiores do organismo. 22

De maneira que, quando um rei sobe muito, a condição de ministro é tão alta, ou a condição de nobre é tão alta, que se pode considerar que esta condição fica embebida de algo de carismático. 22

Então por exemplo o [antigo] condestável, tinha um carisma da condestabilidade que era uma participação do carisma monárquico. Uma participação derivada, não era o próprio carisma monárquico, mas era uma derivação participante da condição [monárquica]. Chanceler, outra derivação. 22

(...) Este embebimento se dá de tal maneira que, se o rei quiser se meter a condestável, falta-lhe o carisma que o outro tomou. E ele não pode ser senão um administrador. Foi em certo sentido o erro de Luiz XIV: ele foi grandemente um rei administrador e nada em torno dele floresceu carismaticamente, a não ser o brilho da Realeza --que tem alguma coisa de carismático. 22

(...) 22

O rei, nessas condições, se quisesse reabsorver o que ele deu, ele ficaria gauche, pesadão. E aquele que recebeu uma participação derivada e carismática dele, teria uma facilidade em contê-lo enorme, porque ele não dava para isso, não era ............... 22

E este tecido de carismas deveria ir embebendo lentamente a nação não se sabe bem até onde. Mas eu creio que deveria ir tão longe que a própria dignidade de “pater familias” por isto é que tomava um certo esplendor monárquico. E creio que isto tudo tinha uma certa relação com a unção. (...) Com a legitimidade também. 22

(...) E eu tenho a impressão de que, com esse conceito, a gente acaba vendo que tudo no funcionamento social são lealdades, porque fica fácil, quando aquele que recebeu até essa forma de primogenitura subalterna, que é o carisma para sua própria tarefa, se levanta, fica-lhe fácil derrubar, porque a perturbação que causa no reino uma revolta dessas é como a perturbação que causou no Céu a revolta de Lúcifer. Fica fácil derrubar. 23

Uma ordem, quanto mais saudável for, mais propende a esquecer a doença. Surpresas salutares no corpo social 23

(...) Tanto quanto a palavra surpresa pode caber, tenho a impressão que se poderia dizer que no Céu houve uma certa surpresa com a revolta de Satanás, e que houve um momento assim de “desarroi”, e que depois São Miguel deu o brado. 23

Quer dizer, quando essas ordens são muito bem constituídas e muito ........... , elas são tais que as pessoas tem a tendência a esquecer a possibilidade de uma coisa dessas desordenar. (...) 23

Até certo ponto isso é representa uma saudabilidade. Quando o homem chega a perder a noção, o preço da saúde, e ele esquece de tal maneira o que é a doença, que a saúde lhe parece até uma coisa de menos valor do que outras da vida, nesse momento ele dá um sinal de que ele está num auge de sua saudabilidade. 23

E aí as surpresas, essas coisas que podem dar, e que são salutares no corpo social para despertar aquilo que poderia começar a dormir, e para os sobressaltos magníficos que dão origem às outras coisas da História. Chega até esse ponto. 23

É mais ou menos como numa família normalmente constituída, em que nenhum irmão pensa ser roubado pelo outro irmão, em que nenhuma filha pensa ser desonrada pelo pai, não passa pela cabeça. Dirá: “tonta! Você não percebeu que sei pai podia desonrá-la?” Ela dirá: ”não, eu prefiro não ter percebido!” 23

VII. A parábola da cizânia 23

Este trecho das Sagradas Escrituras explicaria por que razão o Sr. Dr. Plinio não extirpou os mentores da insurreição quando esta ainda estava nascendo. Evangelho de São Mateus, 13, 24-30: 23

O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. E, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo, e semeou cizânia no meio do trigo, e foi-se. E, tendo crescido a erva e dado fruto, apareceu também então a cizânia. E, chegando os servos do pai de família, disseram-lhe: “Senhor, por ventura não semeaste tu boa semente no teu campo? Donde veio, pois, a cizânia?” E ele disse-lhes: “Algum homem inimigo fez isto”. E os servos disseram-lhe: “queres que vamos e a arranquemos?” E respondeu-lhes: “Não, para que talvez não suceda que, arrancando a cizânia, arranqueis juntamente com ela o trigo. Deixai crescer uma e outra coisa até à ceifa, e no tempo da ceifa direi aos segadores: Colhei primeiramente a cizânia, e atai-a em molhos, para a queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro”. 23


I. Um sofrimento que Nossa Senhora quis que houvesse na minha vida para eu expiar pela Santa Igreja - Prefiro não dar nome aos bois, porque os bois também são meus filhos


Chá SRM, 26/1/93:


Assim são as desilusões com os amigos na TFP. A gente tem um amigo, parece o amigo perfeito, que corresponde à vocação, cuja perfeita devoção nos leva a nos entusiasmarmos com ele, entusiasmarmos com o que deve ser a TFP. De repente é deste homem que nós recebemos uma felonia (...). Às vezes é assim que a coisa é, e é de junto de nós que sai o Judas Escariotes. Pode acontecer.

Na minha vida não houve pessoa que me fosse tão nociva quanto [um] congregado mariano que eu vi nas fileiras da congregação quando --eu ainda não era congregado mariano. Eu o conheci de vista, era uma pessoa com quem eu tinha certas relações. Eu não tinha a menor idéia que ele fosse uma pessoa católica, antes podia parecer meio protestantoso pelo tipo racial dele. Eu o vi nas fileiras dos congregados, vi que ele se levantou, comungou e o exemplo dele foi o passo que me era necessário para eu resolver entrar na congregação.

Eu me levantei quando acabou a Missa, fui a ele e disse: "Fulano, você quer me apresentar aqui porque eu quero entrar para a congregação?" Ele ficou muito contente, me recebeu muito bem, me levou ao padre diretor, me apresentou --o padre diretor, aliás, já me conhecia-- e eu entrei para a congregação.

Este fez contra mim o discurso mais injusto, mais cheio... homem, não havia recriminação que não pudesse ser feita a ele pela atitude que ele tomou.

Está bem, eu poderia dizer a ele isso: "Tu que comigo comias doces frutos...", tanto mais que numerosas vezes eu convidei para minha casa, numerosas vezes ele me convidou para a casa dele, mas dele veio uma punhalada que o pior revolucionario não me deu.

[Podem] dizer: "A congregação não é o que ela devia ser". Não! Aquele miserável não era o que ele devia ser. Ele era bom quando eu tive contato com ele e ele me ajudou a entrar para a congregação, mas depois decaiu e decaiu completamente. É muito longo aqui estar contando toda a história, mas decaiu completamente. No ponto em que ele decaiu nós entramos em desacordo, e nesse ponto ele me apunhalou.

Essa situação leva-me a bendizer à TFP. Porque se entre os sofrimentos que Nossa Senhora queria que houvesse na minha vida para eu expiar pela Santa Igreja, estava esse de ter que encontrar esse Judas no meu caminho, eu iria me sentar ao pé da figueira onde ele se enforcou, esperar ele chegar para me dar a punhalada. Se Nossa Senhora quisesse isso de mim, isto é o que eu iria fazer.

Então era uma desilusão ter encontrado Judas no caminho perto da figueira? Não! Não me tires Judas do caminho, se Nossa Senhora quer que eu encontre com Judas.


*


Depoimento do Sr. Sepúlveda, 12/1/99:


Quando estava trabalhando no estrondo do Rio Grande do Sul lá no êremo de São Bento [NB: 1994-1995] eu fui fazer uma consulta sobre assuntos de Portugal. Dr. Plinio já estava na cadeira de rodas, saindo da sala, fiz a consulta, ele respondeu e aí voltou-se para mim e disse: "meu filho, você se dá conta que a TFP está a ponto de se dividir?"

Respondi: não, eu não vejo. Eu acredito porque é o Sr. quem diz, mas não saberia dar nome aos bois.

Ele: "eu também prefiro não dar nome aos bois, porque os bois também são meus filhos"!





II. O caso de Frei Ângelo Maria - Quando uma pessoa ruim fez algumas coisas boas, Deus, antes de mandá-la ao inferno, lhe paga por aquilo nesta terra


Conversa de Sábado à Noite, 4/7/92:

... Frei Ângelo Maria, de Taubaté. O mais engraçado, para contar a coisa inteira, é que eu tinha muito pouca relação com aquela igreja, que ainda está hoje de pé, ali perto da av. Paulista, a igreja de capuchinhos na rua Brig. Luís Antônio. (...) E passou por mim a seguinte idéia: o razoável é que more aqui, nesta torre, um capuchinho muito bom, muito perseguido, que pensa muito como eu e que um dia colaborará ainda comigo. Isso foi a idéia que me passou pela cabeça.


(Sr. P. Roberto: Quando o senhor olhou a igreja?)

Não, lembrando-me da igreja me veio isto à cabeça. Mas era uma coisa inteiramente gratuita, nem se punha senão como muito vago pressentimento, que talvez se prendesse ao seguinte.

Eu tinha lido uma biografia de Santa Isabel de Hungria, e ela tinha como confessor, um santo Conrado de Parzan, Bem-aventurado hoje, que é o tal que disse que fa-la-ia subir ao nono céu, ou décimo segundo céu, quando perguntaram - ele deu uma surra na Santa Isabel com um bordão por alguma imperfeição que Santa Isabel praticou - então perguntaram à Santa Isabel, que era duquesa da Turíngia, uma pessoa graduada, o que ela sentiu quando levou as bordoadas dele. E ela disse: "eu me senti transportada ao terceiro céu". E contaram ao Bem-aventurado Conrado, e ele fez esse comentário: "se ela me tivesse contado, eu teria feito ela subir ao nono céu".


(Sr. Gonzalo: Idade Média total.)


Idade Média total! Eu simpatizei muito com o gesto dele, embora o biógrafo diga que é preciso compreender a rudeza da Idade Média, para não estranhar essa dureza... Deixemos isso de lado.Mas me veio a idéia de que deveria haver ali um capuchinho assim.

Li esse livro "Fráguas de amor" e foram as primeiras ondas de consolação que eu tive ainda antes da morte do Reizinho, se não me engano - tenho quase certeza - foi a leitura dessas tais "Fráguas do amor". Eu achei uma leitura extraordinária! E ainda pensei: quem sabe se esse capuchinho que eu pensei, é esse frei Ângelo que está aqui. O livro me deu muitas consolações.

Depois deixei o livro de lado, porque essas coisas, se gastam, e ficou em qualquer canto dos meus livros, e acabou-se.

Muitos anos depois, nós quisemos fazer um retiro e o D. Ernesto de Paula, que naquele tempo era vigário geral em São Paulo... Eu estava doente, com as minhas gripes, e o Paulo foi de minha parte ao D. Ernesto de Paula consultar qual seria o pregador. E o D. Ernesto de Paula deu frei Ângelo do Bom Conselho, de Taubaté, no convento dos capuchinhos. "Procure a ele".

E foram fazer o retiro na Penha. Só eu não fui, mas todo um certo creme de congregados marianos de Santa Cecília foi. O Paulo foi também.

Quando o Paulo voltou, voltou ébrio de contentamento, que o homem era um homem prodigioso, maravilhoso, etc., etc. E depois com a risadinha dele, ririi-ririi-riii!, que vocês conheceram tão bem, dizia: "olha, ele é muito mais católico do que você, porque é muito mais exigente do que você, e exige tal coisa, tal coisa, tal coisa - coisas pequenas --, mas exige isto, isto, isto."

E a crise do clero não tinha arrebentado, ainda vivíamos na admiração e na confiança do clero, eu fiquei contentíssimo. E o tal frei Ângelo começou a trabalhar no meio da nossa gente.

Ele fez um certo bem a nossa gente, é uma coisa incontestável. Mas também afastava de mim quem ele podia. E eu estranhava muito, e disse ao Paulo, certo de que o Paulo diria isso ao frei Ângelo. E o frei Ângelo disse ao Paulo...

O Paulo perguntou: "que defeito o senhor encontra no Plinio?"

Diz ele: "um defeito muito grave."

O Paulo perguntou a ele: "Qual é esse defeito?"

Disse: "Ele é muito subjetivista."

O que quer dizer subjetivista? O que é que é isto? Na linguagem corrente, o sujeito subjetivista é o que deforma as noções objetivas da realidade que lhe chegam ao espírito, por imaginações, por querer figurar a realidade como ela não é. E estas figuras falsas da realidade forjadas pelo indivíduo para satisfazer a sua fantasia, constitui o subjetivismo.

Olha, eu tenho a consciência bem tranqüila de que subjetivismo eu não tenho.

O Paulo ria! "Você é subjetivista! Iiiiiih!", e espalhava isto para todo o mundo, a quem ele podia.

E eu perguntava a ele: "Paulo, o que é subjetivismo?"

Dizia ele: "está vendo, isto já é subjetivismo."

Ora, isso é arbitrário, estúpido, não tem comentário.

E este homem mesmo, em relação a quem eu tinha tido esses pressentimentos e que tinha sido um socorro para mim, por meio desse livro dele, e eu acho que as graças que eu recebi por meio do livro dele, são autênticas, esse homem entretanto veio ser um trambolho muito sério no meu apostolado. Você vê que o que tudo leva a supor, é que ele andava bem...

Ah, eu soube pelo Paulo a quem eu nunca tinha contado o negócio da torre da Imaculada nem nada, que o frei Ângelo pouco antes daquele tempo, passou muito tempo vivendo na torre. Vocês sabem que a torre tem como que andares, não é? Ele vivia na torre, isolado e mal visto pelos superiores pela grande intransigência dele. Ele era muito intransigente.

Mas ele coitado, eu acho que decaiu em certa altura, e chegou a levar o subjetivismo dele, isso sim, a tal ponto, que quando o Getúlio deu o golpe de estado de 10 de novembro, ele, num sermão da igreja Santa Cecília, elogiou o Getúlio porque o Getúlio tinha fechado a maçonaria - você sabe que não fechou nada - e tinha fechado o integralismo.

Então, a Providência quis que eu encontrasse no meu caminho essa graça, quis que eu devesse essa graça a este homem como instrumento, mas estava nos planos dEla, que este homem constituísse depois para mim esses entraves e que eu fosse bastante objetivo para não me iludir a respeito dele, de maneira a formar um juízo desfavorável do tempo em que ele era bom.

E nisto procurei ser fiel a Nossa Senhora, neste ponto de continuar a formar dele uma idéia dando a ele tudo quanto tinha cabimento de dar pelos fatos que se tinham passado antes.

Não sei se estou narrando bem esse fato?

Eu digo isso a vocês por quê?

Porque pode haver vais-e-vens que Nossa Senhora permita e nos quais nós não devemos estar pensando. Eu digo isto de uma vez por todas, etc. Se se apresentar o caso, lembrem-se disso, mas não estejam pensando (...). Esses fatos assim são exceções, mas se se der exceção, saibamos interpretá-las, porque essas coisas são muito cheias de patinadas, e a Providência é muito misteriosa no guiar as coisas dEla. (...)

Em relação a esse homem, eu transbordava de respeito, de consideração, e até ele morrer eu respeitava bastante, mas ele para mim era um enigma, e até ele morreu estando nós inteiramente afastados um do outro. Se nos encontrássemos, nos cumprimentaríamos com cordialidade, mas estávamos inteiramente afastados um do outro. Mas em certo momento, ele foi um instrumento pela Providência, de graças autênticas. Seria muito errado considerar que aquelas graças não foram autênticas porque nele havia essas sombras.


*


Reunião para CCEE 17/3/91:


Nós conhecemos nesta vida muitas pessoas boas e infelizes, e muitas pessoas más e felizes. A Igreja Católica ensina-nos que o verdadeiro prêmio que o homem recebe pela sua virtude não se limita a esta vida, mas sobretudo na outra. Às vezes sofre-se muito aqui para não cair na fornalha do inferno ou no terrível fogo do Purgatório, mas terá no Céu sua recompensa. Então, ele é infeliz, mas pago por causa do prêmio a receber no outro mundo, onde a justiça de Deus se afirma.

Vemos também tanta gente ruim nesta terra, mas feliz. Santo Agostinho explica por que: esses homens ruins e felizes tem algumas qualidades, e por causa disso, Deus, que é infinitamente justo, antes de os mandar para o inferno, paga-lhes na terra suas qualidades. Depois é a hora do ajuste de contas ...





III. Os casos de Fernando Filho e de Dr. Fábio


Palavras que, segundo Ramón León, teriam sido ditas por Dr. Plinio no êremo de Amparo e que conferem com o que todos conhecemos de nosso Mestre:


Eu não sou dirigista, eu não acho que a gente logo que vê uma coisa que não deve ser, que a gente deve logo ir fazendo cessar. Às vezes é bom deixar tomar um certo volume para depois a gente mostrar para a pessoa como é que devia ser.

(Cfr. “Quia nominor provectus”, p.74).


Nesse mesmo libelo (pp.76, 77) o amotinado transcreve o seguinte depoimento de Dr. Paulo Brito:


Eu me recordo conversando com um e com outro, às vezes com ele mesmo [o SDP], tal grupo, tal pessoa que estava com dificuldades, mas que ele deixava às vezes correr anos.

Uma ocasião eu me lembro de ele me dizer:


Continua Ramón León:


Talvez um dos casos mais emblemáticos e mais conhecidos na TFP a tal respeito tenha sido o acontecido com o Sr. F.F., um antigo encarregado do setor dos “eremos itinerantes”, que deixou a TFP no fim da década de 70. Ante a surpresa que muitos de seus subordinados demonstraram com a sua defecção, o SDP convocou para uma reunião os “eremitas itinerantes”, durante a qual lhes explicou que há muito ele vinha notando estar o Sr. F.F. decaindo na vida espiritual, bem como no propósito de consagrar sua vida aos ideais da TFP.

Todavia --continuava nosso Fundador-- foi melhor “deixar a fruta cair de podre”. As duas razões principais pelas quais o SDP decidiu agir assim foram: primeiramente, se ele tivesse comunicado aos membros do “eremos itinerantes” a situação decadente de seu encarregado, eles perderiam a confiança na autoridade, e poderiam ficar abalados. Em segundo lugar, ele, Sr. Dr. Plinio, tinha ainda alguma esperança na recuperação daquela alma, e por isso evitava tomar qualquer medida que pudesse prejudicar essa possível melhora.

Quando alguns “eremitas itinerantes” veteranos começaram a estranhar o comportamento de seu superior imediato, nosso Fundador resolveu promover, em 1979, um simpósio de estudos para eles em Salvador, dado pelo Sr. João Clá, na presença do Sr. F.F., com o fito principal de prestigiar essa combalida autoridade.

De tal modo o SDP tratou o caso todo com delicadeza e tato extremos que, antes de se consumar a defecção do Sr. F.F., continuou a prestigiá-lo e tratá-lo com toda a bondade e afabilidade, fazendo força para que seus subordinados não notassem o que se passava com seu superior. Tudo isto ele revelou depois, nessa reunião com os “eremos itinerantes”.

(Cfr. "Quia nominor provectus", p.77)


*


Reunião para os veteranos, 8/10/96 – Corte, lembrado por JC, de uma conversa que Dr. Plinio teve com ele, em 12/10/74:


[Dr. Plinio] disse que se lembra perfeitamente de como o Dr. Fábio se aproximou do Grupo, que ele viu o grande thau que a Providência tinha dado a ele, viu que se ele não se mantivesse fiel nas vias da castidade ia dar um trabalho de louco, mas de louco. Ele fez de tudo para ver se o mantinha dentro das vias da pureza, mas que ele em certo momento desandou. Aí o Sr. Dr. Plinio percebeu todo o drama que ele ia causar, até, inclusive, a possibilidade de uma apostasia. E que se ele apostatasse, ele destruía o Grupo por fora, porque ele tinha uma tal capacidade de atrair, de fazer graças, de ser interessante, que ele liquidava com a fama do Grupo na alta sociedade de São Paulo. (...)

Então o Sr. Dr. Plinio disse que deu o sangue que ele tinha e o sangue que ele não tinha para evitar que Dr. Fábio apostatasse. Chegava a esse cúmulo:

Como o Dr. Fábio saindo às ruas tinha tentações contra a pureza e se deixava levar pelas tentações, o Sr. Dr. Plinio combinava mais ou menos uma hora com ele para pegá-lo. Como o Sr. Dr. Plinio não tinha carro naquele tempo, o Sr. Dr. Plinio ficava num táxi dando voltas no quarteirão da casa dele, até ele aparecer no portão. Quando ele aparecia no portão ou pela rua, o Sr. Dr. Plinio o pegava, punha no táxi e o levava para a sede.

Vejam o quanto o Sr. Dr. Plinio gastava de dinheiro com isso, o quanto ele gastava de tempo com isso, e as aflições: "Ele aparece ou não aparece?".

E depois mais. Ele dizia: Minha apreensão maior era que levantassem algum problema na linha moral, porque eu, com muito mais idade do que ele, fico dando voltas de táxi em torno da casa de um rapaz para pôr esse rapaz dentro do carro e depois sair com ele. O que é que poderia comentar alguém que visse? Eu tinha que passar por esse risco, porque eu não podia permitir que ele apostatasse. Se ele apostatasse seria a nossa ruína.





IV. O caso de Carlos Antunez


CSN 13/2/93:


Quando se desfez o São Bento I, houve uma dispersão, e um dos que se dispersaram foi o Carlos Antunez. Eu queria que ele ficasse no Brasil e ele não quis, e claramente desobedeceu saindo do eremo. E eu então designei para ele a Venezuela.


Mas eu pensei o seguinte: “É uma coisa curiosa, ele está me desobedecendo tão frontalmente que se diria que deveria expulsá-lo, e dever-se-ia também concluir que essa frontal desobediência vai conduzir a uma apostasia que o torna incapaz de qualquer forma de bem. Mas olhando para ele, ele parece um reservatório que ainda tem álcool ou que ainda tem gasolina, e que algum bem ele ainda pode fazer. Eu vou apoiá-lo na Venezuela como se ele estivesse me obedecendo.


Foi e eu dei a ele na Venezuela toda espécie de apoio.


Na Inglaterra fez toda espécie de absurdos, dos quais o principal absurdo foi reatar com o Jaime, que vira e mexe estava na Inglaterra e gastava dinheiro com ele à vontade. Ele foi piorando, etc., e deu no que deu.


Mas aquele paradoxo de romper em estado de revolta contra mim e, entretanto, eu continuar a dar apoio a ele na Venezuela, originou o grupo da Venezuela, que é um grupo excelente e que está prestando serviços excelentes como na camáldula, etc. É uma das poucas unidades do grupo contra as quais eu não vejo queixa interna. Todo mundo gosta deles.


Quer dizer, a Providência pôs o paradoxo de que eu devia aguentar tudo que saiu na Venezuela para que saíssem esses, e o resto tomou o seu rumo.




V. Posição e conduta de Dr. Plinio em face das ondas internas


Comissão Médica, 14/8/94, pp.12,13:


Em certo momento da vida da TFP eu notei precisamente isto: que o espírito de admiração ia decaindo, e que as mesmas pessoas que decaiam no espírito de admiração procuravam paradoxalmente firmar-se na TFP por meio do raciocínio, e então muito estudo de raciocínio, muito trabalho de raciocínio para se agarrarem àquilo que eles queriam, mas queriam que fosse de outro jeito, e queriam que fosse puramente tomista, sem nada com o que S.Boaventura complementa S.Tomás.

E portanto também uma atitude durante as minha conferências que era uma atitude exigindo conferências muito raciocinadas e com poucas coisas próprias a provocar admiração. Quando no começo da TFP era o contrário.

E daí veio um longo período de, não é de ploc-ploquização, mas de como que ploc-ploquização, e uma série de tiradas, e portanto também de graças, que iluminavam a vida da TFP antigamente, deixaram de iluminar.

As tentativas feitas por mim de combater isto, por exemplo por meio da europeização e outras coisas do gênero, são tentativas que fracassaram, como também tentativas de opinião pública fracassaram, porque sempre havia aquela coisa: "você está pondo aqui coisas para admirar, está pondo aqui coisas que enlevam, mas nós queremos saber no duro a coisa, etc."

Para fazer no duro, você vê que os espíritos dizendo isto que é justo, porque é justo querer que as coisas sejam razoavelmente explicadas a la tomista, etc., eu tenho entusiasmo por isso, mas não pode ser de tal maneira que essa admiração que reside numa peculiar sensibilidade da alma seja extinta com isso.

Mas daí tivemos o novo período de exposições, etc., em que eu me conformava com a onda, não podendo levá-la, e disposto a todas as transigências que não fossem contrárias à doutrina católica. E aí as coisas tomaram um rumo um pouco "tertium genus". Não era uma coisa ruim, mas era uma coisa muito menos boa do que poderia ter sido.




VI. Teoria geral das condições do poder


MNF, 14/10/83 (os subtítulos são nossos):


Há aqui no Brasil (...) uma árvore chamada guardasol que tem isso de próprio: que ela cresce muito e quando chega bem em cima (...) ela se abre e forma um guarda sol vegetal. Quer dizer, em cima é que ela se abre inteiramente.

Eu gostaria de dizer, para uma série de efeitos (...), alguma coisa do crescimento do poder, das funções do poder, etc., (...), que tem muita importância para uma porção de coisas. Entre outras coisas, importância para se compreender o papel da lealdade na organização social e política dos povos, mesmo quando não se trate de uma organização feudal.

Quando se trata do feudalismo a gente tem a impressão de uma organização maravilhosa, mas cujas articulações são um tanto frágeis, porque são articulações de lealdade. A lealdade é que faz os contatos entre os vários elementos do corpo feudal. E se diria que é muito frágil aquilo que se baseia na lealdade. Mais frágil seria aquilo que se baseia na gratidão. Ora a lealdade tem muito da gratidão, a gratidão é uma forma de lealdade. (...)

Mas quando se aprofundam as coisas percebe-se que todas as formas de organização política e social tem como base a lealdade, vista sob um ângulo ou outro ângulo.

E sem esse binômio lealdade-gratidão --sendo que a lealdade é um gênero e a gratidão uma espécie--, nada no gênero humano funciona. E isso é um ponto que seria interessante a gente explicitar. (...)




Quando a Realeza chega ao auge de si mesma, chega a um misto de sumo poder e suma fraqueza


Eu parto de um fato muito interessante assinalado pelo Funck Brentano (...), que quando na Idade Média a Realeza estava começando a se formar, os reis misturavam as funções que eles tinham de dirigir o reino e de dirigir a própria Casa. De tal maneira que o somelier, o boutelier, o senechal, o comes estábile, que tomava conta dos estábulos do rei (...), essas funções todas eram funções domésticas às quais o rei ia acrescentando funções políticas à medida que a Realeza ia evoluindo de uma grossa entidade patriarcal e familiar --uma grossa “domus” pessoal cuja preeminência vinha de ser uma “domus” muito grande, por causa disso dava força de arrasto (?) para os outros--, para propriamente uma organização que já se distinguia da Casa do Rei. E que tinha funções de ....... para cuidar do Estado, enquanto as funções da Casa do Rei ficavam para segundo plano.

E como o Funck Brentano acentua bem, essa separação se fez tão lentamente, e começou tão organicamente, que até o fim do Ancien Regime algumas dessas funções tinham importância política e tinham ao mesmo tempo a função de fato de cuidar de coisas do palácio real. Se conjugavam. E não passava pela cabeça de ninguém separar em nome do princípio, aliás teoricamente muito razoável, da distinção entre a Casa do Rei e o Estado que o Rei governa.

Agora, esse fato muito conhecido, muito admirado, muito saboreado entre nós, esse fato pode servir de ponto de partida para a consideração que eu quero fazer, que é a seguinte:

A Realeza tem uma série de funções, que não se condensam, não se reduzem apenas a essa função de governar o Estado, mas é também de reinar no sentido mais amplo da palavra, de servir de símbolo, apresentando os mais altos ideais, etc., instrumentalizada pela sociedade espiritual para a finalidade de promover o Reino de Cristo na terra, o Reino de Maria na terra, e de espalhar, de assegurar a difusão do Evangelho no mundo inteiro.

Na nossa concepção, a mais alta finalidade de um rei, a mais alta finalidade de um imperador teria qualquer coisa de profético, que era de sentir as vias da Providência, por si ou sentindo quem é que Deus lhe mandou para escolher as vias da Providência e lhe dar a atenção ...........

Porque eu creio que os reis tem para este ponto uma sensibilidade especial quando eles correspondem à graça.

Então de um modo ou doutro conseguir apontar para as mais altas finalidades do reino e conduzir para lá todo o corpo social. Essa é a mais alta função da Realeza.

Ora acontece que à medida que a Realeza cresce, que ela progride, ela vai fazendo como o papel de um guardasol ideal e mythico, que vai deixando de deitar galhos na parte inferior de seu tronco, e de ir deitando galhos sempre mais na parte superior à medida que ela vai crescendo.

De maneira que quando ela chega em cima, ela cobre todo um espaço com a fecundidade de sua parte superior, mas ela está desnuda na sua parte inferior. Ela tem apenas seu tronco que a comunica com as raízes. Os galhos foram embora.

O que quer dizer isto? Quer dizer que, à medida que a Realeza sobe, ela vai comunicando por sissiparidade, por diferenciação, as suas funções a órgãos ou a famílias ou a estirpes inferiores, que vão assumindo essas funções, e a Realeza vai se desprendendo da servidão das ocupações inferiores para se absorver cada vez mais nas ocupações superiores.

E quando ela atinge esta grande visão por assim dizer profética de compreender as vias de Deus para a Cristandade, senti-as, saber compreender quais são os homens que o podem guiar para isto, ter ela mesma uma certa concepção disso alcandorada e privilegiada, quando ela tem isso ela cobriu inteiramente como um guardasol um espaço meio místico, meio metafísico enorme sobre o qual ela paira. E todas as funções inferiores ela foi largando para tarefas inferiores também, de tal maneira que ela está completamente absorta naquela função suprema.

(...) Bem, o que supõe, nos reis também uma espécie de alcandoramento, aonde eles, sem deixar de serem batalhadores na ordem física do corpo, vão sendo cada vez mais batalhadores na ordem moral, na ordem espiritual, compreendendo bem a grande guerra dos anjos e dos demônios, compreendendo bem a transesfera, todas essas coisas.

Nisso eles vão vivendo. Mas viver inteiramente nisso causa uma espécie de dificuldade em administrar, em governar, em cuidar da política, porque são atividades de caráter inferior, e o espírito superior deve até certo ponto desdenhar isto e deve estar colocado [muito acima].

De maneira que quando a Realeza chega ao auge de si mesma, ela chega a uma espécie de misto de sumo poder e suma fraqueza, por onde de um lado, se ela cair, toda a circunvizinhanza deixa de ser coberta pelo guardasol e é o caos para toda uma área que ela cobre. E não há ordem possível sem ela.

Se se extirpar a ela e se arrancar as raízes e o tronco e se arrancar evidentemente a copa, este buraco ninguém preenche, vai até o centro da terra e ninguém preenche. Ali é o caos. Não adianta.

E nisto está a força dela. É que os homens verdadeiramente superiores compreendem que sem ela a ordem é impossível.

Agora, no que está a fraqueza dela? É que ela vai, cada vez mais, vivendo da lealdade e se tornando incapaz de se defender por si mesma. Porque um Rei que tivesse a preocupação de ter constantemente nas mãos a policia, o exército, as finanças, a administração, etc., para dizer “daqui eu não saio, daqui ninguém me tira”, bem, este rei ficaria até certo ponto autônomo das lealdades, mas ele não chegaria à sua copa, ele seria um guardasol inútil que não teria dado o “despliegue” inteiro a todas as suas realidades, às suas possibilidades, e ele seria um frustro.

(...) O sustentáculo de um tal governo é a lealdade. Quer dizer, se não forem leais com ele, ele cai; e se ele procurar se agarrar descendo para a esfera dos inferiores, ele se diminui. E lhe é mais glorioso cair inteiro, do que ser reabsorvido pela própria raiz.

(...) Ele fica numa situação em que ele oferece à nação a sua galharia. Ou a nação inteira ama e quer mantê-lo, a lealdade dele é ter aberto a galharia sobre a nação, nisto ele foi leal; o que desde o primeiro dia da dinastia esperaram dele, em certo momento [ele] deu: abriu a galharia de todos os ideais, de todos os caminhos, de todas as vias, indicou, simbolizou e apontou, e deu aquele sinal do sino que “bran-bran-bran” e chama todos para irem naquela direção. É a lealdade do campanário.


Aparte: É o ego sum dele.


É o ego sum dele, perfeitamente.



Conduta do Rei perante a falta de lealdade geral


Agora, se os outros não forem leais, rompeu-se o organismo, porque começam a conspirar entre si, a corroer as atividades dele, etc., e a exigir dele que entre por cogitações policialescas, etc., para se manter, nas quais ele mingua forçosamente, nas quais ele é chupado de cima para baixo, quando muitas vezes lhe é mais digno dizer “está bom, se quiserem me derrubar, derrubem, eu me entrego como Nosso Senhor se entregou”. Porque é uma forma de sacrifício.

(...) Quer dizer, quando falta lealdade aos súditos, e eles querem inutilizar a copa da árvore, ou corroé-la, etc., em tese se forem todos os súditos –-disso que eu falo-- de alto a baixo da árvore numa espécie de falta de lealdade geral, o rei não pode fazer outra coisa. Eu estou falando portanto da resistência inútil.

O que ele pode é ornar a sua galharia, flori-la, torná-la mais bela que nunca. Se os homens forem insensíveis a isso, não tem saída. É como Nosso Senhor na hora da Paixão.

Eu falo portanto do complot geral, de uma apostasia geral e irremissível de uma nação onde não haja fidelidade tenha desaparecido, a lealdade tenha desaparecido. Isso seria um lado.




Conduta do Rei quando no corpo social alguns permanecem fiéis


Agora, o outro lado é o seguinte:

Supõe que no corpo social apareçam alguns elementos que resistem. Aí o princípio dele é diferente: ele fica engajado, antes da ação policial, e para cima da ação policial e militar, se ele encontra alguma base, ele fica engajado numa ação que, mais do que isso, é apostólica, ideológica e persuasiva. Ele deve ser o estímulo de todas as lealdades, para que elas se mantenham, para que elas voltem. É o articulador para que elas conservem a sua coesão e resistam às forças da erosão.

E nisso ele deve ser o político, o diplomata e o administrador que cuida do próprio tronco substituindo na medida do possível a cada coisa, e arranjando, de forma que seja possível uma resistência e uma vitória.

Em termos concretos, ele deve estimular o ideal que ele representa junto ao povo, junto aos nobres, junto ao clero, ele deve tornar esse ideal mais atraente do que nunca, ele deve remover aqueles que espalham o contrário, e se possível remover de modo desapercebido, se possível. Se não for possível remove até no estrondo, no raio se for necessário. Mas se for possível remove de um modo desapercebido. De maneira que essas crises de vergonha se reabsorvam por si e nem a História as registre. Isto é por ideal. É da doença que a família não percebeu: o pai [percebeu], a família não percebeu. Assim também o rei apostólico e jeitoso, de cima para baixo, equilibra a gente.

Esta tarefa não é inferior a ele. Pelo contrário, nesta tarefa eminentemente cruciante, ele se alcandora. Nascem flores de cores novas na copa da árvore.


Aparte: Ele nunca fica um sargentão.


Nunca. Agora, se essa tarefa fracassa, ele deve ser o homem que usa a força, mas a força aí então claramente numa posição épica e como que cindindo a nação: “quem é saudável está comigo, quem for contra mim é contra a nação, nós vamos fazer uma amputação”. Mas aí é uma cruzada, não é uma mera ação policial, é uma cruzada da qual a nação deve ter consciência. Ele deve ser um homem capaz de dizer isto, capaz de falar isto, capaz de dar este nível àquilo que ele está dizendo, e a ser uma cruzada o primeiro na frente tem que ser ele.


(...)




A força e a fraqueza do Rei vistas em função do tecido de carismas


(...) Uma coisa curiosa é que, quando tudo anda bem, o próprio carisma da Realeza vai descendo, por embebimento, às partes inferiores do organismo.

De maneira que, quando um rei sobe muito, a condição de ministro é tão alta, ou a condição de nobre é tão alta, que se pode considerar que esta condição fica embebida de algo de carismático.

Então por exemplo o [antigo] condestável, tinha um carisma da condestabilidade que era uma participação do carisma monárquico. Uma participação derivada, não era o próprio carisma monárquico, mas era uma derivação participante da condição [monárquica]. Chanceler, outra derivação.

(...) Este embebimento se dá de tal maneira que, se o rei quiser se meter a condestável, falta-lhe o carisma que o outro tomou. E ele não pode ser senão um administrador. Foi em certo sentido o erro de Luiz XIV: ele foi grandemente um rei administrador e nada em torno dele floresceu carismaticamente, a não ser o brilho da Realeza --que tem alguma coisa de carismático.


(...)


O rei, nessas condições, se quisesse reabsorver o que ele deu, ele ficaria gauche, pesadão. E aquele que recebeu uma participação derivada e carismática dele, teria uma facilidade em contê-lo enorme, porque ele não dava para isso, não era ...............

E este tecido de carismas deveria ir embebendo lentamente a nação não se sabe bem até onde. Mas eu creio que deveria ir tão longe que a própria dignidade de “pater familias” por isto é que tomava um certo esplendor monárquico. E creio que isto tudo tinha uma certa relação com a unção. (...) Com a legitimidade também.

(...) E eu tenho a impressão de que, com esse conceito, a gente acaba vendo que tudo no funcionamento social são lealdades, porque fica fácil, quando aquele que recebeu até essa forma de primogenitura subalterna, que é o carisma para sua própria tarefa, se levanta, fica-lhe fácil derrubar, porque a perturbação que causa no reino uma revolta dessas é como a perturbação que causou no Céu a revolta de Lúcifer. Fica fácil derrubar.




Uma ordem, quanto mais saudável for, mais propende a esquecer a doença. Surpresas salutares no corpo social


(...) Tanto quanto a palavra surpresa pode caber, tenho a impressão que se poderia dizer que no Céu houve uma certa surpresa com a revolta de Satanás, e que houve um momento assim de “desarroi”, e que depois São Miguel deu o brado.

Quer dizer, quando essas ordens são muito bem constituídas e muito ........... , elas são tais que as pessoas tem a tendência a esquecer a possibilidade de uma coisa dessas desordenar. (...)

Até certo ponto isso é representa uma saudabilidade. Quando o homem chega a perder a noção, o preço da saúde, e ele esquece de tal maneira o que é a doença, que a saúde lhe parece até uma coisa de menos valor do que outras da vida, nesse momento ele dá um sinal de que ele está num auge de sua saudabilidade.

E aí as surpresas, essas coisas que podem dar, e que são salutares no corpo social para despertar aquilo que poderia começar a dormir, e para os sobressaltos magníficos que dão origem às outras coisas da História. Chega até esse ponto.

É mais ou menos como numa família normalmente constituída, em que nenhum irmão pensa ser roubado pelo outro irmão, em que nenhuma filha pensa ser desonrada pelo pai, não passa pela cabeça. Dirá: “tonta! Você não percebeu que sei pai podia desonrá-la?” Ela dirá: ”não, eu prefiro não ter percebido!”




VII. A parábola da cizânia


Este trecho das Sagradas Escrituras explicaria por que razão o Sr. Dr. Plinio não extirpou os mentores da insurreição quando esta ainda estava nascendo. Evangelho de São Mateus, 13, 24-30:


O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo. E, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo, e semeou cizânia no meio do trigo, e foi-se. E, tendo crescido a erva e dado fruto, apareceu também então a cizânia. E, chegando os servos do pai de família, disseram-lhe: “Senhor, por ventura não semeaste tu boa semente no teu campo? Donde veio, pois, a cizânia?” E ele disse-lhes: “Algum homem inimigo fez isto”. E os servos disseram-lhe: “queres que vamos e a arranquemos?” E respondeu-lhes: “Não, para que talvez não suceda que, arrancando a cizânia, arranqueis juntamente com ela o trigo. Deixai crescer uma e outra coisa até à ceifa, e no tempo da ceifa direi aos segadores: Colhei primeiramente a cizânia, e atai-a em molhos, para a queimar; o trigo, porém, recolhei-o no meu celeiro”.