O
Anticristo já veio?
CAPÍTULO 3 – SE AS TENDÊNCIAS DE JC CORROBORAM O QUE A RESPEITO DELE ACABA DE SER EXPOSTO 1
I. QUANDO VOCÊ ACORDAVA, NÃO SABIA SE TOMAVA CAFÉ OU SE FAZIA UMA REVOLUÇÃO 2
II. O PONTA PÉ NA CRISTALEIRA 2
III. MENINO BONZINHO QUE RESOLVEU VIRAR ESAÚ 3
IV. MUITO APTO E MUITO PROPENSO PARA FUNDAR SOCIEDADES SECRETAS 8
V. SEU VICIO CAPITAL O LEVA A FOMENTAR A DESHARMONIA 10
VI. VERSÃO DE ROBESPIERRE DENTRO DAS FILEIRAS DA CONTRA-REVOLUÇÃO 11
VII. UMA FERA ESPUMANDO DE ÓDIO 13
VIII. TENHO MEDO DE PENSAR O QUE VAI SER O JOÃO QUANDO TIVER 60 ANOS 15
IX. VOCÊ ACHA QUE NO FUNDO É POSSÍVEL UMA COMPOSIÇÃO COM OS AZUIS 16
X. O JOÃO, SEM MIM, SÓ FAZ LOUCURAS E DESATINOS 17
XI. O PROBLEMA DO JOÃO É DE MANDO E DE DINHEIRO 19
XII. ANÁLISIS GRAFOLÓGICO DE JC 19
XIV. POUCO ME IMPORTAM AS CONSEQUENCIAS DO QUE EU FAÇO 21
XV. HIPÓTESE SOBRE O PROCESSO PSICOLÓGICO-MORAL DA DECADÊNCIA DE JC 22
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"Jour-le-jour" 19/1/97 - JC conta que uma vez Dr. Plinio perguntou a ele o seguinte:
-- Olhe aqui, eu estou me lembrando de um fato a seu respeito. Eu ouvi contar que quando você era criança, uma parente sua dizia a seu respeito que, quando você acordava, você não sabia se tomava café ou se fazia uma revolução. É bem isso, meu filho?
Depoimento do Sr. Edson Neves, colega de infância de JC, setembro de 1998:
[Quando eu ia à casa dele para estudar, a mãe dele, dona Anita], vinha falar comigo:
“Olha, é preciso você ter paciência com o João, porque ele sempre foi assim, é difícil, ele não gosta de incômodo, se a gente aperta ele pula mesmo, é como gato acuado: a gente acua, o gato sai por onde pode, mas não aceita de domar (...). Um dia estava chovendo, frio e lá fora na rua --nessa época São Clímaco eram ruas de terra, não tinha asfalto, nada, e do outro lado da estrada tinha boi pastando, era uma fazenda mesmo, era o interior, o campo, então que acontecia? chovia, passava aquela enxurrada de água suja, de terra, de pó pela rua, além do frio. Então o João queria ir brincar na rua junto com os amiguinhos dele, que ele via pela janela que estavam andando na enxurrada da chuva, para brincar, andar dentro da água, moleque de rua gosta de fazer. E um dia ele quis sair.
A mãe: mas você passou mal à noite, tem problema do pulmão, não pode sair.
Ele falou: deixe sair.
Ela não deixou.
Aí ele por segunda vez: mamãe deixa ir para a rua.
Ela passou a chave na porta, para ele não sair.
Aí ele ficou furioso, esperou um pouco e disse: olha, é a terceira vez, vai ou não vai me deixar sair? Se a senhora não deixar, vai ver o que vou fazer.
Ela: já falei menino, você está doente, não pode brincar na chuva.
Ele deu um ponta pé na cristaleira e quebrou tudo, de revolta.
Isso revela um fundo de alma, de brutalidade, de insubordinação, de in submissão, que numa criança de 11 anos é uma coisa grave.
(Aparte: Explica muito a ... porque agora deu um ponta pé na TFP).
Ele não admite, nunca admitiu contrariedade, ninguém pode se opor a ele em nada (1).
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Já que JC se considera “Alter Plinio” e seus adeptos afirmam que até assumiu o temperamento de nosso Modelo, vejamos como este procedia quando alguém o corrigia:
Encontro CCEE 4/8/85:
E não teria vergonha, ao contrário do que muitos supõem, se me apontassem um erro, me convencessem de que esse erro é erro pela doutrina católica, segundo a doutrina católica, de voltar atrás.
O arquivo da TFP está cheio de minutas de livros meus, minutas de artigos meus, em que eu submetia a Sua Excelência [Dom Mayer], antes de publicar, e que tem correções dele. Os senhores vão aos livros, e encontrarão que todas as correções foram atendidas. Eu agradecia de todas as vezes muito, e nunca ninguém me viu queixar de uma correção. Mais ainda quando se tratavam de coisas que não eram de doutrina, que eram de mera oportunidade, etc., ele pedia modificações, discutia-se comigo com muita largueza, é verdade, mas a opinião dele prevalecia.
Eu me lembro de um comunicado que nós fizemos na TFP, respondendo a um edital, era um comunicado também, da CNBB reunida em São Paulo, contra nós a propósito do divórcio ou da reforma agrária, já não me lembro bem. Eu publiquei uma resposta no "Estado de São Paulo" de uma página inteira. E submeti a D. Mayer, ao Senhor D. Mayer o texto disto. Ele leu, e na hora em que combinamos encontro na sala da TFP, ele estava hospedado em cima, desceu para falar comigo e me disse com muita amabilidade que ele tinha nada menos de quarenta correções a fazer. Disse: pois não, vejamos. Todas as correções eram expressões que ele queria atenuar, ele queria arredondar para tornar mais afável o comunicado. Em quase tudo eu atendi, e no que eu não atendi eu não atendi porque ele concordou comigo. Não eram questão de doutrina.
Mas o verdadeiro católico gosta de obedecer. O verdadeiro católico gosta de admirar, o verdadeiro católico gosta de sentir-se pequeno diante daquilo que é grande. Sentir-me portanto pequeno diante da sabedoria eclesiástica, admirar o estado eclesiástico, admirar a condição sacerdotal, admirar a estrutura hierárquica dada à Igreja por NSJC. Mas isso é a essência de nosso espírito. É de nosso espírito católico, espírito que recebemos da Igreja.
Isso eu faria com naturalidade, com trasbordamento e satisfação, agradeceria: "fui corrigido, graças a Deus; eu vou ainda na minha comunhão rezar pelo senhor, para agradecer pelo bem que me fez. Abriu-me os olhos. Para isso Vossa Excelência é bispo, para isso o Sr. é padre, para isso eu sou leigo".
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Conversa de JC com os novatos da Saúde, 29/11/94 – A pedido de um de seus discípulos, JC fala de sua infância, mas em terceira pessoa. Começa exaltando-se enquanto menino sofredor, refletido, calmo e protegido pela Providência. Reconhece sua tendência para a agressividade, esperteza, agitação, “sempre disposto a pular no primeiro pescoço que apareça pela frente”; afirma que se propôs imitar e ultrapassar aos Esaú; desenvolveu tal amargura em relação a todos, que pensava que se tivesse uma bomba, acabava com tudo; seu espírito oscilava entre horas de cólera e horas de flash; vivia tão amargurado “pela maldade que via em torno de si” --não dentro de si--, que propenderia a destruir o mundo; ao conhecer o argumento que prova a existência do inferno, alegrou-se pelo fato de que em determinado momento os outros --não ele-- serão punidos pela Justiça Divina; sonhava ser o fundador de uma instituição; dentro da TFP nunca teve tentação de mundanismo (sic), liderou uma cissão e depois foi crescendo de flash em flash:
Bom, o personagem a respeito de quem o Sr. pergunta, para agüentar quatro décadas numa certa linha -- com, evidentemente, escorregões aqui, lá e acolá, mas a linha foi mantida -- para agüentar essa certa linha, é evidente que a Providência protegeu desde o início. (...)
Este personagem teve uma infância ultra isolada, isoladíssima, e que deu a ele a possibilidade de muita reflexão -- porque ele nem falava, foi aprender a falar aos três e meio, quatro anos. Então muita reflexão, muito pensamento.
E em certo momento, ultra maltratado por uns tios de origem peninsular, uns tios tremendos, terríveis, muito judiado, ele concebeu uma noção a respeito do mal, já muito criança.
Então já desde criança foi obrigado a ter um espírito combativo, pelas circunstâncias da vida que lhe impuseram. É mais ou menos como um cachorrinho, que a gente pega e dá uma bofetada, o cachorrinho morde, e vai ficando agressivo, agressivo, foi o que aconteceu.
Então deixaram-no agressivo, mas ao mesmo tempo tiraram-lhe uma essência da inocência, que consistia em... Esse rapaz era calmíssimo, sereníssimo, e como vivia isolado, na fase do isolamento, ele aprendeu a observar, e a observação era calma, tranqüila, serena.
E acontece que, judiando assim dele, ele às tantas percebeu o seguinte: ou deixa essa calma e deixa inteiramente essa tranqüilidade... E passou a ser um sujeito ágil, esperto e agitado, pronto para qualquer surpresa que a vida possa prometer e, portanto, um espírito de improviso sempre disposto a pular no primeiro pescoço que apareça pela frente...
Acontece que ele se lembra desse raciocínio, estava junto a um pé de uma mesa, e um desses miseráveis fazia com que ele passasse... esse miserável passava um barbante na mesa e com facilidade, ele mesmo, numa ponta puxava e saía tudo. Ele enrolava o barbante e dizia para o menino: Tire. O menino ia tirar e se enrolava mais. Então bofetadas.
Então esse menino se lembra disso, estava ali naquela hora -- era ainda um dos primeiros lampejos do uso da razão -- ele estava ali levando aquelas bofetadas e pensando o seguinte, chorando e pensando o seguinte: "Puxa, essa vida é assim, se eu continuar com essa minha calma, e com essa minha tranqüilidade, eu vou apanhar o resto de minha vida, eu vou ser um trucidado. Quer saber de uma coisa? Eu tenho que pôr isso de lado, eu vou ser um tipo como eles, e vou passar ainda... vou ultrapassá-los, porque senão eles me levam a melhor".
E conclusão, aí ficou a inocência.
E ele então se desenvolveu, mas numa espécie de amargura tremenda com relação a todo o mundo, e meio se pondo o problema: "Mas escute, vale a pena viver? Se você tivesse uma bomba, você não estourava tudo? Estourava, porque não vale a pena viver. Para quê? Porque onde já se viu!"
Com alguns "flashs" religiosos, que todo menino tem, uma bênção do Santíssimo Sacramento que o tomou etc., e contos religiosos que deixavam a ele impressionadíssimo. Então uma ilha aonde tinham sido mandados uns leprosos, e que todos eles rezavam, e todos os dias aparecia um barco com comida, porque atendiam... então umas coisas assim que povoavam [seu espírito] e davam uma certa sustentação.
Mas horas de cólera misturadas com horas de "flash", horas de cólera, horas de "flash" até que... ele estava lá com os seus quatorze anos, assim meio angustiado e querendo encontrar uma saída para aquela situação porque não podia ser.
De repente um primo, bem mais velho do que ele, ele estava no ginásio, e esse primo estava na faculdade de politécnica, discussão com ele. E [o primo] começa defender a tese de que ninguém prestava, que todo o mundo era interesseiro.
Ele aí, por espírito de contradição, tomou a posição contrária, disse: "Não, não é possível que todo mundo não preste como ele está dizendo, tem que haver gente que preste. Quem prestará, eu não sei, mas que tem gente que presta, tem".
-- Não, todo mundo é interesseiro, é assim mesmo.
Ele disse:
-- Não, nada disso! Tem que ter alguém que preste, não é possível, senão o mundo não existiria. Se ninguém prestasse o mundo estava destruído. Tem que ter um, pelo menos um.
Então, assim amargurado pela maldade que ele via em torno de si, nos parentes, em todo mundo, e depois olhe aqui, pai, mãe, tio, avô, avó, ninguém presta. Tem que encontrar essa gente que presta, porque senão não vai, ou eu destruo esse mundo (1). Ou a gente destrói o mundo ou encontra alguém que presta.
Então o menino ia dormir à noite, todo o mundo se deitava etc., ele ficava ajoelhado sobre a cama, não era no chão, mas era sobre a cama, nos pés da cama, ajoelhado, e um ajoelhar-se curioso, punha as mãos aqui [no rosto] e chorava, chorava, noites e noites, querendo encontrar, querendo encontrar: "E onde é que está, onde está esse homem, onde está essa gente?". E rezava dez Ave Marias, vinte Ave Marias, trinta Ave Marias e chorava e queria, e queria, e queria.
De repente estava no colégio e entra um professor meio louco, um delinqüente, entrou na sala de aula e somava a loucura com algumas coisas que atraíam. E esse homem entra na sala de aula e diz: "Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém".
Eu disse: "Puxa, um professor de História, vai fazer um sinal da cruz, por que isso?"
Este homem começa a dar aula, e no meio da aula ele diz: Porque o Inferno, Inferno!
Eu disse: "Puxa, isso é interessante, Inferno, esse é o tipo da coisa interessante. Inferno, castigo, porque está aí, precisa castigar essa gente toda..."
Então este professor às tantas diz: "Quem duvida do Inferno!" Então três lá levantam o braço, ele diz: "Procure-me após a aula que eu provo a existência do Inferno".
Eu disse: "Ah, eu quero saber como é que ele vai provar", porque eu tinha discussões que o Inferno existia, e não conseguia provar, eu só podia dizer: "Existe, está na Bíblia".
Então saí da aula, este professor, pega os três ali e dá aquela prova que os senhores conhecem, da autoridade, a ofensa de um igual, a ofensa de um inferior para um superior. Portanto, o castigo é proporcionado à ofensa e ao ofendido. Ora, se o ofendido é infinito, a ofensa merece um castigo infinito, portanto, o Inferno.
Ah, fenomenal; "flash".
"Então existe".
Aquilo foi uma espécie de confirmação na axiologia da Fé, mas a mais profunda possível.
Eu disse: "É isso mesmo, então existe um Deus, que é justiceiro e, portanto, essa maldição toda que existe sobre a Terra, tudo isso tem um fim, esse pessoal vai pagar pelo que fez, então está ótimo, aí vale a pena ser bom. E eu estou atrás desses bons. Quem serão esses bons? Olhe aqui, eu vou convidar esse professor para formar uma sociedade, para formar uma instituição aí, de lutar contra essa porcaria toda que existe aqui no mundo..."
Então eu fui lá e disse:
-- Olhe aqui, o sr. não quer, o sr. não gostaria de pertencer a uma sociedade, assim e assim que eu gostaria de fundar?
Ele disse:
-- Venha na minha casa que eu estou interessado.
Então eu fui na casa dele para fundar a sociedade, só que ele me pôs dentro do Grupo.
Assisti umas três reuniões na casa dele, gostei muito da doutrina toda que ele dava, que era a doutrina do Grupo, do Senhor Doutor Plinio, e ele me levou para o Carmo.
No Carmo o menino estava ali sentado ali nos bancos da igreja, os senhores já conhecem o episódio, o Senhor Doutor Plinio passando, um conjunto, quando foi divisado o conjunto, disse: "Esse conjunto, está aqui, esse é dos bons e esse conjunto vai vencer o mundo".
Quando o cortejo passou e foi visto o Senhor Doutor Plinio na sua fisionomia inteira, disse: "Aqui está, esse é o homem que eu sempre esperei, está aqui".
E aí o resto, quer dizer, a adesão foi direta, foi imediatamente. Já depois dessa primeira reunião na casa desse homem -- que tomou outro caminho -- já saiu dali, foi procurar um padre, Confissão geral, Comunhão todos os dias já direto, rosário todos os dias.
"Acabou, o mundo é todo mal, desse mundo eu não sou, eu rompi com esse mundo, eu não quero saber de nada com ele". E tentação para voltar para o mundo, que eu saiba, que ele me tenha contado, nunca teve.
Tentação de dizer: "Olha, quer saber de uma coisa, errei de caminho, vou para o mundo", isso nunca.
Um período de muita... uma vida de muita brincadeira, de muita falta de seriedade no Grupo que foi assim meio conivente, meio complacente e, portanto, com culpa, mas num certo momento, quando se deu conta de que aquilo não deveria ser, foi num dos acampamentos em Amparo em março de 63.
Acampamento em que levaram o espírito de brincadeira a tal ponto, de improviso, de falta de seriedade, que um jogo tremendo durante o dia, um joga-joga que não dava tempo de fazer as orações. Então termina aquele jogo todo, termina a noite, percebia-se que uns não tinham feito as orações do dia, e não podia ser, então tem que rezar andando, porque senão cai morto de sono, e sendo obrigado a dormir ao relento.
Eu disse: "Não, isso aqui é uma loucura, como dormir ao relento?! Não tem sentido! Olha aqui, quer saber de uma coisa? Eu vou dormir..." rompeu a opinião pública -- já estava acostumado desde menino -- rompeu com o convívio da opinião pública, e disse: "Quer saber de uma coisa? Não me interessa, fiquem aí todos que eu não vou levantar reumático amanhã". Tinha feito serviço militar, sabia que era uma loucura aquilo. Foi para a tulha, depois de ter rezado, deitou-se sobre uns sacos de farinha que tinha na tulha. Daqui a pouco começa, um, dois, três:
-- Hei, tem um lugar para mim?
-- Sim, tem um saco de farinha ali, tem outro ali. [Risos]
Isso foi um sábado, um domingo, uma segunda-feira, não tendo dormido quase nada de sexta para sábado, de sábado para domingo, de domingo para segunda. Claro que segunda-feira de madrugada, tendo chegado, deitou-se e acordou às cinco da tarde. Saiu correndo para o expediente que devia ser assumido às duas da tarde, foi pedir desculpas para Dr. Luizinho, e Dr. Luizinho disse:
-- Ah, sente aqui, sente aqui, não é que... é que isto falta pensamento, falta pensamento.
Eu disse: "Ah, esses tipos não estão na pista do Senhor Doutor Plinio, então! Então está tudo errado. Ah, vamos resolver isso com pontapé, não tem jeito".
E aí então, reação. Dessa reação, em 63 foi resultando que tudo foi sendo conduzido a "flashs" e mais "flashs", até o auge dos "flashs" que foi em 66, e que foi na linha da SV.
Depois o ápice da SV para ele se deu no momento em que o Senhor Doutor Plinio adoeceu em 67 e ele foi chamado, pelos mais velhos todos, a cuidar do expediente diário, durante o dia, do Senhor Doutor Plinio. Então ele teve um convívio com o Senhor Doutor Plinio e com a Senhora Dona Lucilia durante uns quatro ou cinco meses.
Comentário:
No famoso recado que deixou gravado na secretaria telefônica do Sr. Luiz Antônio Fragelli, em outubro de 1996, este pendor de JC se manifestou mais uma vez, pois ameaçou pôr fogo na TFP inteira, caso não se cessasse de “falar mal” dele.
Depoimento do Sr. Edson Neves, 30/12/99:
Foi uma reunião que o SDP fez para os 8 ou 9 que entramos para a Faculdade de Direito, depois de um ano de escola, e que nós estávamos fazendo campanha contra a Revolução que Fidel Castro tinha feito em Cuba, e então como nós tínhamos um relacionamento muito intenso com os alunos, havia polêmica todo dia, e éramos todos muito novinhos ainda, nossa idade variava de 18 a 21 anos, o SDP nos chamava de vez em quando para conferir as coisas, explicar, [dizer] o que responder, e ver se a gente estava se portando bem.
Numa dessas tardes que ele tinha tempo livre, ele nos reuniu na antiga sede do 518, a sede dos Juniores, que depois se tornou Alcácer. Nessa sala nós estávamos conversando sobre assuntos da Faculdade, o SDP achou por bem nos dizer, a cada um de nós, o que nós seriamos se não tivéssemos conhecido a ele e à TFP. Numa intimidade, de pai para filho. Nos disse que até aquele dia nós estávamos andando bem na Faculdade, que o apostolado estava indo do gosto dele e que nós estávamos realmente aprendendo a polemizar com os inimigos, mas que era preciso a gente ter bem presente que o local onde nós estávamos era muito perigoso e praticamente, do ponto de vista de Forças Secretas, era um antro, a Faculdade de Direito era de onde saíram uma boa parte dos governantes do Brasil. Então era um local muito perigoso e cheio de ciladas.
Aí nos explicou como devíamos agir, devíamos ter espírito sobrenatural, rezar, etc.
Depois a coisa caminhou para ele nos falar, a cada um de nós, dos defeitos e qualidades que nós tínhamos. Os defeitos que a gente devia combater, etc., para não cometer erros lá na Faculdade, e também as qualidades que Deus havia dado para cada um de nós.
Então eu me lembro bem que quando chegou a vez de JC, ele disse a ele: você é uma pessoa que tem uma facilidade enorme para selecionar as coisas que lhe interessam, você é muito rápido, num relance você já classifica e vê se a coisa te interessa ou não. E disse outras qualidades que ele tinha, e também o seguinte: o bom o mau uso que as pessoas podem fazer de uma qualidade que Deus dá.
Você, por feito de espírito, por qualidades inatas, você normalmente, se entrasse para um grupo que seria o oposto do que nós somos, que visasse o mal, que fosse por exemplo o antro na Faculdade de Direito, que era da maçonaria, da Buschenschaft, se tivesse sido pinçado pela Buschenschaft você prestaria a eles determinado tipo de serviços segundo as qualidades que você tem e que podem ser bem ou mal utilizadas.
Você, se tivesse descambado pelo mau caminho, se fosse uma pessoa desencaminhada --que Deus o livre--, você naturalmente daria um chefe de máfia, porque você tem facilidade de separar as pessoas, organizar as pessoas e influenciar as pessoas, de uma maneira muito sagaz e muito natural, a ponto de a pessoa não perceber que está sendo manobrada.
Isso é uma qualidade de muito valor, mas muito perigosa, por isso que estou te dizendo isso. Faça sempre para o bem, para encaminhar as pessoas para o bem. Porque senão, isso, eu lhe digo com toda franqueza, se você tivesse tido a desgraça de não ficar católico e tivesse se encaminhado para lugares que seriam de perdição, como é o caso da maçonaria e outros, você normalmente seria uma pessoa muito própria a fundar máfias.
Eu estou lhe dizendo para você ver como são as coisas. Eu sei que uma parte de seu sangue é italiano e que você não é da Sicilia, você é de italiano mais para cima, mas que seria do tipo mafioso do tipo siciliano, aqueles que para disputar uma coisa, quando há uma disputa entre dois chefes mafiosos, um tira o lenço do bolso, um morde numa ponta do lenço e outro na outra ponta, cada um saca o seu punhal, e um apunhala o outro até o outro cair, aquele que fica em pé ganha.
Eu estou dizendo isso porque pode parecer muito pitoresco e tudo, mas é uma coisa muito séria. E é desse tipo de máfia que eu estou falando.
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JC reconhece sua habilidade para manobrar “todo mundo” - "Jour-le-jour" 6/3/6:
Eu me lembro antes ainda de entrar para o Grupo de fazer essa experiência e que pegava, combinava com duas pessoas:
-- O senhor vai a um canto lá, eu fico aqui, o senhor vai lá embaixo no pátio. Nós vamos assobiar tal música, só assobiar.
Assobiava uma vez, duas vezes, três, quatro, etc. No final do dia estava todo o mundo assobiando.
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JC fala de sua propensão a fazer coisas secretas, espionagem, intrigas, etc. Narrou esse episódio várias vezes, deixando claro que era ele um dos protagonistas - "Jour-le-jour" 16/2/97:
Lembro-me como se fosse hoje uma pessoa X que costumava ir à Sede do Reino de Maria na Rua Pará lá por volta de onze e meia, por aí. Porque a reunião terminava às vezes quinze para a meia-noite, dez para meia-noite, e terminada a reunião os que participavam da reunião saíam e ficavam conversando com os outros por ali, naquelas várias salas que existiam. Existia a Sala dos Reis Magos, a Sala da Mesa, depois existia a Sala dos Alardos, existia um expediente que funcionava na copa. Até na cozinha o pessoal entrava às vezes para tomar um café, isto, aquilo e aquilo outro.
As pessoas mais jovens, uns três, quatro, cinco, seis, subiam a Rua Pará às onze e meia para saber um pouco o que é que tinha acontecido naquela noite, que reunião tinha sido dada, o que é que o Sr. Dr. Plinio tinha comentado, quais eram os temas tratados.
Quando mais para a frente se estabeleceu um sistema de gravação superequipado -- para aqueles tempos, porque hoje em dia existem coisas muito melhores --, fez-se uma saletinha de gravação. Muito por debaixo do pano um ou dois conseguiram se enfiar pelo meio da saletinha de gravação e ouviram um pouco o que o Sr. Dr. Plinio estava dizendo na reunião. Mas aí de forma muito oculta, de forma muito secreta.
(...) Então subíamos e ouvíamos fiapos de reunião, daqui, de lá, de acolá, com conversas, junto ao gravador ou coisa que o valha.
*
Ao descrever o apostolado que Dr. Plinio fazia com ele, JC deixa transparecer que o lado bom dele vai na linha da abnegação e da cavalaria, enquanto o lado mau na linha de um homem que se julga dono do mundo e propende a fazer intrigas - "Jour-le-jour" 10/1/97:
Era até elogiar uma carrocinha que passava, uma carrocinha a cavalo que passava em frente. Ele fazia uma comparação entre a carrocinha, o cavalo e um sujeito que passava com uma pasta 007, essas pastas duras aí. Dois personagens em sentido contrário: a carrocinha com o cocheiro dirigindo o cavalo e o outro com a pasta 007.
-- Olhe aqui, olhe aqui que duas cenas impressionantes. Está vendo? Este aqui se julga dono do mundo. É um homem que vai tratar com outros agora, que vai virar, vai mexer, vai fazer não sei quantas piruetas, vai então convencer fulano, convencer sicrano... diplomacia. Aquele outro não, veja só. Ele é menos endinheirado do que este aqui, ele é menos bem sucedido na vida do que este aqui, mas tem mais valor de alma. Por quê? Porque ele tem um contato com algo que lembra ainda a cavalaria medieval, é o cavalo que ele está dirigindo.
Assim foram meses. Mas ele não dava ponto sem nó, como eu estou lhe dizendo.
Então ia chocando o lado mau, e o lado bom ia florescendo
Reunião na Saúde, 5/12/95:
Eu, uma vez perguntei a ele:
Sr. Dr. Plinio, qual é minha luz primordial? (...)
Ele disse: “Sua luz primordial é a harmonia”. Harmonia, os senhores sabem que é a relação ordenada, entre seres diferentes.
Conversa de JC com os novatos da Saúde, 24/1/95:
Eu era um "anti-sabugo" de primeira, em tempos idos. A tal ponto que o Senhor Doutor Plinio uma vez, conversando com Dr. Luizinho -- o Sr. sabe que Robespierre foi quem implantou o "Terror" na Revolução Francesa, impôs a guilhotina e começou a matar gente em quantidade, matava nobre em quantidade o miserável; e, portanto, ele era um revolucionário mau e criminoso, matava mesmo -- e comentando com Dr. Luizinho, a meu respeito, que eu tinha descido a lenha em fulano, tinha dito a sicrano que não sei quanto, que não sei o quê, o Senhor Doutor Plinio dizia: "Mas o João o que está pensando? Está querendo ser uma espécie de Robespierre do bem?! Ele que tome cuidado! Por quê? Porque quando a gente dá um pontapé num "sabugo" para pôr para fora, precisa tomar cuidado porque, de repente o pé vai junto!"
Cuidado, cuidado, cuidado!
E depois, disse isto: "Diga a ele, Luizinho, que no jardim de Nossa Senhora, "sabugo" dá milho".
À primeira vista, o ponto por onde o pró-homem da Revolução Joanina se assemelha ao pró-homem da Revolução Francesa é um só e é tão claro que nem merece ser aprofundado. Entretanto, ao analisar a biografia e psicologia do fautor do Terror, escrita pelo célebre Lenotre (“Panoramas de la historia universal – 26 Robespierre”, Ediciones Moreton, Bilbao, 1968), há uma série de pontos que chamam a atenção. Por exemplo:
El incorruptible recibia también --quien lo hubiera creído?-- cartas de amor (p.12).
Gustaba de respirar los vapores del incienso (p.12). Su correo diário le traía bocanadas de incienso de todos los puntos de Francia: “admirable Robespierre, antorcha, columna, piedra angular del edificio de la República Francesa”, “la corona y el triunfo se os deben y os serán otorgados en espera de que el incienso cívico humee ante el altar que os elevaremos un dia”, “águia que planeas en los cielos”, “genio incomparable, protector de los patriotas, que todo lo ve, todo lo prevé, desbarata todos los peligros”, “vós sois mi divinidad suprema, os miro como ángel tutelar mio” (pp. 105 e 106).
Cuando la Asamblea Nacional se disolvió (setiembre de 1791), la muchedumbre se congregó para asistir a la marcha de los diputados, acogiéndolos con un silencio gélido. Pero al aparecer Robespierre, estalló un alarido, una aclamación triunfal: hubo brazos que le tendian coronas de laurel; una mujer le presentó a su hijo para que le bendijera, etc. (p.46).
Un mes después, Robespierre retorna a Arras: 200 jinetes fueron a su encuentro, rodeando su carruaje; y al atardecer, a las puertas de Arras iluminada, salieron a recibirle un grupo de ancianos que llevaban coronas cívicas, mujeres vestidas de blanco y niños que arrojaban flores; hubo banquetes, discursos, adoraciones (p.46).
Una vez, en la iglesia donde se reunía el club de los jacobinos, fué recibido con aclamaciones desenfrenadas, pataleos de entusiasmo y en medio de un tumulto de ovaciones (p.151).
No hablaba --siempre mediante insinuaciones-- más que para pronunciar su propio elogio y maldecir a quienes no le admirasen (p.131).
El prestígio de los otros le molestaba. Cierta ocasión, en cuanto Barere comentaba enfáticamente las victórias del ejército, Robespierre no se alegraba con las buenas notícias y deseaba que se pusiese menos relieve en aquello. La gloria que celebraba triunfos ajenos, le afectaba como una injúria (p.133).
Desde niño tenia desmesurado afán de domínio; su vanidad precoz lo llevava a poner gran ardor en el trabajo y a una especie de obstinación en conquistar el primer puesto. Su susceptibilidad estaba siempre alerta (p.22). Era un alumno estudioso infatuado por su excelencia (p.24).
Cuando comenzó a trabajar como abogado, mal disimulaba la convicción de su superioridad. El imputaba a la malevolencia de sus colegas las decepciones de su amor propio (p.30).
La envidia y sus resentimientos acumulados le hicieron odiar la sociedad monárquica, a la que sin embargo lo debía todo (p.31).
En 1788, los abogados de Arras se reunieron en una conferencia, con exclusión de Robespierre. Este, cegado por la cólera, escribió un libelo que levaba por epígrafe “es muy difícil (...) sufrir largo tiempo sin dejar escapar alguna queja”; y derramaba su bilis sobre “los viejos que acaparaban todos los asuntos”, cerrando la entrada del pretório a los principiantes (p.32).
Él mismo se atribuyó el epíteto de “incorruptible” (p.34). Fué un apologista de la virtud (p.135).
Su talla era mediana y su apariencia endeble (p.34).
Veía conjuras por toda parte, traiciones y despeñaderos. No perdonaba jamás una ofensa del amor propio; se irritaba ante la más ligera sospecha; creía siempre que se ocupaban de él, y para perseguirle (p.49). En su perpétua desconfianza veía por doquier traidores y conspiraciones; así se embebia en una tarefa policíaca en que era muy experto y que sus colegas no le disputaban juzgándola más repugnante que difícil (p.107). Robespierre tenia por todas partes ojos y oídos; estava informado hasta tal punto que parecia leer los más recónditos pensamientos de sus mudos detractores (p.108). Se consideraba alvo de una conspiración de calumnias (p.130).
A pesar del temor que atenazaba a todos, habia que mostrar una espécie de alegria si no se queria exponerse a morir. Por lo menos habia que adoptar un aire de contento, una actitud abierta (p.113).
En cualquier hombre husmeaba un enemigo probable de si mismo o del pueblo, con quien hacia causa comum. Si atribuía al populacho todas las virtudes y lo consideraba infalible, era porque el populacho lo idolatraba y sus aplausos le vengaban de las tarascadas de la suerte (p.49).
Queria por encima de todo los favores del pueblo, le hacia continuamente la corte y buscaba con afectación sus aplausos (p.50).
Celebró con énfasis “al joven y prudente monarca que ocupaba el trono”, el “augusto carácter” de aquel príncipe, a aquel rey “que el cielo les habia deparado en su clemencia” (p.31). Más o menos en 1791, publicó un pequeño periódico semanal, en el cual halagaba a la Corte y al Rey, haciendo protestas en cada fascículo de su adesión a la Constitución monárquica establecida por la Constituyente (p.51).
Cierta vez, en una reunión del Comité de Salud Pública, Robespierre presentó la lista de una série de personas a ser guillotinadas. El Comité no la aprobó. En vista de eso, Robespierre sale de la reunión, y al abrir la puerta ve en la antecámara un grupo de diputados, entre los cuales vários de aquellos cuya muerte desea. Sorprendido, retrocede y volviéndose a sus colegas del Comité, grita para que le oigan desde afuera: “ustedes quieren diezmar la Convención, pero yo no lo aprobaré!” Collot d’Herbois, indignado, exclama dirigiéndose a la gente que estava en la antecámara: “Robespierre es un hipócrita! Nos imputa precisamente aquello de que él es culpable!” (pp. 127 y 128).
El 8 de Termidor, en famoso discurso pronunciado en la Convención, Robespierre dijo: “somos nosotros a quienes asesinan y a nosotros mismos nos pintan temibles”. Denunció a “los monstruos que habian arrojado a los patriotas a las mazmorras y llevado el terror a todos los ámbitos”. Arremetió contra “el vergonzoso sistema del Terror”. Y se declaró “completamente ajeno” a la responsabilidad del Terror (pp.146, 147 e 149).
Siempre buscó la sociedad de los eclesiásticos. Continuamente se adivina la presencia de sacerdotes alrededor de Maximiliano. Durante la Constituyente mantuvo íntimas relaciones con el abate Michaud. En aquella misma época, conservaba excelentes relaciones con algunos canónicos del capítulo de Paris. Antes del 10 de agosto, uno de sus amigos sacerdotes mantuvo negociaciones en su nombre con los políticos del momento (pp. 66 e 67).
La camarilla del incorruptible no tenia buena fama en los últimos meses del año II, pese a que sólo se conocia de modo imperfecto el misterioso alistamiento de sus miembros y sus verdaderos efectivos (p.134). Si Robespierre se complacía en aquella sociedad era porque entre semejante gentuza, no habia un solo rival al que pudiera temer; les imponia sus órdenes o sus consejos con su superioridad manifiesta y nadia los discutia. Queria a su alrederor subalternos; iguales, no (p.135).
Narrando seus primeiros anos no Grupo, JC conta que uma vez teve um desentendimento com OF a propósito da falta de seriedade deste:Ele [o Fedeli] me levou para conversar com o Dr. Plinio Xavier que estava num hospital. Tinha acabado de operar o fígado e estava no Hospital Santa Catarina num quarto. Entrou no hospital, entrou no quarto do Dr. Plinio Xavier, falou sozinho durante uns dez minutos e depois me pôs lá dentro. Eu disse: "Bom, o que é que vou explicar para este homem aqui? (1) Ele não vai entender o que eu vou explicar aqui".Então eu comecei a falar mal das brincadeiras: "Olhe, tem tal brincadeira", não sei quanto.
O Dr. Plinio Xavier com aquele jeito dele muito fechado, muito frio, muito formal: “Sei. Sei”. Ele não tomou partido. Eu disse: "Puxa, que negócio é esse?" (2).
[Dr. PX]: “Nós precisamos ver um pouquinho, precisamos tomar cuidado. Depois nós conversamos um pouco mais”.Eu disse: "Tem qualquer coisa aqui que não está de acordo. Não sei o que é que é". (3)
Saímos e o Mutuca: “Então, conversou, conversou?”Eu quieto e fechado, e ele inseguro.
Eu sei dizer que deu um estouro tal, que foi parar nos ouvidos do Sr. Dr. Plinio. Eu com isso tive que me ver longe do Sr. Dr. Plinio durante um mês mais ou menos, porque o Sr. Dr. Plinio temia uma revolução feita na Aureliano antes da hora, e me mandou passar um mês no palácio de D. Mayer em Campos.(...) Mas aí também com um mês de purgatório eu amaciei e quando eu voltei percebi que o Sr. Dr. Plinio não queria que eu virasse a mesa (4). Então eu fiquei no compasso de espera desde 60 até setembro de 1963. Aí, então, racharam-se todos os cristais e eu vi perfeitamente que não era apenas um problema de mera brincadeira que havia no Mutuca.Aconteceu isso:Nós fomos para um acampamento em Amparo num sábado para domingo. Chega no sábado à noite, ele exige que todo o mundo dormisse ao relento. Eu tinha acabado de fazer o serviço militar e sabia perfeitamente que era uma demência querer dormir ao relento porque nem animal faz isso (5). As aves procuram as folhagens para poder se esconder do sereno, porque se o animal fica debaixo do sereno acorda aleijado no dia seguinte. O homem mais ainda, porque o homem não tem pluma. Ele, então, exigindo a todo o custo que todo mundo tinha que deitar na terra, no chão, sem nenhuma matéria para cobrir-se. Eu disse: "Mas esse homem está louco! Esse homem está louco!".
Eu ostensivamente, a la espanhola, disse:
-- Eu aqui não fico. Com o meu organismo isso aqui não vai.E caí fora.(...) No dia seguinte jogos. Então uns jogos malucos, com mamona, estilingue, não sei mais quanto, e corre atrás de um, depois atira estilingue daqui, atira estilingue de lá. Uma correria desgraçada (6).Depois tem que comer churrasco e o churrasco já é almoço e jantar ao mesmo tempo (7). Eu sei dizer que foi um massacre tal.Nós chegamos, cada um em sua respectiva casa para dormir, às 4h ou 5h da manhã do domingo para segunda e eu tinha que dar expediente na Martim às 2h da tarde. Eu sei dizer que o despertador deve ter gastado toda a corda e eu acordei às 5h da tarde.
Tomei um banho correndo, fui para a Martim Francisco e quando cheguei lá fui me apresentar para o Dr. Luizinho. Eu estava uma fera com todas aquelas loucuras que tinham sido feitas, era uma atrás da outra.
Eu cheguei para o Dr. Luizinho assim espumando de ódio (8) e disse:-- Olhe (9), vim pedir desculpas do atraso porque perdi o expediente hoje, mas queria explicar para o senhor. É uma loucura, o que foi feito em Amparo é uma loucura.
-- Não, não, não, sente-se aqui.
Dr. Luizinho com aquele jeito todo dele macio, suave, disse:
-- Não, não é que é loucura, não. O que falta é pensamento.
Aquilo para mim foi uma palavra talismãnica. Eu disse: "Ah, falta pensamento! Esse homem aqui é homem de impulso só, ele não tem pensamento nenhum".Foi ai que eu me dei conta, como num flash, de todas as reuniões que o Sr. Dr. Plinio tinha feito naquele momento para a Aureliano. Ele dizia que o pensamento humano tem duas asas: São Tomás de Aquino e Cyrano de Bergerac; e que não é possível uma ave voar com uma asa só, que é preciso ter as duas asas: que é a asa do entusiasmo bem concebido, mas também a asa do pensamento, e não sei quanto.
Eu disse: "Ah, agora está claro. Quer dizer, esse negócio da Aureliano está todo furado". Comecei a comentar com ele, Dr. Luizinho, e fui para o expediente. Expediente até 8h30.
Eu vi que Dr. Luizinho às tantas saiu da sala dele, passou pelo expediente, entrou na sala dos fundos, mas não liguei coisa com coisa. Depois chega na hora da comunhão no Coração de Maria, as únicas pessoas que iam comungar era o Sr. Dr. Plinio e eu. Saímos os dois juntos e o Sr. Dr. Plinio então ainda me confirma na fé, porque ele saiu e disse:
-- Então, tivemos uma boa conversa com o Luizinho hoje, não é? Mas é aquilo mesmo, o que falta é pensamento. Mas nós precisamos ter muita paciência, um dia Nossa Senhora vai consertar isso.
Eu disse: "Então está aqui, o Sr. Dr. Plinio é pensamento, é entusiasmo, o Sr. Dr. Plinio é o homem completo. Isto aqui está tudo furado" (10).Aí começou uma bagunça na Aureliano que demorou de setembro de 62 a março de 63, onde foi feita uma reforma completa e o Mutuca caiu fora da Aureliano. Aí a Aureliano ficou subdividida em cinco ou seis grupos e o Sr. Dr. Plinio passou a dar uma atenção mais intensa a nós. Ele chamava para conversas.
O Sr. Dr. Plinio foi crescendo cada vez mais em figura na minha mente, porque tinha acabado a figura de um elo intermediário, tinham acabado as figuras intermediárias todas, era o Sr. Dr. Plinio. O Sr. Dr. Plinio foi crescendo, crescendo.(Cfr. reunião na Saúde, 18/6/96)Comentários:
Modo igualitário de dirigir-se à autoridade.
JC fica chocado pelo fato de Dr. Plinio Xavier ter optado por preservar a coesão do Grupo em lugar de ter se posto do lado dele.
Tem qualquer coisa aí que não está de acordo com o quê? Com o egocentrismo do impostor!
Já naquela época JC propendia a dividir o Grupo, enquanto Dr. Plinio queria manter a união.
No entanto, uma das penitências mais usuais dadas por JC nos Capítulos consistia em ir dormir ao relento.
O corre-corre e empurra-empurra introduzido por JC na Saúde, Acies Ordinata, etc., vai inteiramente nessa linha.
As refeições no acampamentos do pessoal da Saúde não devem ser muito diferentes.
Uma fera, espumando de ódio: condiz perfeitamente com o estado temperamental de JC quando em outubro de 1996, pelo telefone, ameaçou de morte ao Dr. Mário Navarro.
Igualitarismo no trato.
O estilo de apostolado joanino, que hipertrofia a emotividade e atrofia o entendimento, também “está furado” .
"Jour-le-jour" 16/1/96 – JC repete uma profecia de Dr. Plinio a respeito de quando ele tiver 60 anos, isto é, os dias de hoje:
Eu vou aqui fazer uma confissão (...) Era o ano de 1965, 66. O Sr. Dr. Plinio vinha num carro de trás com o Dr. Luizinho. (...) Às tantas eu caí numa conversa com o Dr. Luizinho e o Dr. Luizinho disse:
- Sabe o que o Dr. Plinio veio lhe comentando?
- Ah é? O que é que ele disse?
Para os senhores terem idéia, era 67, 68, por aí.
- Ele disse: "Eu tenho medo de pensar o que vai ser do João quando ele tiver a minha idade, sessenta anos".
Eu perguntei por quê e ele disse:
- Veja, ele está tenso.
Sangue espanhol. Eu, portanto, tinha tensão como tinha os espanhóis, porque sou espanhol. (...)
Eu gosto de fazer as coisas rápidas. Ele uma vez me disse isso quando era jovenzinho no Grupo:
- Meu filho, você tem o mito de ser uma flecha que vara todos os obstáculos e chega ao alvo com toda a rapidez; você gosta de chegar logo às últimas conseqüências e o quanto antes.
- É totalmente isso.
É bem isso. Isso pode se manifestar tanto no defeito, como pode se manifestar na qualidade.
Agora um documento que esclarece as componendas de JC com Jezabel. Trata-se de uma conversa entre o Sr. Dr. Plínio e ele no hospital Santa Catarina, em 1975, poucos dias após o desastre. O texto abaixo foi transcrito com base na caderneta do “radical” --da qual vários eremitas tem cópia xerox-- e no "jour-le-jour" de 3/2/91.
Doutor Plínio precisava fazer um exercício respiratório e falava inconsciente:
JC: Encha bem os pulmões.
SDP: O que importa para a batalha não são os pulmões mas almas cheias. Vamos para o combate.
- Sim, mas antes o Sr. precisa estar descansado.
Eu esperava mais entusiasmo de sua parte.
- Mas eu estou contente com a hora da luta.
Não como deveria.
- Bom. O Senhor é quem discerne bem as coisas. E o Sr. me vendo com o olhar que o Sr. tem de discernimento dos espíritos o Sr. vê até o fundo de minha alma. O que é que o Sr. nota em mim?
Há qualquer coisa, na sua atitude, meio romântico.
- Mas romântico no que? O Sr. diga com toda a sinceridade. Eu quero saber o que é que se passa comigo.
Você acha que no fundo é possível uma composição com os azuis (os republicanos franceses) e eu quero estraçalhá-los.
- Mas eu sempre fui desse partido.
Eu estou isolado.
*
Ao ler isso, talvez alguém poderia “questionar” que, estando o Sr. Dr. Plinio inconsciente, suas palavras não desmerecem a JC. Ouçamos o que ensina o próprio interessado:
Conversa dele com os eremitas de São Bento e Praesto Sum ,12/2/91:
Dustan: [Após o desastre, e durante a hospitalização do SDP], näo havia alguns momentos em que havia plena lucidez?
Plena, pleníssima lucidez, era o discernimento dos espíritos. Aí era infalível. De modo que é muito difícil compreender o que é uma inconsciência nele porque a razäo näo funcionava perfeitamente bem, näo estava inteiramente adequada, mas acontece que acima da razäo havia uma graça e esta podia bater a cabeça, esmagar a cabeça, sacudir a cabeça, que estava ali. Näo acontecia nada. Quem teve a oportunidade de viver junto a ele na época do desastre pôde apalpar o que é a consciência e o que é o discernimento dos espíritos. Porque a consciência näo funcionava mas o discernimento dos espíritos, inerrante, perfeito.
(...)Se ele näo tivesse o discernimento dos espíritos o dom da profecia, (...) ele faria um comentário completamente incompreensível.
(...) no que dizia respeito à vida dele, ele näo sabia de nada; mas no que tangia à causa e no que tangia ao discernimento das almas e da opiniäo pública e da história, aí näo tem erro.
"Jour-le-jour" 23/2/97, periodo I:
É o que eu dizia para ele:
- Sr. Dr. Plinio, eu se não tivesse conhecido o Sr. Dr. Plinio estaria em três lugares, em um dos três. Ou estaria no cemitério, ou estaria no Juquiri, numa casa de loucos ou estaria na cadeia (1), porque eu sem o senhor não valho nada.
E não valho mesmo. Se os senhores me tirarem o Sr. Dr. Plinio, a união que eu tenho com o Sr. Dr. Plinio, joguem-me na lata de lixo, e depois que o lixeiro levar embora, lavem a lata de lixo (2), porque esse é o valor que eu tenho independente com a união com ele. Não valho nada.
Eu sei até que o Sr. Dr. Plinio chegou a dizer em ocasiões aqui, lá e acolá, porque eu fazia isto, fazia aquilo, fazia aquilo outro, e o Sr. Dr. Plinio para mostrar que tudo vinha da união com o espírito dele chegou a afirmar isso: “O João sem eu só faria loucuras e desatinos” (3).
E é mesmo. Por isso é que eu disse que estaria em cemitério, Juquiri ou estaria numa cadeia, porque sem o Sr. Dr. Plinio eu não me explico.
Agora, se eu não me explico sem o Sr. Dr. Plinio, como é que pode se explicar um Reino de Maria sem o Sr. Dr. Plinio? Não tem sentido (4).
(...) Desde que eu me mantenha unido ao espírito dele, eu não farei desatinos. Desde que eu me mantenha unido ao espírito dele, não farei loucuras.
Comentários:
O Coronel Poli confirma, pois esteve presente quando Dr. Plinio comentou isso.
Como explicar que os joaninos não abandonem a JC, apesar de este lhes aconselhar que o joguem na lata do lixo a partir do momento em que cesse de estar unido a Dr. Plinio?
No "jour-le-jour" 3/3/97, JC confirma:
(...) se alguém quisesse me mafiar um dia dizendo: "Sr. João Clá, o senhor sem o Sr. Dr. Plinio só faz loucura e desatino", eu diria: "Escreva aí que eu assino dez vez embaixo. É isso mesmo". Mas não vá interpretar errado. Não é sem a presença física do Sr. Dr. Plinio, porque teve muita gente que teve a presença física do Sr. Dr. Plinio e foi louco e desatinado. Pode se citar vários. O problema não é a presença física, o problema é estar unido a esse espírito. Porque se não estiver unido a esse espírito, é desatino e loucura. Para quem tem vocação é mesmo.
São Tomás de Aquino sem estar unido a São Domingos -- São Domingos tinha morrido há mais de cem anos, mas tire São Domingos da vida de São Tomás de Aquino -- só faz loucura e desatino. Por quê? Porque ele foi chamado a viver unido a um fundador.
Portanto, JC coloca a seguinte alternativa: ou ele não está unido a Dr. Plinio, e em consequência só faz loucura e destino; ou ele esta unido a Dr. Plinio e só faz coisa boa. Não há outra escapatória. O leitor encontra na espantosa crise pela qual está passando a TFP numerosos elementos para determinar a resposta.
Mais uma amostra do egocentrismo e da megalice de JC: se ele não se explica sem o SDP, “a fortiori” não se explica o Reino de Maria sem o SDP. Quer dizer, o valor de sua pessoa está acima do valor do Reino de Maria.
Depoimento do Sr. Edson Neves, setembro de 1998:
Um dos motivos da decadência dele [JC] foi de querer sempre ter na mão o dinheiro do Grupo, para controlar tudo, é o poder do dinheiro.
O próprio Sr. Átila falou outro dia para o Koury. O Geraldo Koury veio com o filho de Dr. Adolpho aqui para ver o êremo [de Elias] e aí o Koury falou para o Sr. Atila: “então como é que fica? O Sr. está do lado do J? como é sua situação?”
Aí o Sr. Atila: “não, o meu problema é diferente do problema do J, meu problema é doutrinário, o problema do João é de mando e dinheiro, eu não tenho esse problema, mando e dinheiro não é comigo”.
Entre o desejo de mandar, a avidez de dinheiro e a felonia há uma correlação, conforme se depreende do que JC disse uma reunião para moços da Saúde (7/5/96):
[S. Tomás de Aquino comenta que] o pecado de Judas não foi um pecado de ódio contra Nosso Senhor Jesus Cristo como a gente seria levado a achar. O pecado dele foi um pecado de carreirosa, ele queria dinheiro.
(...) Como Nosso Senhor começasse a falar de que ia morrer, que ia morrer, que ia ser traído etc., ele, Judas, começou a ficar preocupado, disse: "E minha carreira? O que é que vai acontecer comigo". E foi e traiu a Nosso Senhor.
Ora, na prova pela qual JC passou entre janeiro e agosto de 1995, uma das preocupações que lotavam sua cabeça era a carreira dele ...
Parecer da Sra. Margarita Schieberck, 3/10/99:
Finura de trato, diplomacia, habilidad, ”savoir faire”.
Flexibilidad de sentimiento y de espíritu.
Emotividad (ánimo propenso a la influencia).
Sentido del humor.
Carácter ondulante, escurridizo, poco o nada serio: bromas, enredos, intrigas, mentiras o adulaciones.
Inconstancia, movilidad de los propósitos y en la conducta.
Variabilidad de ánimo, contacto social defectuoso, comienza obsequioso, se toma en seguida una familiaridad que franquea las consideraciones de rango, de respeto y de cortesía elemental.
Tendencia a oponerse y llevar la contra por sistema.
Pesimismo destructivo. Se complace combatiendo echar por tierra las ilusiones y proyectos de los demás, mata las alegrías y el entusiasmo de los que lo rodean
Estrechez de conciencia y sequedad de sentimiento.
Incapacidad para sentir el dolor y la desgracia ajena.
Susceptibilidad muy viva y resentida que conduce fácilmente al rencor y a los pensamientos vengativos.
Tendencia al resentimiento.
Necesidad al exhibicionismo. Deseo de llamar la atención.
Vanidoso, Vulgaridad, Falsedad, Astucia, Hipocresía.
Ausencia de rectitud y de palabra.
Inoportuno. Fuerte auto estimación. Narcisismo, Egocéntrico.
Celoso. Tendencia a pensar mal, desconfiado.
Dentro do contexto da série de documentos acima transcritos, um episódio apresentado numerosas vezes pelo próprio JC como favorável a ele, pode comportar uma interpretação adversa a ele - Conversa com os novatos da Saúde, 9/8/94:
Eu não a conhecia [NB: se refere a Dona Lucilia] até o ano de 1956 (...). Então eu fui para a Sede da Rua Vieira de Carvalho para ajudar num serviço qualquer lá. Então eu tinha chegado no saguão, tinha a entrada do edifício, (...) depois um saguão de entrada que tem um patamar primeiro e depois uns três, quatro degraus, outro patamar e elevador, uma escada também que leva até em cima.
E como era sexto andar, sétimo andar, eu não ia a pé, ainda mais elevador naquele tempo era uma coisa completamente extraordinária, sui generis, era um... Eu apertei o botão do elevador, o elevador vinha descendo. Quando eu acabei de apertar o botão do elevador, olhei e vi o Senhor Doutor Plinio com uma senhora. Ela se apoiava no braço esquerdo dele, e andando com certa dificuldade (...) mas andando com muita distinção.
Eu então percebi que ela ia ter que subir os degraus, desci correndo, antes de ser apresentado nem nada, ela se apoiava no braço esquerdo dele, eu dei o meu direito e ela apoiada. Ela na hora aceitou mas, muito delicada, a gente vê que ela fazia mais força no -- não sei se talvez tinha mais possibilidade de se apoiar no braço do Senhor Doutor Plinio que era mais forte que o meu a perder de vistas, sobre todos os pontos de vista -- ela se apoiava mais no braço direito do que no esquerdo (1). Ela se apoiou muito suavemente aqui, e subiu, e quando terminou de subir o elevador tinha chegado.
Então eu abri a porta do elevador, o Senhor Doutor Plinio foi apoiando para que ela entrasse e assim que ela entrou, o Senhor Doutor Plinio passou também e disse:
-- Entre aqui também.
Aí eu entrei, ele tinha que me apresentar, tinha que dizer quem eu era, e também tinha que me dizer quem ela era (2). Mas eu percebi, era muito parecida com ele, eu percebi que era a mãe, e ele então disse:
-- Mamãe, esse aqui é o João, filho de espanhol com italiana.
Então ela estava olhando para o Senhor Doutor Plinio (...) E ela olhou para ele enquanto ele falava, assim com toda a calma, era um pouquinho mais baixa que ele, um pouco mais baixa do que eu, olhou para ele assim e [ele] disse:
-- Mamãe, esse aí é o João -- ela olhando para ele -- filho de espanhol com italiana.
Aí então ela virou o rosto para mim (3) com calma e franziu os olhos de quem aplicava as vistas para me ver bem, olhou bem assim, voltou para o Senhor Doutor Plinio com certa jocosidade afetuosa, com certa afetuosidade, ela olhou para ele assim e disse:
-- Ih, Plinio, mistura explosiva, não é? (4)
Comentários:
Dona Lucilia se apoiava mais no braço de Dr. Plinio do que no de JC só porque o braço de seu filho era mais forte?
“Tinha” parece significar “devia”, “precisava”. Claro, pois JC já era pessoa muito importante naquela época.
Parece que até esse momento Dona Lucilia nem olhou para o grande homem.
Realmente, mistura explosiva. E também perigosa.
Reunião na Saúde, 26/11/96:
Evidentemente que eu não nasci com o temperamento do Sr. Dr. Plinio. O Sr. Dr. Plinio tinha um temperamento muito diferente do meu e vice-versa -- diria o Conselheiro Acácio que era vice-versa--, eu tinha um temperamento diferente do dele. Meu temperamento, dado para o arrojo, para o inopinado, para o atirado, tudo pelo tudo, tem certos momentos em que morrer não morrer pouco importa. Há certos momentos em que as coisas chegam a um determinado ponto, que dizendo:
-- Olhe, se você fizer isso, você morre.
-- Pouco importa.
-- Se você fizer isso traz tal conseqüência.
-- Pouco importa.
Por quê? Porque o temperamento está todo posto... Com o Sr. Dr. Plinio não, o temperamento equilibrado, que é o melhor de todos os temperamentos, que é o temperamento fleumático, que calcula, que planeja muito bem, etc.
Isso posto, perguntamos se o seguintes comentários de Dr. Plinio não se aplicam a JC como luva na mão - Chá para os êremos São Bento e Praesto Sum, 21/1/85:
Na linha do orgulho, o homem se preocupa extraordinariamente com os outros e quer receber dos outros afeto (1), mas muito mais do que afeto admiração, e como prova de admiração submissão. Este desejo, esse gosto de submissão, desejo do mando, leva o homem a correr afanosamente, trabalhosamente como um louco atrás de toda espécie de bens na ponta dos quais ele julga que encontra uma preeminência sobre os outros.
(...) para ir para cima [ele precisa] aprender a bleffar, e bleffar é o modo de satisfazer o orgulho do vaidoso. (...)
O indivíduo frequenta uma determinada roda e nessa roda ele percebe que se ele fizer certas coisas ou dizer certas coisas, ele sobressai e se faz admirar pelos outros, e ele então forma o propósito de apreender a dizer essas coisas, aprender a fazer essas coisas, fingindo, tapeando e pega o que há de mais fácil para tapear e tapeia ali, de maneira que com pouco esforço ele se impõe ao conceito de alguns outros. Quando ele se impõe ao conceito, ele faz o papel do pavão da roda no meio dos outros, mostra aquilo (2), os outros o admiram e naquilo ele se delicia, porque o vaidoso, o homem com amor próprio se regala com a menor manifestação de admiração que ele possa conseguir. (...)
Pelo contrário, qualquer censurazinha ... [ele] estranha. (...) Ele fica ultra sensível a tudo quanto disserem a respeito dele e ele se regala com qualquer gotazinha de admiração que à ponta de algumas tapeações ele conseguiu despertar.
Para ele é totalmente indiferente que a admiração seja merecida ou não seja, ele quer sorver a admiração. Ainda que a admiração seja fruto da mentira dele, pouco incomoda, ele se fez admirar, isso que ele quer.
Ele [vive] na perpétua inquietação que percebam a tapeação dele e por isso não há coisa que inquiete mais esse homem, que o aborreça mais, do que ele olhar que ele está sendo observado e que alguém está entendendo qual é a palavra cáustica que pode dizer que o derruba completamente. Aquele é o inimigo (3).
(...) como o indivíduo começa a dar muita importância a qualquer forma de admiração, acontece que ele se contenta com as admirações mais de “lo último” (4), e todo o sentido de desenvolver-se e de se afinar segundo os mais altos padrões por amor de Deus desaparece. Desde que ele numa capieira (?) qualquer tenha obtido aplausos, ele está contente. E por causa disso ele começa a crescer para baixo em vez de crescer para cima.
(...) ele que ele é uma torre aos olhos dos outros, mas é uma torre de mentira e de zero. Aí nos leva o amor próprio.
(...) dentro de muito pouco tempo ele deixa de ser flexível nas mãos de seu superior, e em vez de ser uma bengala sobre a qual o superior se apoia, é um tronco de árvore que o superior carrega nas costas (5). Ele é um trambolho. Acaba sendo que o superior, para não fazer mal à alma dele, quase não sabe por onde pegá-lo, porque tudo machuca, tudo melindra, porque ele queria uma coisa, que era dispor de si mesmo, ele queria brilhar aos olhos dos outros, e se o superior não lhe dá isso ele se revolta contra o superior, e o superior, à espera da hora da Providência, passa pelo quebra-cabeça de imaginar o que ele queria, para mandá-lo fazer o que ele queria. Ele não tem vergonha quando ele se ajoelha para receber essa ordem e diz que está de acordo para fazer, mas ele mesmo sabe que ele impôs ao superior a ordem que ele está recebendo. (...) ele nota que é um trambolho, ele é uma cruz de seus superiores. (...) ele é um crucificador (6).
(...) ele só recebe a graça de Deus se ele fizer alguma coisa sem amor próprio. Se ele fizer com amor próprio, Deus não aceita, porque Deus só aceita o que é feito por amor a Ele. E portanto todo o apostolado dele ele sabe que não é fecundo, que é palha e aparência. (...) Ele sabe portanto que ele pode ter feito uma obra colossal por amor próprio, vai ver o que essa obra converte, não converte ninguém. Ele obteve esmolas, mas ele roubou essas esmolas, porque ele as transformou no pedestal de um colégio para fazer figura, para fazer farol e ninguém nesse colégio se converte. É a maldição do amor próprio.
Ele é mestre de noviços: os seus noviços saem frios como blocos de gelo. Ele é o culpado. Por toda parte espalha a morte e a divisão. Por que? Por causa do amor próprio.
Quando ele morre ele olha para a vida dele: qual foi a vida dele? Pelo menos um palhaço. Não era melhor para ele ter ficado no mundo do que levar essa má semente para dentro do campo de Deus? Tomem um homem que é um advogado, engenheiro, médico, leva uma vida comum, esses senhores e essas senhoras que moram aí nessas casas: eles perdem muito menos almas do que um sujeito que forma um colégio para apostolado mas mete esse fermento de amor próprio no modo dele ensinar, deforma os outros professores e faz com que o colégio seja estéril, e os pais mandam os alunos lá para serem católicos e saem pagãos. Ele dirige esse colégio durante 30 anos, eu pergunto que mal ele fez. Ele foi inimigo da Igreja, com os trajes da Igreja, com as aparências da Igreja, ele durante 30 anos apunhalou. Isso se chama amor próprio.
Como pode isso acontecer conosco? Por pequenas concessões. O indivíduo conta uma piada, todo mundo dá risada, ele começa a inventar uma outra piada, lembrar as piadas que ouviu, etc., para contar. Se ele tem a infelicidade de ser engraçado é pior ainda: ele começa a contar coisas. Forma uma roda. Por toda parte onde ele está tem gente que quer estar com ele.
Simplesmente isso ele nota e mais nada: ele estufa como um peru e já não sabe viver a não ser vendo como todo mundo procura por ele. Está acabado. Esse homem ou se converte e muda completamente de defeito ou para onde ele chega é esse ponto final. (...)
(...) se julgam uns heróis imbuídos de não sei que espécie de esplendor, por onde são umas personalidades superiores, então se julgam que são homens brilhantes e que tem tais e tais qualidades, despertam admiração entre si, realizam um tipo de personagem wagneriano, de uma coisa assim que é formidável. Então tomam modos afetados de falar, modos afetados de dizer: “ah, não sei o que”. (...)
No que isso dá? Dá em primeiro lugar o indivíduo fica reumático para a obediência, move-se numa direção e não na outra, eu já falei disso. Em segundo lugar, começam a aparecer as briguinhas. Briguinha --sobretudo quem leva a vida que os senhores tem-- é sintoma infalível de amor próprio. Ninguém faz briguinha por amor de Deus. (...) O homem que não tem amor próprio cede quando ele não tem razão, quando ele tem razão, e deixa o outro que faça o que quiser, que pense o que entender. (...)
Também aparece uma espécie de zelo pela almas dos outros: “aquele sujeito fez tal coisa, eu preciso castigá-lo, para corrigir tal defeito dele”. O defeito dele é um defeito que me incomoda a mim e por causa disso que eu estou fazendo esse apostolado. (...)
Comentários:
Ou “benquerença”, para usar uma palavra muito do gosto de JC.
Nas reuniões e conversas, JC gosta de falar de suas “proezas”, relata as “graças” que recebeu, exibe seus “carismas”, lembra que ele em tal ocasião teve tal sucesso, etc.
Aqui está a explicação de por que o carismático JC tem animadversão pelos que dentro do Grupo se dedicam a estudos. Aliás, nas memórias que ditou a Yves de Pontfarcy, Dr. Plinio ensina o seguinte:
Os misticismos não podem viver num clima de análise. Se se cria um clima de análise em torno de um profeta, a gente o mata. O falso profeta, bem entendido. Pois se o faz sentar e se se pede seus argumentos, ele se desmoraliza.
Daí o “apostolado” feminino.
Segundo JC, Dr. Plinio teria dito que ele era o bastão de sua velhice.
Uma amostra do amor próprio de JC, de sua hiper-sensibilidade e da cruz que Dr. Plinio tinha que carregar por causa dele, é fornecida no seguinte depoimento de Dr. Eduardo:
Certa vez o Sr. Dr. Plínio disse que aquele lixo que estava acumulado no pátio, no fundo [do Praesto Sum], era propício para a presença de demônios. Ao sugerirmos que precisava limpar ele proibiu. “Só quando JC voltar”. Ou seja, era tal a susceptibilidade que o próprio Sr. Dr. Plínio não podia mandar limpar aquilo que era fonte de demônios para o auditório (cfr.Reunião nos Buissonnets, 21/9/99).